Filmes para crianças – parte 1

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Há algum tempo, recebi uma sugestão da leitora Roseana da Penha Oliveira de apresentar sugestões de filmes para ser usados em sala de aula, para um público infanto-juvenil, crianças e adolescentes, e resolvi pensar numa relação de obras cinematográficas que foram importantes para minha infância, adolescência e mesmo adultidade, que possam servir para instigar a mente de estudantes jovens.

Este post é direcionado especialmente para adultos que estejam buscando filmes para seus filhos, sobrinhos, netos, filhos de amigos etc., e pretendo que seja encarado como um miniguia. As crianças e adolescentes que se sentirem à vontade para ler as resenhas (de preferência depois de ter visto os filmes, para não estragar a surpresa), estão convidados à leitura e a comentar, se quiserem.

Nessa primeira parte, abordarei alguns filmes de fantasia, que levam o espectador a um outro mundo distante e diferente, de modo a seduzi-lo e levá-lo a pensar em situações de sua própria realidade. A alegoria fantástica serve para refletirmos sobre o mundo real.

A título de esclarecimento, não considero que estes filmes sejam exclusivamente para crianças e/ou adolescentes. Eles são uma boa diversão para os adultos despojados do preconceito de que há uma barreira inquebrável entre filmes “maduros” e “infantis”. Aliás, sugiro que os filmes sejam vistos pelas crianças na companhia do adulto responsável. Isso torna a experiência ainda melhor.

Agradeço a colaboração de Rúbio Medeiros e Betânia Monteiro na elaboração deste texto. Seus insights e sugestões sobre os filmes foram imprescindíveis para tornar estas resenhas mais significativas.

Finalmente, dedico a série de posts Filmes para Crianças aos seguintes infantes (em ordem decrescente de idade): Diego Leite, já não tão infante, irmão com quem compartilhei alguns filmes na tenra idade; Naninha Leite, irmã mais nova, a quem acompanhei na apreciação de algumas obras cinematográficas significativas; Arthur Medeiros e Brunna Monteiro, filhos de amigos, cinéfilos que me ajudam a corroborar a qualidade de alguns filmes; e Paulinho Mota, “neto-enteado”, pequenino cuja trajetória na cinefilia tenho observado de perto.

Em Busca do Vale Encantado (The Land Before Time)

Em Busca do Vale EncantadoDireção: Don Bluth

País de origem: Estados Unidos

Ano: 1988

Littlefoot (Pé Pequeno) é um um filhote de dinossauro pescoçudo (apatossauro), nascido durante uma grande escassez de alimento, quando diversas manadas de várias espécies de dinossauros empreendenram uma marcha conjunta em busca de um mítico lugar chamado Vale Encantado.

Ele aprende desde cedo que as espécies não se misturam, e é proibido de brincar com Saura, uma filhote de tricorne (tricerátops). No entanto, a caminhada é tragicamente afetada por um choque de placas tectônicas, que separa vários filhotes de suas famílias.

Littlefoot assiste à morte de sua mãe, ferida numa luta contra um tiranossauro, e se encontra sozinho, desolado e desamparado. No entanto, o encontro com outros filhotes perdidos o reanima a continuar a busca pelo Vale Encantado. Ele se junta a Saura, Patassaura (uma saurolofo), Petrúcio (um pteranodonte) e Espora (um bebê estegossauro) para formar uma pequena manada mista em busca do destino antes almejado por seus pais. Eles contrariam assim a sabedoria aprendida dos dinossauros adultos de que as espécies diferentes não fazem nada juntas.

Apenas quando trabalham juntos, os pequenos dinossauros conseguem vencer o tiranossauro e encontrar o Vale Encantado, onde todos se reúnem a suas famílias novamente.

Os pequenos dinossauros são muito bem representados e agem como crianças verossímeis, com sua curiosidade, distração, conflito com a geração dos pais, solidão e necessidade do outro, frustração,  impotência, ressentimentos, culpa e perdão. Fica muito fácil se identificar com qualquer um deles e aprender com sua experiência, mesmo que fictícia.

