Deuses e mistérios em Avalon: livros da adolescência

Padrão

A blogagem coletiva sobre livros da infância me levou a refletir mais amplamente sobre o assunto. Uma das coisas que tentei delinear enquanto escrevia aquele texto foi onde terminou minha infância e começou minha adolescência, pois disso dependia incluir ou excluir certos livros. Uma das coisas que percebi ao tentar decifrar (seria melhor dizer, recriar) essa fronteira (arbitrária) foi que, a partir de certo momento não muito bem delimitado mas mais ou menos claro, o “tipo” de livro com que mais passei a me ocupar mudou.

Depois de ler O Fantástico Mistério de Feiurinha, o que se deu pelos 12 ou 13 anos de idade, passei a escolher mais os livros que leria. Estes eram agora ou mais complexos (como Vidas Secas) ou fisicamente maiores (como As Brumas de Avalon), e a experiência da leitura passou a ser um hobby eleito e não uma mera obrigação escolar. A partir daí percebi que seria rico me delongar numa segunda parte e pensar sobre os livros de minha adolescência, pois compreendi que se trata de uma outra etapa da minha vida de leitor.

Vidas Secas – Graciliano Ramos

Comecei a ler Vidas Secas numa época em que os professores escolhiam os livros de literatura que deveríamos estudar. Acho que era época de férias, encontrei o exemplar na biblioteca do meu pai e pensei, “vou ver do que se trata”, e acabei gostando muito.

As vidas secas da família sertaneja, pai, mãe, filho mais velho e filho mais novo, além do único membro com nome do grupo, a cachorra Baleia, são retratadas com a rudeza que caracteriza o implacável mundo do pobres que enfrentam a seca nas regiões mais áridas do Brasil. A linguagem lacônica, dizendo o mínimo necessário, reproduz a forma coloquial de se comunicar das pessoas pobres das regiões rurais.

A leitura me fez visualizar de perto as agruras e alegrias de uma família que se agarra ao pouco que consegue tirar da natureza escassa e de uma sociedade desigual. E me fez emocionar com a profundamente significativa existência de Baleia e seus sonhos repletos de preás.

Devo ter lido o livro duas vezes, se me lembro bem, e minha admiração pelo autor me fez adquirir, anos depois, já na época da faculdade, um exemplar de seu romance São Bernardo. Eu tinha feito uma cirurgia ocular em São Paulo e estava me recuperando na casa de minha madrinha, em Tupã, e encontrei o livro num sebo. Mas Vidas Secas continuou sendo muito mais significativo em minha memória, tendo inclusive repercutido num interesse pela literatura brasileira, especialmente por Machado de Assis, que se tornaria um de meus romancistas/contistas preferidos.

Toda a Poesia de Augusto dos Anjos

Essa coletânea da obra de Augusto dos Anjos, da editora Paz e Terra, cujo prefácio é um ensaio de Ferreira Gullar sobre o poeta paraibano, não é completa, mas contém sua única obra poética publicada em vida, que é o livro Eu e Outras Poesias, e mais alguns poemas póstumos. O volume que eu li era emprestado de um grande amigo meu e eu cheguei mesmo a tirar xerox de todo o livro.

No ardor das emoções adolescentes, Augusto dos Anjos foi para mim uma pungente voz que representava a angústia das mudanças da puberdade e a empatia para com o sofrimento humano. Ele se tornou meu principal modelo para escrever meus poemas e é para mim o paradigma daquilo que considero poesia.

Posteriormente eu compraria uma edição da Martins Fontes, com mais poemas do que a edição da Paz e Terra, e que se tornaria um item caro em minha biblioteca. Mas durante a graduação em Ciências Sociais, eu acabaria adquirindo a obra completa dele, da Nova Aguilar, e fazendo minha monografia tendo dois poemas de Augusto como objeto de pesquisa: Do Leite Materno ao Leito Meretrício: Mãe e Meretriz como Objetos de Desejo no Imaginário de Augusto dos Anjos.

