Estupro – violência hierárquica e institucionalizada

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A cultura do estupro se constitui a partir de discursos que banalizam e naturalizam a violência contra a mulher. Esta vem sendo perpetuada a partir da reprodução de determinadas práticas sociais, ilustrando, assim, o cenário de ampla misoginia em que vivemos.

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O sonho lúcido de Roquia

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O século XIX pode ser considerado o berço da Ficção Científica. De acordo com Isaac Asimov, na Introdução a Imortais: o Melhor da Ficção Científica do Século XIX,

a verdadeira ficção científica, por sua moderna definição (ou, pelo menos, minha moderna definição), não poderia ter sido escrita antes do século XIX, pois foi somente com a chegada da Revolução Industrial, nas últimas décadas do século XVIII, que a velocidade da mudança tecnológica se tornou grande o bastante para ser notada durante uma vida – naquelas áreas do globo afetadas por essa revolução.

De fato, foi nesse âmbito cronológico que surgiram autores pioneiros como Mary Shelley (provavelmente a mãe da Ficção Científica), H. G. Wells (ambos na Inglaterra) e Júlio Verne (na França). Suas obras, produzidas entre meados do século XIX e início do século XX, são referências e influências eternas na produção literária posterior e na maioria dos autores contemporâneos de Ficção Científica, mesmo que indiretamente. Mas é notório que estes autores, entre outros da mesma época, como Edgar Allan Poe (EUA), E. T. A. Hoffmann (Alemanha), Sir Arthur Conan Doyle (Inglaterra) e Guy de Maupassant (França), sejam todos originários de nações imperialistas e são quase todos homens. É muito difícil vermos escritores de Ficção Científica, na mesma época, advindos de povos colonizados, mesmo que a estes tenha sido imposta uma economia baseada na mesma tecnologia que impulsionou a Revolução Industrial nos países colonialistas.

Por isso é tão pertinente falar sobre Roquia Sakhawat Hussain (1880-1932), ativista social, escritora, muçulmana, nascida em Bengala (que atualmente se constitui numa região da Índia). Mas não apenas porque ela representa a voz do colonizado ou porque era uma mulher. Ela era uma feminista, e uma escritora feminista, e provavelmente a primeira escritora de ficção científica feminista.

A primeira tradução do conto de ficção científica feminista O Sonho da Sultana para o português foi feita por Lady Sybylla em 2014, como parte do projeto Universo Desconstruído, que começou com uma coletânea de contos inéditos. Ele está disponível gratuitamente em formato ebook e a edição impressa pode ser comprada no Clube de Autores. É com base nessa tradução, editada e revisada por Aline Valek (que também fez a belíssima ilustração da capa) que faço esta resenha.

O Sonho da Sultana

O conto O Sonho da Sultana (Sultana’s Dream) foi escrito em 1905. Também considerado um escrito satírico, é a primeira narrativa de ficção científica feminista de que se tem notícia. Seguindo a esteira da literatura europeia, tem muitos elementos que lembram os autores supramencionados, mas traz ideias inovadoras para a literatura de então, principalmente no que tange à crítica das relações de gênero da sociedade patriarcal em que viveu e na qual muitas mulheres ainda vivem, no Oriente e no Ocidente.

A história, narrada em primeira pessoa, se passa durante o sono da personagem título. Como se Sultana estivesse experimentando um sonho lúcido ou uma experiência-fora-do-corpo que a levou para outra dimensão, ela faz a seguinte observação:

Não tenho certeza se cochilei. Mas, pelo que me lembro, estava bem acordada.

Esse trecho é bem revelador sobre aquilo de que se trata o conto. Ela descreve cenas que se passam em um sonho e num mundo fantástico, ou seja, que são fictícias. Porém, ela não está passiva nesse sonho, pois, como num sonho lúcido, não apenas se dá conta do que está acontecendo como também aponta, sutilmente, que está “bem acordada” para a realidade que ela pretende desconstruir com sua narrativa. A mensagem dela aqui é a de que, por trás da aparência de um “sonho”, de uma ficção, revela-se uma verdade.

Nesse sonho, Sultana se encontra com Irmã Sara, uma habitante da TerraD’Elas, um lugar utópico em que todos os conflitos sociais e males naturais foram sanados e contidos. Além disso, os habitantes dessa terra guiam-se por uma religião baseada no Amor e na Verdade, levados às últimas consequências num exemplo prático de ética. O uso da utopia como tema dessa história serve, na narrativa de Roquia, para evidenciar os problemas reais de seu tempo e de sua cultura. Nos diálogos entre Sultana e Sara, vai se revelando uma crítica à violência, simbólica e física, a que estão sujeitas cotidianamente as mulheres numa sociedade patriarcal.

(…) não é seguro enquanto há homens perambulando pelas ruas, assim como também não é seguro quando um animal selvagem entra num mercado.

Sara ajuda Sultana a desconstruir essa violência com metáforas perspicazes que evidenciam a arbitrariedade da dominação masculina, que é mostrada aqui como uma construção social e não como um dado natural.

– Não temos voz alguma na gestão dos nossos assuntos sociais. Na Índia, o homem é nosso senhor e mestre. Ele tomou para si todos os poderes e privilégios e trancou as mulheres na zanana.

– Por que vocês se deixam trancafiar?

– Porque não podemos nos ajudar se eles são mais fortes que as mulheres.

– Um leão é mais forte que um homem, mas isso não permite que ele domine a raça humana. Vocês têm negligenciado os direitos que devem a si próprias. Perderam seus direitos naturais, fechando os olhos aos seus próprios interesses.

Nessa utopia matriarcal em que mulheres governam e homens são confinados ao ambiente doméstico, estes são apresentados como providos de uma tendência antiética, mais movidos pelos instintos do que pela razão. A própria evolução dessa sociedade fantástica só foi possível graças à liderança das mulheres, consideradas mais sensíveis e ponderadas, e à restrição das ações dos homens, causadores de confusão e conflito. É uma provocação instigante, pois inverte uma noção muito comum nas sociedades patriarcais, que é representar a mulher como mais volúvel, sujeita à imprevisibilidade de sua índole, mais próxima à natureza indomada, enquanto os homens são vistos como mais próximos de um ideal transcendente, com um caráter mais cultivado (mais próximos da cultura) e conduta menos inconstante.

A narrativa de Roquia revela, sob uma leitura acurada, que essas representações das identidades de gênero são repletas de contradições que podem ser usadas para desconstruir a si próprias. Ao mesmo tempo, ao criticar a conduta dos homens, descrevendo-os como belicosos e irascíveis, ela aponta para o fato de que a posição privilegiada do sexo masculino se faz pelo uso de uma violência institucionalizada, sendo esta, e não uma suposta força natural, o que os mantém no poder das relações de gênero.

Os elementos reconhecíveis como próprios de uma ficção científica começam a se mostrar quando Sultana indaga Sara sobre seus hábitos cotidianos.

– Como você cozinha? – perguntei.

– Com a luz solar – disse ela, ao mesmo tempo, mostrando-me o tubo por onde a luz solar concentrada era conduzida. E ela cozinhava algo aqui e ali para mostrar o processo.

Delineia-se então um cenário futurista de alta tecnologia em que a luz solar e a água da chuva são utilizadas da forma mais eficiente e versátil que se possa conceber. Mas esse cenário não é jogado para o leitor como um paraíso pronto que surgiu espontaneamente. Sara conta a Sultana toda a trajetória histórica que levou à constituição da TerraD’Elas.

– Deixe-me contar um pouco da nossa história. Trinta anos atrás, quando nossa atual rainha tinha treze anos de idade, ela herdou o trono. Era rainha apenas no nome, o primeiro-ministro é que realmente governava o país. Nossa gentil rainha gostava muito de ciência. Ela baixou um decreto dizendo que todas as mulheres em seu país deveriam ter educação formal. Assim, um grande número de escolas para meninas foram fundadas, apoiadas pelo governo. A educação espalhou-se entre as mulheres. E o casamento precoce foi interrompido. Nenhuma mulher tinha permissão de se casar antes dos 21 anos. Devo dizer que, antes desta mudança, estávamos restritas pela purdah.

– Como a situação se inverte – eu ri.

O Sonho da Sultana é uma excelente ficção especulativa que, com base em ideias simples, traça uma elaborada trama de fatos, causas e consequências imprevistas que vão transformando o destino de uma sociedade. Irmã Sara explica a Sultana os principais avanços científicos da TerraD’Elas, desenvolvidas pelas cientistas de duas das principais universidades criadas por esse reino matriarcal: uma forma de coletar água, o que teve como consequência colateral positiva parar as tempestades; e um meio de acumular energia solar para vários usos, inclusive para criar uma forma de raio de calor que permitiria que, sem derramar sangue, elas vencessem uma guerra e evitassem qualquer tentativa posterior de invasão por nações vizinhas. Sara explica ainda que a energia elétrica é usada para realizar todo o trabalho agrícola e para um sistema de transporte aéreo, prescindindo o povo de qualquer meio de locomoção terrestre.

É bastante interessante a tecnologia avançada imaginada por Roquia e genial a forma pela qual ela se encaixa num enredo de especulação histórico-cultural. Nisso eu considero que sua ficção científica explora muito bem as Ciências Humanas, tanto ou mais do que as ciências “hard”. Porém, não faltam cenas em que a Ciência é aplicada de maneira realmente digna das histórias de ficção científica mais tecnofílicas, como, por exemplo, a descrição verossímil do funcionamento de um veículo aéreo.

Sultana questiona Sara sobre como as mulheres conseguiram domar os homens, tendo em vista que estes são mais fortes fisicamente, ao que ela responde com perspicácia: “Usamos o cérebro”. E é muito interessante a crítica que Roquia apresenta aqui contra o argumento do tamanho do cérebro, usado por muitos neurocientistas, ainda hoje em dia, para “provar” que o homem é mais inteligente do que a mulher. A protagonista indaga sobre isso, e Sara replica:

– Sim, mas e daí? Um elefante também tem um cérebro maior e mais pesado que um homem. No entanto, o homem pode acorrentar elefantes e empregá-los de acordo com seus próprios desejos.

A história que leva ao atual estado de relações hierárquicas dos gêneros em TerraD’Elas pode ser assim resumida: as mulheres ganharam acesso à educação, por um decreto da rainha; foram construídas universidades, onde se desenvolveram complexas e inovadoras tecnologias; uma guerra matou a maioria dos homens, que foram confinados à reclusão doméstica pelo matriarcado; os raios de calor solar foram usados para expulsar os invasores; desde então a divisão sexual do trabalho sofreu uma profunda modificação, muitos dos papéis sociais de gênero se inverteram e alguns se tornaram obsoletos, como os de policiais e militares.

