Solaris e as dimensões da vida

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

O romanceSolaris, escrito em 1961 pelo escritor polonês Stanislaw Lem, extrapola a um nível incomum dentro da Ficção Científica o complicado tema do contato entre espécies alienígenas.

Solaris é um planeta que gira ao redor de duas estrelas (sistema binário) e se mantém numa órbita regular devido à misteriosa ação de um oceano que cobre a maior parte da superfície do astro. Sem essa ação, as forças físicas fariam com que a órbita não se mantivesse constante, e vários estudos levam pesquisadores e cientistas a considerar que o oceano é um organismo vivo.

O caso Solaris levou, desde a descoberta do planeta pelos humanos, à constituição de uma escola acadêmica cujos membros ficaram conhecidos como solaristas. Ao longo de décadas, muitos pesquisadores de diversas áreas se reuniram numa estação flutuante construída para esse fim, e uma extensa produção científica tentou “desvendar os mistérios” do oceano e, especialmente, encontrar um meio de se comunicar com ele.

A trama do livro tem início já na decadência dos estudos solaristas. A estação de Solaris, outrora fartamente povoada de ávidos pesquisadores, hoje só conta com três melancólicos cientistas (Gibarian, Snow e Sartorius) que aguardam a chegada do psicólogo Kris Kelvin. Este se depara com uma desolação, descobre que seu mestre Gibarian morreu recentemente e os sobreviventes estão atormentados. Após alguma sondagem, Kelvin começa a ser assombrado pela presença de um clone (aparentemente surgido do nada) de sua falecida esposa suicida.

Os outros habitantes da estação também são assombrados por fantasmas, recriações físicas do oceano, que de alguma forma sondou as mentes dos cientistas e “trouxe à vida” pessoas ligadas a eles por algum forte laço emocional. A história se desenvolve com as tentativas do grupo para destruir os “fantasmas” (possuidores de incomum invulnerabilidade), o dilema de Kelvin, que gostaria de manter viva sua “esposa” Rheya, tudo permeado pelas leituras que o psicólogo empreende dos livros disponíveis na estação, mostrando ao leitor uma recapitulação da história dos solaristas e suas teorias.

Essa recapitulação começa com as primeiras teorizações sobre a natureza do oceano de Solaris, mostrando uma luta constante dos cientistas para enquadrar a estranha forma de vida nos padrões conhecidos pela Ciência, a frustração desse empreendimento intelectual, as mortes decorrentes da investigação in loco do oceano e a decadência dos estudos solaristas, que passaram a ser simplesmente descritivos.

O que é um ser vivo?

Lem criou uma situação extrema que poderia, grosso modo, ser comparada à relação entre um elefante e um formigueiro. As formigas que caminham sobre o joelho dianteiro de um elefante talvez não percebam que estão em cima de um animal, e dificilmente o paquiderme perceberá tão pequenos insetos sobre sua grossa pele. A diferença nas dimensões e tamanho é um obstáculo, quase um entrave, para a comunicação entre humanos e o oceano planetário, para o qual aqueles são ínfimos, pouco mais que grãos de poeira trazidos pelos ventos cósmicos.

Ao mesmo tempo, há uma diferença descomunal de escala entre elefante/formigas e oceano/humanos. Essa discrepância é tamanha que a história dá a entender que o simples fato de o oceano sondar os pensamentos dos humanos (por meios totalmente inexplicados no livro e plenamente irrelevantes para os propósitos de Lem) o faz gerar certas ressonâncias que são praticamente idênticas às imagens nas mentes dos minúsculos (por que não dizer microscópicos, na visão do oceano) primatas que passeiam em sua superfície.

No período que Kelvin passa na estação de Solaris, ele lê vários livros, enciclopédias, manuscritos e panfletos, apresentando ao leitor o longo e complexo histórico dos estudos e pesquisas sobre o oceano. A trajetória científica dos solaristas é um dos elementos mais importantes do livro e apresenta toda a reflexão de Lem a respeito da problemática do contato entre seres alienígenas.

A princípio, os solaristas não cogitaram a possibilidade de o oceano ter vida. No mundo real, ao buscar sinais de vida extraterrestres, projetos como o SETI (Search for Extra-Terrestrial Inteligence – Busca por Inteligência Extraterrestre) deveria esperar situações inusitadas, como encontrar seres vivos que, para os padrões humanos ou terrestres, não são facilmente reconhecíveis como tais.

Esse é o tema do episódio O Demônio na Escuridão (The Devil in the Dark – série clássica de Star Trek, 1ª temporada, 25º episódio), em que os equipamentos da tripulação da Enterprise, que têm a capacidade de detectar sinais de vida, não conseguem perceber uma criatura suja estrutura molecular é baseada em silício e não em carbono.

Como se comunicar com um alienígena?

A situação extrema de incomunicabilidade pode nos fazer pensar na relação entre o ser humano e outros animais terrestres. Humanos conseguem “enganar” outros animais através de artimanhas dos sentidos, fazendo-os “acreditar” que estão diante de um membro de sua espécie (quando na verdade se trata de um boneco), levando-os à morte numa vela ou lâmpada (insetos “atraídos” à luz por um erro de percepção). O ser humano se aproveita de um conhecimento mais profundo sobre a realidade e do fato de os outros animais  terrestres não possuírem esse conhecimento para domesticá-los, promovendo erros de percepção e induzindo-os a certos comportamentos.

Assim, do mesmo modo que uma mariposa, “achando” que está seguindo os raios paralelos da luz da Lua, dá voltas ao redor de uma vela e acaba se queimando, o oceano de Solaris, ao sondar (conscientemente ou não) o comportamento e pensamentos dos humanos, produz formas e cores que os hipnotizam e os levam a ser engolidos pelo gigantesco mar.

Do mesmo modo que através do cheiro, da textura, da cor e de sons de um boneco se consegue fazer um animal agir como se estivesse diante de um indivíduo de sua espécie, Solaris (conscientemente ou não), ao “pensar” sobre as coisas que sonda nas mentes dos humanos, acaba fazendo brotar no ar cópias de pessoas conhecidas por aqueles homens. Estes, a princípio, ficam em dúvida sobre a natureza das pessoas que vêm assombrá-los, e só não são totalmente enganados porque estão preparados, pela experiência e pala formação científica,  para desconstruir a ideia de que uma pessoa tenha voltado à vida e tenha misteriosamente aparecido num planeta a anos-luz de distância da Terra.

Essa incomunicabilidade é ainda tão extrema ao ponto de se tornar imprevisível o comportamento do oceano, devido à impossibilidade de os humanos saberem as consequências de seus atos, não podendo prever como suas pesquisas afetam o gigantesco ser vivo, que às vezes parece amigável, outras vezes age hostilmente, e muitas vezes parece ignorá-los completamente.

Humanos, humanoides e animais estranhos

A “alienigenidade” é geralmente abordada nas histórias de Ficção Científica apenas no nível da exoticidade. Os ETs são “humanoides” (inspirados nos próprios humanos que os concebem) na maioria dos casos, às vezes indistinguíveis (como Kal-El/Clark Kent/Super-Homem e seus conterrâneos kryptonianos), mas geralmente com pequenas e sutis diferenças (variações de textura/cor da pele, nos pêlos – ausência ou abundância -, altura e/ou musculatura, protuberâncias em locais específicos do corpo, formas e cores dos olhos, presença ou ausência de nariz ou orelhas etc.), mas quase sempre apresentando cabeça, tronco e membros, em tudo imagem e semelhança daquilo que os humanos consideram mais fundamental na identificação de um “ser vivo” “inteligente”.

