O sonho lúcido de Roquia

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O século XIX pode ser considerado o berço da Ficção Científica. De acordo com Isaac Asimov, na Introdução a Imortais: o Melhor da Ficção Científica do Século XIX,

a verdadeira ficção científica, por sua moderna definição (ou, pelo menos, minha moderna definição), não poderia ter sido escrita antes do século XIX, pois foi somente com a chegada da Revolução Industrial, nas últimas décadas do século XVIII, que a velocidade da mudança tecnológica se tornou grande o bastante para ser notada durante uma vida – naquelas áreas do globo afetadas por essa revolução.

De fato, foi nesse âmbito cronológico que surgiram autores pioneiros como Mary Shelley (provavelmente a mãe da Ficção Científica), H. G. Wells (ambos na Inglaterra) e Júlio Verne (na França). Suas obras, produzidas entre meados do século XIX e início do século XX, são referências e influências eternas na produção literária posterior e na maioria dos autores contemporâneos de Ficção Científica, mesmo que indiretamente. Mas é notório que estes autores, entre outros da mesma época, como Edgar Allan Poe (EUA), E. T. A. Hoffmann (Alemanha), Sir Arthur Conan Doyle (Inglaterra) e Guy de Maupassant (França), sejam todos originários de nações imperialistas e são quase todos homens. É muito difícil vermos escritores de Ficção Científica, na mesma época, advindos de povos colonizados, mesmo que a estes tenha sido imposta uma economia baseada na mesma tecnologia que impulsionou a Revolução Industrial nos países colonialistas.

Por isso é tão pertinente falar sobre Roquia Sakhawat Hussain (1880-1932), ativista social, escritora, muçulmana, nascida em Bengala (que atualmente se constitui numa região da Índia). Mas não apenas porque ela representa a voz do colonizado ou porque era uma mulher. Ela era uma feminista, e uma escritora feminista, e provavelmente a primeira escritora de ficção científica feminista.

A primeira tradução do conto de ficção científica feminista O Sonho da Sultana para o português foi feita por Lady Sybylla em 2014, como parte do projeto Universo Desconstruído, que começou com uma coletânea de contos inéditos. Ele está disponível gratuitamente em formato ebook e a edição impressa pode ser comprada no Clube de Autores. É com base nessa tradução, editada e revisada por Aline Valek (que também fez a belíssima ilustração da capa) que faço esta resenha.

O Sonho da Sultana

O conto O Sonho da Sultana (Sultana’s Dream) foi escrito em 1905. Também considerado um escrito satírico, é a primeira narrativa de ficção científica feminista de que se tem notícia. Seguindo a esteira da literatura europeia, tem muitos elementos que lembram os autores supramencionados, mas traz ideias inovadoras para a literatura de então, principalmente no que tange à crítica das relações de gênero da sociedade patriarcal em que viveu e na qual muitas mulheres ainda vivem, no Oriente e no Ocidente.

A história, narrada em primeira pessoa, se passa durante o sono da personagem título. Como se Sultana estivesse experimentando um sonho lúcido ou uma experiência-fora-do-corpo que a levou para outra dimensão, ela faz a seguinte observação:

Não tenho certeza se cochilei. Mas, pelo que me lembro, estava bem acordada.

Esse trecho é bem revelador sobre aquilo de que se trata o conto. Ela descreve cenas que se passam em um sonho e num mundo fantástico, ou seja, que são fictícias. Porém, ela não está passiva nesse sonho, pois, como num sonho lúcido, não apenas se dá conta do que está acontecendo como também aponta, sutilmente, que está “bem acordada” para a realidade que ela pretende desconstruir com sua narrativa. A mensagem dela aqui é a de que, por trás da aparência de um “sonho”, de uma ficção, revela-se uma verdade.

