O paradoxo da misoginia

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Em nossa cultura, o sexo das pessoas e suas respectivas identidades sexuais preconcebidas são objeto de controle e coerção. Os XY são coagidos a serem machos/homens/masculinos, enquanto as XX são coagidas a serem fêmeas/mulheres/femininas, com todo um conjunto de comportamentos, trajes, parafernália e ocupações pré-estabelecidos.

Embora muita coisa já tenha mudado, em muitas instâncias de nossa vida cotidiana essa estrutura sexista se mantém forte, e a paradoxal misoginia continua a existir em pequenos gestos coercitivos de desprezo ao feminino e às mulheres que fogem dos ditames da feminilidade.

Boys will be boys

Nesse universo, a satisfação da sociedade e dos indivíduos que conservam o status quo dessa sociedade se dá quando cada membro da comunidade se encaixa perfeitamente nesse esquema “ditado pela natureza” ou “concebido por Deus”. Se mulheres e homens não se adequarem, a ordem do universo estará comprometida e os “sinais do fim do mundo” se mostrarão bem claros.

Nossa tradição sexista só encontra contentamento na adequação dos indivíduos às identidades e aos papéis preparados para eles, segundo a presença de um pênis ou de uma vagina. Uma mulher se realiza de forma “natural” quando usa vestido e maquiagem, cuida da casa e dos filhos e se entrega aos caprichos do marido, “pela graça de Deus”. Do mesmo modo se espera dos homens que sejam “masculinos”, vestindo calças, provendo a família e explicitando sua heterossexualidade.

A costela de Adão

Mas, ao mesmo tempo, o feminino pende desigualmente na balança com o masculino. As qualidades que formam um ser humano moralmente ideal e superior são geralmente as características do homem/masculino ideal: coragem, assertividade, liderança, competitividade, autonomia, foco, senso de direção etc. Não é à toa que o termo virtude provém do latim vir, significando “homem” (pertencente ao sexo masculino e não o ser humano em geral). As características tradicionalmente atribuídas à mulher/feminina não são valorizadas em si mesmas. Vaidade, passividade, dependência, submissão, superfluidade, emocionalismo e atenção dividida não são virtudes em seu sentido próprio e não são consideradas qualidades nobres.

Não é por acaso que a mulher que tenciona uma carreira independente e toma decisões sem submeter o rumo de sua vida a outro é acusada de ser muito ambiciosa, “querer demais”. Porém, o homem que não tem ambição, que se satisfaz na posição de dono-de-casa, não confraterniza com outros homens torcedores de um time e/ou não se sente atraído sexualmente por mulheres é rebaixado à condição de sub-homem, como se a feminilidade o diminuísse. A mulher/masculina é um excesso, “quer ser mais do que é”; mas ao homem/feminino falta algo, é um doente que tem que ser “curado”.

Isso explica a misoginia. Quando uma mulher é feminina, ela é colocada numa posição “naturalmente” inferior. “Você não passa de uma mulher”, canta Martinho da Vila. Paradoxalmente, “o melhor é que a mulher seja feminina, assim é que se pode aceitá-la”; mas se ela for feminina ela será inevitavelmente rebaixada. Sensibilidade e vaidade não são consideradas virtudes humanas nobres, então a mulher não seria tão humana quanto o homem (masculino).

Entretanto, se a mulher foge dessa camisa-de-força, o perigo está à solta. A violência simbólica (e em tantos casos a violência física) é ativada para colocá-la “em seu lugar”. Nessas situações o medo de bruxas acomete os conservadores, pois é um perigo para a ordem social androcêntrica ter mulheres tomando decisões, afinal, supõe-se que elas são destituídas naturalmente da capacidade de julgar e discernir. Sua “natureza” é se postar de diante de um espelho com um pente na mão e um batom na outra, e ela mesma não será feliz se não se entregar à “futilidade” que faz parte de seu âmago.

Então, se é para manter as mulheres “em seu lugar”, se é mais adequado que elas sejam femininas, o paradoxo da misoginia aparece novamente. Pois é sendo femininas, como está em sua “natureza”, que elas encarnam o papel de demônios sedutores, capazes de dominar o coração e (pior) a cabeça de um homem, destituindo-o de sua autonomia, “tirando seu sossego”, “mexendo com seu juízo”. Tanto a esposa-mãe quanto a amante-prostituta (dois extremos do confuso espectro das identidades femininas) têm o poder de domesticar um homem, seja pela chantagem emocional, seja pelos decotes e minissaias, entendidos como principais culpados pelo descontrole sexual dos estupradores.