Olimpo: a Saga dos Deuses – Márcia Villas-Bôas

Cavaleiros do Zodíaco criou um público de fãs no Brasil, e eu não escapei dessa onda. Mas aquilo que tenho mais a agradecer à televisão brasileira por exibir essa série é o fato de ela me ter instigado o interesse por mitologia grega. E esse interesse me levou a fazer com que meu pai comprasse o livro Olimpo: a Saga dos Deuses, que encontrei num supermercado e que, pelo que sei, é hoje uma raridade (ainda bem que ainda guardo meu exemplar).

A obra é basicamente um longo romance que ata numa narrativa contínua todas as histórias mais conhecidas da mitologia grega. Cada capítulo se foca em um personagem (o que me veio muito fortemente à memória quando, há alguns meses, comecei a ler As Crônicas de Gelo e Fogo), e são arrolados de maneira mais ou menos cronológica, partindo desde os eventos da gênese do Universo, passando pela Era dos Deuses, adentrando a Era dos Heróis e concluindo com a partida dos seres divinos para outro mundo.

O livro tem um certo viés esotérico, ecoando certas ideias herdadas da Teosofia (que baseia muito do universo conhecido como Nova Era), o que o torna interessante no sentido de que os deuses são entendidos como algo mais do que indivíduos com forma definida, mas forças que atuam na natureza e que são interpretadas como universalmente experimentadas por qualquer cultura humana. Tanto é assim que em determinado momento os olimpianos estão se admirando com os nomes com que são conhecidos no Egito e em Roma (tratando-os, portanto, como arquétipos presentes no inconsciente coletivo).

Olimpo foi importante para mim por ter me levado posteriormente a ler muitas histórias gregas (Homero, Ésquilo, Sófocles etc.). Mas acho que um dos impactos mais positivos dessa leitura foi sobre minhas ideias a respeito de gênero e sexualidade. Enquanto a mitologia e a cultura gregas remexem com nossos valores cristãos modernos, a autora deixa bem claro, através dessa narrativa, que sexo e gênero não são determinações, e nos faz relevar, de diversas formas, os preconceitos a respeito das identidades sexuais e das sexualidades humanas.

As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley

VALON__VOL1_1250982341PA edição em quatro volumes dessa maravilhosa obra chegou às minhas mãos por um amigo que havia comprado num sebo. Eu devo ter trocado com ele por algum outro livro, o fato é que passou a fazer parte da minha seleta e embrionária biblioteca. Uma coisa curiosa a respeito do meu exemplar é que as capas estavam bastante comidas nas bordas, e eu criei capas no Microsoft Word, imprimi e encapei os volumes, cobrindo tudo com papel adesivo.

Eu sabia pouco sobre as histórias arturianas nessa época, e As Brumas foi minha primeira e principal referência sobre essa mitologia pré-medieval. O livro é na verdade a história das mulheres que viveram em Camelot, especialmente Morgana e Gwenhwyfar (o nome pelo qual é chamada Guinevere no texto). Dessa forma o mythos de Camelot é contado de maneira diferente do convencional, fugindo do androcentrismo das obras tradicionais.

Esse épico teve impactos positivos na minha forma de ver o mundo, ajudando-me a cultivar um espírito relativista, especialmente quanto à religião e às relações de gênero. Sendo uma obra repleta de referências à religiosidade anglo-saxã pré-cristã, colocada em oposição ao Cristianismo levado às Ilhas Britânicas pelo Império Romano, a história provoca simpatia pela ideia de que não há religiões certas nem erradas. A religião antiga de Avalon tem forte ênfase no feminino e na valorização da mulher, um toque feminista que a obra de Bradley sempre traz e que me ajudou a desenvolver grande simpatia pelo Feminismo e, como consequência natural, pelos estudos sobre a diversidade humana, seja de gênero e sexualidade, seja racial/étnica, seja qual for.

Acho que essa foi uma das leituras mais imersivas que fiz na adolescência e talvez em toda minha história de leitor de ficção. O reino de Arthur Pendragon, especialmente a Ilha de Avalon, é repleto de uma magia sutil, de uma ligação com uma realidade (sobre)natural, maravilhosa e antiga, e um sentimento de nostalgia era constante enquanto eu lia e “testemunhava” a desagregação da cultura bretã e sua ancestral religião pagã.