É nesse ponto que se encontra o mais contundente insight de Roquia. Através de uma ficção científica e de especulação histórica, ela desconstrói a ideia de que as relações sociais e a hierarquia de gêneros são dadas pela natureza, mostrando, através de uma narrativa complexa e repleta de acontecimentos e suas consequências, como podem ocorrer mudanças históricas e como podem surgir diversas configurações sócio-culturais entre os seres humanos. A mensagem dela é a de que, assim como as relações sociais da TerraD’Elas tiveram uma origem histórica, as sociedades da vida real também não são como são desde sempre.

De modo geral, a mensagem mais profunda de O Sonho da Sultana é a de que as informações de que precisamos para desenvolver tecnologias mais eficazes, evoluirmos enquanto sociedade e desconstruirmos as relações de dominação estão disponíveis para quem se der ao trabalho de observar com argúcia os fenômenos da natureza e os fatos das sociedades humanas. Nas palavras dela:

Nós mergulhamos fundo no oceano do conhecimento e tentamos descobrir as pedras preciosas que a natureza tem guardado para nós.

Para adquirir o conto

Fontes das imagens

Éowyn e os Homens

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J. R. R. Tolkien pode ser considerado um autor extremamente imaginativo e criador de histórias instigantes, além de ser reconhecido como uma das maiores influências do gênero “alta fantasia” (high-fantasy). Eu admiro sua obra, em suas virtudes e com seus defeitos. O que é dizer que há elementos em seus escritos que podem perfeitamente ser criticados sob uma luz contemporânea.

Um desses elementos é o racismo sub-reptício em sua caracterização dos povos humanos da Terra-Média, especialmente visível em O Silmarillion, onde há humanos de natureza mais nobre, mais parecidos com europeus, e humanos de caráter mais vil e servil, cuja aparência remete aos médio-orientais e/ou aos africanos.

Também é notório o androcentrismo da obra, elemento estrutural de suas narrativas que não está lá à toa, tendo em vista o autor pertencer a uma época e a uma cultura que tinha (e a ainda tem) no homem (do sexo masculino) o modelo arquetípico de ser humano. Não é irrelevante notar que Tolkien era um cristão devoto e que o Cristianismo é tradicionalmente machista: Adão foi criado à semelhança de Deus; Eva foi criada para servir Adão.

Não é que sua obra, sendo de natureza literária, não possua pistas e chaves para a desconstrução de valores tradicionais como os papéis de gênero e as identidades de gênero. É possível perceber na leitura de O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, entre outros escritos de Tolkien, detalhes importantes e pertinentes para ver nesses livros o caráter transgressor da Literatura, este apontado por Roland Barthes em sua Aula, mesmo que no caso do escritor britânico essa subversão seja tímida.

Melanie Rost, por exemplo, em seu ensaio Masculinity in Tolkien, mostra que diversas figuras masculinas da obra do escritor subvertem o ideal de masculinidade presente na tradição literária fantástica europeia. Aragorn, por exemplo, é diferente dos reis tradicionais de histórias como as de Arthur, pois conquista seus súditos com amor e não com glória bélica. Bilbo é diferente dos heróis convencionais, pois conquista seu heroímo através do uso da conciliação e não de seu valor em batalha, a qual evita a todo o custo.

Homens, Anões, Hobbits e Elfos

“Homens”, Anões, Hobbits e Elfos

Homens

Uma das coisas que me chamaram muita atenção desde a primeira vez em que li O Senhor dos Anéis foi a forma como Tolkien se refere à raça humana: Homens ou, em inglês, Men, sempre com inicial maiúscula (outras raças também era nomeadas com maiúsculas: Elfos, Anões, Hobbits etc.). Esse modo de designar a espécie humana com uma palavra que também denota o indivíduo de gênero masculino desta espécie não é nada muito diferente do tradicional, na realidade, pois é comum até hoje as pessoas se referirem aos seres humanos de ambos os gêneros como “homens” (“men”), e ao ser humano em geral como “o Homem” (“Man”), este às vezes com inicial maiúscula, para diferenciar da referência a um indivíduo específico. Ora, vejamos as definições tradicionais de man e de homem, retiradas, respectivamente, dos sites-dicionários Oxford Dictionaries (inglês) e Priberam (português) (os exemplos e significados derivados foram suprimidos, mas podem ser conferidos nos respectivos sites originais):

Definition of man in English:
noun (plural men /mɛn/)

1. An adult human male:
(…)
2. A human being of either sex; a person:
(…)
2.1 (also Man) [in singular] Human beings in general; the human race:
(…)

ho·mem
(latim homo,inis)
substantivo masculino

1. [Zoologia]  Mamífero primata, bípede, com capacidade de fala, e que constitui o .gênero humano.
2. Indivíduo masculino do .gênero humano (depois da adolescência).
3. [Figurado]  Humanidade, .gênero humano.
4. Cônjuge ou pessoa do sexo masculino com quem se mantém uma relação sentimental e/ou sexual.
5. Pessoa do sexo masculino que demonstra força, coragem ou vigor.

O sentido dúbio da palavra homem está instrinsecamente relacionado à representação androcêntrica do ser humano como um ser modelarmente masculino, uma representação que enxerga sub-repticiamente (às vezes explicitamente) as mulheres como uma variação do ser humano “normal”, uma criatura secundária, até mesmo incompleta comparada ao modelo ideal masculino (esta visão da mulher como um “homem defeituoso” era explicitamente defendida na Grécia Antiga, cuja cultura exerce influência milenar sobre nós). (No artigo A Evolução do Homem Branco eu explorei um pouco esse tema, inclusive a representação do ser humano idealizado como branco-europeu.)

Em Tolkien, como já afirmei acima, não se foge dessa nomenclatura tradicional e antiga. Porém, é interessante notar o uso específico pelo escritor britânico das formas Man, Men, man e men. Quando usa a palavra com inicial maiúscula (tanto no singular quanto no plural), Man/Men se referem à raça mortal à qual, por exemplo, pertencem Boromir de Gondor e Éowyn de Rohan. Quando escrito com minúscula, man/men designa indivíduos específicos do sexo masculino, em alguns casos até mesmo de raças não humanas (essa dicotomia, traduzida para o português, não traz diferença significativa em relação ao original inglês). Assim, Boromir e Éowyn são Homens (maiúsc.), pertencem à raça Homem (maiúsc.), enquanto Galadriel e Meriadoc Brandebuque, sendo respectivamente uma Elfa e um Hobbit, não podem ser chamados de Homens (maiúsc.); por outro lado, se Boromir é um homem (minúsc.), Éowyn não o é, pois pertence ao gênero feminino, é mulher; Galadriel também pode ser referida, nos termos de Tolkien, como uma mulher Elfa, enquanto Meriadoc pode ser chamado de homem (minúsc.) Hobbit.

Éowyn

Entretanto, uma das cenas mais impactantes de O Senhor dos Anéis coincide com um momento em que Tolkien flerta com uma subversão dessa regra: o embate entre a guerreira Éowyn e o Senhor dos Nazgûl, no capítulo “A Batalha dos Campos de Pelennor”. Esse momento fatídico é a culminação de um ato de rebeldia da sobrinha do rei Théoden, proibida por este de participar da batalha nos campos de Pelennor. Disfarçada com um elmo, Éowyn, usando o pseudônimo Dernhelm, não só adentra as fileiras de seus conterrâneos Rohirrim como leva seu amigo Meriadoc, mais conhecido como Merry, o Hobbit que também fora instado pelo rei a ficar com as mulheres e crianças durante o conflito.

Depois que o Rei-Bruxo derruba Théoden de seu cavalo e entrega a montaria do monarca como presa à sua própria montaria alada, Éowyn se interpõe temerariamente diante do inimigo, ao que este responde com uma zombaria (a tradução em português é da edição da Martins Fontes):

Thou fool. No living man may hinder me.

[Tu és tolo. Nenhum homem mortal pode me impedir!]

A guerreira remata:

But no living man am I! You look upon a woman. Éowyn I am, Éomund’s daughter. You stand between me and my lord and kin. Begone, if you be not deathless! For living or dark undead, I will smite you, if you touch him.

[Mas não sou um homem mortal! Você está olhando para uma mulher. Sou Éowyn, filha de Éomund. Você está se interpondo entre mim e meu senhor, que também é meu parente. Suma daqui, se não for imortal! Pois seja vivo ou morto-vivo obscuro, vou golpeá-lo se tocar nele.]

Resumindo o restante da cena, o Nazgûl hesita, Éowyn decapita o monstro alado, o inimigo ameaça atacá-la com sua maça, Merry atravessa o joelho do dele por trás com uma adaga, ela golpeia com sua lâmina a cabeça do vilão e este se deteriora em pleno ar.

O que esta sucessão de acontecimentos e, especialmente, essa troca de palavras entre a heroína e seu oponente me leva a pensar em termos de significado e ressignificação é a desconstrução que o texto de Tolkien faz de sua própria forma androcêntrica de conceber a humanidade. A narrativa neste trecho é extremamente densa, e o trocadilho que envolve a palavra “man” (“homem”) serve, explicitamente, para criar um efeito dramático que provoca um arrepio na espinha do leitor, pois a profecia do Nazgûl é posta em cheque pela quebra da expectativa de estar diante de um indivíduo do sexo masculino, contrariando ao mesmo tempo o preconceito de que num campo de batalha qualquer Homem (maiúsc.) deveria ser um homem (minúsc.).

Porém, mais do que perceber com os sentidos que se trata de uma pessoa do sexo feminino, podemos pensar que é o discurso de Éowyn que realmente provoca impacto sobre a postura desafiadora do Nazgûl: ele poderia continuar pensando, mesmo depois de ver a mulher, que ela continuava sendo um Homem (maiúsc.), ou seja, um ser humano, já que, embora o texto mostre a palavra com minúscula, na fala essa diferença de escrita é despercebida. Assim, quem acerta o primeiro golpe no duelo é Éowyn, com suas palavras, e estas já provocam o efeito que seu inimigo pensou que evitaria: ele hesita, ou seja, ele se detém (hinder), o que de certa forma já dá início a sua derrota.

O trecho pode ser lido, repito, como um momento de autodesconstrução do próprio texto. A fala de Éowyn desafia a designação tradicional do ser humano como “Homem”, tendo em vista o valor machista veiculado (intencionalmente ou não) por meio desta palavra. Se o Nazgûl, em princípio, deixa implícito que “living man” pode se referir a qualquer ser humano, o feroz contragolpe, neste duelo de palavras, chega mesmo a desconcertar o decoroso Lorde, ressoando talvez o desconcerto do leitor do livro ao descobrir que aquele jovem cavaleiro chamado Dernhelm é na verdade a sobrinha do rei, e as circunstâncias da luta concretizam o que estava previsto: o Nazgûl é detido e morto pelo golpe de uma mulher, não de um homem.