As mulheres que, por algum motivo, não conseguem se enquadrar no moldes instituídos da beleza feminina também sofrem por não poderem ser aceitas como mulheres completas, e o desprezo pela “mercadoria defeituosa”, que não tem condições de competir no mercado de corpos, é profundamente sentido pela alma vilipendiada. O que paradoxalmente poderia ser uma libertação para elas, mas as que agradam aos consumidores desse mercado é que se sentem felizes por ser objeto da possessividade dos homens.

Exemplos de misoginia

Muitos homens não entendem o que é a misoginia, pois simplesmente pensam no sentido mais próprio da palavra, como sinônimo de ginofobia, medo de ou aversão à mulher (o que às vezes é atribuído, por exemplo, à aversão dos homossexuais pelo sexo feminino, mas não a um homem heterossexual que gosta de mulheres). Com base no que foi dito acima, eis alguns exemplos de comportamento misógino por homens (e em vários casos mulheres) heterossexuais, ainda muito comuns:

  • O medo de “perder o controle” diante de uma mulher gostosona vestindo uma microssaia e a consequente atribuição da pecha de “puta” a essa mesma mulher, o que se constitui num mecanismo de defesa para o homem se eximir da culpa e da pecaminosidade, atribuindo-as ao seu objeto de desejo; “Eu odeio essas mulheres que usam decote só para a gente olhar e ficam com raiva quando a gente olha!”;
  • A aversão a mulheres que não se encaixam no modelo ideal de feminilidade, especialmente quando são “feias”, embora elas mesmas não tenham nenhuma dúvida sobre sua identificação como mulher e não tenham nenhum traço “masculino” de personalidade; “Mulher de bigode nem o Diabo pode”; o desprezo a essas mulheres se acentua com o imperativo de que a mulher “tem que se cuidar” e de que “não existe mulher feia, mas mulher que não se cuida”; pouco se admite a possibilidade de um homem heterossexual gostar de uma mulher “feia”, como se este gosto fosse errado, o que fortalece ainda mais a pressão para as mulheres serem “bonitas”, sob pena de “não encontrarem um namorado” e consequentemente não serem felizes;
  • A antipatia pela esposa exigente que reclama das aventuras sexuais do marido e se torna uma “megera” a infernizar sua vida, nela recaindo toda a culpa pelos problemas do relacionamento, como se sempre só fosse a mulher a responsável por “complicar” tudo;
  • O rancor declarado pela “ex-amiga” que não quis sair dos limites da “zona de amizade” (“friendzone”), como se o fato de ele sentir atração sexual por ela fosse motivo suficiente para ela sentir o mesmo por ele; a imagem de femme fatale (“mulher fatal”) que recai sobre ela e consequentemente sobre todas as outras mulheres, supostamente propensas a brincar com os sentimentos de “caras legais como eu” e se entregar a “babacas como ele”;
  • A raiva contida pela mulher que se destaca no emprego, superando seus colegas homens, alguns dos quais se acham desonrados e emasculados por terem sido colocados para baixo por um ser humano do sexo feminino; a vontade de se vingar dessa mulher por tê-lo colocado numa condição “inferior”;
  • A raiva que muitos homens têm das feministas e o medo de que as ideias do Feminismo sejam adotadas pela sociedade; a alcunha pejorativa de “feminazis” a todas a mulheres que desejam ter os mesmos direitos dos homens; a indignação desses homens sob a justificativa de que as reivindicações feministas são “besteira”, refletindo o próprio estereótipo de que as mulheres só pensam em coisas fúteis e ou não merecem atenção ou merecem uma punição física.

As mulheres sofrem quando assumem o papel que se espera delas, pois este implica em menos liberdade de escolhas para ela, e sofrem quando fogem desse papel, pois são constrangidas a repensar sua adequação e fidelidade a um ideal de feminilidade “natural” . É claro que muita coisa mudou, mas isso não significa que essas manifestações de misoginia tenham se extinguido. Antes, significa que há aqueles que já não vivem na mentalidade dos séculos passados e que há muita gente (mulheres e homens) que não manifesta seus preconceitos e/ou procura superá-los.

Pelo que luta o Feminismo?

Então, pelo que luta o Feminismo? Pela subjugação dos homens pelas mulheres? Por uma ditadura matriarcal? Por um mundo em que as mulheres não usem maquiagem? Por uma sociedade cor-de-rosa?

O Feminismo luta por muitas coisas, mas com certeza ele não quer que o sexismo se inverta, criando uma sociedade ginocêntrica; nem que os homens sejam impedidos de assumir cargos de poder; nem que as pessoas sejam obrigadas a abandonar os papéis de gênero tradicionais; nem que se crie uma sociedade homogênea em que cada gesto e pensamento seja patrulhado em favor de uma ordem misândrica.