A leitura de Bradley me levou a procurar, junto com meu irmão, outras obras dela, das quais Lythande é a que lembro com mais carinho. Também com viés feminista, os contos sobre o mago Lythande são instigantes quanto a questões de gênero, principalmente quando se trata de explorar as formas pelas quais o segredo do protagonista é trazido à tona como recurso narrativo.

O Nome da Rosa – Umberto Eco

Um instigante romance policial de um autor que não se acanha de esbanjar erudição. Esse livro me foi emprestado por um amigo de meu pai, e eu acabei ficando com ele (só para constar, anos depois ele me disse que eu podia ficar com o livro – só para constar…).

A obra traz elementos que me encantaram e me tornaram um fã de histórias fantásticas, a começar pelo fato de Eco afirmar, no prefácio, que esse livro é a tradução de um manuscrito em latim que ele encontrou e que teria sido escrito pelo protagonista da história (mais ou menos a mesma relação entre Tolkien e Bilbo/Frodo). O que já constitui um mistério e prepara o leitor para o tipo de história que se segue.

Além disso, o fato de haver um mapa do mosteiro onde ocorre a narrativa a torna bastante imersiva, pois de vez em quando o texto nos leva a consultar o mapa para compreender melhor o que está acontecendo na trama. Esse tipo de recurso extratextual enriquece de maneira interessante a experiência de leitura (como eu disse, no artigo anterior, sobre O Reino Perdido de Beleléu).

O Nome da Rosa é uma história instigante sobre o obscurantismo da Igreja Católica na Idade Média e o perigo que é a sonegação de conhecimento, que pode acabar se perdendo sob um regime de censura. A narrativa policial e as reviravoltas da trama são geniais. Os temas tratados em episódios esporádicos são muito pertinentes para se pensar a importância da quebra de tabus e a desmistificação das relações de poder.

Eu gostei tanto desse livro que logo em seguida tentei ler O Pêndulo de Foucault, do mesmo autor, mas não consegui passar da metade (fiquei todo enrolado com a história e já não estava entendendo mais nada). Porém, muitos anos depois eu ganharia um presente muito especial: Quase a Mesma Coisa, também de Eco, um livro sobre experiências de tradução e um dos melhores ensaios que já li.

Outras leituras e continuações

Houve várias leituras importantes que não citei acima porque não foram exatamente livros, mas contos ou partes de livros. Por exemplo, eu li na adolescência A Sociedade do Anel, primeiro volume de O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, mas só leria o livro completo vários anos depois, já na época da faculdade. No entanto, foi uma leitura mágica para mim, e fiquei encantado com a épica Terra-Média, mas principalmente com os singelos hobbits.

Outro livro muito importante foi Imortais: O Melhor da Ficção Científica do Século XIX, organizado por Isaac Asimov. Mas eu li esse livro tão espaçadamente que só terminei quando estava na universidade (de novo…). É uma coletânea de contos que Asimov considera serem os verdadeiros precursores da Ficção Científica, segundo um conceito que ele elabora na introdução do livro. Dos que eu li na adolescência, lembro principalmente dos contos “O Homem de Areia”, uma perturbadora narrativa de E. T. A. Hoffmann, e “A Filha de Rappaccini”, de Nathaniel Hawthorne, que depois eu descobriria ter sido uma inspiração para a personagem Hera Venenosa, vilã do Batman.

A primeira vez que li Edgar Allan Poe foi numa coleção que meu pai tinha, chamada Para Gostar de Ler, que reunia diversas histórias curtas de variados autores, brasileiros ou não. Lá eu encontrei “O Retrato Oval” e “O Coração Delator”, que me instigariam depois a procurar outros contos do perturbado escritor norte-americano. Cheguei a ler várias de suas narrativas de suspense, terror e histórias policiais, e cheguei a ensaiar uma tradução do clássico e grandioso poema “O Corvo”.

Elenquei acima os livros que considero mais importantes em minha memória afetiva. Mas, além desses, houve outros importantes para mim na época e que me inspiraram a ler mais, como Dom Casmurro, de Machado de Assis, Espada da Galáxia, de Marcelo Cassaro, Frankenstein, de Mary Shelley, O Caso de Charles Dexter Ward, de H. P. Lovecraft, A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, e O Relato de Arthur Gordon Pym, de Poe. Olhando para todo esse conjunto de obras, percebo quanto meus atuais interesses de leitura foram formados nesse período, bem como minha perspectiva a respeito da humanidade, em sua diversidade e naquilo que nos torna todos iguais.

