Prometheus

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Prometheus (2012)Título original: Prometheus

Direção: Ridley Scott

País: EUA

Ano: 2012

Sinopse

O muito esperado Prometheus (2012), de Ridley Scott, prometida “prequência” de Alien: O Oitavo Passageiro (1979) – embora Scott tenha declarado que o filme não deve ser encarado como uma “prequência” -, trouxe a história de uma busca pelas origens da humanidade, tendo como mote as ideias que tornaram célebre o escritor Erich von Däniken.

Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) são dois cientistas em busca dos “Engenheiros” que criaram a vida na Terra e que supostamente deixaram mensagens sobre sua localização, em diversos locais do planeta que à época do filme são sítios arqueológicos. Suas teorias chamam a atenção de Peter Weyland (Guy Pearce), empresário ancião e bilionário, e este financia uma expedição ao local indicado pelos antigos “mapas”, na esperança de descobrir uma tecnologia que o permita prolongar sua vida.

No processo de exploração das ruínas alienígenas, os humanos da nave Prometheus (Prometeu, o deus grego que deu o fogo – e consequentemente o poder –  aos humanos e foi punido por Zeus) se deparam com estranhas formas de vida alienígena e com contágios que quase acabam com a missão. Esta tem fim apenas quando um dos “Engenheiros” é reanimado e, aparentemente, tenta viajar à Terra para destruí-la. De uma tripulação de mais de sete pessoas, só sobrevivem Shaw e o androide David (Michael Fassbender), que partem ainda em busca da origem dos supostos criadores da vida na Terra.

Abrindo a obra

Esse resumo da trama não explicita os elementos interessantes nem os pontos fracos da obra. O filme está impregnadíssimo da carga genética herdada de Alien e suas sequências, por mais que Scott tenha tentado ou negado. Isso implica tanto num apelo aos admiradores da “outra” franquia quanto numa previsibilidade advinda de uma fórmula não-original. Vamos aos detalhes.

Em primeiro lugar, Prometheus é uma história sobre a curiosidade humana, a busca científica pela verdade, a perscrutação filosófica das origens. O caráter mítico e místico de ideias fantásticas como as de Däniken em seu Eram os Deuses Astronautas? seduz o espectador com a promessa de uma descoberta fundamental.

Não é à toa que a nave da expedição se chama Prometeu, um dos símbolos ocidentais do humanismo e da autonomia humana perante o poder opressor dos deuses. Porém, nisso reside ao mesmo tempo a esperança e a danação da tripulação. Ou seja: por um lado, a presunção de “brincar” com a vida traz consequências drásticas; por outro lado, a busca revela (ou insinua) certas verdades inconvenientes sobre os supostos “criadores”, que não são os deuses bondosos que se imaginava.

Há então uma mensagem filosófica ambígua. Aparecem, sub-repticiamente, ideias ateístas, quando se observa que o “Criador” não é necessariamente bom, e talvez não haja um Criador absoluto. Weyland, que trouxe à vida David, é inescrupuloso, mas o androide o obedece cegamente, como os profetas fazem, sem questionar as razões ou os métodos daquele que lhe dá ordens. É assim que cristãos, por exemplo, justificam as atitudes antiéticas de Deus pelo argumento de que há um motivo justo por trás de tudo.

Da mesma forma, o “Engenheiro”, imaginado como um ser virtuoso e moralmente evoluído, não é mais do que um humanoide com seus próprios interesses. E, apesar de tudo, vemos a doutora Shaw, movida pela fé, voar atrás de uma resposta mais reconfortante, mesmo com a probabilidade de se arrepender amargamente. Não fica claro, assim, se Scott pretendia exaltar a fé num ideal ou apontar os riscos de uma ideologia míope.

David

Os melhores momentos do filme são encenados por David, o androide a serviço de Weyland. O personagem lembra todo o drama de outros robôs da ficção, como seu xará de A.I.: Inteligência Artificial, WALL-E e Data de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração.

David aprende variados conhecimentos em sua viagem solitária (enquanto os humanos dormem em hibernação induzida), como Super-homem em sua Fortaleza da Solidão, aprendendo com os pais virtuais. Quando a tripulação acorda à chegada ao destino da missão, o androide precisa o tempo todo suportar o desprezo dos humanos que o consideram uma coisa. Este é sempre o problema, em histórias sobre robôs, de se programar um ser artificial para simular perfeitamente um ser humano, pois ele sempre será percebido como um arremedo de pessoa, mas, por outro lado, também está programado para agir como uma pessoa agiria diante de atitudes discriminatórias e vilipendiosas.

Entretanto, tendo características humanas, David se sente superior pelo que é capaz de fazer além do que um ser humano faz. Além disso, ele se orgulha de empreender a missão de que foi incumbido por seu criador, e essa talvez seja sua pequena vingança pelo desprezo e desconfiança dos tripulantes de carne e osso. Além de ser o único no qual Weyland confia (mais até do que na própria filha), ele tem o privilégio de já conhecer seu deus, enquanto os humanos estão perdidos atrás do seu.

Prometheus e Alien

  • Em toda a quadrilogia Alien, o principal vilão/antagonista é sempre a companhia Weyland. Ou seja, a ganância exploratória cujos intentos passam por cima de qualquer ética.
  • Como em Alien, há um androide representando os interesses desumanos da companhia. Como em Alien e Aliens, o androide é destroçado mas continua funcionado, servindo ainda a algum propósito na narrativa.
  • A heroína é a única sobrevivente humana e a que mais sofre com a tensão e o terror dos monstros a bordo. Ela até tem uma cena seminua que muito lembra Ripley no final de Alien.
  • A visão do salão com os cilindros dentro da nave alienígena remete inevitavelmente à câmara de ovos/casulos de Alien, e é de onde sai o contágio que dá origem ao monstro.
  • Uma equipe de “figuras”, com suas idiossincrasias e diferenças. No entanto, os personagens das trupes de Alien, Aliens, Alien 3 e até Alien: A Ressurreição são bem mais marcantes e redondos do que os de Prometheus.

É claro que nem tudo é clonagem. Há elementos novos, especialmente o tema central do filme, a busca pelos primórdios, pelas origens, pela criação da humanidade, e a presença de uma raça alienígena inteligente como um dos antagonistas (os xenomorfos da série Alien são mais instintivos e animalescos).

Porém, algumas novidades deturparam um pouco a temática suscitada pela espécie alienígena dos filmes anteriores. Minha perspectiva a respeito dos xenomorfos, que estrelou os 4 filmes da franquia Alien e da sequência de 2 Alien vs. Predador, sempre foi a de que se tratava de um ser vivo pertencente a um ecossistema alienígena, muito diferente do nosso. Um predador-parasita (cujo complexo ciclo reprodutivo-vital se justificaria pelo equilíbrio, afinal, os predadores são sempre menos numerosos do que as presas) que, em contato com o Homo sapiens, trouxe um sério problema de incompatibilidade ecológica.

O “alien” da franquia anterior a Prometheus não é um monstro maligno, mas um animal fora de seu habitat (ou seria o próprio humano o alienígena deslocado de seu ambiente natural), como os coelhos levados à Austrália por colonizadores, resultando numa praga e na devastação da vegetação local.

Prometheus destrói toda essa ideia, sugerindo que os xenomorfos são na verdade originários de um espermatozoide humano mutante, resultado de um experimento genético, que extraordinariamente já nasceu com toda a complexidade fisiológica, morfológica e filogenética que vemos nas histórias protagonizadas por Ellen Ripley.

Enfim, ao desconstruir a premissa interessante de Alien, Prometheus traz mais do mesmo estereótipo do alienígena que só pode assumir um de dois papéis opostos: o de deuses astronautas bondosos, inspirados nas mitologias em que seres superiores são um reflexo das virtudes que queríamos ter, ou bárbaros invasores frutos de um imaginário xenofóbico e belicista.