Nesse sonho, Sultana se encontra com Irmã Sara, uma habitante da TerraD’Elas, um lugar utópico em que todos os conflitos sociais e males naturais foram sanados e contidos. Além disso, os habitantes dessa terra guiam-se por uma religião baseada no Amor e na Verdade, levados às últimas consequências num exemplo prático de ética. O uso da utopia como tema dessa história serve, na narrativa de Roquia, para evidenciar os problemas reais de seu tempo e de sua cultura. Nos diálogos entre Sultana e Sara, vai se revelando uma crítica à violência, simbólica e física, a que estão sujeitas cotidianamente as mulheres numa sociedade patriarcal.

(…) não é seguro enquanto há homens perambulando pelas ruas, assim como também não é seguro quando um animal selvagem entra num mercado.

Sara ajuda Sultana a desconstruir essa violência com metáforas perspicazes que evidenciam a arbitrariedade da dominação masculina, que é mostrada aqui como uma construção social e não como um dado natural.

– Não temos voz alguma na gestão dos nossos assuntos sociais. Na Índia, o homem é nosso senhor e mestre. Ele tomou para si todos os poderes e privilégios e trancou as mulheres na zanana.

– Por que vocês se deixam trancafiar?

– Porque não podemos nos ajudar se eles são mais fortes que as mulheres.

– Um leão é mais forte que um homem, mas isso não permite que ele domine a raça humana. Vocês têm negligenciado os direitos que devem a si próprias. Perderam seus direitos naturais, fechando os olhos aos seus próprios interesses.

Nessa utopia matriarcal em que mulheres governam e homens são confinados ao ambiente doméstico, estes são apresentados como providos de uma tendência antiética, mais movidos pelos instintos do que pela razão. A própria evolução dessa sociedade fantástica só foi possível graças à liderança das mulheres, consideradas mais sensíveis e ponderadas, e à restrição das ações dos homens, causadores de confusão e conflito. É uma provocação instigante, pois inverte uma noção muito comum nas sociedades patriarcais, que é representar a mulher como mais volúvel, sujeita à imprevisibilidade de sua índole, mais próxima à natureza indomada, enquanto os homens são vistos como mais próximos de um ideal transcendente, com um caráter mais cultivado (mais próximos da cultura) e conduta menos inconstante.

A narrativa de Roquia revela, sob uma leitura acurada, que essas representações das identidades de gênero são repletas de contradições que podem ser usadas para desconstruir a si próprias. Ao mesmo tempo, ao criticar a conduta dos homens, descrevendo-os como belicosos e irascíveis, ela aponta para o fato de que a posição privilegiada do sexo masculino se faz pelo uso de uma violência institucionalizada, sendo esta, e não uma suposta força natural, o que os mantém no poder das relações de gênero.

Os elementos reconhecíveis como próprios de uma ficção científica começam a se mostrar quando Sultana indaga Sara sobre seus hábitos cotidianos.

– Como você cozinha? – perguntei.

– Com a luz solar – disse ela, ao mesmo tempo, mostrando-me o tubo por onde a luz solar concentrada era conduzida. E ela cozinhava algo aqui e ali para mostrar o processo.

Delineia-se então um cenário futurista de alta tecnologia em que a luz solar e a água da chuva são utilizadas da forma mais eficiente e versátil que se possa conceber. Mas esse cenário não é jogado para o leitor como um paraíso pronto que surgiu espontaneamente. Sara conta a Sultana toda a trajetória histórica que levou à constituição da TerraD’Elas.

– Deixe-me contar um pouco da nossa história. Trinta anos atrás, quando nossa atual rainha tinha treze anos de idade, ela herdou o trono. Era rainha apenas no nome, o primeiro-ministro é que realmente governava o país. Nossa gentil rainha gostava muito de ciência. Ela baixou um decreto dizendo que todas as mulheres em seu país deveriam ter educação formal. Assim, um grande número de escolas para meninas foram fundadas, apoiadas pelo governo. A educação espalhou-se entre as mulheres. E o casamento precoce foi interrompido. Nenhuma mulher tinha permissão de se casar antes dos 21 anos. Devo dizer que, antes desta mudança, estávamos restritas pela purdah.

– Como a situação se inverte – eu ri.

