Veneno do Diabo

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Havia um homem cuja origem todos desconheciam. O que todos sabiam é que usava roupas pretas e tinha um sorriso contagioso. Seu modo de andar saltitando e dançando também o fazia muito carismático para com as crianças. Diz-se que os padres não se davam muito bem com ele. Na verdade, os sacerdotes não gostavam da figura de botas altas, colete, camisa e cabelos longos pretos ao redor de um rosto pálido e vívido, olhos escuros e cheios de uma luz maliciosa. Quanto a ele, apenas sorria para os padres quando passava por eles.

Pois bem, uma clara manhã ele apareceu numa cidade cujo nome se apagaria de sua memória, mas cujos habitantes ainda se lembram de sua passagem por lá. Um fato curioso é que nenhum adulto nota sua presença a não ser quando ele deixa a cidade por onde passa. Mas as crianças e algumas pessoas grandes com coração sensível o percebem.

Sabe-se também que coisas estranhas acontecem nos lugares que recebem sua visita, e ninguém pode fazer nada a não ser arcar com as loucuras que ele deixa como rastro. Outro problema é que as pessoas só sabem quem é o culpado depois que o estranho deixa o lugar. E não foi diferente na cidadezinha sobre a qual vos conto.

— Lá vem ele! — gritou uma das crianças espalhadas pela rua, e todas correram para se divertir com o homem esquisito, alto e elegante, que andava de modo divertido.

— Seus olhos brilham!

— Ele anda dançando!

— Ele ri engraçado!

— Qual é o nome dele?

— Truão, truão!

— Ele conta histórias?

— Chamai-me de Truão, se quiserdes. Todas as histórias do mundo eu conheço e posso contar
até cansar vossos ouvidos.

E sentou-se numa caixa que uma menininha lhe trouxera, para contar-lhes os mais fantásticos e maravilhosos contos, tão cheios de coisas que seus pais considerariam feias e imorais que, quando se difundiam, eram chamados “contos de sátiros”, para diferenciar dos contos de fadas. (Aliás, tais contos eram das coisas que transformavam a vida da população sobre quem ele deixava seu legado.)

Ao meio-dia, as crianças se dispersaram para o almoço, já tão fatigadas e extasiadas pela infatigável voz de Truão que voltaram às suas casas cambaleando. Foi nesse momento que ele notou um infante acocorado num canto da rua, com a cabeça escondida entre os braços.

— Que tens tu? — sussurrou-lhe ao ouvido, enquanto punha a mão sobre a cabeça do cabisbaixo menino. Ao levantar a cabeça, este mostrou os olhos repletos de lágrimas.

— Eu odeio minha mãe e meu pai!

— Ora, calma — disse-lhe com voz tranqüilizante. — Explica-me melhor isso. Por que odeias tua mãe?

— Por que ela me deixou, e papai disse que ela nunca voltará.

— E é por isso que odeias teu pai?

— É, e ele nunca mais me deixou brincar com os sobrinhos de minha mãe depois que ela morreu.

— Dizes que odeia tua mãe. Tu a amavas, não?

— Sim.

— Mas não chores! Diz-me, o que mais do que qualquer coisa gostarias de fazer?

— Eu queria ser um pássaro, para voar até o alto daquela torre e ver a filha da rainha — disse ruborizando.

— E por que não te transformas numa águia e visitas a princesa?

— Já o fiz enquanto dormia.

— Qual é teu nome?

O menino deu um sorriso, fitando os olhos consoladores de Truão.

— Meu nome é Aquiles. Tu és Truão, não?

— Assim podes me chamar.

Truão levou Aquiles para os lados da floresta e contou-lhe sobre as árvores e os animais, sobre os humanos e de como eles abandonaram a Mãe Natureza para criar seus próprios destinos. À tarde Aquiles tomou da bebida de uma botelha que Truão trazia pendurada ao cinto. Este ainda lhe contou histórias sobre países onde as pessoas dormem deitadas, lugares onde se dorme no chão ou em camas, mesmo em pé e até montadas em cavalos. Ao som dessas palavras sobre o sono, Aquiles dormiu tranqüilo sob as folhas de altas árvores e sob estrelas que eram como sonhos. Seu cobertor era o vento frio que a Noite sopra, e seu leito o colo da Terra.

À noite, quando Aquiles dormia, Truão colheu das fezes que o garotinho fizera ao anoitecer e as misturou com ervas de chá que trazia num saco.

Quando Aquiles acordou, encontrou Truão sorrindo para ele e esquentando uma garrafa de chá. Este despejou um pouco numa caneca enquanto aquele se levantava.

— Bebe!

O pequeno olhou com curiosidade para a expressão jovial e ao mesmo tempo severa daquele estranho homem calçando altas botas pretas e roupas também pretas e fora de moda. O menino tomou da mão de Truão a caneca que este lhe oferecia, sorriu e entornou garganta a dentro. Não havia almoçado no dia anterior e estava com muita fome, mas a porção de chá o saciou.