Eram os Deuses Astronautas?

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Provavelmente não. Mas é fácil pensar que sim. O olhar contemporâneo antropocêntrico, eurocêntrico, enfim, etnocêntrico, interpreta as manifestações de outras culturas e épocas segundo seus próprios parâmetros e experiências. Por isso, quando Erich von Däniken pergunta “eram os deuses astronautas?”, é preciso abordar a questão de forma crítica e despojada das pré-noções de quem se atreve a investigar esse tema.

A primeira vez que me deparei com Eram os Deuses Astronautas? foi com uma velha edição de capa verde do meu pai, e este me causou a impressão de que era uma obra impressionante, que revelava uma realidade perturbadora sobre nossos passado e origem. Não cheguei a ler o livro na época. Mas há poucos anos adquiri uma edição nova e, mais interessado do que nunca sobre qualquer tema relacionado a extraterrestres, li o livro rapidamente, sem sentir o impacto que normalmente os leitores dizem sentir.

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Sexualidade alienígena – parte 1

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O ser humano tende a antropomorfizar a natureza, ou seja, representar a realidade ao seu redor segundo parâmetros construídos a partir de sua própria experiência. Um dos exemplos mais marcantes em nossa cultura e idioma é a classificação de coisas inanimadas em gêneros masculino e feminino e a representação dessas coisas segundo o que se entende como características masculinas e femininas.

Extrapolando tudo isso, é comum imaginarmos, em histórias de ficção científica, que as espécies alienígenas que porventura possamos encontrar universo afora tenham características muito parecidas com as humanas, como a divisão em dois sexos/gêneros e a procriação sexuada. Até mesmo a existência de algo que possamos identificar como sexualidade é resultado do antropomorfismo.

Mas sabemos quase nada sobre a fisiologia de espécies extraterrestres e só podemos especular, segundo alguns exobiólogos, imaginando que, se uma determinada forma de funcionar deu certo para nós, deve ter se desenvolvido também em outros lugares do Cosmos.

Porém, é provável que a variedade das formas de vida no universo seja muito maior do que tendemos a imaginar, e a forma humanoide dimórfica pode não ser o modelo mais comum. Mas a grande maioria dos alienígenas inteligentes da ficção científica é humanoide e dimórfica, o que pode se dar pelos seguintes motivos:

  • os limites da imaginação humana;
  • o antropomorfismo nas representações do Cosmos;
  • o fato de, no cinema e na televisão, ser mais fácil fantasiar atores humanos para interpretar personagens alienígenas e
  • o fato de muitas histórias com extraterrestres serem alegorias dos problemas enfrentados nas relações entre seres humanos, sendo as espécies alienígenas representações da diversidade humana.

O dimorfismo sexual de espécies humanoides na ficção científica não se resume apenas a uma funcionalidade procriativa, mas envolve o estabelecimento de uniões e alianças entre os indivíduos, diversas formas de afetividade e regras tácitas de como machos e fêmeas se comportam no sexo. Tudo isso pode ser justificado por uma necessidade evolutiva, pois podemos presumir que uma espécie inteligente tenha seguido um caminho parecido ao dos humanos, ou seja:

  • tenha substituído a natureza pela cultura como principal institucionalizador de comportamentos, o que permitiria a complexificação do pensamento, e
  • tenha desenvolvido a necessidade do social (o que inclui a sexualidade, entendida não só como o sexo que pode servir para a procriação, mas como o conjunto das formas de se trocar afeto e prazer) para a manutenção dos costumes, linguagem e saberes sem os quais o espécime não se completa como membro de seu grupo.

Mesmo assim, toda a sexualidade alienígena é imaginada com base nas práticas humanas. Vejamos a descrição de algumas das espécies alienígenas da ficção científica televisiva e cinematográfica que reproduzem o modelo humanoide dimórfico, juntamente com algumas reflexões sobre a influência do antropomorfismo em sua concepção e até onde os autores conseguem chegar na extrapolação da realidade que conhecemos mais de perto.

Vulcanos

Spock e T'Pring

Spock e T’Pring no ritual vulcano do pon farr

Os vulcanos são uma das raças mais notáveis no universo de Jornada nas Estrelas, sendo uma das mais presentes ao longo das cinco séries da franquia. São fisicamente muito aprecidos com os humanos, sendo as únicas diferenças perceptíveis a olho nu as orelhas pontiagudas, as sobrancelhas arqueadas e uma quase imperceptível tonalidade verde na pele. As outras poucas características morfológicas diferentes das humanas incluem o coração localizado na altura do plexo solar e hemoglobina baseada em cobalto ao invés de ferro (o que dá a cor verde ao seu sangue).

Psico-biologicamente, eles são muito parecidos com os seres humanos, porém são mais propensos, geneticamente, a emoções fortes. Sócio-culturalmente, são criados segundo os rígidos ditames de uma ética baseada na Lógica, o que dá a aparência de que não têm emoções, mas a verdade é que estas ficam reprimidas.

Tanto que, quando completam um ciclo de 7 anos, são arrebatados por uma condição fisiológica chamada pon farr, na qual têm a premente necessidade de voltar ao planeta-natal (Vulcano) e se unir ao parceiro ou pretendente. Nisso, precisam se entregar a um elaborado ritual em que se determina a união ou rejeição dos parceiros. O ritual pode envolver até mesmo um combate, que a mulher pode determinar como condição para a consecução do acasalamento.

Embora se diferenciem significativamente dos humanos em alguns aspectos, como o fato de costumarem fazer sexo a cada 7 anos (diferentemente dos humanos, que não têm cio e podem copular em quaisquer dias do ano), a sexualidade vulcana ainda é, no quadro geral, inspirada na humana.

Klingons

Worf e Jadzia

Worf, um klingon, flerta furiosamente com Jadzia, uma trill que sabe como se comportar como uma klingon

Os klingons surgem na série de Jornada nas Estrelas como uma raça praticamente igual à humana, tanto que no episódio Problemas aos Pingos (The Trouble with Tribbles, 15º episódio da 2ª temporada da Série Clássica) um klingon se passa facilmente por humano, só tendo sua identidade descoberta com a ajuda de um tricorder médico.

As maiores diferenças culturais e biológicas entre klingons e humanos só foram melhor exploradas a partir de A Nova Geração, em que desobrimos que os klingons costumam grunhir e morder em suas relações sexuais, sendo escoriações e hematomas os sinais de que um indivíduo praticou sexo recentemente.

Fora isso, não parece haver diferenças fundamentais entre a sexualidade klingon e a humana, pois da possibilidade de intercruzamento se infere que os órgãos sexuais e a cópula são no mínimo semelhantes. Porém, há pequenas peculiaridades na escolha dos parceiros, na corte e no ato sexual. A atração e o amor, em muitos indivíduos dessa espécie, é atiçada pela força, altivez e coragem do pretendente. Os flertes às vezes incluem trocas de grunhidos, e o ato sexual em si parece se misturar com elementos de uma renhida luta.

A diferença entre a sexualidade humana e a klingon, portanto, parece ser mais o resultado de uma diferença cultural, visto que é verossímil que uma sociedade humana desenvolva os mesmos valores e práticas dessa raça de honrados guerreiros. No entanto, os klingons são representados como naturalmente mais fortes e resistentes fisicamente do que os humanos, o que levou Worf, em certa ocasião, a recusar a troca de afetos com uma humana. “Preciso me conter demais. As mulheres humanas são muito frágeis.”

O problema da fertilidade inter-espécies

Mas é notável a presença de um elemento extremamente improvável no quadro geral das espécies alienígenas no universo de Jornada nas Estrelas, que é o fato de praticamente todas as raças serem férteis entre si. O próprio Spock, vulcano mais notável da franquia, é na verdade um meio-vulcano/meio-humano, pois tem pai vulcano e mãe humana.

