As línguas em Star Wars

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Já comentei anteriormente sobre as extrapolações de vida alienígena na franquia Star Wars (Guerra nas Estrelas), mais radicais do que, por exemplo, Star Trek (Jornada nas Estrelas). Na ocasião, apontei para o fato de que a saga de George Lucas não é tão ficção científica quanto o universo concebido por Gene Roddenberry, mas mesmo assim a fantástica galáxia dos jedis vai mais além ao imaginar espécies não-humanas do que o mundo futurista da Federação Unida de Planetas (neste os extraterrestres são apenas humanos de outras culturas disfarçados de alienígenas).

Isso tudo acontece, aparentemente, despretensiosamente, e não é um tema explorado nas histórias dos filmes. Da mesma forma, a questão dos idiomas e variantes linguísticas falados pelos personagens é um detalhe pitoresco e secundário, mas se for bem analisado pode nos levar a reflexões tão interessantes quanto as suscitadas em Star Trek. Nesta, encontramos várias situações pertinentes aos interesses da Linguística, como escrevi anteriormente, mas veremos no presente artigo que isso se dá de maneira diferente nos dois universos fictícios.

E como podemos abordar Star Wars quanto às línguas? É preciso começar dizendo que a maioria dos personagens fala inglês. Podemos, entretanto, entender que a língua mais comumente falada nessa galáxia fictícia não é a inglesa, mas foi convenientemente “traduzida” para os espectadores terráqueos (assim como Tolkien supostamente “traduziu” O Hobbit e O Senhor dos Anéis do westron para o inglês). Portanto, o que é pertinente aqui é o fato de haver uma língua franca na Galáxia. A partir desta constatação, observamos vários contextos interessantes em que essa língua está longe de ser a única maneira de as pessoas das mais variadas espécies se comunicarem entre si.

Um tradutor universal plausível

Quando discorremos anteriormente sobre as línguas em Star Trek, observamos que na realidade o fictício tradutor universal seria bem mais complicado do que parece ser nas séries e nos filmes daquela franquia. Mas em Star Wars temos um dispositivo que encarna as funções do tradutor de uma maneira que parece ser bem mais plausível: o droide C-3P0.

Diferente do maravilhoso aparelho que traduz simultaneamente (quase como se conseguisse ler os pensamentos dos interlocutores), nosso querido robô dourado (com uma perna prateada) funciona na prática como um intérprete, fazendo traduções mediatas. Fluente em mais de 6 milhões de formas de comunicação, infere-se que seu escopo de conhecimentos envolve não apenas línguas propriamente ditas, mas linguagens de outros tipos, o que pode nos levar a questionar se há espécies na Galáxia que possuem formas de comunicação que não sejam línguas.

Como C-3P0 é um droide diplomata, fica bastante verossímil seu papel de intérprete não como meramente um tradutor, mas como mediador. Podemos entender seu programa como extremamente avançado a ponto de apreender frases completas e contextualizadas (já que ele é um robô com sentidos que o permitem perceber outros elementos do contexto da comunicação que possibilitem a compreensão de elementos não-textuais da comunicação) e traduzi-las apropriadamente. Inclusive, ele é capaz de interpretar as situações com empatia, percebendo a presença de certos sentimentos e até fazer sugestões, por exemplo, para que os interlocutores tenham cautela diante de colocações maliciosas ou ameaças.

Em suma, esse carismático droide é uma solução bem mais plausível e factível, enquanto elemento de uma ficção científica verossímil, do que o tradutor universal. Não é nada absurdo imaginar um robô de tamanho humano feito com tecnologia avançadíssima e que contenha dados suficientes para estabelecer comunicação com milhões de línguas, através da interpretação mediata e não de uma tradução simultânea imediata que, num cenário realista, poderia implicar em erros toscos de tradução, mal-entendidos e até conflitos entre as partes que tentam estabelecer contato entre si.

Fonética alienígena

A primeira quebra no paradigma da língua universal se dá logo na primeira cena de Star Wars IV: Uma Nova Esperança, em que vemos dois droides dialogando enquanto tentam escapar de um tiroteio. Um deles, R2-D2, não “fala” a língua comum, mas se comunica através de zumbidos, blipes e zoada eletrônica, além de fazer alguns movimentos com sua cabeça circular que gira ao redor de um eixo. Todos ao redor entendem o que ele diz e ele entende o que todos os outros dizem.

Mas talvez chame mais atenção o grandalhão Chewbacca. Ele (e os outros wookies que aparecem no episódio III) são um exemplo interessante de extrapolação da fonética humana. É praticamente impossível para essa espécie falar o idioma comum, assim como para humanos falar a língua dos wookies, ao menos pelo que se depreende das histórias. Isso cria uma situação em que aparentemente não há hierarquia de prestígio entre as duas formas de comunicação, pois as duas são impronunciáveis para a respectiva espécie não nativa, e todos se entendem, cada um falando em seu próprio idioma.

Nessa circunstância, é inviável que cada falante se meta a ficar corrigindo os possíveis “erros” de seu interlocutor, pois a necessidade de comunicação se sobrepõe a qualquer ideia sobre algum tipo de forma ideal ou pura de um idioma. Cada comunicador sabe a forma de se expressar em seu próprio código. Isso também acontece na comunicação com R2-D2 e outros droides em sua relação com seres que falam línguas “orgânicas”. O pequeno droide emite sons eletrônicos que formam “frases” inteligíveis para os que conhecem seu código. Mas o exemplo de R2 não é dos melhores.

Um outro bom exemplo do modelo wookie de diversidade linguística aparece no Episódio II: Ataque dos Clones, com os geonosianos, insectoides bípedes que aparentam viver numa sociedade estilo colmeia. Eles falam um idioma repleto de sons inumanos, como estalidos, rangidos e claques feitos com os “lábios” de quitina. Diante de um conselho de representantes separatistas que falam idiomas diversos, o líder geonosiano fala em sua própria língua sem receio de ser incompreendido, bem como compreende os outros membros da mesa.