Ainda mais interessante é a profundidade que esta desconstrução e jogo de palavras alcançam se notarmos que Merry teve participação na derrota do vilão. Ele, Merry, não é um Homem (maiúsc.), embora seja, nos termos tolkenianos, um homem (minúsc.). Um Hobbit, não um Homem, também conseguiu deter (hinder) o Nazgûl com um golpe em seu joelho. Esse elemento adiciona mais sentido a essa desconstrução ao evidenciar a possibilidade de confusão entre os termos com maiúscula e com minúscula, confusão “proposital” que faz parte da própria ideologia da desigualdade de sexo/gênero, responsável por manter a ideia de que o homem do sexo masculino é o modelo padrão de ser humano; ao escutar em voz alta o texto dessa passagem do livro, não temos como identificar a marcação da diferença na letra minúscula: nem Éowyn nem Merry são (h/H)omens.

Podemos deixar essa equivalência fonética e semântica mais clara, vendo o trecho do filme O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, que corresponde ao capítulo “A Batalha dos Campos de Pelennor”, onde o diálogo foi reelaborado, mas o trocadilho se manteve e o efeito dramático mudou com o uso dos efeitos visuais.

Esclarecimentos

A ideia da desconstrução do androcentrismo estrutural reproduzido pela língua tem sido debatida entre feministas, desde pelo menos a primeira metade do século XX, com Simone de Beauvoir, e por linguistas de diversas vertentes, especialmente na área da Análise do Discurso, como a Linguística Sistêmica Funcional (Michael Halliday etc.) e a Análise Crítica do Discurso (Norman Fairclough etc.). Digo isso principalmente para que os desavisados não pensem que estou inventando moda, ou que só eu e alguns felinos gotejados estamos enxergando folículos capilares em óvulos não-fecundados de aves galináceas.

Também adianto, antes de mais nada, que gosto muito dos livros de Tolkien e que qualquer obra realizada por seres humanos portadores de individualidade única está sujeita a altos e baixos sob o olhar de quem a admira, como disse no início do texto, em suas virtudes e com seus defeitos que a tornam um objeto singular, para apreciação e para crítica. Ambas podem enriquecer a obra ainda mais.

Fontes bibliográficas

  • TOLKIEN, J. R. R. The lord of the rings – 50th anniversary edition. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 2004.
  • _______. O senhor dos anéis: o retorno do rei. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Links

Imagens

  • Destaque: Éowyn du Rohan, por Donato Giancola
  • JRR Tolkien, por Audrey Benjaminsen – DeviantArt
  • Elrond Recalls the Hosts of Gil-Galad, por Michael Kaluta
  • Trecho de Éowyn Before the Doors of Meduseld, por Michael Kaluta
  • Éowyn and the Nazgûl, por John Howe
  • Éowyn & Nazgûl, por Donato Giancola

Frozen: Pesado como o frio e Leve como um floco de neve

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Atenção: o artigo contém SPOILERS sobre o filme Frozen, da Disney, de 2013.


Então explore o coração, frio e límpido
Que pulsa por amor e por medo
Veja a beleza pura e simples
Separe o gelo!
E quebre o coração gelado

(…)

Belo!
Poderoso!
Perigoso!
Frio!

O gelo tem uma magia, não pode ser controlado
Mais forte que um, mais forte que dez!
Mais forte que cem homens!

(…)

Nascida do frio e dor ar invernal
E da chuva da montanha juntos!
A força gélida, desleal e justa
Tem um coração a ser minerado!

(…)

Cuidado com o coração congelado

(Trechos da música “Frozen Heart”, que abrem o filme.)

Frozen (Disney, 2013) é um filme belíssimo, com passagens muito engraçadas e roteiro bem amarrado que fez e ainda faz pessoas no mundo inteiro chorarem e simpatizarem com seus personagens, tornando-se hoje uma das franquias mais lucrativas da empresa. Em uma análise mais profunda, Frozen pode ser considerada uma Tragédia (no sentido clássico da palavra) nos primeiros 3/4 do filme e finalizando uma Comédia (também no sentido aristotélico), como será explicado daqui a pouco. A animação é uma história sobre a Leveza vencendo o Peso*, sendo os dois representados de diversas formas. O uso da Leveza é tão poderoso que faz com que o sofrimento daquelas duas meninas seja concebível para os espectadores, crianças, em sua imensa maioria, e é exatamente por isso que o filme merece todos os méritos de ser uma obra inteira dedicada à Leveza. Em termos de comparação e exemplificação, vemos “momentos de Leveza” em grandes obras de arte e, selecionando apenas filmes pra comparar, temos em Up a forma em que é contado o processo de derrota pelo câncer e a morte da esposa de Frederikssen no início do filme; nas conversas infantis entre o protagonista e um garoto judeu em O Menino do Pijama Listrado; na performance do pai do garoto judeu em A Vida é Bela ao contar-lhe que o campo de concentração era uma gincana; na metalinguagem que o filme Dancer in the Dark de Lars Von Trier faz com as músicas entre uma desgraça e outra durante o filme; isso só pra citar alguns exemplos. Já Frozen, como disse lá em cima, é uma Tragédia contada de forma que crianças reconheçam sua existência, porém apenas adultos poderão fazer ideia do nível desse horror.

Como nos mitos infantis clássicos, não sabemos como Elsa adquire seus poderes e qual sua magnitude, o espectador cai de “paraquedas” na história e esse fator dá um tom Fantástico ao filme.

Começamos acompanhando a brincadeira entre as irmãs, ainda crianças, e é nessa hora que o filme nos apresenta o Peso do poder quando Elsa atinge a irmã com um raio. Anna: Leve e descompromissada; Elsa: Pesada pelo medo, pela maldição e pelo dever de cuidar da irmã. Anna está ferida e é levada para os trolls da floresta, quando um deles diz:

Têm sorte de não ter sido o coração dela.

Mais direto impossível: o frio que atingiu o cabelo de Anna e sua mente, na mitologia do filme, significa a apatia, a dor, a tristeza ou até mesmo a melancolia. De Anna, toda a lembrança do Peso é extraída, todo o sofrimento; uma magia poderosa que nos faz pensar quem somos como humanos: uma reação à dor passada, almas endurecidas que aos poucos vão perdendo a magia, a Leveza. Os traumas do passado forçando nosso subconsciente a agir mais defensivamente ou até a evitar situações que nos remetem a eles, mudando o rumo de nossas vidas. Anna a partir de agora é uma pessoa sem memória, sem traumas ou frustrações: Uma pessoa Leve.

E é aí que a Tragédia começa: Elsa sabe do Peso desse poder, que é belo e ao mesmo tempo terrível. A exclusão dela do mundo e da própria irmã é um absurdo: uma vida miserável dentro de um quarto em contato apenas e por pouco tempo com seus pais, e essa dor é cantada por Anna em “Do You Want to Build a Snowman?” (“Você Quer Fazer um Boneco de Neve?”) – um artifício humano para aplacar a dor: a música, o som ritmado e melodioso que vem de tempos imemoriais desde os épicos, passando pelo teatro e chegando ao audiovisual. As canções vêm sendo usadas em musicais há muitos anos para esse fim: diminuir o Peso da história, e esse é um dos (vários) artifícios de que Frozen vai se utilizar. A canção vai encobrir o Peso dos anos de terror que as duas meninas vão passando pela separação – duas irmãs sofrendo juntas e completamente separadas por uma parede apenas: a solidão, o tédio, a perda dos pais e da amizade, não consigo pensar em maior sofrimento pra aquelas crianças!

Daqui por diante vou selecionar os personagens e seus símbolos, além de momentos-chave de dualismo Leveza x Peso que, claro, são interpretações minhas e que podem haver falhas, porém espero que fique clara a ideia que quero passar aqui, escrita no primeiro parágrafo:

Anna: a pura Leveza: uma menina estabanada, engraçada, ingênua, que quer sair, mesmo que por um dia (o da coroação da irmã) – “for the first time in forever” daquela eternidade de privações e viver como uma “princesa” pela primeira vez – Anna quer amar! Anna quer tudo que lhe foi tirado e nem sabe por quê! Ela sente um Peso que nunca mereceu ou entendeu – por anos! Anna procura um amor Romântico, como uma típica garota do século XV, XVI e XVII, inundada de Romances em que as princesas eram mulheres virgens e cheias de virtudes esperando pelo príncipe encantado que irá lhe propor em casamento e ser “feliz para sempre”, e o filme será feliz em desconstruir essa imagem, como será analisado mais à frente.

Agora vamos à Elsa: o Peso a possui – o frio, que é retratado em várias culturas como a época de se resguardar e racionar a comida estocada durante o verão e outono; o Inferno é gelado na Divina Comédia – enfim, esse poder é o Mal e Elsa tem que “conceal, don’t feel” (“reprimir, não sentir”), porém agora eles (o povo) já sabem, então “let it go!” (“deixe ir!”). Elsa libera todo seu poder e nós vamos com ela, pois sabemos de toda sua história de privações e sofrimento; essa é a verdadeira Elsa, uma mulher livre do Peso da majestade, das obrigações para com os outros e do medo do seu poder (“o mal”). Elsa em “the cold never bothered me anyway” (“o frio nunca me incomodou mesmo”) deixa escapar uma falha de caráter que raramente se vê em filmes infantis onde os protagonistas são seres perfeitos aos olhos da Moral: Elsa permite-se dizer que o poder é a sua Natureza – ela é Pesada por si e faz pirraça como que dissesse: “e daí, se eu sou o Mal, que seja”. Esse momento eu chamo de A Primeira Catarse: o filme nos induz, pela primeira vez ao “erro” e esse apoio à Elsa nos faz esquecer que todos na cidade podem morrer de frio por causa desse súbito egoísmo da garota.

O castelo de gelo: Construído por Elsa, o castelo, belíssimo, traz consigo uma dúvida a respeito do julgamento dessa “maldição” – como é possível algo tão “ruim” como o inverno proporcionar algo tão belo? Seria esta a forma de o filme mostrar que a dor e a melancolia são capazes de proporcionar obras-de-arte belas, que o Peso faz parte da vida e não é tão ruim assim tê-lo de vez em quando?

