45 anos de Star Trek

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No dia 8 de setembro de 1966, ia ao ar na NBC, na televisão norte-americana, o episódio O Sal da Terra (The Man Trap), estreia da série Jornada nas Estrelas (Star Trek), que se tornaria uma das mais longevas franquias de ficção científica, indo audaciosamente a seguidas séries e temporadas de TV, filmes, livros, quadrinhos e tanta parafernália de merchandising (brinquedos, roupas e acessórios úteis ou inúteis) a que talvez só Guerra nas Estrelas (Star Wars) se equipare ou, quiçá, supere.

A premissa da série idealizada por Gene Roddenberry era levar a um futuro utópico histórias de aventura, suspense e drama, tudo em torno de uma elaborada e inteligente ficção científica, o que se traduz em “explorar novos mundos estranhos, procurar novas formas de vida e novas civilizações”. Inicialmente, tal premissa foi desenvolvida através de três temporadas mais ou menos bem-sucedidas. Personagens marcantes como Capitão James T. Kirk, Sr. Spock e Dr. Leonard McCoy encenariam enredos repletos de surpresas e reviravoltas.

O Sal da Terra (The Man Trap)

O antagonista do primeiro episódio de Star Trek, “O Sal da Terra” (The Man Trap)

Digo “mais ou menos bem-sucedidas” porque o fiel público que admirava Jornada nas Estrelas só foi descoberto anos depois da série ter sido cancelada. Esse público ajudou a motivar os produtores a ressucitar as aventuras da tripulação da Enterprise numa sequência de longas-metragens (hoje, são ao todo 11 filmes) e depois numa série chamada Jornada nas Estrelas: A Nova Geração (Star Trek: The Next Generation). Outras três séries se seguiram, Deep Space Nine, Voyager e Enterprise, com novos personagens e com um complexo desenvolvimento desse universo ficcional.

Jornada nas Estrelas se tornou um objeto de adoração de uma multidão de fãs ao redor do mundo. As raças exóticas, os personagens pitorescos com seus bordões, os gadgets de uma tecnologia que facilitaria a vida de muita gente… muita gente se encantou, algumas vezes de modo exagerado (como acontece com qualquer produto da cultura), e tentou trazer a estética de Jornada nas Estrelas para suas vidas, seja com roupas ou com adornos para o ambiente doméstico se parecer com o cenário futurista dos séculos XIII e XIV.

Uhura e Kirk

Primeiro beijo “inter-racial” da televisão norte-americana

Por outro lado, os vislumbres de um futuro em que o progresso científico traria grandes avanços e desafios para a humanidade inspirou muitos jovens a se dedicar à Ciência, levando uma safra sonhadora a ingressar na NASA ou seguir carreiras acadêmicas nas Ciências Exatas, Naturais ou Humanas.

Para além dessas influências pessoais, Jornada nas Estrelas construiu um arcabouço de histórias muito variadas, tanto nos temas e nas narrativas quanto nas abordagens filosóficas, éticas, morais, políticas e sociais. Às vezes trazendo uma visão libertária a respeito da alteridade, outras vezes “sem querer” enaltecendo valores específicos da cultura norte-americana, Jornada formou um repertório impregnado de novas ideias e questionamentos para a humanidade.

Jornada nas Estrelas, enfim, representou um marco na história da televisão, colocando personagens de diversas etnias e nacionalidades juntos na mesma ponte de comando, contrariando os sentimentos antissoviéticos da época, bem como a beligerância dos EUA na Guerra do Vietnã.

Além disso, ousou colocar uma mulher negra em posição de destaque na tripulação, cuja permanência na série só foi possível pela intervenção de Martin Luther King, que entendia que Nichelle Nichols era uma inspiração para as jovens e os jovens negros oprimidos pelo racismo. Sua personagem, Uhura, também encenou um dos mais importantes beijos da TV norte-americana, o primeiro a envolver um homem branco e uma mulher negra, rompendo simbolicamente com o apartheid racial do país. Um singelo gesto que resume o significado dessa série que continua indo aonde ninguém jamais esteve.