Variantes e dialetos

Um elemento de diversidade linguística que muitas vezes falta em universos de ficção científica e fantasia são as variações linguísticas. É difícil encontrar nessas histórias as diversas variantes léxicas, fonéticas ou sintáticas que são características de qualquer língua. O exemplo mais notório da rara presença desse elemento é a Terra-Média de Tolkien, com as diversas línguas e dialetos falados pelos elfos, todas derivadas de um idioma-mãe. Mas neste caso se trata da obra de um filólogo que tinha como um de seus principais motivos para escrever o registro de suas ideias sobre línguas e os idiomas que ele gostava de inventar.

Star Trek prescinde totalmente disso, a não ser que se considerem os diversos sotaques da língua inglesa falados pelos atores das séries e filmes, um elemento incidental. Porém, Star Wars tem um exemplo interessantíssimo de variante no estilo dialeto/jargão: a fala de Jabba o Hutt e de outros criminosos do submundo do planeta Tatooine, o chamado idioma huttês. É bastante notável que o trabalho por trás das câmeras consistiu em improvisar as falas com base na sonoridade e construção das frases em inglês.

A cena da primeira aparição de Jabba, por exemplo, foi filmada com um ator real falando em inglês que depois foi substituído por uma animação em CG e teve sua voz sobreposta por uma improvisação que soasse como a língua dos hutts mas que se parecesse foneticamente com o que o ator original falou (esse método foi usado por Marc Okrand para criar uma boa parte do idioma klingon em Star Trek). Dessa forma, às vezes dá até para adivinhar o que dizem os mafiosos, como se se tratasse de um dialeto ou um código para dificultar a compreensão por parte de intrometidos e das autoridades. Inadvertidamente, acabou sendo criado um idioma que em algumas situações parece um jargão para disfarçar negócios escusos.

“Han, ma bookie” = “Han, my boy” [“Han, meu garoto”].

É claro que a maior parte do que os personagens que falam huttês dizem não tem nada a ver com o inglês, mas podemos pensar que esse jargão foi evoluindo com o tempo e se diferenciou muito da língua padrão. Mais ainda, podemos dizer que ambas as línguas evoluíram de uma matriz comum. E um outro ponto interessante sobre esse caso é a necessidade de um intérprete twi’lek quando os heróis do Episódio VI conversam com o chefão Jabba, afinal, nem sempre todo mundo vai conhecer as línguas de outros povos para conversar livremente entre si.

Sintaxe e aprendizado de novas línguas

Quase sempre que alguém aprende um idioma alienígena em histórias de aventura como Star Wars, é notório seu perfeito domínio de tal idioma, mesmo que o tempo para aprender tenha sido muito curto. Mas na realidade não é difícil encontrar pessoas que mesmo depois de muitos anos falando uma língua estrangeira ainda guardam traços perfeitamente distinguíveis de seu idioma materno, sejam traços fonéticos, lexicais ou sintáticos.

Yoda é um exemplo muito interessante disso. Com cerca de 900 anos de idade e profundamente sábio, o pequeno Mestre Jedi não consegue falar o idioma comum sem usar a estrutura SOV (sujeito, objeto, verbo), que se diferencia da ordem normal do inglês e de grande parte das línguas ocidentais como o português, que elaboram as sentenças na ordem SVO (sujeito, verbo, objeto). Isso pode facilmente ser interpretado como uma sinal de que a língua materna de Yoda utiliza a ordem SOV.

Este e outros aspectos discutidos antes nos levam a notar a completa ausência de mecanismos de tradução automática tais quais o tradutor universal presente em Star Trek, que, se existisse em Star Wars, eliminaria toda essa gama de situações pitorescas e interessantes na comunicação entre os personagens, pois de outra forma todos falariam “inglês” com a mesma aparente desenvoltura. Na vida real, a tradução e o aprendizado de idiomas é um trabalho complexo e difícil.

Evolução das línguas

A maioria das espécies da Galáxia consegue se comunicar entre si sem problemas, pois em geral conhecem as línguas umas das outras e podem até conversar usando seus próprios idiomas maternos sem óbices para a compreensão mútua. Mas num lugar tão grande e com tantas centenas de sistemas planetários habitados, não pode ser surpreendente encontrar uma espécie ou outra que se manteve isolada do resto dos povos, que não conhece a língua franca e cujo idioma é praticamente desconhecido ou, em certos casos, esquecido pelas outras raças.

Os ewoks da Lua de Endor são pequenos humanoides peludos que lembram ursos antropomórficos. Seu primeiro contato com alienígenas ocorreu durante a Guerra Civil que culminou na derrocada do Império Galáctico e na qual tiveram participação importante. Nesse contato, nem os humanos da Aliança Rebelde nem os ewoks conseguiram estabelecer comunicação linguística direta, e foram obrigados a recorrer a C-3P0, que conhecia uma língua semelhante, provavelmente um idioma com raízes em comum com o dos ewoks.

Essa situação linguística é uma das mais emblemáticas em Star Wars, pois traz à tona a necessidade de aprender uma língua estrangeira para estabelecer comunicação, o que em geral é resolvido de maneira um tanto mágica em outras histórias de ficção científica. Aqui os interlocutores precisam encontrar um jeito de se entenderem sem o uso de um tradutor universal. Sua solução mais prática foi utilizar C-3P0, que traduz mutuamente aquilo que cada lado diz ao outro. Mesmo assim não foi um processo fácil e o contato entre eles quase resultou na morte dos rebeldes.

Além disso, é interessante ver aí, mesmo que de forma superficial, um caso de línguas irmãs cuja semelhança facilitou o contato direto entre o droide intérprete e os nativos de Endor. Embora C-3P0 se refira à língua dos ewoks como um dialeto “primitivo” cuja forma mais “avançada” ele conhece (termos que no âmbito da Linguística não se aplicariam), podemos considerar que são duas línguas com origem comum, assim como o são o Português e o Espanhol, derivados do Latim. Se recorrermos a Star Trek, não encontramos praticamente nada neste sentido, pois lá cada língua parece estar bem delimitada e distinguida, e parece ser dada, como se não tivesse história.

