Macacos

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Num jogo de futebol recente, algum torcedor idiota lançou uma banana ao campo, direcionada ao jogador negro Daniel Alves. Como já é costume, a atitude de mau gosto do torcedor foi aludir à velha piada racista que desumaniza os negros ao insinuar que eles se parecem com macacos (estes, segundo o senso comum, têm uma predileção natural por bananas). A contundente reação do jogador foi pegar a banana, descascá-la, comê-la e continuar jogando.

A atitude de Daniel tem grande força simbólica porque é uma forma de ele mostrar que não tem medo do racismo, uma maneira de dizer, “seu racismo não me afeta”. E isso serve de exemplo para a sociedade que costuma assistir aos negros baixarem a cabeça ou se entristecerem com esse tipo de ofensa. Embora seja muito difícil contornar a violência simbólica do racismo, a mensagem é clara: as coisas estão mudando e não vão ser assim para sempre.

Porém, Neymar, colega de Daniel, levou adiante o gesto deste ao lançar a campanha “Somos Todos Macacos”, convidando os internautas a postar fotos suas comendo uma banana e repetindo a hashtag correspondente (#somostodosmacacos). Em pouco tempo o Facebook e outras redes sociais se encheram com fotos e textos louvando a campanha e rapidamente pessoas começaram a ganhar dinheiro com isso.

Mas o que realmente significa dizer que “somos todos macacos” e quais as consequências de promover essa frase da forma como está sendo divulgada?

Importa salientar que Neymar é conhecido por não se autorreconhecer como negro, embora para o mundo ele seja negro e seja alvo também de racismo. Dessa forma, fica a dúvida se, ao dizer que é macaco, ele está se autorreconhecendo como negro e como pertencente a uma identidade suscetível ao tipo de ofensa sofrida por Daniel ou se está reproduzindo um tipo de campanha comum hoje em dia que é se identificar com uma minoria oprimida apenas a título de solidariedade. Ou Neymar está dizendo

  • ok, eu sou negro e, como Daniel, não me ofendo com o racismo do qual sou alvo; ou
  • embora não seja negro, me solidarizo com Daniel e com todos os negros chamados de macacos pelos racistas; ou ainda,
  • somos todos seres humanos e, como tais, somos uma espécie de macaco.

Infelizmente, como estamos vendo, as coisas são muito mais complicadas do que parecem à primeira vista. Para mim, a única forma que a frase “somos todos macacos” poderia ter algum sentido positivo seria entendê-la com um significado zoológico: “Como Homo sapiens, somos todos pertencentes a uma espécie de primatas e, portanto, somos macacos, tanto os negros quanto os brancos quanto os de qualquer outra cor de nossa raça humana”. Se a frase fosse unanimemente entendida assim, poderia ter, quem sabe, uma força libertária enorme e nos colocaria todos no mesmo lugar, ou seja, desconstruiria qualquer sentido negativo relacionado à palavra “macaco”.

Mas não é bem assim que ocorre na prática. Não podemos ignorar o peso simbólico e político impregnado nas palavras e nos gestos em nossa cultura. Para grande parte das pessoas, o ser humano não é um macaco, e esta palavra se reveste de um significado que a opõe a vocábulos como ser humano, pessoa, homem, mulher etc. Vide um pronunciamento de 2012, viralizado recentemente, em que Ariano Suassuna deixa bem claro a noção de senso comum (e de grande parte das pessoas religiosas) que vê o ser humano como uma criação diferente de qualquer outro animal. Assim, são muito poucos os que apreendem o suposto sentido zoológico presente na expressão “somos todos macacos”.

Infelizmente, o que se apreende dessa frase, em geral, é semelhante ao que estava implícito na frase “somos todos Guarani-Kaiowá”, em campanha a favor dos grupos indígenas citados, e em que pessoas que não eram indígenas se identificaram com eles de maneira fortuita, num gesto político de solidariedade. Quando uma grande parcela de pessoas brancas se identifica como “macacos”, infelizmente o sentido racista ressoa na expressão, e é como se essas pessoas estivessem dizendo que, num gesto de solidariedade, estão se identificando como negros (e não genericamente como seres humanos). Ou seja, por mais bem-intencionada que seja, a pessoa que diz “sou macaco”, nesse contexto em que se discute o racismo, está sem querer dizendo que negro e macaco se equivalem e que macaco não abrange semanticamente o branco.

"Não sou macaca!" (Fang)

“Não sou macaca!” (Fang)

Grande parte das pessoas, além de acreditarem nessa noção de senso comum que vê o ser humano como uma criatura especial, misturam-na com um saber científico difuso sobre a evolução que, contaminado pelo racismo científico do século XIX, não só vê o Homo sapiens como uma evolução do macaco (que supostamente deixou de ser macaco) como também vê nos diversos grupos humanos estágios diferentes dessa evolução. Sabemos bem aonde esse raciocínio leva: grande parte das pessoas, conscientes disso ou não, considera os negros como mais próximos evolutivamente dos macacos do que os brancos, ou seja, como menos evoluídos do que estes e, portanto, menos humanos do que estes.

E é aí que está a força racista do termo macaco, usado ostensivamente em nosso cotidiano como uma palavra “naturalmente” ofensiva. Não é à toa que parte significativa dos representantes dos movimento negros estão rechaçando sumariamente a campanha (difundindo, ao invés disso, a frase “Não Somos Macacos”), pois consideram que ela não desconstrói o racismo subjacente à palavra em questão e pode até reforçar esse racismo. A maioria das pessoas que se deparar com a campanha do “Somos Todos Macacos” não conseguirá dissociar o termo macaco de um sentido negativo profundamente difundido na cultura ocidental.