A própria possibilidade de indivíduos de espécies diferentes formarem casais é um pouco inverossímil (embora não impossível, tendo em vista que os sentimentos comuns podem, em teoria, transcender as formas físicas). Porém, essa possibilidade só se realizaria com a compatibilidade das formas de se trocar afeto e formar uniões. Na ficção científica, é muito comum que os alienígenas sejam, além de sexualmente dimórficos, monogâmicos e quase estritamente heterossexuais (o que, além de representar um antropomorfismo, representa um etnocentrismo de viés euro-ocidental – veja o ensaio Homossexualidade em Star Trek). De fato, aparecem ao longo das séries da franquia muios casais inter-espécies:

  • Sarek (vulcano) e Amanda (humana),
  • Comandante Riker (humano) e Deanna Troi (meio-betazoide),
  • Rom (ferengi) e Leeta (bajoriana),
  • Quark (ferengi) e Grilka (klingon)
  • Jadzia Dax (trill) e Worf (klingon),
  • Odo (transmorfo) e Kira (bajoriana),
  • Ezri Dax (trill) e Dr. Bashir (humano),
  • Neelix (talaxiano) e Kes (ocampa), entre outros.

A necessidade de se criar pretextos para roteiros interessantes permeia as histórias de ficção científica. Em Jornada nas Estrelas, não só os vulcanos e os humanos podem procriar entre si (como no caso dos pais de Spock). Já apareceram híbridos de

  • humano e betazoide (Deanna Troi),
  • humano e klingon (K’ehleyr e B’elanna),
  • humano e romulano (Sela),
  • klingon e romulano (Ba’el) e
  • cardassiano e bajoriano (Ziyal), entre outros.

Essa possibilidade de interfecundidade só é relevante para a criação de enredos pertinentes à reflexão sobre a relação entre os povos (humanos), os problemas advindos do contato intercultural, os conflitos de identidade e situações diplomáticas.

Porém, biologicamente, é improvável que espécies desenvolvidas em dois planetas diferentes e com histórias evolutivas tão díspares possam se unir sexualmente (como é tão comum em todas as histórias de Jornada nas Estrelas). Muito mais improvável, portanto, é que essas uniões possam produzir frutos férteis.

No universo de Babylon 5, série que tem Jornada nas Estrelas como uma de suas principais fontes de inspiração, a situação é um pouco mais verossímil, como veremos no exemplo em seguida.

Centauri

Adira e Londo

Adira Tyree e Londo Mollari, dois centauri

Os centauri são externamente a espécie mais parecida com os humanos na série Babylon 5, ao menos quando estão vestidos. Seus órgãos sexuais são um pouco diferentes dos humanos: os homens têm seis tentáculos em suas costas, três em cada lado, e as fêmeas possuem seis orifícios distribuídos da mesma forma. A cópula acontece numa gradação, começando com a penetração de um dos tentáculos, que provoca prazer em menor intensidade, e este vai aumentando de acordo com a introdução dos tentáculos seguintes, cada um mais intenso do que o anterior.

Um diferencial de Babylon 5 em relação a Jornada nas Estrelas é que o intercruzamento não acontece tão facilmente. Os centauri e os humanos, por exemplo, não têm como cruzar entre si e tampouco produzir filhos (tanto por causa da morfologia como pela incompatibilidade de DNA). O que se vê na série, no máximo, são homens centauri (e de outras raças) apreciando a beleza das fêmeas de outras espécies, inclusive das humanas. O único casamento fértil inter-espécies que se vê na série se dá entre um humano e uma minbari, que teve o próprio DNA misturado com o DNA humano.

Entretanto, por mais diferente que pareça, a sexualidade centauri tem dois resquícios da sexualidade humana. O primeiro é o próprio fato de a espécie ser dividida em dois sexos, com praticamente as mesmas características de seus equivalentes humanos. O segundo é a forma pela qual se dá a cópula, ou seja, a penetração de uma protuberância do macho num orifício da fêmea.

Entre os alienígenas na’vi, do filme Avatar, isso muda um pouco mais significativamente.

Na’vi

Jake e Neytiri

Jake e Neytiri, um meio-na’vi e uma na’vi

Os na’vi são humanoides com diversas características parecidas com os humanos. Têm cabeça, tronco, braços e pernas, rosto com olhos, nariz, boca, cabeça com orelhas e cabelos. Têm algumas diferenças, como cauda, pescoço comprido, orelhas longas, pele azul e olhos amarelos, além de medirem cerca de 3 metros de altura. Seus traços lembram os felinos, como se eles tivessem evoluído a partir de gatos e não de símios.

Eles são tão parecidos com os seres humanos que era de se esperar que seus órgãos reprodutivos fossem praticamente iguais aos do Homo sapiens. Porém, eles fazem sexo através de conexões presentes em filamentos que ficam em meio aos seus cabelos. Não fica claro, no filme, se essa mesma conexão é responsável pela fecundação e reprodução da espécie, mas isso fica subentendido de nossa própria autorrepresentação humana.

Um detalhe curioso e um pouco bizarro é que a conexão usada para a cópula é também usada para se domar animais de montaria, como cavalos e pássaros. Para um olhar humano, é como se eles tivessem institucionalizado o bestialismo como prática aceitável e corriqueira. Isso poderia significar também que o amor, para essa espécie, é um conceito muito mais amplo do que aquele que temos. Ou eles podem sentir algo diferente dependendo de a quem eles se conectam, assim como o afeto trocado com um parente próximo (geralmente) não nos deixa sexualmente excitados, enquanto o mesmo contato físico com um parceiro afetivo-sexual traz essa excitação em menor ou maior grau.

Mas o que é mais problemático nessa espécie fictícia é que eles são criados propositalmente com uma aparência bela, explorando e extrapolando a estética dos modelos de beleza ocidentais e hollywoodianos (altura e magreza), misturada a um exotismo alienígena. É fácil para muita gente se afeiçoar pelos na’vi (muitos até gostariam de pertencer a essa espécie). Aliado a isso, por mais diferentes que eles sejam dos humanos, são quase iguais no comportamento, na forma de expressar emoções e, mais pertinente para este ensaio, na forma de trocar afeto, com carícias, beijos e abraços, de modo que não foi nada difícil para Jake Sully (humano travestido de na’vi) entender como proceder nas preliminares com Neytiri.

[Continua na próxima semana]

Imagens

Contatos imediatos – parte 3

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Na primeira e na segunda parte de Contatos Imediatos, fiz extensos comentários sobre algumas observações de Stephen Hawking a respeito da possibilidade de vida extraterrestre (trechos retirados do site The Daily Galaxy). Discorri sobre as possibilidades advindas da mera especulação sobre as naturezas dos seres vivos extraterrestres, pensando nas inúmeras possibilidades cósmicas.

Em seguida, explorei as probabilidades e improbabilidades de encontrarmos outros seres vivos fora da Terra, de reconhecermos que são mesmo seres vivos (ou de sermos reconhecidos), de eles terem inteligência como a nossa (ou diferente da nossa) e das possíveis  dificuldades na comunicação e compreensão entre espécies de planetas diferentes. Mas, e se nosso primeiro contato for uma catástrofe?…

Considerando a possibilidade de o surgimento da vida inteligente ser bastante provável, Hawking especula que, em algum ponto de seu desenvolvimento tecnológico,

the system becomes unstable, and the intelligent life destroys itself. This would be a very pessimistic conclusion. I very much hope it isn’t true.

[o sistema se torna instável, e a vida inteligente destrói a si mesma. Esta seria uma conclusão muito pessimista. Eu espero que não seja verdadeira.]