Esse filme inspira o universalismo ao propor que as barreiras identitárias (de espécie, de raça, de nacionalidade, de gênero) sejam rompidas em prol de um bem maior, que abranja a todos os envolvidos. A amizade é mostrada como um valor que transcende essas pequenas diferenças.

A obra aborda

  • autossuperação,
  • tolerância,
  • perdão,
  • amizade,
  • cooperação e
  • perseverança.

 

A Viagem de Chihiro (千と千尋の神隠し Sen to Chihiro no Kamikakushi)

A Viagem de ChihiroDireção: Hayao Miyazaki

País de origem: Japão

Ano: 2001

Chihiro é uma garota mimada, sempre reclamando das vicissitudes de sua vida. Enquanto viaja com seus pais para um novo domicílio em outra cidade, eles descobrem a entrada de um estranho santuário que mais parece um parque de diversões temático abandonado.

Os pais de Chihiro entram num restaurante aparentemente deserto e se sentam a uma mesa servida com farta comida, refestelando-se à vontade até se transformarem em porcos. À medida que anoitece, Chihiro vê espíritos (kami) aparecer por toda parte e os diversos prédios começarem a funcionar, como se o dia estivesse amanhecendo para os deuses e entidades que ali habitam.

Ela recebe ajuda de alguns dos espíritos da casa de banhos da bruxa Yubaba, entre eles Kamaji, um velho que aquece as caldeiras das banheiras, Lin, uma mulher que trabalha na limpeza da casa, e Haku, um menino-dragão, aprendiz de Yubaba. Com essa ajuda, ela começa a trabalhar na casa de banhos, tendo seu nome aprisionado por Yubaba e passando a se chamar Sen. Muito atrapalhada, ela se envolve em vários problemas que vai tentando resolver no decorrer de sua trajetória.

Seu primeiro grande êxito é limpar um deus-rio, que está tão poluído com lixo que é confundido de início com um espírito do mau cheiro. Ela percebe isso e consegue, com a ajuda dos outros empregados e da própria Yubaba, “arrancar” toda a sujeira, revelando a face límpida do deus, que recompensa a todos com ouro.

O segundo desafio é enfrentar o Sem-Face, um espírito desamparado que, para chamar atenção de Chihiro, começa a oferecer ouro falso a todo mundo, e começa a engolir alguns dos empregados, tornando-se maior e mais poderoso. Ela consegue reverter tudo e levá-lo consigo para a casa de Zeniba, a irmã gêmea bondosa de Yubaba, junto com mais dois amigos, o bebê de Yubaba e uma ave espiã da bruxa.

Quase todos os personagens que vêm a ser seus amigos provocaram medo nela no primeiro contato, mas ela consegue enxergar o ponto de vista de cada um deles, compreendê-los e superar seu medo. A amizade que Chihiro constrói com todos esses personagens, Haku, Kamaji, Lin, Sem-Face, o bebê e a ave, é importante para que ela supere todos os desafios e finalmente consiga se libertar de Yubaba e ter seus pais de volta. Ao final, ela está bem mais madura do que a menina chata do início.

A obra aborda

  • responsabilidade,
  • maturidade,
  • ecologia,
  • amizade e
  • superação do medo.

 

A História sem Fim (The Neverending Story)

A História sem FimDireção: Wolfgang Petersen

País de origem: Estados Unidos e Alemanha

Ano: 1984

Baseado num livro alemão do autor Michael Ende, o filme conta a história de Bastian, um garoto que, para fugir dos colegas encrenqueiros e da angústia de ter perdido a mãe, se refugia na literatura fantástica. Certo dia, ele descobre na mesa de um livreiro um misterioso volume com o título A História sem Fim, e o “pega emprestado” para ler no porão da escola no horário da aula.

A história que Bastian lê passa para o primeiro plano, mostrando o poder da imaginação do menino e convidando o espectador a fazer o mesmo. É a história de um mundo mágico chamado Fantasia, cuja imperatriz, que é uma menina, está doente. Seu estado afeta todo o reino de Fantasia, e sua morte significaria o fim desse mundo. O responsável por essa situação é um monstro chamado Nada, que está aos poucos destruindo Fantasia.