Homossexualidade em Star Trek

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O atual cenário político brasileiro tem demonstrado quão difícil ainda é superar a homofobia e as restrições aos direitos dos homossexuais, fato analisado, por exemplo, por Alípio de Sousa Filho em 2 artigos recentes (aqui e aqui). Grandes avanços já foram feitos, em grande parte do Ocidente, no alcance de direitos das mulheres e na superação do racismo e do segregacionismo étnico.

Mas parece que, quando se trata da busca por direitos iguais por parte de pessoas que não se enquadram na sexualidade convencionada, ainda há muita resistência. As graduais e lentas mudanças no status quo da sexualidade podem ser vistas em alguns episódios de Jornada nas Estrelas, na série clássica, em A Nova Geração e em Deep Space Nine, e percebemos que, numa série de televisão que foi tão revolucionária em sua concepção, é extremamente difícil abordar esse tema.

Jornada nas Estrelas (Star Trek) representa em sua concepção inicial um grande avanço na mídia televisiva norte-americana. A tripulação da Enterprise era composta por pessoas de diversas partes da Terra, até mesmo um russo, em plena Guerra Fria no mundo real, e um oriental, em plena Guerra do Vietnã. Gene Roddenberry, idealizador da série, imaginou um futuro utópico em que a humanidade superaria suas diferenças e se integraria numa só sociedade. Ela conviveria até mesmo com espécies alienígenas, como os vulcanos, cujo maior exemplo é o Sr. Spock, segundo em comando da nave estelar Enterprise.

A tripulação que se consolidou na série original de Star Trek era composta de várias nacionalidades: além dos norte-americanos, havia um escocês, um russo, uma africana, um extremo-oriental e um extraterrestre

Um dos pontos interessantes e que mais chamaram atenção na série original foi a veiculação do primeiro beijo “inter-racial” da história da televisão norte-americana, entre o branco capitão Kirk e a negra tenente Uhura, no episódio Os Herdeiros de Platão (Plato’s Stepchildren, 10º episódio da 3ª temporada da Série Original). A cena foi controversa, tanto que o diretor, David Alexander, se recusou a fazê-la. Nichelle Nichols, que interpretava Uhura, conta num documentário que os atores tiveram que ludibriar Alexander para ter a cena realizada. Isso num país e numa época em que a segregação racial era uma instituição forte. Enfim, a cena, reproduzida abaixo, representou um avanço, embora os personagens a se beijar o tenham feito por coação.

A questão racial parece ter ficado resolvida em toda a continuidade de Jornada nas Estrelas, especialmente na série A Nova Geração. Porém, quase nada se aborda quanto à homossexualidade, mesmo que o andar da história moderna aponte para um futuro em que a opção ou orientação sexual será irrelevante na valorização dos indivíduos e, portanto, ninguém precisará esconder com quem está se relacionando afetiva e sexualmente.

Mas nem na série original nem em A Nova Geração vemos sequer um casal homossexual. A primeira vez em que isso poderia ter ocorrido é no episódio O Hospedeiro (The Host, 23º da 4ª temporada de A Nova Geração), quando a Dra. Beverly Crusher se apaixona pelo trill Odan, cujo corpo humanoide é hospedeiro de um simbionte em seu ventre, verdadeira fonte de sua personalidade e consciência. Ao ser forçado a mudar de corpo, assumindo a fisionomia do comandante Riker, Crusher tem dificuldade de manter o relacionamento, pois Riker é seu amigo, mas ela acaba por ceder a seus sentimentos. No entanto, quando um novo hospedeiro trill é trazido, Crusher se surpreende com o fato de esse ser uma mulher, e não consegue conceber a continuidade do relacionamento.