Essa é uma preocupação que concerne aos próprios seres humanos. Se o ponto ambiental crítico a que chegamos for uma constante para outras espécies inteligentes em outros astros, é possível que muitas delas já tenham se extinguido e se destruam antes de realizar viagens interplanetárias.

O tema da autodestruição tem uma ligação com o pensamento escatológico cristão (que herdamos do Zoroastrismo). A crença num fim do mundo, compartilhada pelo Cristianismo (com seu Apocalipse), pelo Islamismo e até pela religião escandinava (com seu Ragnarok), entre outras, chega a nossos dias modificada pelas preocupações com a guerra (o horror nuclear que ameaçava explodir o planeta) e com o meio ambiente (muitos cientistas consideram que o ser humano tem a capacidade de causar uma destruição em larga escala do ecossistema e de sua própria espécie.

No novo mito apocalíptico (que recentemente recebeu contribuições da mitologia maia, com a má interpretação sobre um final de uma era, interpretada pelos ocidentais como sinônimo do fim do mundo), o fim da humanidade, ou o fim da biosfera terrestre, ou até o fim do planeta Terra, serão causados pela própria irresponsabilidade humana.

Dois filmes recentes sobre extraterrestres tematizam essa preocupação com a autodestruição, de duas formas diversas e um tanto opostas.

Em Distrito 9 (District 9, 2009) (veja minha resenha aqui), uma raça extraterrestre apelidada pelos humanos de “camarões” chega à Terra numa nave espacial, sobrevoando Johannesburgo (no país onde está ocorrendo a Copa do Mundo). Não se sabe bem o que ocorreu com os alienígenas, que chegam famélicos à Terra, desamparados e sem rumo. Uma das interpretações possíveis é que eles exauriram seu planeta-natal e não tiveram opção senão ir embora, à procura de um novo lar.

Distrito 9

Em Distrito 9, alienígenas high-tech depauperados são acolhidos e explorados pelos seres humanos da África do Sul, à maneira de estrangeiros indesejáveis, tais quais os judeus e os ciganos

Já em Avatar (2009) (veja minha resenha aqui) são os próprios humanos que exauriram seu mundo e saem à procura de outra fonte de energia (no caso, o satélite Pandora, do planeta Polifemo, numa das estrelas de Alfa Centauro). Há um conflito com os na’vi, nativos de Pandora, que vivem em harmonia com a natureza de seu mundo e cujo modo de vida se choca com os interesses exploratórios dos humanos.

Isso nos leva à observação mais polêmica de Hawking sobre esse tema. Ele considera que é possível que a existência dos humanos tenha sido ignorada por outras espécies inteligentes. Segundo ele, se nós viermos a captar sinais de vida inteligente vinda do espaço,

we should have be wary of answering back, until we have evolved [a bit further].

[deveríamos ter cautela ao responder, até que evoluamos [um pouco mais].]

Um encontro entre os atuais humanos e uma civilização mais avançada

might be a bit like the original inhabitants of America meeting Columbus. I don’t think they were better off for it.

[poderia ser mais ou menos como os habitantes originais da América encontrando Colombo. Não acho que eles tenham tirado bom proveito disso.]

A história humana está recheada de episódios e e narrativas épicas encenadas por grandes impérios e povos subjugados. Os relatos dos vencedores são geralmente imbuídos de um caráter heroico e grandioso, enfatizando a prevalência da civilização e seus valores morais “superiores” sobre a barbárie com sua vida degenerada.

O Império Egípcio unificou os povos nilóticos, desde o delta do Nilo até sua nascente. Alexandre foi aclamado por fundar várias Alexandrias ao redor do mediterrâneo. O Império Romano latinizou quase tudo aquilo que conhecemos hoje como Europa. Gêngis Khan saiu da extremidade leste da Ásia e conquistou tudo até parar em Viena. O Império Britânico ensinou inglês ao “Oriente”, à África e à América. Os Estados Unidos da América vestiram o mundo com jeans, viciaram-no com MacDonald’s e balançaram a terra com o rock and roll.

A história contemporânea mostrou a situação dos povos subjgugados, massacrados, mortos às centenas, aos milhares, obrigados a servir uma autoridade estrangeira, a reverenciar deuses estranhos, a enrolar a língua para falar idiomas alienígenas. Os projetos imperialistas da história humana foram sempre pautados no etnocentrismo, na supervalorização da cultura daqueles que os empreenderam e no desfalque da cultura e vida dos povos espoliados.

A colonização se faz de pelo menos duas formas: 1) a destruição da população local para a exploração dos recursos naturais e 2) a imposição da obediência e/ou de uma cultura nova aos nativos. Normalmente, as duas coisas acontecem ao mesmo tempo e representam de duas formas a anulação e o desrespeito à diferença.

Os destruidores de mundos

Guerra dos Mundos

O veículo dos invasores do espaço em Guerra dos Mundos; ilustração de Alvim Corréa

Essas duas formas de se tratar os povos conquistados são a fonte básica para a fantasia que criamos sobre os alienígenas vindos do espaço. Em alguns casos (como em Independence Day (1996) e Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 2005)), os extraterrestres high-tech pretendem destruir completamente o planeta invadido, neste caso a Terra, seja por mera crueldade, seja para habitá-lo e/ou explorá-lo.

A destruição de uma espécie alienígena, seja qual for o motivo, só é justificada por uma moral que desconsidera o direito à vida daqueles que são diferentes de nós, ou por serem um empecilho ao desenvolvimento de uma civilização com valores superiores, seja por se os considerar animais inferiores que só servem como matéria-prima (como gado para se comer ou para dar couro).

Será que uma espécie que alcance a tecnologia necessária para viajar a outros planetas não desenvolve também uma ética mais evoluída? Se olharmos para nós mesmos, que tanto erramos em nosso passado, não estamos na iminência de uma decisão global para manter nosso próprio planeta vivo? E essa decisão não depende de uma ética mais universalista? Essa ética deverá ser herdada por nossos descendentes da aldeia global, o que talvez aconteça em outros planetas que passam ou passaram por um processo semelhante.

Talvez a conduta dos humanos em Distrito 9 e Avatar seja condizente com a forma de a humanidade reagir hoje em dia, e talvez a abordagem de alguns grupos e indivíduos humanos seja antiética mesmo num contexto social em que domine uma ética mais desenvolvida. Mas penso que, se os humanos viajassem a outros planetas, estariam já num estágio social e cultural que os levariam a tomar muito cuidado no contato com outros mundos habitados.

Os colonizadores de planetas

Cor e Kirk

O representante do Império Klingon e o da Federação, num conflito de interesses sobre o destino do planeta Organia

Em outros casos, como no episódio Missão de Misericórdia (Errand of Mercy, 1967), de Jornada nas Estrelas, a espécie invasora quer apenas anexar o planeta invadido ao “território” de seu império, obrigando aquele a servir este (neste caso, o Império Klingon, cujos interesses se chocam com os da Federação Unida de Planetas, que deseja a aliança do planeta Organia).

Essa situação é explicitamente baseada na Guerra Fria, em que duas superpotências planetárias disputam o mundo e vivem na expectativa paranoica de que o rival pode tomar o primeiro passo numa guerra de proporções hercúleas, o que justificaria a estocagem preventiva de armas. Essa paranoia belicista sempre existiu desde que há povos falando idiomas diferentes, líderes acumulando poder e terra com recursos naturais sendo disputada. E não é difícil imaginar de onde vem a inspiração para as histórias que descrevem uma inevitável guerra entre espécies de planetas distintos.

Os humanos seriam um risco para os extraterrestres?