Truão se virou para juntar suas coisas e, quando voltou a olhar para Aquiles, este se tinha transformado numa águia. Era a águia mais linda que jamais vira, jovem mas possante e com penas lustrosas que refletiam a luz do Sol.

Então o pássaro, livre para ver o mundo, voou para o alto da torre e encontrou a princesa, que tinha a sua idade. Ele lhe deu uma fruta estranha que trazia no bico e, ao comer, ela passou a entender a linguagem da águia. A partir daquele dia Aquiles visitaria a princesa todos os dias, e os dois se apaixonariam. Quando a rainha soube disso e quis caçar a águia, Aquiles deu à princesa um pouco do chá que Truão lhe preparara naquela manhã, e à noite e os dois voaram para o alto de uma montanha, suas penas lustrosas refletindo a luz da Lua cheia, para nunca mais serem vistos pelos súditos da dominadora rainha e seu rei opressor.

Mas, naquela mesma manhã, Truão encontrou um grupo de ciganos dançando e se juntou a eles em sua exultação.

— És um sátiro! — gargalhou uma jovem, ao som dos risos das poucas pessoas entre eles que enxergaram a figura negra e fulgente do inusitado homem.

Ele tomou a rua, saltitando como sempre fazia, e foi seguido por alguns dançarinos e por crianças. A todos Sátiro ia deixando para trás, parecendo tomar seu rumo quando, de repente, parou no chão e se virou para um ciganito que se aproximava correndo. Pegou-o no colo e o pôs sobre os ombros, deixando os nômades viverem suas vidas alegres.

Foram assim andando até quase os limites da cidade, parando ao lado da igreja para descansar. Como Sátiro nunca tivesse fome, apenas ofereceu um gole de sua garrafa ao pequeno cigano, pois já era hora do almoço. Enquanto, sentados, aproveitavam a sombra que o Sol deixava como rastro, Sátiro perguntou:

— Diz-me, pequeno, como te chamas?

— Meus pais me chamam de Pã.

— Ora, ora! Eu vejo em teus olhos o brilho da Lua e do Sol, a serenidade do mocho e o ímpeto da águia, a ferocidade do leão e a argúcia do lobo.

— Eu queria ser como tu.

— Ora, o que vejo aqui! Respondes-me antes que eu faça a pergunta. Muito vivo é teu espírito, Pã.

Pã adormeceu no colo de Sátiro e repousou até o entardecer, quando as pessoas da cidade se dirigiam à missa.

O badalo do sino acordou o menino, que sorriu para seu novo amigo e recebeu um sorriso de volta.

— Vamos — disse-lhe Sátiro.

E se foram, passando à frente da porta do templo, de mãos dadas, uma grande figura de preto e um pequeno em vermelho. Avistaram o padre e lhe sorriram. Este olhou de soslaio, desconfiado, para a dupla estranha, e murmurou:

— Diabo!

Quase todos os sacerdotes tinham a mesma reação.

Foi ao pôr-do-sol que o Diabo, com seu novo amiguinho, deixou a pequena cidade, à vista de olhares estupefatos, perplexos mais por uma emanação estranha daquele inusitado personagem do que pela situação.
Passaram a noite na floresta. Pela manhã, Pã ajudou o Diabo a preparar seu chá especial.

— Não o quero — disse-lhe o menino.

— Não é para ti.

E tomou de um gole. E sumiu dentro das roupas, e destas saíram uma coruja, um corvo preto e uma gata branca. O corvo voou para longe, crocitando “Pã!” A gata correu de volta para a cidade. E a coruja falou ao garoto:

— Daqui em diante, serei teu guia. Ajudar-te-ei a sobreviver, a aprender, a ser como eu. No momento certo, deixar-te-ei.

Para aquela criança ele tinha planos diferentes.

— Tu és especial, sabes disso?

Alguns anos depois, uma figura alta, morena, em roupas vermelhas e atitude alegre, com expressão jovial e contagiante, seria vista de tempos em tempos, a deixar um rastro de loucuras inusitadas por onde passasse.


Este conto foi escrito em 2002 e é inspirado num sonho.

Anticristo

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De Anticristo (Antichrist, 2009), de Lars von Trier, se diz que é um filme de terror. Não gosto de classificar os filmes em gêneros, “comédia”, “ação”, “ficção científica”. Isso sempre empobrece a apreciação da originalidade de uma obra. Felizmente, Anticristo é tão sui generis que se torna um bom exemplo da impossibilidade de se reduzir uma obra original a um rótulo.

A história é no geral um drama, com elementos de tragédia e, certamente, de terror. O tema principal é a face maléfica do feminino e a misoginia. Mas, se há mérito pela originalidade artística e pela abordagem ao tema, também se pode dizer que a obra como um todo é um exagero de grotesquidão, e a impressão que fica no final é: “o que diabos esse filme diz?”

