Tessitura livre

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Só queria escrever algo despretensioso, como se fossem meus dedos os autores e eu fosse um ghost writer, ou um writer ghost, como Brás Cubas ou como William Shakespeare.

Eu me pergunto se Shakespeare vem de alguma família de lanceiros? Those who shake spears? Ou era alguma brincadeira infame que acabou pegando e ficou como sobrenome da família?

Talvez tenha acontecido algo parecido com os ancestrais de meu pai, cujo sobrenome é Perigo (e não Périgo, como já confundiram). Dizem que havia um cara muito perigoso, com quem ninguém mexia, e cujo apelido era esse mesmo, Perigo, e que decidiu passar o nome para os filhos.

O sobrenome é considerado um legado, uma herança, um tesouro da família. O homem da família tradicional ocidental passa seu sobrenome aos filhos, que são suas propriedades, e à esposa, idem. E ainda tem sambista, Ney Lopes, que canta:

Mulher a gente trata com respeito,
Dá força, dá carinho e sobrenome

Trata com respeito enquanto ela se contentar com a sabedoria conservadora de Martinho da Vila:

Você não passa de uma mulher
Ah, mulher!

Cada um no seu quadrilátero equilátero. Da forma como quer o Vaticano, ou seja, família chefiada por homem,  ao qual obecede a esposa e os filhos, que devem seguir o exemplo do pai (as filhas se espelham na mãe). Nada de homem com homem nem mulher com mulher. Nada de camisinha, que é a borracha do Diabo.

Mas espero que a humanidade não abra mão desses avanços, da liberdade de escolher formar um casal (ou trio etc.) com um homem ou com uma mulher, de não fazer disso uma cerimônia matrimonial (e patrimonial, do ponto de vista do Estado), de fazer sexo por prazer, de não ter filhos.

Certa vez o padre superstar Marcelo Rossi argumentou falaciosamente que um casal que nutre confiança mútua não deveria usar camisinha, ou seja, não deveria usar métodos preservativos. E o casal que não quer ter filhos, que quer usar métodos contraceptivos?

Há quem ache que impedir o espermatozóide de fecundar o óvulo é um assassinato. Pensam que a vida se inicia no espermatozóide? Então cada ejaculação é um genocídio, pois mesmo que haja fecundação, só um espermatózoide, entre milhares, consegue penetrar o óvulo.

É a crença ainda recorrente de que a herança do pai é mais importante. Não poderíamos também considerar que a vida começa no óvulo? Seria a mesma ilusão, como um fantasma da mãe, que seria a verdadeira autora, a ghost writer do pai.

Homo familiaris

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CartaCapitalNesta semana, a CartaCapital publicou uma matéria sobre a Lei da Guarda Compratilhada. Apresenta-se ali um debate entre a defesa de que as mulheres deveriam ter mais direitos sobre crianças e a posição segundo a qual os pais deveriam ter direitos iguais aos delas na criação dos filhos.
Mãe de todos os mitosA primeira posição se baseia em idéias preconcebidas da cultura ocidental sobre o papel da mãe, discutidas em obras como Mãe de todos os mitos: como a modela e reprime as mães, de Aminata Forna, e Um amor conquistado: o mito do amor materno, de Élisabeth Badinter. Tendemos a pensar numa predisposição natural que levaria a uma obrigação para com os filhos maior por parte das mães.

Não há determinação natural. Conheço casos de pais mais dedicados e responsáveis do que as mães e vice versa. Além disso, é bom lembrar que dedicação não é sinônimo de boa criação. A superproteção, seja na forma do confinamento, seja por meio de agrados ilimitados, é prejudicial. Embora eu não seja pai, acho que não é suficiente querer “aprender fazendo” o métier paterno. A experiência com filhos de outras pessoas, parentes e/ou amigos, deveria servir como preparo.

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Patruus

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Eu sabia, de quando estudei latim autodidaticamente, que havia mais de uma tradução para “tio”. Perguntei a Houaiss novamente e ele me respondeu. Além do tardio thius e seu feminino thia, que servem para “tio paterno ou materno” e “tia paterna ou materna”, respectivamente, há avunculus (“tio materno”), amita (“tia paterna”), matertera (“tia materna”) e patruus (“tio paterno”).

Ué, Thiago, você destacou patruus com negrito. Por quê?

É mesmo, Fulano ou Fulana. Por que será? Bem, recebi recentemente, de meu irmão (frater), a notícia de que vou ser patruus. Repentinamente, uma nova realidade futura se formava em minha imaginação. Uma nova faceta de minha identidade começava e se engendrar, não só no ventre de Ramila, mas também nas minhas entranhas neuroniais. Foi então que me dei conta:

Ninguém nunca me ensinou a ser tio!

Algo novo se configurava nas perspectivas do futuro próximo. Dentro de alguns meses, haveria alguém neste mundo a quem eu chamaria de sobrinho (sobrinus) e que, quando pudesse articular o idioma de Camões, me chamaria de tio, e desta vez não seria metáfora nem sinal de respeito.

Ora, já tenho alguma experiência com filhos e netos de amigos meus, para quem eu sou uma espécie de tio. Também sou primo mais velho da maioria dos sobrinhos dos meus pais. Mas a sutil obrigação para com os filhos dos irmãos é uma instituição social um pouco mais forte. Não tão forte, talvez, como a de um irmão mais velho que, ao quatorze anos, vê sua irmã mais nova nascer.

Mas deve ser algo parecido com ter um neto. Pois deve haver alguma razão para avunculus ser uma derivação de avus (“avô”). Também o japonês tem algo parecido: 叔父さん (ojisan) significa “tio”, enquanto お祖父さん (ojiisan) quer dizer “avô”. Análoga e respectivamente, 叔母さん (obasan), “tia”, e お祖母さん (obaasan), “avó”.

Gohan e GokuOutra relação que se pode fazer é nos mitos. Os grandes heróis muitas vezes não foram criados pelos pais. É comum que sejam criados por um avô ou figura que se passa por tal (como Goku em Dragonball), ou por um tio ou tios (como Luke Skywalker em Guerra nas Estrelas). Os pais de Frodo Bolseiro, protagonista de O Senhor dos Anéis, não aparecem na saga, e sua íntima relação com o tio Bilbo Bolseiro é mais um exemplo que se encaixa nessa lógica.

Luke vs. VaderÉ interessante notar como tanto a figura dos tios como a dos avós possui um atenuante em relação à dos pais. Estes são apanágio de grandes conflitos. Sigmund Freud que o diga. E, de fato, a relação entre pai e filho, nos mitos, costuma ser de pouca harmonia. O clássico mito de Édipo é o mais notório. O enfrentamento de Luke Skywalker com seu pai Darth Vader (Dark Father) também tem essa tônica. A madrasta de Branca de Neve não é senão a face maligna da mãe. E, quando o Pequeno Polegar encontra o casal de ogros na floresta, são a contraparte insana de seus próprios pais.

Parentesco é uma invenção social. Não há thii nem sobrini na natureza. Mas ele exerce uma força muito grande sobre os seres humanos, sobre suas emoções, suas concepções de mundo e das relações que estabelece com os outros seres.

Talvez eu passe a entender melhor a relação dos avós com seus netos. Pois já começo a me deixar imaginar uma relação de afeição entre uma pequena criança e seu “thiozão”.