Evolucionismo cultural

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No final do século XIX, a Antropologia começou a se estabelecer como disciplina científica a partir de contribuições do pensamento evolucionista de Herbert Spencer e das teorias biológicas da evolução, especialmente a seleção natural de Charles Darwin.

Inspirados na ideia da gradual evolução das espécies, pensadores e estudiosos do ser humanos elaboraram um paradigma que hoje chamamos de evolucionismo cultural ou antropologia evolucionista, segundo o qual os diferentes grupos humanos se desenvolvem a partir de estágios mais primitivos até alcançar etapas mais avançadas de um processo evolutivo universal. O principal eixo da epistemologia desse paradigma era o método comparativo, ou seja, o cotejo das diversas manifestações culturais de diferentes povos com o objetivo de encontrar semelhanças de desenvolvimento cultural.

O livro Evolucionismo Cultural: Textos de Morgan, Tylor e Frazer, organizado pelo antropólogo Celso Castro, nos traz um panorama do pensamento evolucionista da antropologia de fins do século XIX e início do XX. Castro apresenta uma sucinta biografia de cada um dos três principais expoentes dessa corrente, Lewis Henry Morgan (1818-1881), Edward B. Tylor (1832-1917) e James Frazer (1854-1941). Uma pequena amostra da obra dos autores, traduzida por Maria Lúcia de Oliveira, coloca o leitor contemporâneo em contato com um pensamento que foi decisivo para estabelecer as bases da antropologia moderna, ao mesmo tempo em que evidencia as limitações que a visão eurocêntrica dos autores imprimiu em suas teorias e epistemologias.

Lewis Henry Morgan

Morgan

Morgan era um norte-americano nascido em 1818 que na juventude fazia parte de uma associação de dedicada a estudos clássicos. Ele era fascinada pela cultura iroquesa, mesmo sem saber quase nada sobre ela, e rebatizou o grupo como Grande Ordem dos Iroqueses. Mas em 1844 ele conheceu iroqueses de verdade e se interessou tanto em aprender com eles sobre sua cultura que se especializou no tema.

Segundo Celso Castro, esse encontro de Morgan com alguns chefes iroqueses pode ser considerado o nascimento da antropologia norte-americana. Seus estudos sobre a cultura iroquesa eram vistos por ele mesmo como uma forma de incitar a simpatia dos norte-americanos anglo-saxões pelos nativos e assim ajudar estes a “evoluir” rumo à civilização.

Ele desenvolveu uma extensa pesquisa sobre o parentesco em diversas culturas (o que veio a colocar este tema numa posição especial dentro dos estudos antropológicos) e sobre o comportamento animal, considerado por ele uma forma de compreender o comportamento humano.

Em 1877 publicou seu mais célebre livro, Ancient Society (A Sociedade Antiga), no qual estabeleceu um esquema evolutivo humano, com base no estudo de várias sociedades ao longo da história. Esse esquema, utilizado depois por Marx e Engels para reforçar a ideia do Materialismo Histórico e para fundamentar a teoria do desenvolvimento dos modos de produção, baseia-se na ideia de que toda a humanidade está fadada a passar pelos mesmíssimos estágios evolutivos, saindo da selvageria, passando pela barbárie e chegando à civilização (seu ápice). A tabela abaixo é adaptada do primeiro capítulo de A Sociedade Antiga e mostra todos os estágios teorizados por Morgan.

Período Fase Características
Selvageria Período inicial
Status inferior
Da infância da raça humana até o começo do próximo período
Período intermediário
Status intermediário
Da aquisição de uma dieta de subsistência à base de peixes e de um conhecimento do uso do fogo até etc.
Período final
Status superior
Da invenção do arco-e-flecha até etc.
Barbárie Período inicial
Status inferior
Da invenção da arte da cerâmica até etc.
Período intermediário
Status intermediário
Da domesticação de animais no hemisfério oriental e, no ocidental, do cultivo irrigado de milho e plantas, com o uso de tijolos de adobe e pedras, até etc.
Período final
Status superior
Da invenção do processo de fundir minério de ferro, com o uso de ferramentas de ferro, até etc.
Civilização Civilização Da invenção do alfabeto fonético, com o uso da escrita, até o tempo presente.
Adaptado de: CASTRO, Celso (org.). Evolucionismo cultural: textos de Morgan, Tylor e Frazer. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. p. 60.

Esses estágios são chamados por ele de períodos étnicos, e vê-se aqui que para ele as diferenças culturais se dão diacronicamente e não sincronicamente. Uma “etnia”, para Morgan, seria definida por seu estágio evolutivo e não por características próprias. O conceito de cultura defendido pelo antropólogo norte-americano entende que ela se forma pela acumulação de conhecimentos experimentais e se realiza plenamente quando atinge o estágio da civilização. Nessa visão, os povos ditos “primitivos” são vistos como arremedos, cuja cultura é entendida como algo irracional e não plenamente desenvolvido.

Morgan se baseia na ideia de que toda a humanidade segue a mesma história, determinada por uma natureza comum. Sua visão teleológica e idealista concebe que todos os povos estão destinados a cumprir sua realização no atingimento da civilização. Esta, obviamente, é idealizada com base na cultura ocidental eurocêntrica. Seu etnocentrismo (e o de autores evolucionistas) o levou a pensar na própria cultura como padrão para todas as outras. Dessa forma, Morgan compreende que há uma uniformidade cultural que só se diferencia em termos de grau. Essa perspectiva será revisada pela antropologia do século XX, que conceberá as culturas (no plural) como dotadas de características únicas.

Ele analisa as diversas sociedades segundo o desenvolvimento de 4 variáveis: as invenções e descobertas, a organização sócio-política, a organização familiar e a noção de propriedade. O grau de complexidade de cada uma dessas variáveis é o que permite, segundo Morgan, diagnosticar o estágio evolutivo de uma determinada sociedade. Mais uma vez vemos o etnocentrismo por trás de seu pensamento, pois a importância dessas variáveis (arbitrárias) só tem sentido para o ponto de vista de sua cultura.