A primeira cena mostra alguns personagens pitorescos, como um gigante de pedra amedrontador que se mostra bondoso e pacato e uma lesma que corre como um cavalo de corrida. Essas surpresas dão início a um tema recorrente na história: ninguém é o que parece à primeira vista.

O herói da história é Atreyu, um menino indígena guerreiro cuja missão é enfrentar o Nada. Ele empreende uma longa viagem em que conhece vários personagens que o ajudam no caminho. Sua pior vicissitude é a perda de seu amado cavalo. No entanto, ele encontra um dragão que passa a ser seu companheiro. Ao final, enfrenta o Nada, mas este termina por devorar toda a Fantasia.

Em alguns momentos da história, Bastian percebe que sua leitura interfere no andamento da narrativa. Quando enfim Fantasia é destruída, ele dá um nome à Imperatriz Menina, única forma de salvá-la a ao seu reino. Ele então se depara com ela e com a recém-restaurada Fantasia.

O Nada representa o crescente abandono da imaginação pela contemporaneidade, a racionalidade extrema que aos poucos a destrói. Ao mesmo tempo, ao se depararem com o fim de seu mundo, os habitantes de Fantasia mostram quão importante é zelar pelas coisas ao nosso redor.

O filme tem uma estrutura em camadas recorrentes. Em outras palavras, a criança que a ele assiste se identifica com Bastian, que por sua vez se identifica com o herói do livro que lê, Atreyu. Assim, o espectador experimenta sutilmente a identificação com diferentes aspectos de sua personalidade, alguns mais profundos do que outros.

Este filme é especialmente indicado para crianças que já começaram a ler, pois mostra a relação entre leitura, imaginação, especulação, reflexão, criação (Bastian é ao mesmo tempo leitor e autor da História sem Fim) e, enfim, o prazer da leitura.

A obra aborda

  • preconceito,
  • bibliofilia,
  • imaginação,
  • destino,
  • missão de vida,
  • superação e
  • coragem.

Para adquirir os filmes

Coleção de sinapses 13

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Esta semana, jogadores de video games descobriram que têm sonhos mais criativos do que os outros, vimos logomarcas muito criativas, enquanto Diderot fala da falta de criatividade dos usuários da internet. Os Thundercats disseram Hello! num crossover engraçadinho e alguns posters cinematográficos voltaram aos anos 60 num crossover temporal.

Uma artista usa a Ótica para recriar obras de arte e o Estatuto da Igualdade Racial foi recriado e aprovado. O Cinema e a Antropologia nunca mais foram os mesmos depois de Rouch e a Literatura nunca mais foi a mesma depois de Saramago. Vimos belas imagens do espaço, descobrimos que as noções de espaço e número surgem muito cedo na infância humana e o trauma de infância de Bruce Wayne dá ensejo a 2 fan films excelentes do Batman.

Video Gamers Can Control Dreams, Study Suggests – LiveScience

Pela minha própria experiência de “gamer”, sei que os jogos eletrônicos ajudam a melhorar o campo visual. Sempre joguei video game, desde os 8 ou 9 anos de idade, e, depois que tive sérias complicações na visão, passei a jogar certos jogos que exigiam mais atenção visual, o que me ajudou a enxergar melhor. Também noto que tenho muita facilidade de lidar com sonhos perturbadores e de perceber, durante o sono, que são sonhos.

Golada de 50 logos inspiradores – Design on the Rocks

Misturar imagens, imagens com letras e letras com letras exige muita imaginação e criatividade. Eis um bom exercício de percepção e inventividade. Dá vontade de sair inventando logos…

Logos criativas e inspiradoras

Blog do Diderot – Blogs do Além

Li este “blog” quando estava me questionando sobre a dispersão causada pela enorme quantidade de informação encontrada na internet e como ela afeta a capacidade de criar novos conteúdos. Simplesmente o tempo disponível para escrever fica reduzidíssimo se nos deixarmos levar pelos infinitos hyperlinks. O efeito colateral que sinto é que, quando estou escrevendo um novo texto para a Teia, tenho a impressão de estar perdendo novas notícias que aparecem o tempo todo na internet…

Hello Thunderkitties – Flickr

Acho legal todo crossover bem feito. Aqui vemos como o estilo e a forma são essenciais para caracterizar certos personagens. O aspecto ferino e heroico dos Thundercats se perde quase totalmente nessas imagens, assim como a Hello Kitty! perderia sua fofura se fosse desenhada no estilo dos Gatos do Trovão.