O vídeo abaixo é o trecho final do episódio, em que Odan, na forma de sua nova hospedeira, pergunta a Crusher se esta quer continuar o caso, ao que ela responde negativamente.

Embora a Dra. Crusher alegue, no final do episódio, que não quer continuar com o relacionamento porque não suportaria viver com alguém que muda de aparência imprevisivelmente, é muito claro que ela demonstrou decepção ao constatar que a próxima hospedeira de Odan seria uma mulher, surpresa que se espera por parte dos próprios telespectadores. Ela não poderia viver o sincero amor que sentia com alguém do mesmo sexo que ela.

A controvérsia entre os fãs da série foi tamanha que muitos deles, homossexuais ou simpatizantes, enviaram cartas perguntando quando Jornada nas Estrelas, apresentando um futuro utópico, iria assumir uma posição favorável às possibilidades de sexualidade não-convencionada.

Talvez tenha sido uma resposta (tímida) a isso o episódio O Excluído (The Outcast, 17º episódio da 5ª temporada de A Nova Geração), no qual o comandante Riker se apaixona por um indivíduo da espécie andrógina  j’naii. Soren não se identifica com a identidade andrógina, sentindo-se uma fêmea com desejos sexuais por machos. No entanto, a sociedade j’naii proíbe a escolha por um gênero, e obriga Soren a passar por uma lavagem cerebral para assumir a identidade hermafrodita.

Essas história foi uma forma metafórica de abordar a homofobia, mas muitos fãs não ficaram satisfeitos. De fato, não há sequer uma menção ao paralelo entre a fobia dos j’naii e a homofobia humana. Porém, vendo o que até agora já havia sido feito, esse episódio pode ser considerado um avanço na abordagem do tema. O seguinte trecho é o julgamento pelo qual Soren passa e no qual ela faz um discurso que ecoa as reivindicações do movimento LGBT.

2 anos depois desse episódio, na série Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine (DS9), apareceria no episódio Espelho, Espelho Meu (Crossover, 23º episódio da 2ª temporada)  uma personagem bissexual: uma versão corrupta da major Kira Nerys, num universo paralelo. Ainda sem conseguir admitir que um dos protagonistas, um dos “mocinhos”, pudesse ter uma sexualidade diferente da convencionada, os produtores criaram uma antagonista que não era estritamente heterossexual. Mas ao menos apareceu, depois de 29 anos da franquia, algo diferente do que costumávamos ver.

Mais de um ano se passaria até o próximo avanço. Foi no episódio Reassociação (Rejoined, 6º episódio da 4ª temporada de DS9), em que se retomaria a raça trill para encenar uma relação homossexual. Como a personalidade do simbionte se mantém independente do hospedeiro, e como cada simbionte muda diversas vezes de hospedeiro durante sua existência, vivendo assim centenas de anos, é possível que duas pessoas que se conheceram portando determinados corpos venham a se reencontrar com aparências diferentes.

É o que acontece com Jadzia Dax, portadora do simbionte Dax, e Lenara Kahn, que hospeda o simbionete Kahn. Um dos antigos hospedeiros de Dax era casado com uma hospedeira anterior de Kahn. O amor que sentiam ainda está vivo, de modo que Jadzia e Lenara sentem o desejo de permanecer juntas, contra uma tradição trill que proíbe a retomada de um relacionamento afetivo depois que os hospedeiros mudam.

É interessante ver determinado momento do episódio, não reproduzido acima, em que o dr. Bashir explica à major Kira que o relacionamento entre Jadzia Dax e Lenara Kahn é proibido pela sociedade trill. Tem-se a impressão inicial de que os trill são homofóbicos, mas Bashir logo elucida que a proibição é de que dois trills retomem um relacionamento passado, o que tem como punição o exílio.

