Etnocentrismo em LittleBigPlanet

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Certamente um dos mais divertidos video games exclusivos da plataforma Playstation 3, da Sony, LittleBigPlanet segue uma diretriz interessante: jogar, criar, compartilhar. Não só proporciona horas de incursão em mundos coloridos e dinâmicos, com centenas de itens para coletar, como permite a criação de novas fases pelos jogadores e o compartilhamento delas com a comunidade do Playstation Network, que tem à disposição milhares de possibilidades de diversão. Apesar de ser um dos meus jogos preferidos, no entanto, desde que comecei a jogá-lo percebi que os diversos “mundos”, que se passam em versões em miniatura de várias partes da Terra, carregam certa ideologia etnocêntrica em suas concepções visuais e musicais, tendo como centro a Europa e retratando de forma caricatural os outros continentes.

No jogo, em resumo, o jogador interpreta uma “Sackperson” (uma pessoazinha feita de pano) e viaja através de um mundo fantástico construído com materiais do cotidiano, como pano, papel e madeira, e objetos comuns como sapatos, penas e carrinhos de brinquedo. Cada fase se passa em uma parte estilizada de um miniplaneta Terra. Tudo é muito colorido e bem feito, e imergimos em uma espécie de brincadeira infantil e divertida, com desafios interessantes. Porém, há uma série de estereótipos culturais que embasam a concepção de cada um dos mundos visitados pelo protagonista.

Europa – “Os Jardins”

O primeiro mundo se chama “Os Jardins” e se encontra na própria Europa, com motivos medievais e personagens humanos, num ambiente com poucos perigos e com uma arquitetura “civilizada”. O líder desse mundo é um rei bondoso, que tem a companhia de uma rainha. Há por toda parte objetos familiares às sociedades ocidentais urbanas, como sapatos, iô-iôs e skates, compondo o cenário como se este fosse uma brincadeira de criança, que improvisa suas fantasias a partir de itens que encontra no ambiente. É a partir dessa autocaricatura (a equipe que produziu o jogo é britânica) que todos os outros “mundos” são concebidos.

África – “A Savana”

O segundo mundo se encontra no continente africano, e é conhecido como “A Savana”. Vista desde há muito pelos colonizadores brancos como um meio selvagem e incivilizado, não se vê nessa África imaginária nenhum ser humano. O único sinal de Homo sapiens que está presente pode ser ouvido numa das músicas, que tem vozes africanas entoando notas encantadoras. Mas todos os habitantes desse local são animais: macacos, búfalos, crocodilos, suricatos, girafas e reinando sobre todos, um leão.

A África e outros locais que sofreram a colonização europeia são muitas vezes vistos pelos europeus como destino de turistas que querem explorar as atrações “naturais”, quase ignorando a presença humana nativa ou considerando-a inferior ou como parte da “natureza” local. Mesmo que a África de LittleBigPlanet possa ser considerada um lugar divertido e desafiador para os gamers, não se deve ignorar a influência do euocentrismo (etnocentrismo europeu) em sua concepção, retratando a população nativa como selvagem. É uma visão que lembra o universo do personagem Babar, em cujas histórias elefantes, rinocerontes e macacos são os habitantes sencientes da África, sendo os europeus humanos os que vêm “ensinar” os animais a falar, andar sobre duas patas e vestir roupas.

América do Sul – “O Casamento”

O terceiro mundo fica na América do Sul. Para minha surpresa, na primeira vez em que joguei essa parte do game, não encontrei ali uma floresta tropical, com araras, onças e talvez índios. O cenário é habitado por esqueletos mortos-vivos, num ambiente com túmulos e velas. Há referências ao mundo dos mortos, na visão de algumas religiões sincréticas sul-americanas e meso-americanas, e à relação do cristianismo popular com a morte.

Mas, neste cenário conhecido como “O Casamento”, chama atenção o disparate que é ver um conjunto de imagens que remetem muito fortemente ao Día de los Muertos mexicano, ou seja, de um país que se localiza na América do Norte, apesar de fazer parte de um universo bastante heterogêneo chamado América Latina, que inclui toda a América do Sul com sua ampla diversidade cultural. É como se toda a parte sul do continente americano girasse em torno dessa religiosidade necromântica, que não representa, na realidade, nem sequer uma parte significativa da diversidade religiosa dos diversos países e regiões do subcontinente.

América Central/do Norte – “Os Cânions”

Seguindo para o Norte, chegamos a “Os Cânions”, um mundo inspirado no México dos faroestes e das ruínas pré-colombianas. Os seres humanos vivos aparecem novamente, e tudo gira em torno de fogo e explosões. Há um vilão que assaltou um banco, há motivos inspirados na arte asteca e há uma mina com carros e trilhos. A ideia de um recanto bárbaro, sem leis e marcado por um certo abandono, um deserto inexplorado, é a tônica de uma região que foi por muito tempo considerada fonte de riquezas a ser exploradas pelo colonizador, primeiro os povos originários conquistados pelos europeus, depois o “Oeste selvagem” invadido e anexado pelos norte-americanos.

América do Norte – “A Metrópole”

Mais ainda para o Norte, chegamos à América do Norte (ou só América, para os nativos, a “verdadeira América”), o único ambiente propriamente urbano do jogo. Condensando basicamente a cultura dos EUA, modelo contemporâneo para o mundo, “A Metrópole” tem tecnologia avançada em relação a todos os outros lugares do PequenoGrandePlaneta. É habitada somente por seres humanos, que vestem roupas e andam de carro, como se fosse o ambiente mais “desenvolvido” do mundo, onde os personagens têm dinheiro e posses caras.

Essa cidade grande é como que uma continuação do mundo dos “Jardins” europeus, fazendo parte do mesmo mundo “civilizado”, mas com sotaque yankee. A representação dessa parte do mundo ressoa o etnocentrismo que parte da visão dos povos com base étnica na Europa. Dessa forma, a própria mistura cultural que resultou nos EUA é vista nesse jogo eurocêntrico como um lugar com certa malandragem, habitado por gângsteres e pessoas de maneirismos informais.

Japão/Extremo Oriente – “As Ilhas”

Viajando ao Oeste para chegar ao Extremo Oriente, a fase “As Ilhas” remete ao Japão, especialmente ao Japão medieval. Um lugar onde predominam testes de coragem e de habilidade para se enfrentar um mal diabólico e perigoso. Com uma deusa japonesa fantasiosa como guia, adentramos um mundo que tem certo misticismo no ar. Os inimigos são ninjas, sumocas e samurais malignos, com ar misterioso e exótico. São seres humanos que perdem toda aparência humana, o que representa a visão ocidental que quase considera os extremo-orientais como uma outra espécie. Os perigos e obstáculos que desafiam o jogador representa uma forma ardilosa de se usar a tecnologia, que também aparece em robôs, símbolos do Japão contemporâneo.

Índia – “Os Templos”

Ainda no âmbito do que se considera o Oriente, deixamos as ilhas do Sol nascente e vamos à península onde, no mundo real, fica a Índia. Semelhantemente à fase anterior, impera um misticismo e, mais ainda, um mistério e uma magia. Os humanos presentes são iogues, dançarinos e feiticeiros, e encontramos também uma divindade com vários braços (como nas imagens dos deuses hindus), todos com pele azulada, como em imagens sacras indianas (de Kali e Krishna, por exemplo). Essas pessoas têm um ar exótico e parecem pertencer a uma raça não-humana e sobrenatural, como aquelas das “Ilhas”, o que se casa com a visão orientalista (segundo os termos de Edward Said), que homogeneíza os povos do vasto “Oriente”.

Objetos mágicos e magos fazem com que tudo pareça nebuloso e ilusório, como na ideia ocidental que imagina os orientais como ludibriosos e cheios de truques que dão a ilusão de magia e sobrenaturalidade. Aparecem animais como a serpente, evocando encantadores de cobras (e simbolizando as danças indianas estereotipadas), e os elefantes, reduzindo o sagrado “oriental” a um bicho reverenciado pelos indianos em geral.

Rússia – “O Ermo”

A penúltima fase se chama interessantemente “O Ermo” (“The Wilderness”, o que remete à natureza selvagem), e se encontra aparentemente na Sibéria. É onde mora o vilão, “O Colecionador”, que ao longo do jogo vai capturando os habitantes do LittleBigPlanet. Um urso recebe o protagonista nesse ambiente gélido, e representa a natureza/fauno ameaçada pelo explorador. Mas os habitantes são predominantemente soldados e veículos militares (é bom frisar que, na fantasia desse jogo, há seres animados que são coisas).

O urso mostra a visão de uma Sibéria selvagem e incivilizada, enquanto os soldados representam uma Rússiaf belicista e socialisticamente repressora. De qualquer forma, mesmo os ursos, mesmo os ursos e soldados passando para o lado do Sackboy, o vilão tem seu covil escondido em algum lugar da Rússia soviética, o que ressoa uma obsoleta rivalidade entre Ocidente e Oriente, herdada da Guerra Fria.

Fantasia e diversão

Não considero que nenhuma das observações acima estrague o jogo de maneira alguma. Mesmo tendo consciência dos vestígios de etnocentrismo que perpassam LittleBigPlanet e tantos outros video games, consigo encará-lo como o que ele é essencialmente: um jogo. Ademais, mesmo os motivos que servem para construir as diversas fases da trama podem ser vistos como mundos totalmente fantásticos baseados vagamente em coisas ou ideias reais.

LittleBigPlanet 2, felizmente, conseguiu corrigir isso, trazendo várias fases cujos cenários são praticamente desvinculados de estereótipos regionais, e mesmo os personagens com características étnicas não representam imagens preconceituosas ou jocosas sobre os respectivos povos que lhes servem de inspiração. Talvez a equipe da Molecule tenha se dado conta de que a Fantasia é muito mais interessante quando liberta dos vínculos que a ligam à realidade, que é muito mais subjetiva do que costumamos pensar.

Blanka o brasileiro

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Blanka

© Capcom

[Texto publicado originalmente na Carta Potiguar N. 4 – 07/04/2013]

Street Fighter II é um clássico video game dos anos 90, produzido pela Capcom, que popularizou um formato de jogos de luta replicado até hoje. Mas para além de sua jogabilidade e da diversão proporcionada aos jogadores, SF2 apresentou um pitoresco elenco de personagens, com roupas, penteados, cores, trejeitos e nomes que se tornaram mitológicos na cultura popular. Alguns desses personagens se apresentam também como estereótipos étnicos, culturais e nacionais.

Para os jogadores brasileiros, sempre chamou especial atenção o personagem conterrâneo Blanka, um homem selvagem que vive na Amazônia, vestido apenas com uma calça rasgada na altura dos joelhos, algemas nos tornozelos, pele verde, uma abundante cabeleira ruiva, proferindo apenas grunhidos e com um estilo de luta agressivo em que usa unhas e dentes para ferir seus adversários.

Em sua infância ele caiu na selva amazônica num acidente de avião e cresceu na floresta com outros animais. Aprendeu a controlar a eletricidade do próprio corpo e desenvolveu sozinho um estilo de luta selvagem (embora muitos pensem erroneamente que ele luta capoeira). Conheceu o mundo ao “pegar carona” num caminhão de contrabandistas e acabou se tornando mundialmente famoso num torneio de luta, ao fim do qual foi reconhecido e encontrado pela mãe, que o chama de Jimmy.