O Sonho da Sultana é uma excelente ficção especulativa que, com base em ideias simples, traça uma elaborada trama de fatos, causas e consequências imprevistas que vão transformando o destino de uma sociedade. Irmã Sara explica a Sultana os principais avanços científicos da TerraD’Elas, desenvolvidas pelas cientistas de duas das principais universidades criadas por esse reino matriarcal: uma forma de coletar água, o que teve como consequência colateral positiva parar as tempestades; e um meio de acumular energia solar para vários usos, inclusive para criar uma forma de raio de calor que permitiria que, sem derramar sangue, elas vencessem uma guerra e evitassem qualquer tentativa posterior de invasão por nações vizinhas. Sara explica ainda que a energia elétrica é usada para realizar todo o trabalho agrícola e para um sistema de transporte aéreo, prescindindo o povo de qualquer meio de locomoção terrestre.

É bastante interessante a tecnologia avançada imaginada por Roquia e genial a forma pela qual ela se encaixa num enredo de especulação histórico-cultural. Nisso eu considero que sua ficção científica explora muito bem as Ciências Humanas, tanto ou mais do que as ciências “hard”. Porém, não faltam cenas em que a Ciência é aplicada de maneira realmente digna das histórias de ficção científica mais tecnofílicas, como, por exemplo, a descrição verossímil do funcionamento de um veículo aéreo.

Sultana questiona Sara sobre como as mulheres conseguiram domar os homens, tendo em vista que estes são mais fortes fisicamente, ao que ela responde com perspicácia: “Usamos o cérebro”. E é muito interessante a crítica que Roquia apresenta aqui contra o argumento do tamanho do cérebro, usado por muitos neurocientistas, ainda hoje em dia, para “provar” que o homem é mais inteligente do que a mulher. A protagonista indaga sobre isso, e Sara replica:

– Sim, mas e daí? Um elefante também tem um cérebro maior e mais pesado que um homem. No entanto, o homem pode acorrentar elefantes e empregá-los de acordo com seus próprios desejos.

A história que leva ao atual estado de relações hierárquicas dos gêneros em TerraD’Elas pode ser assim resumida: as mulheres ganharam acesso à educação, por um decreto da rainha; foram construídas universidades, onde se desenvolveram complexas e inovadoras tecnologias; uma guerra matou a maioria dos homens, que foram confinados à reclusão doméstica pelo matriarcado; os raios de calor solar foram usados para expulsar os invasores; desde então a divisão sexual do trabalho sofreu uma profunda modificação, muitos dos papéis sociais de gênero se inverteram e alguns se tornaram obsoletos, como os de policiais e militares.

É nesse ponto que se encontra o mais contundente insight de Roquia. Através de uma ficção científica e de especulação histórica, ela desconstrói a ideia de que as relações sociais e a hierarquia de gêneros são dadas pela natureza, mostrando, através de uma narrativa complexa e repleta de acontecimentos e suas consequências, como podem ocorrer mudanças históricas e como podem surgir diversas configurações sócio-culturais entre os seres humanos. A mensagem dela é a de que, assim como as relações sociais da TerraD’Elas tiveram uma origem histórica, as sociedades da vida real também não são como são desde sempre.

De modo geral, a mensagem mais profunda de O Sonho da Sultana é a de que as informações de que precisamos para desenvolver tecnologias mais eficazes, evoluirmos enquanto sociedade e desconstruirmos as relações de dominação estão disponíveis para quem se der ao trabalho de observar com argúcia os fenômenos da natureza e os fatos das sociedades humanas. Nas palavras dela:

Nós mergulhamos fundo no oceano do conhecimento e tentamos descobrir as pedras preciosas que a natureza tem guardado para nós.

Para adquirir o conto

Fontes das imagens

Fahrenheit 451

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Fahrenheit 451 é um romance sobre um futuro distópico em que a sociedade (mais especificamente a dos EUA – não aparecem referências a outros países na obra) desenvolveu um desapreço pelo pensamento, pelo conhecimento e pelas relações humanas. O resultado mais gritante desse processo é a queima sistemática de livros apreendidos, feita pelos bombeiros, e uma cultura virtual na qual a relação com personagens fictícios da mídia televisiva passa a ser mais importante do que as relações com outros indivíduos reais.

