De volta ao futuro do passado

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BTTF2Provavelmente você já sabe que o último dia 21 de outubro foi a data que, num universo paralelo fictício, um jovem e sua namorada do ano de 1985 visitariam com o auxílio da máquina do tempo de um velho cientista extravagante. Em De Volta para o Futuro (1985), Dr. Emmett L. Brown leva Marty McFly e Jennifer Parker em seu DeLorean voador movido a lixo e equipado com o capacitor de fluxo até 30 anos no futuro. Esse é o desfecho do filme. Já na continuação, De Volta para o Futuro II (1989), assistimos ao que os três presenciaram em seu fabuloso futuro e as maravilhas de um tempo vindouro.

Enfim, a vibe pelo fato de essa ter sido a mesma data em que se passa parte dos filmes da trilogia é tamanha que a internet está repleta de matérias, artigos, memes, vídeos e fotomontagens referentes a De Volta para o Futuro, com piadas sobre a estreia de Tubarão 19, listas das “previsões” futurológicas certas e erradas e críticas bem-humoradas sobre o utopismo que sonha com um belo futuro que ainda está longe de se tornar realidade.

Não deveríamos levar tão a sério a perspectiva de futuro dos produtores dos filmes, tendo e vista seu caráter cômico e a necessidade de imaginar certas coisas apenas como meio de dar sentido à trama, mais do que retratar as previsões futurológicas daquela época e daquela cultura (EUA do final da década de 1980). Mesmo assim, é interessante pensar como o filme revelou, mesmo que jocosamente, as noções do que significa o futuro, do que é relevante pensar como tendo um “futuro”, daquilo que épassível de evolução, das coisas que se desejam que mudem e o que pode perfeitamente permanecer do mesmo jeito que está (ou esteve por longo tempo).

É notório, por exemplo, ver duas policiais em ronda resgatando Jennifer (que havia desmaiado e sido deixada num beco enquanto seus companheiros de viagem resolviam sua missão), mostrando a visão de um futuro em que papéis social e tradicionalmente ocupados por homens podem vir a ser também exercidos por mulheres. No entanto, as relações familiares dos McFly parecem repetir a mesma lógica sexista de décadas atrás, com um “pai de família” tentando se manter num emprego para sustentar financeiramente sua mulher e seus filhos, todos estes com o sobrenome de Marty McFly.

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Esta lógica de parentesco patrilinear, tão arraigada em nós, é na maioria das obras de ficção futurista mantida como algo normal, “natural”, não-passível de mudança e irrelevante enquanto questão a ser ponderada (isso acontece até em realidade ultratecnológicas e pretensamente utópicas, como Star Trek). Por outro lado, a luta pela conquista de direitos trabalhistas das mulheres é algo tão gritante que seria uma gafe muito grande não atentar para isso, e as policiais, uma delas negra, representam bem uma visão de futuro desejável para todos.

Quando Marty perambula pela versão futurista de sua cidade, vemos um elemento que representa outra expectativa utópica: a facilidade de se consumir. Numa radicalização do domínio das empresas capitalistas sobre nossas vidas, tudo agora é baseado no autoatendimento, não existem ou pouco existem pessoas de verdade no balcão das lojas. Muitas vezes se enxerga essa condição como um sonho para o cidadão comum, que poderá se beneficiar dos produtos do mercado com o maior conforto e o menor esforço possível. Mas percebamos que esse é também o sonho da ganância dos empresários capitalistas que produzem essas mercadorias: com menos mão-de-obra humana, menos necessidade de se pagar salários e mais lucro para si. Para quem serve essa utopia, afinal?

Poderíamos, para problematizar esta pergunta, considerar o acesso maior ou menor aos recursos que possibilitam desfrutar dos produtos do mercado de consumo. Nos idos de outubro do 2015 real, ainda vivemos uma grande desigualdade econômica, e o sonho consumista de De Volta para o Futuro II só seria aproveitado por aqueles que pertencem a uma classe econômica mais ou menos favorecida. Mas isso nos leva a outro elemento instigante do futuro retratado no filme. Quando o Marty McFly de 1985 encontra o velho Biff Tanen, este o confunde com Marty McFly Jr. Biff diz a ele que seu “pai” (a versão mais velha de Marty McFly) é um fracassado na vida, dando a entender que não conquistou status econômico-social e ficou na classe dos menos favorecidos materialmente.