Elsa x Anna no castelo de gelo: o Peso volta à vida de Elsa quando Anna revela que a cidade entrou num “eterno inverno”, ou seja: (na concepção dela) o “Mal” tomou conta do lugar e Elsa precisa resolver isso, porém Elsa diz à irmã que é impossível reverter a magia, uma metáfora para “essa tristeza é da minha natureza e não há como tirá-la de mim”. Com isso, a dona do castelo expulsa a todos com um monstro de gelo que se contrapõe ao…

Olaf: representante da Leveza dos anos da infância: ingênuo e engraçado, Olaf é um outro artifício utilizado pela arte, conhecido como “alívio cômico”, “bobo” ou “fonzie”(nos sitcoms), ele serve como “redutor de Peso”; já o Monstro de gelo é Elsa assumindo o seu lado Pesado e Mau: “o frio nunca me incomodou mesmo”.

Os Trolls: Kristoff declara em alto e bom som: “eles são como família / (…) eles podem ser inapropriados, barulhentos, autoritários e PESADOS, BEM PESADOS.” Quando Anna replica: “Kristoff, eles são MARAVILHOSOS”, temos aí uma mensagem bela sobre a família: eles podem ser Pesados, mas são sua família, como Elsa é para Anna, e nem isso os faz menos maravilhosos: o Peso pode ser contornado com o amor verdadeiro, e isso com certeza será um ponto a ser dedicado agora!

O Amor Romântico x o Amor “verdadeiro” e a verdadeira Leveza: “O amor! O amor! É isso!”, grita Elsa depois de ver Anna morrer congelada na sua frente. Elsa e Anna concluem que a única forma de se salvarem mutuamente e ao mundo que lhes rodeia é através do amor verdadeiro; o Peso do mundo real só pode ser sobrepujado pela Leveza do amor, não do amor Romântico criado com fins controladores e mercadológicos da Idade Média: o amor entre irmãos, família e amigos. Esse amor está espalhado no filme inteiro como a resolução de um crime em um livro policial, esfregando em nossa cara a amizade do Kristoff e sua rena; dos pais de Anna e Elsa para com elas; do ato de Kristoff em levar sua amada para outro homem para que ela seja salva; do amor dos Trolls para com seu “filho humano” e o amor entre as irmãs princesas. A desconstrução que o filme faz de toda uma cultura Romântica é poderosa e catártica, assim como a total vitória da Leveza sobre o Peso; da tragédia à comédia (também no sentido original da palavra).

O filme Frozen pode ser uma metáfora sobre como o Peso pode deixar as pessoas mais responsáveis, reflexivas e contemplativas, bem como isoladas e depressivas. Desse Peso pode-se extrair coisas belíssimas como o castelo de gelo de Elsa – belo e Leve – e da arte como forma de expressão. A Leveza, na figura de Anna, em contraponto, poderá reduzir esse Peso tomando para si parte dele através de um ato de amor verdadeiro – um sacrifício que os heróis cometem. E essa é a terceira Catarse, a quebra do paradigma do herói macho e único, que resolve tudo sozinho: Frozen, no final das contas, tem duas heroínas.

Elsa, nos segundos finais do filme: deslizando pelo gelo, alegre e decidida, em contraponto com a Elsa séria e sem coragem de sequer tocar as pessoas e Pesada, andando na neve. Ítalo Calvino iria pular da cadeira com essa cena.

Elsa, nos segundos finais do filme: deslizando pelo gelo, alegre e decidida, em contraponto com a Elsa séria e sem coragem de sequer tocar as pessoas e Pesada, andando na neve. Ítalo Calvino iria pular da cadeira com essa cena.


*A “Leveza”, como descrito por Ítalo Calvino (Seis Propostas Para o Próximo Milênio. Companhia das Letras, 1990) era (é), bem resumidamente, um artifício artístico que visa reduzir o “Peso”, que pode ser desde o peso do mundo real, de uma situação qualquer, e trazer um mínimo que seja de fuga, de beleza ou esperança. São imagens, metáforas, alegorias em grande parte.

Universo Desconstruído: Ficção Científica Feminista

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A Ficção Científica, como outros tantos gêneros da Literatura, do Cinema e das série de TV, está impregnada dos valores arraigados na cultura em que prolifera. E isso implica na reprodução de etnocentrismo, racismo, sexismo e heteronormatividade.

Pensando nisso, as escritoras Lady Sybylla e Aline Valek organizaram uma coletânea de contos que fogem desse padrão. Focando especialmente na desconstrução dos papéis de gênero tradicionais tão presentes na ficção científica (e também tocando em outros temas relacionados à diversidade humana), as autoras e autores que participaram da coletânea exploram os limites libertadores dessa literatura, que em essência pode extrapolar a realidade e imaginar um mundo melhor, um universo livre de discriminação e preconceito, ou que pode servir para explorar alegorias fantásticas da nossa realidade ainda androcêntrica e misógina.

O livro é distribuído gratuitamente através do site oficial (http://universodesconstruido.com/), em formatos EPUB (Kobo), MOBI (Kindle) e PDF,  e pode ser comprado em formato físico no Clube dos Autores.

A seguir, faço uma apreciação de cada um dos contos presentes na coletânea, tentando não revelar pontos importantes da trama (spoilers), ao mesmo tempo trazendo minha interpretação para quem já leu e procurando instigar a leitura para quem ainda vai ler.

“Codinome Electra”

O conto que abre a coletânea, escrito por Lady Sybylla, narra eventos de um futuro distante. Há uma guerra entre dois povos, os humanos e os magojins, e a sucessão de eventos da trama é desencadeada pela captura de um magojin por uma mulher chamada Electra. Quando surge enfim a oportunidade de os humanos, que habitam o planeta Klaten, entenderem quem são seus inimigos, o governo de Klaten decide acobertar qualquer informação que tivesse sido coletada e impedir a continuidade desse plano.

Major Electra é dispensada pela coronel Vieira, sua superiora, e decide descobrir a verdade sobre os magojins, mesmo que isso represente um risco para si mesma. As revelações que se seguem mostram que há uma relação entre humanos e magojins mais significativa do que se acreditava, e passamos a entender uma série de elementos do conto até então.

O trio de personagens que protagonizam o primeiro ato do conto é muito significativo para se entender o caráter subversivo de “Codinome Electra” e Universo Desconstruído. São três mulheres, uma guerreira (Electra), uma líder (Vieira) e uma médica (Alvarez). A princípio, a “insistência” da autora em apresentar de cara três mulheres em papel importante pode ser um incômodo para muitos leitores homens (e é bom que seja), e essa escolha tende a ser vista como típica de “histórias para mulheres”. Mas é uma escolha proposital e acertada, que nos informa do que realmente se trata o livro: uma quebra de paradigmas. Afinal, não é nada incomum encontrarmos dezenas e centenas de histórias de ficção científica cujo grupo de protagonistas é todo formado por homens.

Vide o emblemático triunvirato de Star Trek, Kirk, Spock e McCoy, três homens (que, na minha leitura, parecem ter inspirado as três mulheres do conto). Mesmo a grande capitã Kathryn Janeway, de Star Trek: Voyager, possui um imediato homem, e é muito difícil encontrar space operas que tenham apenas mulheres como protagonistas (embora seja fácil encontrar grupos exclusivamente masculinos ou nos quais as mulheres, quando presentes, ocupam papel secundário).

Ao longo do conto, vamos nos deparando com mulheres em posições de poder, negros e brancos convivendo em igualdade, bissexuais vivendo sua sexualidade em paz e transexuais plenamente aceitos como iguais em suas identidades, e nos perguntamos como essa sociedade futurista conseguiu se transformar em tudo o que as histórias de ficção científica negaram fazer. “Codinome Electra” é um ponto alto e importante da literatura brasileira de ficção científica.

“Quem sabe um dia, no futuro”

Neste instigante monólogo, da autoria de Alex Luna, somos apresentados a um futuro em que a humanidade resolveu diversos problemas sociais com o uso de robôs, que passaram a realizar todas as atividades braçais. Tornaram-se, enfim, escravos (que é, a propósito, o sentido próprio da palavra robô).

Nas reflexões que a protagonista faz, compreendemos o que sente o ser oprimido diante da impossibilidade de se rebelar. Embora na sociedade pseudoutópica que é o cenário do conto não haja mais desigualdade de gêneros, na nova ordem as angústias das mulheres se repete nas mentes do novo contingente dominado.

A forma como se desencadeia o monólogo vai revelando aos poucos do que se trata essa realidade, fictícia quanto aos fatos, realista quanto à mensagem: não importa quanto tentemos mudar as sociedades humanas, só haverá uma verdadeira revolução quando a estrutura de dominação for desconstruída, quando as mudanças deixarem de ser apenas a dos atores que ocupam os papéis pré-estabelecidos. Estes é que devem ser reconstruídos.

Apreender esta mensagem é importante para se compreender a proposta feminista da coletânea. Não se trata da caricatura propagada pelo discurso tradicionalista, a das feministas que querem inverter os papéis da dominação sexista. Trata-se, isso sim, de construir uma estrutura social em que não haja desigualdade baseada no sexo/gênero dos indivíduos (tampouco sua etnia, “raça” ou orientação sexual).

“Uma terra de reis”

Confesso que tive que ler duas vezes o conto de Dana Martins para entender a trama. É como se tivesse sido escrito num jargão futurista, com abreviações de palavras (especialmente dos nomes próprios, alguns dos quais remetem à mitologia hindu) e de frases, e exigiu de mim muita atenção para compreender o que não estava dito explicitamente. O ritmo frenético de história de ação também demandou paciência, pois não estou acostumado com esse tipo de literatura. Mas depois da segunda leitura entendi melhor a proposta e achei bastante interessante.

Num mundo controlado por grandes corporações, uma epidemia fora de controle se torna fonte de enriquecimento para uma indústria, que comercializa a cura apenas para quem pode pagar por seu caro preço. Um grupo de rebeldes está tentando roubar o remédio para distribuí-lo entre a população excluída. Ou seja, a história é de forma geral uma crítica sócio-econômica.

Sua inserção na coletânea de contos feministas se justifica, em primeiro lugar, pelo fato de Maya, a protagonista e narradora, ser feminina. Além disso, ela não é humana, mas um ser artificial, parecido com os replicantes de Blade Runner. Sua condição de coisa, num mundo que relega os UROs ao papel de escravos, é motivo de constantes queixas por parte dela. Seus sentimentos são, metaforicamente (às vezes literalmente), um reflexo da opressão sofrida pelas mulheres num mundo androcêntrico.

Embora Maya participe ativamente do planejamento e execução das operações de espionagem e guerrilha, ao lado de seu companheiro humano Dev, ela é encarada por muitos como uma ferramenta e um objeto de disputa por parte das diversas forças que se opõem na história. Sua perspectiva reflete a angústia das mulheres reais, que aprendem, da cultura em que estão inseridas, a cultivar anseios e desejos, mas são tratadas como coisas sem autonomia.