A narrativa desta clássica ficção científica de Ray Bradbury segue os últimos dias de Guy Montag como bombeiro. Na profissão há 20 anos, ele gosta de queimar livros, como qualquer outro bombeiro, mas possui uma coleção secreta, oculta até de sua própria esposa Mildred. Seu fascínio pelos livros aumenta depois que ele conhece Clarisse McLellan, sua vizinha de quase 17 anos que gosta de pensar, de sentir o mundo à sua volta e conversar com outras pessoas – três coisas que a maioria não costuma mais fazer. E, embora não fique explícito em nenhum momento da narrativa, é provável que ela leia livros também.

Depois de algumas semanas, Clarisse desaparece e Montag começa a sentir sua falta. Algum tempo depois, o bombeiro participa de uma missão na qual as coisas não saem como deveriam. Uma casa repleta de livros está prestes a ser queimada pela equipe da qual ele é membro, mas pelo fato de a polícia não ter prendido a dona da casa com antecedência, como era o protocolo, ela decide morrer junto a sua casa e sua biblioteca, apesar dos protestos de Montag, que se dispôs a salvá-la.

Esses dois acontecimentos o levam a repensar sua carreira e sua vida, e ele revela a Mildred e a duas amigas dela os livros que tem em casa, lendo trechos e arrancando lágrimas. A esperança surge a Montag na forma de Faber, um velho que costumava trabalhar numa editora antes da proibição dos livros. No entanto, o comportamento de Montag faz com que seu chefe, Beatty, desconfie de que ele esteja roubando livros durante as missões, e se preocupa em lhe dar conselhos, para que ele não desperdice a chance de uma promoção, sendo um funcionário tão exemplar como é. Porém, uma denúncia anônima leva o batalhão à casa do protagonista, e este não apenas queima a própria casa como também seu chefe. Na fuga, ele despista a polícia e se refugia num retiro de rebeldes que memorizam os conteúdos dos livros, com o objetivo de ressucitá-los quando a era de obscurantismo terminar.

Os livros não são tão importantes

O tema central de Fahrenheit 451 é a desagregação das relações sociais através do empobrecimento dos meios de comunicação, sejam livros, revistas, televisão, rádio e até mesmo as relações interpessoais diretas. Dessa forma, a importância dos livros é indireta, é simbólica dentro dessa fábula, tendo em visa a possibilidade de se manter a riqueza cultural em condições ágrafas.

O problema indireto da destruição dos livros e do concomitante esvaziamento do conteúdo reflexivo de meios como a televisão é que as pessoas, carentes de informação, não têm assunto para conversar. Essa situação é retroalimentada pela tendência superindividualista da época em que se passa a história, que leva as pessoas a se fecharem em suas intimidades, o que é simbolizado pelos fones de ouvido que isolam Mildred do mundo exterior e quase a levam à morte.

Correção política e felicidade

Segundo Beatty, em um intenso diálogo com Montag, o que levou à proscrição dos livros foi um sistemático esforço da sociedade para deixar as pessoas mais felizes. Tudo aquilo que era incômodo, que trazia desconforto e nos forçava a refletir foi paulatinamente abolido e destruído. Foi assim que os livros se transformaram a princípio em obras mutiladas (sem os trechos incômodos), posteriormente em meros resumos sem substância e finalmente proibidos de uma vez por todas.

Uma das forças apontadas por Beatty para que os livros tivessem trechos cortados é uma certa correção política. Livros com trechos racistas foram podados para agradar as minorias raciais. As partes machistas de uma obra foram retiradas para contentar as leituras do sexo feminino. E assim com obras que tinham trechos antissemitas, xenofóbicos, homofóbicos etc., tudo com o objetivo de acabar com qualquer coisa que causasse infelicidade, até que não sobrasse quase nada dessas obras.