Há uma grande diferença entre abordar a “macaquice” humana do ponto de vista zoológico e do ponto de vista sócio-antropológico. Embora a Biologia nos permita afirmar a igualdade dos indivíduos da espécie, nos colocando evolutivamente como “macacos”, a cultura, através da representação, nos divide em grupos, nos faz diversos, diferentes, e até desiguais e antagônicos. E, nessa diversidade, a força da representação da identificação entre negros e macacos (diferenciando-os dos humanos brancos) não pode ser menosprezada.

Como disse um amigo, aludindo ao famigerado vídeo “Dancem, Macacos, Dancem”,

Este debate atual – afinal somos ou não somos macacos – tem relação direta com o grande dilema da nossa espécie que é fundante da antropologia: a contradição de sermos uma espécie una do ponto de vista biológico, ao mesmo tempo em que somos diversos do ponto de vista sociocultural. É por causa desse dilema que nos defrontamos com situações inusitadas como o fato de que raças humanas não existem para a biologia, mas são operantes no espectro sociocultural, sendo definidoras de hierarquia e papéis sociais. Assim sendo, estamos diante do atual dilema em que biologicamente não faz sentido negar nossa animalidade – afinal somos primatas, logo, macacos -, mas sociologicamente podemos ser o que quisermos – ou o que os outros querem que sejamos. Ou seja, ser ou não ser macacos depende, diretamente, do contexto em que se insere essa macaquice. Como disse, mundo contraditório…

A nomeação e/ou classificação de nossa espécie como pertencente ao grupo dos macacos é arbitrária e depende da abordagem e do contexto. O que posso dizer com o mínimo de incerteza é que só faz sentido dizer que “somos todos macacos” se com isso entendermos que negros são tão macacos quanto brancos são macacos (bem como quaisquer outras classificações de grupos humanos). Mas é praticamente impossível hoje em dia não associar o malfadado termo a uma noção racialmente negativa, herdada de nossa história recente de subjugação dos africanos e seus descendentes.

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Os Mortos-Vivos – The Walking Dead e a cultura contra a natureza

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the-walking-dead-os-mortos-vivos-hqm-editora-novo_MLB-F-4282197153_052013Depois que comecei a ler há algum tempo a série de quadrinhos Os Mortos-Vivos (The Walking Dead), roteirizada por Robert Kirkman e com desenhos de Tony Moore (edições 1 a 6) e Charlie Adlard (edições seguintes), não consegui resistir a seguir continuamente capítulo por capítulo dos 10 encardernados que já haviam saído no Brasil. Publicada no Brasil pela HQM, atualmente a série tem 11 encadernados publicados, reunindo 6 edições cada um, perfazendo 66 números de um total de mais de 100 da publicação original pela Image Comics. Esta teve início em 2003 e continua sendo publicada até hoje, e deve continuar sendo paulatinamente traduzida e lançada no Brasil.

Essa obra gráfica, que deu origem a uma famosa série de TV, possui qualidades narrativas e estéticas excepcionais. Longe de ser uma mera fábula de terror sobre zumbis, Os Mortos-Vivos é uma história sobre seres humanos vivos. Ela dá medo em alguns momentos, nunca por causa das criaturas que lhe dão título, mas porque nos pegamos torcendo para que tudo dê certo num mundo incerto em que o caos ameaça a todo momento. Mas ainda mais do que isso, a obra nos faz pensar sobre as profundas implicações da relação entre o ser humano e a natureza.

Sinopse

A história de Rick Grimes, policial que acorda de um coma para encontrar tudo ao seu redor deserto e infestado por zumbis, é repleta de perdas, reencontros, encontros e novas perdas, mudanças, amadurecimento, adaptação e desmoronamentos psicológicos. Ao acompanhar sua trajetória, deparamo-nos com pessoas muito diferentes entre si e que, numa situação normal, jamais andariam juntas. Mas, na presente circunstância apocalíptica, o fazem para aumentar suas chances de sobrevivência.

Rick cria novas amizades, se apega a algumas pessoas, aprende a tolerar outras, mas também desenvolve desafetos, sempre se colocando à frente do instável grupo que o acolhe como líder. Seu constante aprendizado o põe em situações-limite; qualquer decisão terá fortes consequências para o pequeno grupo de sobreviventes, afinal, qualquer coisa que signifique o risco de um companheiro morrer é a possibilidade de uma perda inestimável. Às vezes, no entanto, a presença de certos indivíduos pode ser mais prejudicial do que benéfica, e nosso protagonista pouco hesita em fazer sacrifícios. Porém, a longo prazo, as coisas ficam cada vez mais difíceis e o sentimento de culpa e fracasso como líder atormenta Rick constantemente.

Estado de natureza e contrato social

Toda essa trama familiar e esse drama psicológico se apresentam como especulações sobre uma pergunta: “O que a humanidade realmente faria se se visse novamente em estado de natureza?” O que leva a outra pergunta: “O que uma situação distópica como um apocalipse zumbi poderia nos ensinar sobre os esforços humanos para sair do estado de natureza até o estado de cultura e civilização?”

A reflexão conduzida por Kirkman nas páginas de Os Mortos-Vivos parte do pressuposto de que os seres humanos adotariam comportamentos extremos quando colocados em situações-limite. A necessidade de lutar para sobreviver se reflete em rivalidades, brigas e até mortes quando dois ou mais indivíduos discordam quanto ao melhor curso de ação para o grupo. As emoções vêm à tona com intensidade e as neuroses pessoais se agravam. As pessoas endurecem, se brutalizam e começam a temer a perda de sua humanidade e seu caráter humano racional. As regras morais e os valores éticos precisam ser recriados do zero e só se ajustam com a experiência, com erros e sacrifícios.

