Perda de identidade (ou: A segunda via)

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O escritor norteamericano Philip K. Dick, conhecido por ser autor de livros e contos de ficção científica adaptados com sucesso para o cinema (estão entre os filmes mais conhecidos: Blade Runner, Minority Report e O Vingador do Futuro), escreveu em um estilo que prenunciava o cenário Cyberpunk (cujo maior expoente é o famoso livro de William Gibson Neuromancer), num futuro em certa medida decadente e distópico, onde a tecnologia se funde com a vida humana como nunca. No entanto, ao contrário do que acontece à maioria dos escritores do gênero, não é a tecnologia, nem mesmo a ciência, o foco principal de suas histórias (embora se constituam parte indispensável do cenário), mas a “experiência” pela qual passam os personagens frente aos embaraços causados por essas mesmas tecnologias, ciências e condições desse mundo futuro.

O conto

No conto “Impostor”, escrito em 1953, e também adaptado para o cinema em 2002 (filme, por sinal, bem ruinzinho), a experiência é o dilema já muito explorado (mas não esgotado) por diversos autores em filmes e livros: o da crise (ou mesmo perda) de identidade do personagem. Nesse conto, a Terra encontra-se envolvida numa guerra contra Alpha Centauro em posição de desvantagem. Em determinado momento, os terráqueos conseguiram criar um campo de força ao redor do planeta, impedindo a vitória dos invasores. A história começa com os humanos trabalhando aceleradamente num grande projeto para construir uma arma que defina a sua vitória. O cientista Spence Olham, que trabalha nesse projeto, justo no momento em que se propõe a tirar suas férias, é acusado de ser um robô espião alienígena, que teria sido enviado para tomar o lugar do verdadeiro Olham e frustrar as pesquisas bélicas do planeta Terra. É acusado pelo agente Peters de ser uma espécie de robô orgânico com uma bomba em seu interior, para que explodisse o laboratório onde trabalhava.

O cientista então faz de tudo para provar que não é espião, e sim o “original”, por assim dizer. Foge da polícia, do serviço de investigação, e enfim encontra a nave alienígena, destruída, numa floresta próxima à cidade. Lá, ele mostra aos investigadores o que sobrou do robô, cuja aparência é idêntica à sua. Porém, uma segunda análise revela que aquele ali deitado é na verdade um homem morto. Cuja aparência é “idêntica à sua”.

Identidade

Pela leitura, o ponto maior da história não é o fato de a Terra estar em guerra com uma raça alienígena, nem a pressa na construção de uma tecnologia bélica para derrotar o inimigo invasor. Na verdade, o conto começa com a vontade do cientista em tirar férias, cansado de toda essa história de guerra e pesquisas. O ponto maior é justamente a experiência desse cientista frente à situação em que se encontra diante de todos esses fatos: “serei eu um robô?”.

Uma das primeiras informações que Spence recebe do agente de investigação é de que, por mais que ele tenha dentro de si a certeza de sua identidade, tal certeza nada mais é do que o fruto de memórias implantadas. Enquanto cópia perfeita do verdadeiro cientista, o protagonista tem as certezas, lembranças e sentimentos perfeitamente clonados do verdadeiro Spence Olham. Na prática, a única diferença entre ele e o “original” é uma bomba dentro de seu corpo.

A experiência é interpretada, nesse caso, como uma coisa estranha. No íntimo, a confiança de uma pessoa em sua própria memória é tão inviolável que ela a usa para criar sua própria identidade e história pessoal. Spence a usa com toda a força que tem para inocentá-lo da acusação de ser um espião (afinal, ele possui essa certeza de não ser o que o acusam ser). Ancoramo-nos nela, na memória, para entender quem somos, afinal, onde mais buscar qualquer informação sobre si além de si? Colocá-la em dúvida, além de traumático, criaria uma crise que colocaria a pessoa em parafuso.

Embora nem o conto nem a adaptação para o cinema aprofundem bem o tema, muitas outras histórias de Philip Dick flertam com questionamentos de identidade. Esse tema está presente também num filme protagonizado por Arnold Schwarzenegger, O Sexto Dia (lançado no ano 2000), em que um clone do protagonista entra em crise ao descobrir que não é o “indivíduo original”.

Para além das tecnologias futurísticas e das civilizações interplanetárias, a ficção de Philip Dick se interessa muito mais pelo universo interior dos personagens, pelo nosso universo interior, humano, e nos põe contra a parede: aonde chegaremos frente a um mundo em constante transformação, rumo a uma situação completamente inesperada?

Evidente que, no fim do conto, ele explode.