As histórias costumam ser alegorias da relação entre humanos de diferentes etnias/culturas (a maioria dos episódios de Jornada nas Estrelas), e em casos extremos entre humanos e animais irracionais (como na franquia Alien). Solaris vai muito além dessas perspectivas, trazendo para as especulações sobre vida extraterrestres problemas possíveis e verossímeis que poderemos enfrentar em contatos interplanetários.

Será que o oceano de Solaris é um ser vivo? Ele não existe como uma realidade “biológica” diferente de qualquer coisa que consideraríamos viva no planeta Terra? Existirá um limite para a investigação humana sobre a vida alienígena, tendo em vista desafios do tipo Solaris? Estaremos prontos para assumir o papel de cobaia investigada quando nos encontrarmos diante de uma espécie ou civilização muito mais complexa e avançada do que a nossa?

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Contato (romance) [Resenha]

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Título: Contato (Contact)

Autor: Carl Sagan

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2008 (1985)

Carl Sagan é um dos mais conhecidos cientistas norte-americanos da contemporaneidade, e seu renome se dá especialmente pelo fato de ter se dedicado com afinco à divulgação científica, com destaque para a Astronomia, sua área de pesquisa, com o famoso programa de TV Cosmos. Além disso, se notabilizou por vários livros em que apresenta o que é o pensar científico e diversos tópicos do conhecimento de várias áreas da Ciência. São exemplos O Mundo Assombrado pelos Demônios e Bilhões e Bilhões.

O espírito de divulgador científico não ficou de fora de seus textos quando se enveredou na Literatura. Na obra de ficção científica Contato, Sagan explora as possibilidades de uma verossímil mensagem extraterrestre, enquanto explica aos leitores vários conceitos da Ciência de sua época (o livro foi publicado originalmente em 1985), essenciais para se compreender a história, mas nada irrelevantes como saberes que enriquecem a mente.

Sinopse comentada

Eleanor Arroway, mais conhecida pelo seu apelido Ellie, teve desde pequena o incentivo de seu pai para explorar o interessante mundo do rádio-amadorismo, o que a levou a um grande interesse por se aprofundar nos estudos e pesquisar Ciência. Seu rápido amadurecimento intelectual a levou a menosprezar as possibilidades de relacionamento afetivo com os garotos imaturos da escola. Sua mente questionadora a fez perceber incoerências nas histórias bíblicas e a discordar dos professores das aulas de Religião. Seu ímpeto para se aprofundar na busca pelo conhecimento e sua genialidade a levaram a Harvard.

Na universidade, especialmente na área das Ciências Exatas, onde se embrenhou, encontrou o preconceito que menospreza as mulheres, mas nada a impediu de seguir em frente em sua carreira e trabalhar no projeto SETI (Search for Extra-Terrestrial Intelligence, “Busca por Inteligência Extraterrestre”). Especificamente, foi para o Novo México, onde aguardou pacientemente a aparição de uma mensagem extraterrestre a ser captada por rádio-telescópios.

Seu envolvimento com o SETI, contrariando o menosprezo geral pelo programa e o pouco apoio do governo, a tornou responsável pela descoberta de uma mensagem vinda do espaço. No entanto, a mensagem era tão longa que foi necessário mobilizar radiotelescópios de todo o mundo, pois à medida que as ondas eletromagnéticas chegavam, vindas do sistema da estrela Vega, a Terra continuava sua rotação.

A mensagem é na verdade um conjunto de quatro mensagens. A primeira é uma sequência de pulsos que representam mais de duzentos números primos. Considera-se que não há na natureza nenhuma possibilidade de uma formação espontânea de números primos. A formação perfeitamente regular de pulsos vindos de pulsares é um fenômeno natural, mas os números primos são resultado de elaborações matemáticas artificiais, o que dá a esses números o indício de uma inteligência por trás de sua produção.

A partir daí tem início uma discussão, que continua ao longo da história, sobre as possibilidades da existência e das forma de vida extraterrestre. Especulações, baseadas nos nossos conhecimentos científicos atuais (ou melhor, da época em que foi escrito o livro), dão forma a uma excelente obra de ficção científica, apresentando uma possibilidade muito mais realista de contato com seres de outro planeta do que a maioria dos livros e filmes, que fazem mais uma mistura de fantasia com sci-fi. Além disso, os diálogos de Contato estão repletos de informações triviais sobre diversos campos da Ciência, e o romance é uma ótima fonte sobre o pensamento científico e seu saber, carregando não só um caráter literário.

A segunda mensagem, que aparece na forma de modulação de polarização, ou seja, as ondas eletromagnéticas que formam a mensagem têm as rotações artificialmente produzidas, revelam um vídeo que, quando “traduzido”, mostra Adolf Hitler dando as boas-vindas para as Olimpíadas de Berlim em 1936. Como se trata da primeira transmissão televisiva terráquea com força suficiente para escapar da ionosfera, foi também uma forma de os extraterrestres responderem. Ou seja, a mensagem, que se descobre vir da direção da estrela de Vega, foi direcionada para nossa direção e não tem um trajeto aleatório.

A imagem de Hitler tem sentido ao considerarmos que ela foi a primeira transmissão de longo alcance, e não faz nenhum sentido para os extraterrestres, que não podem saber que se trata de um ditador odiado por grande parte dos terráqueos. Mas a maioria dos políticos que tomam conhecimento do vídeo, inclusive a presidenta dos EUA, não entendem isso e relutam muito em divulgá-lo, até serem convencidos pelos cientistas de que os extraterrestres certamente não são nazistas.

O conflito entre cientistas/Ciência e políticos/Política se apresenta várias vezes durante a história, mostrando uma diferença entre os interesses por trás dos atos dos governos e o desinteresse da busca por conhecimento, ao mesmo tempo defendida e relativizada por Sagan. Essa relativização política também aparece destacada nos diálogos entre Ellie, uma norte-americana defensora do Capitalismo, e seu amigo russo Vaygay, defensor do Comunismo. Suas conversas os fazem repensar as vantagens e desvantagens de seus respectivos sistemas de governo.

Após essa polêmica, a pesquisa sobre a transmissão continua, com o descobrimento de uma terceira mensagem, que mostra milhares de páginas com diagramas, percebidas como instruções para a construção de uma máquina. No mundo todo, as pessoas têm acesso a impressões dessa mensagem em grossos volumes, e começa uma busca pelo seu deciframento.

Aqui se vê uma mensagem de Sagan para os habitantes da Terra: é necessária a cooperação entre todos os povos humanos para nos desenvolvermos enquanto humanidade. A perspectiva de entrarmos em contato com uma civilização extraterrestre pode vir a ser uma força propulsora para resolvermos nossos problemas de etnocentrismo, preconceitos e qualquer divisão arbitrária entre seres humanos. Como disse Isaac Asimov, em Civilizações Extraterrenas,

O simples pensamento de outras civilizações mais avançadas que a nossa, de uma Galáxia cheia dessas civilizações, só pode colocar em relevo a mesquinhez de nossas disputas e nos envergonhar, incentivando-nos a fazer tentativas mais sérias no sentido da cooperação.

Todavia, nem todo o mundo está otimista com esse projeto mundial. Aliás, muita gente considera que é um plano perigoso juntar esforços internacionais, como alguns americanos que não confiam na necessidade de trabalharem com os russos, e vice versa. Sobretudo, a maior polêmica é a bandeira levantada por muitos religiosos, que consideram arriscado seguir uma mensagem que ninguém sabe se provém de Deus ou do Diabo. E há ainda aqueles que temem a possibilidade de a máquina servir, na realidade, para a dominação dos humanos pelos “veganos”.

Num diálogo muito interessante entre, por um lado, Ellie e Ken Der Heer e, por outro, os pastores evangélicos Billy Jo Rankin e Palmer Joss, Sagan critica a posição de alguns cientistas que arrogam a Ciência de maneira fundamentalista, ao mesmo tempo em que mostra que há religiosos ponderadamente favoráveis à Ciência. Sagan relativiza sua própria posição de cientista dentro dos debates entre Ciência e Religião.