O Feminismo propõe uma sociedade diferente, onde as pessoas sejam mais livres. Em que as mulheres possam ser “femininas” sem serem menosprezadas por isso, ou que sejam “masculinas” sem se sentir culpadas, e onde também os homens sejam livres para fazer as mesmas escolhas. Em suma, é pela liberdade individual de ser quem é e de escolher ser quem quer que seja que o Feminismo e qualquer movimento social libertário luta.

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Merida, seus pretendentes e o transgenerismo

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Depois de uma séria e enriquecedora contribuição de Nivea Melo, percebo que minha afirmação de que a protagonista de Valente é transexual pode ter sido mais o resultado da vontade de ver um conteúdo muito mais subversivo do que aquele que o filme realmente tem. Há uma mensagem subversiva sim, mas vai em outra direção.

De qualquer forma, essa discussão leva a pensar em várias outros elementos do filme que trazem muito mais questões à problemática do gênero e da identidade sexual, e isso envolve não só a princesa Merida, mas todos os outros personagens de destaque na trama.

Esclarecimentos conceituais

Antes de mais nada, quero deixar claro o uso de alguns conceitos neste texto.

Sexo e gênero

Fêmea-mulher-feminina e macho-homem-masculino, os dois modelos ideais de identidade sexual

“Homem” não equivale a “macho” assim como “mulher” não equivale a “fêmea”. Mulher e homem são identidades construídas e reconhecidas socialmente, representando o gênero da pessoa, enquanto fêmea e macho são dados biológicos, o sexo do indivíduo. No esquema ao lado, o sexo é representado pelo círculo central, enquanto a identidade de gênero é representada pelos símbolos de Vênus (mulher) e Marte (homem).

Via de regra, na maioria absoluta das sociedades humanas, existe uma identidade de gênero correspondente a cada um dos sexos, ou seja, dificilmente se encontra uma fêmea humana que não tenha sido ensinada a ser mulher ou um macho humano que não tenha sido criado para ser homem. As noções do que significa ser homem ou mulher e dos papéis socialmente atribuídos a cada gênero variam infinitamente ao redor do universo humano, e o que uma sociedade considera “coisa de homem” pode ser considerado “coisa de mulher” por outra cultura. Normalmente, as representações sociais não veem uma descontinuidade entre macho e homem nem entre fêmea e mulher, e os caracteres socialmente construídos são vistos como aspectos naturais de cada sexo-gênero.

Existem pessoas nascidas macho que assumem uma identidade de mulher, feminina; assim como existem crianças nascidas fêmeas que acabam se constituindo com uma identidade masculina, ou seja, de homen. Isso ocorre principalmente em pelo menos dois contextos:

  1. Algumas sociedades imputam a certos indivíduos nascidos em circunstâncias especiais a identidade do gênero “oposto”. Se forem do sexo masculino, recebem um nome feminino e são tratados como mulheres, e o contrário ocorre se forem do sexo feminino.
  2. Há casos em que existe uma identificação precoce do indivíduo pelo universo do outro sexo/gênero, e a criança acaba por assumir a identidade e os papéis do gênero oposto, não tendo necessariamente vontade de mudar de corpo, mas em alguns casos sim (transexualidade).

Seja em um ou outro caso, há uma força social que obriga os indivíduos a assumir impreterivelmente todos os aspectos relacionados a uma identidade/papel de gênero, raramente se admitindo uma mistura ou uma terceira alternativa.

Feminilidade e masculinidade

feminilidade é o conjunto de disposições, atitudes, posturas, trejeitos, formas de falar, modos de vestir que caracterizam a ideia abstrata da mulher ideal. A masculinidade é o conjunto de disposições, atitudes, posturas, trejeitos, formas de falar, modos de vestir que caracterizam a ideia abstrata do homem ideal. Essas duas noções, na prática, classificam não somente os traços tangíveis e intangíveis da identidade sexual de um indivíduo, mas também abarcam as atividades desempenhadas socialmente, ou seja, seu papel de gênero. No esquema acima, a feminilidade e a masculinidade são representadas pelos círculos envolventes maiores.

Assim, se numa determinada sociedade o cabelo comprido é apanágio da mulher, ele é considerado um traço feminino e os homens dessa cultura que usam cabelos compridos têm, portanto, um traço de feminilidade, embora possam perfeitamente manter intocada sua identidade de gênero de homem. Uma mulher que usa calças numa sociedade que considera seu uso como adstrito aos homens, ou seja, que as considera uma indumentária masculina, tem um traço de masculinidade, mesmo que ela mantenha inexorável sua identidade de gênero de mulher.

