Star Trek e Star Wars

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No âmbito dos nerds e geeks aficionados por ficção científica e fantasia, é famigerada a “rivalidade” entre os fãs de Guerra nas Estrelas (Star Wars) e os de Jornada nas Estrelas (Star Trek). Aqueles que se autodenominam trekkers ou trekkies ralham do caráter pouco científico dos elementos fantásticos no universo dos jedi, enquanto os fanáticos pela Força consideram as histórias da Frota Estelar muito chatas e pouco empolgantes.

Essa “rivalidade” se acentua de maneira tragicômica quando atores ícones das duas franquias se pronunciam zombando da série rival, como o fizeram há algum tempo William Shatner (Capitão James T. Kirk) e Carrie Fisher (Princesa Leia Organa). “Jornada nas Estrelas tem histórias melhores”, defende Shatner. “Guerra nas Estrelas tem efeitos especiais”, replica Fisher.

Entretanto, no geral os nerds gostam das duas franquias, podendo haver preferências individuais, mas é importante atentar para que não há comparação entre Star Wars e Star Trek, pois são duas propostas muito diferentes entre si, cada uma desenvolvida de modo bastante díspar, e para quem as conhece soa muito estranho as pessoas confundirem as duas (o que talvez aconteça mais por causa do nome parecido). E é por serem duas propostas diferentes que não há sentido na rivalidade e na concorrência, pois cada uma é apreciável de modo diferente, como bem respondeu George Takei (que interpretou Sulu na série clássica de Star Trek) em resposta aos dois vídeos acima:

Além disso, as duas séries se aproximarão ainda mais agora, tendo em vista que J. J. Abrams, diretor do filme Star Trek, de 2009, e de sua continuação de 2013, estará à frente do próximo filme da franquia Star Wars, indo aonde ninguém jamais esteve na história das rivalidades entre as torcidas nerds.

Portanto, vou explorar um pouco as diferenças entre as duas séries, não para acirrar qualquer divergência ou rivalidade, mas para acentuar a diversidade e incentivar diferentes formas de apreciar obras de ficção científica e fantasia.

Em primeiro lugar…

Jornada nas Estrelas – Star Trek

Jornada nas Estrelas/Star Trek teve início como uma série televisiva norte-americana, idealizada por Gene Roddenberry, que estreou em 1966. A série clássica (The Original Series – TOS) Inicialmente pensada para se prolongar por 5 anos, só durou 3, sendo cancelada em 1969. Ela foi ressucitada por um breve período como uma Série Animada (The Animated Series – TAS) em 1973 e 1974. Voltou à vida definitivamente em 1979, com Jornada nas Estrelas: O Filme (Star Trek: The Motion Picture), e a partir daí foram produzidos mais 5 filmes com o elenco/tripulação da série clássica.

Em 1987, teve início a série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração (The Next Generation – TNG), que durou 7 temporadas, até 1994, com outro elenco/tripulação. Deep Space Nine (DS9) foi outra série, também com 7 temporadas, produzida de 1993 a 1999. A série Voyager (VOY) foi ao ar entre 1995 e 2001, com 7 temporadas também. E Enterprise (ENT), que estreou em 2011, foi cancelada prematuramente em 2005.

Entre 1994 e 2002, foram produzidos 4 filmes com o elenco/tripulação da TNG. Em 2009, Star Trek foi revitalizada com um filme apresentado por um novo elenco, interpretando a tripulação da TOS, que vai estrelar uma continuação em 2013, Além da Escuridão (Star Trek: Into Darkness).

Foram também produzidas muitas histórias em quadrinhos, livros e video games, que enriqueceram esse universo, mas o principal são as séries televisivas.

Guerra nas Estrelas – Star Wars

Guerra nas Estrelas/Star Wars foi um filme de 1977 que iniciou uma grande saga épica no imaginário popular do Ocidente, idealizada por George Lucas. Quando sua continuação foi produzida em 1980, o primeiro filme foi rebatizado como Guerra nas Estrelas – Episódio IV: Uma Nova Esperança (Star Wars – Episode IV: A New Hope). A segunda produção, chamada de Episódio V, foi seguida pelo Episódio VI em 1983.