Também é notável que, quando Dax pede ao capitão Sisko um conselho sobre se ela deve ou não retomar o relacionamento com Kahn, ele se refira apenas ao problema de ela vir a ser exilada, e não se oponha ao caso por causa do sexo das duas amantes, mas sim porque sua amiga sofreria com a execração.

Entretanto, as personagens envolvidas não encenam exatamente um caso homossexual como entendemos. Seu relacionamento ocorre não porque elas se sintam atraídas por pessoas do mesmo sexo, mas porque se amam. De certa forma, é uma maneira até mais libertária de encarar a sexualidade, como algo que ocorre por amor, independente do sexo da pessoa amada. Porém, a história, sendo um passo ousado devido à cena de beijo homossexual, ainda é tímida porque trata esse tipo de relacionamento como algo particular a uma espécie alienígena, no caso os trills, não aparecendo ainda nenhum personagem humano abertamente gay ou lésbica.

Apesar de o idelizador de Jornada nas Estrelas, Gene Roddenberry, já ter expressado o desejo de colocar personagens homossexuais na franquia; embora já tenham aparecido vários roteiros que abordam a homossexualidade, que por decisão dos estúdios não foram concretizados; e mesmo que vários atores que já participaram das séries, como Jonathan Frakes e Kate Mulgrew, tenham deixado clara sua posição favorável à aparição de gays e/ou lésbicas nos episódios, o tema ainda é tabu na televisão norte-americana e talvez ainda precisemos de muito tempo para superar a homofobia e a dificuldade de conceber um futuro em que a opção, a orientação e a identidade sexuais sejam insignificantes no reconhecimento dos indivíduos.

De qualquer forma, sempre podemos imaginar que certas relações de amizade muito próximas tinham alguma coisa de homoafetividade…

Vida longa e próspera

Lições do Sr. Spock

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Para I. M.

Como disse no post anterior [na verdade, no texto Star Wars vs. Star Trek], comecei há alguns dias a ver a série clássica de Jornada nas Estrelas. Como é comum entre os trekkers, elegi, por várias razões, o Sr. Spock como personagem favorito. Não costumo fazer esse tipo de escolha, mas às vezes aparecem tipos que me chamam muita atenção.

Spock me pareceu interessante por ser um alienígena trabalhando com humanos, ou seja, por ser um “estranho no ninho”. Mas ele é mais complexo ainda, porque não é completamente vulcano como seu pai, mas tem características humanas (mesmo que sejam muito sutis e só apareçam esporadicamente), que herdou de sua mãe terráquea. Ou seja, ele é um híbrido, o melhor meio de se estabelecer uma relação entre dois povos.

Essa característica o torna inspirador para mim, que desde cedo nesta vida sofri de síndrome do estrangeiro. Há algum tempo venho me esforçando para encontrar meios de melhor me adaptar aos ambientes em que vivo. E sei que tenho coisas importantes a trazer para este mundo, assim como este mundo tem muito a oferecer para minha evolução.

Outro asoecto, o mais óbvio, de Spock que me inspira é sua forma de pensar e resolver situações. Ele sempre enxerga as circunstâncias de forma lógica e tem uma disciplina mental extremamente sofisticada para não demonstrar ou não sentir emoções. É interessante ver cenas da série em que, diante de situações críticas, que afetam sua própria integridade, ele se mostra imperturbável. Em um dado episódio, acometido por um parasita que o faz sentir dor, ele consegue controlar sua mente, pois alega que a dor é um estado mental, para diminuir essa dor ou para não ser afetado por ela.

Spock é o extremo oposto das pessoas que pautam suas ações pelas emoções e que vivem com o objetivo de senti-las, o que considero estagnante evolutivamente. Mas, apesar de admirar uma personalidade como a de Spock, ela também não é a ideal, pois dificulta a empatia, o que é essencial quando se quer ajudar alguém com angústia. Já passei por momentos em que, por não procurar entender o que o outro sente, tomei atitudes que o atrapalharam ao invés de ajudarem. Mas também passei por momentos em que a dificuldade de disciplinar um desejo prejudicou a mim e a pessoas próximas a mim.