Uma vez que os objetos de estudo dessa antropologia são os diferentes povos ao redor do mundo, Morgan considerava importante preservá-los da influência e esfacelamento provocados pelos “civilizados”, pois não bastava ter acesso à produção material desses povos (objeto de estudo mais da Arqueologia), sendo necessário observar sua linguagem, suas instituições, seus manifestações artísticas em sua forma “pura”. Assim, se a antropologia contemporânea possui uma outra visão sobre as culturas (e não sobre a cultura), e considera que as influências mútuas são inevitáveis e fazem parte da vida intercultural humana, podemos considerar que os esforços por proteger os povos “primitivos” são a herança de um germe que se formou já nos primórdios dessa disciplina.

Edward Burnett Tylor

Tylor

Tylor nasceu em 1832 em Londres e nunca se cursou carreira acadêmica. Suas viagens a Cuba e ao México resultaram em seus primeiros escritos sobre cultura, entre os quais um livro no qual defendia a ideia colonialista de que os mexicanos não tinham condições de governar a si próprios e necessitavam ser assimilados pelos Estados Unidos. A Antropologia, na perspectiva desse autor, serviria como meio diplomático de as metrópoles imperialistas atuarem mais eficazmente sobre os povos colonizados.

Ele é conhecido por ter apresentado o primeiro conceito antropológico de cultura, em sua obra mais célebre, Cultura Primitiva (Primitive Culture), de 1871:

Cultura ou Civilização, tomada em seu mais amplo sentido etnográfico, é aquele todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costume e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem na condição de membro da sociedade.

Nesta definição, fica clara a noção, vista anteriormente em Morgan, de uma relação íntima entre cultura e civilização. Para Tylor, a cultura humana ou civilização se apresenta em vários estágios e não é entendida de forma plural e relativista, mas sob uma perspectiva universalizante. Os povos do mundo são vistos neste viés como numa escala, sendo alguns mais “cultos” ou “civilizados” do que outros.

Tylor deixa claro em sua obra que as leis que regem a sociedade devem ser as mesmas que regem a natureza. A evolução da humanidade e da cultura seria então análoga à evolução das espécies segundo os biólogos evolucionistas, como Charles Darwin, defendiam na época. Sua proposta era estudar a evolução das instituições (religião, arte, costumes etc.) enquanto variáveis isoladas e não como parte de um organismo social dentro do qual elas têm um sentido (da mesma forma que um biólogo poderia estudar a evolução do olho ou outra parte do corpo em diferentes espécies).

Esse método marcava toda a corrente evolucionista e seria criticado pelas gerações de antropólogos posteriores, pois era baseado no simples preconceito de que os povos agrupados em estágios evolutivos semelhantes são semelhantes entre si. No entanto, essa constatação era feita somente através dos instrumentos coletados em museus e não pela observação direta dos referidos povos. Além disso, Tylor apontava para a importância das “sobrevivências” de estágios evolutivos anteriores como provas do progresso da cultura.

Entretanto, apesar do forte etnocentrismo que perpassa toda a ideia central do evolucionismo cultural, é interessante notar que as bases da perspectiva relativista e antirracista já estavam sutilmente presentes nas obras desses autores, como vemos neste trecho da obra de Tylor:

Para o presente propósito, parece tanto possível quanto desejável eliminar considerações de variedades hereditárias, ou raças humanas, e tratar a humanidade como homogênea em natureza, embora situada em diferentes graus de civilização. Os detalhes da pesquisa provarão, parece-me, que estágios de cultura podem ser comparados sem se levar em conta o quanto tribos que usam o mesmo implemento, seguem o mesmo costume ou acreditam no mesmo mito podem diferir em sua configuração corporal e na cor de pele e cabelo.

Diferente de Morgan, Tylor afirma que o pensamento primitivo é tão racional quanto o do ser humano civilizado, embora reitere a posição de que aquele é mais ignorante do que este. Ironicamente, essa constatação sobre o “pensamento selvagem” seria reafirmada pelo estruturalismo de Claude Lévi-Strauss, este já inserido numa corrente que herdou o relativismo de Franz Boas, um dos mais importantes críticos do evolucionismo cultural.

James George Frazer

Frazer

Nascido em Glasgow, Escócia, em 1857, Frazer sempre se interessou pelos estudos das obras da antiguidade greco-romana, e seguiu uma longa carreira acadêmica nesse campo. Na década e 1880, conheceu William Robertson Smith, que o convenceu a se enveredar pela Antropologia. Aliando seus dois interesses, Frazer conceberia sua maior e mais célebre obra, O Ramo de Ouro (The Golden Bough).

A primeira edição tinha 2 volumes 800 páginas, mas o livro foi crescendo a cada edição, até atingir mais de 4.500 páginas em 13 volumes.  Em 1922, Frazer lançou uma versão resumida em um volume. Sua obra obteve grande sucesso entre o público, mas no final de sua carreira os antropólogos já a consideravam anacrônica e mais literária do que científica. Nessa época, o evolucionismo cultural já havia se esgotado.

A obra de Frazer é talvez a que deixa mais explícito o método comparativo característico da antropologia evolucionista. O Ramo de Ouro, por exemplo, propõe colocar lado a lado um imenso número de exemplos de mitos e ritos das mais diversas culturas, com o objetivo de encontrar semelhanças que demonstrem a natureza comum a toda a cultura humana.

Frazer ajudou a definir o lugar da Antropologia entre os ramos científicos. No ensaio Escopo da Antropologia Social, ele localiza esta nova ciência como uma sub-área da Sociologia, reconhecendo sua especificidade mas ainda subordinando-a a outra área. Além disso, para validar a Antropologia como ciência, Frazer propunha que ela servisse como meio de intervenção (os governantes deveriam usar esse saber para incentivar o desenvolvimento da sociedade) e previsão (através dela poderíamos antever o futuro da humanidade).

Porém, ainda mais séria é a proposição de que a dominação imperialista dos povos “selvagens” pelas nações europeias é justificada pela suposta necessidade de desenvolvimento da “cultura”. Partindo da noção da desigualdade natural entre os seres humanos, Frazer enfatiza que a evolução dos povos mais “primitivos” deve se dar com a atuação da liderança dos povos mais “civilizados”, entendidos por ele como dotados de uma inequívoca superioridade intelectual. Essa seria a única forma de garantir a predominância da “ordem” civilizada sobre o “caos” selvagem.