Os Episódios I, II e III, que contam os acontecimentos anteriores à primeira trilogia, vieram a público em 1999, 2002 e 2005, respectivamente. Uma série animada chamada A Guerra dos Clones (The Clone Wars) foi produzida em 2008, contando eventos entre os Episódios II e III. Em 2015, será lançado o Episódio VII, cuja história ainda é um mistério para o público.

Foram também produzidas muitas histórias em quadrinhos, livros e video games, que enriqueceram esse universo, mas o principal são os filmes.

O começo de tudo

Comecemos pelo início, ou seja, pelo prólogo de cada uma. Star Trek, em seus episódios originais, tem a seguinte entrada, repetida durante toda a série clássica (TOS) e, um pouco modificada, na série A Nova Geração (TNG):

Space, the final frontier. These are the voyages of the starship Enterprise. Its 5-year mission: to explore strange new worlds, to seek out new life and new civilizations, to boldly go where no man has gone before.

[O espaço, a fronteira final. Estas são as viagegns da nave estelar Enterprise. Sua missão de 5 anos: explorar estranhos novos mundos, buscar novas formas de vida e novas civilizações, audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve.]

Esta sinopse geral resume bem alguns dos aspectos dessa série televisiva que estreou em 1966. Ela aponta para uma jornada exploratória ao espaço. Infere-se que as histórias ocorrem no futuro mais ou menos próximo, com o advento de novas tecnologias, e que  o espectador se deparará com novas realidades alienígenas e os decorrentes conflitos, sempre com a tentativa de se os resolver de maneira pacífica, embora às vezes isso não seja possível. Essa entrada é perfeita para uma grande obra de Ficção Científica futurista e especulativa.

Star Wars começa simplesmente assim:

A long time ago in a galaxy far, far away…

[Há muito tempo atrás numa galáxia muito, muito distante…]

Aqui não existem parâmetros com base em nossa realidade. Não sabemos em que tempo exatamente ocorre essa história nem em que local do universo, e portanto não há compromisso do autor com a realidade conhecida. O aspecto atemporal (“A long time ago”) indica possibilidades fantásticas e míticas, enquanto a “galaxy far, far away” implica alguma ligação com a Ficção Cienfítica. Tudo é possível e pode-se esperar qualquer coisa em termos de personagens, tecnologia e raças alienígenas.

Assim como as publicações literárias de Ficção Científica, Star Trek se carateriza pela massiva produção de episódios, neste caso televisivos (embora tenha sido produzida mais de uma dezena de filmes). Isso às vezes empobrece a obra, pois uma produção em massa de vez em quando dá alguns frutos mal-acabados, o que não impede de se encontrar, em grande número, peças esplêndidas, narrativas excelentes e cliffhangers e reviravoltas de trama surpreendentes.

No caso de Star Wars, o projeto original é cinematográfico, com uma produção ambiciosa, e isso levou à criação de uma espécie de romance épico, bem pensado em todos os seus elementos (embora o resultado da realização da segunda trilogia – Episódios I, II e III – não tenha sido bem recebida pela maioria dos públicos).

A narrativa

As histórias de Star Trek se caracterizam como episódios isolados dentro de uma narrativa circular. Cada capítulo gira em torno de um evento crítico, um problema a ser resolvido pelos protagonistas. No fim, as coisas voltam ao normal e a nave retoma seu rumo, preparando-se para o próximo episódio em que o mesmo esquema se repete.

O propósito dessa fórmula é estabelecer um grupo de personagens, cada um com suas habilidades especiais, e colocá-los à prova com um desafio diferente em cada capítulo. Ou seja, os roteiristas imaginam situações e pensam: “como a tripulação vai resolver esse problema?” Por isso há uma marcante identificação de cada personagem em cada uma das séries da franquia (isso vai ser desenvolvido abaixo).