Diferente de outros personagens mais estereotipados, Blanka parece representar muito pouco ou quase nada o brasileiro comum ou mesmo o estereótipo do brasileiro, nem a autoimagem nem a visão dos estrangeiros. Mas será que o excêntrico homem amazônico verde diz alguma coisa sobre quem são os brasileiros?  Podemos ver nele símbolos da identidade e da cultura brasileira? Talvez haja nesse inusitado personagem algumas referências ao que significa o Brasil e o brasileiro para si mesmo e para o mundo.

Blanka não é nem amarelo como Ryu, nem branco como Guile, nem vermelho como T. Hawk e nem negro como Balrog. Ele é verde. Como o povo brasileiro, sem uma identidade étnica ou racial definida, ele é não só uma interseção, mas algo diverso e exótico. Ele se apresenta inclusive com várias cores e tons de pele, a depender do título da série de jogos e de acordo com o botão com o qual o jogador o seleciona. Ele pode ser verde, azul ou roxo, assim como os brasileiros são um conjunto de identidades étnicas e de cores, brancos, amarelos, pardos, mulatos, loiros, morenos, negros etc., e o mesmo indivíduo pode assumir diversas identidades raciais de acordo com as situações do dia a dia.

Nosso amigo verde ostenta grilhões nos tornozelos, marca de um possível episódio de cativeiro em seu passado, Como os brasileiros, ele ainda guarda sinais de uma época anterior à independência, ainda se sente preso e estigmatizado com a pecha do colonizado. Ele é o escravo alforriado que não consegue se libertar totalmente da cicatriz dos golpes de açoite. Ele pode ter a pele verde, mas é um negro herdeiro da pseudoliberdade da Abolição. É também um índio ligado à natureza e arredio ao modo de vida Ocidental. E é um branco perdido no Novo Mundo. Se ele não consegue se definir totalmente como branco, índio ou negro é porque tenta frustrantemente criar uma identidade que mascare sua origem mestiça, pobre e sofrida.

Essa identidade mascarada, espelhada em algo externo, se revela em seu nome. Quase todos os personagens da franquia Street Fighter têm nomes que remetem ao povo a que pertencem. Ryu é “dragão” em japonês, Chun-li significa “bela primavera” em chinês, Ken é um típico nome norte-americano e Vega um sobrenome espanhol. Mas “Blanka” não só não soa português como tem um K que não costumava fazer parte do alfabeto oficial no Brasil até antes do Novo Acordo Ortográfico. “Blanka” é o menos estereotipado dos nomes em Street Fighter, mesmo considerando-o como um apelido. Jimmy, diminutivo de James, é simplesmente inglês e nada brasileiro.

Mas essa identidade com referência externa revela muito da representação que o brasileiro faz de si mesmo. A média dos habitantes deste pedaço da América se vê como integrante de uma cultura ocidental branca, eurocêntrica e cristã. Esse povo que vê a si mesmo como um estrangeiro distante e recém-chegado em terras bravias olha para a população pobre e negra, indígena e nativa como uma parte da natureza e fauna locais, como um elemento irreverente e inconveniente da realidade da humanidade e sociedade do país.

Esse que se pensa como um gringo que foi arrebatado pelo inferno verde e obrigado e conviver com a gentalha primitiva não percebe que ele é produto desse meio e fruto dessa floresta, compartilhando os mesmos vícios e virtudes de uma cultura que se diferencia em muitos aspectos de uma Europa ou Estados Unidos da América idealizados. Ele e sua mãe se esforçam para se inserir no mundo globalizado segundo os ditames do Ocidente, e tanto o “Jimmy” quanto o “Blanka” com K são reflexos da tentativa de se “americanizar” e fazer parte de um grupo privilegiado, bem como tantos  nomes luso-brasileiros em que se enxertam Ks, Ws e Ys meio que aleatoriamente.

No entanto, apesar de todo esse conflito, Blanka sabe ser irônico e ridicularizar a si mesmo e ao outro. Quando vence uma luta, solta essa frase de efeito: “Seeing you in action is a joke!”, “Ver você em ação é uma piada!” Ora, sendo um dos mais “ridículos” personagens aos olhos dos outros, Blanka zomba de seus adversários no melhor humor brasileiro. É o patinho feio tupiniquim que na Copa do Mundo de Futebol mostrou 5 vezes ser um grandioso cisne cinzento.

Blanka é uma contradição como é o brasileiro. Nem o lutador glamouroso que sonha ser, nem o monstro que teme dentro de si, o brasileiro é um produto inusitado e único que precisa se reconhecer e ser reconhecido em sua especificidade cultural. Mistura de elementos de várias nacionalidades, não deve negar nenhuma deles como fonte de sua natureza atual, e deve trilhar um caminho só dele, mas lado a lado, de igual para igual com os outros “competidores” do Grande Torneio Mundial.

[As imagens que ilustram este texto são propriedade da Capcom]

Pela crítica contra a censura

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Da Correção Política à CensuraUma ONG da Itália pretende censurar a Divina Comédia de Dante nas escolas do país, cujo conteúdo é eivado de intolerância religiosa, sexual e racial. Há algum tempo se ouviu uma polêmica sobre um professor norte-americano que “revisou” Mark Twain, retirando de um de seus livros as palavras ofensivas aos negros. Na mesma linha e pouco tempo antes, uma discussão no Conselho Nacional de Educação trouxe a consideração sobre restrições ao uso de uma das obras de Monteiro Lobato no Ensino Fundamental, também por causa de seu conteúdo racista.

Alea jacta est. Cada um se posiciona e constrói um debate sem fim, os defensores da correção política se arriscam a ser taxados de simpatizantes da ditadura e os defensores do patrimônio cultural se arriscam a ser responsabilizados pela manutenção de preconceitos difíceis de erradicar.

Quando escutei pela primeira vez as expressões “politicamente correto” e seu antônimo “politicamente incorreto”, imaginei que este se aplicava ao humor subversivo, no estilo das charges que difamam os políticos corruptos e as brincadeiras que servem para abalar valores conservadores como sexismo e racismo. Afinal, o que seria “correto” numa visão moralista é aquilo que se enquadra nos valores tradicionais a ser defendidos de qualquer movimento revolucionário.

Tanto é assim que a expressão “politicamente correto” é muitas vezes usada para se referir a valores tradicionais. A pornografia, por exemplo, que vai de encontro a uma certa moral cristã assexuada, pode com muito mais probabilidade ser chamada de politicamente incorreta, mesmo nas versões em que a mulher não aparece exclusiva e meramente como objeto do prazer masculino, do que a defesa dos direitos dos homossexuais, condenada pela mesma moral cristã. A pornografia é politicamente incorreta porque é convencionalmente obscena e, certamente, fere os “bons costumes”.

Não é à toa que o critério para a Igreja Católica incluir uma obra no Index Librorum Prohibitorum era justamente a incorreção política. Nesse contexto, tudo aquilo que é transgressor (ou seja, que contraria o poder da Igreja) é politicamente incorreto. Mas, por uma série de fatores, aquilo que outrora poderia ser considerado politicamente correto não o é mais hoje em dia, pois o significado assumido hodiernamente pelo termo se aplica justamente ao que seria mais condizente com os valores democráticos.

O complicado de toda essa história é que não dá para ser maniqueísta sem desconsiderar aspectos problemáticos de ambas as posições extremas do debate, ou seja, da posição dos censuradores (os politicamente corretos) e a dos defensores da tradição (em parte conservadores pouco preocupados com uma visão crítica da sociedade e da cultura).

E é a crítica (junto com a temperança) que deveria nortear esse debate. Ao defender as obras clássicas da correção política, não se pode ignorar o fato de que Caçadas de Pedrinho tem expressões racistas, e é preciso se lembrar que Monteiro Lobato não só reproduzia preconceitos de sua época como era favorável ao segregacionismo e era até simpatizante da Ku Klux Klan.

Ainda vivemos inundados de racismo, sexismo e tantas outras intolerâncias. Uma criança que lê Monteiro Lobato não vai aprender com ele a ser racista. Mas não se pode menosprezar a força e a impressão que uma boa leitura pode causar numa mente em formação. Se há algum valor na obra de Lobato, então mantenhamos seus livros nas grades curriculares. Mas se há algum problema com ela, é imperativo que a abordagem seja atualizada, que os escritos sejam contextualizados, evitando-se demonizar o autor, mas da mesmíssima forma tentando não endeusá-lo.

Seria um retrocesso obscurantista se os livros fossem censurados e reescritos, perder-se-ia a memória histórica e correríamos o risco de cometer novamente erros crassos de nosso passado. Pessoalmente, minha posição é difícil de ser localizada dentro das casas brancas e pretas desse xadrez. Sou fortemente contra a censura, e acho que qualquer medida que busque dificultar o acesso a obras importantes de nossa história cultural é desmedida. Porém, todas essas obras, sem exceção, possuem algum tipo de preconceito, reflexo do contexto em que foram produzidas.

Eu me oporia, por exemplo, à censura da Bíblia, mesmo tendo opiniões anticristãs. Considerando que o livro sagrado do Cristianismo transborda racismo, belicismo, machismo, homofobia e vários outros tipos de intolerância, ele deve ser lido com cuidado pelas gerações contemporâneas.

Meu trabalho de conclusão do curso de Ciências Sociais abordou as imagens da mãe e da prostituta na poesia de Augusto dos Anjos. Mesmo sendo admirador da obra do poeta paraibano, não deixei de considerar nesse trabalho que o imaginário do artista está carregado de pré-noções típicas de sua época. Esse tipo de crítica é importante para que os clássicos não sejam tomados como obras puramente racionais de portadores de uma genialidade atemporal.

As obras que entraram no cânone literário ocidental, os ditos “clássicos”, estão ali devido a circunstâncias históricas e escolhas intelectuais que, se fossem um pouco diferentes, as preteririam, e os clássicos seriam outros. É difícil imaginar que um defensor dos clássicos defenderia com a mesma ênfase uma “obra menor”, de um “escritor menor”. Também é difícil supor que um defensor da correção política atacaria um livro pouco conhecido e com pouca repercussão em nossa cultura. A disputa é sempre em torno de objetos de grande valor, pois o importante não é a crítica ponderada sobre as grandes obras, mas a imposição de uma visão de mundo sobre a outra, e nisso os “politicamente incorretos” são tão aguerridos quanto os “politicamente corretos”.

O monopólio do poder da palavra

A correção política é importante para que meçamos os limites das manifestações das diversas intolerâncias, muitas vezes reprodutoras de preconceitos arraigados. Sendo assim, sou a favor de uma postura politicamente correta. Mas ela deve ser educadora e não impositiva. Deve, acima de tudo, atacar as causas e não os efeitos (os signos) da intolerância.

E é de se notar que a correção política tem sido feita por meio da imposição e tem criado um ambiente de paranoia e de melindres, que levam a extremos como a tentativa, por parte do MPF de Minas Gerais, de retirar de circulação o Dicionário Houaiss por causa de seu teor preconceituoso na definição do verbete “cigano”. Uma mente ponderada percebe imediatamente o absurdo que é tentar apagar de nossa memória coletiva os significados pejorativos que as palavras assumem, e qualquer dicionário sério como o Houaiss deixa claro quando um significado é pejorativo, figurado ou chulo (claro, para quem sabe consultar o dicionário).