Avatar [Resenha – Parte 3]

Padrão

Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Avatar (2009) é um filme que, se dividiu muita gente na opinião quanto à trama e aos temas tratados na narrativa, encantou a maioria em seus aspectos estéticos. Toda a criação virtual deu um aspecto muito real ao mundo imaginário de Pandora, com fauna e flora críveis e um ecossistema simbiótico envolvente.

Na primeira parte desta resenha, fiz um resumo comentado do filme e discorri sobre os nomes usados na história. Na segunda parte, analisei algumas questões antropológicas. Nesta terceira e última parte, trato dos aspectos estéticos de Avatar, do mundo áudio-visual criado por Cameron, da ficção científica misturada com fantasia mítica (e um pouco mística) e de como tudo isso se relaciona com um dos temas mais contundentes do filme: Ecologia e meio ambiente.

Sinestesia fantástica

(Não pude ver o filme na versão 3D, pois tenho visão monocular (mas, se pudesse, não hesitaria experimentar essa nova tecnologia cinematográfica). Mas alguns comentaristas constam que a obra não foi inicialmente concebida para ser vista em 3D, então penso que este recurso é só um extra interessante. No entanto, mesmo em 2D o visual é espetacular.)

Trama 4
Montagem 5
Atuação 3
Diálogo 3
Visual 5
Trilha sonora 4
Reflexão 4

O clima penumbroso do laboratório é frio e deprimente. Ao fazer a conexão com seu avatar, Jake Sully faz uma viagem neuronial, apresentada em primeira pessoa, que leva o próprio espectador a sentir que saiu de um lugar cinzento para uma sala bem iluminada. A cor do corpo na’vi se destaca, e o amarelo dos olhos compõe, sobre a pele azul, a imagem do amanhecer, dois sóis que se destacam contra o céu.

Mas a luz reconfortante desta antessala é só uma transição para o que está do lado e fora: uma atmosfera diferente, com um brilhante sol a esquentar o chão que há muito Jake Sully não sentia; agora ele corre para aproveitar ao máximo a sensação que perdera com seu paralítico corpo humano. Mas isso não é suficiente para ele, pois em seus melhores sonhos ele voa.

Passamos então para a floresta fechada, onde há plantas um tanto diferentes do que se viu na Terra (se é que esses personagens viram muitas plantas na devastada Terra) e animais exóticos mas nada muito alienígenas. Fauna e flora pandorianas são ao mesmo tempo surpreendentes e familiares, tudo sob uma luz/sombra florestal que nos faz sentir aconchego e apreensão.

A noite traz perigo e mistério. Luzes se acendem no céu, nas plantas e na pele, como velas numa caverna. Os na’vi recebem Jake Sully com receio, mas tanto o forasteiro quanto a tribo nativa dão uma chance um ao outro. Já a manhã traz um cenário aberto com planícies a cavalgar e cânions a sobrevoar. Subimos as Montanhas Aleluia, grandes pedras flutuantes, e estamos quase voando. Mas é só quando as belas aves pterossáuricas são montadas que o destino de Jake Sully começa a se concretizar.

Um destino que se alcança às custas de várias viagens de ida e volta, entre o sonho aborrecido que experimenta entre humanos e a realidade vívida que vive entre os na’vi. Nesta realidade, Jake Sully encontra um amor construído com aprendizado e afeição, e entendemos junto com ele e Neytiri que os seres que habitam o universo têm todos algo em comum.

A Árvore das Almas e a bioluminescência de tudo em volta é uma imagem brilhante e envolvente, e nos faz quase sentir nossos cabelos se arrepiando e se envolvendo na mente dos seres vivos que formam todos uma só consciência. E quando fazem amor, Jake Sully e Neytiri expressam em poucos gestos e palavras uma afeição que não precisa ser mostrada de outra forma.