Por outro lado, Star Wars é uma narrativa escatológica, com características épicas e heroicas, focadas na trajetória de um ou dois personagens, desde sua gênese até sua apoteose. Cada um dos dois arcos principais (ou seja, as duas trilogias de filmes) é uma grande história completa traçada segundo o esquema da jornada do herói (Joseph Campbell).

O nome Wars (“Guerra”) caracteriza a fábula de Luke e Anakin Sktwalker como um conflito bélico, destacando heróis de guerra como figuras pivotais. Há complôs políticos, traições, golpes de Estado, a instauração de um regime de terror totalitário e sua consequente derrubada por uma força rebelde.

Ficção Científica e Fantasia

A Ficção Científica é um gênero amplo, que se baseia nas possibilidades aventadas pelo conhecimento científico para explorar enredos fictícios. Neste sentido, ela pode trazer especulações sobre o desenvolvimento da tecnologia e da sociedade, no passado ou no futuro, questionar-se quais seriam seus impactos sobre a vida das pessoas, ou imaginar formas biológicas alienígenas inexistentes (ou não), mas verossímeis e prováveis, bem como uma possível diversidade civilizatória dessas formas de vida.

Considerando esse conceito resumido de Ficção Científica, podemos encaixar perfeitamente a maior parte das histórias da franquia Star Trek neste gênero. Normalmente o mote dos episódios gira em torno de alguma das possibilidades citadas acima, com poucas exceções.

Por outro lado, Star Wars é uma ópera espacial que não se baseia especialmente em elementos científicos. Estes estão ali para compor o cenário e não para servir como mote para a trama. Em essência, Star Wars é uma fábula de capa e espada, uma aventura fantástica com elementos épicos que remetem a O Senhor dos Anéis e outras narrativas míticas (inclusive sendo toda inspirada, em seus personagens e sua trama, nos arquétipos e estruturas narrativas mitológicos).

A ficção científica em Star Wars serve de máscara para uma história heroica, remetendo ao teatro clássico, com episódios de tragédia e drama. O mais notável dos quais é a relação edipiana entre Luke Skywalker e Darth Vader. A sedução inevitável de Anakin Skywalker para o lado sombrio da Força também é tragicamente impressionante. O desenrolar desse épico tem início, meio e fim e a história completa um círculo triunfal, na forma de uma escatologia.

É possível reimaginar, por exemplo, toda a trajetória de Anakin e Luke Skywalker num cenário medieval, no Japão feudal, na Antiguidade grega ou nos moldes da cosmologia de povos indígenas, sem perder a essência de sua proposta (veja acima algumas criações do artista plástico Sillof, colocando os personagens em diversos cenários). Entretanto, não dá para reimaginar a maioria das histórias de Star Trek sem se valer dos elementos científicos, pois é a partir destes que se desenvolvem os episódios.

Personagens

Uma das principais diferenças entre os personagens de Star Trek e os de Star Wars é sua profundidade e complexidade. Resumindo, Star Trek apresenta personagens redondos enquanto Star Wars é encenada por personagens majoritariamente planos.

Eis alguns exemplos da complexidade dos personagens de Star Trek em quatro das séries que formam a franquia:

  • Série Clássica (TOS): O Sr. Spock pertence ao povo do planeta Vulcano, mas é filho de um vulcano com uma humana. Como foi criado para reprimir seus sentimentos, possui uma mente prodigiosamente racional e lógica. Porém, ele muitas vezes surpreende seus colegas e aos telespectadores com atitudes que fogem a esse padrão, e isso ocorre por dois motivos: 1) em algumas situações críticas, Spock se vê tomado pelas emoções reprimidas, e nesses momentos age de maneira ilógica; 2) quando está sóbrio, por se pautar na lógica, no discernimento e numa ética complexa, algumas vezes suas ações parecem fugir daquilo que se espera dele como um oficial da Frota Estelar, e o que parece ser insubordinação se revela um meio genial de se alcançar um bem maior.
  • A Nova Geração (TNG): O intrigante Q, criatura onipotente habitante do Continuum Q, aparece inicialmente como um antagonista e um dos mais perigosos vilões da tripulação comanda pelo capitão Picard. No entanto, à medida que vai aparecendo ao longo da série, ele por vezes ajuda os protagonistas (embora sempre à revelia destes). Q já perdeu seus poderes, tornando-se humano, e os recuperou após ter aprendido a sentir compaixão, já se valeu da ajuda dos mocinhos para realizar seus planos pessoais e já se viu como esposo e pai. No entanto, seu caráter sempre permaneceu ambíguo, nem vilão nem herói.
  • Deep Sace Nine (DS9): Os klingons são um povo cuja cultura é marcada pelo louvor à guerra, à conquista e a honra. Eles costumam cantar os feitos de seus heróis e adoram banquetear bebendo “vinho de sangue” (bloodwine). No entanto, tenente Worf, embora sempre carregue em seu olhar a ferocidade dos de sua raça, possui como marca registrada um siso e uma seriedade, mas sempre se mostrando muito zeloso e conservador com relação à cultura klingon, embora, paradoxalmente, tenha sido criado desde criança por pais humanos. Isso o coloca em grande conflito, por um lado, com humanos e a Federação e, por outro lado, com seus irmãos de sangue e o saudosismo do extinto Império Klingon. Em certo momento marcante, sua noiva pergunta porque ele não possui a alegria de viver que a maioria dos klingons tem, e ele revela que quando criança, jogando rúgbi com seus colegas humanos, acidentalmente matou um deles, o que o traumatizou para o resto da vida.
  • Voyager (VOY): Kathryn Janeway é a capitã da nave estelar Voyager. De início, ela encarna o arquétipo da mãe-rainha, encaregada de cuidar e acolher cada membro de sua equipe, sempre fiel às leis que regem a Federação e a Frota Estelar. Mas no decorrer da série ela mostra várias facetas que a tornam um personagem complexo, como a de guerreira destemida, de amante apaixonada e até a de mulher fatal, quando precisa seduzir um maligno holograma. Muitas vezes se vê diante de dilemas que colocam à prova sua lealdade aos princípios da Federação, e em algumas situações é obrigada a burlar esses princípios com vistas ao bem de sua tripulação.

É claro que estes não são os únicos exemplos. Há muitos personagens redondos em toda a franquia, mas podemos dizer que cada série tem um grau diferente de complexidade em seus personagens, sendo, em minha opinião, a Série Clássica a menos redonda e Deep Space Nine a mais redonda. Também não se pode deixar de afirmar que há vários personagens planos, mas eles não se destacam como protagonistas.

Star Wars, sendo bastante inspirada nas narrativas fantásticas e heroicas e tendo sua trama conduzida pelo esquema da luta maniqueísta entre o bem e o mal, apresenta personagens bem posicionados em seus papéis, sendo possível encaixá-los em dois ou três “lados”. Ou seja, ou os personagens são bons, lutando pelo bem e o Lado Claro da Força, ou são maus e se alinham ao Lado Sombrio da Força.

Quase não ocorrem traições ou mudanças de lado, por exemplo, os personagens bons (aliados à República ou à Aliança Rebelde) serão sempre bons, e os aliados aos Separatistas e ao Império são sempre maus. Alguns indivíduos podem até estar fora desse conflito político, ficando à margem de qualquer afiliação republicana ou imperialista, mas eles sempre estão num dos extremos do espectro. Um exemplo disso é o planeta Tatooine, planeta não-representado pela República e meio esquecido pelo Império, onde vemos personagens maus (como os bandidos de Mos Eisley e a máfia de Jabba) e bons (como a família Skywalker e seus amigos).