Porém, quando Jennifer Parker é levada a sua futura casa por engano (onde mora sua versão mais velha, Jennifer McFly), nós nos deparamos com um lar extremamente bem-provido de alta tecnologia e conforto. Tudo é ativado por voz, a casa é praticamente um computador-robô que fala com seus habitantes, temos televisores gigantes, reidratadores que preparam uma pizza semipronta em poucos segundos, sem falar dos acessórios pessoais como aparelhos que lembram o Google Glass, jaquetas com secagem automática e tênis que se amarram sozinhos.

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Esse cenário dá a entender que até os mais pobres têm acesso a tecnologias que oferecem o necessário à sobrevivência, o mínimo de conforto e até bastante luxo (e talvez um tanto de sedentarismo). Entretanto, ainda existem relações de exploração no mercado de trabalho e desigualdade de acumulação de recursos, o próprio Marty estando à mercê de seu rico patrão, que tem o poder de demiti-lo de forma imediata por se envolver em atividades escusas.

Podemos ainda, por último, apontar para um aspecto considerado bastante relevante pelos protagonistas da história, algo implicitamente tido por eles como uma conquista importante para o bem-estar dos habitantes do futuro utópico: a maior liberdade de ir e vir. Esta é possibilitada, especialmente, por duas novas tecnologias: uma previsão meteorológica precisa e os hovercrafts. A facilidade que o indivíduo tem de programar suas atividades com base na certeza de que a chuva vai parar às 4:31 da manhã e a grande mobilidade oferecida por um carro voador são grandes avanços para uma sociedade cuja cultura coloca a liberdade individual acima de qualquer coisa.

As histórias fictícias sobre viagens no tempo para o futuro são interessantes para refletirmos sobre aquilo que almejamos para um mundo melhor. Quanto estamos preocupados, por exemplo, com a diminuição da desigualdade social, da violência de gênero, do racismo, das guerras, da aceitação da alteridade e de modos de viver que prescindem da noção de progresso tecnológico, como o encontrado em diversos povos ao redor do planeta? Dessa forma, em que grau um futuro tal qual o que se apresenta em filmes como De Volta para o Futuro II é utópico e em que medida ele é distópico? O que, na condição de indivíduo, de comunidade, de conjunto de povos e de humanidade estamos fazendo agora para construir uma utopia para todos? Nós estamos o tempo todo viajando em direção ao futuro, uma viagem no tempo que não tem volta (ao menos por enquanto).

Reino de ninguém

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Acordei cerca das 8:45, para escovar meus dentes e tomar sossegado meu café-da-manhã. Alguém bate palmas à porta, e Edilma, a empregada doméstica, está ocupada limpando a casa. Meus pais e meu irmão estão fora, minha irmã e minha prima ainda estão dormindo, e tenho que interromper meu tranquilo café-da-manhã para atender a duas senhoras que se apresentam como “pessoas que decidiram sacrificar um pouco do seu tempo para ler a Bíblia com os moradores da vizinhança”. Por alguma razão que ainda desconheço, vieram fazê-lo, certamente sem sabê-lo, com um ateu.

Bem, naquele momento eu queria mesmo é estar terminando calmamente minha refeição, e procurei atentar para que o encontro fosse o mais breve possível, não só porque eu tinha outras coisas para fazer (além do desjejum) como porque não estava muito disposto a redarguir com minha posição sobre o assunto, devido à hora do dia e às circunstâncias do encontro, duas senhoras, uma com mais idade, com quem seria desgastante trocar uma discussão. Mas me dispus ao menos a dar-lhes a mínima atenção.

Uma delas, a que se apresentou e à outra, começou a conversa dizendo que iam falar sobre segurança:

“Hoje em dia nos preocupamos muito em colocar grades em nossas casas, cercas elétricas, não é?”, disse ela, olhando para as grades da minha casa.

“É.”

“Você já se perguntou se um dia essa necessidade de segurança vai acabar, se vamos viver em paz?”

“Já.”

“E a que conclusão você chegou ao pensar nisso?”

Então, tantando ser o mais sucinto possível para abreviar o mais rápido possível o encontro, eu disse:

“Acho que é muito difícil, mas não impossível. Se depender da postura íntima de cada um, podemos mudar o mundo.”

Ela escutou minhas palavras com um olhar que dizia: “Embora eu não precise prestar atenção ao que você está dizendo, tenho certeza de que você está equivocado, pois tenho a resposta certa bem aqui na minha manga.” Não era exatamente na manga, mas na bolsa, da qual ela retirou um pequeno exemplar da Bíblia, dizendo que a resposta àquela pergunta ali poderia ser encontrada.