O antropólogo escocês deixa claro que o estudo dos povos “selvagens” é uma forma de conhecermos o passado das nações “civilizadas”, já que, na perspectiva evolucionista, cada povo pode ser encaixado em um dos estágios diacrônicos, e se uma sociedade “civilizada” está no topo dessa evolução, é porque ela passou por todos os estágios anteriores, inclusive o estágio “selvagem”. E se uma sociedade é “selvagem” é porque ela não saiu da fase mais rudimentar dessa escala evolutiva.

Dessa forma, o interesse pelos povos mais “primitivos” advém do esforço por entender nossa própria evolução (vale dizer, a evolução da cultura da qual faziam parte esses intelectuais). Além disso, assim como Tylor, Frazer também trabalhava com a ideia de “sobrevivências”. As crenças mais primitivas perderiam este status na evolução da cultura e se manteriam apenas como crendices ou folclore, o que serviria para se estabelecer um elo evolutivo entre os diferentes estágios.

É bom ressaltar a distinção que Frazer faz entre “selvagem” e “primitivo”. Para ele, este termo só poderia ser aplicado a um estágio anterior à da formação da cultura e que já se perdeu na história da humanidade. Os povos de cultura mais rudimentar que existem hoje estariam, segundo Frazer, na “selvageria” e não na “primitividade”. Esse detalhe pode ser considerado, à revelia do que pensava Frazer, uma base para se dissociar a evolução biológica da realidade cultural humana, que não segue a mesma lógica da seleção natural.

A evolução do Evolucionismo

Embora a antropologia evolucionista tomasse emprestada a noção de evolução darwiniana para postular uma evolução cultural ou civilizatória, esta está mais atrelada à noção de progresso presente no pensamento de Herbert Spencer. Enquanto Darwin apresentava em seu A Origem da Espécies uma árvore genealógica que mostrava uma diversidade de caminhos por que passa a evolução dos seres vivos, Spencer entendia o progresso como uma escada unilateral.

Para os evolucionistas, a cultura era entendida como um fenômeno universal e singular. Em seu paradigma, havia apenas uma “cultura humana”, que se manifestava em diversos graus de desenvolvimento de acordo com o grupo social considerado. As diferenças culturais, para esses teóricos, se devia a uma diferença de grau de evolução e não a peculiaridades históricas de cada sociedade.

Mas o ideal presente no degrau mais alto da escada evolucionista era ocupado pelas sociedades europeias e norte-americana, ou seja, as mesmas às quais pertenciam seus pensadores, pois cada sociedade pensa na própria cultura como a mais exemplarmente humana, e se qualquer outra cultura tivesse desenvolvido o Evolucionismo, teria colocado a si mesma no estágio da civilização.

Franz Boas, antropólogo alemão radicado nos EUA,  daria o pontapé inicial para relativizar as culturas humanas (no plural) e compreender suas diferenças em termos de histórias distintas e não de grau evolutivo. Já o método comparativo seria abandonado com o desenvolvimento da observação participante, empreendida por Bronislaw Malinowski.

A Antropologia se desenvolveria posteriormente com uma perspectiva relativista, vendo as diversas culturas como formas diferentes de viver e ver o mundo, e passaria a servir muito mais para veicular a voz dos povos “nativos” do que como instrumento de sua dominação. Entretanto, podemos ver nas obras de Morgan, Tylor e Frazer algumas das sementes que permitiriam esse desenvolvimento.

A biologia evolutiva de Star Trek

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Fonte: The Evolutionary Biology of Star Trek – io9

Autora: Annalee Newitz

Tradução: Thiago Leite


Um dos grandes mistérios da evolução humana diz respeito ao que aconteceu com todos os humanos que compatilharam o planeta com o Homo sapiens por centenas de milhares de anos. Enquanto o Homo sapiens evoluía na África, havia também homininos na Europa e na Ásia, conhecidos como Homo erectus, os hominídeos de Denisova e os neandertais. Para não falar no Homo florensiensis, conhecido como o povo hobbit. Será que esses grupos humanos se encontraram em algum momento? Eles cruzaram entre si ou se mataram uns aos outros? Será apropriado chamá-los todos de humanos ou eram alguns humanos e outros animais?

Jornada nas Estrelas (Star Trek) tem respostas para essas questões. E elas são tão confusas e frustrantes na ficção científica quanto na ciência evolutiva real.

O Mais Chato Episódio de Star Trek Jamais Escrito

Mesmo que você não seja um fã de Star Trek, provavelmente já ouviu falar do infame episódio de Star Trek: A Nova Geração, “A Busca” (“The Chase”), onde aprendemos que humanos, romulanos, klingons e todas os outros humanoides que encontramos têm de fato um ancestral comum, que vamos chamar aqui de Caras-de-massa (você pode entender por quê olhando a foto ao lado). Por uma série de eventos improváveis, a Enterprise encontra uma mensagem holográfica secreta de uma representante dos Caras-de-massa há muito falecida, que diz:

Sabíamos que viria o dia em que pereceríamos, e nenhum de nós sobreviveria – então deixamos vocês. Nossos cientistas semearam os oceanos primordiais de muitos mundos, onde a vida estava em sua infância. Os códigos nas sementes direcionaram sua evolução para uma forma física semelhante à nossa: este corpo que vocês vêm diante de vocês, que obviamente tem a mesma forma dos seus corpos, pois vocês são o resultado final. Os códigos na semente também contêm esta mensagem, espalhada em fragmentos em muitos mundos diferentes.

Certo, tudo bem, é absurdo e você pode entender por que as pessoas odeiam este episódio. Como Peggy Kolm já apontou brilhantemente em Biology In Science Fiction (“Biologia na Ficção Científica”), não faz nenhum sentido que todos os grupos evoluíssem do mesmo jeito numa variedade de planetas, e não se pode “direcionar” a evolução com “códigos em sementes”.