Há três notáveis exceções à regra, que assumem um papel ambíguo e uma personalidade conflituosa durante suas respectivas trajetórias na saga: Anakin Skywalker/Darth Vader, Han Solo e Lando Calrissian. Ambos mudam de lado e cada um passa por um período transitório de conflito. Mas mesmo aí se vê uma necessidade de se alinhar o personagem em uma de duas opções, nunca mantendo a ambiguidade por muito tempo. Talvez não por acaso, Darth Vader e Han Solo são dois dos personagens favoritos dos fãs de Star Wars.

Outra diferença entre os personagens das duas franquias diz respeito a sua verossimilhança e sua identificação maior ou menor com os mitos e personagens imaginários.

No cenário da Star Wars, os poderes de uma casta especial de guerreiros é ponto fundamental da trama, pois é entre os jedi que aparece o Escolhido e seu filho. Eles são predestinados desde o nascimento a se tornar elementos centrais dos vários episódios dessa saga épica. Tornam-se figuras notáveis como os grandes guerreiros invencíveis dos mitos antigos, tais quais Hércules, rei Arthur ou Sansão. A decisão de um desses heróis ou os efeitos de eventos externos sobre eles têm consequências galácticas, ou seja, eles têm, individualmente, poder de mudar a história.

Por outro lado, os protagonistas da Star Trek não são super-humanos. Eles se destacam muito mais por suas peculiaridades individuais e idiossincrasias pitorescas que servem de mote para o desenrolar das tramas dos episódios. Embora haja encontros com espécies alienígenas que possuem poderes sobre-humanos, o mais importante nesses encontros é a resolução das diferenças, as formas de se usar a diplomacia. Dessa forma, o destino de cada episódio não depende somente da decisão de um herói, mas de um conjunto de fatores os mais diversos e que muitas vezes fogem ao controle dos personagens.

Que a Força viva longa e prosperamente

Penso que a diferença mais básica entre Star Trek e Star Wars está no nível psíquico pelo qual cada uma fisga o expectador. Star Wars apela mais para os sentidos, deixando o espectador mais passivo diante do espetáculo, das cores e luzes, das batalhas e duelos e dos confrontos dramáticos entre os personagens. Em Star Trek, são os meandros da trama que interessam, e o espectador não para de pensar nas possibilidades de como será resolvido o roteiro, pois atiça a inteligência da plateia. Essa diferença, penso, pode guiar o apreciador de Ficção Científica e Fantasia a escolher entre uma experiência poético-dramática da guerra entre o bem e o mal ou uma experiência mais intelectual e abstrata na jornada pelas descobertas do Universo.

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45 anos de Star Trek

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No dia 8 de setembro de 1966, ia ao ar na NBC, na televisão norte-americana, o episódio O Sal da Terra (The Man Trap), estreia da série Jornada nas Estrelas (Star Trek), que se tornaria uma das mais longevas franquias de ficção científica, indo audaciosamente a seguidas séries e temporadas de TV, filmes, livros, quadrinhos e tanta parafernália de merchandising (brinquedos, roupas e acessórios úteis ou inúteis) a que talvez só Guerra nas Estrelas (Star Wars) se equipare ou, quiçá, supere.

A premissa da série idealizada por Gene Roddenberry era levar a um futuro utópico histórias de aventura, suspense e drama, tudo em torno de uma elaborada e inteligente ficção científica, o que se traduz em “explorar novos mundos estranhos, procurar novas formas de vida e novas civilizações”. Inicialmente, tal premissa foi desenvolvida através de três temporadas mais ou menos bem-sucedidas. Personagens marcantes como Capitão James T. Kirk, Sr. Spock e Dr. Leonard McCoy encenariam enredos repletos de surpresas e reviravoltas.