(Percebemos que vários episódios da história podem ter tido como base a experiência de Sagan como cientista. A partir da leitura desse livro, compreendemos melhor a relação entre cientistas, políticos, religiosos e empresários, e como é difícil evoluir como sociedade se mantivermos uma postura fechada ao diálogo e à mudança. É claro que o desejo de mudança é a tônica da obra de Sagan, e não são todos os interlocutores que a querem.)

O deciframento não vai muito bem, com pouco ou quase nenhum avanço, e Ellie começa a ficar frustrada. Num importante contato com o industrialista milionário S. R. Hadden, Ellie tem acesso à quarta mensagem, decifrada por ele. Trata-se, finalmente, da chave que permite a tradução das instruções para a construção da máquina.

A participação de Hadden no projeto provoca uma reação negativa por parte de fundamentalistas. Hadden é dono de um complexo chamado Babilônia, onde se encontram cassinos e bordéis, mal-vistos pelos cristãos puritanos dos EUA, e que já sofreram ataques de vândalos moralistas. Isso torna o projeto da máquina um alvo de críticas ferrenhas por parte de religiosos, que desconfiam que a máquina representa uma ameaça apocalíptica.

A construção finalmente tem início e é empreendida por uma força-tarefa internacional. Várias indústrias são criadas para a fabricação de partes da máquina totalmente inusitadas para a tecnologia humana. Como o modelo da máquina mostra cinco assentos a ser ocupados quando de sua ativação, decisões políticas são feitas e, após alguma polêmica quanto à representatividade na escolha de quem vai entrar na máquina e representar a humanidade no experimento, são escolhidos cinco cientistas: um norte-americano, David Drumlin, professor de Ellie e coordenador do SETI; um nigeriano; uma indiana, um chinês e um russo. A escolha de Drumlin ao invés de Ellie a deixa frustrada, pois ela se sente merecedora, por todo o seu trabalho.

Nesse ponto vemos a cooperação e a escolha de representantes de vários povos como o resultado positivo do projeto que envolveu várias partes da humanidade. Além de representarem povos, também representam várias áreas do conhecimento humano, todas importantes para a humanidade. Todos esses cientistas não professam nenhuma religião, numa perspectiva de que as crenças são supérfluas diante da imensidão do Cosmo, onde habitam seres cujas doutrinas religiosas podem ser tão diferentes das nossas quanto um ser humano é de uma lesma-do-mar.

No entanto, uma sabotagem, provavelmente de algum fundamentalista religioso contrário ao projeto, explode grande parte da máquina antes que sua ativação fosse realizada, e Drumlin morre no acidente. Essa é a chance de Ellie, e ela substitui seu professor. Porém, a reconstrução da máquina levaria meses para ser realizada. Mas eles têm uma surpresa ao receber a informação de que há outra máquina, escondida do público, pronta para ser usada.

Os cinco representantes finalmente entram  na máquina e esta é ativada. Ninguém ao longo do romance sabia o efeito que a ativação da máquina traria, sendo a hipótese mais sustentada a de que se tratava de uma cápsula que viajaria até o planeta de onde proveio.

Para os cientistas que entraram nela, pareceu que eles fizeram uma longa viagem pelo espaço. As paredes da cápsula ficaram invisíveis, e eles puderam ver um percurso que lhes deram a impressão de buracos de minhoca, fazendo diversas paradas em espécies de estações que ligam diversos pontos da galáxia. Enfim parando numa praia com aparência bem terráquea, os tripulantes passaram praticamente um dia conversando e aproveitando o ambiente. Então passaram por uma interessante experiência em que encontraram e conversaram com pessoas importantes de suas vidas, já falecidas, na verdade alienígenas transfigurados, que lhes responderam perguntas sobre aspectos obscuros para a ciência humana.

Para as autoridades, agentes e auxiliares que acompanharam o experimento do lado de fora da máquina, não passaram mais do que alguns segundos entre a entrada e a saída das cobaias da cápsula, o que trouxe a preocupação dos governos dos respectivos países em divulgar ou não os relatos de cada cientista. Por fim, nada foi dito, a não ser que a máquina não funcionou.

Vemos que há certas coisas que ainda são incompreensíveis mesmo para a Ciência humana mais avançada. Alguns continuam a chamar essa parte inescrutável do universo de Deus. Mas para o cientista se trata de uma busca interminável por explicações para os fenômenos da natureza. Essa busca é representada pelo desfecho da obra, quando Ellie, por sugestão de um dos alienígenas que encontrou na viagem, programa um computador para procurar uma mensagem na dízima infinita do número π (pi), em várias escalas, não só a decimal.

Palmer Joss, o pastor com quem Ellie chega a iniciar uma paquera no final da história, e com quem provavelmente vem a ter um caso depois, é quem a incentiva a continuar a busca pela mensagem oculta no π. Ela acaba encontrando um trecho da dízima, em escala undecimal (11), que, quando organizado em várias linhas de um determinado número de algarismos, formam a figura de um círculo.

Este talvez seja o único ponto da história que me desapontou, pois sugere que há um Criador que deixou, em algum lugar na natureza, sua assinatura. Mas também é uma forma interessante de retomar uma discussão levantada por Ellie no diálogo com Joss e Rankin. Ela havia questionado a razão de Deus não ter deixado uma mensagem clara para humanidade sobre sua existência, recorrendo, supostamente, a um livro sagrado que só uma pequena parte do mundo conhece. Ela encontra essa “prova” num lugar inusitadíssimo. Mas, embora seja imptovável (por enquanto) descobrir se realmente existe uma mensagem desse tipo, é remotamente possível que, se existir, ela seja aleatória.

De qualquer forma, a relação de Ellie com Joss trouxe mudanças significativas para ambos. Enquanto ele passa a dar mais valor à Ciência e ao conhecimento científico, ela descobre que ainda não tinha tanta segurança em sua postura de cientista, sendo uma carreira buscada mais para satisfazer um problema pessoal familiar. A “mensagem” do π, que não é lida por Ellie no final do livro (devido a um momento de tristeza ao descobrir que seu padrasto é na verdade seu pai e que aquele que a criou como pai é seu padrasto), talvez signifique a necessidade de ponderar sentimentos e razão na busca da verdade, seja na Ciência, seja na vida.

Contatos imediatos – parte 3

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Na primeira e na segunda parte de Contatos Imediatos, fiz extensos comentários sobre algumas observações de Stephen Hawking a respeito da possibilidade de vida extraterrestre (trechos retirados do site The Daily Galaxy). Discorri sobre as possibilidades advindas da mera especulação sobre as naturezas dos seres vivos extraterrestres, pensando nas inúmeras possibilidades cósmicas.

Em seguida, explorei as probabilidades e improbabilidades de encontrarmos outros seres vivos fora da Terra, de reconhecermos que são mesmo seres vivos (ou de sermos reconhecidos), de eles terem inteligência como a nossa (ou diferente da nossa) e das possíveis  dificuldades na comunicação e compreensão entre espécies de planetas diferentes. Mas, e se nosso primeiro contato for uma catástrofe?…

Considerando a possibilidade de o surgimento da vida inteligente ser bastante provável, Hawking especula que, em algum ponto de seu desenvolvimento tecnológico,

the system becomes unstable, and the intelligent life destroys itself. This would be a very pessimistic conclusion. I very much hope it isn’t true.

[o sistema se torna instável, e a vida inteligente destrói a si mesma. Esta seria uma conclusão muito pessimista. Eu espero que não seja verdadeira.]