Posters de filmes atuais ao estilo noir – Getro

Da mesma forma que os crossovers fazem perder certos aspectos de ambos os universos cruzados, colocar um filme contemporâneo num cartaz dos anos 60 mostra uma disparidade. A forma dos cartazes dos anos 60 já diziam muita coisa sobre a concepção de Cinema da época, assim como os dos anos 90-00 são uma forma de sentir antecipadamente seus filmes correspondentes.

Timothy Lin

When spools of thread become ART-masterpieces by Devorah Sperber – Yatzer

Vejam o vídeo no link e confiram o processo de criação das obras de Devorah Sperber. É um trabalho mental fenomenal, que mexe com as percepções, a Ótica a formação de imagens mentais. É extrapolar a experiência visual.

Devorah Sperber

Senadores aprovam Estatuto da Igualdade Racial, mas retiram cotas – Correio Braziliense

Esse Estatuto tem dado o que falar entre militantes dos movimentos sociais e acadêmicos das Ciências Humanas. Só o tempo dirá se as mudanças feitas na proposta inicial do senador Paulo Paim serão suficientes para não caracterizar o Brasil como uma nação racializada e para realmente servir na luta contra o racismo. Em breve, um post mais detalhado…

O legado realista de Jean Rouch – Tribuna do Norte

O olhar do cineasta pode revelar muito do seu etnocentrismo. Ao combinar o uso da câmera com um olhar antropológico, Rouch dá novas perspectivas não apenas aos aos seus colegas, mas também aos cientistas sociais.

NASA Astronauts on Extraterrestrial Life – The Daily Galaxy

Pena que não há mais informações a respeito. Mas que é intrigante, isso é…

Morre o escritor português José Saramago – O Globo

Saramago revolucionou a literatura da língua portuguesa não apenas com novas abordagens de conteúdo, temática e narrativas, mas também na forma, abolindo exclamações e interrogações, por exemplo, e estendendo os parágrafos por páginas e páginas… Só li dele O Evangelho Segundo Jesus Cristo e uns techos do último, Caim, e foi suficiente para sentir que ele fará falta. Vou tentar escrever algo sobre o escritor português nos próximos dias.

Image of the Day -The Mysterious Beauty of a Supernova Embryo – The Daily Galaxy

Image of the Day: Galaxy X – The Daily Galaxy

Image of the Day: A Brilliant Island Universe -How Many Twin Earths Exist Here? – The Daily galaxy

Image of the Day: Red Monster of the Milky Way – The Daily Galaxy

Como disse meu amigo Dyego, “imagens do espaço rule”!

NGC 4725

NGC 253

V385 Carinae

New Study Shows Human Infants Grasp Number, Space and Time Concepts – The Daily Galaxy

Novas descobertas sobre a cognição humana. Noções matemáticas de quantidade e espaço aparecem desde muito cedo no desenvolvimento humano. Somos mais espertos do que muitas vezes queremos admitir.

Veja agora fan film incrível de Batman! – Jovem Nerd News

Dois curtas muito bem feitos com o Homem-Morcego, feitos por um estúdio amador com qualidade nada amadora. Foram bem fiéis ao espírito dos quadrinhos, tanto na construção da trama (especialmente no segundo vídeo) quanto na exemplar caracterização dos personagens (com destaque para o Coringa).


CITY OF SCARS
Enviado por Batinthesun. – Temporadas completas e episódios inteiros online

Babies

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Está previsto para estrear em 2010 o filme Babies (Bebês), um documentário dirigido por Thomas Balmes, não muito conhecido, mas suspeito que esteja prestes a dar uma (no mínimo pequena) guinada em sua carreira cinematográfica com esse que promete ser um belo filme e que já está fazendo algum sucesso na internet.

A premissa do filme é simples e muito interessante: acompanhar o desenvolvimento de quatro bebês recém-nascidos, desde o nascimento até o primeiro aniversário; cada criança nasce e vive num lugar diferente da Terra: Ponijao é de Opuwo, na Namíbia; Mari é de Tóquio, Japão; Bayar é de Bayanchandmani, Mongólia; e Hattie é de San Francisco, EUA.