Que a Língua esteja com você

Em Star Trek, tínhamos visto que existe uma preocupação constante com a verossimilhança, característica da ficção científica, e vemos no exemplo da língua klingon a elaboração cuidadosa e detalhista da diversidade na ficção. Mas em Star Wars a diversidade parece ser concebida de modo intuitivo, o que faz aparecer exemplos pitorescos saídos da imaginação fantástica e talvez por isso mais interessantes do ponto de vista de um possível vislumbre da radical diversidade de formas de comunicação dos seres vivos no mundo e das criaturas inteligentes no Universo.

Alienígenas em Star Wars

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As histórias de Jornada nas Estrelas (Star Trek) trazem muitas reflexões a respeito da tecnologia, do impacto de seu desenvolvimento sobre a humanidade, e principalmente aborda uma série de problemas relacionados às relações sociais, ao intercâmbio cultural e entre espécies e explora bem os temas do contato e da diplomacia.

Porém, quando olhamos para as dezenas de espécies que povoam a Via Láctea de Star Trek, quase todas são humanoides, ou seja, são baseadas em nossa própria concepção terráquea e humana daquilo que se concebe como seres inteligentes, pessoas ou indivíduos sencientes. Raramente vemos espécies inteligentes não-humanoides e dificilmente se encontram alienígenas não-sencientes que não sejam inspirados nas espécies não-humanas da própria Terra. Assim, sempre ouvimos algum personagem se referindo aos “morcegos do planeta X”, aos “felinos do planeta Y” ou às “aves do planeta Z”.

Se, por um lado, Star Trek tem uma abordagem mais séria e crítica sobre seus temas principais, estando mais ligado à Ficção Científica, por outro lado a série peca quando não extrapola as possibilidades da vida no Universo.

Por isso, é interessante ver que em Guerra nas Estrelas (Star Wars), muito mais dentro de uma Fantasia Científica ou de uma Ficção Fantástica, sem se preocupar com explicar as tecnologias presentes naquela galáxia distante nem a anatomia escalafobética das centenas de espécies inteligentes não-humanas (e até as não-inteligentes) que pululam na maior parte das cenas de seus seis filmes, consegue trazer exemplos muito mais estranhos e fora dos padrões humano-terráqueos. Assim, embora as histórias de Star Wars não busquem explicar como funcionam as biologias dessa miríade de espécies, estas podem nos trazer reflexões sobre as possibilidades anatômicas, fisiológicas e morfológicas dos seres vivos no Cosmos.

Enquanto seja comum na Ficção Científica em geral a concepção de espécies não-humanas sencientes muito semelhantes aos primatas ou, no máximo, aos mamíferos, em Star Wars vemos facilmente espécies que se parecem com lagartos,  insetos, aracnídeos, lesmas, peixes e outras coisas extraordinárias e inusitadas, misturando características conhecidas na Terra ou as extrapolando completamente. Não existe aí uma superpreocupação em adequar os seres inteligentes não-humanos às formas e proporções humanas, como os traços e elementos que formam o rosto (a própria presença de um “rosto” humanoide não é imprescindível) ou a morfologia cabeça/tronco/(4) membros (2 pernas e 2 braços).

Se por um lado isso se deve ao caráter fantástico da franquia, que concebe os personagens através da imaginação sem rédeas, resulta daí um conjunto de possibilidades mais interessante do ponto de vista de uma ficção científica especulativa a respeito da vida inteligente no universo. É claro que entre tantas espécies diferentes há muitas que são humanoides e explicitamente baseadas no ser humano, mudando apenas uma cor de pele ou de cabelo, uma protuberância aqui e ali na cabeça ou um formato extravagante dos traços faciais (um belo exemplo são os kaminoanos, cujo corpo é praticamente humano, extremamente alongado, com pescoço muito comprido e o rosto bem exótico, mas cujo modelo é facilmente identificável como o humano). Mas todo o conjunto traz mais contribuições para este tipo de discussão do que muitos outros universos fictícios.

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Almirante Ackbar (mon calamari)

Mesmo algumas espécies humanoides fogem desse padrão quase-humano. O “rosto” dos wookies (espécie à qual pertence Chewbacca), por exemplo, possui outra conformação, com um focinho canídeo, ausência de orelhas visíveis e olhos pequenos. Além disso, são bem mais altos do que a média humana. Os ewoks, da lua de Endor, também são diferentes, com um “rosto” bem diverso do humano e orelhas no alto da cabeça, além do fato de terem estatura bem mais baixa do que os humanos médios.

As formas destes rostos e cabeças podem advir de um hábitat específico, talvez mais selvagem do que o de outras paragens, e as orelhas no topo da cabeça, por exemplo, podem servir para facilitar a detecção de predadores. Porém, estes exemplos ainda estão bem próximos dos mamíferos humanoides, e há outros ainda mais surpreendentes.

O almirante Ackbar também pertence a uma espécie (conhecida como mon calamari no universo expandido) que, embora tenha a clássica forma cabeça/tronco/membros quase humanoide, possui uma cabeça/rosto sem paralelos com o padrão humano (grandes olhos saltados para os lados, boca muito larga e ausência de orelhas e nariz). Sua face lembra uma mistura de peixe e crustáceo. Além disso, suas mãos são grandes e parecem uma mistura de barbatanas com patas de caranguejos no lugar dos dedos.