A premissa, portanto, é a de que os sobreviventes do desastre retornaram a um estágio anterior ao da cultura e precisam reinventar o contrato social. Dessa forma, outra pergunta que a história tenta responder é: “Quem estava certo, Hobbes ou Rousseau? O homem é o lobo do homem ou somos naturalmente bons selvagens?” A resposta é circunstancial, e podemos ver duas respostas opostas no confronto entre o grupo que vive na prisão e a cidade de Woodbury, liderada pelo Governador.

Na prisão quase abandonada é onde as coisas começam a ficar realmente melhores para Rick, sua família e seus novos amigos. Ali, vemos cada indivíduo assumindo um papel segundo suas capacidades e talentos; um cultiva uma horta, outra costura roupas, outros se encarregam da segurança e há quem se detenha cuidando das crianças. Com o tempo, a liderança de Rick e seu braço direito, Tyresse, é substituída por uma espécie de conselho, e as decisões do grupo são tomadas em assembleias. Esboça-se, assim, uma sociedade participativa e protodemocrática, em que todos têm voz e cuidam uns dos outros.

Por outro lado, o Governador de Woodbury se assemelha à imagem do Leviatã hobbesiano, ou seja, do déspota sem cuja condução e proteção uma sociedade se desagregaria. Todos os habitantes de Woodbury se sentem seguros sob sua liderança, mas todas as decisões que afetam o coletivo são centralizadas no Governador. Supostamente, o medo gerado pelo ambiente distópico torna a todos vulneráveis, e a massa procura uma figura forte que se atenha a cuidar do bem comum.

Curiosamente, as duas sociedades se desfazem completamente ao entrarem em conflito. O grupo da prisão se desagrega e perde toda a infraestrutura que os protegia, enquanto um membro da sociedade de Woodbury, ao se dar conta da insanidade do Governador, o mata sem hesitar. Fica clara a mensagem do autor de que este não é o momento para definir o melhor rumo para uma humanidade em estado de reconstrução e de que provavelmente não existe só um melhor caminho.

Mas eu proponho uma pergunta que considero mais pertinente e profunda: “Um desastre como esses realmente colocaria os seres humanos em situação de plena natureza?” E é claro que a resposta é negativa, pois os sobreviventes não são seres desprovidos de cultura e trazem em si uma história complexa que se reflete em seu comportamento e na relação com os outros membros do grupo. Tudo o que tentam fazer pode até se parecer com algum modelo ideal de protossociedade humana, mas eles não partem do zero, estão todos viciados com a cultura e com diferentes trajetórias de vida que refletem os conflitos étnico-raciais, de gênero, de classe e de geração que se mantêm vivos apesar de tudo, mas que são mais ou menos relativizados por causa da situação-limite em que todos se encontram.

Mortos-vivos: uma força da natureza

Porém, os mortos-vivos representam um elemento importante na trama por fazerem os seres humanos perceberem que, por trás de todo o mundo que construíram à sua volta, existe uma gigantesca força impessoal que persiste e que resistirá ao poder domesticadoe e destruidor do Homo sapiens.

Em geral, as histórias sobre zumbis lidam com um terror subjacente à cultura ocidental: o de perder sua humanidade e se ver despojado de sua própria identidade. A possibilidade de morrer e ter nossos corpos ressucitados sem consciência por alguma força estranha pode ser aterradora para alguns de nós. É uma fantasia análoga à de se tornar um lobisomem, um animal irracional que não se dá conta das próprias ações.

Esse terror é explorado em Os Mortos-Vivos, mas de forma bem mais profunda do que na maioria das histórias de zumbis. Na situação-limite representada nessa fantasia escatológica, morrer significa se tornar um zumbi, passar a fazer parte de um organismo impessoal, de uma força implacável e infinita, e assim todos os vivos são mortos-vivos em potencial, ou seja, possíveis inimigos.

Essa força da natureza, representando metaforicamente a própria natureza com que o ser humano e sua cultura se defrontam na vida real, pode ser, no máximo, domesticada. Essa imagem da domesticação é representada, por exemplo, pelos zumbis desmembrados e sem mandíbulas, trazidos por Michonne em coleiras, e pela filha morta-viva do Governador, criada como um animal de estimação. Mas também pela imagem da cerca rodeada por zumbis que não param nunca de se aproximar e se aglomerar como um enxame. Tais quais um jardim que cresce e ameaça espalhar ramos pela casa, os zumbis têm que ser constantemente podados.

A biologia evolutiva de Star Trek

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Fonte: The Evolutionary Biology of Star Trek – io9

Autora: Annalee Newitz

Tradução: Thiago Leite


Um dos grandes mistérios da evolução humana diz respeito ao que aconteceu com todos os humanos que compatilharam o planeta com o Homo sapiens por centenas de milhares de anos. Enquanto o Homo sapiens evoluía na África, havia também homininos na Europa e na Ásia, conhecidos como Homo erectus, os hominídeos de Denisova e os neandertais. Para não falar no Homo florensiensis, conhecido como o povo hobbit. Será que esses grupos humanos se encontraram em algum momento? Eles cruzaram entre si ou se mataram uns aos outros? Será apropriado chamá-los todos de humanos ou eram alguns humanos e outros animais?

Jornada nas Estrelas (Star Trek) tem respostas para essas questões. E elas são tão confusas e frustrantes na ficção científica quanto na ciência evolutiva real.

