Proibição da circuncisão e choque cultural

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Fonte: Wikimedia Commons

O fato de a Alemanha ser considerada o “país do Holocausto” (alcunha reducionista, mas que provoca as sensibilidades de muitas pessoas) justifica a polêmica em torno do debate sobre a proibição ou não da circuncisão, tradição milenar da cultura judaica. Se fosse em qualquer outro lugar do mundo, a repercussão seria bem menor.

Provavelmente essa proibição não vai ocorrer, pois a pressão internacional é grande. Felizmente, o relativismo cultural é minimamente compreendido em âmbito mundial, e uma imposição que implique na criminalização de uma prática intrinsecamente ligada à identidade de um povo é uma violência de enorme proporção.

As tradições de um povo fazem parte do substrato cultural (material e imaterial) que mantém coesa sua identidade étnica e sua própria existência enquanto grupo. Proibir um povo de praticar sua tradição é uma violação de seus direitos, ainda mais considerando que a prática em questão não prejudica a outros senão eles próprios (se é que prejudicam).

No entanto, há práticas tradicionais que se chocam com as leis das nações em que se encontram, como é o caso das mortes de crianças com deficiências físicas, praticadas por alguns povos indígenas. A mutilação de crianças, como é o caso da circuncisão, se choca com a pauta dos Direitos Humanos, mas os judeus podem considerar prejudicial,  para a criança, para a família e para seu povo, a impossibilidade de realizar um ato que, para eles, é um sinal de aliança com seu criador.

Em geral, não há um consenso sobre se a circuncisão masculina é benéfica, maléfica ou neutra para o homem circuncidado. Alguns defendem seus benefícios, baseando-se em pesquisa que mostra a menor probabilidade de contrair o vírus HIV, além de proporcionar uma menor tendência à ejaculação precoce. Esta adviria do fato de, sem a proteção do prepúcio, a glande perderia sua sensibilidade com o atrito constante com as roupas íntimas, além do que o próprio prepúcio é erógeno. Este é o motivo pelo qual alguns são contrários à circuncisão, comparando-a aos efeitos da infibulação feminina. (Aviso logo – tendo em vista a grande probabilidade de alguém mencionar isso nos comentários – que não discorrerei neste texto sobre a retirada dos clitóris de meninas, pois acho que daí se desenvolvem outros assuntos – posteriormente, talvez eu complemente a discussão deste texto com outro artigo focado na “circuncisão feminina”.)

Assim, podemos considerar que, sendo elencadas vantagens e desvantagens da circuncisão, ela é neutra, não representa, no balanço de suas consequências médicas, nem um malefício nem um benefício em si mesma. Mas isso tudo não a exime de ser uma mutilação da integridade física do indivíduo. Ela é uma mutilação tanto quanto o é a extirpação do clitóris (embora as consequências fisiológicas desta sejam piores).

Neste sentido, por mais que tenhamos que defender costumes alheios aos nossos, vale também notar que muitos deles servem como uma marca da dominação da cultura sobre o indivíduo. Todo judeu circuncidado tem em si um sinal de sua ligação inexorável com as tradições de um povo, por mais que estas sejam retrógradas e por mais que ele delas discorde. É o mesmo princípio das tatuagens ou escarificações ostentadas por vários povos tribais. É, inclusive, o mesmo princípio do ritual de furar as orelhas da recém-nascida, mutilação que manterá em seu corpo a marca de uma certa identidade feminina e a fará lembrar para sempre que, como mulher, ela é “naturalmente” fútil e vaidosa.

Link

‘Circuncisão proibida no país do Holocausto’ – Carta Capital

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