O Sal da Terra (The Man Trap)

O antagonista do primeiro episódio de Star Trek, “O Sal da Terra” (The Man Trap)

Digo “mais ou menos bem-sucedidas” porque o fiel público que admirava Jornada nas Estrelas só foi descoberto anos depois da série ter sido cancelada. Esse público ajudou a motivar os produtores a ressucitar as aventuras da tripulação da Enterprise numa sequência de longas-metragens (hoje, são ao todo 11 filmes) e depois numa série chamada Jornada nas Estrelas: A Nova Geração (Star Trek: The Next Generation). Outras três séries se seguiram, Deep Space Nine, Voyager e Enterprise, com novos personagens e com um complexo desenvolvimento desse universo ficcional.

Jornada nas Estrelas se tornou um objeto de adoração de uma multidão de fãs ao redor do mundo. As raças exóticas, os personagens pitorescos com seus bordões, os gadgets de uma tecnologia que facilitaria a vida de muita gente… muita gente se encantou, algumas vezes de modo exagerado (como acontece com qualquer produto da cultura), e tentou trazer a estética de Jornada nas Estrelas para suas vidas, seja com roupas ou com adornos para o ambiente doméstico se parecer com o cenário futurista dos séculos XIII e XIV.

Uhura e Kirk

Primeiro beijo “inter-racial” da televisão norte-americana

Por outro lado, os vislumbres de um futuro em que o progresso científico traria grandes avanços e desafios para a humanidade inspirou muitos jovens a se dedicar à Ciência, levando uma safra sonhadora a ingressar na NASA ou seguir carreiras acadêmicas nas Ciências Exatas, Naturais ou Humanas.

Para além dessas influências pessoais, Jornada nas Estrelas construiu um arcabouço de histórias muito variadas, tanto nos temas e nas narrativas quanto nas abordagens filosóficas, éticas, morais, políticas e sociais. Às vezes trazendo uma visão libertária a respeito da alteridade, outras vezes “sem querer” enaltecendo valores específicos da cultura norte-americana, Jornada formou um repertório impregnado de novas ideias e questionamentos para a humanidade.

Jornada nas Estrelas, enfim, representou um marco na história da televisão, colocando personagens de diversas etnias e nacionalidades juntos na mesma ponte de comando, contrariando os sentimentos antissoviéticos da época, bem como a beligerância dos EUA na Guerra do Vietnã.

Além disso, ousou colocar uma mulher negra em posição de destaque na tripulação, cuja permanência na série só foi possível pela intervenção de Martin Luther King, que entendia que Nichelle Nichols era uma inspiração para as jovens e os jovens negros oprimidos pelo racismo. Sua personagem, Uhura, também encenou um dos mais importantes beijos da TV norte-americana, o primeiro a envolver um homem branco e uma mulher negra, rompendo simbolicamente com o apartheid racial do país. Um singelo gesto que resume o significado dessa série que continua indo aonde ninguém jamais esteve.

Homossexualidade em Star Trek

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O atual cenário político brasileiro tem demonstrado quão difícil ainda é superar a homofobia e as restrições aos direitos dos homossexuais, fato analisado, por exemplo, por Alípio de Sousa Filho em 2 artigos recentes (aqui e aqui). Grandes avanços já foram feitos, em grande parte do Ocidente, no alcance de direitos das mulheres e na superação do racismo e do segregacionismo étnico.

Mas parece que, quando se trata da busca por direitos iguais por parte de pessoas que não se enquadram na sexualidade convencionada, ainda há muita resistência. As graduais e lentas mudanças no status quo da sexualidade podem ser vistas em alguns episódios de Jornada nas Estrelas, na série clássica, em A Nova Geração e em Deep Space Nine, e percebemos que, numa série de televisão que foi tão revolucionária em sua concepção, é extremamente difícil abordar esse tema.

Jornada nas Estrelas (Star Trek) representa em sua concepção inicial um grande avanço na mídia televisiva norte-americana. A tripulação da Enterprise era composta por pessoas de diversas partes da Terra, até mesmo um russo, em plena Guerra Fria no mundo real, e um oriental, em plena Guerra do Vietnã. Gene Roddenberry, idealizador da série, imaginou um futuro utópico em que a humanidade superaria suas diferenças e se integraria numa só sociedade. Ela conviveria até mesmo com espécies alienígenas, como os vulcanos, cujo maior exemplo é o Sr. Spock, segundo em comando da nave estelar Enterprise.