Da mesma forma que a relação entre Spock e Jim Kirk (melhor amigo de Spock e representante da emotividade que falta a este) é essencial para que os problemas da nave espacial Enterprise sejam resolvidos de forma equilibrada, a ponderação entre razão e emoção deve ser levada a sério por cada indivíduo. Penso que os sentimentos são importantes, pois o prazer da convivência, seja com pessoas próximas, seja com a humanidade ou seres de outros mundos (outras dimensões e planetas), nos move a ser úteis e a nos beneficiar do que há de bom no universo. Porém, as emoções surgem de forma espontânea, sendo muitas vezes resultado de nossa biologia, das influências do meio e de nossa história pessoal. Por não serem deliberadas, não devemos ter culpa de as sentir ou acusar alguém por agir de forma impensada.

Por isso, considero que a razão deve gerenciar essa relação entre um lado e outro do cérebro, sempre controlando a mente de forma refletida, considerando quais sentimentos devem ou podem ser cultivados e quais emoções devem ser disciplinadas ou extirpadas, para que se concretize o ideal cosmoético “que acontaça o melhor para todos”. É sempre importante estabelecer mentalmente o que é descartável e o que não é, o que é racionalmente melhor e o que devemos abandonar, e agir de forma coerente, sempre combinando atitude mental (cabeça, águia), atitude psíquica (coração, leão) e atitude física (baixo-ventre, boi). Tudo o que fazemos, mesmo um pensamento, repercute ao redor de nós. Temos uma grande responsabilidade pelas descargas elétricas de nossos neuônios.

Esta manhã tive um insight sobre esse problema, e percebi mais claramente quais são alguns dos esforços que tenho que fazer para disciplinar minha mente e não deixar que as emoções me controlem nem que a razão me torne frio demais (o que já aconteceu algumas vezes e foi tão problemático quanto ser arrebatado violentamente por uma emoção). Mais concentração, organização e execução prática de prioridades, bem como exercícios rotineiros de estado vibracional (sobre o EV, links aqui, aqui, aqui e aqui) e ampliação da consciência. Num exercício destes, apareceu-me a imagem mental de um instrumento sendo alocado na parte esquerda de minha cabeça, possivelmente representando uma melhoria (ou indicando que devo fazer mais esforços mentais) para minhas faculdades racionais em detrimento das emocionais.

Talvez, inspirado em algumas atitudes íntimas do Sr. Spock e dando mais atenção a (e cultivando) uma postura já latente em mim, eu possa aproveitar melhor meu relacionamento com outras pessoas e, sendo mais coerente comigo mesmo, ser mais assistencial a elas.

[Publicado originalmente em 16 de dezembro de 2008.]

Star Wars vs. Star Trek

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[Há uma versão mais recente e completa deste texto neste link]

No seriado Os Universitários (Undergrads), a que eu assistia no [adult swim], a faculdade técnica era habitada por nerds e geeks. Entre eles, havia uma certa rivalidade entre os fãs de Guerra nas Estrelas (Star Wars) e os fãs de Jornada nas Estrelas (Star Trek), também conhecidos como trekkers.

Eu não conhecia quase nada sobre Jornada nas Estrelas há até certo tempo, tendo apenas visto uns dois episódios de Enterprise e apenas um dos filmes. Porém, sabia quase tudo sobre Guerra nas Estrelas (ao menos tudo o que não incluísse o Universo Expandido), tendo visto todos os 6 filmes mais de uma vez cada.

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A outra primeira jornada

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Star Trek, dirigido por J. J. Abrams, estreou dia 8 de maio de 2009. Vi o filme com amigos no dia 9. Éramos um grupo heterogêneo em termos de sua relação com Jornada nas Estrelas. Alguns não sabiam quase nada sobre a série. Um casal só conhecia os 10 filmes anteriores. Alguns já tinham assistido muitos episódios de uma ou outras séries da franquia. Eu, por exemplo, só conheço (toda) a série clássica e o primeiro filme, Jornada nas Estrelas: o Filme.