O Mais Chato Episódio de Star Trek Jamais Escrito

Mesmo que você não seja um fã de Star Trek, provavelmente já ouviu falar do infame episódio de Star Trek: A Nova Geração, “A Busca” (“The Chase”), onde aprendemos que humanos, romulanos, klingons e todas os outros humanoides que encontramos têm de fato um ancestral comum, que vamos chamar aqui de Caras-de-massa (você pode entender por quê olhando a foto ao lado). Por uma série de eventos improváveis, a Enterprise encontra uma mensagem holográfica secreta de uma representante dos Caras-de-massa há muito falecida, que diz:

Sabíamos que viria o dia em que pereceríamos, e nenhum de nós sobreviveria – então deixamos vocês. Nossos cientistas semearam os oceanos primordiais de muitos mundos, onde a vida estava em sua infância. Os códigos nas sementes direcionaram sua evolução para uma forma física semelhante à nossa: este corpo que vocês vêm diante de vocês, que obviamente tem a mesma forma dos seus corpos, pois vocês são o resultado final. Os códigos na semente também contêm esta mensagem, espalhada em fragmentos em muitos mundos diferentes.

Certo, tudo bem, é absurdo e você pode entender por que as pessoas odeiam este episódio. Como Peggy Kolm já apontou brilhantemente em Biology In Science Fiction (“Biologia na Ficção Científica”), não faz nenhum sentido que todos os grupos evoluíssem do mesmo jeito numa variedade de planetas, e não se pode “direcionar” a evolução com “códigos em sementes”.

Mas se ignorarmos tudo isso, nós nos deparamos com um retrato bem interessante da evolução em Star Trek que em alguns aspectos espelham nossa própria evolução na Terra. Em primeiro lugar, nós já sabemos que alguns grupos de alienígenas podem intercruzar. Há o meio-humano meio-vulcano Spock, a meio-humana meio-klingon B’Elanna Torres, a meio-humana meio-betazoide Troi, e muitos outros personagens menores também. Isso só faz sentido se todos eles descenderem dos Caras-de-massa, embora haja episódios em que se sugere que as pessoas mestiças sejam produto de manipulação tecnológica.

Então, o que isso tem a ver com evolução humana?

O Ancestral Comum

belannaHumanos e nossos ancestrais são chamados homininos (eis uma boa explicação para isso), enquanto o grupo maior incluindo humanos e antropoides é chamado de hominídeo. Todos os grupos que mencionei anterioemente são inegavelmente homininos, e todos vieram do mesmo ancestral comum ao Homo sapiens – os Caras-de-massa da humanidade são chamados Homo ergaster ou Homo erectus. Obviamente, os neandertais não conseguiram suas testas romulanescas de algum tipo de evento de panspermia com “evolução direcionada”. Ao invés disso, diferentes grupos humanos simplesmente deixaram a África em diferentes épocas, espalhando-se pela Eurásia. Pelo fato de o Homo erectus ter deixado a África um milhão de anos antes do Homo sapiens, os dois grupos evoluíram separadamente durante um bom tempo. O mesmo aconteceu com o ancestral dos neandertais e os hominídeos de Denisova, que também partiram antes do H. sapiens.

Então a jornada de um milhão de anos da humanidade para a Europa, a Ásia e a Austrália foi de certa forma como o que aconteceu com a progênie dos Caras-de-massa em vários planetas diferentes. Eles começaram como uma espécie, mas, à medida que colonizaram diferentes regiões da Terra, começaram a se diferenciar uns dos outros. Sempre achei divertido o fato de que aquilo que provavelmente identificaria diferentes grupos humanos há 200.000 anos seriam as protuberâncias da testa e a altura – os mesmos dois traços usados no universo de Star Trek para fazer as pessoas parecerem “alienígenas”. É claro que os hominídeos de Denisova não devem ter tido um bobo nariz serrilhado de batata frita como um Bajoriano. Mas os neandertais teriam uma testa maior e um queixo mais protuberante do que os humanos modernos, enquanto os hobbits eram significativamente mais baixos do que o típico Homo sapiens.

Quando o Homo sapiens encontrou os neandertais pela primeira vez, poderia ter sido como os humanos encontrando os klingons? Muito provavelmente sim. Especialmente a parte sobre eles parecerem levemente diferentes e falarem línguas estranhas, mas no entanto são capazes de ter filhos juntos e empreender um extenso comércio mútuo (bem como entrar em guerra).

Especiação

Como mencionei antes, uma das maiores questões em Star Trek (e na biologia evolutiva humana!) é se o Homo sapiens realmente poderia ter filhos com outros grupos humanoides. Em Star Trek, ouvimos diferentes histórias sobre como uma criança meio-humana meio-vulcana poderia nascer – ela foi concebida em ambiente selvagem ou num laboratório? Mas temos absoluta certeza de que vulcanos e romulanos são tão intimamente aparentados que são capazes de produzir filhos sem problemas. Isso na verdade também espelha questões da ciência evolutiva.

Quando uma espécie se divide em duas ou mais, isso se chama especiação. Normalmente acontece quando dois grupos da mesma espécie são separados por tempo suficiente para evoluírem ao ponto em que não podem mais produzir descendência entre si. A grande questão é: grupos como o erectus e os neandertais eram espécies diferentes de nós ou seriam humanos com estruturas faciais e corporais diferentes dos humanos modernos? Há atualmente muita evidência genética de que o Homo sapiens intercruzou com neandertais e os hominídeos de Denisova. Então é provável que os três grupos fossem, de fato, a mesma espécie. Mas ainda não sabemos quase nada sobre o Homo erectus, e também estamos no escuro quando se trata dos hobbits e outros grupos homininos que ainda estão sendo descobertos. É possível que o Homo sapiens tenha intercruzado com neandertais, ao estilo de vulcanos/romulanos, mas não pudessem se reproduzir com Homo erectus.