Essa é uma preocupação que concerne aos próprios seres humanos. Se o ponto ambiental crítico a que chegamos for uma constante para outras espécies inteligentes em outros astros, é possível que muitas delas já tenham se extinguido e se destruam antes de realizar viagens interplanetárias.

O tema da autodestruição tem uma ligação com o pensamento escatológico cristão (que herdamos do Zoroastrismo). A crença num fim do mundo, compartilhada pelo Cristianismo (com seu Apocalipse), pelo Islamismo e até pela religião escandinava (com seu Ragnarok), entre outras, chega a nossos dias modificada pelas preocupações com a guerra (o horror nuclear que ameaçava explodir o planeta) e com o meio ambiente (muitos cientistas consideram que o ser humano tem a capacidade de causar uma destruição em larga escala do ecossistema e de sua própria espécie.

No novo mito apocalíptico (que recentemente recebeu contribuições da mitologia maia, com a má interpretação sobre um final de uma era, interpretada pelos ocidentais como sinônimo do fim do mundo), o fim da humanidade, ou o fim da biosfera terrestre, ou até o fim do planeta Terra, serão causados pela própria irresponsabilidade humana.

Dois filmes recentes sobre extraterrestres tematizam essa preocupação com a autodestruição, de duas formas diversas e um tanto opostas.

Em Distrito 9 (District 9, 2009) (veja minha resenha aqui), uma raça extraterrestre apelidada pelos humanos de “camarões” chega à Terra numa nave espacial, sobrevoando Johannesburgo (no país onde está ocorrendo a Copa do Mundo). Não se sabe bem o que ocorreu com os alienígenas, que chegam famélicos à Terra, desamparados e sem rumo. Uma das interpretações possíveis é que eles exauriram seu planeta-natal e não tiveram opção senão ir embora, à procura de um novo lar.

Distrito 9

Em Distrito 9, alienígenas high-tech depauperados são acolhidos e explorados pelos seres humanos da África do Sul, à maneira de estrangeiros indesejáveis, tais quais os judeus e os ciganos

Já em Avatar (2009) (veja minha resenha aqui) são os próprios humanos que exauriram seu mundo e saem à procura de outra fonte de energia (no caso, o satélite Pandora, do planeta Polifemo, numa das estrelas de Alfa Centauro). Há um conflito com os na’vi, nativos de Pandora, que vivem em harmonia com a natureza de seu mundo e cujo modo de vida se choca com os interesses exploratórios dos humanos.

Isso nos leva à observação mais polêmica de Hawking sobre esse tema. Ele considera que é possível que a existência dos humanos tenha sido ignorada por outras espécies inteligentes. Segundo ele, se nós viermos a captar sinais de vida inteligente vinda do espaço,

we should have be wary of answering back, until we have evolved [a bit further].

[deveríamos ter cautela ao responder, até que evoluamos [um pouco mais].]

Um encontro entre os atuais humanos e uma civilização mais avançada

might be a bit like the original inhabitants of America meeting Columbus. I don’t think they were better off for it.

[poderia ser mais ou menos como os habitantes originais da América encontrando Colombo. Não acho que eles tenham tirado bom proveito disso.]

A história humana está recheada de episódios e e narrativas épicas encenadas por grandes impérios e povos subjugados. Os relatos dos vencedores são geralmente imbuídos de um caráter heroico e grandioso, enfatizando a prevalência da civilização e seus valores morais “superiores” sobre a barbárie com sua vida degenerada.

O Império Egípcio unificou os povos nilóticos, desde o delta do Nilo até sua nascente. Alexandre foi aclamado por fundar várias Alexandrias ao redor do mediterrâneo. O Império Romano latinizou quase tudo aquilo que conhecemos hoje como Europa. Gêngis Khan saiu da extremidade leste da Ásia e conquistou tudo até parar em Viena. O Império Britânico ensinou inglês ao “Oriente”, à África e à América. Os Estados Unidos da América vestiram o mundo com jeans, viciaram-no com MacDonald’s e balançaram a terra com o rock and roll.

A história contemporânea mostrou a situação dos povos subjgugados, massacrados, mortos às centenas, aos milhares, obrigados a servir uma autoridade estrangeira, a reverenciar deuses estranhos, a enrolar a língua para falar idiomas alienígenas. Os projetos imperialistas da história humana foram sempre pautados no etnocentrismo, na supervalorização da cultura daqueles que os empreenderam e no desfalque da cultura e vida dos povos espoliados.

A colonização se faz de pelo menos duas formas: 1) a destruição da população local para a exploração dos recursos naturais e 2) a imposição da obediência e/ou de uma cultura nova aos nativos. Normalmente, as duas coisas acontecem ao mesmo tempo e representam de duas formas a anulação e o desrespeito à diferença.

Os destruidores de mundos

Guerra dos Mundos

O veículo dos invasores do espaço em Guerra dos Mundos; ilustração de Alvim Corréa

Essas duas formas de se tratar os povos conquistados são a fonte básica para a fantasia que criamos sobre os alienígenas vindos do espaço. Em alguns casos (como em Independence Day (1996) e Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 2005)), os extraterrestres high-tech pretendem destruir completamente o planeta invadido, neste caso a Terra, seja por mera crueldade, seja para habitá-lo e/ou explorá-lo.

A destruição de uma espécie alienígena, seja qual for o motivo, só é justificada por uma moral que desconsidera o direito à vida daqueles que são diferentes de nós, ou por serem um empecilho ao desenvolvimento de uma civilização com valores superiores, seja por se os considerar animais inferiores que só servem como matéria-prima (como gado para se comer ou para dar couro).

Será que uma espécie que alcance a tecnologia necessária para viajar a outros planetas não desenvolve também uma ética mais evoluída? Se olharmos para nós mesmos, que tanto erramos em nosso passado, não estamos na iminência de uma decisão global para manter nosso próprio planeta vivo? E essa decisão não depende de uma ética mais universalista? Essa ética deverá ser herdada por nossos descendentes da aldeia global, o que talvez aconteça em outros planetas que passam ou passaram por um processo semelhante.

Talvez a conduta dos humanos em Distrito 9 e Avatar seja condizente com a forma de a humanidade reagir hoje em dia, e talvez a abordagem de alguns grupos e indivíduos humanos seja antiética mesmo num contexto social em que domine uma ética mais desenvolvida. Mas penso que, se os humanos viajassem a outros planetas, estariam já num estágio social e cultural que os levariam a tomar muito cuidado no contato com outros mundos habitados.

Os colonizadores de planetas

Cor e Kirk

O representante do Império Klingon e o da Federação, num conflito de interesses sobre o destino do planeta Organia

Em outros casos, como no episódio Missão de Misericórdia (Errand of Mercy, 1967), de Jornada nas Estrelas, a espécie invasora quer apenas anexar o planeta invadido ao “território” de seu império, obrigando aquele a servir este (neste caso, o Império Klingon, cujos interesses se chocam com os da Federação Unida de Planetas, que deseja a aliança do planeta Organia).

Essa situação é explicitamente baseada na Guerra Fria, em que duas superpotências planetárias disputam o mundo e vivem na expectativa paranoica de que o rival pode tomar o primeiro passo numa guerra de proporções hercúleas, o que justificaria a estocagem preventiva de armas. Essa paranoia belicista sempre existiu desde que há povos falando idiomas diferentes, líderes acumulando poder e terra com recursos naturais sendo disputada. E não é difícil imaginar de onde vem a inspiração para as histórias que descrevem uma inevitável guerra entre espécies de planetas distintos.

Os humanos seriam um risco para os extraterrestres?

Se de repente tivéssemos à nossa disposição, hoje, uma tecnologia capaz de nos levar a outro planeta, uma pequeníssima parte da humanidade participaria dos projetos de exploração espacial, pelos seguintes motivos:

  1. Alguns povos e países não têm condições nem interesse em participar de projetos científicos internacionais;
  2. Os povos e países que têm essas condições têm um contingente da população socialmente excluído;
  3. Nem todos os indivíduos da população não-excluída são interessados nesses projetos, e alguns até se oporiam a eles.