É interessante notar que, no primeiro filme da série (Episódio IV), a maioria dos personagens são humanos e grande parte dos alienígenas que aparecem são bandidos, “escória e vilania” de Mos Eisley, como define Ben Kenobi (à exceção notável de Chewbacca). De forma geral, nas histórias de fantasia, é muito comum que as raças aliadas dos protagonistas sejam parecidas com humanos e o grau de maldade de um personagem ou raça seja medido por uma aparência menos humana (um exemplo clássico são os orcs de O Senhor dos Anéis). Mas Ackbar, presente no terceiro filme da série (Episódio VI), é uma  bem-vinda exceção, colocando no papel de grande herói um alienígena que em outros contextos poderia ser considerado monstruoso.

Um geonosiano

Um geonosiano

Já os geonosianos, que assumem papel de antagonistas no Episódio II, são ainda mais alienígenas. Seu corpo é muito mais parecido com o de artrópodes (mais especificamente insetos) bípedes, inclusive dotados de exoesqueleto e asas como as de libélulas ou moscas. Diferente dos humanoides descritos acima, a forma como essa espécie fictícia foi concebida não permite que seja interpretada por um ator real fantasiado, e todos os geonosianos do filme são virtuais (gerados por computação gráfica). Esses insetos mostram uma extrapolação possível de uma forma de vida inteligente, com algumas das mesmas características físicas humanas, evoluída de outro filo animal.

Outro aspecto notável dessa espécie, que não tem a ver diretamente com sua morfologia (mas talvez o tenha indiretamente), é seu idioma, cuja fala é composta de vários fonemas ausentes das línguas humanas, produzidos pela garganta estridente e pela oclusão dos “lábios” de queratina dura. Mas sobre os idiomas em Star Wars eu discorrerei em outro artigo.

Essa espécie possui ainda outra característica interessante, que á um crânio muito pequeno para abrigar um cérebro de proporções como as dos humanos. Tendo em vista que os geonosianos têm inteligência semelhante à humana (ou não seriam capazes de constituir uma civilização), podemos especular que a inteligência pode se apresentar sem a necessidade de um sistema nervoso igual ao humano (embora seja difícil aqui arriscar alguma teoria, mesmo admitindo que a complexidade da biologia muitas vezes pode nos surpreender).

Essa característica pode ser encontrada em outras espécies do universo de Star Wars:

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  • Os ortolanos parecem pequenos elefantes bípedes azuis. Seu “rosto” é quase totalmente uma protuberância para baixo (como que uma tromba), com dois pequenos olhos negros e redondos no alto da cabeça e longas orelhas pendendo dos lados desta.
  • Toydarianos são baixinhos, alados e seus narizes parecem com os de antas. Um indivíduo notável desta espécie é Watto, que aparece nos Episódios I e II. Ele surpreende por ser tão pequeno e delgado e mesmo assim possuir inteligência (além de muita astúcia).
  • Os dugs não só têm o crânio pequeno como possuem uma das mais intrigantes morfologias da série de 6 filmes. Seus braços e pernas são “trocados”, ou seja, é como se em sua evolução as pernas tivessem se atrofiado (com a transformação dos pés em mãos) e os braços se superdesenvolvido (com as mãos tornadas pés). Sebulba, o piloto que desafia Anakin Skywalker no Episódio I, pertence a esta espécie.
  • Os gungans, tão detestados por parte dos fãs de Star Wars, especialmente na figura atrapalhada de Jar Jar Binks, praticamente não têm encéfalo comparável ao de um primata, mas foram capazes de construir grandes cidades no fundo do mar. A anatomia de suas cabeças é bem diversa da humana e a proporção do corpo são diferentes, com braços e pernas longos e tronco curto.

Um ithoriano

Também merece menção a raça dos ithorianos, conhecidos como cabeças-de-martelo, que aparecem como figurantes nos filmes mas têm um papel importante na série animada A Guerra dos Clones, na figura de um cavaleiro jedi. O mais impressionante nesta espécie é sua cabeça, cuja forma e anatomia extrapolam muito mais o modelo humanoide do que as outras vistas até aqui.

Ela não tem um pescoço cilíndrico sustentando uma caixa craniana, pois na verdade a cabeça e o pescoço formam uma só estrutura. Não dá para inferir onde se localizaria seu cérebro (se é que o tem), e seus olhos ficam na extremidade da protuberância que seria seu “rosto” (lembrando um tubarão-martelo). Mas seu traço distintivo mais marcante é o fato de possuir duas “bocas”, uma de cada lado da cabeça, algo que talvez não tenha nenhum precedente na fauna terrestre.

Também os hutts, espécie a que pertence Jabba, um dos vilões do Episódio VI, trazem contribuições para essa discussão. Eles não possuem membros inferiores, no lugar dos quais têm uma cauda roliça que é o prolongamento do tronco e sob a qual se arrastam quando se locomovem. O rosto é uma versão larga e achatada de um semblante humano, e os braços são curtos em proporção ao corpo. Os hutts nos levam a especular sobre a real necessidade do bipedismo para o desenvolvimento da inteligência.

Por mais que tentemos, sempre recorreremos ao mundo conhecido para fazer colagens. É a partir da natureza terrestre que os humanos extrapolam as possibilidades biológicas do universo. Mas esse é não somente um exercício mental interessante como também o início de uma reflexão mais complexa sobre a diversidade. De qualquer forma, esse exercício nos permite, mais do que a mera metáfora das relações humanas, dos choques culturais e da diplomacia, especular sobre dificuldades e desafios na comunicação e interação de espécies inteligentes realmente alienígenas entre si.

Links e fontes das imagens

Estereótipos étnicos em Star Wars

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Há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante, teve lugar uma aventura espacial, épica e mítica. Essa aventura nos diverte, a nós humanos terráqueos, na Via Láctea dos dias de hoje. Não é à toa, pois a narrativa de Star Wars (Guerra nas Estrelas) tem vários personagens arquetípicos e é construída segundo a mesma fórmula das narrativas míticas antigas.

Porém, além de nos fisgar pela emoção de uma luta épica contra um império do mal, pela autodescoberta do protagonista e pelo conflito edipiano subjacente a tudo isso, Star Wars também apela para pré-noções, ou melhor, preconceitos, menos nobres, sub-reptícia e talvez não intencionalmente retratados em alguns dos personagens marcantes da saga.