Mas se ignorarmos tudo isso, nós nos deparamos com um retrato bem interessante da evolução em Star Trek que em alguns aspectos espelham nossa própria evolução na Terra. Em primeiro lugar, nós já sabemos que alguns grupos de alienígenas podem intercruzar. Há o meio-humano meio-vulcano Spock, a meio-humana meio-klingon B’Elanna Torres, a meio-humana meio-betazoide Troi, e muitos outros personagens menores também. Isso só faz sentido se todos eles descenderem dos Caras-de-massa, embora haja episódios em que se sugere que as pessoas mestiças sejam produto de manipulação tecnológica.

Então, o que isso tem a ver com evolução humana?

O Ancestral Comum

belannaHumanos e nossos ancestrais são chamados homininos (eis uma boa explicação para isso), enquanto o grupo maior incluindo humanos e antropoides é chamado de hominídeo. Todos os grupos que mencionei anterioemente são inegavelmente homininos, e todos vieram do mesmo ancestral comum ao Homo sapiens – os Caras-de-massa da humanidade são chamados Homo ergaster ou Homo erectus. Obviamente, os neandertais não conseguiram suas testas romulanescas de algum tipo de evento de panspermia com “evolução direcionada”. Ao invés disso, diferentes grupos humanos simplesmente deixaram a África em diferentes épocas, espalhando-se pela Eurásia. Pelo fato de o Homo erectus ter deixado a África um milhão de anos antes do Homo sapiens, os dois grupos evoluíram separadamente durante um bom tempo. O mesmo aconteceu com o ancestral dos neandertais e os hominídeos de Denisova, que também partiram antes do H. sapiens.

Então a jornada de um milhão de anos da humanidade para a Europa, a Ásia e a Austrália foi de certa forma como o que aconteceu com a progênie dos Caras-de-massa em vários planetas diferentes. Eles começaram como uma espécie, mas, à medida que colonizaram diferentes regiões da Terra, começaram a se diferenciar uns dos outros. Sempre achei divertido o fato de que aquilo que provavelmente identificaria diferentes grupos humanos há 200.000 anos seriam as protuberâncias da testa e a altura – os mesmos dois traços usados no universo de Star Trek para fazer as pessoas parecerem “alienígenas”. É claro que os hominídeos de Denisova não devem ter tido um bobo nariz serrilhado de batata frita como um Bajoriano. Mas os neandertais teriam uma testa maior e um queixo mais protuberante do que os humanos modernos, enquanto os hobbits eram significativamente mais baixos do que o típico Homo sapiens.

Quando o Homo sapiens encontrou os neandertais pela primeira vez, poderia ter sido como os humanos encontrando os klingons? Muito provavelmente sim. Especialmente a parte sobre eles parecerem levemente diferentes e falarem línguas estranhas, mas no entanto são capazes de ter filhos juntos e empreender um extenso comércio mútuo (bem como entrar em guerra).

Especiação

Como mencionei antes, uma das maiores questões em Star Trek (e na biologia evolutiva humana!) é se o Homo sapiens realmente poderia ter filhos com outros grupos humanoides. Em Star Trek, ouvimos diferentes histórias sobre como uma criança meio-humana meio-vulcana poderia nascer – ela foi concebida em ambiente selvagem ou num laboratório? Mas temos absoluta certeza de que vulcanos e romulanos são tão intimamente aparentados que são capazes de produzir filhos sem problemas. Isso na verdade também espelha questões da ciência evolutiva.

Quando uma espécie se divide em duas ou mais, isso se chama especiação. Normalmente acontece quando dois grupos da mesma espécie são separados por tempo suficiente para evoluírem ao ponto em que não podem mais produzir descendência entre si. A grande questão é: grupos como o erectus e os neandertais eram espécies diferentes de nós ou seriam humanos com estruturas faciais e corporais diferentes dos humanos modernos? Há atualmente muita evidência genética de que o Homo sapiens intercruzou com neandertais e os hominídeos de Denisova. Então é provável que os três grupos fossem, de fato, a mesma espécie. Mas ainda não sabemos quase nada sobre o Homo erectus, e também estamos no escuro quando se trata dos hobbits e outros grupos homininos que ainda estão sendo descobertos. É possível que o Homo sapiens tenha intercruzado com neandertais, ao estilo de vulcanos/romulanos, mas não pudessem se reproduzir com Homo erectus.

A especiação é um processo bagunçado e caótico que raramente assume tonalidade preta e branca. Às vezes dois grupos muito diferentes são basicamente como os vulcanos e romulanos. Eles se comportam de modo completamente diferente mas são geneticamente quase idênticos. Outros grupos podem ter um ancestral comum, como humanos e chimpanzés, mas não podem se reproduzir entre si. Sugere-se em Star Trek: Enterprise que humanos e vulcanos podem estar nessa situação, se for verdade que eles requerem intervenção tecnológica para produzir uma prole viável.

Simplesmente não sabemos todas as respostas. No caso de Star Trek, isso se deve a tramas confusas e muitas continuidades retroativas. No caso da evolução humana, é porque ainda estamos tentando descobrir o suficiente sobre nossa história para entender o que aconteceu à medida em que evoluíamos.

Somos Todos Humanos

neandertalMuitos antropólogos usam a palavra “humanos” ou “pessoas” para descrever neandertais, hominídeos de Denisova e outros homininos que foram contemporâneos dos humanos modernos. Há fortes evidências de que estes grupos usavam ferramentas e fogo, podem ter tido uma linguagem e tiveram filhos com os Homo sapiens. Da mesma forma, em Star Trek, os alienígenas humanoides são sempre tratados como pessoas – mesmo que sejam klingons matando todo mundo e comendo um monte de vermes negros viscosos. Eles não são chamados de humanos, mas são claramente equivalentes aos humanos. Em inglês, ninguém usa o pronome “it” (gênero neutro usado para animais e objetos inanimados) para descrever um romulano. Eles podem ser inimigos, mas não são animais.

Quando tentamos imaginar como teria sido para o Homo sapiens migrar da África e descobrir neandertais, hominídeos de Denisova e possivelmente muitos outros homininos, não é à toa que pensemos em Star Trek. Como era viver num mundo com vários outros homininos inteligentes? Possivelmente seria como estar numa Federação com vários outros humanoides.

A alma dos robôs – parte 3

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Um computador pode emular uma inteligência humana de modo visivelmente artificial. Não é difícil encontrar na internet programas que simulam um interlocutor com o qual você pode travar um bate-papo mais ou menos coerente. Mas basta aprofundar ou complexificar um pouco a conversa para desmascarar o robô e fazê-lo dizer coisas sem sentido.