Ou seja, a humanidade ainda não é coesa o suficiente para que concebamos um “projeto humano” de exploração espacial, e qualquer delegação humana que viesse a entrar em contato com extraterrestres não representaria a humanidade como um todo.

Porém, na ficção científica, às vezes se vislumbra a unificação da humanidade a partir do desenvolvimento tecnológico. Em Contato, de Carl Sagan, por exemplo, a construção de uma máquina (cujo projeto foi enviado por uma mensagem alienígena), envolvendo esforços de vários países da Terra, aproxima povos que costumavam ser rivais. Em outro momento, o autor narra que várias pessoas abastadas passaram a viver em estações espaciais, o que tem um efeito interessante sobre suas mentes: elas passam a ser menos nacionalistas e a se considerar pertencentes a uma espécie planetária. Ao ver a Terra de longe,

As fronteiras nacionais são tão invisíveis quanto os meridianos ou os Trópicos de Câncer e Capricórnio. As fronteiras são arbitrárias. O planeta é real.

No filme Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato, entende-se que a descoberta de uma tecnologia que permite viajar mais rápido do que a luz e o consequente contato com uma espécie alienígena significariam o início da resolução de todos os problemas sociais do mundo terráqueo, com a união de toda a humanidade frente à vastidão do espaço sideral.

Space Invaders

A ideia de invasores do espaço se baseia no belicismo da própria espécie humana

Se soubéssemos que é grande a probabilidade de tudo vir a ocorrer dessa forma para nós, teríamos bons motivos para ser otimistas em relação a espécies alienígenas mais avançadas tecnologicamente do que nós, pois seria provável que quaisquer problemas sociais, econômicos, étnicos etc. estariam resolvidos em qualquer planeta que viesse a viajar a outros mundos. Ou seja, neste sentido, seria muito provável que uma espécie na era das viagens interplanetárias já tivesse uma ética mais desenvolvida do que a que atualmente temos na Terra, o que quereria dizer que os riscos de sermos vítimas de uma invasão aniquiladora ou colonizadora seriam pequenos.

Praticamente toda especulação que se pode fazer sobre os possíveis riscos de um contato entre humanos e uma espécie extraterrestre inteligente é baseada em nossa própria experiência passada. As guerras entre povos, o etnocentrismo, a intolerância, a segregação, o racismo, a opressão imperialista, tudo isso nos faz pensar em extraterrestres invasores e numa inevitável guerra contra eles.

Mas um vislumbre utópico de nosso futuro, baseado nas mudanças que já houve desde há muito tempo em nossa história até os dias de hoje, podem nos dar uma perspectiva otimista sobre os possíveis alienígenas ultra-tech que venham a se encontrar conosco. A única coisasensata que podemos fazer a respeito disso tudo é nos tornarmos uma espécie melhor, mais integrada e unida, mais respeitosa perante a diversidade biológica cósmica.

Continua

Continua…

Contatos imediatos – parte 2

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Em Contatos imediatos – parte 1, comentei algumas observações de Stephen Hawking a respeito da probabilidade da existência de seres vivos extraterrestres e das possibilidades de sua natureza. É improvável que a Terra seja o único astro da galáxia a ter vida, e é possível que esta se manifeste de várias formas.

Dando continuidade aos meus comentários ensaísticos sobre as observações de Hawking (retiradas diretamente de um post do site The Daily Galaxy), faço mais algumas especulações sobre as probabilidades e possibilidades da vida extraterrestre, de esta vida vir a desenvolver inteligência e de esta inteligência assumir várias naturezas, reportando-me a referências da Ficção Científica e da Antropologia.

Hawking certa vez questionou:

What are the chances that we will encounter some alien form of life, as we explore the galaxy?

[…] there ought to be many other stars, whose planets have life on them. Some of these stellar systems could have formed 5 billion years before the Earth. So why is the galaxy not crawling with self-designing mechanical or biological life forms?

[Quais são as chances de nós encontrarmos alguma forma de vida alienígena quando estivermos explorando a galáxia?

[…] deve haver muitas outras estrelas cujos planetas tenham vida. Alguns desses sistemas estelares podem ter se formado 5 bilhões de anos antes da Terra. Então por que a galáxia não está infestada por formas de vida mecânicas ou biológicas autoprojetadas?]

Boa pergunta. Mas uma coisa que me vem à mente é o tamanho dos seres vivos da Terra, minúsculos em comparação com o tamanho dos astros. Já os astros são minúsculos em comparação com a quantidade de espaço vazio que existe na Via Láctea. Se houver um planeta habitado em cada constelação, destes apenas alguns teriam forma de vida inteligente, e destes apenas alguns teriam alcançado a Era Espacial, e destes só uns poucos conseguiriam viajar a uma velocidade com que valesse a pena explorar outras constelações.

Outra variável a ser considerada no “cálculo” acima é a sobrevivência dos extraterrestres antes de poderem fazer viagens interplanetárias. Se seres inteligentes chegarem a um ponto semelhante ao que chegamos na Terra, arriscando-se a exaurir os recursos naturais de seu planeta, eles podem vir a destruir seu mundo, e provavelmente não os encontraremos vivos.

Assim, a probabilidade de criaturas minúsculas vagando em tanto espaço vazio se encontrarem é também bem reduzida. E nós nem sabemos com certeza ainda se iremos um dia realmente viajar na velocidade da luz ou dobrando o espaço.

A pequenina nave espacial Discovery perdida na imensidão do espaço; análogo a um átomo, o Sistema Solar é, na maior parte, espaço vazio (a distância entre o Sol e os planetas está fora de escala - eles são bem mais espaçados -, mas os tamanhos estão)

A pequenina nave espacial Discovery perdida na imensidão do espaço; análogo a um átomo, o Sistema Solar é, na maior parte, espaço vazio (a distância entre o Sol e os planetas está fora de escala – eles são bem mais espaçados -, mas os tamanhos estão na escala correta)

Apenas com uma tecnologia capaz de detectar numa determinada seção tridimensional do espaço qualquer objeto do tamanho de um ônibus espacial ou maior poderia resolver esse problema (afinal, detectar com radar um jato no céu é uma coisa, mas detectar uma nave espacial no espaço sideral é bem diferente… ou não?). Como não sei se essa tecnologia existe, não sei se seria tão fácil assim ver uma nave se aproximando da Terra, se ela tiver o tamanho, por exemplo, da Discovery.

I discount suggestions that UFO’s contain beings from outer space. I think any visits by aliens, would be much more obvious, and probably also, much more unpleasant.

[Eu descarto as sugestões de que os ÓVNIs contenham seres do espaço sideral. Acho que quaisquer visitas de alienígenas seriam muito mais óbvias e, provavelmente, muito mais desagradáveis.]

Talvez sim, talvez não. Talvez nós precisássemos de muito tempo observando e avaliando um planeta habitado antes de aterrissar, se chegássemos a encontrar um. Há muitos possíveis riscos, como doenças desconhecidas que podem ser mortais (que foi a causa da ruína dos marcianos em A Guerra dos Mundos), plantas e/ou animais cujos corpos são venenosos para certos visitantes do espaço, ou até mesmo uma reação violenta e intolerante por parte dos nativos.

Dito isso, podemos imaginar que, se alguns dos ÓVNIs avistados da Terra são naves extraterrestres, seus tripulantes tomariam essas mesmas precauções antes de pousar na superfície terráquea. Isso sem considerar uma ou outra espécie com tendências mais arredias ou paranoicas. Isso tudo explicaria porque é tão difícil ver ETs na superfície terrestre.