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Semelhanças entre Star Wars e Indiana Jones

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As duas obras cinematográficas mais bem-sucedidas de George Lucas são provavelmente as séries de filmes Guerra nas Estrelas e Indiana Jones. É notório entre os fãs de ambas as séries que há várias referências de Guerra… nos filmes de Indiana…, como a aparição de R2-D2 e C3P0 como hieróglifos e o Clube Obi Wan.

Mas há várias semelhanças nas narrativas, nos personagens e nas cenas que podem não ter sido intencionais e provavelmente se tratam da marca do criador, elementos da imaginação de George Lucas que se repetem e dizem mais sobre o autor do que sobre a obra. Essas recorrências podem ainda nos dizer muito sobre os elementos indispensáveis para o sucesso e a longevidade de um filme de aventura.

Eis uma relação de algumas semelhanças entre as duas séries, bem como a provável razão porque estão presentes em filmes de aventura bem-sucedidos. Os filmes referenciados são:

  • Guerra nas Estrelas – Episódio IV: Uma Nova Esperança
  • Guerra nas Estrelas – Episódio V: O Império Contra-ataca
  • Guerra nas Estrelas – Episódio VI: O Retorno de Jedi
  • Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida
  • Indiana Jones e o Templo da Perdição
  • Indiana Jones e a Última Cruzada

Harrison Ford

Han Solo e Indiana Jones

George Lucas escolheu Harrison Ford tanto para o papel de Han Solo, um dos coadjuvantes mais importantes  em Guerra nas Estrelas, e para Indiana Jones, o protagonista dos filmes homônimos.

Tanto Han Solo quanto Indiana Jones são epítomes do arquétipo do aventureiro, e Ford incorpora muito bem o intrépido viajante em busca de tesouros e aventura.

Por que dá certo? Harrison Ford consegue interpretar um personagem ao mesmo tempo audacioso e extremamente fleumático, que enfrenta as situações mais tensas sem hesitar. Grande parte dos homens se identificacom um ideal de masculinidade e muitas mulheres se encantam. E o intrépido viajante que há dentro de todos nós encontra uma ressonância.

Troca de tiros num bar

Han enfrenta Greedo e Indiana enfrenta Lao

Na primeira aparição de Han Solo em Guerra nas Estrelas, ele topa com o caçador de recompensas Greedo e é obrigado a se sentar numa das mesas da cantina de Mos Eisley e trocar uma rápida sucessão de tiros.

Na primeira cena de O Templo da Perdição, Indiana está num restaurante em Xangai, em busca de um diamante. Sentado à mesa do chinês Lao e seus dois capangas, há um tenso trecho em que um amigo de Indiana aponta uma arma escondida, ameaçando os chineses. Em seguida, o barulho de garrafas de champanhe se abrindo abafa o tiro que mata o assistente de Indiana.

Por que dá certo? Essas cenas criam uma tensão que deixa o espectador na iminência da possibilidade de uma reviravolta na trama. Estão todos sentados, o que a princípio significaria que estão todos relaxados, mas a tensão cria um paradoxo, uma leve perplexidade que traz incerteza. A mesa, símbolo da confraternização, se torna palco de um festim de sangue.

Vilões imperialistas militaristas

Oficial Jerjerrod e Coronel Vogel

Os principal antagonista em Guerra nas Estrelas é o Império Galático. Os oficiais do Império são claramente uma referência aos oficiais nazistas, com uniformes e postura muito parecidos com os dos militares da Alemanha do 3º Reich.

Não por acaso, os maiores inimigos de Indiana Jones são os nazistas, que estão sempre atrás das relíquias buscadas pelo Dr. Jones.

Por que dá certo? A mentalidade moderna rechaçou o imperialismo militarista e ditatorial representado pelo Nazismo, pelo Fascismo e pelos regimes socialistas. Um vilão que traga ameaça à liberdade, seja dos povos de uma ex-República Galática, seja ao desenvolvimento da ciência arqueológica, provoca a hostilidade de quase todos os espectadores e a automática simpatia pelos que lutam contra ele.

Disfarce entre os vilões

Han como stormtrooper e Indiana como nazista

Luke Skywalker e Han Solo, ao tentar resgatar a Princesa Leia, se infiltram na Estrela da Morte disfarçados de stormtroopers, os soldados de infantaria do Império, para chegar até a cela onde está presa Leia.

Em A Última Cruzada, Indiana vai em busca do diário de seu pai, que está nas mãos dos nazistas. Ele precisa se vestir em uniforme nazista para se infiltrar, e acaba topando com o próprio Führer, Adolf Hitler. Ficamos esperando que ele será desmascarado e perderá o diário que está em suas mãos, mas Hitler pega o livro e o autografa. Ufa! O diário acaba ficando ainda mais valioso.

Por que dá certo? Uma cena em que os heróis mergulham na fortaleza inimiga, arriscando-se a ser descobertos a qualquer momento, cria uma tensão que prende o espectador na frente da tela. É uma cena tão clichê… mas, quando bem feita, provoca suspense.

O piloto e o artilheiro

Luke Skywalker na Millenium Falcon e Henry Jones num aeroplano nazista

Quando estão fugindo da Estrela da Morte, Han, Luke e cia. embarcam na Millenium Falcon e escapam, mas são perseguidos. Luke assume a artilharia da Falcon, pilotada por Han, para se livrar das naves imperiais em seu encalço.

Em A Última Cruzada, há uma referência a esta cena, em que Indiana e Henry Jones sobem num aeroplano para fugir de seus perseguidores. Indiana assume a cadeira do piloto enquanto seu pai, no assento posterior, pega a metralhadora para repelir os nazistas. Jones pai acaba destroçando o leme do próprio veículo…

Por que dá certo? São cenas típicas de perseguição que acrescentam animação à história. E é quase indispensável que numa história de aventura haja pelo menos uma cena de perseguição. Além disso, temos o acréscimo de haver dois personagens trabalhando em conjunto para fugir dos perseguidores, um encarregado da pilotagem e outro do armamento. A resolução depende da boa sintonia entre os dois, o que Han e Luke, que mal se conhecem, conseguem com êxito, enquanto os Jones, pai e filho, falham.