Podemos fazer um paralelo dessa situação fictícia com algumas tentativas reais de se modificar obras clássicas que possuem teor discriminatório, como alguns livros de Mark Twain (que um professor nos EUA republicou após retirar palavras ofensivas como “nigger”); os esforços de algumas organizações italianas para censurar a Divina Comédia; ou ainda a recomendação de se retirar dos currículos escolares no Brasil algumas das obras de Monteiro Lobato, que possuem trechos racistas.

Penso ser salutar pesar com cuidado essa crítica de Bradbury à correção política, pois ela pode resvalar para um viés conservador. É absolutamente acertado ver na censura de obras literárias, sejam quais forem, uma atitude autoritária e contrária à liberdade de expressão. Mas os conteúdos intolerantes e discriminatórios dos clássicos devem ser percebidos, apontados e problematizados, para que não se transformem essas obras em objetos sagrados, intocáveis e inocentes. A crítica ao conteúdo desses livros é tão importante quanto a crítica à censura desses mesmos livros.

Assim, é possível que alguns leitores vejam, por extensão, nessa crítica bradburiana uma crítica a toda preocupação politicamente correta que busca desconstruir os discursos de preconceito, intolerância e ódio. A postura politicamente correta daqueles que criticam esses discursos sem censurá-los, e que defendem seu direito à liberdade de expressar essa crítica, não pode ser confundida, como os “politicamente incorretos” costumam fazer, com uma suposta atitude ditatorial.

A crítica de Bradbury tem validade se igualarmos as censuras “politicamente corretas” àquelas promovidas por regimes autoritários de facto, como o da Igreja Católica medieval, com seu Index librorum prohibitorum, e a condenação de obras artísticas pelo regime nazista. Qualquer queima de livros é um prejuízo para a humanidade e uma forma de minar o pensamento crítico.

Livros e memória

Bradbury era um grande entusiasta da leitura e da escrita. Como indivíduo pertencente à cultura ocidental, é normal que, sendo em primeiro lugar um defensor dos saberes, fosse consequentemente um ferrenho defensor dos livros, uma vez que estes são o repositório padrão do conhecimento nas sociedades ocidentais. Por fazermos parte de um mundo que valoriza o grafismo como a forma mais legítima de registro histórico, mnemônico e cognitivo, o banimento dos livros seria um colapso para o Ocidente eurocêntrico.

Porém, ao enfatizar a manutenção dos livros, pode-se incorrer numa postura etnocêntrica segundo a qual o registro gráfico (a escrita) é a melhor, senão a única, maneira de se não perder o conhecimento acumulado. Pessoalmente, sou um defensor dos livros e do antigo adágio “verba volant, scripta manent” (“as palavras se vão, a escrita permanece”). A quantidade de conhecimento acumulado no mundo, tanto em sociedades ágrafas quanto naquelas que conhecem a escrita, exige que utilizemos um meio externo (ao cérebro) para armazená-la e garantir que estará acessível às gerações futuras.

Mas é preciso cuidado para não incorrermos no possível erro de considerar que as sociedades ágrafas estão numa situação trágica, como se vivessem no mundo distópico de Fahrenheit 451, sem acesso ao conhecimento dos antepassados. Nessas sociedades, encontradas na África, na América e em outros redutos pouco ou nada influenciados pela expansão da cultura ocidental, utilizam-se de maneira bastante complexa as capacidades da memória oral, e os saberes não se perdem da forma como os ocidentais perderíamos se nossos livros fossem queimados.

Embora esses sejam possíveis desdobramentos da premissa do livro, o próprio Bradbury nos apresenta, ao final da história, um extenso grupo de pessoas que mantém o conteúdo dos clássicos intocado em suas memórias. Cada indivíduo desse grupo carrega em sua mente o texto completo de um livro e é capaz de recitá-lo para quem o queira “ler”. Quando um dos indivíduos morre, já tem passado adiante seu texto para um jovem herdeiro, e assim o livro se mantém através das gerações, sem a necessidade de registros escritos. Curiosamente, é nessa condição sem livros que as pessoas mais interagem entre si e subvertem a ordem individualista vigente.

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