A especiação é um processo bagunçado e caótico que raramente assume tonalidade preta e branca. Às vezes dois grupos muito diferentes são basicamente como os vulcanos e romulanos. Eles se comportam de modo completamente diferente mas são geneticamente quase idênticos. Outros grupos podem ter um ancestral comum, como humanos e chimpanzés, mas não podem se reproduzir entre si. Sugere-se em Star Trek: Enterprise que humanos e vulcanos podem estar nessa situação, se for verdade que eles requerem intervenção tecnológica para produzir uma prole viável.

Simplesmente não sabemos todas as respostas. No caso de Star Trek, isso se deve a tramas confusas e muitas continuidades retroativas. No caso da evolução humana, é porque ainda estamos tentando descobrir o suficiente sobre nossa história para entender o que aconteceu à medida em que evoluíamos.

Somos Todos Humanos

neandertalMuitos antropólogos usam a palavra “humanos” ou “pessoas” para descrever neandertais, hominídeos de Denisova e outros homininos que foram contemporâneos dos humanos modernos. Há fortes evidências de que estes grupos usavam ferramentas e fogo, podem ter tido uma linguagem e tiveram filhos com os Homo sapiens. Da mesma forma, em Star Trek, os alienígenas humanoides são sempre tratados como pessoas – mesmo que sejam klingons matando todo mundo e comendo um monte de vermes negros viscosos. Eles não são chamados de humanos, mas são claramente equivalentes aos humanos. Em inglês, ninguém usa o pronome “it” (gênero neutro usado para animais e objetos inanimados) para descrever um romulano. Eles podem ser inimigos, mas não são animais.

Quando tentamos imaginar como teria sido para o Homo sapiens migrar da África e descobrir neandertais, hominídeos de Denisova e possivelmente muitos outros homininos, não é à toa que pensemos em Star Trek. Como era viver num mundo com vários outros homininos inteligentes? Possivelmente seria como estar numa Federação com vários outros humanoides.

Alienígenas em Star Wars

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As histórias de Jornada nas Estrelas (Star Trek) trazem muitas reflexões a respeito da tecnologia, do impacto de seu desenvolvimento sobre a humanidade, e principalmente aborda uma série de problemas relacionados às relações sociais, ao intercâmbio cultural e entre espécies e explora bem os temas do contato e da diplomacia.

Porém, quando olhamos para as dezenas de espécies que povoam a Via Láctea de Star Trek, quase todas são humanoides, ou seja, são baseadas em nossa própria concepção terráquea e humana daquilo que se concebe como seres inteligentes, pessoas ou indivíduos sencientes. Raramente vemos espécies inteligentes não-humanoides e dificilmente se encontram alienígenas não-sencientes que não sejam inspirados nas espécies não-humanas da própria Terra. Assim, sempre ouvimos algum personagem se referindo aos “morcegos do planeta X”, aos “felinos do planeta Y” ou às “aves do planeta Z”.

Se, por um lado, Star Trek tem uma abordagem mais séria e crítica sobre seus temas principais, estando mais ligado à Ficção Científica, por outro lado a série peca quando não extrapola as possibilidades da vida no Universo.

Por isso, é interessante ver que em Guerra nas Estrelas (Star Wars), muito mais dentro de uma Fantasia Científica ou de uma Ficção Fantástica, sem se preocupar com explicar as tecnologias presentes naquela galáxia distante nem a anatomia escalafobética das centenas de espécies inteligentes não-humanas (e até as não-inteligentes) que pululam na maior parte das cenas de seus seis filmes, consegue trazer exemplos muito mais estranhos e fora dos padrões humano-terráqueos. Assim, embora as histórias de Star Wars não busquem explicar como funcionam as biologias dessa miríade de espécies, estas podem nos trazer reflexões sobre as possibilidades anatômicas, fisiológicas e morfológicas dos seres vivos no Cosmos.

Enquanto seja comum na Ficção Científica em geral a concepção de espécies não-humanas sencientes muito semelhantes aos primatas ou, no máximo, aos mamíferos, em Star Wars vemos facilmente espécies que se parecem com lagartos,  insetos, aracnídeos, lesmas, peixes e outras coisas extraordinárias e inusitadas, misturando características conhecidas na Terra ou as extrapolando completamente. Não existe aí uma superpreocupação em adequar os seres inteligentes não-humanos às formas e proporções humanas, como os traços e elementos que formam o rosto (a própria presença de um “rosto” humanoide não é imprescindível) ou a morfologia cabeça/tronco/(4) membros (2 pernas e 2 braços).

Se por um lado isso se deve ao caráter fantástico da franquia, que concebe os personagens através da imaginação sem rédeas, resulta daí um conjunto de possibilidades mais interessante do ponto de vista de uma ficção científica especulativa a respeito da vida inteligente no universo. É claro que entre tantas espécies diferentes há muitas que são humanoides e explicitamente baseadas no ser humano, mudando apenas uma cor de pele ou de cabelo, uma protuberância aqui e ali na cabeça ou um formato extravagante dos traços faciais (um belo exemplo são os kaminoanos, cujo corpo é praticamente humano, extremamente alongado, com pescoço muito comprido e o rosto bem exótico, mas cujo modelo é facilmente identificável como o humano). Mas todo o conjunto traz mais contribuições para este tipo de discussão do que muitos outros universos fictícios.

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Almirante Ackbar (mon calamari)

Mesmo algumas espécies humanoides fogem desse padrão quase-humano. O “rosto” dos wookies (espécie à qual pertence Chewbacca), por exemplo, possui outra conformação, com um focinho canídeo, ausência de orelhas visíveis e olhos pequenos. Além disso, são bem mais altos do que a média humana. Os ewoks, da lua de Endor, também são diferentes, com um “rosto” bem diverso do humano e orelhas no alto da cabeça, além do fato de terem estatura bem mais baixa do que os humanos médios.