Mas todos curtiram muito a obra. De fato, como disse Alottoni, no site Jovem Nerd, não é preciso ter assistido nada de Jornada para apreciar o filme. Este serve, inclusive, como introdução a quem quer começar a se inteirar desse intrigante universo de ficção científica. E, para quem já conhece, há muitas referências à série antiga, abordadas de forma bem humorada e coerente.

Aviso: Spoilers!

A história é uma revisita às origens dos protagonistas da Enterprise, especialmente o humano James T. Kirk e o mestiço vulcano/humano Spock. Alguns aspectos de suas personalidades aparecem em estágio de formação, na infância e no início da fase adulta. Entendemos, por exemplo, que a impusividade de Kirk e sua tendência a quebrar os protocolos existem desde que ele era menino e seu caráter mulherengo na série original aparece em cenas da Academia da Frota Estelar. De Spock, por sua vez, são enfatizados seus conflitos advindos de sua ascendência mestiça, pai vulcano e mãe humana. Mas sobre Spock me deterei mais adiante.

Entretanto, a história se passa numa realidade alternativa àquela da série original. Os eventos começam a mudar no momento em que uma nave romulana volta ao passado e ataca uma nave da Frota Estelar, cujo segundo em comando é o pai de James T. Kirk. Este está prestes a nascer, enquanto George Kirk, que assumiu o comando da U.S.S. Kelvin, enfrenta a morte e a destruição da nave.

A espaçonave romulana fará um novo salto no tempo, para o futuro, para destruir o planeta Vulcano, na época em que a equipe que fará parte da famigerada tripulação da Enterprise está se formando na Academia. Então encontramos Uhura, a futura oficial de comunicações da Enterprise, sendo flertada por Kirk, que não consegue descobrir seu primeiro nome (na série, nunca sabemos o primeiro nome de Uhura). Eventualmente, devido às circunstâncias alternatias da trama, as tentativas frustradas de Uhura de flertar com Spock na série original se tornam um romance entre os dois, e finalmente descobrimos o nome dela!

Também vemos o sarcasmo de Leonard McCoy e sua criatividade para resolver situações utilizando sua autoridade e conhecimentos médicos. Sulu aparece mostrando suas habilidades em artes marciais e no uso de armas brancas. Chekov, com 17 anos de idade (que na série só passaria a fazer parte da Enterprise aos 22 anos), se atrapalha com seu sotaque russo, trocando o v pelo u, e se mostrando um menino prodígio (o que, na série, faria Kirk lhe dizer que Spock estava formando um bom discípulo).

Scott tem a mesma personalidade e repete, como sempre, as hilárias cenas em que faz o possível e o quase impossível na sala de máquinas da nave para que a Enterprise viaje em velocidade de dobra da forma mais eficiente. Como a equipe iniciou suas atividades de forma precipitada em relação à realidade “normal” do universo de Jornada, eles ainda vão sob o comando do capitão Christopher Pike, que na série original precedeu Kirk.

Sobre Spock

Certamente o personagem que teve o destino mais radicalmente transformado foi Spock. Enquanto Kirk, Uhura, McCoy, Scott, Sulu e companhia entraram mais ou menos nos eixos da realidade original de Star Trek, Spock foi atingido em cheio por acontecimentos que podem vir a originar um personagem bem diverso daquele da televisão da década de 60.

O evento-chave das mudanças de destino que ocasionaram o Spock alternativo foi a destruição do seu planeta-natal, Vulcano. A perda do próprio mundo de origem e de uma enorme parte dos da raça de seu pai o fizeram afirmar que só lhe restou a Terra, planeta-natal de sua mãe. Por isso (além, é claro, de seu dever para com um planeta da Federação) ele vai dar tudo de si, inclusive de seu lado humano, para evitar que a Terra seja destruída pelos romulanos.