Embora haja muito poucos detalhes disponíveis sobre essa obra, basicamente detalhes de produção e um trailer divertido, podemos adiantar alguns pensamentos a respeito, pelo menos, da ideia de se fazer um documentário com essa criativa premissa.

O trailer já deixa evidentes os dois aspectos opostos e complementares que apreendemos da visão de quatro crianças de diferentes culturas: as semelhanças e as diferenças.

A cena de dois bebês africanos brigando é muito familiar para nós do Ocidente. Quando brincam com animais, todos os bebês têm algo em comum, uma mão desajeitada explorando com audácia a parte animada do mundo. Ao rastejar, engatinhar e enfim caminhar, qualquer bebê mostra que todos nós temos um início de trajetória parecido na vida (além de nos ensinar a origem comum da espécie humana, descendente de vertebrados reptilianos que se tornaram mamíferos quadrúpedes e enfim primatas).

Mas ao mesmo tempo vemos que os seres humanos têm que ser reconhecidos pela singularidade dos grupos e indivíduos. No trailer, podemos vislumbrar, neste aspecto, apenas detalhes que diferenciam o ambiente em que vive cada criança, coisas que em cada lugar servem aos mesmos propósitos básicos da vida humana. Certamente, vendo o filme completo, poderemos enxergar melhor os aspectos locais que determinam o desenvolvimento de um caráter cultural específico, e essa será a parte mais interessante, pois tocará num ponto antropológico fundamental.

Para concluir, gostaria de apresentar uma preocupação epistemológica que pretendo levar comigo para a sala de cinema (ou para minha TV, quando tiver o DVD), que diz respeito a uma abordagem corrente segundo a qual, observando bebês, poderíamos perceber aquilo que é cultural e distingui-lo daquilo que é biológico no Homo sapiens, como se um recém-nascido estivesse na condição de tabula rasa.

Em condições normais, todo ser humano anda, mas não aprende a andar sozinho; todo ser humano fala, mas não aprende a falar sozinho; todo ser humano estabelece relações com outros seres, mas essas relações estão regidas por regras culturais específicas que só podem ser aprendidas através dessas próprias relações. Enfim, observar bebês nos primeiros estágios de vida não nos permite apreender de forma óbvia aquilo que é universal (que tanto pode ser biológico como cultural) daquilo que é específico (tanto em relação à cultura específica que identifica os conterrâneos quanto às experiências pessoais que tornam cada indivíduo único).

Estou inclinado a considerar que aquilo que há de comum em todos os seres humanos é um amálgama entre condições biológicas e condições culturais. A cultura é a natureza humana e a natureza humana é resultado da cultura. As Estruturas Antropológicas do Imaginário, de Gilbert Durand, ajuda a vislumbrar como uma coisa mexe na outra. O que quero dizer com isso tudo é que o documentário Babies provavelmente servirá mais para nos trazer insights sobre essas questões do que evidências para uma teoria.

Anyway, há alguma coisa em nós, seres humanos (talvez o haja em outras espécies), que nos faz ficar encantados com as feições infantis de um filhote de Homo sapiens (e de outros filhotes também). Só isso já proporcionará uma experiência agradável para os espectadores desse documentário. Bebezinhos fofos…

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O Chinês Americano [Resenha]

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O Chinês AmericanoHá uma lenda chinesa que conta a história de Sun Wukong, o Rei Macaco. Nascido de uma pedra, ele empreende uma busca de autoaprimoramento, pela qual tenta se tornar cada vez mais poderoso e provar que pode se igualar aos deuses, mas acaba se obrigando a negar sua natureza, o que o leva à necessidade de uma busca espiritual.

Jin Wang é um menino de ascendência chinesa nascido nos EUA. Neste contexto, ele é estigmatizado e luta entre a necessidade de ser feliz e a urgência de se adaptar a um meio no qual ele é pária. O contrário acontece com Danny, que é americano e se vê às voltas do embaraço causado pela visita do primo chinês Chin-Kee. As três histórias estão mais interligadas entre si do que parece à primeira vista.