As formas destes rostos e cabeças podem advir de um hábitat específico, talvez mais selvagem do que o de outras paragens, e as orelhas no topo da cabeça, por exemplo, podem servir para facilitar a detecção de predadores. Porém, estes exemplos ainda estão bem próximos dos mamíferos humanoides, e há outros ainda mais surpreendentes.

O almirante Ackbar também pertence a uma espécie (conhecida como mon calamari no universo expandido) que, embora tenha a clássica forma cabeça/tronco/membros quase humanoide, possui uma cabeça/rosto sem paralelos com o padrão humano (grandes olhos saltados para os lados, boca muito larga e ausência de orelhas e nariz). Sua face lembra uma mistura de peixe e crustáceo. Além disso, suas mãos são grandes e parecem uma mistura de barbatanas com patas de caranguejos no lugar dos dedos.

É interessante notar que, no primeiro filme da série (Episódio IV), a maioria dos personagens são humanos e grande parte dos alienígenas que aparecem são bandidos, “escória e vilania” de Mos Eisley, como define Ben Kenobi (à exceção notável de Chewbacca). De forma geral, nas histórias de fantasia, é muito comum que as raças aliadas dos protagonistas sejam parecidas com humanos e o grau de maldade de um personagem ou raça seja medido por uma aparência menos humana (um exemplo clássico são os orcs de O Senhor dos Anéis). Mas Ackbar, presente no terceiro filme da série (Episódio VI), é uma  bem-vinda exceção, colocando no papel de grande herói um alienígena que em outros contextos poderia ser considerado monstruoso.

Um geonosiano

Um geonosiano

Já os geonosianos, que assumem papel de antagonistas no Episódio II, são ainda mais alienígenas. Seu corpo é muito mais parecido com o de artrópodes (mais especificamente insetos) bípedes, inclusive dotados de exoesqueleto e asas como as de libélulas ou moscas. Diferente dos humanoides descritos acima, a forma como essa espécie fictícia foi concebida não permite que seja interpretada por um ator real fantasiado, e todos os geonosianos do filme são virtuais (gerados por computação gráfica). Esses insetos mostram uma extrapolação possível de uma forma de vida inteligente, com algumas das mesmas características físicas humanas, evoluída de outro filo animal.

Outro aspecto notável dessa espécie, que não tem a ver diretamente com sua morfologia (mas talvez o tenha indiretamente), é seu idioma, cuja fala é composta de vários fonemas ausentes das línguas humanas, produzidos pela garganta estridente e pela oclusão dos “lábios” de queratina dura. Mas sobre os idiomas em Star Wars eu discorrerei em outro artigo.

Essa espécie possui ainda outra característica interessante, que á um crânio muito pequeno para abrigar um cérebro de proporções como as dos humanos. Tendo em vista que os geonosianos têm inteligência semelhante à humana (ou não seriam capazes de constituir uma civilização), podemos especular que a inteligência pode se apresentar sem a necessidade de um sistema nervoso igual ao humano (embora seja difícil aqui arriscar alguma teoria, mesmo admitindo que a complexidade da biologia muitas vezes pode nos surpreender).

Essa característica pode ser encontrada em outras espécies do universo de Star Wars:

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  • Os ortolanos parecem pequenos elefantes bípedes azuis. Seu “rosto” é quase totalmente uma protuberância para baixo (como que uma tromba), com dois pequenos olhos negros e redondos no alto da cabeça e longas orelhas pendendo dos lados desta.
  • Toydarianos são baixinhos, alados e seus narizes parecem com os de antas. Um indivíduo notável desta espécie é Watto, que aparece nos Episódios I e II. Ele surpreende por ser tão pequeno e delgado e mesmo assim possuir inteligência (além de muita astúcia).
  • Os dugs não só têm o crânio pequeno como possuem uma das mais intrigantes morfologias da série de 6 filmes. Seus braços e pernas são “trocados”, ou seja, é como se em sua evolução as pernas tivessem se atrofiado (com a transformação dos pés em mãos) e os braços se superdesenvolvido (com as mãos tornadas pés). Sebulba, o piloto que desafia Anakin Skywalker no Episódio I, pertence a esta espécie.
  • Os gungans, tão detestados por parte dos fãs de Star Wars, especialmente na figura atrapalhada de Jar Jar Binks, praticamente não têm encéfalo comparável ao de um primata, mas foram capazes de construir grandes cidades no fundo do mar. A anatomia de suas cabeças é bem diversa da humana e a proporção do corpo são diferentes, com braços e pernas longos e tronco curto.

Um ithoriano

Também merece menção a raça dos ithorianos, conhecidos como cabeças-de-martelo, que aparecem como figurantes nos filmes mas têm um papel importante na série animada A Guerra dos Clones, na figura de um cavaleiro jedi. O mais impressionante nesta espécie é sua cabeça, cuja forma e anatomia extrapolam muito mais o modelo humanoide do que as outras vistas até aqui.

Ela não tem um pescoço cilíndrico sustentando uma caixa craniana, pois na verdade a cabeça e o pescoço formam uma só estrutura. Não dá para inferir onde se localizaria seu cérebro (se é que o tem), e seus olhos ficam na extremidade da protuberância que seria seu “rosto” (lembrando um tubarão-martelo). Mas seu traço distintivo mais marcante é o fato de possuir duas “bocas”, uma de cada lado da cabeça, algo que talvez não tenha nenhum precedente na fauna terrestre.