Por outro lado, possíveis problemas técnicos por parte dos tripulantes extraterrestres já deveriam ter ocasionado alguma aparição mais evidente, no meio de uma cidade populosa, por exemplo. No entanto, essas aparições, se em alguns casos forem mesmo alienígenas do espaço, acontecem na zona rural ou em locais ermos, sem grande concentração populacional humana, e as testemunhas sempre são escassas.

Porém, quase todos os relatos impactantes conhecidos de pessoas que dizem que viram e/ou encontraram extraterrestres são envoltos em mistério e confusão, além de serem abafados pelas autoridades militares. O ET de Varginha foi visto por um militar, que deu um depoimento à mídia, mas pouco tempo depois desmentiu tudo o que disse à mesma mídia.

Uma outra possibilidade para a dificuldade da obviedade de um encontro com uma espécie extraterrestre é ela ser composta de matéria num estado sutil ou em outra dimensão, ou ainda serem muito pequenos. Pode ser até que nem consideremos os alienígenas como seres vivos, e os confundamos com robôs (como no filme O Milagre Veio do Espaço) ou até com naves espaciais (como no primeiro episódio de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração).

 

O Milagre veio do Espaço

No filme O Milagre veio do Espaço, humanos conhecem uma forma de vida não-orgânica, que mais nos parecem robôs

What is the explanation of why we have not been visited? One possibility is that the argument, about the appearance of life on Earth, is wrong. Maybe the probability of life spontaneously appearing is so low, that Earth is the only planet in the galaxy, or in the observable universe, in which it happened. Another possibility is that there was a reasonable probability of forming self reproducing systems, like cells, but that most of these forms of life did not evolve intelligence.

[Qual é a explicação para nós não termos sido visitados? Uma possibilidade é que o argumento sobre a aparição da vida na Terra está errado. Talvez a probabilidade de a vida aparecer espontaneamente seja tão baixa que a Terra é o único planeta na galáxia, ou no Universo visível, no qual isso aconteceu. Outra possibilidade é que houve uma razoável probabilidade de se formarem sistemas autorreprodutivos, como células, mas que a maioria dessas formas de vida não desenvolveu inteligência.]

Essa é uma possibilidade que temos que considerar. Porém, em termos puramente físicos, astronômicos e bioquímicos, alguns cientistas, como Carl Sagan, concordam que é improvável, pelas dimensões do Universo, que não exista vida fora da Terra. Mas que essa vida tenha evoluído para um estágio de inteligência como a conhecemos na Terra, ou até superior a ela, é uma outra possibilidade.

It took a very long time, two and a half billion years, to go from single cells to multi-cell beings, which are a necessary precursor to intelligence. This is a good fraction of the total time available, before the Sun blows up. So it would be consistent with the hypothesis, that the probability for life to develop intelligence, is low. In this case, we might expect to find many other life forms in the galaxy, but we are unlikely to find intelligent life.

[Levou muito tempo, dois e meio bilhões de anos, para células simples evoluírem para seres pluricelulares, que é um precursor necessário para a inteligência. Esta é uma boa fração do tempo total disponível antes que o Sol exploda. Então isso seria consistente com a hipótese de que a probabilidade da vida desenvolver inteligência é baixa. Neste caso, deveríamos esperar encontrar muitas outras formas de vida na galáxia, mas é improvável que encontremos vida inteligente.]

Nós temos um conceito de vida muito restrito aos parâmetros terráqueos, àquilo que conhecemos na superfície do terceiro planeta do Sistema Solar. E temos padrões mais restritos ainda para o que concebemos como vida inteligente.

A vida celular foi o que vingou na Terra, e talvez não houvesse muitas outras possibilidades neste ambiente. Mas o vírus é uma forma de vida não-celular, que talvez tivesse mais possibilidades de diferenciação num planeta diferente, e talvez até viesse a evoluir e alcançar o status de vida inteligente em outras paragens do Cosmos.

A vida pluricelular também deve ter sido o mais adequado para as condições deste planeta. Mas  não seria possível que, em determinadas condições, uma espécie unicelular evoluísse de modo a crescer mais e mais, se diferenciando cada vez mais em suas organelas e assumindo uma forma macroscópica com um sistema interno próprio ao desenvolvimento da inteligência? O sistema neurológico é a única estrutura que a natureza poderia ter encontrado para desenvolver cérebros?

Toda essa especulação vai no sentido de vislumbrar uma forma de vida com inteligência da maneira como entendemos esta. Por mais que façamos abstrações, a cognição humana pode ser apenas uma de inúmeras possibilidades.

A organização do pensamento humano tem uma especificidade que advém da peculiaridade da experiência do Homo sapiens. Grande parte da forma como o ser humano representa o mundo, o compreende e o interpreta é resultado de um modo peculiar de percebê-lo e de interagir com ele. É o que mostra Gilbert Durand no livro As Estruturas Antropológicas do Imaginário: aprender a se erguer e caminhar nos faz valorizar e desvalorizar de uma certa forma as noções de cima e baixo, de subida e descida; o impulso e o ato de comer e a sexualidade nos fazem entender de uma certa maneira nossa animalidade e os conceitos de dentro e fora. A especificidade dos sentidos humanos também influenciam essas valorizações, de modo que, por exemplo, a luz se torna um conceito/imagem extremamente importante nas metáforas sobre o conhecimento do mundo, já que a visão é um dos, se não o mais, sentidos mais importantes do Homo sapiens.

Uma espécie sem visão, que pautasse a maior parte de suas percepções do mundo na audição, por exemplo, da forma como um morcego “enxerga” (e da forma como o super-herói Demolidor (Daredevil), da Marvel, “vê”, usando uma audição aguçadíssima), poderia construir o entendimento (interessantemente, o verbo entender é cognato do francês entendre, que significa “ouvir”) do mundo com base em metáforas que incluem a ideia de voz, de música, de melodia, e poderia, ao invés de textos para serem lidos, gravarem seus conhecimentos em meios auditivos. Como deve ser a cognição de um rapaz cego que se localiza no espaço através de ecolocalização, se a compararmos com o pensar de uma uma pessoa vidente?

Além disso, se buscarmos as variações da própria espécie humana, veremos como às vezes é difícil traduzir os modos de pensar de povos com cultura diferente da nossa. Essa tentativa de compreender a linguagem, o pensamento, a cosmologia e a cultura do outro é o principal esforço das obras etnográficas de autores como Bronislaw Malinowski, Ruth Benedict, Claude Lévi-Strauss e todos os antropólogos que viveram entre alienígenas e escreveram sobre suas experiências.

Se muitas vezes é preciso ficar imerso na cultura do outro humano por um bom período até se entender seu modo de viver e pensar, imaginemos como seria hercúleo o esforço para compreender a cultura de uma espécie nascida num planeta diferente, com composição química diferente, aparência diferente, modos de se comunicar diferentes.

Ora, demoramos tanto tempo para descobrir uma fração da inteligência dos golfinhos, uma das espécies mais inteligentes no planeta Terra. Douglas Adams, em O Guia do Mochileiro das Galáxias, mostra de forma bem-humorada como é difícil uma espécie chegar a compreender a inteligência de outra. Na história, os golfinhos, a segunda espécie mais inteligente da Terra (antes dos humanos,a terceira, e depois dos ratos), sabiam que a Terra estava prestes a ser destruída, mas não conseguiram avisar os humanos, que interpretaram sua mensagem como piruetas divertidas. Vejam o trecho inicial do filme inspirado no livro:

Podemos então vislumbrar espécies extraterrestres tão díspares daquilo que consideramos vida inteligente que teríamos dificuldade até de reconhecer que são inteligentes, como a criatura de silício encontrada por Kirk e Spock, descrita na primeira parte deste texto. Assim, qualquer primeiro contato entre duas espécies inteligentes está sujeita a muitos mal-entendidos.