Porém, não são só os politicamente corretos que jogam sujo. Seus antagonistas, ao defender o Houaiss, terminam por defender o uso tradicional das palavras, revelando seus próprios preconceitos e ignorância.

Por exemplo, André, do blog Ceticismo.net, argumenta contra os ciganos, dizendo que eles não têm cultura e não contribuíram com nada significativo para a humanidade. Ele ignora, em primeiro lugar, o que significa cultura no contexto em questão (talvez por lhe faltar alguma noção de Antropologia), sem saber que toda e qualquer sociedade tem cultura. Em segundo lugar, mostra desconhecimento, por exemplo, da influência dos ciganos no patrimônio cultural da Espanha, que em parte deve o flamenco a esse povo nômade.

Ademais, isso nem deveria ser levado em conta, pois uma visão universalista não trata com tolerância só os povos a quem devemos alguma coisa e que não são parasitas da cultura ocidental. O que está em pauta aqui é o preconceito, é achar que todos os ciganos são ladrões, trapaceiros e vigaristas, só porque todo mundo diz que o são, mesmo sem nunca ter visto um cigano na vida. Com base nisso, pessoas são tratadas como se não fossem seres humanos dignos dos mesmos direitos, negando, por exemplo, um atendimento médico pelo sistema gratuito do governo, como se um indivíduo não merecesse os mesmos cuidados só porque acham que é ladrão.

O que André acaba fazendo, talvez sem querer, é reafirmar esse preconceito, dizendo que cigano é sim sinônimo de ladrão, com isso deixando implícito que todos os ciganos são ladrões e parasitas sociais. Por isso tudo é importante que sejam feitas pesquisas que averiguem até onde os preconceitos se confirmam na realidade, e deixem claro ao público quem realmente são os ciganos. Isso e não a destruição de livros.

Quem são os subversivos?

A reação dos autoproclamados “politicamente incorretos” costuma se pautar pela defesa da liberdade de expressão. Acusa-se os “politicamente corretos” de agirem autoritária e repressivamente, antecipando o prelúdio de uma distopia bradburiana (Fahrenheit 451) ou orwelliana (1984).

Dentro do debate sobre a correção política, têm destaque as questões relativas à linguagem, seja na tentativa de se reformar o vocabulário e os preconceitos nele embutidos, trocar o uso de certas palavras por outras ou admitir as variedades menos privilegiadas das línguas como formas legítimas de manifestação de certo idioma.

Os defensores do uso tradicional da língua são talvez os que mais facilmente encontram apoiadores. Como afirma Marcos Bagno, citando John Milroy, o preconceito linguístico ainda se mantém fora das discussões sobre discriminação, que já aprofundaram o debate sobre racismo, sexismo, etnocentrismo, homofobia etc., mas ainda advogam a favor do “idioma correto” e das regras gramaticais, condenando os usos que fogem a essa norma. Por isso é tão difícil entender a proposta do MEC de não corrigir os “erros” (na realidade, variantes menos prestigiadas socialmente), sem deixar de ensinar a norma culta escrita. Muita gente acha que a proposta é “ensinar errado”.

Não podemos ignorar que certas palavras reproduzem preconceitos. Há vocábulos que carregam em si noções pejorativas. Mas isso não se deve a qualquer valor intrínseco a essas palavras. Se “negro” tem conotação ofensiva quando se refere a pessoas de fenótipo africanoide, não é porque ela possua em si mesma uma carga negativa que transcenda o contexto em que é usada. Isso se dá porque temos uma história que marcou os descendentes de africanos no ocidente com diversos estigmas. Passar a chamar os negros de afrodescendentes não vai mudar os preconceitos que temos a respeito deles. O que vai acontecer é que “afrodescendente” (duvido muito que essa palavra se torne de uso comum) assumirá toda a carga racista e pejorativa com que ainda representamos os não-brancos no Brasil, com qualquer nome que seja.

Um dos equívocos dessa correção política é justamente achar que qualquer referência à alteridade é negativa, e isso acaba revelando seu próprio preconceito, como se simplesmente apontar a diferença fosse um tipo de discriminação. Mas não importa que palavra seja usada, ela sempre vai se imbuir de preconceito. Nos EUA, o termo “black” foi substituído por “negro”, depois por “Afro-American” e “African American”. Todas elas acabaram se investindo do mesmo preconceito do termo anterior.

A reação dos autoproclamados politicamente incorretos acaba confundindo as pessoas. Normalmente, na História, quem reclama da falta de liberdade são aqueles cujas ideias vão de encontro ao status quo. Eram justamente os hereges que ameaçavam o poder (político) da Igreja Católica que incorriam em incorreção política e precisavam ser silenciados.

O que acontece nos dias atuais é que o movimento reacionário à correção política moderna é tão ferrenho que acaba se passando por subversivo (e de fato pode ser entendido assim se considerarmos a forma conservadora que assumiu o discurso que deveria ser libertário). As pessoas tendem a imaginar que a censura vem contra manifestações subversivas, que ferem a ordem instituída e é por isso que são atacadas. Aqueles que têm motivações libertárias (mas nem sempre se utilizam de meios coerentes com os fins) bancam os conservadores, defensores dos “bons costumes”, e é assim que a pecha de politicamente correto inverte seu significado medieval e recai neles.

O que muda em ambos os casos é que um se preocupa em eliminar qualquer ameaça ao poder instituído, enquanto o outro tenta reprimir tudo aquilo que ameaça a criação de uma nova ordem menos excludente. Porém, embora simpatize com os fins do segundo, não concordo com os meios a que acaba chegando quando pretende se valer da censura (um dos mecanismos prediletos de qualquer regime conservador).

Felizmente, vivemos numa época em que a liberdade é valorizada e a censura repudiada. Infelizmente, o repúdio à censura é mobilizado por forças conservadoras para defender sua liberdade de expressar quaisquer ideias, até as mais absurdas. O efeito disso é desculpar todo tipo de manifestação, por mais restringidora, preconceituosa e intolerante que seja.

O que poderia nos levar a um mundo com menos violência e intolerância cai na armadilha reacionária e acaba atrasando os avanços libertários. A atitude intolerante e exclusiva daqueles que advogam a tolerância e a inclusão atrapalham os projetos para uma sociedade diferente.

A defesa contra a correção política se fortalece num movimento mais organizado do que os seus antagonistas. Hoje em dia é moda ser politicamente incorreto, é cool se opor à correção política. O público consumidor vai atrás do que ostente em seu rótulo essas palavras, talvez achando que se tratam de autêntica crítica social (muita gente acha que crítica social é falar mal do Brasil, por exemplo).

Ironicamente, à tentativa de se criticar o teor preconceituoso do humor se atribui um caráter moralista, como se a reprodução dos preconceitos, que tem história milenar, não fosse ela mesma profundamente moralista e mantenedora de hierarquias de poder.

Mas o humor pode ser usado no sentido inverso, para colocar em questão essa hierarquia, quando parte daqueles que são oprimidos para aqueles que oprimem, por exemplo. É o caso das charges políticas. Eu tendo a pensar nessas charges de teor mais crítico como verdadeiramente politicamente incorretas, pois mexem com o status quo. Mas elas não são a mesma coisa de uma piada que compara um negro a um macaco.

Por tudo isso é que vejo esse debate como uma briga de poder. Não se trata de revolucionários vs. reacionários ou progressistas vs. conservadores. É uma luta em que cada indivíduo escolhe seu time contingencialmente, da mesma forma que uma pessoa escolhe o time de futebol.

O efeito mais pernicioso dessa luta é fortalecer posturas moralistas por todos os lados, e fica extremamente difícil incluir no debate uma visão crítica sobre a correção política. Essa crítica deve considerar não só os perigos de uma censura bem-intencionada (toda censura o é), mas também os riscos de se manter o status quo em nome da liberdade de expressão e posar histrionicamente como “politicamente incorreto”.

Links

(Este texto foi publicado originalmente na Carta Potiguar, como parte da Série “Da Correção Política à Censura“)

45 anos de Star Trek

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No dia 8 de setembro de 1966, ia ao ar na NBC, na televisão norte-americana, o episódio O Sal da Terra (The Man Trap), estreia da série Jornada nas Estrelas (Star Trek), que se tornaria uma das mais longevas franquias de ficção científica, indo audaciosamente a seguidas séries e temporadas de TV, filmes, livros, quadrinhos e tanta parafernália de merchandising (brinquedos, roupas e acessórios úteis ou inúteis) a que talvez só Guerra nas Estrelas (Star Wars) se equipare ou, quiçá, supere.

A premissa da série idealizada por Gene Roddenberry era levar a um futuro utópico histórias de aventura, suspense e drama, tudo em torno de uma elaborada e inteligente ficção científica, o que se traduz em “explorar novos mundos estranhos, procurar novas formas de vida e novas civilizações”. Inicialmente, tal premissa foi desenvolvida através de três temporadas mais ou menos bem-sucedidas. Personagens marcantes como Capitão James T. Kirk, Sr. Spock e Dr. Leonard McCoy encenariam enredos repletos de surpresas e reviravoltas.

O Sal da Terra (The Man Trap)

O antagonista do primeiro episódio de Star Trek, “O Sal da Terra” (The Man Trap)

Digo “mais ou menos bem-sucedidas” porque o fiel público que admirava Jornada nas Estrelas só foi descoberto anos depois da série ter sido cancelada. Esse público ajudou a motivar os produtores a ressucitar as aventuras da tripulação da Enterprise numa sequência de longas-metragens (hoje, são ao todo 11 filmes) e depois numa série chamada Jornada nas Estrelas: A Nova Geração (Star Trek: The Next Generation). Outras três séries se seguiram, Deep Space Nine, Voyager e Enterprise, com novos personagens e com um complexo desenvolvimento desse universo ficcional.

Jornada nas Estrelas se tornou um objeto de adoração de uma multidão de fãs ao redor do mundo. As raças exóticas, os personagens pitorescos com seus bordões, os gadgets de uma tecnologia que facilitaria a vida de muita gente… muita gente se encantou, algumas vezes de modo exagerado (como acontece com qualquer produto da cultura), e tentou trazer a estética de Jornada nas Estrelas para suas vidas, seja com roupas ou com adornos para o ambiente doméstico se parecer com o cenário futurista dos séculos XIII e XIV.

Uhura e Kirk

Primeiro beijo “inter-racial” da televisão norte-americana

Por outro lado, os vislumbres de um futuro em que o progresso científico traria grandes avanços e desafios para a humanidade inspirou muitos jovens a se dedicar à Ciência, levando uma safra sonhadora a ingressar na NASA ou seguir carreiras acadêmicas nas Ciências Exatas, Naturais ou Humanas.

Para além dessas influências pessoais, Jornada nas Estrelas construiu um arcabouço de histórias muito variadas, tanto nos temas e nas narrativas quanto nas abordagens filosóficas, éticas, morais, políticas e sociais. Às vezes trazendo uma visão libertária a respeito da alteridade, outras vezes “sem querer” enaltecendo valores específicos da cultura norte-americana, Jornada formou um repertório impregnado de novas ideias e questionamentos para a humanidade.