Proibição da circuncisão e choque cultural

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Fonte: Wikimedia Commons

O fato de a Alemanha ser considerada o “país do Holocausto” (alcunha reducionista, mas que provoca as sensibilidades de muitas pessoas) justifica a polêmica em torno do debate sobre a proibição ou não da circuncisão, tradição milenar da cultura judaica. Se fosse em qualquer outro lugar do mundo, a repercussão seria bem menor.

Provavelmente essa proibição não vai ocorrer, pois a pressão internacional é grande. Felizmente, o relativismo cultural é minimamente compreendido em âmbito mundial, e uma imposição que implique na criminalização de uma prática intrinsecamente ligada à identidade de um povo é uma violência de enorme proporção.

As tradições de um povo fazem parte do substrato cultural (material e imaterial) que mantém coesa sua identidade étnica e sua própria existência enquanto grupo. Proibir um povo de praticar sua tradição é uma violação de seus direitos, ainda mais considerando que a prática em questão não prejudica a outros senão eles próprios (se é que prejudicam).

No entanto, há práticas tradicionais que se chocam com as leis das nações em que se encontram, como é o caso das mortes de crianças com deficiências físicas, praticadas por alguns povos indígenas. A mutilação de crianças, como é o caso da circuncisão, se choca com a pauta dos Direitos Humanos, mas os judeus podem considerar prejudicial,  para a criança, para a família e para seu povo, a impossibilidade de realizar um ato que, para eles, é um sinal de aliança com seu criador.

Em geral, não há um consenso sobre se a circuncisão masculina é benéfica, maléfica ou neutra para o homem circuncidado. Alguns defendem seus benefícios, baseando-se em pesquisa que mostra a menor probabilidade de contrair o vírus HIV, além de proporcionar uma menor tendência à ejaculação precoce. Esta adviria do fato de, sem a proteção do prepúcio, a glande perderia sua sensibilidade com o atrito constante com as roupas íntimas, além do que o próprio prepúcio é erógeno. Este é o motivo pelo qual alguns são contrários à circuncisão, comparando-a aos efeitos da infibulação feminina. (Aviso logo – tendo em vista a grande probabilidade de alguém mencionar isso nos comentários – que não discorrerei neste texto sobre a retirada dos clitóris de meninas, pois acho que daí se desenvolvem outros assuntos – posteriormente, talvez eu complemente a discussão deste texto com outro artigo focado na “circuncisão feminina”.)

Assim, podemos considerar que, sendo elencadas vantagens e desvantagens da circuncisão, ela é neutra, não representa, no balanço de suas consequências médicas, nem um malefício nem um benefício em si mesma. Mas isso tudo não a exime de ser uma mutilação da integridade física do indivíduo. Ela é uma mutilação tanto quanto o é a extirpação do clitóris (embora as consequências fisiológicas desta sejam piores).

Neste sentido, por mais que tenhamos que defender costumes alheios aos nossos, vale também notar que muitos deles servem como uma marca da dominação da cultura sobre o indivíduo. Todo judeu circuncidado tem em si um sinal de sua ligação inexorável com as tradições de um povo, por mais que estas sejam retrógradas e por mais que ele delas discorde. É o mesmo princípio das tatuagens ou escarificações ostentadas por vários povos tribais. É, inclusive, o mesmo princípio do ritual de furar as orelhas da recém-nascida, mutilação que manterá em seu corpo a marca de uma certa identidade feminina e a fará lembrar para sempre que, como mulher, ela é “naturalmente” fútil e vaidosa.

Link

‘Circuncisão proibida no país do Holocausto’ – Carta Capital

Fontes das imagens

Terminartors

Wikimedia Commons

“A Teia vai nos unir”

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Na última sexta-feira, dia 28 de janeiro de 2011, Miguel Nicolelis ministrou uma palestra, a convite do Movimento dos Blogueiros Progressistas, no Auditório da Livraria Siciliano do Shopping Midway Mall (Natal/RN). Nicolelis aderiu recentemente ao Twitter, onde sofreu a dificuldade de provar que ele é o neurocientista Miguel Nicolelis, e sugeriu que sua palestra tivesse o título “Eu juro que eu sou eu”.

Tomando como ponto de partida sua recente experiência com o Twitter, Nicolelis falou sobre Ciência, democracia, redes sociais e de como o caráter libertário de cada um desses elementos pode convergir para um mundo novo e melhor. Abaixo, segue o registro de cerca de 20 minutos (de uma palestra que durou 40), seguido de breve comentário.

Identidade

A identidade é um valor caríssimo na modernidade ocidental. Porém, ela se reveste de um caráter opressor quando o que temos são classificações impostas pelos valores sociais e quando certas coisas como etnia, classe social, sexo/gênero e fenótipo estão imbuídas de significados pré-estabelecidos.