Eu me concentro em respirar enquanto eles continuam a falar de mim. As palavras vindo de longe. Os dois continuam combinando o meu futuro.

Vale também mencionar o destaque para a ambivalência do personagem masculino que acompanha Maya. Dev é apresentado como uma espécie de super-herói, muito autoconfiante, destemido, ágil e forte. Mas essa aparente imagem de modelo masculino ideal é contrastada com momentos de dúvida, insegurança e ansiedade, quebrando o estereótipo do machão inquebrável das histórias de ação, mostrando um ser humano com virtudes e fraquezas.

“Meu nome é Karina”

Nesta história de Ben Hazrael, um empreendimento científico que envolve a comunicação com uma realidade alternativa coopta a personagem-título para ser uma “sonda” na outra realidade, assumindo a identidade de sua contraparte para iniciar o processo de transferência das consciências de todo o mundo para seus alter-egos naquela realidade, onde a história seguiu um caminho um pouco diferente da nossa. Porém, a motivação de Karina para ir à outra realidade não coincide com os planos dos cientistas envolvidos no “Projeto Sonda”. Ela anseia por viver uma vida em que é aceita como é, especialmente por seu pai.

Presa desde o nascimento num corpo que não reconhece como seu, Karina não aceita a identidade imposta pela sociedade e por seu pai, com quem sempre teve um profundo conflito. Nesta fábula, a figura paterna aparece como um símbolo que condensa o patriarcado, a ordem androcêntrica controlada pelos homens, o sexismo da rígida divisão sexual do trabalho, a heteronormatividade que mata os “desvios” e a cisnormatividade que castra a autenticidade individual. O pai é ainda um cientista, representando o fato de que o pensamento científico, pensado como libertador, não implica necessariamente em melhor aceitação das diferenças.

Somos capazes, hoje em dia, de enviar astronautas para Marte para construir colônias, mas somos incapazes de apagar preconceitos.

A frase acima é muito significativa pelo fato de não ser apenas uma constatação da personagem-narradora a respeito de seu universo, nem somente uma mensagem do autor sobre o que vivemos na nossa própria realidade. A sentença condensa toda a ideia de Universo Desconstruído, de que por mais imaginativa que seja a ficção científica, em geral ela ainda se mantém presa a valores tradicionais com que só a um grande custo consegue romper.

E esse conto rompe com a tradição, explorando o drama psicológico de uma transexual, uma viagem intimista por seus pesadelos, suas fantasias, os questionamentos sobre seu nascimento num “corpo errado” e seu ingresso resoluto num arriscado projeto científico pelo qual ela tem a possibilidade de ser quem é. Karina, na verdade, coloca a perder o referido “Projeto Sonda” ao dormir – nos braços do pai – na outra realidade, contrariando as recomendações da Dra. Mariza. Assim, ressoando O Homem-Elefante e A.I.: Inteligência Artificial, a protagonista morre se sentindo plena, em paz, tendo finalmente conquistado sua identidade e a aceitação, tão negadas em nossa cultura cisnormativa.

“Eu, incubadora”

Aline Valek nos traz uma história de tribunal e suspense em que duas personagens femininas se encontram no papel de rés. Num cenário pós-apocalíptico e distópico, após sobreviver a um imenso desastre que dizimou grande parte da população,  a humanidade instituiu que os embriões e fetos humanos são pessoas com direitos iguais aos de indivíduos adultos. Isso implica na completa criminalização do aborto, considerado equivalente ao assassinato.

Esse futuro socialmente catastrófico é uma extrapolação prognóstica da atual influência do perigoso discurso “pró-vida” e antiaborto, fomentado por igrejas cristãs e bancadas políticas evangélicas hodiernas. Esse discurso, profundamente atrelado à ideologia da submissão das mulheres e da domesticação de seus corpos, se torna, na ficção de Valek, uma realidade extremamente opressora para as pessoas do sexo feminino e especialmente para todas as mulheres grávidas.

Nessa sociedade, uma rígida hierarquia entre androides (ou Coisas) e seres humanos coloca estes como deuses aos olhos daqueles. As Coisas estão no grau mais baixo da hierarquia social, e veneram a capacidade de gerar vida dos seus deuses. Porém, a vida embrionária é considerada a tal ponto sagrada nessa sociedade que chega a ser mais importante do que a vida da mulher que a carrega no ventre.

Essa realidade constitui um paradoxo existente em nossa própria sociedade patriarcal e misógina: as mulheres se sentem privilegiadas quando estão grávidas e se dedicam à maternidade como a uma carreira que, em princípio, deveria significar a máxima realização individual. As mulheres são supervalorizadas e são bem tratadas nessa condição. Porém, não podem escolher quando engravidar, não se lhes permite abdicar de ser mães e elas têm que assumir todo o trabalho de cuidar dos filhos. Em suma, as mulheres são valorizadas enquanto forem submissas ao restringidor papel imposto a elas socialmente.

Neste cenário, Diana decide abdicar de ser mãe, transferindo seu filho não nascido para o ventre de uma Coisa. A partir daí, uma série de questionamentos é suscitada num grande julgamento, trazendo uma crise para as concepções sobre vida, aborto, liberdade individual e hierarquia social e de gênero – o conto é praticamente todo ele uma reflexão filosófica, aberta e irônica sobre estes temas. Os líderes que impõem e executam as leis dessa sociedade são todos homens, evidenciando a manutenção do controle masculino e a pouca empatia da autoridade sobre a condição feminina em situação de maternidade e de aborto. O título se refere diretamente à condição da Coisa grávida, mas também é uma metáfora para a condição de Diana e todas as mulheres reais que sofrem a violência simbólica desumanizadora de se ver como instrumentos para a procriação, meras incubadoras sem domínio de seus próprios corpos.

(De quebra, a história ainda nos apresenta uma abordagem crítica a respeito das crenças religiosas. Diferente de muitos ateus que consideram que as crenças são mero capricho sem motivação aparente, Valek cria uma fábula em que percebemos que uma religião não surge à toa e tem todo motivo para existir, mesmo que as crenças que a fundamentam sejam arbitrárias, ilusórias e possam servir à dominação de certos grupos por outros.)

“Um jogo difícil”

Leandro Leite nos apresenta Maria, ou 002-b, mais conhecida como Zero Dois, uma mulher estivadora, forte, em posição de chefia em seu setor. Ela chama atenção por ser uma heroína “feia”, diferente de grande parte das supermoças das histórias de ação, mais parecidas com romantizadas supermodelos do que com as mulheres da realidade, tão diversas em suas formas físicas.

Eticamente correta com os indigentes que buscam abrigo nos contêineres de seu setor, ela sofre o preconceito de seus colegas por não seguir o procedimento padrão, que é encaminhar esses invasores à execução. Ela é desprezada por ser “coração mole”, acusação que esconde e revela a misoginia no desprezo à empatia e à compaixão, consideradas uma “fraqueza” feminina. Essa misoginia acaba por demovê-la do cargo de chefia.

Porém, Maria descobrirá que foi demovida do cargo por muito mais do que sua “fraqueza” moral. Num mundo controlado por megacorporações, onde cada cidade é praticamente um conglomerado de empresas, intrigas, conspirações e guerras levam a desaparecimentos e mortes misteriosas. Maria se encontra na condição de bode expiatório e precisa fugir para não ser punida (com a morte) por suposto terrorismo.

Neste futuro distópico, a dominação pelo capital criou uma sociedade controlada por empresas interessadas apenas em enriquecer. A educação se esfacelou em favor de uma cultura consumista. A falta de uma estrutura educacional consistente leva à ignorância sobre conhecimentos científicos e filosóficos. Nesse contexto, todo o avanço que havia sido alcançado pelo pensamento e lutas feministas (e provavelmente de outras correntes libertárias) se perde quase totalmente. A narrativa é, portanto, um pretexto para o autor argumentar a favor da educação como meio de se cultivar mudanças sociais significativas.

Nesta sociedade que regrediu a um machismo violento, uma das únicas formas de Maria se defender do assédio dos homens é pelo uso da força bruta. Mas a violência contra as mulheres é aí bem mais séria do que a violência simbólica e física cotidianas. As mulheres são sistematicamente manejadas como coisas. A mensagem presente nos pensamento e falas de Maria reflete todo o sentido da mobilização da causa feminista, a união organizada daquelas que são as maiores vítimas do machismo.

“Memória sintética”

O conto de Camila Mateus traz as figuras de Marla, Gilvana e Kaira numa São Paulo futurista em que é comum, para os moribundos que têm dinheiro para pagar o serviço, transferir a própria mente para robôs e continuar “vivendo” depois que o corpo biológico deixa de funcionar. Esse conto, à primeira vista, não é sobre temas feministas. As protagonistas são mulheres, mas além disso é uma história policial. Porém, as diversas situações trazem à tona o tema da misoginia e revelam a que veio a autora.

Neste cenário, dois tipos de pessoa sofrem discriminação: transfers (os robôs) e as milenarmente menosprezadas mulheres. Gilvana, funcionária da empresa Skymed, contratada para jogar cadáveres num incinerador, mulher gorda, sabe bem o que é ser alvo de deboches machistas de seus colegas homens.

E não há nada mais cansativo do que essa eterna insatisfação, essa necessidade de agradar aos outros e a si mesma. Escolher entre costurar o ombro de um baleado ou usar o tempo fazendo academia. Ir a pé para o trabalho com o único tênis decente do armário, pra economizar e ajudar os pais ou gastar tudo numa cirurgia a laser para retirar as varizes e secar a barriga.

Também sabe o que sofre uma mulher pobre com poucas chances de realizar seus anseios pessoais, por ser mulher e por ser pobre.

[…] Gilvana Mara já foi mais ambiciosa, queria ser astronauta. Subir lá pros planetas pra procurar algum alien pacífico que queira trocar ideias e não aniquilar a humanidade.

Marla, por outro lado, era engenheira chefe de produção robótica da Skymed. morreu em circunstâncias misteriosas e seu transfer, ainda em processo de recomposição das memórias de sua dona, fugiu adotando o nome Kaira. Sob o ponto de vista de um transfer, Kaira vai passar por situações de preconceito e exclusão que remontam às discriminações sofridas pelas minorias humanas, tendo inclusive sua natureza senciente questionada, ou seja, sendo desumanizada. Esse é um tema crucial no conto, o questionamento sobre a natureza da consciência, a pergunta sobre se um clone com as mesmíssimas memórias que o indivíduo original pode ser considerado uma cópia de sua individualidade.

O conto nos descree um cenário em processo de mudança, tendo em vista que aos poucos os transfers vão mudando seu comportamento, exigindo autonomia e independência em relação aos donos de quem são clones. Essa gradual mudança pode ser entendida como uma metáfora do empoderamento das mulheres, que se esforçam para terem sua individualidade reconhecida e desatrelada da autoridade de um homem que a possua.