Isso se aplica também a ocupações ou profissões. Antigamente, uma mulher que se ocupasse da Ciência poderia ser considerada “masculinizada”, pois essa era uma atividade tipicamente exercida por homens. Um homem que trabalhasse com enfermagem era tido como “feminilizado”, por ser essa profissão tradicionalmente ocupada por mulheres.

No processo evolutivo de uma sociedade, podem ocorrer mudanças nessas noções, e aquilo que era considerado “coisa de homem” passa a ser tido como uma característica unissex ou até ir para o lado oposto da dicotomia sexual, tornando-se tipicamente “coisa de mulher”. Assim, se uma cultura passa a considerar que cabelos compridos não são mais atributo exclusivo das mulheres, os homens de cabelos compridos não têm mais nesse traço uma característica feminina. Se as calças passarem a ser uma vestimenta universal, as mulheres que usam calças não serão mais masculinas do que as que usam saias.

Hoje em dia, no Ocidente, o salto alto é um acessório visto unanimamente como feminino. Porém, sua forma moderna teve sua gênese como peça do vestuário masculino, popularizada pelo famigerado Luís XV.

Transgenerismo e transexualidade

Um indivíduo que não se encaixe em nenhum dos dois modelos “macho-homem-masculino” e “fêmea-mulher-feminina” é chamado, em algumas abordagens da questão de gênero, de transgênero. O transgenerismo seria a inadequação, maior ou menor, de uma pessoa quanto às expectativas sociais sobre seu sexo biológico.

O termo transgênero muitas vezes é usado como sinônimo de transexual, tanto por estudiosos das questões de gênero quanto por militantes LGBT e até por psicólogos numa abordagem clínica. Porém, transexual parece ser um termo mais usado quando se refere à condição de uma pessoa que não se identifica com o sexo imposto a si pela natureza nem com o gênero imposto socialmente e procura se assumir e se transformar no outro sexo-gênero. Tendo em vista que os dois termos utilizam, respectivamente, os radicais que remetem a gênero e a sexo, assumo aqui que transgênero é uma condição mais geral, que pode abarcar desde um homem que gosta de colecionar bonecas Barbie, passando por uma mulher crossdresser de identidade andrógina até um travesti nascido homem que se assume mulher, se veste de mulher, modifica o corpo para parecer com o de uma mulher mas não quer fazer vaginoplastia, mantendo o pênis com o qual nasceu.

(A rigor, é difícil acreditar que haja algum indivíduo humano que não seja minimamente transgênero.)

Por outro lado, em consonância com o conceito mais aceito na psicologia em relação ao termo transexual (e especialmente à forma como foi abordado por Nivea Melo no texto Princesa, heroína e guerreira: Valente), considero que este significa o indivíduo que se entende como pertencente ao universo do sexo-gênero “oposto”, ou seja, pessoas nascidas machos que desejam ser fêmeas-mulheres-femininas e pessoas nascidas fêmeas que querem ser machos-homens-masculinos. A transexualidade poderia ser entendida como uma possibilidade extrema de transgenerismo.

Merida – yin e yang

Merida na visão do pai e na visão da mãe, respectivamente

Merida na visão do pai e na visão da mãe, respectivamente

A menina Merida, por circunstâncias especiais, acabou recebendo uma herança mista na constituição de sua identidade de gênero. O arco é um símbolo de masculinidade, a herança de seu pai Fergus, enquanto a visão mágica do mundo aparece como dom de sua mãe, que lhe ensina sobre os fogos-fátuos. A magia, como se vê num outro momento do filme, está mais ligada à feminilidade, especialmente representada pela figura de uma simpática bruxa.

Merida foge de quase todos os padrões e expectativas socialmente impostos ao seu sexo e gênero, e o principal fator para isso é seu pai, despreocupado de qualquer imposição de características femininas à personalidade da filha. Ele aceita numa boa as escolhas dela, e quase todas as suas opções fazem parte do universo masculino, das coisas que em sua cultura são consideradas “de homem” e não “de mulher”.

É importante nos determos sobre a influência do pai. Sendo este muito atencioso e próximo dos filhos, inclusive dos travessos trigêmeos mais novos, ele foi um modelo para sua primogênita, que para ele não importava ser menino ou menina nem se enquadrar totalmente naquilo que se espera de seu sexo e gênero. Essa influência não é simplesmente a filha imitar os aspectos masculinos do pai, mas é especialmente a visão menos tradicional que este possui sobre a identidade e os papéis de gênero, inclusive admitindo a mistura de aspectos masculinos com femininos (numa certa androginia).