Jornada nas Estrelas, enfim, representou um marco na história da televisão, colocando personagens de diversas etnias e nacionalidades juntos na mesma ponte de comando, contrariando os sentimentos antissoviéticos da época, bem como a beligerância dos EUA na Guerra do Vietnã.

Além disso, ousou colocar uma mulher negra em posição de destaque na tripulação, cuja permanência na série só foi possível pela intervenção de Martin Luther King, que entendia que Nichelle Nichols era uma inspiração para as jovens e os jovens negros oprimidos pelo racismo. Sua personagem, Uhura, também encenou um dos mais importantes beijos da TV norte-americana, o primeiro a envolver um homem branco e uma mulher negra, rompendo simbolicamente com o apartheid racial do país. Um singelo gesto que resume o significado dessa série que continua indo aonde ninguém jamais esteve.

Babies – Resenha

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Babies (2010), filme dirigido por Thomas Balmès, é um documentário que testemunha, sem narração, o 1º ano de vida de quatro pequenos seres humanos, cada um de uma parte distinta da Terra. Ponijao é um menino namibiano, Mari é uma menina japonesa, Bayar é um menino mongólico e Hattie é uma menina norte-americana.

Acompanhamos diversos momentos da vida das pequenas crianças, desde o nascimento, passando pelas primeiras palavras até os primeiros passos. Os quatro bebês comovem o espectador, como é comum com adultos contemplando infantes dessa tamanho e idade. O cineasta escolhe momentos pitorescos e os encaixa com cenas que mostram especificidades culturais, de hábitos e costumes.

Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

BabiesTítulo: Babies

Diretor: Thomas Balmès

País: França

Ano: 2010

A câmera do europeu adulto

A presença dos pais e de outros coadjuvantes é sempre notada, mas os ângulos das câmeras privilegiam a ação dos pequeninos em sua aventura de descoberta do mundo. Essa abordagem nos aproxima da experiência dos bebês e da vivência dos cuidados dos pais.

Como o filme é dirigido por um ocidental, percebe-se que o documentário tem um viés voltado para o registro da alteridade. Dessa forma, a pequena Hattie tem pouco destaque, enquanto Ponijao e Bayar parecem brilhar mais. Isso parece ter a ver com o fato de serem os mais “estranhos” para a câmera de Balmès, com costumes e ambientes mais exóticos para os olhos de um europeu.

Entretanto, pode ser que essa tenha sido a minha impressão enquanto compartilhando, ou seja, a vida da bebê norte-americana não era muita novidade para mim, acostumado com hábitos um pouco parecidos na sociedade em que vivo e conhecendo um pouco da vida norte-americana através da mídia.

Diferenças e semelhanças

As situações díspares a que assistimos durante o filme nos mostram a diversidade de condições em que os seres humanos podem se criar e viver, sem deixar de se constituírem como plenas criaturas da mesma espécie.

Se, por um lado, ao bebê namibiano é permitido engatinhar na terra nua e brincar com ossos de animais, por outro, a menina norte-americana é cercada de cuidadosa obsessão com a higiene esterilizadora. Os ambientes em que vivem, respectivamente, Bayar e Mari são bem diferentes também. O menino mongólico está o tempo todo rodeado de animais domésticos e em constante contato com bois, cabras, gatos e galinhas, enquanto o cenário em que vive a japonesinha é completamente urbano (os únicos animais, além do gato doméstico, com que tem contato estão atrás das janelas de vidro do zoológico).

De modo geral, a obra nos mostra quão semelhantes são os seres humanos, independentemente da cultura e das superficiais características físicas. Vemos todos os bebês rindo, chorando e com medo. Cada um deles busca com curiosidade conhecer o mundo ao seu redor, os objetos e os animais. Cada um, em seu tempo, aprende a balbuciar e imitar a fala dos adultos. Todos eles experimentam os primeiros passos e as primeiras quedas.

Ao mesmo tempo, vemos como são diversas as culturas humanas. As mães e pais têm técnicas e modos diferentes de lidar com os mesmos problemas. A mãe namibiana limpa os olhos de seu bebê com a língua, enquanto a mãe mongólica lava os do seu com o leite do próprio seio. As diferenças entre o ambiente urbano (Japão e EUA) o rural (Mongólia e Namíbia) implica em uma socialização diferente também. Na cidade, o contato familiar quase se restringe ao convívio com os pais (os dois bebês urbanos são filhos únicos) e com adultos que fazem parte do círculo de amizades dos pais ou de grupos dos quais estes participam. Já as crianças do mundo rural têm relação mais próxima com a família extensa, irmãos, primos, tios e avós.

Desde muito cedo em sua vida, o ser humano está rodeado de estímulos, imerso nos hábitos e costumes dos adultos. Isso nos ajuda a perceber o processo pelo qual uma cultura fica tão entranhada no indivíduo, acostumado com os padrões de comportamento que presencia e replicador desse mesmo modo de viver e ver o mundo.

Mas ficamos com o registro de quatro mundos diferentes, sem comunicação entre si. Embora tenha sido uma proposta válida em si mesma, seria muito interessante que Balmès, talvez posteriormente, promovesse um encontro com os quatro pequenos astros e enriquecesse a experiência, mostrando a estranheza que cada um demonstraria diante de seus companheiros de enredo.

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Desumanização

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De vez em quando surge uma notícia sobre jogadores de futebol negros que sofrem ofensas raciais mundo afora. Via de regra, essas ofensas comparam os jogadores com macacos, reproduzindo o velho preconceito de que certos grupos humanos são menos evoluídos do que outros, até mesmo menos humanos.

Um estudo feito em 2008 por pesquisadores de Psicologia da Universidade de Stanford mostrou que ainda é muito presente a associação que aproxima negros de macacos. De 2008 para cá, nada parece ter mudado. A seguir, reproduzo uma matéria do site ScienceDaily, traduzida do inglês, que descreve as condições em que foi feita essa pesquisa e seus resultados.

Discriminação Contra Negros Está Ligada A Desumanização, Conclui Estudo

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Grotescas representações históricas de afro-americanos como simiescos podem ter desaparecido da cultura mainstream norte-americana, mas nova pesquisa revela que muitos norte-americanos inconscientemente associam negros com macacos. (Crédito da Imagem: cortesia da Universidade de Stanford.)

ScienceDaily (8 Fev. 2008) — Desenhos históricos grotescos de afro-americanos parecidos com macacos podem ter desaparecido da cultura mainstream norte-americana, mas uma pesquisa apresentada num novo artigo por psicólogos em Stanford, Universidade do Estado da Pensilvânia e Universidade de Califórnia-Berkeley, revela que muitos americanos associam inconscientemente os negros com macacos.

Além disso, os achados mostram que a sociedade está mais propensa a autorizar a violência contra suspeitos criminais negros, o que resulta de sua ampla dificuldade de aceitar afro-americanos como plenamente humanos, de acordo com os pesquisadores.

A co-autora Jennifer Eberhardt, professora adjunta de psicologia em Stanford, que é negra, disse que ficou chocada com os resultados, particularmente porque envolveram sujeitos nascidos depois de Jim Crow e o movimento dos direitos civis. “Este foi realmente um dos trabalhos mais deprimentes que fiz”, ela disse. “Isso me abalou. Você tem suspeitas quando faz o trabalho – intuições – você antevê os resultados. Mas foi difícil me preparar para aceitar quão forte [a associação negro-macaco] era – como nós pudemos encontrá-la em todas as situações.”

A pesquisa levou oito anos na estadual de Stanford e Penn, sob a supervisão de Eberhardt. Envolveu especialmente graduandos homens brancos. Numa série de estudos que subliminarmente mostrava faces de negros e brancos numa tela por uma fração de segundo, para “preparar” os estudantes, pesquisadores descobriram que os sujeitos podiam identificar desenhos borrados de macacos mais rapidamente depois de ser “preparados” com rostos negros do que com rostos brancos.

Os pesquisadores descobriram consistentemente uma associação negro-macaco até quando os jovens adultos diziam que não sabiam nada sobre suas conotações históricas. A conexão era feita somente com rostos afro-americanos; o terceiro estudo do artigo não conseguiu encontrar uma associação com macacos em outros grupos não-brancos, tais como os asiáticos. A despeito destas descobertas especificamente raciais, os pesquisadores afirmaram que a desumanização e o imaginário animal têm sido usados através dos séculos para justificar a violência contra muitos grupos oprimidos.

“A despeito da oposição hegemônica ao racismo, a discriminação permanece entre nós”, Eberhardt disse. “Afro-ameticanos ainda são desumanizados; ainda somos associados com macacos neste país. Essa associação pode levar pessoas a endossar o espancamento de supeitos negros por policiais, e penso que há muitas outras consequências a ser reveladas”.

Antecedentes históricos

O racismo científico nos Estados Unidos foi promovido graficamente num livro da metade do século XIX, escrito por Josiah C. Nott e George Robins Gliddon, intitulado Types of Mankind (Tipos da Humanidade), que usava ilustrações deturpadas para sugerir que os “negros” eram o elo entre os “gregos” e os chimpanzés. “Quando temos uma história assim neste país, não dá para saber quanto disso já foi erradicado completamente, especialmente considerando que ainda lidamos com sérias desigualdades raciais, que alimentam e mantêm essas associações de uma forma da qual as pessoas não se dão conta”, disse Eberhardt.

Embora tais caracterizações históricas dos afro-americanos tenham amplamente desaparecido da sociedade mainstream norte-americana, Eberhardt notou que a educação científica poderia ser parcialmente responsável por reforçar a visão de que os negros são menos evoluídos do que os brancos. Uma ilustração icônica de 1970, “A Marcha do Progresso”, publicada no livro da Time-Life Early Man (O Homem Primitivo), representa a evolução começando com um chimpanzé e terminando com um homem branco. “Trata-se de um legado de nosso passado que o ponto final da evolução seja o homem branco”, disse Eberhardt. “Não penso que seja intencional, mas quando as pessoas aprendem sobre evolução humana, elas saem com uma noção de que as pessoas de descendência africana estão mais próximas dos macacos do que pessoas de descendência europeia. Quando se pensa numa pessoa civilizada, um homem branco vem à mente”.

Consequências da violência socialmente aceita

No quinto estudo do artigo, os pesquisadores subliminarmente prepararam 115 graduandos, todos homens brancos, com palavras associadas tanto com macacos (tais como “mico”, “chimpanzé”, “gorila”) ou grandes felinos (tais como “leão”, “tigre”, “pantera”). As últimas foram usadas como elemento de controle, pois ambas as imagens são associadas a violência e à África, disse Eberhardt. Os sujeitos então assistiram a um vídeo de dois minutos, similar a um programa de TV policial, mostrando vários policiais espancando violentamente um homem de raça indeterminada. Um retrato falado de um homem negro ou um homem branco era mostrado no começo do vídeo para indicar quem estava sendo espancado, com uma descrição afirmando que, apesar de descrito por sua família como “um marido e pai amável”, o suspeito tinha uma séria ficha criminal e poderia estar drogado no momento da prisão.