“Réquiem para a humanidade”

Este é meu conto preferido de toda a coletânea. Thabata Borine nos apresenta um pequeno drama épico, com referências (propositais ou não) a Star Trek (lembrei do episódio O Demônio na Escuridão), ao jogo The Dig, ao filme Independence Day e ao universo de O Guia do Mochileiro das Galáxias. Tudo se encaixa bem na complexa trama, e a miríade de referências não torna cansativa nem confusa a narrativa.

O conto é narrado em primeira pessoa por um personagem misterioso. Não sabemos detalhes sobre sua identidade e ficamos apenas imaginando qual é a cara dessa pessoa, até que uma sutil reviravolta na trama nos faz perceber a razão de vários dos acontecimentos que se passaram ao longo da história. Essa revelação na verdade fica relativamente fácil de adivinhar pelo fato de o conto ser um dos últimos do livro. Penso que a experiência mind-blowing desse conto seria mais eficaz se ele fosse o primeiro ou um dos primeiros da coletânea, pois a leitura dos contos anteriores já prepara o leitor antecipadamente.

Numa missão a outro planeta, descobrem-se evidências de uma forma de vida inteligente extraterrestre. Com muitas dificuldades, a pessoa responsável por essa pesquisa consegue recursos do governo para prolongar a investigação a outros planetas, onde provavelmente há mais evidências arqueológicas que levarão à descoberta da identidade e da história desse povo misterioso que não deixou mais do que alguns vestígios de sua existência. O motivo do desaparecimento dessa espécie, apelidada de glieseanos, leva a crer que, se a humanidade não mudar certas coisas em sua conduta ética e sua estrutura social, especialmente no que tange à discriminação das minorias sociais, ela terá o mesmo fim.

A mensagem secreta dos glieseanos há muito desaparecidos e do conto de Borine é que, se permanecer a estrutura de dominação baseada em diferenças de gênero, identidade racial, classe econômica e sexualidade, acabaremos por minar nossos esforços evolutivos enquanto espécie em busca de um futuro melhor.

“Cidadela”

Duas personagens femininas protagonizam esse conto escrito por Lyra Libero. Irina trabalha numa cozinha industrial do governo, é pobre e vive numa das cidades satélites ligadas à Cidadela. Luísa é uma rebelde que trabalha fora da lei, uma espécie de espiã e gatuna. Ambas vivem num mundo distópico controlado por uma junção de Estado e Igreja, uma teocracia que se fundou a partir da reconstrução de uma sociedade destruída por uma praga. Nessa reconstrução, o papel das mulheres foi relegado ao de receptáculos de fetos, e elas perderam totalmente o poder sobre seus corpos, sendo a gravidez uma decisão dos homens e todos os filhos são criados pelo Estado para servir à Coletividade, que mais parece uma colmeia de abelhas do que uma sociedade humana.

Neste cenário pós-apocalíptico, constituiu-se um forte patriarcalismo, em que praticamente todos os líderes são homens e no qual as mulheres desempenham papéis subalternos. É notório, por exemplo, que na cozinha onde Irina trabalha só haja funcionárias mulheres. Vem à tona uma crítica à forma como se têm feito as revoluções ao longo da história humana, sempre se desviando de seus ideais originais e mantendo alguma forma de opressão. Neste caso, a opressão às mulheres.

Outra consequência nefasta desse neopatriarcalismo é constituição de uma literal cultura do estupro, em que qualquer violência masculina contra mulheres é friamente tolerada e qualquer gravidez advinda dessa violência é protegida pelo Estado, sendo o aborto proibido. Há uma séria crítica ao modelo democrático vigente na atualidade, quado a autora enfatiza que na Cidadela qualquer tipo de privilégio é proibido por Lei, mas isso não impede que aqueles que já detêm os privilégios os mantenham sem receber quaisquer punições.

A história lembra muito o conto de Valek, “Eu, Incubadora”, dessa mesma coletânea. Mas aqui vemos fortes elementos orwellianos, especialmente em duas figuras vigilantes, dois big brothers, o Ministro e o Pastor (a descrição deste é uma referência ao infame Marco Feliciano). Há uma forte crítica à atual ameaça contra a laicidade do Estado. Neste cenário hipotético, ressurgem inclusive práticas inquisitoriais, tendo como principais vítimas as mulheres, ressoando a medieval caça às bruxas. Tendo em seu cerno o tema do estupro, da gravidez não consentida e do aborto, Libero traz ao leitor uma reflexão sobre os sentimentos de uma vítima:

Como poder amar um fruto de violência, uma lembrança brutal de violação, patrocinada por um governo que dizia que mulheres eram inferiores e incapazes de decidir sobre seus corpos? Quem poderia culpar aquela pobre moça do Satélite 5 por não querer o fruto do seu ventre?

“Projeto Áquila”

Temos aqui um relato de Isabel Andrade, uma mulher duplamente aprisionada. A autora, Gabriela Ventura, fazendo uma referência ao saudoso filme O Feitiço de Áquila (Ladyhawk), conta a história de um casal que, por circunstâncias trágicas, passa a não conseguir se encontrar, pois uma só está desperta quando o outro está dormindo.

Isabel decidiu ser cientista ainda quando era criança, e acabou por se formar em Neurociências e se tornar uma grande referência na área. Em seu trabalho, contratou o colega Ricardo Oeiras, com quem formou uma parceria profissional e posteriormente conjugal. Os dois juntos se empenharam na pesquisa de Isabel, que visava encontrar uma forma de reverter a perda de memória dos pacientes do Mal de Alzheimer, sofrido pela falecida mãe da cientista. Porém, discordâncias entre Isabel e Ricardo, além de um acidente, colocam-na numa prisão, para que ela o ajude em outra pesquisa chamada Projeto Áquila.

Isabel consegue denunciar os atos de Ricardo, mas ela não se resume apenas a delatar seu crime e assegurar sua punição. É importante para ela fazer ouvir sua voz, se visibilizar enquanto indivíduo. Neste sentido, podemos entender sua necessidade como uma metáfora da urgência de as mulheres serem reconhecidas enquanto dotadas de individualidade e independência, e não meras sombras invisibilizadas pelos homens.

Além disso, a situação de Isabel ecoa metafórica e indiretamente dois outros temas importantes dentro das questões de gênero: o reconhecimento da feminilidade (ou seja, dos traços que nossa cultura identifica como femininos mas que podem estar presentes em qualquer indivíduo de qualquer sexo e/ou gênero) nos homens por eles mesmos; e a transexualidade, com o drama daqueles que se sentem descolados, num corpo errado e numa identidade de gênero inadequada.

Fundamentalmente, Ricardo é a figura do homem manipulador que coloca seus próprios interesses acima daqueles de sua companheira, seguindo a lógica androcêntrica tradicional pela qual o casal heterossexual se foca na realização dos planos do marido enquanto a esposa é uma reles coadjuvante. Neste contexto, predomina o sentimento de possessividade do homem sobre a mulher, disfarçado de romantismo, e o cativeiro doméstico da esposa, tido como obrigação conjugal. A mulher que desobedece essas obrigações é demonizada pela misoginia. Assim, os esforços de Isabel para inviabilizar o Projeto Áquila representam os esforços para se acabar com os instrumentos que servem à dominação das mulheres pelo machismo, objetivando o empoderamento e a autonomia feminina.

Aonde nenhuma mulher jamais esteve

Apesar de toda a admiração que pude aqui manifestar, penso ser oportuno mencionar uma pequena crítica de caráter puramente técnico. A versão para Kindle, que foi a que li, poderia ter sido melhor diagramada. Há uma linha em branco entre cada parágrafo, o que me incomodou um pouco, tendo em vista que os parágrafos já estão marcados pelo recuo na primeira linha. Teria ficado mais elegante e agradável em termos de design a exclusão dessas linhas em branco. Ademais, com a exceção de três ou quatro dos dez contos, em geral faltou uma ostensiva revisão do texto. Acho que a obra se valorizaria bastante se se atentasse para esses dois detalhes, embora não sejam nenhum impedimento para a leitora e o leitor apreciarem a coletânea. Fica a sugestão para uma possível reedição e para os próximos volumes da série.

Mas, em suma, a coletânea representa um novo fôlego para os esforços de se constituir uma ficção científica socialmente mais crítica, trazendo uma perspectiva feminista e libertária ao evidenciar protagonistas mulheres, bastante diversas entre si e bem diferentes dos usuais padrões homogeneizantes que as confinam a papéis decorativos ou que apenas servem de objeto motivador para heróis masculinos heterossexuais. É também uma tentativa de apresentar histórias mais inteligente e menos blockbuster do que a média. Representa ainda o fortalecimento e a valorização da soft sci-fi brasileira, que fomenta muita reflexão sobre nosso universo presente, desconstruindo-o para reconstruir o futuro.

O paradoxo da misoginia

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Em nossa cultura, o sexo das pessoas e suas respectivas identidades sexuais preconcebidas são objeto de controle e coerção. Os XY são coagidos a serem machos/homens/masculinos, enquanto as XX são coagidas a serem fêmeas/mulheres/femininas, com todo um conjunto de comportamentos, trajes, parafernália e ocupações pré-estabelecidos.

Embora muita coisa já tenha mudado, em muitas instâncias de nossa vida cotidiana essa estrutura sexista se mantém forte, e a paradoxal misoginia continua a existir em pequenos gestos coercitivos de desprezo ao feminino e às mulheres que fogem dos ditames da feminilidade.

Boys will be boys

Nesse universo, a satisfação da sociedade e dos indivíduos que conservam o status quo dessa sociedade se dá quando cada membro da comunidade se encaixa perfeitamente nesse esquema “ditado pela natureza” ou “concebido por Deus”. Se mulheres e homens não se adequarem, a ordem do universo estará comprometida e os “sinais do fim do mundo” se mostrarão bem claros.

Nossa tradição sexista só encontra contentamento na adequação dos indivíduos às identidades e aos papéis preparados para eles, segundo a presença de um pênis ou de uma vagina. Uma mulher se realiza de forma “natural” quando usa vestido e maquiagem, cuida da casa e dos filhos e se entrega aos caprichos do marido, “pela graça de Deus”. Do mesmo modo se espera dos homens que sejam “masculinos”, vestindo calças, provendo a família e explicitando sua heterossexualidade.