(É possível que ele até se incomodasse se seu primogênito fosse um menino com traços de feminilidade, tendo em vista seu deboche ao filho de Macintosh, mas isso não se pode afirmar com certeza. Talvez ele tenha encontrado em Merida um “filho” com quem passar o tempo e a quem ensinar o que sabe, e ela certamente se sentiu muito mais à vontade para realizar seus desejos individuais, que em grande parte não condizem com o que sua sociedade espera de uma fêmea-mulher.)

Merida

Merida – yin e yang

A noção do que é feminino e masculino, embora seja construída socialmente, pode variar segundo o ponto de vista e os valores de cada indivíduo. No olhar da mãe Elinor, Merida está fazendo tudo errado, sendo uma fêmea-mulher-masculina, enquanto que para o pai Fergus ela está simplesmente sendo quem é, e aquilo que é considerado masculino em sua cultura não é visto por ele como tal. A seus olhos, sua filha é fêmea-mulher-feminina. No balanço dos olhares enviesados, podemos considerar que Merida é uma transgênera, pois, se pertence ao sexo feminino e tem identidade de mulher, ela possui um misto de feminilidade com masculinidade. Se, por um lado, ela usa arco e flecha, por outro, usa vestido; ela não age segundo a etiqueta do recato feminino, mas acredita em magia e nas lendas.

Embora Merida seja subversiva e, nos temos da antropóloga Margaret Mead (autora de Sexo e Temperamento), uma “inadaptada”, ela não foge à imposição cultural de uma identidade de gênero, que força cada indivíduo humano a se encaixar em apenas uma de duas opções: homem ou mulher. A identidade de gênero de Merida é mulher, e isso em nenhum momento é posto em dúvida ou problematizado. Porém, fugindo do ideal fêmea-mulher-feminina, ela pode ser considerada um exemplo explícito de transgenerismo, não chegando nem perto da condição transexual.

Os pretendentes

O jovem Macintosh na visão de seu pai e na visão de Fergus, respectivamente

A problemática do gênero é um tema recorrente em Valente, e não se resume apenas ao drama de Merida. Importa atentar para os três pretendentes da princesa, representantes de três tipos de masculinidade. O jovem MacGuffin, o jovem Macintosh e o jovem Dingwall, primogênitos dos chefes de seus respectivos clãs, apresentam diferenças explícitas quanto à aparência física, os atributos e as atitudes. No entanto, os três são apresentados como modelos de masculinidade.

No artigo intitulado “Rúgbi e Judô: Esporte e Masculinidade”, presente no livro Masculino, Feminino, Plural: Gênero na Interdisciplinaridade (organizado por Joana Maria Pedro e Miriam Pillar Grossi) a antropóloga Carmen Silvia Rial apresenta, num estudo sobre a trajetória no esporte de dois jovens brasileiros, a constituição de dois ideais diferentes de masculinidade, um representado pela disciplina física e mental de uma arte marcial japonesa (o judô) e outro pelo cultivo de um corpo preparado para os violentos choques de um esporte inglês (o rúgbi). Rial mostra que a noção de uma identidade masculina (o que, por extensão, pode se aplicar à identidade feminina) não é unânime nem mesmo dentro de uma mesma cultura.

No contexto geral dessa sociedade policlânica, os guerreiros que disputam no torneio de arco-e-flecha são considerados perfeitos machos-homens-masculinos. Porém, embora o plano de Merida seja desbancá-los simplesmente derrotando-os com sua exímia habilidade de arqueira, para os pais e mães que acompanham os jogos a questão é: quem dos pretendentes é o mais “homem”?

Entre os diversos clãs, cada um entende a masculinidade de uma forma ligeiramente diferente. Os chefes dos clãs Macintosh, MacGuffin e Dingwall consideram seus respectivos filhos como perfeitos exemplos de machos-homens-masculinos. Entretanto, se prestarmos atenção ao que Fergus sussurra a sua filha sobre o jovem Macintosh, vemos que o índice de masculinidade deste é posto em dúvida. Podemos extrapolar e considerar que cada um dos chefes considera os primogênitos dos outros clãs menos masculinos do que os seus próprios.

Dentro do grupo étnico que envolve os três clãs, há algumas unanimidades quanto ao que é masculinidade, mas cada clã tem ideais específicos que variam esse modelo sutilmente.

Cabeleiras escocesas

Um detalhe interessante para se explorar essa problemática são os cabelos dos personagens e o que eles significam em termos de identidade de gênero, masculinidade e feminilidade. No universo de Valente, percebemos que os cabelos não são arranjados de forma aleatória, segundo algum gosto pessoal dos personagens. Há uma diferença entre o recato da mãe de Merida, a rainha Elinor, que sempre usa seus longos cabelos presos, e sua filha Merida, que rompe com essa regra e, embora não corte suas mechas ruivas, deixa-as soltas, contrariando o decoro que se espera de uma dama.