Mas toda essa benevolente realidade é ameaçada pelo pesadelo de escorpiões voadores e grandes fantoches de metal. Ou será o contrário, o onírico mundo regido por Eywa ameaçado pela terrível realidade destrutiva humana? Se o sonho é ruim ou bom, se a realidade física é negativa ou não, se uma coisa é a outra ou vice versa, depende da experiência de cada um. Para Augusto dos Anjos, a ilusão era doença:

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimento rotatórios…
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Grifo meu.

No filme, seres construídos por computadores lutam contra humanos feitos pela natureza. Porém, são as criaturas virtuais que representam as forças naturais, enquanto os seres de carne e osso se apresentam como ícones da tecnologia empregada para fins inescrupulosos. Toda a imagem é digna de um épico ilustrado em paredes esculpidas por antigas civilizações.

Batalha aérea em Pandora

Jake Sully completa seu destino nas costas de um Toruk, “última sombra”, e voa com os na’vi, uma corte de guerreiros alados. Ele se reconcilia com seu rival Tsu’Tey, atual líder na’vi, assim como um predador gigante renuncia sua ferocidade para que Neytiri monte em suas costas. Toda a natureza toma partido e luta contra a ameaça tecnológica, não para vencer uma guerra, não para matar um inimigo, mas para preservar algo muito maior, às tristes custas da morte de alguns.

Neytiri sente que Jake Sully está morrendo em seu corpo humano, ela o vê à distância. Ao alcançar o frágil corpo humano, ela o acolhe em seus braços, reconhecendo a alma forte que ela enxerga no fundo dos olhos que a enxerga da mesma forma. Numa das cenas de  amor romântico mais belas que já vi, dois indivíduos, de espécies alienígenas um para o outro, se acariciam depois e abraçarem a alma um do outro.

Avatar é um universo mágico, uma aventura de Fantasia que remonta às histórias de viagens a mundos idealizados, como a Terra do Nunca a que Peter Pan leva Wendy e seus irmãos, como o País das Maravilhas a que Alice é conduzida por um coelho branco, ou Oz em que Dorothy se perde. Sempre se viaja para um mundo de maiores possibilidades que a realidade, de libertação, normalmente se vai para mais perto da natureza, em busca de algo perdido e sufocado pela civilização.

Mas não só a Fantasia oferece essas viagens reveladoras. Na Ficção Científica, Neo viaja da Matrix para o mundo real; o Planeta dos Macacos também é destino de uma viagem que ensina muito sobre a natureza humana; o arqueólogo Daniel Jackson faz uma jornada no espaço e na história para descobrir os segredos do Antigo Egito. E Avatar também se envereda a Ficção Científica.

Ficção científica

Avatar não é um filme de ficção científica, pelo menos não uma hard science fiction. É uma história romântica (não só no vulgarizado sentido do romance amoroso, que também está presente, mas especialmente no aspecto que envolve a autodescoberta e a fantasia do retorno à natureza selvagem) que tem elementos de ficção científica.

Mas não é como Guerra nas Estrelas, uma aventura épica cujos elementos de ficção científica são mais fantásticos do que científicos. Avatar tem uma ficção científica verossímil, pertinente e bem encaixada na narrativa.

Qualquer história de ficção se inicia com uma pergunta, que normalmente está implícita, um problema cuja solução se tenta resolver através da narrativa. “E se um fantoche criasse vida?” Resposta: Pinóquio, de Carlo Collodi. “Como seria a história de um homem atormentado pela dúvida se sua mulher o traiu ou não?” Resposta: Dom Casmurro, de Machado de Assis.”E se uma pequena e fleumática criatura se envolvesse numa aventura épica?” Resposta: O Hobbit, de J. R. R. Tolkien.

Na ficção científica, essa pergunta necessariamente se dá no campo da especulação científica e normalmente envolve uma preocupação social em relação ao desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia. “E se houvesse um planeta habitado por macacos inteligentes e humanos bestiais?” Resposta: O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle. “Se uma espécie alienígena avançada e pacifista olhasse para a Terra da Guera Fria, que partido ela tomaria?” Resposta: O Dia em que a Terra Parou, de Robert Wise.”Quais seriam as implicações da criação artificial de um ser humano?” Resposta: Frankenstein, de Mary Shelley. (É claro que essas perguntas estão muito resumidas. Cada uma dessas histórias tem um conjunto complexo de questões encadeadas.)