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Da onipotência

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As conversas sobre religião cristã ou sobre crenças religiosas do Cristianismo podem revelar muitas das contradições e preconceitos inerentes aos discursos teístas, notadamente quando os envolvidos na conversa são evangélicos. Não porque sejam pessoas mais preconceituosas ou contraditórias, mas, talvez, porque as religiões evangélicas, herdeiras de Lutero, encorajam os crentes a elaborar suas convicções (os católicos se contentam mais com um discurso instituído).

Tomem como exemplo o diálogo abaixo, que parafraseio por não ter podido gravá-lo, mas que reproduz a maior parte das ideias expressas pelos interlocutores. As duas personagens são colegas de trabalho que se encontravam na mesma sala que eu no momento da conversa. Eu apenas ouvi e não participei.

Sabe aquele menino que trabalhou no Setor X, que usava touca, umas roupas coloridas? Você soube que ele morreu?

Soube.

Quando você soube?

Fulana me contou semana passada.

Eu soube hoje, pois Beltrano me falou. Era tão novo, só tinha 16 anos! Mas é assim mesmo. Coisa de Deus.

Pois é, o mistério de Deus.

É uma pena, mas Deus sabe o que faz. Essas coisas acontecem, às vezes é até uma forma de evitar um sofrimento…

É, esse menino era meio alegrinho…

…então, isso poderia trazer um sofrimento para os pais… mas não sei, só Deus sabe.

É por isso, irmã, que a gente tem que orar pelos nossos filhos. Você ora pelos seus filhos, irmã?

Oro!

Todo dia eu oro a Deus pelos meus filhos.

A ideia corrente de Deus em nossa cultura se reveste de centenas de aspectos. É um prisma multifacetado que se vê de maneiras diversas e díspares de acordo com o ângulo, tal como o Diabo no Inferno de Dante, que tem três cabeças.

Não é novidade que o discurso cristão, católico, protestante ou evangélico, é homofóbico. A exortação “crescei e multiplicai-vos” não é somente uma ordem para que as pessoas tenham filhos, mas subjaz também a heterossexualidade como orientação sexual padrão. Há ainda outras passagens da Bíblia que condenam o comportamento e a orientação homossexual como crimes que devem ser punidos.

Mas é interessante averiguar as formas que essa homofobia encontra de justificar o preconceito. Na conversa reproduzida acima, entende-se como melhor a precaução de um possível sofrimento por parte dos pais do que a suposta assunção de uma preconcebida homossexualidade.

“Deus é tão bom que poupou o sofrimento dos pais desse menino… ah, e o dele próprio também, não nos esqueçamos do pobre coitado.” Mas ele não poupou o “sofrimento” de cerca de 10% da população humana e seus pais. Também não poupou o” sofrimento” daqueles que morreram sem ter esse “problema”.

Essa é a crueldade do “mistério de Deus”. Tudo o que ocorre, para esses teístas, é vontade de Deus e parte de um plano elaborado para o bem dos mortais. Não adianta argumentar (se você o fizer, é possível que o Diabo esteja lhe cochichando no ouvido), “Deus sabe”, “Deus não faz nada em vão”, é preciso aceitar, por mais que sua liberdade, felicidade e saúde intelectual estejam em risco.

Quando um crente vê frustradas suas preces, ele pode se justificar achando que não foi digno da graça ou considerando que Deus decidiu não concedê-la. Neste caso, ele entende que houve um motivo justo.

Segundo Maquiavel, para o governante, é melhor ser temido do que amado

Segundo Maquiavel, para o governante, é melhor ser temido do que amado

Porém, em toda essa situação o crente se vê sujeito às vontades onipotentes de Deus, sem se preocupar em entendê-las, sem se dignar a perguntar, a questionar o motivo de as coisas acontecerem. E, principalmente, sem colocar dúvidas sobre a índole do Deus em que acredita. Não importaria, por exemplo, descobrir que Deus é um safado que brinca com as vidas dos mortais; o importante é ser fiel a uma crença consagrada e ao ser que supostamente lhe deu a vida.

Que grande diferença há entre esse Deus e o príncipe maquiavélico que domina pelo medo em detrimento do amor? É muito mais fácil obedecer e ser fiel a uma divindade que ameaça com punição e recompensa com favores do que se sentir livre para procurar discernir entre o que é melhor e o que é pior para todos, fazendo escolhas segundo o bom senso e não de acordo com leis que serviam para apaziguar povos conflituosos e belicosos na Antiguidade.

Que grande diferença há, enfim, entre esse Deus e um chefe da Máfia? Este recompensa aqueles que beijam sua mão e obedecem suas prerrogativas, enquanto pune aqueles que o decepcionam. Não há aí senão a luta para sobreviver, pouco importando, para a maioria dos envolvidos, o caráter ilícito ou antiético das maquinações do Poderoso Chefão.

Pedir todos os dias a Deus que proteja seus filhos é como implorar para que estes fiquem imunes ao mal que aquele, onipotente, permite que exista. É como participar de uma loteria na qual os que têm mais chance são os que pedem ao dono da Casa Lotérica que dê um jeitinho em troca de um voto nas eleições.