Esse foi o tema de um episódio da série televisiva Babylon 5, em que a origem da guerra entre humanos e minbari é explicada: em seu primeiro contato, uma nave humana encontrou uma nave minbari, cujos tripulantes ativaram as armas da nave, que para eles é um sinal de respeito (algo como tirar a espada da bainha e pô-la no chão, significando a intenção de não entrar em conflito). Os humanos interpretaram o gesto como uma ofensiva, e teve início um longo conflito.

Há assim muitos motivos para ter cautela nos contatos com extraterrestres, e sobre isso me delongarei na próxima parte de Contatos Imediatos.

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Contatos imediatos – parte 1

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Stephen Hawking disse recentemente que é no mínimo bastante improvável que a Terra seja o único planeta onde tenha surgido vida, já que estamos num Universo com 100 bilhões de galáxias, cada uma com centenas de milhões de estrelas. De fato, a pretensão de que somos o ápice da “Criação” só se justifica na ignorância sobre os atuais conhecimentos da Astronomia.

Em certa época, não se sabia que as estrelas eram corpos celestes gigantescos com astros menores ao redor de si, nem se tinha ideia da quantidade de estrelas da nossa galáxia e tampouco que Andrômeda era uma outra galáxia como a nossa e que havia muitíssimo mais delas no Universo.

Hawking disse ao jornal britânico The Sunday Times:

To my mathematical brain, the numbers alone make thinking about aliens perfectly rational, The real challenge is working out what aliens might actually be like.

[Para o meu cérebro matemático, os números por si mesmos tornam perfeitamente racional pensar na existência de alienígenas. O verdadeiro desafio é imaginar qual seria a real natureza dos alienígenas.]

Capitão Kirk no planeta Vulcano, durante o pon farr de Spock

Capitão Kirk no planeta Vulcano, durante o pon farr de Spock

Tendo em vista o escassíssimo conhecimento sobre vida extraterrestre, não dá para ir muito mais longe do que a especulação. Apenas sabemos um pouco sobre as condições materiais e climáticas de alguns corpos celestes. Naqueles raros que possuem características semelhantes às da Terra (que na ficção científica de Jornada nas Estrelas são chamados de “Classe M”), pode-se imaginar um tipo de vida baseado em água e carbono que talvez se assemelhe às espécies do planeta azul. Ou talvez sejam parecidas com estas apenas microscopicamente.

Em planetas com composição, tamanho, órbita e/ou clima diferentes dos da Terra, poderia haver espécies vivas extremamente diversas, quem sabe feitas de metal, como os metalianos de Marcelo Cassaro (Espada da Galáxia), de silício, como as grandes lesmas de Janus VI (Jornada nas Estrelas), ou compostos de matéria mais densa do que a nossa ou até mais rarefeita.

Sr. Spock fazendo uma conexão mental com a criatura de silício de Janus VI

Sr. Spock fazendo uma conexão mental com a criatura de silício de Janus VI

XenomorfoMuitas histórias de ficção científica descreveram uma enorme variedade de espécies vivas com características que, para os padrões humanos, seriam consideradas bizarras. Um exemplo é a xenomorfo, que apareceu pela primeira vez no filme Alien: O Oitavo Passageiro. Ele possui um ciclo reprodutivo bastante complexo, além de ser resistente aos extremos calor e frio e ter sangue altamente corrosivo.

Muitas pessoas relatam contatos com seres de outros planetas. Esses contatos podem ser de dois tipos (considerando a possibilidade ou probabilidade de sua veracidade, excluindo-se mentiras e alucinações):

  1. Contato imediato intrafísico, em que os alienígenas em questão se fazem presentes na dimensão material, com seus corpos físicos;
  2. Contato imediato ou não extrafísico, em que a testemunha vê uma imagem ou encontra, numa projeção da consciência para fora do corpo, um ou mais indivíduos que habitam outro planeta e se apresentam, na dimensão extrafísica, com a forma que possui seu corpo físico (no caso de ainda estar vivo; pode acontecer de ele ter morrido e estar se manifestando apenas extrafisicamente).

Esses encontros de ambos os tipos podem ter inspirado grande parte dos personagens fictícios que encontramos em livros, filmes e séries de TV. De qualquer forma, há muitas especulações, mais ou menos verossímeis, sobre as diversas possibilidades de formas de vida no Universo. Elas podem ter atingido ou não um grau avançado de complexidade mental, social e cultural, podem ser mais animalescas do que nós ou muito mais sofisticadas psiquicamente.

We only have to look at ourselves to see how intelligent life might develop into something we wouldn’t want to meet. I imagine they might exist in massive ships, having used up all the resources from their home planet. Such advanced aliens would perhaps become nomads, looking to conquer and colonise whatever planets they can reach.

[Só precisamos olhar para nós mesmos para ver como a vida inteligente poderia se desenvolver em algo que nós não gostaríamos de encontrar. Imagino que eles devam existir em naves gigantes, tendo esgotado todos os recursos de seu planeta-natal. Esses alienígenas avançados poderia talvez se tornar nômades, procurando conquistar e colonizar qualquer planeta que eles encontrem.]

Se a vida em outro planeta se desenvolver num caminho parecido com o que trilharam os seres vivos da Terra, é razoável pensar que uma espécie alienígena inteligente venha a possuir uma psique parecida com a nossa e desenvolver anseios parecidos com os humanos.

Gilbert Durand, no livro As Estruturas Antropológicas do Imaginário, argumenta que os esquemas básicos do imaginário humano e, portanto, de sua psicologia, apresentam certos elementos fundantes universais (universais no âmbito da espécie humana, claro), baseados na experiência básica comum a todos os indivíduos da espécie, especialmente o impulso e a experiência de se alimentar, o aprendizado de se elevar na postura ereta e andar, e o impulso e a vida sexuais.

Assim, muitas das características que nos tornam humanos deverão estar presentes numa espécie que possui morfologia e fisiologia parecidas com as nossas e um ciclo reprodutivo semelhante. Por outro lado, é verossímil imaginar que espécies possuidoras de uma biologia alienígena para os nossos padrões tenha uma fisiologia psicológica bem diversa, talvez chegando a desenvolver uma cognição equivalente em alguns pontos, mas com processos mentais que funcionam de outra maneira, com desejos e repulsas diferentes dos nossos.

Os klingons gritam quando um dos seus morre, para avisar aos espíritos que um guerreiro terrível agora ronda entre eles

Os klingons gritam quando um dos seus morre, para avisar aos espíritos que um guerreiro terrível agora ronda entre eles

Essas prováveis diferenças na “natureza” mental, cultural, moral e psíquica das espécies alienígenas é muito explorada na série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. É comum, na série, que cada espécie com que os humanos entram em contato estranhe as emoções, os valores, o modus vivendi, a visão de mundo do Homo sapiens, e este age de modo recíproco.

No entanto, toda essa abordagem tem sérias controvérsias. Em Jornada nas Estrelas, cada espécie, inclusive a humana, é tratada de modo extremamente homogêneo, como se não houvesse variações culturais. Dessa forma, a caracterização dos humanos é grandemente baseada nos valores ocidentais, perdendo-se de vista que, por exemplo, existem povos humanos que têm uma cultura parecida com a dos klingons. Estes, por sua vez, compartilham todos o mesmo modo de viver, sem variações análogas à real condição multímoda do Homo sapiens.