Também os hutts, espécie a que pertence Jabba, um dos vilões do Episódio VI, trazem contribuições para essa discussão. Eles não possuem membros inferiores, no lugar dos quais têm uma cauda roliça que é o prolongamento do tronco e sob a qual se arrastam quando se locomovem. O rosto é uma versão larga e achatada de um semblante humano, e os braços são curtos em proporção ao corpo. Os hutts nos levam a especular sobre a real necessidade do bipedismo para o desenvolvimento da inteligência.

Por mais que tentemos, sempre recorreremos ao mundo conhecido para fazer colagens. É a partir da natureza terrestre que os humanos extrapolam as possibilidades biológicas do universo. Mas esse é não somente um exercício mental interessante como também o início de uma reflexão mais complexa sobre a diversidade. De qualquer forma, esse exercício nos permite, mais do que a mera metáfora das relações humanas, dos choques culturais e da diplomacia, especular sobre dificuldades e desafios na comunicação e interação de espécies inteligentes realmente alienígenas entre si.

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Professor

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Como seres humanos, dependemos por natureza da presença de outros de nossa espécie para realizarmos nosso potencial mínimo, básico. Sem a presença de adultos, as crianças não aprendem a falar e dificilmente conseguirão andar. Sem a intervenção da cultura, personificada nesses adultos, o indivíduo não aprende noções e regras básicas para o convívio social. Sem esse aprendizado, o Homo não se torna sapiens.

Assim, a função de professores e educadores (e da Pedagogia) é fundamental para o desenvolvimento de indivíduos e de uma sociedade ética e democrática. Somente com um sistema (formal ou não) educacional de qualidade e igualitário é que podemos ter a difusão do conhecimento.

Cada um de nós foi acolhido no seio da humanidade ao nascer, foi alimentado com leite, afeto e palavras . Cada um de nós tem o potencial para se tornar um professor, um difusor daquilo que recebemos, dando alguma orientação às gerações seguintes.

A função daqueles que se dedicam profissionalmente à Educação não é apenas ensinar e orientar, mas desenvolver a ciência Pedagogia e explicitar sua importância, servindo de exemplo não só para educandos, mas para aqueles que já o foram e que podem atuar cotidianamente como professores e educadores em situações pontuais. Afinal, conhecimento todos nós temos, mas a arte da Didática é dominada por poucos.

Eram os Deuses Astronautas?

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Provavelmente não. Mas é fácil pensar que sim. O olhar contemporâneo antropocêntrico, eurocêntrico, enfim, etnocêntrico, interpreta as manifestações de outras culturas e épocas segundo seus próprios parâmetros e experiências. Por isso, quando Erich von Däniken pergunta “eram os deuses astronautas?”, é preciso abordar a questão de forma crítica e despojada das pré-noções de quem se atreve a investigar esse tema.

A primeira vez que me deparei com Eram os Deuses Astronautas? foi com uma velha edição de capa verde do meu pai, e este me causou a impressão de que era uma obra impressionante, que revelava uma realidade perturbadora sobre nossos passado e origem. Não cheguei a ler o livro na época. Mas há poucos anos adquiri uma edição nova e, mais interessado do que nunca sobre qualquer tema relacionado a extraterrestres, li o livro rapidamente, sem sentir o impacto que normalmente os leitores dizem sentir.

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A alma dos robôs – parte 3

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Um computador pode emular uma inteligência humana de modo visivelmente artificial. Não é difícil encontrar na internet programas que simulam um interlocutor com o qual você pode travar um bate-papo mais ou menos coerente. Mas basta aprofundar ou complexificar um pouco a conversa para desmascarar o robô e fazê-lo dizer coisas sem sentido.

A inteligência das máquinas tem uma especificidade particularmente artificial. A utilidade de um computador prescinde de qualquer traço de humanidade. Um computador e um braço mecânico de uma fábrica não precisam ser nenhum pouco parecidos com um ser vivo, e talvez fosse muito perturbador para nós se não fossem explicitamente artificiais. Esse é o tema de uma história de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, em que Data descobre que tem um irmão mais velho, Lore, que fora descartado por seu criador porque era parecido demais com um ser humano.

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A alma dos robôs – parte 2

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Desde as histórias de estátuas que ganham vida, passando por bonecos de madeira e robôs que desenvolvem consciência e sentimentos, a fantasia da passagem do inanimado para o animado está muito presente nos mitos, na literatura e no cinema. Por que os seres humanos são fascinados por personagens robóticos que buscam se tornar humanos? O que há neles com que nos identificamos tanto?

Além disso, por que essa fantasia do robô tornado humano extrapola para histórias em que as máquinas se tornam uma ameaça à humanidade, subjugando-a e invertendo os papéis do dominante e do dominado? Porque, enfim, sentimos um misto de medo e simpatia pelos robôs revoltosos, que são apenas máquinas inanimadas que deveriam servir aos seus criadores?

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A alma dos robôs – parte 1

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A evolução dos robôs segue seu caminho. Para cientistas, engenheiros e entusiastas da Ciência e da Tecnologia, há, entre outros, um objetivo claro: reproduzir com cada vez mais fidelidade a inteligência humana. Não basta, portanto, criar ferramentas supereficazes em suas tarefas autômatas, mas dar a ilusão de que as máquinas têm uma alma.

Desde a Antiguidade se contam fábulas sobre criaturas artificiais que se tornam seres vivos. Histórias sobre robôs na ficção científica têm abordado o fascínio do ser humano pela possibilidade de surgirem vida e alma das criações tecnológicas. A antropomorfização de seres inanimados não é novidade na história humana, mas quando se tratam de seres que imitam comportamentos e funções humanas, como os robôs, é muito forte a fantasia de que eles podem se tornar completamente humanos.