Pedia-se aos estudantes que avaliassem quão justo era o espancamento. Os participantes que acreditavam que o suspeito era branco eram mais propensos a apoiar o espancamento quando eram preparados com imagens de macacos ou de felinos, disse Eberhardt. Mas aqueles que pensavam que o suspeito era negro eram mais propensos a justificar o espancamento se tivessem sido preparados com palavras relacionadas a macacos do que com palavras relacionadas a felinos. “Juntando tudo, isso sugere que o conhecimento implícito de uma associação negro-macaco levou a diferenças marcantes nos julgamentos dos participantes sobre suspeitos criminais negros”, escreveram os pesquisadores.

De acordo com os autores do artigo, esta ligação tem consequências devastadoras para afro-americanos porque ela “altera a percepção e atenção visual, e aumenta o encorajamento à violência contra suspeitos negros”. Por exemplo, o sexto estudo do artigo mostrou que, em centenas de notícias de 1979 a 1999 do Philadelphia Inquirer, afro-americanos acusados de crimes capitais tinham seis vezes mais chances do que brancos acusados dos mesmos crimes de ser descritos com termos relacionados a macacos, como “bárbaros”, “feras”, “brutos”, “selvagens” e “animalescos”. “Aqueles que são implicitamente retratados como mais parecidos com macacos nestes artigos têm mais chances de ser executados pelo Estado do que aqueles que não são”, escreveram os pesquisadores.

O caminho daqui para a frente

A despeito das descobertas do artigo, Eberhardt disse ser otimista quanto ao futuro. “Este trabalho não afirma que não houve progresso ou que estamos vivendo na mesma sociedade que existia no século XIX”, disse ela, “progredimos muito nas questões raciais, mas deveríamos reconhecer que a discriminação racial não está morta. Ainda precisamos ficar atentos a isso e a todos os diferentes meios pelos quais [o racismo] pode nos afetar, a despeito de nossas intenções e motivações para ser igualitários. Ainda temos trabalho a fazer”.

Para Eberhardt, duas histórias de raça existem nos Estados Unidos, “uma é sobre o desaparecimento da discriminação – de como ela não está mais entre nós”, disse ela. “Mas a outra é sobre a transformação da discriminação. Não é mais aquela discriminação horrível, mas uma discriminação moderna, uma discriminação sutil”. Com ambas as histórias, ela disse, há um entendimento de que a sociedade caminhou para além das batalhas históricas centradas na raça. “Nós queremos dizer, com esse trabalho, que há uma velha batalha racial que ainda estamos lutando”, disse ela. “É a batalha para que os negros sejam reconhecidos como plenamente humanos”.

Jennifer Eberhardt ganhou o Stanford University Dean’s Award por essa pesquisa.

Fonte

Contatos imediatos – parte 3

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Na primeira e na segunda parte de Contatos Imediatos, fiz extensos comentários sobre algumas observações de Stephen Hawking a respeito da possibilidade de vida extraterrestre (trechos retirados do site The Daily Galaxy). Discorri sobre as possibilidades advindas da mera especulação sobre as naturezas dos seres vivos extraterrestres, pensando nas inúmeras possibilidades cósmicas.

Em seguida, explorei as probabilidades e improbabilidades de encontrarmos outros seres vivos fora da Terra, de reconhecermos que são mesmo seres vivos (ou de sermos reconhecidos), de eles terem inteligência como a nossa (ou diferente da nossa) e das possíveis  dificuldades na comunicação e compreensão entre espécies de planetas diferentes. Mas, e se nosso primeiro contato for uma catástrofe?…

Considerando a possibilidade de o surgimento da vida inteligente ser bastante provável, Hawking especula que, em algum ponto de seu desenvolvimento tecnológico,

the system becomes unstable, and the intelligent life destroys itself. This would be a very pessimistic conclusion. I very much hope it isn’t true.

[o sistema se torna instável, e a vida inteligente destrói a si mesma. Esta seria uma conclusão muito pessimista. Eu espero que não seja verdadeira.]

Essa é uma preocupação que concerne aos próprios seres humanos. Se o ponto ambiental crítico a que chegamos for uma constante para outras espécies inteligentes em outros astros, é possível que muitas delas já tenham se extinguido e se destruam antes de realizar viagens interplanetárias.

O tema da autodestruição tem uma ligação com o pensamento escatológico cristão (que herdamos do Zoroastrismo). A crença num fim do mundo, compartilhada pelo Cristianismo (com seu Apocalipse), pelo Islamismo e até pela religião escandinava (com seu Ragnarok), entre outras, chega a nossos dias modificada pelas preocupações com a guerra (o horror nuclear que ameaçava explodir o planeta) e com o meio ambiente (muitos cientistas consideram que o ser humano tem a capacidade de causar uma destruição em larga escala do ecossistema e de sua própria espécie.

No novo mito apocalíptico (que recentemente recebeu contribuições da mitologia maia, com a má interpretação sobre um final de uma era, interpretada pelos ocidentais como sinônimo do fim do mundo), o fim da humanidade, ou o fim da biosfera terrestre, ou até o fim do planeta Terra, serão causados pela própria irresponsabilidade humana.

Dois filmes recentes sobre extraterrestres tematizam essa preocupação com a autodestruição, de duas formas diversas e um tanto opostas.

Em Distrito 9 (District 9, 2009) (veja minha resenha aqui), uma raça extraterrestre apelidada pelos humanos de “camarões” chega à Terra numa nave espacial, sobrevoando Johannesburgo (no país onde está ocorrendo a Copa do Mundo). Não se sabe bem o que ocorreu com os alienígenas, que chegam famélicos à Terra, desamparados e sem rumo. Uma das interpretações possíveis é que eles exauriram seu planeta-natal e não tiveram opção senão ir embora, à procura de um novo lar.

Distrito 9

Em Distrito 9, alienígenas high-tech depauperados são acolhidos e explorados pelos seres humanos da África do Sul, à maneira de estrangeiros indesejáveis, tais quais os judeus e os ciganos

Já em Avatar (2009) (veja minha resenha aqui) são os próprios humanos que exauriram seu mundo e saem à procura de outra fonte de energia (no caso, o satélite Pandora, do planeta Polifemo, numa das estrelas de Alfa Centauro). Há um conflito com os na’vi, nativos de Pandora, que vivem em harmonia com a natureza de seu mundo e cujo modo de vida se choca com os interesses exploratórios dos humanos.

Isso nos leva à observação mais polêmica de Hawking sobre esse tema. Ele considera que é possível que a existência dos humanos tenha sido ignorada por outras espécies inteligentes. Segundo ele, se nós viermos a captar sinais de vida inteligente vinda do espaço,

we should have be wary of answering back, until we have evolved [a bit further].

[deveríamos ter cautela ao responder, até que evoluamos [um pouco mais].]

Um encontro entre os atuais humanos e uma civilização mais avançada

might be a bit like the original inhabitants of America meeting Columbus. I don’t think they were better off for it.

[poderia ser mais ou menos como os habitantes originais da América encontrando Colombo. Não acho que eles tenham tirado bom proveito disso.]

A história humana está recheada de episódios e e narrativas épicas encenadas por grandes impérios e povos subjugados. Os relatos dos vencedores são geralmente imbuídos de um caráter heroico e grandioso, enfatizando a prevalência da civilização e seus valores morais “superiores” sobre a barbárie com sua vida degenerada.

O Império Egípcio unificou os povos nilóticos, desde o delta do Nilo até sua nascente. Alexandre foi aclamado por fundar várias Alexandrias ao redor do mediterrâneo. O Império Romano latinizou quase tudo aquilo que conhecemos hoje como Europa. Gêngis Khan saiu da extremidade leste da Ásia e conquistou tudo até parar em Viena. O Império Britânico ensinou inglês ao “Oriente”, à África e à América. Os Estados Unidos da América vestiram o mundo com jeans, viciaram-no com MacDonald’s e balançaram a terra com o rock and roll.

A história contemporânea mostrou a situação dos povos subjgugados, massacrados, mortos às centenas, aos milhares, obrigados a servir uma autoridade estrangeira, a reverenciar deuses estranhos, a enrolar a língua para falar idiomas alienígenas. Os projetos imperialistas da história humana foram sempre pautados no etnocentrismo, na supervalorização da cultura daqueles que os empreenderam e no desfalque da cultura e vida dos povos espoliados.

A colonização se faz de pelo menos duas formas: 1) a destruição da população local para a exploração dos recursos naturais e 2) a imposição da obediência e/ou de uma cultura nova aos nativos. Normalmente, as duas coisas acontecem ao mesmo tempo e representam de duas formas a anulação e o desrespeito à diferença.

Os destruidores de mundos

Guerra dos Mundos

O veículo dos invasores do espaço em Guerra dos Mundos; ilustração de Alvim Corréa

Essas duas formas de se tratar os povos conquistados são a fonte básica para a fantasia que criamos sobre os alienígenas vindos do espaço. Em alguns casos (como em Independence Day (1996) e Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 2005)), os extraterrestres high-tech pretendem destruir completamente o planeta invadido, neste caso a Terra, seja por mera crueldade, seja para habitá-lo e/ou explorá-lo.

A destruição de uma espécie alienígena, seja qual for o motivo, só é justificada por uma moral que desconsidera o direito à vida daqueles que são diferentes de nós, ou por serem um empecilho ao desenvolvimento de uma civilização com valores superiores, seja por se os considerar animais inferiores que só servem como matéria-prima (como gado para se comer ou para dar couro).

Será que uma espécie que alcance a tecnologia necessária para viajar a outros planetas não desenvolve também uma ética mais evoluída? Se olharmos para nós mesmos, que tanto erramos em nosso passado, não estamos na iminência de uma decisão global para manter nosso próprio planeta vivo? E essa decisão não depende de uma ética mais universalista? Essa ética deverá ser herdada por nossos descendentes da aldeia global, o que talvez aconteça em outros planetas que passam ou passaram por um processo semelhante.

Talvez a conduta dos humanos em Distrito 9 e Avatar seja condizente com a forma de a humanidade reagir hoje em dia, e talvez a abordagem de alguns grupos e indivíduos humanos seja antiética mesmo num contexto social em que domine uma ética mais desenvolvida. Mas penso que, se os humanos viajassem a outros planetas, estariam já num estágio social e cultural que os levariam a tomar muito cuidado no contato com outros mundos habitados.

Os colonizadores de planetas

Cor e Kirk

O representante do Império Klingon e o da Federação, num conflito de interesses sobre o destino do planeta Organia

Em outros casos, como no episódio Missão de Misericórdia (Errand of Mercy, 1967), de Jornada nas Estrelas, a espécie invasora quer apenas anexar o planeta invadido ao “território” de seu império, obrigando aquele a servir este (neste caso, o Império Klingon, cujos interesses se chocam com os da Federação Unida de Planetas, que deseja a aliança do planeta Organia).

Essa situação é explicitamente baseada na Guerra Fria, em que duas superpotências planetárias disputam o mundo e vivem na expectativa paranoica de que o rival pode tomar o primeiro passo numa guerra de proporções hercúleas, o que justificaria a estocagem preventiva de armas. Essa paranoia belicista sempre existiu desde que há povos falando idiomas diferentes, líderes acumulando poder e terra com recursos naturais sendo disputada. E não é difícil imaginar de onde vem a inspiração para as histórias que descrevem uma inevitável guerra entre espécies de planetas distintos.

Os humanos seriam um risco para os extraterrestres?