“E se a Terra ficar exaurida de recursos naturais? E se o mundo que tem os recursos que queremos explorar é habitado por criaturas inteligentes que vivem em cima do metal precioso que queremos? E se essas criaturas respiram um ar tóxico para nós? E se a lua em que vivem tem gravidade maior do que a da Terra? E se esses nativos têm 3 metros de altura e se locomovem com agilidade num ambiente que para humanos é difícil de ser explorado?” Resposta: Avatar.

Imagine então uma tecnologia que permita a um ser humano assumir a forma de um nativo, respirar o mesmo ar que ele, resistir à forte gravidade, percorrer com desenvoltura, força e agilidade o ambiente local e, da mesma forma que os alienígenas, fazer conexões neuroniais com animais e plantas desse mundo. É uma tecnologia muito complexa, avançada e, portanto, cara. E é empregada como um pesado investimento para a obtenção do valiosíssimo unobtânio.

Jake Sully e seu avatar

A humanidade chegou a um avanço tecnológico gigantesco: viagens intergalácticas, robôs humanoides bélicos que obedecem aos movimentos de seus pilotos, transmissão da mente para outro corpo. Mas não conseguiu avançar sua ética, e repetem com os na’vi os mesmos erros que os colonizadores (humanos) cometeram com povos (humanos) nativos no escopo do planeta Terra.

Dessa forma, Avatar repete e inverte a fórmula clássica de filmes sobre alienígenas que invadem a Terra com ultratecnologia e ultradestrutividade. Mas desta vez os invadidos são os alienígenas, os humanos são os invasores. “Como seria se os humanos detivessem tecnologia suficiente para visitar outro planeta com tecnologia menos avançada?” Resposta de James Cameron: seria o mesmo que se viu em Independence Day, de Roland Emmerich, só que os humanos é que estão nas naves estelares.

O ecossistema de Pandora também parece verossímil ao espectador médio, principalmente pelo realismo das imagens, e menos por causa de alguma verossimilhança sistêmica na relação entre animais e plantas. Mas o detalhismo deste âmbito não é tão importante neste filme. A parte da natureza sai da ficção científica e entra mais no fantástico, sobre que discorri acima.

Assim, James Cameron concebeu Eywa como um sinônimo de mãe-natureza, como uma referência à divindade grega Gaia, que representa a Terra, a biosfera, o ecossistema terráqueo. Eywa é essa mesma divindade, mas representada pelos na’vi no planeta Pandora. Ela tem uma grande importância para a questão ambiental tratada no filme.

Questão ambiental

Este pequeno planeta precisa de cuidados.

Este pequeno planeta precisa de cuidados.

De acordo com a hipótese (ou teoria) de Gaia, a biosfera da Terra constitui um sistema autorregulador, quase como um ser vivo composto pelos  animais, plantas e outras criaturas e pelo meio ambiente ocupado e formado por esses seres. Fugindo da polêmica em torno do real significado metafórico ou não de Gaia (não sou versado em Geologia, Ecologia nem qualquer área pertinente), uma coisa parece ser unânime entre os cientistas: um ser vivo mantém uma relação direta ou indireta com todo o ecossistema terrestre, e qualquer grande mudança de uma de suas partes  acarreta uma reação do todo.

Os seres vivos de Pandora vivem uma conexão extrema. Os na’vi, inteligentes, conectam suas mentes (através de fios de cabelos que transmitem impulsos bioquímicos/sinápticos) às de montarias nativas, cavalos hexápodes, para fazê-los obedecer ordens de movimento, ou a grandes aves para que estas os carreguem voando. Os na’vi também se conectam assim à Árvore das Vozes, para escutar seus ancestrais. A interconexão entre os seres de Pandora é tão interdependente que qualquer interferência séria como a derrubada de uma grande árvore põe em risco todo o biossistema.