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Planeta dos Macacos (2001)

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Antes da homenagem e prequência prestada por Rupert Wyatt (Planeta dos Macacos: A Origem), Tim Burton lançara em 2001 sua versão heterogênea de Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, 2001), ignorando quase totalmente a cronologia dos filmes originais iniciados por Franklin Schaffner em 1968 (O Planeta dos Macacos), mas amarrando (um tanto frouxamente) certos pontos para deixar a história parecida com a do antigo filme homônimo.

O filme de Burton não merece uma resenha prolongada. Ele é muito mais uma simples homenagem do que um bom filme (aliás, não é um filme muito bom). Assim, para quem conhece a quintilogia, as referências vão fazer soar o lado nerd dos fãs, mas nada que torne a homenagem digna de uma nota alta. Porém, ele vale a pena ser visto por outros motivos, como se verá a seguir.

Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Planeta dos Macacos (2001)Título: Planeta dos Macacos (Planet of the Apes)

Diretor: Tim Burton

País: EUA

Ano: 2001

Para este que vos resenha, o maior mérito do Planeta dos Macacos de Burton, em termos do que ele representa para si mesmo, é a maquiagem do filme. Os atores que interpretam chimpanzés, gorilas e orangotangos o fazem muito bem e suas máscaras são bem convincentes (exceto no caso de algumas fêmeas que muito parecem humanas).

Nesse quesito, penso que Burton supera muito Schaffner e os produtores dos filmes originais (considerando, claro, que a maquiagem dos filmes originais era muito bem feita e representava o melhor que se podia fazer à época). Especialmente, Burton fez uma maquiagem melhor no que se refere à semelhança dos macacos fictícios com os macacos reais. Os orangotangos de Schaffner e cia. por exemplo, mais parecem chimpanzés loiros, enquanto o filme de 2001 mostra as três espécies muito bem caracterizadas e distintas.

Em termos gerais, a história de Burton coincide em alguns momentos com a de Schaffner. Há um astronauta que se perde no futuro e encontra um planeta onde macacos dominam humanos. Estes são caçados por gorilas montados em cavalos e enjaulados em carroças. Há uma sociedade símia complexa que considera que os humanos são animais inferiores sem alma. Além disso, a espécie humana é considerada extremamente perigosa, que precisa ter seus impulsos destrutivos domados e refreados. Existe um segredo cuja revelação pode desconstruir toda a crença na superioridade dos macacos, e toda evidência desse segredo é ocultada pelo antagonista (num caso, um orangotango que é ministro da Ciência; no outro, um chimpanzé que é um líder militar). Há uma chimpanzé que desafia a autoridade omissora e se alia ao protagonista humano, que consegue escapar do cativeiro e fugir do mundo dos macacos. No final, ele se depara com um símbolo da sociedade norte-americana violado pelas circunstâncias da trama.

O principal, no entanto, são os easter eggs, como certas frases subvertidas em seus contextos. Enquanto Taylor, personagem de Charlton Heston, brada para um gorila que o captura:

Take your stinking paws off me, you damn dirty ape!

[Tire suas patas fedidas de mim, seu maldito macaco sujo!]

Um gorila grunhe estas palavras para Leo Davidson (interprerado por Mark Wahlberg):

Take your stinking hands off me, you damn dirty human!

[Tire suas mãos fedidas de mim, seu maldito humano sujo!]

A cena antológica final da obra de 1968 traz a frase que ecoa até hoje:

Damn you! God damn you all to Hell!

[Malditos sejam! Malditos sejam todos vocês!]

Charlton Heston aparece no filme de Burton como um velho chimpanzé moribundo, e repete quase as mesmas palavras, referindo-se aos humanos:

Damn them all to Hell!

[Malditos sejam todos eles!]

Finalmente, entre outras coisas (para não me prolongar desnecessariamente), há a cena do beijo inter-racial entre Taylor e Dra. Zira (que não gosta muito da ideia), parodiado na cena de Davidson e Ari (que parece ter esperado, junto à expectativa dos espectadores, durante todo o filme por isso).

Ele também é um filme que tematiza a compreensão das diferenças e o respeito ao outro, mais explicitamente do que no filme original. Os humanos são vistos pelos macacos como animais, e a cena da menina humana engaiolada chorando diante de sua dona, uma menina chimpanzé contente com seu bichinho de estimação, nos faz pensar o que sente um macaquinho ou um passarinho numa gaiola. Da mesma forma, o orangotango Limbo, comerciante de humanos, experimenta a dor de ser algemado, o que contraria sua afirmação de que as algemas não machucam os humanos.

Para além de um manifesto contra a violência aos animais, essa história é um libelo pelos direitos humanos. Os macacos escravizam homens e mulheres humanas para que os sirvam como empregados, não como cães-de-guarda, o que remete à escravidão praticada entre humanos. Estes não são animais irracionais, pois pensam como os macacos inteligentes, “têm alma” (para contrariar a crença do general Thade) e deveriam merecer um lugar igual ao das três espécies dominantes de macacos.

Porém, o que fica aparente ao final é que os próprios humanos são superiores, capazes de se guiar pela razão, contornando crenças e tradições estagnantes, o que os macacos só conseguem fazer com dificuldade. Mas talvez a mensagem seja a de que os oprimidos conseguem vislumbrar mais facilmente uma realidade diferente e melhor para si, enquanto os opressores, confortavelmente instalados no topo, não têm motivos para querer mudar. Nisso humanos e macacos são iguais e, é bom lembrar, não é à toa que humanos são uma espécie de macaco.