Se de repente tivéssemos à nossa disposição, hoje, uma tecnologia capaz de nos levar a outro planeta, uma pequeníssima parte da humanidade participaria dos projetos de exploração espacial, pelos seguintes motivos:

  1. Alguns povos e países não têm condições nem interesse em participar de projetos científicos internacionais;
  2. Os povos e países que têm essas condições têm um contingente da população socialmente excluído;
  3. Nem todos os indivíduos da população não-excluída são interessados nesses projetos, e alguns até se oporiam a eles.

Ou seja, a humanidade ainda não é coesa o suficiente para que concebamos um “projeto humano” de exploração espacial, e qualquer delegação humana que viesse a entrar em contato com extraterrestres não representaria a humanidade como um todo.

Porém, na ficção científica, às vezes se vislumbra a unificação da humanidade a partir do desenvolvimento tecnológico. Em Contato, de Carl Sagan, por exemplo, a construção de uma máquina (cujo projeto foi enviado por uma mensagem alienígena), envolvendo esforços de vários países da Terra, aproxima povos que costumavam ser rivais. Em outro momento, o autor narra que várias pessoas abastadas passaram a viver em estações espaciais, o que tem um efeito interessante sobre suas mentes: elas passam a ser menos nacionalistas e a se considerar pertencentes a uma espécie planetária. Ao ver a Terra de longe,

As fronteiras nacionais são tão invisíveis quanto os meridianos ou os Trópicos de Câncer e Capricórnio. As fronteiras são arbitrárias. O planeta é real.

No filme Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato, entende-se que a descoberta de uma tecnologia que permite viajar mais rápido do que a luz e o consequente contato com uma espécie alienígena significariam o início da resolução de todos os problemas sociais do mundo terráqueo, com a união de toda a humanidade frente à vastidão do espaço sideral.

Space Invaders

A ideia de invasores do espaço se baseia no belicismo da própria espécie humana

Se soubéssemos que é grande a probabilidade de tudo vir a ocorrer dessa forma para nós, teríamos bons motivos para ser otimistas em relação a espécies alienígenas mais avançadas tecnologicamente do que nós, pois seria provável que quaisquer problemas sociais, econômicos, étnicos etc. estariam resolvidos em qualquer planeta que viesse a viajar a outros mundos. Ou seja, neste sentido, seria muito provável que uma espécie na era das viagens interplanetárias já tivesse uma ética mais desenvolvida do que a que atualmente temos na Terra, o que quereria dizer que os riscos de sermos vítimas de uma invasão aniquiladora ou colonizadora seriam pequenos.

Praticamente toda especulação que se pode fazer sobre os possíveis riscos de um contato entre humanos e uma espécie extraterrestre inteligente é baseada em nossa própria experiência passada. As guerras entre povos, o etnocentrismo, a intolerância, a segregação, o racismo, a opressão imperialista, tudo isso nos faz pensar em extraterrestres invasores e numa inevitável guerra contra eles.

Mas um vislumbre utópico de nosso futuro, baseado nas mudanças que já houve desde há muito tempo em nossa história até os dias de hoje, podem nos dar uma perspectiva otimista sobre os possíveis alienígenas ultra-tech que venham a se encontrar conosco. A única coisasensata que podemos fazer a respeito disso tudo é nos tornarmos uma espécie melhor, mais integrada e unida, mais respeitosa perante a diversidade biológica cósmica.

Continua

Continua…

Coleção de sinapses 8

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Nesta semana contribuí com um abaixo-assinado contra o trabalho escravo e outro a favor da manutenção da política de regularização de territórios quilombolas. Li sobre cientistas que contribuíram para desfazer a imagem das lulas gigantes como monstros, enquanto a Editora Abril se mostrou um monstro ao demitir um de seus renomados funcionários que fez a besteira de exercer sua liberdade de expressão.

Vi um ovo projetar um pinto numa releitura imagética da natureza e li sobre uma triste tentativa do estado do Arizona de levar uma releitura empobrecida da história americana para as escolas. Vi também uma releitura escultural da fictícia morada de Bilbo Bolseiro e um leitura cultural e histórico do papel dos negros, da escravidão e da Abolição no Brasil, enquanto ouvia uma conversa sobre a ficção científica de Douglas Adams, que aborda a cultura, a história, a vida, o universo e tudo mais.

Abaixo-assinado pela aprovação da PEC do Trabalho Escravo -PECcravo do Trabalho E

O trabalho escravo foi abolido oficialmente no dia 13 de maio de 1888, mas não o foi de fato. É preciso que o Estado exerça o princípio contido na Lei Áurea, de acabar efetivamente com qualquer situação de alienação dos indivíduos humanos de sua própria integridade e liberdade.

Quilombolas-STF – PetitionOnline

A política de regularização de territórios quilombolas promovida pelo Estado brasileiro tem falhas conceituais e processuais. Mas ela é necessária para que a Reforma Agrária do país seja completa. Há muita gente vivendo há muito tempo em terras sobre as quais não consegue exercer o direito de propriedade, devido à situação marginalizada e à opressão de quem se utiliza de poder político, econômico e social para esbulhar e se apossar do que acha que pode ser seu. Penso que há muito o que mudar na referida política, mas acho que isso deve ser feito sem que os trabalhos já iniciados seja prejudicados e mais gente continue vendo seus direitos humanos negados.

Colossal Squid Is No Monster, Study Finds – LiveScience

A lula gigante provavelmente inspirou o mítico monstro Kraken, do imaginário escandinavo. Mas, se observarmos bem a natureza, muitos dos maiores animais não são caçadores e são os mais dóceis (contanto, claro, que os deixemos em paz). Elefantes, baleias, girafas, hipopótamos; na pré-história, braquiossauros, tricerátopes, mamenquissauros… até porque quanto maior é o animal, mais lento ele é.  Bbiólogos estão descobrindo que as lulas gigantes não são predadores ferozes, mas esperam pela presa para agarrá-la.

Jornalista é demitido da National Geographic por criticar Veja no Twitter – PortalImprensa

Felipe Milanez utilizou sua conta de Twitter pessoal para criticar o racismo e a manipulação de informações da revista Veja. Mas, mesmo tendo tido um papel importante para a consolidação da National Geographic no Brasil, foi demitido. É claro que uma empresa quer que seus empregados zelem pelo nome e a reputação de seus patrões. Mas… ora bolas, a Veja tem uma péssima reputação na visão de muitos jornalistas. A Nat Geo é uma ótima revista, talvez por veicular informações que não tocam tanto em assuntos políticos, que é um dos pontos fracos do Brasil.

Chicken and the Egg – Tim O’Brien

Uma ilustração bonita e original, uma metáfora entre natureza e tecnologia. O que veio primeiro, o ovo, o projetor ou a galinha? Essa imagem, aliás, me remeteu ao estilo de Luigi Serafini, em seu extravagante e surreal livro Codex Seraphinianus.

Estado do Arizona proíbe matérias sobre minorias étnicas nas escolas – G1 Mundo

Os Estados Unidos talvez sejam o país que mais contribui para a visão ocidental (compartilhada pela cultura brasileira também) de que o branco-caucasiano-europeu-dolicocéfalo é o humano normal, sendo os outros povos e etnias considerados variações menos perfeitas e que precisam abandonar a primitividade e adotar o American Way of Life, mais evoluído, mais avançado, mais humano… Negar a diversidade humana é uma forma de negar uma das características mais fundamentais de nossa espécie, e negar a contribuição de múltiplas origens da história dos EUA é dividir desigualmente o prêmio da construção do Império Norte-americano. Agora o Arizona quer ensinar às crianças a se definir como exclusivamente euro-descendentes, negando sua mestiçagem (biológica ou não, mas cultural certamente) e até esquecendo que seu atual presidente é um autodeclarado mestiço.

My Hand Made Hobbit Hole – Bag End from Lord of the Rings – Madshobbithole’s Blog

Uma muito bonita adaptação artesanal da casa de Bilbo Bolseiro (protagonista de O Hobbit, de J. R. R. Tolkien), escavada dentro de uma colina. A morada de Bilbo já é para os humanos medianos uma miniatura, e essa miniatura da miniatura nos remete ao fascínio pelas representações diminuídas da realidade “normal”. É como se , ao nos imaginarmos naquele cenário miniaturizado, simulássemos o desejo de ser pequenos, ou seja, de voltar a ser crianças. O mais interessante, no entanto, é que isso tudo está me inspirando para escrever um texto mais longo sobre o tema… aguardem.

O Negro No Brasil Pós-Abolição – Conversa de Bar

13 de Maio – Conversa de Bar

13 de Maio – Dia Nacional de Luta Contra o Racismo – Conversa de Bar

Eduardo Prado fez em seu blog Conversa de Bar um pequeno dossiê sobre o racismo e a Abolição da escravidão, ensejado pelo 13 de maio. Como já discorri acima, a escravidão é um processo incacabado. Além disso, a Abolição é um fato controverso de nossa história, pois aboliu a condição de escravos dos africanos e seus descendentes, mas não houve nenhuma ação do Estado para que esses recém-libertos passassem a viver como gente livre. Daí toda uma série de desigualdades que se perpetua até hoje.

Nerdcast 209 – Douglas Adams – A Vida, o Universo e Tudo Mais – Jovem Nerd

A “trilogia de 5 livros” O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams, é uma ótima fonte de diversão inteligente, humor intelectual ou qualquer coisa parecida. Um belo exemplo do refinado humor britânico, aplicado à ficção científica e às histórias de aventura espacial. Neste episódio do Nerdcast, os locutores faze um apanhado dos de alguns dos aspectos mais interessantes da obra de Adams. Mas eu sugiro veementemente que o ouvinte leia pelo menos o primeiro livro da “trilogia” antes de escutar o episódio. E se prepare para sair com sua toalha no dia 25 deste mês. A propósito… NÃO ENTRE EM PÂNICO!

Cotas raciais – parte 3

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A raça é uma construção social. A maioria dos cientistas sociais e biólogos vão concordar com essa afirmação. Isso não quer dizer que ela não tenha efeitos nocivos sobre nós. A ideia de que existem raças baseia a discriminação racial. Mas, justamente por isso. a ideia de que uma “raça” possui aspectos intrínsecos que a diferenciam das outras deveria ser desconstruída. No entanto, há muito mais coisas a ser consideradas na discussão sobre cotas raciais…

Nesta terceira parte da Série Cotas Raciais, dou continuidade à análise dos comentários que foram deixados na primeira parte. Retomo aqui um comentário de Eduardo Prado, autor do blog Conversa de Bar, e um de AmBar Amarelo. O tema vai se complexificando ainda mais e, pessoalmente, vou ficando com grandes dúvidas sobre o posicionamento anticotas que eu costumava defender…

Comentário de Eduardo Prado

Concordo, por exemplo, que na raiz do problema está o acesso à uma educação de qualidade.

É interessante notar que a questão educacional parece ser a única unanimidade. A diferença é que os pró-cotas defendem ações emergenciais antes que a (certamente demorada) reforma educacional seja realizada, enquanto os anticotas geralmente alardeiam a imediata melhoria do ensino público, mas ninguém faz nada para mudá-lo. Neste sentido, eu tendo a concordar com cotas que atendam minorias, como forma de pressionar a implementação dessas mudanças.