“Você tem uma Bíblia em casa?”

“Tenho.”

“Então depois você dá uma lida melhor para entender, tá certo? Aqui o capítulo 37, versículos 10 e 11 de Salmos, diz: ‘Ainda um pouco [ou seja, tendo paciência] e não existirá o ímpio [ou seja, os maus]; examinarás o seu lugar: já não estará ali. Mas os humildes possuirão a terra e desfrutarão de abundante paz.’ E depois, no versículo 29: ‘Os justos possuirão a terra e a habitarão para sempre’. Ou seja, os maus serão exterminados pelo Senhor e os justos viverão num mundo de paz, onde não haverá doenças. Entendeu agora? Quando Jesus vier, nosso mundo será um mundo onde as pessoas não envelhecerão, não haverá morte e, principalmente, não haverá doenças. Entendeu agora?” (Os trechos em colchetes são explicações da mulher sobre a passagem que leu, que aliás, lembro bem, não corresponde exatamente às mesmas palavras aqui escritas, copiadas da tradução que tenho, diferente da que ela tinha em mãos.)

“Ãrrã.”

Ela me entregou um panfleto sobre o novo mundo das Testemunhas de Jeová, dizendo que eu o lesse depois para compreeneder melhor aquele projeto escatológico, e nos despedimos sem mais delongas. Mas depois eu me perguntei se não teria valido a pena ter complementado minhas curtas respostas com observações que lhes mostrassem que suas palavras não foram para mim nenhuma lição. Eu poderia ter dito: “Entendi o que quer dizer, mas, como eu já disse, penso que é um projeto que para ser realizado depende de nosso trabalho, não da espera(nça) em um mito. Além disso, esse seu deus poderia ser mais justo e tentar ensinar os “maus” a serem “bons”, ao invés de excluí-los.”

Essas palavras seriam realmente breves, e não custaria muito para mim pronuciá-las. Mas se o tivesse feito, talvez eu as estivesse convidando a prolongar ainda mais minha espera(nça) de terminar meu café-da-manhã…

Nota

Esta crônica foi publicada originalmente na primeira Teia Neuronial, no dia 20 de janeiro de 2005 e. c., mesmo dia no qual ocorreram esses acontecimentos. Esta versão está atualizada com a nova ortografia da língua portuguesa.

Não vá sonhando

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Minha colega de trabalho hoje lamentou o fato de não haver, no prédio em que trabalhamos, nenhuma área de lazer, nenhum jardim onde relaxar a mente, nenhum espaço para os funcionários descansarem os músculos, os neurônios, as energias.

Ela me disse que já conversou com o superintendente, mas ele sempre responde que isso tudo vai haver no prédio novo que estão construindo (há anos). Que desculpa! E assim teremos que aturar por quanto tempo as más condições de trabalho em que estamos? O novo prédio será um spa, onde vamos apenas compensar o tempo perdido.

Não, esta situação não é a ideal. O crente que espera que um salvador venha solucionar os problemas do mundo é um covarde. Enquanto não temos o melhor planeta onde viver, comecemos a construí-lo. O maravilhoso mundo do futuro que esperamos e representamos nas imagens da ficção científica não será trazido por deuses ou messias. Será realizado por nós.

Mesmo que não estejamos diretamente envolvidos com a elaboração de tencologisa avançadas, podemos ao menos cuidar da limpeza da Terra, deixando-a em condições de sobrevivência e de vida e com a capacidade de manter as cidades e aparatos tecnológicos que tanto nos serão úteis.

Se quisermos ter aqueles ambientes límpidos e espelhados (como o cenário do ano de 2015 em De Volta para o Futuro II), sem nanhum vestígio de manchas de sujeira que vemos em filmes futuristas, não vai adiantar esperar por máquinas autolimpantes. Uma máquina autolimpante gasta desnecessariamente energia com uma atividade que nós mesmos podemos fazer. E podemos começar agora.

Esperar que o mundo melhore para que nós vivamos melhor? Costumamos falar muito da importância de sonhar, de imaginar um futuro melhor, de ter esperanças. Mas o compromisso exige esforços concretos e a relação de si com o mundo, não o ensimesmamento que remói a esperança, que às vezes pode dar à luz o desespero. Lembremos da lição de Dr. Brown a Jennifer, quando o conteúdo da folha de papel que ela trouxe do futuro se apagou diante de seus olhos:

Your future hasn’t been written – no one’s has. For better or worse, your future is what you make it.

Sempre me emociono quando lembro dessa cena.