Se de repente tivéssemos à nossa disposição, hoje, uma tecnologia capaz de nos levar a outro planeta, uma pequeníssima parte da humanidade participaria dos projetos de exploração espacial, pelos seguintes motivos:

  1. Alguns povos e países não têm condições nem interesse em participar de projetos científicos internacionais;
  2. Os povos e países que têm essas condições têm um contingente da população socialmente excluído;
  3. Nem todos os indivíduos da população não-excluída são interessados nesses projetos, e alguns até se oporiam a eles.

Ou seja, a humanidade ainda não é coesa o suficiente para que concebamos um “projeto humano” de exploração espacial, e qualquer delegação humana que viesse a entrar em contato com extraterrestres não representaria a humanidade como um todo.

Porém, na ficção científica, às vezes se vislumbra a unificação da humanidade a partir do desenvolvimento tecnológico. Em Contato, de Carl Sagan, por exemplo, a construção de uma máquina (cujo projeto foi enviado por uma mensagem alienígena), envolvendo esforços de vários países da Terra, aproxima povos que costumavam ser rivais. Em outro momento, o autor narra que várias pessoas abastadas passaram a viver em estações espaciais, o que tem um efeito interessante sobre suas mentes: elas passam a ser menos nacionalistas e a se considerar pertencentes a uma espécie planetária. Ao ver a Terra de longe,

As fronteiras nacionais são tão invisíveis quanto os meridianos ou os Trópicos de Câncer e Capricórnio. As fronteiras são arbitrárias. O planeta é real.

No filme Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato, entende-se que a descoberta de uma tecnologia que permite viajar mais rápido do que a luz e o consequente contato com uma espécie alienígena significariam o início da resolução de todos os problemas sociais do mundo terráqueo, com a união de toda a humanidade frente à vastidão do espaço sideral.

Space Invaders

A ideia de invasores do espaço se baseia no belicismo da própria espécie humana

Se soubéssemos que é grande a probabilidade de tudo vir a ocorrer dessa forma para nós, teríamos bons motivos para ser otimistas em relação a espécies alienígenas mais avançadas tecnologicamente do que nós, pois seria provável que quaisquer problemas sociais, econômicos, étnicos etc. estariam resolvidos em qualquer planeta que viesse a viajar a outros mundos. Ou seja, neste sentido, seria muito provável que uma espécie na era das viagens interplanetárias já tivesse uma ética mais desenvolvida do que a que atualmente temos na Terra, o que quereria dizer que os riscos de sermos vítimas de uma invasão aniquiladora ou colonizadora seriam pequenos.

Praticamente toda especulação que se pode fazer sobre os possíveis riscos de um contato entre humanos e uma espécie extraterrestre inteligente é baseada em nossa própria experiência passada. As guerras entre povos, o etnocentrismo, a intolerância, a segregação, o racismo, a opressão imperialista, tudo isso nos faz pensar em extraterrestres invasores e numa inevitável guerra contra eles.

Mas um vislumbre utópico de nosso futuro, baseado nas mudanças que já houve desde há muito tempo em nossa história até os dias de hoje, podem nos dar uma perspectiva otimista sobre os possíveis alienígenas ultra-tech que venham a se encontrar conosco. A única coisasensata que podemos fazer a respeito disso tudo é nos tornarmos uma espécie melhor, mais integrada e unida, mais respeitosa perante a diversidade biológica cósmica.

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Contatos imediatos – parte 2

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Em Contatos imediatos – parte 1, comentei algumas observações de Stephen Hawking a respeito da probabilidade da existência de seres vivos extraterrestres e das possibilidades de sua natureza. É improvável que a Terra seja o único astro da galáxia a ter vida, e é possível que esta se manifeste de várias formas.

Dando continuidade aos meus comentários ensaísticos sobre as observações de Hawking (retiradas diretamente de um post do site The Daily Galaxy), faço mais algumas especulações sobre as probabilidades e possibilidades da vida extraterrestre, de esta vida vir a desenvolver inteligência e de esta inteligência assumir várias naturezas, reportando-me a referências da Ficção Científica e da Antropologia.

Hawking certa vez questionou:

What are the chances that we will encounter some alien form of life, as we explore the galaxy?

[…] there ought to be many other stars, whose planets have life on them. Some of these stellar systems could have formed 5 billion years before the Earth. So why is the galaxy not crawling with self-designing mechanical or biological life forms?

[Quais são as chances de nós encontrarmos alguma forma de vida alienígena quando estivermos explorando a galáxia?

[…] deve haver muitas outras estrelas cujos planetas tenham vida. Alguns desses sistemas estelares podem ter se formado 5 bilhões de anos antes da Terra. Então por que a galáxia não está infestada por formas de vida mecânicas ou biológicas autoprojetadas?]

Boa pergunta. Mas uma coisa que me vem à mente é o tamanho dos seres vivos da Terra, minúsculos em comparação com o tamanho dos astros. Já os astros são minúsculos em comparação com a quantidade de espaço vazio que existe na Via Láctea. Se houver um planeta habitado em cada constelação, destes apenas alguns teriam forma de vida inteligente, e destes apenas alguns teriam alcançado a Era Espacial, e destes só uns poucos conseguiriam viajar a uma velocidade com que valesse a pena explorar outras constelações.

Outra variável a ser considerada no “cálculo” acima é a sobrevivência dos extraterrestres antes de poderem fazer viagens interplanetárias. Se seres inteligentes chegarem a um ponto semelhante ao que chegamos na Terra, arriscando-se a exaurir os recursos naturais de seu planeta, eles podem vir a destruir seu mundo, e provavelmente não os encontraremos vivos.

Assim, a probabilidade de criaturas minúsculas vagando em tanto espaço vazio se encontrarem é também bem reduzida. E nós nem sabemos com certeza ainda se iremos um dia realmente viajar na velocidade da luz ou dobrando o espaço.

A pequenina nave espacial Discovery perdida na imensidão do espaço; análogo a um átomo, o Sistema Solar é, na maior parte, espaço vazio (a distância entre o Sol e os planetas está fora de escala - eles são bem mais espaçados -, mas os tamanhos estão)

A pequenina nave espacial Discovery perdida na imensidão do espaço; análogo a um átomo, o Sistema Solar é, na maior parte, espaço vazio (a distância entre o Sol e os planetas está fora de escala – eles são bem mais espaçados -, mas os tamanhos estão na escala correta)

Apenas com uma tecnologia capaz de detectar numa determinada seção tridimensional do espaço qualquer objeto do tamanho de um ônibus espacial ou maior poderia resolver esse problema (afinal, detectar com radar um jato no céu é uma coisa, mas detectar uma nave espacial no espaço sideral é bem diferente… ou não?). Como não sei se essa tecnologia existe, não sei se seria tão fácil assim ver uma nave se aproximando da Terra, se ela tiver o tamanho, por exemplo, da Discovery.

I discount suggestions that UFO’s contain beings from outer space. I think any visits by aliens, would be much more obvious, and probably also, much more unpleasant.

[Eu descarto as sugestões de que os ÓVNIs contenham seres do espaço sideral. Acho que quaisquer visitas de alienígenas seriam muito mais óbvias e, provavelmente, muito mais desagradáveis.]

Talvez sim, talvez não. Talvez nós precisássemos de muito tempo observando e avaliando um planeta habitado antes de aterrissar, se chegássemos a encontrar um. Há muitos possíveis riscos, como doenças desconhecidas que podem ser mortais (que foi a causa da ruína dos marcianos em A Guerra dos Mundos), plantas e/ou animais cujos corpos são venenosos para certos visitantes do espaço, ou até mesmo uma reação violenta e intolerante por parte dos nativos.

Dito isso, podemos imaginar que, se alguns dos ÓVNIs avistados da Terra são naves extraterrestres, seus tripulantes tomariam essas mesmas precauções antes de pousar na superfície terráquea. Isso sem considerar uma ou outra espécie com tendências mais arredias ou paranoicas. Isso tudo explicaria porque é tão difícil ver ETs na superfície terrestre.