Não existe, no universo do filme, uma unanimidade em relação ao significado dos cabelos quanto à identidade de gênero. Cada clã (cada cultura, cada etnia) tem uma noção própria daquilo que é a indumentária e a cosmética adequadas aos homens e aquela adequada às mulheres. Em comunidades tradicionais, existe pouca opção de variação, e quase sempre todos os detalhes estéticos têm um significado relacionado ao gênero.

Não é à toa que os penteados dos homens de cada clã é o mesmo. Dingwall e seu filho têm os mesmos cabelos curtos e arrepiados. Macintosh e seu primogênito ostentam mechas longas e soltas. MacGuffin sênior e júnior usam cabelos presos. As roupas também são as mesmas, bem como o porte físico (que não é apenas uma questão de hereditariedade genética, mas da valorização de um tipo ideal, capaz de realizar as atividades “dignas de um homem”).

No decorrer da história, vemos que essas diferenças são aos poucos suplantadas em situações críticas, especialmente o “debate” e, depois, a luta contra o urso Mor’du. No primeiro momento, em que os clãs quase chegam a declarar guerra, todos os homens se encontram frente a frente como homens-masculinos, desaparecendo as diferenças próprias a cada grupo. Quando Merida intervém no debate, ocorre uma crise ainda maior, pois a moça se coloca de igual para igual com os homens, e a noção daquilo que diferencia homens e mulheres sofre uma mudança. O estilo “masculino” de Merida ao impor sua presença passa a ser visto como um aspecto neutro, nem masculino nem feminino.

Na luta contra Mor’du, da qual Merida e a própria Elinor participam, essa quebra de paradigma se acentua, pois sem a participação das mulheres como guerreiras nesse conflito não teria havido vitória contra a fera, e a própria arte da luta passa a ser admitida como uma atividade unissex.

Por outro lado e complementarmente, as diferenças entre os diversos modelos de masculinidade passam a ser entendidos mais como idiossincrasias e particularidades pessoais do que como moldes no quais se encaixar os indivíduos. O rompimento com a tradição do casamento arranjado traz consigo um rompimento com a obrigação de os homens se provarem enquanto tais, seguindo carreiras diferentes daquelas esperadas por seus pais. O jovem Dingwall, por exemplo, talvez quisesse ser músico, tendo em vista que ele prefere usar o arco para tirar notas de suas cordas e não tem o menor jeito para atirar flechas.

Pós-generismo

Valente é uma ótima alegoria para se discutir o relativismo das identidades de sexo e de gênero. Aquilo que entendemos como identidades masculina e feminina não estão dados pela natureza, e essas noções estão sempre variando no tempo, no espaço e no contexto.

Merida antes e depois

A história de Merida e seu drama familiar pode ser lida como uma alegoria das revoluções sociais. A princesa guerreira promove uma situação de crise em sua sociedade e nos valores de sua cultura. Ela não apenas apresenta uma alternativa para a tradição que obriga jovens a se casar contra seu desejo pessoal. Ela também explicita a violência da imposição de identidades/papéis de gênero. No final, ela consegue fazer sua sociedade mudar a ideia do que é feminino e masculino, e Merida, que podia ser entendida como sendo híbrida, passa a ser aceita como uma possibilidade de fêmea-mulher-feminina. Até sua mão, outrora ferrenha defensora dos papéis tradicionais de gênero, passa a realizar atividades que provavelmente sempre teve vontade de fazer, como cavalgar livremente pelos campos. A sociedade humana evolui.

Entretanto, se as mudanças que vemos ocorrer nesse processo evolutivo mostram, por um lado, a capacidade das instituições humanas de se reinventarem, elas mostram, em contrapartida, os mecanismos pelos quais as novas configurações se adequam às mesmas estruturas antigas. Ou seja, ao invés de se passar a considerar Merida como um novo tipo de identidade/papel de gênero, ela continua a ser entendida como pertencente ao lugar supostamente reservado às fêmeas humanas. Ao invés de se admitir uma androginia de sua personalidade, a cultura cria uma nova feminilidade socialmente aceita.

(É o que acontece com qualquer tipo de acessório tradicionalmente masculino que passa a ser usado por mulheres, ou acessórios femininos que passam a ser usados por homens. As roupas que passam a ser unissex, como as calças, sofrem modificações para se adequar ao corpo das mulheres e para não parecerem “masculinas”. As bolsas, tidas como objeto exclusivo das mulheres, são modificadas para não deixar os homens “feminilizados”. Perpetua-se assim a cisão entre os dois universos, e qualquer pessoa que não adote a variação socialmente aceita de um objeto para o seu sexo-gênero entra no mundo do transgenerismo e causa estranheza.)