As redes sociais virtuais, que servem de máscaras para a maioria das pessoas, paradoxalmente permitem que demonstremos um “eu” muito mais complexo do que aquele que apresentamos no cotidiano e que é baseado em um conjunto de preconceitos e expectativas a respeito de nosso sexo/gênero, nacionalidade, profissão, “raça”, etnia e idade, entre outros aspectos.

Nicolelis cita seu próprio exemplo, mostrando que o fato de ser cientista não quer dizer que uma pessoa tenha que se limitar a viver 100% de sua vida pensando, sentindo e fazendo Ciência. Cada um de nós é uma complexa teia de identidades, as que nos são impostas, as que se desenvolvem a partir de nossas experiências e a que escolhemos para nós mesmos.

Porém, pouco interessa quem queremos ser ou o que os outros querem que sejamos. Para o mundo à nossa volta, que inclui milhares de pessoas que não conhecemos pessoalmente, importam muito mais nossas ações e o resultado positivo delas para o máximo de pessoas possível.

Democracia do conhecimento

As redes sociais trazem uma possibilidade libertária para que todos participem da produção, desenvolvimento e divulgação do conhecimento. Blogs, microblogs, fotologs, videologs, comunidades e grupos de discussão permitem que o papel divulgador de notícias e saberes não se limite às pessoas encarregadas socialmente desse papel, sejam jornalistas, filósofos, sacerdotes ou cientistas.

O monopólio da notícia e do saber não apenas cai por terra, como expõe, através dos múltiplos agentes civis que noticiam em primeira mão os fatos que veem ao seu redor (e com os quais às vezes estão envolvidos diretamente), através de câmeras de celular e mensagens de 140 caracteres que podem ser vistas em todo o mundo, quanto a mídia hegemônica e os nichos acadêmicos estão corrompidos por interesses mesquinhos.

Além disso, a facilidade com que cada um pode divulgar sua visão dos fatos, bem como a distância global que essa divulgação alcança, permite que a participação no debate internacional não seja unilateral, pois, se os meios de comunicação podem escolher divulgar ou não as respostas às suas matérias, essas respostas podem ser disponibilizadas e acessadas com muito maior alcance através da internet. O direito da liberdade de expressão assim se faz muito mais efetivamente e tem resultados democráticos muito mais autênticos.

A grande Teia Neuronial

Nicolelis usa (em minha opinião, muito apropriadamente) a palavra “teia” para substituir aquilo que costumamos chamar, em linguagem da internet, “rede”. É, de fato, a tradução literal de “web” e se coaduna melhor com as características, apontadas por Nicolelis, de ser uma realidade que se espalha mas, por causa dos inúmeros fios e conexões, não pode ser quebrada.

Além disso, é uma teia que se constrói segundo suas próprias regras, segundo a própria experiência coletiva que a tece e que não é ditada por autoridade alguma a não ser aquela da democracia que faz a si mesma. A teia é também o lugar em que a identidade criada por cada um e utilizada para interagir (e aqui temos outro paradoxo) não importa tanto quanto se sentir pertencente a uma realidade maior do que nós e o resultado de nossas ações para o conjunto daqueles que formam essa teia.

A importância da Ciência (e eu não me resumiria apenas à Neurociência, mas daria também uma atenção especial às Ciências Humanas) para o reconhecimento de que todos os seres humanos existem na condição da isogênese é crucial para entendermos quão importante é a participação igualitária dentro dessa teia, num exercício de democracia virtual.

Cada um de nós, como nossas teias neuroniais individuais, criamos sinapses com outras teias, construindo uma Teia maior e mais significativa em que cada um de nós é importante perante os outros e (outro paradoxo) não tão importante quanto a coletividade. A Teia pode, enfim, ser vista como um embrião da verdadeira democracia pura (em que cada um representa a si mesmo), que almejamos utopicamente desde a Antiguidade e que ainda não conseguiu ser realizada neste planeta.

Adendo (30/01/2011 e.c.)

Esqueci de colocar um link para o blog Blogueiros Progressistas do RN, dos responsáveis pelo evento. Veja aqui o post deles, em que fazem um bom resumo do que foi discutido:

Resposta a um comentário

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Há alguns dias, publiquei um texto sobre casamentos de homossexuais. Analisei, na ocasião, o discurso do padre/deputado José Linhares, que alterou um projeto de lei que regulamenta a união estável, excluindo desta os homossexuais. O que moveu o padre Linhares a fazer isso foi uma visão católica e não uma noção democrática da questão.

Meu texto foi bastante comentado (um dos mais comentados até hoje na Teia). Tive o prazer de, inclusive, receber acréscimos de pessoas que nunca haviam comentado ou que só o haviam feito pouquíssimas vezes. Entre elas, o mais contundente foi AmBar Amarelo, que apresentou uma posição diferente da maioria (inclusive da minha) e suscitou reações de outros comentaristas.

Roy e Silo

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