Por outro lado, possíveis problemas técnicos por parte dos tripulantes extraterrestres já deveriam ter ocasionado alguma aparição mais evidente, no meio de uma cidade populosa, por exemplo. No entanto, essas aparições, se em alguns casos forem mesmo alienígenas do espaço, acontecem na zona rural ou em locais ermos, sem grande concentração populacional humana, e as testemunhas sempre são escassas.

Porém, quase todos os relatos impactantes conhecidos de pessoas que dizem que viram e/ou encontraram extraterrestres são envoltos em mistério e confusão, além de serem abafados pelas autoridades militares. O ET de Varginha foi visto por um militar, que deu um depoimento à mídia, mas pouco tempo depois desmentiu tudo o que disse à mesma mídia.

Uma outra possibilidade para a dificuldade da obviedade de um encontro com uma espécie extraterrestre é ela ser composta de matéria num estado sutil ou em outra dimensão, ou ainda serem muito pequenos. Pode ser até que nem consideremos os alienígenas como seres vivos, e os confundamos com robôs (como no filme O Milagre Veio do Espaço) ou até com naves espaciais (como no primeiro episódio de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração).

 

O Milagre veio do Espaço

No filme O Milagre veio do Espaço, humanos conhecem uma forma de vida não-orgânica, que mais nos parecem robôs

What is the explanation of why we have not been visited? One possibility is that the argument, about the appearance of life on Earth, is wrong. Maybe the probability of life spontaneously appearing is so low, that Earth is the only planet in the galaxy, or in the observable universe, in which it happened. Another possibility is that there was a reasonable probability of forming self reproducing systems, like cells, but that most of these forms of life did not evolve intelligence.

[Qual é a explicação para nós não termos sido visitados? Uma possibilidade é que o argumento sobre a aparição da vida na Terra está errado. Talvez a probabilidade de a vida aparecer espontaneamente seja tão baixa que a Terra é o único planeta na galáxia, ou no Universo visível, no qual isso aconteceu. Outra possibilidade é que houve uma razoável probabilidade de se formarem sistemas autorreprodutivos, como células, mas que a maioria dessas formas de vida não desenvolveu inteligência.]

Essa é uma possibilidade que temos que considerar. Porém, em termos puramente físicos, astronômicos e bioquímicos, alguns cientistas, como Carl Sagan, concordam que é improvável, pelas dimensões do Universo, que não exista vida fora da Terra. Mas que essa vida tenha evoluído para um estágio de inteligência como a conhecemos na Terra, ou até superior a ela, é uma outra possibilidade.

It took a very long time, two and a half billion years, to go from single cells to multi-cell beings, which are a necessary precursor to intelligence. This is a good fraction of the total time available, before the Sun blows up. So it would be consistent with the hypothesis, that the probability for life to develop intelligence, is low. In this case, we might expect to find many other life forms in the galaxy, but we are unlikely to find intelligent life.

[Levou muito tempo, dois e meio bilhões de anos, para células simples evoluírem para seres pluricelulares, que é um precursor necessário para a inteligência. Esta é uma boa fração do tempo total disponível antes que o Sol exploda. Então isso seria consistente com a hipótese de que a probabilidade da vida desenvolver inteligência é baixa. Neste caso, deveríamos esperar encontrar muitas outras formas de vida na galáxia, mas é improvável que encontremos vida inteligente.]

Nós temos um conceito de vida muito restrito aos parâmetros terráqueos, àquilo que conhecemos na superfície do terceiro planeta do Sistema Solar. E temos padrões mais restritos ainda para o que concebemos como vida inteligente.

A vida celular foi o que vingou na Terra, e talvez não houvesse muitas outras possibilidades neste ambiente. Mas o vírus é uma forma de vida não-celular, que talvez tivesse mais possibilidades de diferenciação num planeta diferente, e talvez até viesse a evoluir e alcançar o status de vida inteligente em outras paragens do Cosmos.

A vida pluricelular também deve ter sido o mais adequado para as condições deste planeta. Mas  não seria possível que, em determinadas condições, uma espécie unicelular evoluísse de modo a crescer mais e mais, se diferenciando cada vez mais em suas organelas e assumindo uma forma macroscópica com um sistema interno próprio ao desenvolvimento da inteligência? O sistema neurológico é a única estrutura que a natureza poderia ter encontrado para desenvolver cérebros?

Toda essa especulação vai no sentido de vislumbrar uma forma de vida com inteligência da maneira como entendemos esta. Por mais que façamos abstrações, a cognição humana pode ser apenas uma de inúmeras possibilidades.

A organização do pensamento humano tem uma especificidade que advém da peculiaridade da experiência do Homo sapiens. Grande parte da forma como o ser humano representa o mundo, o compreende e o interpreta é resultado de um modo peculiar de percebê-lo e de interagir com ele. É o que mostra Gilbert Durand no livro As Estruturas Antropológicas do Imaginário: aprender a se erguer e caminhar nos faz valorizar e desvalorizar de uma certa forma as noções de cima e baixo, de subida e descida; o impulso e o ato de comer e a sexualidade nos fazem entender de uma certa maneira nossa animalidade e os conceitos de dentro e fora. A especificidade dos sentidos humanos também influenciam essas valorizações, de modo que, por exemplo, a luz se torna um conceito/imagem extremamente importante nas metáforas sobre o conhecimento do mundo, já que a visão é um dos, se não o mais, sentidos mais importantes do Homo sapiens.

Uma espécie sem visão, que pautasse a maior parte de suas percepções do mundo na audição, por exemplo, da forma como um morcego “enxerga” (e da forma como o super-herói Demolidor (Daredevil), da Marvel, “vê”, usando uma audição aguçadíssima), poderia construir o entendimento (interessantemente, o verbo entender é cognato do francês entendre, que significa “ouvir”) do mundo com base em metáforas que incluem a ideia de voz, de música, de melodia, e poderia, ao invés de textos para serem lidos, gravarem seus conhecimentos em meios auditivos. Como deve ser a cognição de um rapaz cego que se localiza no espaço através de ecolocalização, se a compararmos com o pensar de uma uma pessoa vidente?

Além disso, se buscarmos as variações da própria espécie humana, veremos como às vezes é difícil traduzir os modos de pensar de povos com cultura diferente da nossa. Essa tentativa de compreender a linguagem, o pensamento, a cosmologia e a cultura do outro é o principal esforço das obras etnográficas de autores como Bronislaw Malinowski, Ruth Benedict, Claude Lévi-Strauss e todos os antropólogos que viveram entre alienígenas e escreveram sobre suas experiências.

Se muitas vezes é preciso ficar imerso na cultura do outro humano por um bom período até se entender seu modo de viver e pensar, imaginemos como seria hercúleo o esforço para compreender a cultura de uma espécie nascida num planeta diferente, com composição química diferente, aparência diferente, modos de se comunicar diferentes.

Ora, demoramos tanto tempo para descobrir uma fração da inteligência dos golfinhos, uma das espécies mais inteligentes no planeta Terra. Douglas Adams, em O Guia do Mochileiro das Galáxias, mostra de forma bem-humorada como é difícil uma espécie chegar a compreender a inteligência de outra. Na história, os golfinhos, a segunda espécie mais inteligente da Terra (antes dos humanos,a terceira, e depois dos ratos), sabiam que a Terra estava prestes a ser destruída, mas não conseguiram avisar os humanos, que interpretaram sua mensagem como piruetas divertidas. Vejam o trecho inicial do filme inspirado no livro:

Podemos então vislumbrar espécies extraterrestres tão díspares daquilo que consideramos vida inteligente que teríamos dificuldade até de reconhecer que são inteligentes, como a criatura de silício encontrada por Kirk e Spock, descrita na primeira parte deste texto. Assim, qualquer primeiro contato entre duas espécies inteligentes está sujeita a muitos mal-entendidos.

