Una, romance gráfico e empatia

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Alfredo Bosi, no artigo “A Poesia Ainda é Necessária?”, afirma que uma das principais funções da linguagem lírica é aproximar o leitor daqueles que estão distante de nós, dar visibilidade aos socialmente invisíveis. A prosa também tem essa capacidade, especialmente se considerarmos a visão de Mikhail Bakhtin sobre o romance (e a linguagem prosaica em geral), segundo a qual esse tipo de escrita tem o poder de veicular vozes diversas e nos fazer compreender diferentes formas de se representar o mundo.

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Estupro – violência hierárquica e institucionalizada

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A cultura do estupro se constitui a partir de discursos que banalizam e naturalizam a violência contra a mulher. Esta vem sendo perpetuada a partir da reprodução de determinadas práticas sociais, ilustrando, assim, o cenário de ampla misoginia em que vivemos.

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Empatia e estupro

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Para muitas pessoas, o processo de cultivar a empatia é um exercício de abstração. Para homens vivendo numa sociedade machista, por exemplo, é quase impossível entender o que sentem as mulheres quanto a assuntos como estupro. Por isso é que há diversos homens se divertindo com a notícia de uma adolescente estuprada por 30 indivíduos do sexo masculino, fato ocorrido no Rio de Janeiro no último dia 20 e divulgado pelos próprios agressores no dia 25; por isso é que os estupradores em questão não conseguem pensar na vítima como uma pessoa com sentimentos, com inteligência, com alma; por isso é que mesmo entre aqueles que se indignaram há os que relativizam a violência e amenizam o papel dos agressores, atribuindo parte da culpa à vítima; por isso é que vemos poucos homens comentando com racionalidade sobre o assunto enquanto muitas mulheres expressam sua revolta.

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Alien: O Oitavo Passageiro

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Título original: Alien

Direção: Ridley Scott

País: Grã-Bretanha/EUA

Ano: 1979

Alien: O Oitavo Passageiro é um marco na história do cinema de terror e ficção científica. Não é apenas uma excelente história de suspense. Representa uma instigante reflexão sobre vida alienígena, uma ótima abordagem do tema do estupro e uma franquia duradoura que rendeu ótimas narrativas tanto no cinema quanto em outras mídias.

A ideia do filme surgiu da cabeça de Dan O’Bannon, na época um roteirista iniciante que queria realizar um filme de terror espacial. Com a ajuda de Ronald Shusett, eles conseguiram o designer perfeito para a criatura que seria o antagonista da obra (que inicialmente seria chamada Star Beast e era descrita pelos roteiristas como uma espécie de Tubarão se passando no espaço). O artista plástico suíço H. R. Giger usaria uma de suas criações, uma figura chamada Necronom IV, para basear a imagem do monstro alienígena.

Necronom IV, a surreal e erótica ilustração de H. R. Giger que inspirou o alien/xenomorfo

Necronom IV, a surreal e erótica ilustração de H. R. Giger que inspirou o alien/xenomorfo

A dupla O’Bannon e Shusett encontrou também um diretor que se empolgou com a ideia, Ridley Scott. A sinergia entre O’Bannon, Shusett, Giger e Scott foi tamanha que muita coisa, desde o roteiro, passando pelos storyboards até o design final, teve a mão de cada um deles no processo de concepção e realização do filme. Quando resolveram batizar o projeto de Alien, os roteiristas gostaram do fato de que a palavra pode tanto ser um substantivo quanto um adjetivo, o que acrescentou um sutil elemento de ambiguidade ao título. “Alien” tornou-se então o apelido da criatura, inclusive em outras línguas, como em português (a tradução literal seria “alienígena”). Posteriormente, essa espécie também seria conhecida em seu universo fictício pelo nome xenomorph (“xenomorfo”), ou seja, “forma estranha”, “forma alienígena”.

Sinopse

A história se passa no espaço, na nave comercial Nostromo pertencente à empresa Weylan-Yutani, que carrega uma gigantesca carga de minério para a Terra. Os sete tripulantes humanos, além de um gato que os acompanha, são acordados da animação suspensa por causa de um pedido de socorro vindo de um planetoide próximo ao qual eles passavam. Ao descer ao planetoide para investigar, a tripulação enfrenta dois problemas. Primeiro, a nave auxiliar, Narcissus, que os levou à superfície se danifica e precisa de reparos antes de retornar à nave-mãe.

Mas isso é pouco, comparado ao que vem a seguir, Kane, um dos três oficiais que desceram para explorar as ruínas de uma enorme nave espacial alienígena, é atacado por uma criatura que escapa de um estranho ovo e se prende ao seu rosto, deixando-o paralisado, o facehugger (“agarra-rosto” ou “pega-fuça”). A maior preocupação da tripulação agora passa a ser a vida do oficial executivo Kane. Ele permanece desacordado durante algum tempo, mas desperta sem nenhum problema de saúde aparente. Enquanto o grupo come a uma mesa, Kane tem fortes convulsões e uma criatura semelhante a uma serpente explode para fora de seu peito (chestbuster ou, em bom português, “arromba-titela”), matando-o imediatamente.

Sem que ninguém saiba, o “alien” rapidamente amadurece, assumindo forma vagamente humanoide. A história continua com a sistemática caça da criatura a todos os tripulantes. Durante a tentativa de se capturar a criatura, descobre-se que o oficial de ciências Ash é um androide programado para levar o alienígena vivo para a Terra, mesmo que isso signifique a morte de todos os tripulantes. Após a morte do capitão Dallas, cabe à oficial de segurança Ripley salvar a pele do resto da tripulação e a sua própria.