A costela de Adão

Mas, ao mesmo tempo, o feminino pende desigualmente na balança com o masculino. As qualidades que formam um ser humano moralmente ideal e superior são geralmente as características do homem/masculino ideal: coragem, assertividade, liderança, competitividade, autonomia, foco, senso de direção etc. Não é à toa que o termo virtude provém do latim vir, significando “homem” (pertencente ao sexo masculino e não o ser humano em geral). As características tradicionalmente atribuídas à mulher/feminina não são valorizadas em si mesmas. Vaidade, passividade, dependência, submissão, superfluidade, emocionalismo e atenção dividida não são virtudes em seu sentido próprio e não são consideradas qualidades nobres.

Não é por acaso que a mulher que tenciona uma carreira independente e toma decisões sem submeter o rumo de sua vida a outro é acusada de ser muito ambiciosa, “querer demais”. Porém, o homem que não tem ambição, que se satisfaz na posição de dono-de-casa, não confraterniza com outros homens torcedores de um time e/ou não se sente atraído sexualmente por mulheres é rebaixado à condição de sub-homem, como se a feminilidade o diminuísse. A mulher/masculina é um excesso, “quer ser mais do que é”; mas ao homem/feminino falta algo, é um doente que tem que ser “curado”.

Isso explica a misoginia. Quando uma mulher é feminina, ela é colocada numa posição “naturalmente” inferior. “Você não passa de uma mulher”, canta Martinho da Vila. Paradoxalmente, “o melhor é que a mulher seja feminina, assim é que se pode aceitá-la”; mas se ela for feminina ela será inevitavelmente rebaixada. Sensibilidade e vaidade não são consideradas virtudes humanas nobres, então a mulher não seria tão humana quanto o homem (masculino).

Entretanto, se a mulher foge dessa camisa-de-força, o perigo está à solta. A violência simbólica (e em tantos casos a violência física) é ativada para colocá-la “em seu lugar”. Nessas situações o medo de bruxas acomete os conservadores, pois é um perigo para a ordem social androcêntrica ter mulheres tomando decisões, afinal, supõe-se que elas são destituídas naturalmente da capacidade de julgar e discernir. Sua “natureza” é se postar de diante de um espelho com um pente na mão e um batom na outra, e ela mesma não será feliz se não se entregar à “futilidade” que faz parte de seu âmago.

Então, se é para manter as mulheres “em seu lugar”, se é mais adequado que elas sejam femininas, o paradoxo da misoginia aparece novamente. Pois é sendo femininas, como está em sua “natureza”, que elas encarnam o papel de demônios sedutores, capazes de dominar o coração e (pior) a cabeça de um homem, destituindo-o de sua autonomia, “tirando seu sossego”, “mexendo com seu juízo”. Tanto a esposa-mãe quanto a amante-prostituta (dois extremos do confuso espectro das identidades femininas) têm o poder de domesticar um homem, seja pela chantagem emocional, seja pelos decotes e minissaias, entendidos como principais culpados pelo descontrole sexual dos estupradores.

As mulheres que, por algum motivo, não conseguem se enquadrar no moldes instituídos da beleza feminina também sofrem por não poderem ser aceitas como mulheres completas, e o desprezo pela “mercadoria defeituosa”, que não tem condições de competir no mercado de corpos, é profundamente sentido pela alma vilipendiada. O que paradoxalmente poderia ser uma libertação para elas, mas as que agradam aos consumidores desse mercado é que se sentem felizes por ser objeto da possessividade dos homens.

Exemplos de misoginia

Muitos homens não entendem o que é a misoginia, pois simplesmente pensam no sentido mais próprio da palavra, como sinônimo de ginofobia, medo de ou aversão à mulher (o que às vezes é atribuído, por exemplo, à aversão dos homossexuais pelo sexo feminino, mas não a um homem heterossexual que gosta de mulheres). Com base no que foi dito acima, eis alguns exemplos de comportamento misógino por homens (e em vários casos mulheres) heterossexuais, ainda muito comuns:

  • O medo de “perder o controle” diante de uma mulher gostosona vestindo uma microssaia e a consequente atribuição da pecha de “puta” a essa mesma mulher, o que se constitui num mecanismo de defesa para o homem se eximir da culpa e da pecaminosidade, atribuindo-as ao seu objeto de desejo; “Eu odeio essas mulheres que usam decote só para a gente olhar e ficam com raiva quando a gente olha!”;
  • A aversão a mulheres que não se encaixam no modelo ideal de feminilidade, especialmente quando são “feias”, embora elas mesmas não tenham nenhuma dúvida sobre sua identificação como mulher e não tenham nenhum traço “masculino” de personalidade; “Mulher de bigode nem o Diabo pode”; o desprezo a essas mulheres se acentua com o imperativo de que a mulher “tem que se cuidar” e de que “não existe mulher feia, mas mulher que não se cuida”; pouco se admite a possibilidade de um homem heterossexual gostar de uma mulher “feia”, como se este gosto fosse errado, o que fortalece ainda mais a pressão para as mulheres serem “bonitas”, sob pena de “não encontrarem um namorado” e consequentemente não serem felizes;
  • A antipatia pela esposa exigente que reclama das aventuras sexuais do marido e se torna uma “megera” a infernizar sua vida, nela recaindo toda a culpa pelos problemas do relacionamento, como se sempre só fosse a mulher a responsável por “complicar” tudo;
  • O rancor declarado pela “ex-amiga” que não quis sair dos limites da “zona de amizade” (“friendzone”), como se o fato de ele sentir atração sexual por ela fosse motivo suficiente para ela sentir o mesmo por ele; a imagem de femme fatale (“mulher fatal”) que recai sobre ela e consequentemente sobre todas as outras mulheres, supostamente propensas a brincar com os sentimentos de “caras legais como eu” e se entregar a “babacas como ele”;
  • A raiva contida pela mulher que se destaca no emprego, superando seus colegas homens, alguns dos quais se acham desonrados e emasculados por terem sido colocados para baixo por um ser humano do sexo feminino; a vontade de se vingar dessa mulher por tê-lo colocado numa condição “inferior”;
  • A raiva que muitos homens têm das feministas e o medo de que as ideias do Feminismo sejam adotadas pela sociedade; a alcunha pejorativa de “feminazis” a todas a mulheres que desejam ter os mesmos direitos dos homens; a indignação desses homens sob a justificativa de que as reivindicações feministas são “besteira”, refletindo o próprio estereótipo de que as mulheres só pensam em coisas fúteis e ou não merecem atenção ou merecem uma punição física.

As mulheres sofrem quando assumem o papel que se espera delas, pois este implica em menos liberdade de escolhas para ela, e sofrem quando fogem desse papel, pois são constrangidas a repensar sua adequação e fidelidade a um ideal de feminilidade “natural” . É claro que muita coisa mudou, mas isso não significa que essas manifestações de misoginia tenham se extinguido. Antes, significa que há aqueles que já não vivem na mentalidade dos séculos passados e que há muita gente (mulheres e homens) que não manifesta seus preconceitos e/ou procura superá-los.

Pelo que luta o Feminismo?

Então, pelo que luta o Feminismo? Pela subjugação dos homens pelas mulheres? Por uma ditadura matriarcal? Por um mundo em que as mulheres não usem maquiagem? Por uma sociedade cor-de-rosa?

O Feminismo luta por muitas coisas, mas com certeza ele não quer que o sexismo se inverta, criando uma sociedade ginocêntrica; nem que os homens sejam impedidos de assumir cargos de poder; nem que as pessoas sejam obrigadas a abandonar os papéis de gênero tradicionais; nem que se crie uma sociedade homogênea em que cada gesto e pensamento seja patrulhado em favor de uma ordem misândrica.

O Feminismo propõe uma sociedade diferente, onde as pessoas sejam mais livres. Em que as mulheres possam ser “femininas” sem serem menosprezadas por isso, ou que sejam “masculinas” sem se sentir culpadas, e onde também os homens sejam livres para fazer as mesmas escolhas. Em suma, é pela liberdade individual de ser quem é e de escolher ser quem quer que seja que o Feminismo e qualquer movimento social libertário luta.

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Princesa, heroína e guerreira: Valente

Padrão

A respeito da resenha de Thiago Leite sobre o filme Valente, considero que houve um equívoco crasso quando se categorizou a Valente princesa Mérida como transexual, “guerreiro em corpo de mulher / herói em corpo de princesa”, pois existe uma diferença abissal entre ser transexual, ou seja, pessoa com transtorno de identidade de gênero, que não aceita o próprio sexo biológico e sofre com isso, e ser uma pessoa simplesmente inconformada com seu papel social de gênero. E sinto que este tipo de confusão, se perpetuada, seja um desserviço tanto para as mulheres inconformadas com um papel social que as oprime e reprime, quanto para os transexuais, que sofrem muito pela não aceitação de seu sexo biológico.

Mérida se ressente de seu papel social opressivo de mulher, de não poder correr livre em seu cavalo, de não poder usar seu talento como arqueira em competições, de não poder lutar por si mesma. Não vemos a Valente princesinha Mérida exibir sofrimento intenso por seu sexo biológico de mulher, nem mesmo quando o filme a mostra sozinha e livre para fazer o que deseja. Pelo contrário, não a vemos tentando extirpar seus seios ou mesmo disfarçá-los com faixas apertadas, leva seus cabelos vermelhos revoltos ao vento sem cortá-los ou trançá-los, não usa calças, usa vestidos longos e sente-se confortável com eles, usando-os até para escalar montanhas. Vale lembrar que cabelos longos, principalmente vermelhos, são forte símbolo de feminilidade e que cabelos longos, brilhantes e saudáveis são sinais de fertilidade e saúde, logo a feminilidade de Mérida é pontuada através destes símbolos adequados à cultura ocidental, principal público-alvo da Pixar, desde as primeiras cenas do filme. Mérida é menina e moça, guerreira, heroína e princesa.

Eis algumas definições tiradas do ótimo artigo “Transexualismo Masculino”, de Amanda V. Luna de Athayde , artigo este que recomendo fortemente ler:

Gênero: é o que o ser humano se torna sexualmente, seja homem ou mulher.

Identidade de gênero: é a convicção interna de feminilidade ou masculinidade.

Papel de Gênero (gender role): é o estereótipo social do que é masculino e o que é feminino.

Desordens [transtornos] de Identidade de Gênero: é quando existe uma discordância entre o sexo biológico e sua identidade de gênero, entre as quais se encontra o transexualismo.