Esse foi o tema de um episódio da série televisiva Babylon 5, em que a origem da guerra entre humanos e minbari é explicada: em seu primeiro contato, uma nave humana encontrou uma nave minbari, cujos tripulantes ativaram as armas da nave, que para eles é um sinal de respeito (algo como tirar a espada da bainha e pô-la no chão, significando a intenção de não entrar em conflito). Os humanos interpretaram o gesto como uma ofensiva, e teve início um longo conflito.

Há assim muitos motivos para ter cautela nos contatos com extraterrestres, e sobre isso me delongarei na próxima parte de Contatos Imediatos.

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Contatos imediatos – parte 1

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Stephen Hawking disse recentemente que é no mínimo bastante improvável que a Terra seja o único planeta onde tenha surgido vida, já que estamos num Universo com 100 bilhões de galáxias, cada uma com centenas de milhões de estrelas. De fato, a pretensão de que somos o ápice da “Criação” só se justifica na ignorância sobre os atuais conhecimentos da Astronomia.

Em certa época, não se sabia que as estrelas eram corpos celestes gigantescos com astros menores ao redor de si, nem se tinha ideia da quantidade de estrelas da nossa galáxia e tampouco que Andrômeda era uma outra galáxia como a nossa e que havia muitíssimo mais delas no Universo.

Hawking disse ao jornal britânico The Sunday Times:

To my mathematical brain, the numbers alone make thinking about aliens perfectly rational, The real challenge is working out what aliens might actually be like.

[Para o meu cérebro matemático, os números por si mesmos tornam perfeitamente racional pensar na existência de alienígenas. O verdadeiro desafio é imaginar qual seria a real natureza dos alienígenas.]

Capitão Kirk no planeta Vulcano, durante o pon farr de Spock

Capitão Kirk no planeta Vulcano, durante o pon farr de Spock

Tendo em vista o escassíssimo conhecimento sobre vida extraterrestre, não dá para ir muito mais longe do que a especulação. Apenas sabemos um pouco sobre as condições materiais e climáticas de alguns corpos celestes. Naqueles raros que possuem características semelhantes às da Terra (que na ficção científica de Jornada nas Estrelas são chamados de “Classe M”), pode-se imaginar um tipo de vida baseado em água e carbono que talvez se assemelhe às espécies do planeta azul. Ou talvez sejam parecidas com estas apenas microscopicamente.

Em planetas com composição, tamanho, órbita e/ou clima diferentes dos da Terra, poderia haver espécies vivas extremamente diversas, quem sabe feitas de metal, como os metalianos de Marcelo Cassaro (Espada da Galáxia), de silício, como as grandes lesmas de Janus VI (Jornada nas Estrelas), ou compostos de matéria mais densa do que a nossa ou até mais rarefeita.

Sr. Spock fazendo uma conexão mental com a criatura de silício de Janus VI

Sr. Spock fazendo uma conexão mental com a criatura de silício de Janus VI

XenomorfoMuitas histórias de ficção científica descreveram uma enorme variedade de espécies vivas com características que, para os padrões humanos, seriam consideradas bizarras. Um exemplo é a xenomorfo, que apareceu pela primeira vez no filme Alien: O Oitavo Passageiro. Ele possui um ciclo reprodutivo bastante complexo, além de ser resistente aos extremos calor e frio e ter sangue altamente corrosivo.

Muitas pessoas relatam contatos com seres de outros planetas. Esses contatos podem ser de dois tipos (considerando a possibilidade ou probabilidade de sua veracidade, excluindo-se mentiras e alucinações):

  1. Contato imediato intrafísico, em que os alienígenas em questão se fazem presentes na dimensão material, com seus corpos físicos;
  2. Contato imediato ou não extrafísico, em que a testemunha vê uma imagem ou encontra, numa projeção da consciência para fora do corpo, um ou mais indivíduos que habitam outro planeta e se apresentam, na dimensão extrafísica, com a forma que possui seu corpo físico (no caso de ainda estar vivo; pode acontecer de ele ter morrido e estar se manifestando apenas extrafisicamente).

Esses encontros de ambos os tipos podem ter inspirado grande parte dos personagens fictícios que encontramos em livros, filmes e séries de TV. De qualquer forma, há muitas especulações, mais ou menos verossímeis, sobre as diversas possibilidades de formas de vida no Universo. Elas podem ter atingido ou não um grau avançado de complexidade mental, social e cultural, podem ser mais animalescas do que nós ou muito mais sofisticadas psiquicamente.

We only have to look at ourselves to see how intelligent life might develop into something we wouldn’t want to meet. I imagine they might exist in massive ships, having used up all the resources from their home planet. Such advanced aliens would perhaps become nomads, looking to conquer and colonise whatever planets they can reach.

[Só precisamos olhar para nós mesmos para ver como a vida inteligente poderia se desenvolver em algo que nós não gostaríamos de encontrar. Imagino que eles devam existir em naves gigantes, tendo esgotado todos os recursos de seu planeta-natal. Esses alienígenas avançados poderia talvez se tornar nômades, procurando conquistar e colonizar qualquer planeta que eles encontrem.]

Se a vida em outro planeta se desenvolver num caminho parecido com o que trilharam os seres vivos da Terra, é razoável pensar que uma espécie alienígena inteligente venha a possuir uma psique parecida com a nossa e desenvolver anseios parecidos com os humanos.

Gilbert Durand, no livro As Estruturas Antropológicas do Imaginário, argumenta que os esquemas básicos do imaginário humano e, portanto, de sua psicologia, apresentam certos elementos fundantes universais (universais no âmbito da espécie humana, claro), baseados na experiência básica comum a todos os indivíduos da espécie, especialmente o impulso e a experiência de se alimentar, o aprendizado de se elevar na postura ereta e andar, e o impulso e a vida sexuais.

Assim, muitas das características que nos tornam humanos deverão estar presentes numa espécie que possui morfologia e fisiologia parecidas com as nossas e um ciclo reprodutivo semelhante. Por outro lado, é verossímil imaginar que espécies possuidoras de uma biologia alienígena para os nossos padrões tenha uma fisiologia psicológica bem diversa, talvez chegando a desenvolver uma cognição equivalente em alguns pontos, mas com processos mentais que funcionam de outra maneira, com desejos e repulsas diferentes dos nossos.

Os klingons gritam quando um dos seus morre, para avisar aos espíritos que um guerreiro terrível agora ronda entre eles

Os klingons gritam quando um dos seus morre, para avisar aos espíritos que um guerreiro terrível agora ronda entre eles

Essas prováveis diferenças na “natureza” mental, cultural, moral e psíquica das espécies alienígenas é muito explorada na série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. É comum, na série, que cada espécie com que os humanos entram em contato estranhe as emoções, os valores, o modus vivendi, a visão de mundo do Homo sapiens, e este age de modo recíproco.

No entanto, toda essa abordagem tem sérias controvérsias. Em Jornada nas Estrelas, cada espécie, inclusive a humana, é tratada de modo extremamente homogêneo, como se não houvesse variações culturais. Dessa forma, a caracterização dos humanos é grandemente baseada nos valores ocidentais, perdendo-se de vista que, por exemplo, existem povos humanos que têm uma cultura parecida com a dos klingons. Estes, por sua vez, compartilham todos o mesmo modo de viver, sem variações análogas à real condição multímoda do Homo sapiens.