A inteligência das máquinas tem uma especificidade particularmente artificial. A utilidade de um computador prescinde de qualquer traço de humanidade. Um computador e um braço mecânico de uma fábrica não precisam ser nenhum pouco parecidos com um ser vivo, e talvez fosse muito perturbador para nós se não fossem explicitamente artificiais. Esse é o tema de uma história de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, em que Data descobre que tem um irmão mais velho, Lore, que fora descartado por seu criador porque era parecido demais com um ser humano.

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A evolução do homem branco

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Desde que as teorias sobre a evolução biológica do Homo sapiens começaram a ser elaboradas, tornaram-se comuns os esquemas gráficos que representam os diversos estágios que vão desde os primatas que deram origem aos hominídeos modernos até o ser humano como o conhecemos nos dias de hoje.

A Ciência se guia pelo ideal da objetividade, embora reconheça que a limitação dos sentidos humanos tenha que ser relevada e implique sempre na aproximação da realidade e não em sua pura apreensão. Os valores e pré-noções culturais também marcam a forma como construímos o conhecimento científico e os esquemas evolutivos humanos são exemplos de como as representações do mundo restringem o alcance das representações científicas.

Os esquemas evolutivos do ser humano normalmente mostram o ápice da escala como um homem branco. Daí já tiramos, pela simples pinçagem de duas palavras significativas, que a maioria dos desenhos que representam a genealogia da espécie humana está pintada por um ideal androcêntrico e eurocêntrico. Vejamos o gráfico abaixo, conhecido como A Marcha do Progresso, de autoria de Rudolph Zallinger, na famosa obra Early Man.

Um esquema mais simplificado do diargama acima. Em ordem cronológica: Proconsul sp., Australopithecus afarensis, Homo habilis, Homo erectus, Homo neanderthalensis, Homo sapiens

Esta é uma das inúmeras representações científicas que se podem encontrar e que servem para nos dar uma ideia aproximada de como um primata peludo se tornou um antropoide pelado. Mas quase todos esses esquemas culminam num homem branco, de traços europeus. Isso se justifica em parte pela tradição científica, que herdou diversos esquemas de pensamento do Iluminismo europeu. Os europeus fizeram os primeiros esboços desses esquemas e, portanto, desenharam a si mesmos ali.

Essa justificativa dá ao suposto (por mim) racismo/etnocentrismo dessas representações uma origem relativamente inofensiva, afinal, o homem ali representado poderia ser qualquer um do imenso universo da diversidade humana. Porém, a ideia evolucionista moderna de que a civilização europeia representa o auge da realização humana não deixa de aparecer implícita nessa escala, principalmente se nos lembrarmos de tantas teorias do chamado “racismo científico”, que infelizmente ainda têm muitos adeptos (que muitas vezes nem se dão conta de que o são).

E mesmo considerando o contexto (europeu e androcêntrico) em que se elaborarm esses esquemas (afinal, se um melanésio tivesse desenhado a Marcha do Progresso, seu ápice seria um homem melanésio; se tivesse sido construído numa sociedade ginocêntrica, o ápice da evolução seria uma mulher), eles ainda são, em nossos dias de ideiais mais humanistas, propagados sem modificações, o que implica em efeitos indesejáveis para a democracia moderna.

Evolução branca

Nesse racismo que permeia nossas mentes, que vê, por exemplo, os negros africanos como pertencentes a um estágio anterior ao dos brancos europeus, surgem piadas absurdas como a que se segue:

Imagem de uma publicação “científica” do século XIX (Types of Mankind, de Josiah C. Nott e George Robins Gliddon), que sugeria que os negros são o elo evolutivo entre os brancos e os macacos

Esse gráfico, encontrado alhures na internet, mostra bem a ideia que expus acima. Os africanos são vistos como menos evoluídos do que os europeus, do que os norte-americanos e do que os asiáticos. São ainda hoje apelidados, em muitos contextos, de “macacos”. A pilhéria acima, curiosamente, evoca certas ilustrações do século XIX, que representavam o racismo científico da época (como o desenho ao lado).

Num estudo publicado em 2008 por um grupo de psicólogos de duas universidades norte-americanas, foi averiguada a presente e constante representação dos negros como mais próximos dos primatas e menos próximos da humanidade do que os brancos.

Essa pré-noção, que durante alguns séculos serviu para justificar a escravidão de africanos, se alia a uma visão dos negros como parecidos fisicamente com os primatas. Tendo em vista que os chimpanzés e gorilas, os antropoides mais conhecidos e mais próximos da espécie humana, têm pêlos negros (e no caso dos gorilas também a pele negra), a associação imediata entre pessoas de pele escura e macacos nos faz pensar numa proximidade evolutiva.

Mas é bom salientar que os humanos em geral são parecidos com os macacos, e há traços nos humanos brancos que os aproximam mais dos chimpanzés do que os humanos negros (como os pêlos mais abundantes, a pele clara, as narinas bem visíveis e os lábios finos). Um esquema como o desenho ao lado mostra que é preciso forçar a barra para sustentar as teses racistas. Neste caso, o artista se vale da cor escura das duas figuras inferiores para aproximá-las; as dos dois homens são caricaturais, uma na forma do ideal grego e outra exageradamente bruta; além disso, vê-se que o crânio do negro foi propositalmente inclinado para se parecer mais com o do chimpanzé.

Provavelmente, num contexto histórico diferente, em que os negros tivessem colonizado e escravizado os brancos, estes seriam vistos como mais próximos dos primatas do que os negros, e jogadores de futebol como Kaká e Cristiano Ronaldo poderiam receber bananas de presente das torcidas racistas.

A ideia de que o branco representa o humano normal, sendo os outros tipos considerados meras variações secundárias, é tão forte que até numa história em quadrinhos de Jornada nas Estrelas (Star Trek), franquia conhecida por veicular ideais libertários, a reproduz de maneira sub-reptícia e quase despercebida. No quadrinho abaixo, retirado da revista Klingons: Herança de Sangue (IDW/Devir, 2008), vê-se um klingon (uma das espécies alienígenas do universo de Star Trek) sofrendo uma brutal cirurgia plástica para se parecer com um humano, o que inclui ter sua pele “clareada”.