Spock em três fases da vida

Porém, um outro acontecimento fará com que sua personalidade seja vincada para sempre: a morte de sua mãe quando tentou salvar sua família do holocausto de Vulcano. No último instante em que o grupo de vulcanos era teletransportado para a Enterprise, Spock ainda tentou segurar a mão de sua mãe, que caiu numa avalanche. Seria inevitável, aí, que ele tivesse que lidar com um sentimento de culpa que talvez nunca tenha encarado antes nem depois em sua vida.

Originalmente, Spock assumia uma identidade vulcana e reprimia suas emoções com toda a força de sua lógica. Seu lado humano aparecia de vez em quando e era importante para resolver certos problemas e para dar um tom cômico às histórias. Mas não marcava significativamente sua personalidade.

Após os eventos da história deste novo filme, Spock será muito mais humanos do que antes, e talvez consiga um equilíbrio maior entre as duas partes que compõem sua ascendência. Ao se encontrar com sua própria versão mais velha do futuro alternativo, ele ouve do Spock velho que as emoções serão muito importantes em sua vida, e que ele deverá evitar desde cedo reprimir seu lado humano, pois este lhe poderá ser muito útil (muito mais do que o que, em outra realidade, ele poderia admitir).

Até seu pai, que na primeira realidade disse certa vez que a o casamento com a mãe de Spock se fizera por uma razão lógica, admitiu, sob as circunstâncias fatídicas, que se casara com Amanda (que significa “digna de ser amada”) por que a amava. Isso atinge Spock de maneira muito contundente, pois seu pai deveria ser para ele o modelo vulcano de lógica e racionalidade. De certa forma, a ausência da mãe humana talvez tenha obrigado  Sarek a assumir as emoções que Amanda demonstraria a Spock.

“Steady as she goes”

A meu ver, pode-se dizer que o tema central do filme é o destino. Cada membro da equipe da nave estelar Enterprise tinha um papel a cumprir numa tarefa maior, e cada um deles sentia dentro de si a urgência de se enveredar por um determinado caminho.

Independentemente dos acontecimentos que levaram a uma realidade alternativa, todos os principais componentes do grupo acabaram assumindo os mesmos papéis. Uhura se tornou oficial de comunicações, Sulu permaneceu sendo o timoneiro, McCoy assumiu a chefia da ala médica e Scott o setor de engenharia da nave.

Scott, McCoy, Chekov, Chapel, Kirk, Uhura, Spock, Sulu

Mesmo aqueles cujas vidas foram mais diretamente afetadas se ajustaram aos eixos de suas programações existenciais. Kirk, por exemplo, apesar da morte do pai e de ter se metido numa grande confusão que quase o impediu de se tornar capitão da Enterprise, terminou no comando da nave. Até Spock, com todas as circunstâncias expostas acima, manteve-se como segundo em comando e como chefe de ciências.Tudo voltando ao normal, como no final de qualquer episódio de Jornada nas Estrelas, após cujos eventos críticos a Enterprise retorna à sua rota original e a normalidade se mantém até o episódio seguinte. Steady as she goes.

O final do filme remete de forma interessante à fórmula original da série clássica. A última cena de Star Trek, assim, mostra a tripulação da Enterprise seguindo seu rumo na missão de “explorar estranhos novos mundos, procurar novas formas de vida e novas civilizações, audaciosamente indo aonde ninguém jamais foi”, o mesmo texto da abertura original, narrado aí por Leonard Nimoy, a voz do Spock ancião. E então os créditos são acompanhados pela saudosa música tema de Jornada nas Estrelas, anunciando a possibilidade da vinda de um novo filme, que talvez responda às questões deixadas em aberto neste texto.