O ecossistema fictício de Pandora é assim uma metáfora hiperbólica de uma realidade existente em nosso próprio mundo, o planeta Terra. A extinção de uma espécie terráquea, a derrubada ou queimada de florestas, a poluição de um rio ou de um mar e a infestação do ar com fumaça são exemplos de interferências humanas que têm consequências sérias sobre todo o conjunto.

Avatar é, portanto, bem atual ao tocar num tema que está na pauta contemporânea e que tem preocupado diversos setores das sociedades ocidentais. Na base de todas as controvérsias sobre as causas mais contundentes e do real escopo das mudanças climáticas (especialmente as controvérsias sobre se há ou não um aquecimento global catastrófico provocado pelos seres humanos), é unânime a exortação de que devemos cuidar do meio ambiente.

A mensagem ecológica do filme é sintetizada na frase dita a Jake Sully por Neytiri: “Tudo o que Eywa dá é emprestado e será preciso devolver”. É uma exortação à nossa responsabilidade enquanto parte integrante de um mesmo meio ambiente. E enquanto seres humanos, capazes de transformar esse meio de formas muito impactantes, é preciso lembrar do que Carl Sagan disse no livro Bilhões e Bilhões: Reflexões sobre Vida e Morte na Virada do Milênio:

Não há nenhuma causa mais urgente, nenhuma tarefa mais apropriada do que proteger o futuro de nossa espécie. Quase todos os nossos problemas são provocados pelos humanos e podem ser resolvidos pelos humanos. Nenhuma convenção social, nenhum sistema político, nenhuma hipótese econômica, nenhum dogma religioso é mais importante [p. 85].

Que completa, reiterando:

Se os humanos criam problemas, os humanos podem encontrar soluções [p. 86].

Numa resenha muito pertinente publicada na Folha de S. Paulo, o físico Marcelo Gleiser nota que Avatar pode ser visto como um aviso dos atuais perigos ambientais na Terra. Esta, no filme, está esgotada de recursos naturais, o que obriga os humanos a buscarem energia fora do Sistema Solar. Precisamos cuidar da Terra para que não se repita a farsa histórica na qual os nativos de um paraíso natural são dizimados pela ganância e pelo desespero. Gleiser conclui assim seu artigo:

somos nossos piores inimigos e nossa única esperança. A natureza não vai nos ajudar.

Comentários sobre as notas

Trama 4: a história é bem conhecida, e a falta de originalidade faz com que a trama seja previsível. Mas ela é bem construída e agradável, suas partes se encaixam bem, com início, meio e fim, com harmonia e sem excessos.

Montagem 5: As cenas se encaixam com perfeição. Cada corte diz muita coisa sobre os sentimentos dos personagens e sobre o clima geral da trama. A exemplo o momento em que Jake Sully acorda em seu corpo humano logo após fazer amor com Neytiri. A música silencia, os olhos desolados de Jake se abrem dentro da tubo de conexão e ele se pergunta: “O que diabos você está fazendo, Jake?”, sem saber mais qual é sua missão ali.

Atuação 3: os atores fazem bem o seu trabalho, sem nada excepcional. Alguns personagens são marcantes, como o coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) e a doutora Grace Augustine (Sigourney Weaver), mas no geral as dramatis personae são secundárias diante do espetáculo visual e da sucessão de eventos.

Diálogo 3: as falas são bem simples e não contribuem muito para o show. Mas não se percebe nenhuma pretensão de se criar algo impactante e original nos diálogos, e eles não atrapalham em nada.

Visual 5: o visual é simplesmente perfeito. Toda a beleza selvagem que se pretendeu criar está presente nas imagens e os seres artificiais que aparecem na tela são muito realistas.

Trilha sonora 4: a música é linda e apropriada, fazendo com que os cenários se enriqueçam e sejam facilmente acessíveis ao espectador. No entanto, há momentos em que o som fica discrepante com a cena, mas isso ocorre pouco.

Reflexão 4: os temas são muito instigantes para quem nunca viu Dança com Lobos, O Último Samurai ou Distrito 9. Mas a maioria deles é batida. No entanto, soma-se aí o detalhe de o estrangeiro ser de outra espécie, o que faz com que o protagonista mude de corpo, se tornando realmente um outro, e a questão ambiental tão em voga e ainda pouco (e mal) explorada no cinema.

Links