Outra controvérsia é a própria visão hominocêntrica de Hawking, que imagina que a forma de encarar o universo de seres inteligentes de outros planetas deva ser a mesma do ser humano. Pode ser que alguma espécie tenha desenvolvido uma ética universalista que os impede de se aproveitar de uma espécie menos ou mais avançada (como a Primeira Diretriz da Federação, em Jornada nas Estrelas). Embora a história humana tenha sido marcada por guerras, espoliações, genocídios e violentas conquistas, é razoável imaginarmos uma situação futura em que essas coisas terão diminuído significativamente. E isso pode acontecer com outras espécies algures, nesta ou em outra galáxia.

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Fonte

O dia em que a Terra parou [Resenha]

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Em plena Guerra Fria, um extraterrestre vem à Terra convocar uma reunião com todos os líderes do planeta, para discutir a ameaça nuclear que as briguinhas da raça humana representa para a humanidade e para povos de outros planetas. Mal-interpretado, ele sofre as consequências daquilo que veio erradicar: a imaturidade belicista do Homo sapiens belicosus.

O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, 1951), dirigido por Robert Wise, roteiro de Edmund H. North, conta a história de uma missão de paz no planeta Terra, confiada ao extraterrestre Klaatu, que pousa com seu disco voador em Washington, DC, EUA, e, ao descer da nave demonstrando intenções pacíficas e um estranho instrumento confundido com uma arma por um soldado humano, é baleado. Ao sinal de perigo, um robô sai da nave e assiste seu mestre, destruindo as armas dos soldados.

Como se o governo tentasse esconder a besteira que fez, leva Klaatu para um hospital do exército, onde ele mostra ter uma saúde e constituição físicas sobre-humanas, recuperando-se rapidamente da ferida da bala. Além disso, possuindo a aparência de um homem humano de uns 35 a 40 anos de idade, revela ter na verdade 78.

Trama 4
Atuação 3
Diálogo 4
Visual 3
Trilha sonora 4
Reflexão 5

Mas não só seu corpo tem a perfeição divina em relação aos padrões humanos. Seus valores morais também são superiores, tanto que ele ordena que o robô Gort pare de destriur as armas dos soldados que tentaram matá-lo. No interesse da harmonia cósmica, ele é integrante de uma raça alienígena superavançada que teme o mal uso da energia nuclear pelos seres humanos, em seus conflitos egoístas e bairristas. Por isso é lógico, para ele, que sua mensagem seja transmitida numa reunião com os líderes de todas as nações da Terra.

Mas o governo norte-americano não pode aceitar essa proposta. Os líderes da Terra estão ocupadíssimos com interesses bélicos que dificultam ou impedem o diálogo. O que para o assessor do presidente dos EUA é um conflito entre o bem e o mal, no qual seu país é o bem e a URSS é o mal, para Klaatu o mal permeira o próprio conflito, o mal está nos dois lados da guerra. O diplomata extraterrestre sente que sua missão tem grandes chances de fracassar.

Felizmente, ele recebe ajuda de uma criança e de um cientista. A pureza do menino o ajuda a entender melhor os seres humanos e a racionalidade ética do prof. Barnhardt permite que ele arranje uma reunião com pensadores de todo o mundo. Infelizmente, seus planos não terminam como esperado. Klaatu é morto pela polícia, ressucitado por Gort, seu robô indestrutível, e deixa para um grupo atônito de cientistas e soldados a mensagem de que o futuro da Terra dependerá de uma escolha que supere os mesquinhos interesses que movem a humanidade a uma guerra iminente.

O que Robert Wise e Edmund H. North trouxeram do espaço?

É animador ver que um diretor norte-americano fez uma história na qual os interesses oficiais de seu próprio país são vistos como algo secundário e a mensagem trazida pelo alienígena, de que há algo muito mais relevante do que pequenos conflitos internos, sobressai.

Já aí, na década de 50, vemos que sempre houve quem vislumbrasse a possibilidade de conseguirmos construir um mundo no qual os interesses da humanidade (e, a posteriori, de todos os povos do Cosmos) seriam unificados. Ao privilegiar uma forma mais universalista, racional e desinteressada de conhecimento, no caso a Ciência, que é o meio de contato inicial entre Klaatu e o prof. Bernhardt, afastamo-nos da Política, forma mais sectarista e interessada de lidar com as relações interconscienciais.

Podemos apreender dessa história a compreensão de que a humanidade ainda está extremamente apegada aos seus valores sectários e à necessidade de defendê-los com a guerra. A ordem coordenada pelas elites das diversas sociedades terráqueas é defendida por quem dela mais se beneficia, mas também por aqueles que estão na base da pirâmide social e que não veem outra realidade possível. A paz oferecida pelos alienígenas é uma ameaça à ordem vigente na Terra.

O contexto em que foi produzido o filme enfatizou a ameaça real da Guerra Fria, o conflito entre EUA e URSS, entre Capitalismo e Socialismo. Mas quando Klaatu fala sobre as infantis brigas que os seres humanos mantêm entre si, podemos levar e trazer essa observação para o passado e o presente da humanidade, de modo que, embora tenham surgido outros tipos de conflitos no planeta desde 1951, a mensagem do filme ainda é a mesma.

“Klaatu barada nikto”

O Dia em que a Terra Parou é um dos grandes marcos da ficção científica, sendo influência significativa para as histórias sobre extraterrestres criadas posteriormente, tanto no cinema quanto na televisão e nos video games.

The Lost Vikings II #copy; BlizzardNo hilário Uma Noite Alucinante 3 (Army of Darkness, 1992), Ash precisa recitar as palavras “klaatu verata niktu” para evitar que a maldição do Necronomicon caia sobre a terra. No entanto, ele se atrapalha com as palavras. Parodiando a paródia, a Blizzard, no jogo The Lost Vikings II, para Super Nintendo, uma bruxa recita palavras parecidas para enviar os vikings por teletransporte, e se atrapalha da mesma forma.

No seriado Mission Hill, um dos personagens descobre que seu vizinho foi o diretor de um pouco conhecido filme de ficção científica no qual um estranho extraterrestre, que lembra muito Gort, desce num disco voador e ameaça a Terra. Quando o garoto resolve exibir o filme no cinema local, todos riem dos efeitos especiais e da interpretação do ator, que era o atual marido do ex-cineasta e que só estrelou porque era namorado do diretor.

Mas a importância maior dessa obra foi quebrar com a tendência de se pensar os extraterrestres como portadores de más intenções, sempre querendo invadir a Terra para colonizá-la ou destruí-la. Neste caso, quem agiu de forma violenta e brutal foram os seres humanos, primitivos demais para entender os propósitos nobres do “homem do espaço”.

Vemos esse tipo de abordagem repetido 15 anos depois na série Jornada nas Estrelas, em que se valorizam as relações diplomáticas entre os povos de planetas diferentes. No seriado Babylon 5, também há uma referência ao filme de Wise: no primeiro contato dos humanos com os minbari, habitantes do planeta Minbar, um gesto de boas intenções do tripulante da nave minbari foi mal interpretado pelos humanos, que iniciaram um ataque que culminou numa guerra. Esta só terminaria quando os minbari, moralmente mais evoluídos do que os humanos, perceberam a inutilidade do conflito.

Também é herdeiro dessa forma de lidar com extraterrestres o cineasta Steven Spielberg, em flmes como Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, 1977) e E.T.: O Extraterrestre (E.T.: The Extra-terrestrial, 1982). É preciso perceber que, da mesma forma que diferentes grupos humanos têm diferentes modos de ver o mundo, espécies alienígenas teriam formas ainda mais díspares de conceber o universo.

Talvez não pudéssemos parodiar a velha história dos aliens invasores, como no filme Marte Ataca! (Mars Attacks!, 1996) e no livro O Guia do Mochileiro das Galáxias (The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy), se não fosse o rompimento com essa visão etnocêntrica que coloca o ser humano (e, em certa medida, os seres humanos ocidentais) como o modelo de vida inteligente no universo.