Ripley vs. alien

A nave Nostromo pode ser uma metáfora da psique feminina que precisa ser dominada pela disciplina sobre os instintos.Interessa notar que o “coração” da nave, ou seja, o computador central, é chamado de Mãe. Ao longo da narrativa, Ripley, a personagem mais racional, vai aos poucos se destacando como a protagonista.

A morte da figura paterna, o capitão Dallas, é o início da tomada de consciência sobre seu papel. Isso se acentua quando a timoneira Lambert é devorada pela criatura. Lambert representa a parte mais infantil da psique feminina, a emocionalidade descontrolada, o pavor do desconhecido.

A criatura “alien” torna-se assim a nêmesis de Ripley. O amadurecimento da mulher acontece gradualmente à medida em que ela assume a responsabilidade pelos seus colegas tripulantes. O fato de ser uma mulher representa uma dificuldade em alguns momentos, pois ela é ridicularizada. Sua intuição inicial sobre o perigo daquela missão, a princípio menosprezada, mostra-se sensata, porém tarde demais. A criatura, também simbolicamente feminina em seu aspecto puramente corpóreo e sua reprodução assexuada, é um fantasma interior, uma força caótica com que Ripley precisa lidar, para não deixar que tome conta da nave. Assim como Alice amadurece e (literalmente) cresce ao confrontar a Rainha de Copas, Ripley precisa enfrentar a poderosa imagem feminina do ‘alien” para se ver livre e independente.

A natureza do alienígena

A origem da criatura alienígena dessa ficção científica espacial permanece um mistério até o fim e se mantém assim ao longo de outros três filmes da franquia (Aliens: O Resgate, Alien 3 e Alien: A Ressurreição). Existem pelo menos duas formas de se interpretar a natureza desses seres, dentro de um universo propício a especulações científicas.

Uma delas, que é mais próxima do cânone e que começou a ser explorada na franquia Prometheus, é a de que os “aliens” são produto de uma experiência de engenharia biológica, feita por uma espécie alienígena muito antiga e que fugiu ao controle. Porém, no filme que estamos analisando aqui essa explicação não tem muita relevância, a não ser que consideremos o vívido interesse da empresa (através de seu agente secreto, o androide Ash) em analisar a espécie, o que pode indicar conhecimento prévio sobre a experiência fracassada e uma tentativa de retomá-la.

Atendo-me apenas à franquia Alien e especialmente ao primeiro filme, sobre o qual aqui discorremos, acho mais pertinente encarar a criatura como uma espécie pertencente a um ecossistema extremamente hostil, que foi capturada pelos enigmáticos humanoides cuja nave é encontrada em ruínas pela tripulação da Nostromo. As criaturas foram responsáveis pela destruição desses humanoides, por estarem vulneráveis a uma espécie que não se encaixa no mesmo ecossistema que eles. Os humanos da Nostromo sofrem com o mesmo mal, e podemos antever que os “aliens”, se levados para a Terra, causariam um estrago semelhante ao que causaram os coelhos levados à Austrália, onde não tinha predadores naturais.

Em ambas as hipóteses, a história toca no tema da falta de escrúpulos das grandes empresas capitalistas que colocam seus interesses de lucro acima do bem-estar do resto da população. Ao brincar com um ser extremamente hostil e perigoso para os seres humanos, eles arriscam perder tudo apenas pela pequena possibilidade de enriquecerem às custas das vidas de outras pessoas.

Estupro

Um dos temas mais instigantes de Alien é o estupro. Ele aparece de maneira alegórica no ataque do “pega-fuça” a Kane, que força a inoculação de um embrião em seu tubo digestivo, através da boca. Essa alegoria ajuda a quem nunca sofreu um estupro, especialmente homens (muito menos propensos a serem vítima desse tipo de crime), a entender que esse ato não é uma simples relação sexual da qual um dos parceiros não quer participar. É um ato de violência, em seu mais sério significado, uma violação da privacidade e da integridade do corpo. O aspecto erótico do design das criaturas de Giger enfatiza ainda mais essa alegoria.

A alegoria vai mais além ao mostrar uma metáfora da gravidez não-consentida. Kane carrega dentro de si uma forma de vida alienígena, um corpo estranho e indesejado, como o são os embriões presentes nos úteros de muitas mulheres estupradas. O parto de um bebê rejeitado por ser fruto de uma violência é também representado no filme como uma violência, pois implica em sérias mudanças no corpo e na vida da parturiente. A morte de Kane representa essa mudança drástica.

Escute também

A orgia humana – parte 1

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Diante das mudanças na aceitação das uniões homoafetivas e das demandas cada vez mais fortes por direitos e combate ao preconceito, o discurso reacionário reage como pode. “Dois homens morando juntos não são um casal. Dupla pode ser, mas casal é só homem e mulher. Eu até respeito a opção de dois homens conquistarem a união civil, mas é um crime eles adotarem uma criança”.

Muitas vezes esse discurso se acompanha de frases do tipo: “Isso é uma afronta contra Deus”. De certo modo, equivale a dizer que a homossexualidade é antinatural, ou seja, vai de encontro aos ditames da natureza. Dentro dessa perspectiva, parte-se do pressuposto de que a pessoa que se relaciona com um parceiro do mesmo sexo escolhe sua orientação sexual, escolhe “pecar”, e poderia facilmente seguir o caminho “natural”, se quisesse.

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