Discordo, no entanto, dos que acreditam que as cotas vão servir para racializar as relações sociais no Brasil, talvez por que eu não entenda raça como uma determinação biológica. A palavra raça, que provavelmete tem origem comum a palavra raíz, é muito mais antiga que o conceito biológico de raça inventado no século XIX, talvez um pouco antes, no XVIII. Eu entendo raça como uma construção cultural e dinâmica, cujos sentidos e significados variam e se transformam ao longo do tempo. Sob o meu ponto de vista, o Brasil já é um país racializado, sempre foi.

Sim, raças são construções sociais. E, sim, existem relações raciais no Brasil, existem identidades raciais e existe racismo aqui. Mas justamente por ser uma construção social é que a raça deve ser desconstruídas, por um ideal antirracista. O racismo se baseia na ideia de que existem raças.

É claro que se pode conceber a existência de raças como meras identidades superficiais, sem que se pense em diferenças intrínsecas a elas. Como se fossem “tribos” (algo parecido com a ideia de “tribos urbanas”). Outra forma comum (embora em desuso) e com implicações bem menos sérias de se usar o termo “raça” é quando ela é sinônimo de família ou estirpe. “Fulano é da raça dos Araújo”.

Só através do reconhecimento de raças e de que as relações sociais sofrem interferência do racismo é que se poderiam criar políticas destinadas à mitigação dessa discriminação. Afinal, é preciso identificar de alguma forma quem é a população discriminada.

Eu também discordo que a implementação de cotas raciais criariam um racismo no Brasil. O racismo já existe. Mas eu tenho uma grande suspeita de que elas poderiam intensificar, em alguns contextos, o racismo já existente. Por outro lado, ao dar uma chance a pessoas que não têm condições de competir em igualdade no vestibular, abrir-se-ia a possibilidade de melhorar a vida dessas pessoas e, a longo prazo, melhorar sua autoestima, o que, por tabela, diminuiria até certo ponto o menosprezo e a subestimação dos negros, o que, por fim, diminuiria um pouco o racismo.

Mas, neste sentido, penso que seriam melhor as cotas sociais, que atuariam em cima do fator mais relevante na exclusão da Academia. O vestibular não discrimina a raça do candidato, mas a capacidade de resolver uma prova. O fato de uma pessoa ser negra não diminuiu a possibilidade de ela passar na prova, mas o fato de ela ter estudado em escola pública diminui. Mas as cotas sociais poderiam trazer um complicado dilema: será que elas 1) pressionariam o Estado a melhorar o Ensino Público ou, pelo contrário, 2) fariam o Estado relaxar nesse âmbito? Acho mais provável o primeiro caminho, e seria uma vantagem a longo prazo das cotas sociais.

Dito tudo isso, eu acho sim que poderiam haver cotas raciais em determinados contextos, mas não na Universidade. Existe racismo. Este precisa ser combatido. Mas há muitas outras formas, diretas e indiretas, de se fazer isso que não o acesso à Academia.

É comum ouvir comparações com os EUA, que teve uma história de escravidão em comum com o Brasil em muitos aspectos. Em geral compara-se a especificidade das relações “raciais” no Brasil a dos estados do Sul dos EUA, onde a discriminação contra o negro foi legal até o fim dos anso 50. São poucos os que lembram que a situação do negro nos estados do Norte, que assim como o Brasil, não conheceu leis raciais. Lá, como aqui, a discriminação se dá a partir das praticas sociais, na seleção para uma vaga de emprego, na recusa a alugar um imóvel, entre outras. Não foram as leis raciais, já que elas não existiam no Norte, que induziram a formação de bairros negros em Nova Iorque ou Boston, e sim a precária situação econômica dos negros, que os impedia de morar em bairros melhores. Nas grandes cidades brasileiras também existem bairros de negros e bairros de brancos. Só não existe a placa.

Bebedouros segregados na Carolina do Norte em 1950

Bebedouros segregados na Carolina do Norte em 1950

É preciso averiguarmos a real/atual situação brasileira, bem diferente da norte-americana. Não só pelas histórias diferentes das duas nações, mas principalmente porque não podemos generalizar o “racismo norte-americano” ou o “racismo brasileiro”. As manifestações do racismo no Brasil variam de região para região, de estado para estado, de cidade para cidade, de classe social para classe social, entre a zona urbana e a rural, e muitos outros recortes possíveis.

Provavelmente a violência simbólica e não-simbólica contra negros motivada por racismo na Bahia, onde há uma população negra muito numerosa, seja proporcionalmente menor do que no Rio Grande do Norte, onde há poucos negros, a maioria pobres da zona urbana ou agricultores da zona rural (uma minoria mesmo, no sentido político-social da palavra). E as formas como o racismo afeta as pessoas também vai variar com a região. Não posso apresentar nenhum dado específico, só estou especulando, mas penso que não estou dizendo nenhuma besteira. O fato é que, para situações diferentes de racismo, deveria haver soluções diferentes.

Quanto à comparação com os EUA, é preciso lembrar o trabalho de Bourdieu e Wacquant, “Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista”, onde os autores apontam para a importação de modelos de ação afirmativa, de países como os EUA por países como o Brasil. Não devemos esquecer isso, para construirmos políticas antirracistas que se adéquem a nossa realidade.

Muitas pessoas defendem a adoção de cotas sociais, com toda razão, mas as cotas para quem se declara negro ou indígena tem um significado diferente. Não deixa de ser social, evidentemente, mas tem por objetivo acelerar a ascenção de mais brasileiros negros à classe média e a formação de negros em áreas onde sua presença é muito pequena ou quase insignificante, como a Medicina, a Engenharia, e tantas outras. O que aqueles que defendem as cotas pretendem é que o Brasil tenha uma classe média tão “colorida” como suas ruas. Claro que só garantir o acesso à Universidade não basta, é preciso dar condições para que o aluno continue no curso até o fim. Para isso, aprovar ajuda financeira ao estudante com dificuldades para se manter é fundamental.

Um outro problema que vejo na “colorização” das classes mais favorecidas é que ela se faz numa perspectiva que não critica a própria estrutura de poder de nossa sociedade. Há uma estrutura social, econômica, cultural e política baseada na desigualdade de grupos (sociais, raciais, seja lá o que for, o fato é que há desigualdade), e as cotas não atuam na mitigação ou erradicação dessa desigualdade, mas a mantém, só mudando a composição de cada grupo. (Não adianta colocar um mendigo no trono do príncipe; a monarquia continua existindo.)

Mas as cotas, embora mantenham a ordem social vigente, poderiam ter resultados positivos a longo prazo. Como disse acima, o menosprezo a e a baixa autoestima dos negros e pobres poderiam diminuir e os preconceitos raciais e/ou sociais também diminuiriam.

No entanto, repetindo o que disse acima, a “raça” não dificulta a entrada de alguém na Universidade, o que dificulta é sua formação. Se devemos dar uma chance a um grupo, deveria ser aos pobres que frequentam a escola pública. Acho que seria negativo criar uma situação tal em que seja possível a um branco pobre que conseguiu, por esforço próprio, tirar uma ótima nota perder a vaga para um negro rico que não estudou e tirou uma nota medíocre.

Quanto ao ensino público brasileiro, bem, é uma tragédia. Apesar das melhorias significativas apontadas pelos índices do MEC em quase todos níveis, ele vai precisar melhorar muito, mas muito mesmo, para ser considerado ruim. É lembrar que só recentemente alcançamos a universalização do acesso ao Ensino Fundamental. Hoje, segundo estatisticas do MEC, 97% das crianças dentre 6 e 12 anos estão na escola. Mas esses números não são motivo de comemoração. Metade dos estudantes brasileitos deixa a escola antes de terminar o 9º ano do Ensino Fundamental (antiga 8ª série), e só uma minoria,entre 20% e 30% conclue o Ensino Médio. Estes são os privilegiados, que apesar das dificuldades, da precariedade da escola pública (e de suas próprias condições de vida), dos professores sobrecarregados e mal pagos, podem concorrer a uma vaga no Ensino Supeior. Se a realidade fosse outra não precisaríamos estar aqui discutindo sobre cotas.

Criança sergipana trabalhando (www.jornaldacidade.net/)

Criança sergipana trabalhando (www.jornaldacidade.net/)

Pois é, ainda há muito o que melhorar. E é necessário sanar o problema da impermanência na escola, para que mais e mais crianças pobres, negras, indígenas, ciganas etc. tenham mais chances de chegar à Universidade… agora estou me dando conta de um outro problema relacionado ao acesso à Universidade: boa parte das crianças negras/pobres nem chegam a fazer o vestibular, pois nem chegam ao final do segundo grau.

Um fato que pouco se discute é que a formação fundamental formal não é um índice totalmente confiável da vocação acadêmica. Há muitos graduandos que, embora tenham tirado boas notas no vestibular, são universitários medíocres. E há aqueles que não têm condições de resolver a prova do vestibular com eficácia mas, tendo a chance, se mostram excelentes acadêmicos. Esse é um tema que devo retomar em outro post.

Esse é um tema que não se esgota. Na verdade, teria muito ainda pra escrever, mas já precisei cortar várias partes desse comentário para deixá-lo um pouco menor.

Sem problema. Sempre haverá oportunidades para pincelarmos alguma coisa sobre esse extenso tema.

Comentário de AmBar Amarelo

Thiago, sou CONTRA as cotas RACIAIS, e vou além: sou contra a identidade racial no Brasil (que não seja a brasileira).

Também sou contra a manutenção das identidades raciais. O ideal antirracista que eu defendo é a ideia de que só existe uma identidade humana. Neste sentido, vou ainda mais além de você, pois uma “identidade brasileira” não deixa de ser um tipo de identidade racial. Ainda neste caminho, sou favorável a um cosmopolitismo e um antiufanismo.

Gostaria de adicionar a discussão (por mais lenha na fogueira) que a própria idéia de “LIBERDADE-ANTE-ESCRAVISTA” é Européia (corrija-me se eu estiver errado). Tanto Europeus quanto Africanos possuíam seus próprios escravos. Porém estudos sugerem que até nos Quilombos havia escravidão entre Africanos de diferentes etnias.

Não que o senso de LIBERDADE , IGUALDADE e FRATERNIDADE seja exclusivamente europeu. Qualquer um que esteja preso terá senso de liberdade. Porém quem implantou isso no mundo foram eles!

Já que me pediu para corrigi-lo, o correto é antiescravista :P. Sim, os europeus impuseram, motivados por seus próprios interesses mercantis, o fim da comercialização de pessoas e, por tabela, o fim da escravidão. Mas isso não foi necessariamente inspirado por ideais humanistas (liberdade, igualdade, fraternidade).

Os negros ainda foram durante muito tempo considerados inferiores e com menos direitos do que os brancos (ainda há pessoas que pensam assim, nos EUA, no Brasil e muitos outros países da América). Embora estes não pudessem mais transformar aqueles em mercadorias, continuavam tendo que “aturar” sua presença.

Se hoje consideramos a escravidão como algo brutal é porque os europeus impuseram isso ao mundo (não que no desenrolar a História outra civilização não pudesse fazer isso).