O transexual não se opõe apenas ao papel social que lhe é imposto como homem ou mulher, ele realmente sofre desesperadamente por ter o sexo biológico que tem e em muitos casos tenta até se mutilar para tentar fazer seu corpo se parecer mais com o sexo com o qual se identifica. Moças biológicas, mas transexuais masculinos, podem tentar arrancar os seios e meninos biológicos, mas transexuais femininos, podem tentar arrancar o pênis, por isso é tão importante diagnosticá-los cedo e encaminhar para cirurgia de mudança de sexo, para evitar que sofram desnecessariamente e até possam se mutilar…

O transexual geralmente tem extrema antipatia, aversão mesmo, ao próprio genital e aos caracteres sexuais secundários, como seios, barba, músculos ou a falta deles etc. Às vezes o transexual prefere ficar sem atividade sexual, extirpando o pênis, por exemplo, para se parecer com o sexo com que se identifica, do que ter alguma atividade sexual com seu genital. A atração sexual para eles é secundária, várias vezes muito baixa, o problema real é o desgosto com o próprio sexo.

Eis a definição do CID-10 sobre Trasexualismo:

F64.0 Transexualismo
Trata-se de um desejo de viver e ser aceito enquanto pessoa do sexo oposto. Este desejo se acompanha em geral de um sentimento de mal estar ou de inadaptação por referência a seu próprio sexo anatômico e do desejo de submeter-se a uma intervenção cirúrgica ou a um tratamento hormonal a fim de tornar seu corpo tão conforme quanto possível ao sexo desejado.

Sugiro o excelente documentário Meu Eu Secreto, sobre crianças transexuais, para melhor compreensão do transexualismo, que quase nada tem a ver com atração sexual:

Também sugiro assistir ao ótimo filme Transamerica, com a excelente Felicity Huffman, onde podemos ver, entre outros casos, um transexual masculino e um transexual feminino apaixonados depois da cirurgia para troca de sexo.

Sobre Mérida ser heterossexual ou homossexual, também não é este o ponto central da história e não vemos a princesa exibir atração, seja pelo sexo oposto, seja pelo sexo similar ao seu, nem por rapazes, nem por moças, pois é muito jovem, aparenta ter entre 14 e 15 anos, não a vemos suspirar por ninguém e o foco do filme foi a relação entre Mérida e sua família, principalmente sua mãe, a rainha reprimida e submissa ao seu papel social de gênero e que, apesar de amar e ser muito carinhosa com Mérida, tentava impor a ela sua própria repressão e submissão ao papel social de princesa e mulher. Mérida diz que ainda não está pronta para casar e podemos apenas ver que despreza as bravatas do primogênito Macintosh, mostra uma pontinha de interesse pela força do primogênito de MacGuffin e junto com toda sua familia mostra surpresa e admiração com o “guerreirão” que à primeira vista parece ser o primogênito do Clã Dingwall, e que se desaponta com o verdadeiro filho de Dingwall, como pode ser visto neste trecho do filme disponibilizado no Youtube:

A rainha era uma mulher extremamente forte, poderosa, porém rigidamente reprimida e resignada ao seu papel social, usando o poder que tinha somente dentro das limitações deste papel, sendo emblemática a conversa que tem com o pai de Mérida quando este tenta lhe ajudar a falar com a filha e se espanta quando ela deixa escapar, como se falando com Mérida, que ela também, apesar de estar agora bem casada, teve seus receios ao ser obrigada a casar, mas acabou casando e ficou tudo bem.

A jornada desta mãe e desta filha para a desrepressão é o foco do filme, Mérida aproveita as lições da mãe quando necessário, usando sua presença feminina e porte ao cruzar o pátio cheio de guerreiros brigões, fazendo-os parar de brigar com sua majestosa presença, impostando sua voz ao fazer seu discurso, como sua mãe lhe ensinou e, divertidamente, usando a técnica do pai, gritando para fazê-los parar de falar quando quer. Mérida aceita e utiliza tanto as lições da mãe quanto as do pai para conseguir seus objetivos.

Interessante notar que o pai de Mérida a apoia e, naqueles tempos tão perigosos, diz que “lutar é fundamental, não importa se ela é uma lady ou não”.

Vemos este paizão apoiando Mérida ao longo de todo filme e neste clip da Pixar, disponível no Youtube, vemos como ele dá a Mérida lições de esgrima, escondido da mãe.

Os irmãos de Mérida a admiram, como pode ser visto no trecho onde ela conta que bebeu água na Cascata de Fogo e a ajudam ao longo da história.

Também é interessante ver que Mérida não se amedronta frente aos outros guerreiros e ao pai, enfrentando-os e até cruzando espadas com o pai e impedindo-o de machucar a mãe-ursa. Quantas meninas, héteros perfeitamente identificadas com seu sexo biológico, não sonham a mesma coisa ao serem ameaçadas e/ou verem seus entes queridos, inclusive suas mães submissas sendo ameaçadas/espancadas por este mundo afora?

Mulheres inconformadas com a imposição social de seu papel de gênero não são necessariamente homossexuais e muito menos transexuais, muitas de nós somos mulheres heterossexuais e gostamos muito de nosso próprio sexo biológico – e mais ainda de nossa capacidade de termos orgasmos múltiplos, só quem já sentiu sabe como é bom – e nos sentimos atraídas pelo sexo oposto. “Cheiro de homem” nos encanta e excita. Queremos ter a liberdade de, além de fazer sexo com nosso “príncipe encantado”, poder viver, trabalhar e até lutar ao lado dele. Queremos ter os mesmos direitos e deveres de nossos parceiros, não sermos nossos parceiros.

Não dá para saber se a Valente Mérida é heterosexual ou homosexual, pois isso não fica claro no filme, o foco é a relação dela com a mãe e a sociedade machista e repressora, mas dá para saber que ela é uma mulher, não um transexual, e que está inconformada com seu papel social de gênero, não quer ser reprimida e resignada a seu papel social de mulher, como a mãe, mas livre para cavalgar e usar arco e flecha ou espadas, subir em montanhas e o que mais quiser.

Para pensar: geralmente quando uma mulher heterossexual tenta se insurgir contra o seu papel de gênero socialmente imposto (redundância proposital), uma das violências que sofre é a tentativa de lhe atribuírem estigmas que não lhe são realistas, como ser homossexual ou transexual. Ela não quer se submeter a seu papel de mulherzinha, então tentam lhe roubar a própria feminilidade, caluniando-a com o estigma homossexual / transexual que não lhe pertence.

É nesse ponto que identifico o desserviço a nós mulheres e aos transexuais, pois a resenha inicial sobre Valente reduz o sofrimento destes ao simples inconformismo com o papel de gênero e nos rouba a possibilidade de sermos mulheres héteros, femininas e valentes inconformadas ao papel de gênero.

Várias mulheres ao longo da história mereceram o título de “guerreira” e não “guerreiro”, como por exemplo: Joana d’Arc, Anita Garibaldi, Joana Angélica, e mais diversas, entre as quais uma lista pode ser vista aqui, o de “heroína” e não “herói”, como Amélia Earhart, Rosa Parks, Eva Perón, Aung San Suu Kyi e tantas outras. Além disso, também existem os termos “pioneira” para designar mulheres como Marie Curie, Chiquinha Gonzaga, Ada Lovelace, Florence Nightingale etc., sem contar as mulheres identificadas ao longo da história com os termos “lutadora”, “desbravadora”, “escritora”, “autora”, “professora”, “astrônoma” etc. Interessante notar que “Valente” admite ambos os gêneros.

Repetindo-me propositalmente: Mérida não tem problemas com seu corpo, até quando escala montanhas e está sozinha ela não dá qualquer demonstração de não aceitá-lo. Ao contrário, sua feminilidade é enfatizada por usar vestidos longos sempre, até cavalgando e escalando, e ter seus longos cabelos esvoaçando ao vento. O filme é muito feliz na sutileza com que aborda o não conformismo, tanto de Mérida com seu papel social, quanto de sua mãe, com o corpo de ursa. Penso que é um filme que ajudará gerações de crianças, tanto héteros quanto homo e transexuais a serem mais assertivas em suas vidas e terem a noção de que podem sim serem diferentes, que não precisam se submeter ao que a sociedade lhes impõe.

O prêmio de Mérida ao final do filme não é o príncipe encantado, é a liberdade de ser quem ela é.

Eis mais algumas definições, a grosso modo, só para esclarecer um pouco mais as diferenças e semelhanças sobre a diversidade sexual e de comportamento que há por aí:

  • Heterossexual é a pessoa que se identifica com o próprio sexo biológico, gosta de ser homem ou mulher, gosta de ter o próprio genital, gosta de seus caracteres secundários (barba, seios etc.) e sente atração sexual e emocional pelo sexo oposto ao seu. Pode ou não se conformar com seu papel de gênero e, no caso de não se conformar, participar de movimentos feministas, por exemplo.
  • Homossexual é a pessoa que se identifica com o próprio sexo biológico, gosta de ser homem ou mulher, gosta de ter o próprio genital, gosta de seus caracteres secundários (barba, seios etc.) e sente atração sexual e emocional pelo mesmo sexo que o seu. Pode ou não se conformar com seu papel de gênero e, no caso de não se conformar, participar de movimentos feministas, por exemplo.
  • Bissexual é a pessoa que se identifica com o próprio sexo biológico, gosta de ser homem ou mulher, gosta de ter o próprio genital, gosta de seus caracteres secundários (barba, seios etc.) e sente atração sexual e emocional tanto pelo sexo oposto quanto pelo mesmo sexo que o seu. Pode ou não se conformar com seu papel de gênero e, no caso de não se conformar, participar de movimentos feministas, por exemplo.
  • Transexual é a pessoa que não se identifica com seu sexo biológico, desejando ter o genital do sexo oposto e ser do sexo oposto, não importa o tipo de atração sexual que sente, ou se sente. Seu sofrimento é muito maior do que a simples inconformação com um papel social de gênero ou do que simplesmente sentir-se atraído por pessoas do próprio sexo.
  • Travesti é a pessoa que veste roupas do sexo oposto, seja temporariamente, seja por longo tempo, o objetivo é a excitação sexual. O travesti pode gostar muito do próprio genital, de ter um pênis, sendo atraído por homens ou por homens e mulheres. Não confundir com travestismo transexual, quando o transexual veste roupas do outro sexo por identificar-se com ele. O travesti tem forte impulso sexual, o transexual geralmente não tem impulso sexual forte.
  • Crossdresser é a pessoa que se veste como o sexo oposto, seja por que motivo for, apenas por brincadeira, por profissão, por gostarem etc. O rapaz que usa saia como curiosidade e protesto social, mas é homem hétero e gosta de mulher, é/está crossdresser. Mulan, outra forte princesa Disney, foi crossdresser por necessidade, para proteger o pai disfarçou-se de homem e entrou no exército, mas nunca deixou de ser mulher e, no caso, bem mostrado no filme, heterossexual.

Sugiro ver este link da Wikipédia para entender mais sobre travestismo, pois há muito mais diversidade do que imaginamos e esta página tem alguns exemplos e definições ótimos.

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