“Jornada nas Estrelas – Klingons: Herança de Sangue” (Devir, 2008, p. 35)

O que deixa implícita a exclusão de diversas cores que caracterizam os grupos humanos, que variam desde um tom escuro quase negro, passando por uma pele avermelhada e morena até tons brancos e propriamente pálidos. O klingon em questão poderia muito bem passar por um ser humano sem precisar clarear sua pele.

Evolução masculina

Uma paráfrase de uma ilustração vista acima, mostrando a mulher no lugar do homem

Outra pré-noção presente na “marcha do progresso” é a de que o ser humano é basicamente macho, tendo a fêmea um papel secundário na espécie. Quase todos os desenhos mostram um homem no auge da escala e seus antepassados também são todos machos. Os desenhos que representam a mulher são em geral feitas a partir dos desenhos androcêntricos já consolidados ou, em muitos casos, são paródias.

Mas vemos na imagem ao lado que os primeiros estágios são idênticos aos do modelo masculino que lhe serviu de base, ignorando inclusive que outras espécies de mamíferos são tão dimórficas quanto os humanos.

Pensando nisso, o artista Tom Rhodes concebeu o desenho abaixo, que mostra a evolução dos dois sexos humanos, mostrando também o dimorfismo nos estágios anteriores ao Homo sapiens.

“A evolução do homem… e da mulher”

Essa é uma perspectiva interessante e mais aberta quanto à questão de gênero. Mas se voltarmos ao racismo discutido acima, vemos que os dois últimos exemplos ainda são eurocêntricos, mostrando mulheres e homens brancos no final da evolução. Vemos nesta última ilustração que o Homo sapiens usa roupas que remetem à vida na Europa, como se o ser humano tivesse surgido lá e não na África.

De qualquer modo, a mulher ainda não aparece como protagonista na história evolutiva humana. Mesmo neste último exemplo, os rostos de algumas de nossas antepassadas está oculto e elas sempre aparecem em segundo plano, exceto no último estágio. Mas mesmo neste a mulher meio que parece estar mais próxima da primitividade, com menos roupas do que o homem, imagem que reproduz a ideia sexista de que os homens são mais racionais (e portanto mais humanos).

A placa da Pioneer

O papel coadjuvante da mulher na representação da espécie humana é tão marcado que até mesmo a mensagem das sondas espaciais Pioneer 10 e 11, lançadas ao espaço pela NASA, que deveria ser a mais objetiva possível, mostra o ser humano macho na posição de representante, enquanto a mulher ao seu lado assume a postura de um papel secundário. Além disso, essa imagem não mostra o ser humano em sua diversidade, pois os traços são europeus (embora, em termos práticos, seja bem provável que uma espécie elienígena não vá perceber isso, os humanos podem ser todos iguais para ela).

No senso comum, em nossa cultura e em muitas outras mundo afora, homens e mulheres costumam ser encarados como duas espécies diferentes. É muito mais comum percebermos e salientarmos as diferenças (pensadas como irreconciliáveis) do que as semelhanças que nos tornam uma espécie única. Isso pode ser notado em algumas charges anedóticas que utilizam como base a Marcha do Progresso. Fica subjacente a ideia de que a evolução do gênero feminino segue uma rota alternativa em relação ao masculino.

Considerações finais

Se, por um lado, as representações da evolução humana segundo os gêneros valorizam as diferenças entre estes, esquecendo as semelhanças, as representações com cunho racista deixam de reconhecer a diversidade fenotípica humana. Mas as duas coisas estão misturadas, e elas ficam mais explícitas nesta elaborada ilustração de Milo Manara:

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Neste esquema, o homem da Europa, com origens na Mesopotâmia, é o protagonista. A mulher aparece desde o início até o fim como coadjuvante da história, normalmente tratada como mercadoria e/ou objeto sexual. Além disso, os povos ameríndios e asiáticos só aparecem em episódios da história humana em que houve contato significativo e impactante deles com o Ocidente.

É certo que se podem encontrar marchas do progresso que fogem meis ou menos das pré-noções racistas e sexistas. Algumas das paródias até contêm elementos de crítica. Porém, as mais bem-humoradas e interessantes permanecem reproduzindo sub-repticiamente o racismo androcêntrico.

Retomamos a postura dos primatas

Como disse Winston Churchill, “os porcos são os únicos animais que nos olham de igual para igual”

Toda a tecnologia visa ao conforto humano

Evolução incompleta

Humanos são macacos

Poluímos e causamos danos a nós mesmos

Ainda há quem não dê valor às evidências…

Este texto é dedicado a Dyego Saraiva, que me deu a ideia de escrevê-lo.

Links

Sobre as ilustrações

Todas as imagens usadas neste texto foram copiadas da internet. Quando possível, atribuí os créditos devidos, mas não arrogo propriedade de nenhuma dessas ilustrações. Façam-me o favor, portanto, de não dizer que essas imagens são minhas, caso queiram copiá-las para usar em outros sítios da rede.

Quanto ao texto, se quiserem copiar e compartilhar, fiquem à vontade. Agradeço se citarem a autoria, e podem até não citar, mas jamais digam que o texto é de outra pessoa.

Obrigado.

Coleção de sinapses 11

Padrão

Esta semana repisamos a questão identitária nas cotas raciais e vimos um estudo sobre racismo e (in)sensibilidade à dor do outro, além de um embate insensível, terrível e criativo entre bebidas e também vimos a criatividade dos sites na apresentação do “erro 404”, além da apresentação de uma versão simpática e ursina do Capitão Kirk.

Chamaram-nos à atenção as esculturas animadas de Theo Jansen, uma evolução do conceito de arte “estática”, lemos um artigo interessante sobre a evolução das baleias, assunto que me fascina muito, e vimos ilustrações russas para O Hobbit, assunto que muito me fascina. Um vídeo ilustra a (má ou boa) influência dos pais e uma matéria mostra o conflito entre a sacralidade de um ritual e os hábitos de um indivíduo.