Amistad (1997), de Steven Spielberg

Amistad (1997), de Steven Spielberg

Dito isso, eu pergunto: e daí se foram os europeus que impuseram o antiescravismo? Por que lembrar isso com tanta ênfase? Por que insistir em que os africanos praticavam escravidão? Por que lembrar que os quilombolas tinham escravos?

Talvez se faça isso para relativizar a acusação de que os brancos são sempre algozes e de que os negros são sempre vítimas (o que fiz na primeira parte deste texto). Mas daí eu também me pergunto: isso é tão relevante assim? Dar crédito aos brancos que desenvolveram os ideais humanistas não diminui a gravidade da escravidão de negros por brancos. Lembrar que os negros tinham escravos não diminui o sofrimento sofrido por aqueles que estiveram no cativeiro.

Enfim, essas informações só são importantes para compreendermos como se deu a História humana e para evitarmos os erros cometidos no passado. Mas o importante em relação ao racismo na atualidade é entendermos como se dão hoje as relações raciais, de preconceito étnico, de desigualdade social etc. Procurarmos formas de resolver essas desigualdades entre os seres humanos contemporâneos. Afinal, há brancos pobres que descendem de famílias nobres e não sofrem menos por causa dessa ascendência. E há negros ricos que descendem de escravos e não necessitam de ações afirmativas para viver na liberdade de seus direitos.

Quanto ao fato das relações sexuais que desencadearam a miscigenação: Será que foram apenas estupros? Então todos os mestiços do Pará são frutos de índios estuprados? CLARO QUE NÃO!

Lembremos de um ditado popular: “A pobreza aproxima as pessoas”. Agora imagine um sertanejo “português” esquecido nos desertos do nordeste, junto a ele uma negra “africana” compartilha de seu sofrimento (FOME, SEDE). Ambos não podem se apaixonar?

A grande pergunta: TODA MESTIÇAGEM BRASILEIRA FOI FRUTO DA VIOLÊNCIA?

É difícil de crer.

Você tem toda razão, AmBar. A mestiçagem não foi fruto só da violência. Aliás, duvido que a maior parte dela tenha sido gerada por meios violentos. É um exagero dizer que toda a mistura se deu pela violência sexual dos colonizadores sobre as colonizadas e escravizadas, e é exagero afirmar que as relações entre senhores brancos e escravas negras era, em larga escala, consensual.

As cotas sociais teriam o mesmo impacto positivo que as raciais, com a vantagem de não promover a identidade racial, que, ao meu ver, é um negro se achar africano e um branco se achar europeu.

Eu discordo em alguns pontos. Como expus acima, penso atualmente que as cotas sociais seriam mais vantajosas do que as raciais no acesso à Universidade.

Quanto à identidade racial, ela não se dá necessariamente com a assunção de uma identidade africana ou europeia. As identidades raciais já existem sem essas referências geográficas de origem ancestral. É só olharmos ao nosso redor e percebermos com que facilidade nós identificamos os brasileiros como “negro”, “branco”, “japa”, “alemão”, simplesmente em referência ao fenótipo e sem nem pensar em quem eram seus ancestrais  de além-mar. É uma identidade racial que muitas vezes pode não ter grandes implicações. Às vezes pode.

Repetindo o que eu disse acima, tenho um ideal cosmopolita. Ser brasileiro não é mais importante do que ser alemão ou nigeriano ou coreano ou argentino. Seres humanos não têm raízes (e nem deveriam se dividir em raças, Eduardo). Se alguém quer se considerar “africano de alma” ou “europeu de coração”, por afinidade, acho que ela tem total liberdade.

Mas (e nisso concordo em certo sentido com AmBar) a intenção de se impor uma identidade em termos de uma origem extracontinental (o que se reflete em expressões como afro-brasileiro, ítalo-brasileiro, nipo-brasileiro etc.) é justamente uma violação da liberdade individual de cada um escolher sua própria identidade, baseada em suas próprias experiências e afinidades particulares.

Quanto a dívida histórica eu pergunto: Mostrem-me os culpados!!

Negrinho da beija-flor é 80% europeu!!!! ele é 80% CULPADO!!

Todos os mestiços brancos são culpados? então a culpa é um fator aleatório.

Como já disse na primeira parte, procurar culpados é uma tarefa improfícua e irracional. Precisamos superar a mentalidade antiquada de justiça, segundo a qual uma compensação para alguém tem que implicar necessariamente na privação de outro. Acho que é possível para o Brasil conceder compensações sem precisar prejudicar alguém. Há recursos suficientes para promover uma revolução da sociedade brasileira, mas… o dinheiro se concentra nas mãos de quem governa, de quem trabalha para manter seus exorbitantes salários e, se possível, aumentá-los.

Devemos buscar o ideal de um país onde a mistura seja algo positivo e a negação à mistura seja algo terrivelmente negativo. E para que isso ocorra devemos acabar com essa mentira de identidade racial em um país mestiço.

O ideal da identidade mestiça contém um paradoxo: a mistura pressupõe que há pelo menos duas coisas diferentes que deram origem a um híbrido, ou seja, se baseia na pré-noção de que há raças e de que o mestiço é uma interseção dessas raças. O ideal que defendo é a desconstrução de qualquer conceito de raça. Portanto, acho que ainda é limitado o ideal mestiço.

Assumir a mistura e viver segundo a ideia de que somos todos mestiços seria bem melhor do que vivermos sob a égide da segregação identitária. Mas acho que seria ainda mais evoluído considerarmos que não existe mistura por que não existe diferença. Um humano de pele escura e uma humana de pele clara dão origem a um humano.

Todos os indivíduos humanos são mestiços porque são resultado do cruzamento entre dois indivíduos, e nenhum indivíduo é igual a outro. Cada um de nós é uma raça, o que nos torna todos iguais.

Links

Coleção de sinapses 4

Padrão

Esta semana uma jornalista negra sofreu uma ofensa racista por um mestre de cerimônias, o que nos remete a uma análise interessante sobre a permanência do racismo no Brasil. A acusação de que os antropólogos brasileiros são parciais em seu trabalho é relativamente desmentida num relatório da Associação Brasileira de Antropologia sobre os índios maxakali.

Dito isso, aprendemos com os portadores da Síndrome de Williams que as pessoas não devem ser julgadas pela “raça”. E vimos numa entrevista não muito recente com Peter Fry que, além da raça, a religião, a sexualidade e a política também não devem ser motivo de preconceito, até porque tudo está misturado. E não é preciso nenhum salto de fé para aceitar alguns preceitos éticos que envolvem todos esses temas…

Jornalista do Hôtelier News é vítima de racismo na Fistur – Hôtelier News

É interessante notarmos como é fácil uma coisa dessas acontecer. E, paradoxalmente, como é fácil ficarmos indignados. Os brasileiros vivem uma tensão entre o racismo latente e a ideologia antirracista. Talvez por haver essas duas forças contrárias atuando sempre é que seja tão complicada a discussão em torno das ações afirmativas no Brasil.

Também é interessante ver, como o fez um amigo meu, que, embora seja perfeitamente legítima a defesa da jornalista contra o preconceito que sofreu, ela mesma não está livre de preconceitos, ao sugerir que uma pessoa ateia ou agnóstica não pode ser moralmente íntegra. Mas aí é outra longa história…

Quem tem medo de raça? A paranóia branca e as ações afirmativas no Brasil – Adital

É fácil confundir o ideal antirracista com a negação do racismo. Essa confusão é feita tanto por quem se opõe à institucionalização das raças quanto por quem a defende. Podemos pensar que há realmente um status quo que uma certa mentalidade elitista e conservadora quer manter, e que passa pela manutenção das desigualdades raciais. Mas nem todos os argumentos que se opõem às ações afirmativas (tais quais as cotas raciais) se baseiam nesse conservadorismo eurocêntrico. Em suma, o texto é interessante e pertinente, mas incorre também em generalizações.

Laudos e Ética – Estadão

Há uma constante acusação aos antropólogos de que seus trabalhos periciais são sempre pautados por um posicionamento unilateral e favorável aos povos estudados por eles, como na confecção de relatórios de identificação e delimitação de seus territórios, para a regularização fundiária. Mas muitas vezes falta quem represente os interesses dos índios e quilombolas, por exemplo, na interlocução com o Estado, e até agora a Antropologia tem sido um dos poucos recursos disponíveis…

Considerações a respeito da situação Maxakali – Associação Brasileira de Antropologia

Nesta nota da ABA, os antropólogos que fazem os relatórios citados no link acima mencionam uma situação em que mostram como se dá a relação entre Antropologia e os povos que são seu objeto de estudo. E entendemos que nem sempre os índios têm razão.

Williams syndrome children show no racial stereotypes or social fear – Discover Magazine – Blog: Not Exaclty Rocket Science

Essa síndrome é interessante. Seus portadores não têm medo de se relacionar com nenhuma pessoa, independentemente do grau de intimidade. A pesquisa sugere que eles não fazem discriminação racial ao julgar as outras pessoas. Porém, serão precisos mais dados para confirmar se isso é uma tendência ou um dado absoluto.

Comment of the Week: The America Christians Want to Return To – Austin’s Atheism Blog

Nesse comentário a um post de Austin Cline em seu blog, vemos que a maioria dos ideais tradicionalistas que os religiosos fundamentalistas querem “de volta” implicariam um retrocesso. Inclusive, os próprios avanços democráticos da contemporaneidade permitem que eles expressem essas ideias sem serem punidos. Mas no mundo que eles querem, alguém que discordasse deles iria para a fogueira.

De Cazemiro@edu para Demóstenes.Torres@gov – Portal ClippingMP

De Washington@edu para Gaspari@jor – Andifes

Esse diálogo em forma de cartas “psicografadas” é pitoresco. Élio Gaspari e Demóstenes Torres estão discutindo ações afirmativas, em especial a proposta de cotas raciais nas universidades. O primeiro é pró-cotas, o segundo é anticotas. Mas o mais interessante é que a incorporação dos personagens serviu para suavizar o debate e deixá-lo um pouco mais civilizado. No entanto, ainda vemos aí a manutenção das posições firmes e maniqueístas no debates sobre cotas raciais, sobre os quais já discuti em Cotas raciais – parte 1.

Religião, política e sexualidade na visão de um antropólogo cosmopolita – Globo Universidade

O cosmopolitismo é muito importante para abstrairmos as ideias com que fomos  criados no restrito ambiente-natal. Peter Fry, antropólogo inglês, mostra que suas viagens pelo mundo não só ajudam a relativizar a visão que temos de nossa própria religião-natal, vida política-natal ou vida sexual-natal, mas também nos faz entender relações imprevistas entre esses vários aspectos da vida humana, tanto numa perspectiva prática quanto epistemológica.

Leap of faith – Wikipedia

Procurei saber sobre a expressão “leap of faith” depois de ver um episódio de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, em que o androide Data diz a Worf que, para considerar a si mesmo uma pessoa, precisou fazer um “salto de fé”, um “leap of faith”. Isso significa deixar em suspenso a falta de provas para algum fato e assumir este fato como verdadeiro, para suprir alguma necessidade existencial. Muitas de nossas assunções são baseadas num “salto de fé”, já que a Ciência e o conhecimento em geral é sempre uma aproximação e não uma descrição exata da realidade. “Se a aparência das coisas coincidisse com sua essência, toda ciência seria supérflua” (Karl Marx).