Assim, Merida não é uma transexual, pois ela não sofre agonia por pertencer ao sexo feminino e ter a identidade de mulher. Porém, ela é num primeiro momento uma transgênera, e suas atitudes, bem como os eventos decorrentes de sua história, fazem vislumbrar uma nova sociedade, em que as imposições ligadas ao sexo e ao gênero são mais frouxas e talvez venha, num futuro mais distante, dissolver a dicotomia e possibilitar o aparecimento de identidades totalmente inesperadas e inauditas. A visibilidade do transgenerismo, cada vez maior, pode nos levar aos poucos a um pós-generismo, em que não haja mais a imposição de identidades e papéis de gênero, tolhedoras das individualidades.

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Sexualidade alienígena – parte 3

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O corpo da mulher, como disse no texto anterior, é representado em nossa cultura como o corpo afrodisíaco, capaz de excitar sexualmente (quando tem uma forma enquadrada no modelo de beleza vigente) qualquer ser humano. Essa noção faz parte de um conjunto de representações androcêntricas (que têm o humano macho como protagonista e sujeito) que veem a fêmea como coadjuvante e objeto.

A noção de uma capacidade natural e universal de excitar os sentidos é levada aos mundos da ficção científica e do fantástico, e os moldes do corpo feminino como o conhecemos (o da fêmea do Homo sapiens) é muitas vezes transportado para o corpo de seres alienígenas, e as mesmas características consideradas sensuais e belas na mulher humana aparecem nas mulheres extraterrestres. Não só as humanas são objeto de desejo de alienígenas, mas as alienígenas consideradas belas são aquelas que têm o corpo parecido com o humano.

Não é à toa, pois toda a ficção científica elaborada por seres humanos é feita pelo ponto de vista dos humanos. A beleza feminina e, em alguns casos, a masculina são os moldes para a criação de personagens sedutores de outras espécies.

Temos que considerar também que, para efeitos narrativos e de ambientação, sejam em séries de TV como Jornada nas Estrelas, sejam em filmes como Guerra nas Estrelas, usar modelos humanos para os alienígenas provoca um apelo maior no público humano. Ao ver uma dançarina de pele verde que tem tudo o que uma bela mulher terráquea tem em termos de formas do corpo, o espectador entende que ela é indubitavelmente considerada bela por todos os personagens daquela história, sejam de que espécie forem.

Mas, em termos de ficção científica, essa limitação dificulta explorar de maneira mais interessante a possível diversidade de espécies inteligentes no universo, que pode incluir, por exemplo, espécies hermafroditas (neste caso, não fariam sentido corpo e prática da sedução sexual), espécies em que os papéis do macho e da fêmea são invertidos e, quem sabe, espécies que possuem três sexos ao invés de dois.

No entanto, a diversidade na ficção científica, e chama a atenção especialmente o caso de Jornada nas Estrelas, é normalmente utilizada como metáfora da diversidade humana. As diferentes espécies se relacionam quase livremente entre si, e aparecem inúmeras relações inter-raciais, intercruzamentos e, não raro, indivíduos híbridos resultantes desses cruzamentos (como discorri na primeira parte deste ensaio).

Kamala e Picard

Uma fêmea perfeita capaz de agradar a qualquer macho da galáxia – Jornada nas Estrelas: A Nova Geração

Dessa forma, a beleza e os atributos sedutores femininos aparecem quase como universais, ou seja, uma fêmea bela não o é somente para sua própria espécie, mas para qualquer outra. Existe assim um modelo único de beleza para todos os seres da galáxia (ou ao menos para os habitantes do Quadrante Alfa da Via-Láctea).

A personagem Kamala, do episódio O Par Perfeito, da série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, pertence a uma espécie metamorfa que, sendo fêmea em sua cultura, é treinada desde criança para ser a companheira perfeita do homem com quem se casará. Ela assume uma forma idêntica à de uma mulher humana, pois seu pretendente pertence a uma espécie com aparência igual à humana (muitas espécies no universo de Jornada nas Estrelas são estritamente humanoides, ou seja, não possuem nenhuma diferença física em relação aos humanos). Mesmo tendo aparência humana, ela consegue despertar o desejo de todos os machos presentes na nave estelar Enterprise, sejam humanos, klingons ou ferengi.

Garota escrava de Órion

Garota escrava de Órion – Jornada nas Estrelas

Há uma raça habitante da constelação de Órion que é mais conhecida por suas fêmeas, normalmente chamadas de garotas escravas de Órion (Orion slave girls) ou mulheres animais de Órion (Orion animal women). Só se diferenciam das mulheres humanas por terem uma pigmentação verde na pele, e são especialistas em seduzir os machos provenientes de qualquer planeta. Elas corroboram a ideia de que existe um modelo universal de fêmea e das características sedutoras do sexo feminino.