As cotas para negros no ensino superior e o biopoder (Vanessa Santos) – Revista Global Brasil

A questão identitária nas políticas de ação afirmativa e, especialmente, nas políticas de cotas raciais no ensino superior, é abordada de maneira lúcida pela autora. Uma sociedade que se pretende democrática precisa dar a todo e qualquer indivíduo a possibilidade de ser o que quiser. O status quo não o permite. As cotas raciais não o permitiriam de maneira radical, mas poderiam ser um passo transitório para alcançarmos esse ideal.

Racismo afecta identificação com a dor física do outro – DN Ciência

O resultado prático dessa pesquisa poderia ser inferido através da observação dos comportamentos humanos, como a violência física efetiva que algumas pessoas infligem em outras. Além disso, essa pesquisa traz o risco de nos fazer pensar que a origem do racismo é bio-neurológica. De qualquer forma, sabemos que a intolerância racial é cultural e socialmente engendrada, e essa matéria nos mostra a força que os condicionamentos culturais têm sobre os cérebros dos indivíduos.

A implacável guerra das colas – Obvious

Uma foto criativa. O mesmo site mostrou uma segunda foto com a revanche da Pepsi, mas acho que a piada ficou boa só na primeira imagem.

A criatividade do erro 404 – Obvious

O “erro 404” aparece quando um link dentro de um site está “quebrado” ou errado. Há poucos exemplos de páginas de “erro 404” neste link, e acho que faltou um dos melhores, que é o do site do Greenpeace, em que aparece um dodô (espécie de ave que habitava as Ilhas Maurício e que foi extinta pelo ser humano).

Capitão Urso “Titus” Kirk – Mini-Figura IWG Star Trek – Blog de Brinquedo

Coloquei esse link só porque gosto de Jornada nas Estrelas. 😛

Artista cria esculturas que andam sozinhas com a força do vento – Pequenas Empresas Grandes Negócios

Essa “escultura” me lembrou muito o castelo animado de Howl no filme O Castelo Animado (Howl’s Moving Castle), de Hayao Miyazaki. Um cenário habitado por criaturas desse tipo seria um espetáculo e um ponto de visitas interessantes.

Whale Evolution: A Snapshot of Planet Earth From 55 Million B.C. to Present – The Daily Galaxy

Há algo que me fascina muito no estudo da evolução dos cetáceos (baleias, golfinhos…), talvez o encanto que tenho pelo mar e a metáfora possível entre minha vontade de mergulhar no oceano e o surgimento dos cetáceos a partir de mamíferos terrestres.

Russian Lord of the Rings – English Russia

As ilustrações russas de O Hobbit nos permitem ver como a interpretação visual de uma história muda de acordo com a cultura. Bilbo Bolseiro parece bem diferente daquele desenhado pelos artistas anglo-saxões (ou seja, da mesma origem do autor do livro, J. R. R. Tolkien). Bilbo aí é mais careca e mais risonho do que o que estamos acostumados a ver no Ocidente, e tem pernas peludas (segundo Tolkien, os Hobbits têm pés peludos). Os trolls também são diferentes, parecidos com gigantes.

As referências folclóricas de cada sociedade dão o tom das representações visuais das criaturas fantásticas. Isso também afeta a tradução de uma obra como a de Tolkien, e a própria tradução afeta a interpretação dos leitores.

Por exemplo, na música Lord of the Rings, do álbum Tales from the Twilight World, da banda alemã Blind Guardian, temos uma tradução traduzida (do inglês para o alemão para o inglês) que transforma Dwarves (anões) em gnomes (gnomos). Um dos versos do One Ring da obra de Tolkien diz:

Seven [Rings] for the Dwarf-lords in their halls of stone,

O Blind Guardian, provavelmente lendo uma tradução alemã, traduziu de volta ao inglês:

Seven rings to the gnomes
in their halls made of stone

A figura dos Anões da Terra-Média se confunde com os gnomos, baixinhos barbudos das mitologias nórdicas. Numa versão orquestrada dessa música no disco Forgotten Tales, a banda corrigiu o erro:

Seven rings to the dwarves
In their halls made of stone

Make your Influence Positive – YouTube

Cuidado com suas ações. As crianças aprendem a se comportar tendo como base o comportamento de suas versões adultas.

‘Papa-comida’ é banido de funerais na Nova Zelândia – G1 Planeta Bizarro

A sacralidade dos rituais fúnebres não impediu esse indivíduo de “profaná-los”. Mas se havia comida para ser consumida, o que deveria impedir uma pessoa faminta de saciar sua fome? A santidade de um ritual só tem sentido na cabeça daqueles que aprenderam a vivê-lo.

Agora… em minha mente ecoou uma frase da minha infância, proferida por Jaca Paladium na TV Colosso:

E isso aconteceu na Nova Zelândia.

É proibido duvidar

Padrão

Há assuntos que o bom senso nos faz evitar a muito custo. Por mais convicção que tenhamos em relação a um assunto, quando tal convicção se opõe à opinião (pública), ao que a maioria acredita ser verdade, temos receio de colocá-la em questão, especialmente diante de pessoas que defendem de modo aguerrido essa opinião pública. Um exemplo clássico (que se trata de minha exeriência pessoal) é falar sobre religião e Deus.

Não é nada fácil ser agnóstico e muito menos ser ateu numa cultura em que predomina o monoteísmo cristão. Dizer que não se tem certeza se existe um deus ou Deus é convidar os teístas mais fanáticos a nos dar um sermão. Afirmar que Deus não existe é despertar pena ou ganhar a desconfiança de algumas pessoas.

Pior ainda é quando sua forma de encarar a existência de Deus é complexa demais para ser denominada pelos termos disponíveis no mercado linguístico. Se alguém me pergunta se acredito em Deus, responder que “não acredito” resume bem minha visão, mas desperta uma série de preconceitos atrelados a essa frase que não correspondem exatamente à minha visão do tema.

Uma colega minha do trabalho não acredita que exista Deus nem afirma sua inexistência. Para mim, ela se encaixa no conceito de agnóstica. Mas ela não se considera agnóstica nem ateia nem teísta. Conversando com ela, sugeri que ela é agnóstica, mas ela discordou, dizendo que não aceita essas denominações.