A tripulação que se consolidou na série original de Star Trek era composta de várias nacionalidades: além dos norte-americanos, havia um escocês, um russo, uma africana, um extremo-oriental e um extraterrestre

Um dos pontos interessantes e que mais chamaram atenção na série original foi a veiculação do primeiro beijo “inter-racial” da história da televisão norte-americana, entre o branco capitão Kirk e a negra tenente Uhura, no episódio Os Herdeiros de Platão (Plato’s Stepchildren, 10º episódio da 3ª temporada da Série Original). A cena foi controversa, tanto que o diretor, David Alexander, se recusou a fazê-la. Nichelle Nichols, que interpretava Uhura, conta num documentário que os atores tiveram que ludibriar Alexander para ter a cena realizada. Isso num país e numa época em que a segregação racial era uma instituição forte. Enfim, a cena, reproduzida abaixo, representou um avanço, embora os personagens a se beijar o tenham feito por coação.

A questão racial parece ter ficado resolvida em toda a continuidade de Jornada nas Estrelas, especialmente na série A Nova Geração. Porém, quase nada se aborda quanto à homossexualidade, mesmo que o andar da história moderna aponte para um futuro em que a opção ou orientação sexual será irrelevante na valorização dos indivíduos e, portanto, ninguém precisará esconder com quem está se relacionando afetiva e sexualmente.

Mas nem na série original nem em A Nova Geração vemos sequer um casal homossexual. A primeira vez em que isso poderia ter ocorrido é no episódio O Hospedeiro (The Host, 23º da 4ª temporada de A Nova Geração), quando a Dra. Beverly Crusher se apaixona pelo trill Odan, cujo corpo humanoide é hospedeiro de um simbionte em seu ventre, verdadeira fonte de sua personalidade e consciência. Ao ser forçado a mudar de corpo, assumindo a fisionomia do comandante Riker, Crusher tem dificuldade de manter o relacionamento, pois Riker é seu amigo, mas ela acaba por ceder a seus sentimentos. No entanto, quando um novo hospedeiro trill é trazido, Crusher se surpreende com o fato de esse ser uma mulher, e não consegue conceber a continuidade do relacionamento.

O vídeo abaixo é o trecho final do episódio, em que Odan, na forma de sua nova hospedeira, pergunta a Crusher se esta quer continuar o caso, ao que ela responde negativamente.

Embora a Dra. Crusher alegue, no final do episódio, que não quer continuar com o relacionamento porque não suportaria viver com alguém que muda de aparência imprevisivelmente, é muito claro que ela demonstrou decepção ao constatar que a próxima hospedeira de Odan seria uma mulher, surpresa que se espera por parte dos próprios telespectadores. Ela não poderia viver o sincero amor que sentia com alguém do mesmo sexo que ela.

A controvérsia entre os fãs da série foi tamanha que muitos deles, homossexuais ou simpatizantes, enviaram cartas perguntando quando Jornada nas Estrelas, apresentando um futuro utópico, iria assumir uma posição favorável às possibilidades de sexualidade não-convencionada.

Talvez tenha sido uma resposta (tímida) a isso o episódio O Excluído (The Outcast, 17º episódio da 5ª temporada de A Nova Geração), no qual o comandante Riker se apaixona por um indivíduo da espécie andrógina  j’naii. Soren não se identifica com a identidade andrógina, sentindo-se uma fêmea com desejos sexuais por machos. No entanto, a sociedade j’naii proíbe a escolha por um gênero, e obriga Soren a passar por uma lavagem cerebral para assumir a identidade hermafrodita.