Outra controvérsia é a própria visão hominocêntrica de Hawking, que imagina que a forma de encarar o universo de seres inteligentes de outros planetas deva ser a mesma do ser humano. Pode ser que alguma espécie tenha desenvolvido uma ética universalista que os impede de se aproveitar de uma espécie menos ou mais avançada (como a Primeira Diretriz da Federação, em Jornada nas Estrelas). Embora a história humana tenha sido marcada por guerras, espoliações, genocídios e violentas conquistas, é razoável imaginarmos uma situação futura em que essas coisas terão diminuído significativamente. E isso pode acontecer com outras espécies algures, nesta ou em outra galáxia.

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Fonte

O dia em que a Terra parou [Resenha]

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Em plena Guerra Fria, um extraterrestre vem à Terra convocar uma reunião com todos os líderes do planeta, para discutir a ameaça nuclear que as briguinhas da raça humana representa para a humanidade e para povos de outros planetas. Mal-interpretado, ele sofre as consequências daquilo que veio erradicar: a imaturidade belicista do Homo sapiens belicosus.

O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, 1951), dirigido por Robert Wise, roteiro de Edmund H. North, conta a história de uma missão de paz no planeta Terra, confiada ao extraterrestre Klaatu, que pousa com seu disco voador em Washington, DC, EUA, e, ao descer da nave demonstrando intenções pacíficas e um estranho instrumento confundido com uma arma por um soldado humano, é baleado. Ao sinal de perigo, um robô sai da nave e assiste seu mestre, destruindo as armas dos soldados.

Como se o governo tentasse esconder a besteira que fez, leva Klaatu para um hospital do exército, onde ele mostra ter uma saúde e constituição físicas sobre-humanas, recuperando-se rapidamente da ferida da bala. Além disso, possuindo a aparência de um homem humano de uns 35 a 40 anos de idade, revela ter na verdade 78.

Trama 4
Atuação 3
Diálogo 4
Visual 3
Trilha sonora 4
Reflexão 5

Mas não só seu corpo tem a perfeição divina em relação aos padrões humanos. Seus valores morais também são superiores, tanto que ele ordena que o robô Gort pare de destriur as armas dos soldados que tentaram matá-lo. No interesse da harmonia cósmica, ele é integrante de uma raça alienígena superavançada que teme o mal uso da energia nuclear pelos seres humanos, em seus conflitos egoístas e bairristas. Por isso é lógico, para ele, que sua mensagem seja transmitida numa reunião com os líderes de todas as nações da Terra.

Mas o governo norte-americano não pode aceitar essa proposta. Os líderes da Terra estão ocupadíssimos com interesses bélicos que dificultam ou impedem o diálogo. O que para o assessor do presidente dos EUA é um conflito entre o bem e o mal, no qual seu país é o bem e a URSS é o mal, para Klaatu o mal permeira o próprio conflito, o mal está nos dois lados da guerra. O diplomata extraterrestre sente que sua missão tem grandes chances de fracassar.

Felizmente, ele recebe ajuda de uma criança e de um cientista. A pureza do menino o ajuda a entender melhor os seres humanos e a racionalidade ética do prof. Barnhardt permite que ele arranje uma reunião com pensadores de todo o mundo. Infelizmente, seus planos não terminam como esperado. Klaatu é morto pela polícia, ressucitado por Gort, seu robô indestrutível, e deixa para um grupo atônito de cientistas e soldados a mensagem de que o futuro da Terra dependerá de uma escolha que supere os mesquinhos interesses que movem a humanidade a uma guerra iminente.

O que Robert Wise e Edmund H. North trouxeram do espaço?

É animador ver que um diretor norte-americano fez uma história na qual os interesses oficiais de seu próprio país são vistos como algo secundário e a mensagem trazida pelo alienígena, de que há algo muito mais relevante do que pequenos conflitos internos, sobressai.

Já aí, na década de 50, vemos que sempre houve quem vislumbrasse a possibilidade de conseguirmos construir um mundo no qual os interesses da humanidade (e, a posteriori, de todos os povos do Cosmos) seriam unificados. Ao privilegiar uma forma mais universalista, racional e desinteressada de conhecimento, no caso a Ciência, que é o meio de contato inicial entre Klaatu e o prof. Bernhardt, afastamo-nos da Política, forma mais sectarista e interessada de lidar com as relações interconscienciais.

Podemos apreender dessa história a compreensão de que a humanidade ainda está extremamente apegada aos seus valores sectários e à necessidade de defendê-los com a guerra. A ordem coordenada pelas elites das diversas sociedades terráqueas é defendida por quem dela mais se beneficia, mas também por aqueles que estão na base da pirâmide social e que não veem outra realidade possível. A paz oferecida pelos alienígenas é uma ameaça à ordem vigente na Terra.

O contexto em que foi produzido o filme enfatizou a ameaça real da Guerra Fria, o conflito entre EUA e URSS, entre Capitalismo e Socialismo. Mas quando Klaatu fala sobre as infantis brigas que os seres humanos mantêm entre si, podemos levar e trazer essa observação para o passado e o presente da humanidade, de modo que, embora tenham surgido outros tipos de conflitos no planeta desde 1951, a mensagem do filme ainda é a mesma.

“Klaatu barada nikto”

O Dia em que a Terra Parou é um dos grandes marcos da ficção científica, sendo influência significativa para as histórias sobre extraterrestres criadas posteriormente, tanto no cinema quanto na televisão e nos video games.

The Lost Vikings II #copy; BlizzardNo hilário Uma Noite Alucinante 3 (Army of Darkness, 1992), Ash precisa recitar as palavras “klaatu verata niktu” para evitar que a maldição do Necronomicon caia sobre a terra. No entanto, ele se atrapalha com as palavras. Parodiando a paródia, a Blizzard, no jogo The Lost Vikings II, para Super Nintendo, uma bruxa recita palavras parecidas para enviar os vikings por teletransporte, e se atrapalha da mesma forma.

No seriado Mission Hill, um dos personagens descobre que seu vizinho foi o diretor de um pouco conhecido filme de ficção científica no qual um estranho extraterrestre, que lembra muito Gort, desce num disco voador e ameaça a Terra. Quando o garoto resolve exibir o filme no cinema local, todos riem dos efeitos especiais e da interpretação do ator, que era o atual marido do ex-cineasta e que só estrelou porque era namorado do diretor.

Mas a importância maior dessa obra foi quebrar com a tendência de se pensar os extraterrestres como portadores de más intenções, sempre querendo invadir a Terra para colonizá-la ou destruí-la. Neste caso, quem agiu de forma violenta e brutal foram os seres humanos, primitivos demais para entender os propósitos nobres do “homem do espaço”.

Vemos esse tipo de abordagem repetido 15 anos depois na série Jornada nas Estrelas, em que se valorizam as relações diplomáticas entre os povos de planetas diferentes. No seriado Babylon 5, também há uma referência ao filme de Wise: no primeiro contato dos humanos com os minbari, habitantes do planeta Minbar, um gesto de boas intenções do tripulante da nave minbari foi mal interpretado pelos humanos, que iniciaram um ataque que culminou numa guerra. Esta só terminaria quando os minbari, moralmente mais evoluídos do que os humanos, perceberam a inutilidade do conflito.

Também é herdeiro dessa forma de lidar com extraterrestres o cineasta Steven Spielberg, em flmes como Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, 1977) e E.T.: O Extraterrestre (E.T.: The Extra-terrestrial, 1982). É preciso perceber que, da mesma forma que diferentes grupos humanos têm diferentes modos de ver o mundo, espécies alienígenas teriam formas ainda mais díspares de conceber o universo.

Talvez não pudéssemos parodiar a velha história dos aliens invasores, como no filme Marte Ataca! (Mars Attacks!, 1996) e no livro O Guia do Mochileiro das Galáxias (The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy), se não fosse o rompimento com essa visão etnocêntrica que coloca o ser humano (e, em certa medida, os seres humanos ocidentais) como o modelo de vida inteligente no universo.