Batalhas contra veículos encouraçados

AT-ATs em Hoth e um tanque nazista

Ao longo da trilogia Guerra nas Estrelas, o Império se utiliza de armamentos gigantescos, como os Destróieres Imperiais, os AT-ATs, que parecem quadrúpedes imensos de metal, e a própria Estrela da Morte, que destrói planetas. Os rebeldes não têm mais do que pequenas naves ou pistolas e rifles laser. Tanto na batalha do planeta Hoth, em O Império Contra-ataca, quanto na batalha na lua de Endor, em O Retorno de Jedi, os rebeldes são como Davis enfrentando Golias.

Os tanques nazistas que Indiana Jones e seu pai enfrentam lembram os grandes AT-ATs blindados ou os AT-RTs bípedes que os pequenos ewoks de Endor derrubam com fundas e toras de madeira.

Por que dá certo? É emocionante ver heróis lutando contra uma força muito maior do que eles e usando a astúcia para derrotar o poder dominador. Os grandes monstros de metal que os na’vi enfrentam em Avatar pertencem a este mesmo tema, assim como os 300 espartanos liderados por Leônidas em 300 de Esparta, de Frank Miller, que enfrentam um exército persa muito maior e com muito mais armadura.

Vira-casaca que se arrepende

Lando Calrissian e Elsa Schneider

Desde sua primeira aparição em O Império Contra-ataca, Lando Calrissian provoca uma impressão ambígua. Única esperança de Han Solo para fugir do Império, não sabemos se podemos confiar nele. Primeiro, ele acolhe Han, Leia e Chewbacca, demonstrando hospitalidade e oferecendo socorro. Depois, ele os entrega a Darth Vader para enfim se arrepender da traição e se tornar um dos maiores aliados da Aliança Rebelde.

Dra. Elsa Schneider ajuda Indiana Jones e seu pai na busca pelas pistas para encontrar o Santa Graal, para depois entregá-los aos seus colegas nazistas. Mais tarde, ela muda sua intenção, renegando os interesses dos nazistas e tentando retomar a confiança dos Jones.

Por que dá certo? Em situações de perigo, busca e incerteza, os heróis precisam contar com alguém que tenha meios e recursos extras. Mas nem sempre se pode confiar em todo mundo. É esse um dos elementos que tornam O Clã das Adagas Voadoras, para citar outro exemplo, tão instigante e envolvente.

Além disso, quando tanto os traídos quanto os traidores se deparam com uma ameaça maior a ambos, eles tendem a juntar forças. A solidariedade diante das adversidades nos toca.

A salvação do pai

Luke salva Darth Vader e Indiana salva Henry Jones

A missão de Luke Skywalker em O Retorno de Jedi deveria ser matar Darth Vader. Quando aquele descobre que este é seu pai, ele deliberadamente muda de ideia e enfrenta seu antagonista com a intenção de salvá-lo do lado sombrio da Força. Uma das cenas memoráveis deste filme é quando Luke dialoga com seu pai moribundo, cujo verdadeiro nome é Anakin:

ANAKIN (muito fraco)
Agora… vá, meu filho. Deixe-me.

LUKE
Não. Você vem comigo. Não posso deixá-lo aqui. Tenho que salvá-lo.

ANAKIN
Você já me salvou, Luke. Você estava certo sobre mim. Diga a sua irmã… que você estava certo.

Numa posição semelhante, Indiana traz até seu pai ferido um pouco de água no Santo Graal, com que cura um ferimento de bala. A cura física da ferida é apenas uma metáfora de uma situação em que pais e filho, depois de tantos anos de desentendimento, finalmente se entendem.

Por que dá certo? O conflito entre pai e filho, segundo Sigmund Freud, que batizou esse conflito de Complexo de Édipo, está na base da maioria das neuroses e é inclusive uma realidade psíquica que move a maioria das pessoas, estando geralmente relacionado, para falar em termos mais generalistas, a um conflito entre os impulsos naturais e a autoridade repressora. Resolver esse conflito na forma de um encarar de frente o próprio pai e derrubar a tradição segundo a qual existe uma hierarquia absoluta em que pai (ou a Lei, o Estado, Deus etc.) precede o filho mexe com todos nós. Quando Luke se salva do conflito com o pai, ele também salva Anakin. Quando Indiana se livra do constrangimento do pai, este também se liberta, e podemos ver este diálogo no final de A Última Cruzada:

INDY
O que você encontrou, pai?

HENRY
Eu?… Iluminação.

Considerações finais

Não busquei fazer aqui uma relação dos easter eggs de Guerra nas Estrelas presentes em Indiana Jones. Uma relação dessas referências/homenagens pode ser vista neste link.

Aqui procurei relacionar referências (provavelmente) não intencionais, temas presentes nas boas histórias de aventura. O fato de ambas as sagas terem sido concebidas pelo mesmo George Lucas só facilita essa identificação. Mas se analisarmos bem qualquer grande aventura, poderemos encontrar a maior parte dos itens que relacionei neste texto.

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Avatar [Resenha – Parte 2]

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

O filme Avatar (2009), de James Cameron, apesar de sua trama simples e previsível, apresenta muitos temas relevantes para a humanidade do século XXI. Com uma montagem de cenas perfeita e imagens arrebatadoramente belas e envolventes, consegue sensibilizar para muitas questões pertinentes.

Na primeira parte desta resenha, fiz uma sinopse comentada e uma análise dos nomes de lugares e personagens da trama. Nesta segunda parte, discorrerei sobre temas antropológicos: observação participante, choque cultural, etnocentrismo, relativismo, imperialismo; e, imiscuídas nestes tópicos, questões filosóficas: ética e universalismo.