Adira Tyree

Adira Tyree, uma dançarina centauri que, além de agradar os machos de sua espécie, é apreciada por humanos e narns – Babylon 5

G'Kar, Londo e Sinclair

Um narn, um cantauri e um humano assistindo a um show multirracial de dançarinas

Na série de TV Babylon 5, essa curiosa relação se apresenta no personagem G’Kar, da raça narn, uma espécie humanoide que, apesar disso, não tem pelos e possui a pele amarronzada, com tons amendoados e, em algumas partes do corpo, pintas escuras, como as de um guepardo.

Embora tenham diferenças estéticas que para muitos poderiam significar uma incompatibilidade de desejos mútuos entre humanos e narns, G’Kar é fascinado pela beleza de mulheres humanas e centauri (estas são quase idênticas às humanas). Apesar de se tratar de um caso individual (não aparecem explicitamente outros narns com essa mesma tara), fica subjacente a ideia de que há aspectos da sexualidade humana que se repetem em todo lugar do universo.

Dançarinas do Palácio de Jabba

Dançarinas do Palácio de Jabba – Guerra nas Estrelas

Twi'leks fêmeas

Duas twi’leks cuidadndo de Sebulba antes de uma corrida de pods

Numa galáxia distante, há muito tempo atrás, diversas espécies de diversos mundos conviviam dentro ou fora da República Galáctica (ou do Império Galáctico, em outro momento histórico). Em Guerra nas Estrelas – Episódio VI: O Retorno de Jedi, um mafioso chamado Jabba o Hutt se divertia em seu palácio com dançarinas de várias raças (ele chegou até a capturar uma humana, a Princesa Leia). Todas elas têm em comum uma feminilidade semelhante à das mulheres humanas.

Mas o próprio Jabba se parece mais com uma gigantesca lesma obesa. Por que razão ele se interessaria naturalmente pelos encantos do corpo de uma fêmea tão diferente dos da espécie dele, só porque nós humanos consideramos esse tipo de beleza como obviamente agradável e excitante? Ademais, no universo de Guerra nas Estrelas, segundo o universo expandido, os hutts são hermafroditas. A não ser que isso se trate de uma perversão individual de Jabba, não há motivos para que esse tipo de preferência seja tão natural e tão universal.

Uma das espécies presentes no harém de Jabba se chama twi’lek (seu mordomo, Bib Fortuna, pertence a esta espécie), humanoides que possuem peles de várias cores (alguns indivíduos são brancos, outros verdes, azuis, vermelhos, entre outros) e dois grandes tentáculos pendendo da cabeça. Suas fêmeas sempre aparecem nos filmes da franquia como mulheres esguias e belas. No Episódio I: A Ameaça Fantasma, um personagem chamado Sebulba, cuja espécie se caracteriza por longos braços que servem de pernas, pernas curtas que servem como braços e uma cabeça que lembra uma lhama sem pêlos, também parece gostar das twi’leks.

Essa limitação que sofre a imaginação na criação de histórias de ficção científica só se justifica naquilo que as tramas de determinadas histórias pretendem contar. Quando se trata de uma história de caráter mais mítico e fantástico, como Guerra nas Estrelas, não há porque se preocupar tanto com a verossimilhança, pois o mais importante é o drama, os conflitos políticos e os aspectos arquetípicos que dizem respeito exclusivamente aos humanos que escrevem e que assistem a essas histórias.

Quando se tratam de obras mais voltadas para a verdadeira ficção científica, como Jornada nas Estrelas e Babylon 5, essa representação do corpo feminino se justifica quando as histórias sobre espécies alienígenas são alegorias das relação humanas em sua própria diversidade, ou seja, entreveem-se as infinitas possibilidades de inter-relações entre quaisquer indivíduos de nossa espécie. Porém, quando é preciso, esses contos extrapolam os limites humanos e conseguem perceber que o mais verossímil é que cada espécie tenha suas próprias preferências em relação à estética do corpo, o que pode implicar que mesmo a mulher humana convencionada como a mais bela da Terra seja equivalente a um monstro asqueroso para uma certa raça extraterrestre.

Por outro lado, pode-se usar a ficção científica como um meio de imaginar uma utopia em que os indivíduos das mais variadas espécies enxergarem além das convenções de beleza e sexualidade em que vivem e conceberem a troca afetiva e sexual com as pessoas que amam e não com os corpos que agradam seus sentidos animais.

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