Essas história foi uma forma metafórica de abordar a homofobia, mas muitos fãs não ficaram satisfeitos. De fato, não há sequer uma menção ao paralelo entre a fobia dos j’naii e a homofobia humana. Porém, vendo o que até agora já havia sido feito, esse episódio pode ser considerado um avanço na abordagem do tema. O seguinte trecho é o julgamento pelo qual Soren passa e no qual ela faz um discurso que ecoa as reivindicações do movimento LGBT.

2 anos depois desse episódio, na série Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine (DS9), apareceria no episódio Espelho, Espelho Meu (Crossover, 23º episódio da 2ª temporada)  uma personagem bissexual: uma versão corrupta da major Kira Nerys, num universo paralelo. Ainda sem conseguir admitir que um dos protagonistas, um dos “mocinhos”, pudesse ter uma sexualidade diferente da convencionada, os produtores criaram uma antagonista que não era estritamente heterossexual. Mas ao menos apareceu, depois de 29 anos da franquia, algo diferente do que costumávamos ver.

Mais de um ano se passaria até o próximo avanço. Foi no episódio Reassociação (Rejoined, 6º episódio da 4ª temporada de DS9), em que se retomaria a raça trill para encenar uma relação homossexual. Como a personalidade do simbionte se mantém independente do hospedeiro, e como cada simbionte muda diversas vezes de hospedeiro durante sua existência, vivendo assim centenas de anos, é possível que duas pessoas que se conheceram portando determinados corpos venham a se reencontrar com aparências diferentes.

É o que acontece com Jadzia Dax, portadora do simbionte Dax, e Lenara Kahn, que hospeda o simbionete Kahn. Um dos antigos hospedeiros de Dax era casado com uma hospedeira anterior de Kahn. O amor que sentiam ainda está vivo, de modo que Jadzia e Lenara sentem o desejo de permanecer juntas, contra uma tradição trill que proíbe a retomada de um relacionamento afetivo depois que os hospedeiros mudam.

É interessante ver determinado momento do episódio, não reproduzido acima, em que o dr. Bashir explica à major Kira que o relacionamento entre Jadzia Dax e Lenara Kahn é proibido pela sociedade trill. Tem-se a impressão inicial de que os trill são homofóbicos, mas Bashir logo elucida que a proibição é de que dois trills retomem um relacionamento passado, o que tem como punição o exílio.

Também é notável que, quando Dax pede ao capitão Sisko um conselho sobre se ela deve ou não retomar o relacionamento com Kahn, ele se refira apenas ao problema de ela vir a ser exilada, e não se oponha ao caso por causa do sexo das duas amantes, mas sim porque sua amiga sofreria com a execração.

Entretanto, as personagens envolvidas não encenam exatamente um caso homossexual como entendemos. Seu relacionamento ocorre não porque elas se sintam atraídas por pessoas do mesmo sexo, mas porque se amam. De certa forma, é uma maneira até mais libertária de encarar a sexualidade, como algo que ocorre por amor, independente do sexo da pessoa amada. Porém, a história, sendo um passo ousado devido à cena de beijo homossexual, ainda é tímida porque trata esse tipo de relacionamento como algo particular a uma espécie alienígena, no caso os trills, não aparecendo ainda nenhum personagem humano abertamente gay ou lésbica.

Apesar de o idelizador de Jornada nas Estrelas, Gene Roddenberry, já ter expressado o desejo de colocar personagens homossexuais na franquia; embora já tenham aparecido vários roteiros que abordam a homossexualidade, que por decisão dos estúdios não foram concretizados; e mesmo que vários atores que já participaram das séries, como Jonathan Frakes e Kate Mulgrew, tenham deixado clara sua posição favorável à aparição de gays e/ou lésbicas nos episódios, o tema ainda é tabu na televisão norte-americana e talvez ainda precisemos de muito tempo para superar a homofobia e a dificuldade de conceber um futuro em que a opção, a orientação e a identidade sexuais sejam insignificantes no reconhecimento dos indivíduos.

De qualquer forma, sempre podemos imaginar que certas relações de amizade muito próximas tinham alguma coisa de homoafetividade…

Vida longa e próspera