Desde que comecei a entender bem o que significa ateísmo, agnosticismo e Ciência, comecei a me considerar cientificamente agnóstico e filosoficamente ateu. O primeiro termo se refere à minha ideia de que não é possível, através da investigação científica, averiguar a existência ou a inexistência de um criador onipotente, onisciente e/ou onipresente. Na Ciência, não se tratam de verdades absolutas, mas de aproximações da realidade, e toda afirmação científica é, de certo modo, agnóstica, pois não é revelada e sim o resultado de um esforço cognitivo.

O segundo termo se refere à negação de qualquer tipo de autoridade absoluta, humana ou divina. De modo que me reporto ao pensamento de Mikhail Bakunin, para quem a existência do Deus das religiões monoteístas implica a escravidão do ser humano. Parodiando Voltaire (“Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo”), Bakunin diz: “Se Deus existisse, seria preciso aboli-lo”. O que me faz relacionar filosofia e ateísmo é uma noção ética, moral, ou seja, mesmo que exista algo que se possa chamar de Deus, considero antiético que sua existência implique na servidão humana.

Além disso, algumas de minhas perspectivas de existência são contrárias a grande parte das crenças dos ateus. Considero, por exemplo, que as manifestações da consciência humana extrapolam os 5 sentidos do corpo físico, que podemos nos manifestar fora desse mesmo corpo (o que se conhece como projeção astral, experiência fora do corpo ou projeção da consciência), que faz sentido que cada um de nós tenha tido outras vidas e terá outras no futuro e que nesse processo estamos evoluindo, cada um, para uma condição cada vez mais avançada. Isso não quer dizer que eu não possa me considerar ateu, pois o sentido estrito dessa palavra é a negação (a-) da divindade (théos).

Etiqueta

Certa vez li na revista Veja um excerto de um manual de etiqueta que dizia que num jantar deve-se evitar conversar sobre 3 itens, entre os quais figurava a religião. Ora, quando se diz isso, o que se deixa implícito  é que “não se deve ofender as crenças das pessoas”. Na realidade, não há riscos de haver confusão ao se falar de religião num jantar onde todos os presentes são adeptos de um mesmo credo. Esse risco é até pequeno mesmo quando cristãos de diversas correntes discorrem sobre assuntos teológicos que interessam a todos eles.

Entretanto, não se considera aceitável deixar à mostra a descrença ou o ceticismo, justamente porque estes abalam o apego desesperado dos crentes. Um especialista em etiqueta que recomenda a discrição na hora de se abordar religião pode estar implicitamente assumindo que tem uma religião que acredita ser a correta e não gosta que outros abordem suas crenças de maneira crítica, mesmo que seja para ajudar a entender melhor algum aspecto dessa crença.

A lógica dessa etiqueta se baseia na ideia de que as religiões têm que ser respeitadas (mesmo que seus discursos incluam críticas a outras formas de pensar) e que a crítica às religiões é um erro, pois seria a negação de algo fundamental da natureza humana. É a mesma lógica de quem pensa que os símbolos religiosos têm que estar presentes nas instituições públicas de um Estado laico (mesmo que eles ofendam algumas pessoas) mas se sente ofendido com uma manifestação ateísta ou de outra religião. A tirinha abaixo, de Don Addis, resume extraordinariamente bem o que tenho em mente:

"Idiota cego! Marginal! Pervertido! Comunista! Blasfemador! Verme imoral e escória da terra!" "Ei! Que tal mostrar algum respeito?!"

“Idiota cego! Marginal! Pervertido! Comunista! Blasfemador! Verme imoral e escória da terra!” “Ei! Que tal mostrar algum respeito?!”

Porém, é preciso levar em consideração um outro aspecto, que se relaciona à mesma ética a que aludi acima: às vezes uma pessoa tem tão entranhada em si uma convicção que questionar e desconstruir de maneira lógica seu pensamento seria uma violência.

Mas se todos incorporassem verdadeiramente uma postura racional e civilizada, poderiam deixar de lado esses melindres e discutir abertamente seus pontos de vista, flexibilizando-se a novas experiências e novas perspectivas, sem as noções preconcebidas de que “é preciso mostrar ao outro que eu estou certo”. Surgiria então uma nova etiqueta, baseada no discernimento, no abertismo e no universalismo, e toda essa bobagem de discrição na hora de abordar certos temas seria superada.

Notas

Este texto é uma versão ampliada de um post originalmente publicado na primeira Teia Neuronial. Seguindo a ideia que expressei no texto A Morte e o Texto, decidi, ao invés de pegar os textos antigos e republicá-los integralmente, reconstruí-los, atualizando as ideias a respeito dos temas abordados, seja porque mudei minha forma de vê-los, seja porque há algo novo a acrescentar.

Confiram o texto original neste link ou abaixo:

Há assuntos que se evitam a muito custo abordar. Por mais convicção que tenhamos em relação a uma coisa, quando tal convicção se opõe à opinião (pública), teme-se-a pôr em questão. Um exemplo clássico (que se trata de minha exeriência pessoal) é religião e Deus.

Não é nada fácil ser ateu. Ainda menos quando eu me posiciono de forma a me considerar cientificamente agnóstico mas filosoficamente ateu. Aquele termo se refere à minha idéia de que não é possível através da Ciência a averiguação da existência de Deus (o agnosticismo não se refere só à questão da existência de Deus). O segundo termo se refere à negação de qualquer tipo de autoridade, humana ou divina. Para Mikhail Bakunin, a existência de Deus implica a escravidão do ser humano. Parodiando Voltarie, Bakunin diz: “Se Deus existisse, seria preciso aboli-lo”.

Há algum tempo li na revista Veja um excerto de um manual de etiqueta, que dizia que num jantar deve-se evitar conversar sobre 3 itens, entre os quais estava religião. Ora, quando se diz isso, o que se quer deixar entender é que “não se deve ofender as crenças das pessoas”. Na realidade, pode-se muito bem falar de religião num jantar quando todos os presentes são adeptos de um mesmo credo. Admite-se até que cristãos de diversas correntes discorram sobre assuntos teológicos que interessam a todos eles. Mas não é bonito deixar à mostra a descrença ou o ceticismo, justamente porque estes abalam o apego desesperado dos crentes.