Choque cultural

Avatar é uma história de choque cultural. Extrapandorianos, humanos, com tecnologia superavançada pousam no mundo dos na’vi e começam um trabalho de exploração capitalista que vai de encontro ao modo de vida dos nativos. Os alienígenas terráqueos consideram importante para os na’vi aprender a língua da Terra (o inglês) e ter acesso a novíssimas e complexas tecnologias que mudarão suas vidas. É a velha anedota do colonizador que traz bugigangas para os índios em troca de pau-brasil e ouro.

Trama 4
Montagem 5
Atuação 3
Diálogo 3
Visual 5
Trilha sonora 4
Reflexão 4

Mas os nativos não precisam de nada que os humanos oferecem. Porém, estes estão ávidos por três coisas: a riqueza material que poderiam extrair do unobtânio, minério caríssimo (Parker Selfridge e sua equipe); a oportunidade belicosa de viver uma batalha (Miles Quaritch e seu batalhão); e a oportunidade científica de descobrir novas realidades geológicas, botânicas, zoológicas e antropológicas. Apenas esta última se justifica racionalmente.

They missed the point, of course. A motivação de um homem que cai ali de paraquedas, o paraplégico Jake Sully, é retomar suas pernas e viver uma aventura. O resultado é que ele conseguiu algo muito mais valioso do que dinheiro, adrenalina guerreira ou descobertas científicas. Ele descobre a importância do equilíbrio natural do universo, através de sua iniciação na sociedade dos na’vi do clã Omaticaya.

Observação participante

Bronislaw Malinowski, antropólogo inglês, com ilhéus das Ilhas Trobriand, em 1918.

Bronislaw Malinowski, antropólogo inglês, com ilhéus das Ilhas Trobriand, em 1918.

Antes de tudo, e repetirei isso adiante, Jake Sully não empreendeu a observação participante propriamente dita, ou seja, o método científico desenvolvido pelo antropólogo Bronislaw Malinowski em seus estudos etnográficos nas Ilhas Trobriand. Ele não usou uma abordagem científica nem estava preocupado com elaborar teorias a respeito da vida dos na’vi. Afinal, ele não era cientista, era um “bebê”.

No entanto (relevando a impossibilidade de se tornar um nativo em qualquer cultura diferente daquela que nos criou desde criança até a idade adulta em apenas 3 meses), podemos ver a experiência de Jake como uma ilustração de como se dá a observação participante, essa que é talvez uma das mais sofisticadas metodologias na Antropologia.

O pouco tempo que Jake leva para se iniciar na vida dos na’vi poderia se justificar (em parte) pelo fato de que terráqueos e pandorianos já tinham bastante experiência uns com os outros, o que não é mostrado no filme. A história começa com uma tentativa de retomada de contato, ou seja, cada uma das duas culturas já sabe bastante sobre a outra. Neste sentido, penso que foi uma perda grande não ter explorado mais o choque cultural, metaforizando as reais dificuldades advindas de um encontro entre alienígenas que nunca haviam ouvido falar uns dos outros (o que a série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração faz bem melhor).

Repetindo, Jake não é antropólogo e não empreende a observação participante malinowskiana. Mas ele entra no clã dos omaticaya de coração e cabeça vazios, o que permite que ele se abra à completa experiência de se mover pelas árvores com agilidade, domar montarias, dominar o arco e flecha e sentir-se conectado à natureza como qualquer na’vi.

Por ser um “bebê” para Neytiri, Jake começa do zero sua imersão. Como nenhum outro cientista conseguiu, por terem as cabeças cheias de expectativas, o ex-fuzileiro está pronto para começar uma nova vida, e somente incorporando a identidade e os costumes na’vi ele consegue entender a mentalidade, a vida e os anseios do outro. Pode-se dizer que ele realizou uma observação participante visceral e não-etnográafica.

Antropologia imperialista

Os maiores desenvolvimentos da Antropologia se deram, paradoxalmente, em situações neocolonialistas. A Grã-Bretanha enviou Malinowski às Ilhas Trobriand porque estas eram colônia inglesa, e conhecer melhor os nativos era importante para uma melhor administração.

Uma crítica que li algures à história de Avatar foi que o escolhido para salvar os nativos era um “civilizado”, ou seja, um humano branco norte-americano, e isso seria propaganda ideológica norte-americana, mostrando quão virtuoso é o povo salvador do mundo. Porém, lembremo-nos que esses norte-americanos do filme são na maioria favoráveis à exploração dos na’vi e de Pandora.

Além disso, Jake deixa aos poucos de ser humano e incorpora a identidade na’vi, tanto que a vida em seu corpo paraplégico passa a ser um sonho ruim e a vida com os na’vi vai se tornando cada vez mais real. Ele realmente renasce como na’vi, e a única coisa que lhe permite ajudar seus novos irmãos é seu conhecimento profundo do inimigo e uma audácia que ele deve mais ao seu temperamento individual e a sua história particular do que ao fato de ser humano branco norte-americano.

Depois de audaciosamente domar um Toruk (“última sombra”, uma espécie de ave extremamente feroz que apenas 5 na’vi conseguiram cavalgar na história dos omaticaya) a nobreza de Jake finalmente se manifesta no ato humilde de oferecer ajuda ao novo chefe do clã, Tsu’tey (que herdou o posto de Eytucan, recém-morto pelos humanos), seu ex-rival, sem clamar para si nenhum posto importante, mesmo sabendo que, ao se tornar Toruk Macto (“cavaleiro da última sombra”), será respeitado por todos os na’vi.

Guerra preventiva ou Pax Romana

A guerra é muitas vezes (irracionalmente) justificada por motivos preventivos, especialmente em situações imperialistas. O que está por trás é na verdade um interesse escuso, normalmente garantir uma posição dominante na relação com o outro.

Foi o que empreendeu o Império Romano com a chamada Pax Romana. Foi o que repetiu o império norte-americano na Guerra do Iraque. E há uma claríssima referência, em Avatar, à política beligerante de George “Warrior” Bush, quando o coronel Miles Quaritch brada que “vamos combater o terror com terror”.

Júlio César, imperador de SPQR; George "Warrior" Bush, presidente dos EUA; Miles Quaritch, coronel da RDA. "Si vis pacem para bellum" é a ideologia belicista.

Júlio César, imperador de SPQR; George “Warrior” Bush, presidente dos EUA; Miles Quaritch, coronel da RDA. “Si vis pacem para bellum” é a ideologia belicista.

O conhecimento sobre os na’vi tinha o único objetivo de melhor explorar sua lua-natal. Essa abordagem se assemelha muito ao conhecimento do Oriente elaborado pelas nações imperialistas ocidentais. Esse conjunto de saberes, que incluíam vários preconceitos, generalizações e menosprezo, foi chamado por Edward W. Said de Orientalismo e servia de justificativa (irracional) para a dominação.

Esse tipo de atitude preconceituosa é visto durante todo o filme em afirmações que representam os na’vi como animalescos, primitivos, ignorantes, drogados. A conexão bioquímica entre a fauna e flora de Pandora, explicada por Grace Augustine, é ridicularizada por Parker Selfridge: “o que diabos vocês andaram fumando lá embaixo?”

Os exploradores não se permitem a experiência de aprender a cultura local e tirar algum proveito nobre e evolutivo. Talvez a troca tivesse se efetivado se os humanos mostrassem boa vontade de compartilhar uma experiência e não insistissem que são só eles quem têm o que oferecer aos nativos, sendo o unobtânio a moeda e o preço pelo “progresso” trazido da Terra (que, pelo que consta em algumas falas do filme, está com seus recursos naturais esgotados).

A subestimação do “selvagem”

Ewoks

O colunista Jorge Coli, da Folha de S. Paulo, escreveu uma resenha interessante sobre Avatar, na qual ele faz uma referência a Os Sertões, de Euclides da Cunha. Durante os preparativos de um ataque aos revoltosos liderados por Antônio Conselheiro, o coronel Moreira César afirmou: “Vamos almoçar em Canudos”. Ele não esperava que seria tão difícil combater os “brutos” sertanejos, da mesma forma que o coronel Miles Quaritch não esperava perder a batalha contra os na’vi, antes da qual afirmara: “vamos jantar em casa”.

Este é um tema comum em épicos, e se trata de um interessante tema antropológico, pois que toca no relativismo cultural. As grandes civilizações levam seu etnocentrismo a uma escala imperial, considerando que aqueles povos não-assimilados e cuja cultura é considerada inferior não têm condições de resistir a uma guerra (pois, pensam os conquistadores, não têm tecnologia tão avançada nem táticas eficazes) nem à assimilação (pois a cultura do conquistador é considerada melhor e mais desejável).

Porém, a Guerra do Vietnã serve de exemplo real para o equívoco imperialista. Os norte-americanos não esperavam que os vietcongues tivessem a capacidade de, em seu próprio território, resistir e ludibriar os inimigos. O exército norte-americano, por exemplo, se surpreendeu com o uso complexo de túneis, que permitiu aos nativos promover ataques surpresa.

Voltando à ficção, em Guerra nas Estrelas: Episódio VI – O Retorno de Jedi, o Império Galáctico se utiliza dos típicos recursos de um governo expansionista, especialmente a violência física. Mas, com sua avançada tecnologia, não consegue vencer a batalha contra os pequeninos ewoks da lua de Endor, com suas lanças de madeira e pedra, fundas e asas-delta de couro.

Exploração dos recursos naturais e o obstáculo humano

O etnocentrismo imperialista está longe de deixar de ser um problema atual. Se tomarmos o exemplo da influência cultural dos EUA em todas as partes do mundo, vemos que uma relação de dominação ainda se mantém, em que se supervaloriza acriticamente tudo o que é produzido pelos gringos e se subestimas os modos de pensar, viver e até de falar dos povos que vivem em sociedades subordinadas.

A arrogância do conquistador (que age hoje mais no âmbito cultural do que no bélico) o faz tomar a liberdade de assumir a liderança da história de povos “menos civilizados”, como se estes não tivessem a capacidade de “descobrir” o melhor caminho para sua evolução e como se a intervenção externa fosse a melhor das bençãos.

Às vezes essas intervenções podem trazer, a longo prazo, melhorias para os conquistados (que restarem). Mas nem sempre, e sempre é ao custo de muitas mortes e de enormes prejuízos para ambos os lados. Especialmente quando se consideram os produtos naturais cultivados para o bem-estar de uma população (e que poderiam servir para toda a humanidade) como mercadorias a entrar no mundo capitalista, para benefício de uns e prejuízo de outros. E é exatamente o que ocorre na corrida pelo unobtânio (Pandora é uma espécie e Eldorado, onde o ouro é substituído pelo unobtânio): para a RDA, os nativos de Pandora são obstáculos e não parceiros.

Apesar disso, é corrente atualmente o ideário que valoriza a diversidade cultural, e que tem origem no Romantismo alemão de Johann Gottfried von Herder (Também uma Filosofia da História para a Formação da Humanidade). Paradoxalmente, esse ideário pode ter efeitos interessantes para o imperialismo cultural, pois pode dificultar a mudança histórica e o intercâmbio cultural ao cristalizar nichos sociais e valorizar a manutenção das tradições (com a ideia de autenticidade, analisada por Charles Taylor em The Ethics of Authenticity).

É esse ideário que permite a aparição de uma história onde a cultura local de um povo tribal é vista como mais importante do que os interesses egoicos de um empreendimento capitalista. Porém, para ser mais real, a trama deveria deixar mais claro que o contato entre humanos e na’vi deveria trazer grandes mudanças para todos os envolvidos, mas o desfecho dá a entender que tudo só pode terminar bem se tudo continuar como era.

[Continua…]