O Chinês Americano é uma história em quadrinhos escrita e desenhada pelo norte-americano de origem chinesa Gene Luen Yang. Trata, numa linguagem simples, singela e profunda, de racismo, xenofobia, bullying, autoaceitação, crises de identidade e outros temas. Tendo, aparentemente, aspectos autobiográficos, possui um viés infanto-juvenil que, no entanto, não tira o interesse do público adulto.

Recontando uma lenda antiga

Pintura do Palácio do Verão em Beijing, mostrando cena da Jornada ao Oeste

Gene Yang reconta a Jornada ao Oeste, clássico épico chinês cujo protagonista é Sun Wukong, o Rei Macaco. Este personagem é tão importante no imaginário do Extremo Oriente que serviu de inspiração para Akira Toriyama e seu Son Goku, protagonista de Dragon Ball.

O Rei Macaco buscando aprimoramentoA história do Rei Macaco é uma alegoria da busca pela própria natureza. Ele inicia sua jornada tornando-se um mestre em várias técnicas espirituais, como voar em cima de uma nuvem e lutar com grande força e habilidade. Para a desgraça dos deuses, ele dá uma surra em todo o panteão depois de ser recusado a entrar numa festa.

Sua busca por aprimoramento continua, mas agora com outra motivação. Ele quer ser indestrutível como o deuses e ser aceito como um. Passa a calçar sapatos e, dominando a técnica da metamorfose, assume aspecto humano. Apesar disso, nunca consegue esconder que é um macaco, pois seu rosto ainda é de símio.

Quando finalmente se depara com a entidade mais poderosa do universo, o criador de tudo, este o ensina algumas coisas sobre autoaceitação e arrogância. Só depois de muitos séculos é que o Rei Macaco vai perceber que poderia ter saído debaixo da montanha de pedras simplesmente assumindo sua forma original e pequena de macaco. Ao ser chamado como discípulo de um monge, este lhe diz que não precisará dos sapatos em sua nova jornada.

Os outros entre nós

Jin Wang é um menino norte-americano cujos pais são chineses. Suzy Nakamura é sua colega de classe, cuja origem é japonesa. Wei-Chen é seu melhor amigo, e veio de Taiwan. Todos eles são “orientais” para os colegas de escola e, portanto, são todos iguais. Pior, são culturalmente atrasados e têm sorte de estar vivendo na América.

Danny recebe Chin-KeeMas têm o enorme azar de ainda serem “orientais” e, portanto, diferentes, e não podem participar da vida comum aos alunos “brancos”. Por mais que dominem o inglês, por mais que incorporem o american way of life, por mais adaptados que estejam, não conseguem realizar os desejos comuns a todo jovem norte-americano de sua idade sem que renunciem à própria liberdade de serem quem são.

Para Danny, norte-americano, o maior embaraço é ter que acolher todos os anos seu primo chinês Chin-Kee, que mal sabe pronunciar a língua inglesa, que é extremamente estudioso e sempre responde certo às perguntas dos professores, que é bastante desengonçado quando tenta dançar músicas ocidentais, que tem modos bizarros ao se alimentar e, talvez o pior de tudo, tem costumes bárbaros quando se trata de cortejar as meninas.

Abrindo a obra

O interessante na história do Rei Macaco não é “aprender a aceitar quem nós somos e nos manter fiéis a isso pela eternidade”. Afinal, todos nós mudamos com o passar do tempo e das experiências. Porém, precisamos aprender os limites dos autossacrifícios, que podem muitas vezes nos fazer sofrer mais do que a situação em que somos párias. Por que querer ser humano, se o que me faz realente feliz não pode ser apreciado por um ser humano?

Da mesma forma, o drama de Jin Wang é enfrentar o racismo. Ele chega ao ponto de achar que só se tornando um norte-americano (ou seja, um branco, já que, na ideologia norte-americana, nem índios nem negros nem imigrantes se enquadram nessa categoria) poderá ser feliz.

A lição de que temos que aceitar nossas origens é previsível e um tanto simplória. Como disse acima, podemos mudar se isso for melhor para nós. Mas a profundidade filosófica do conto é a de que o mundo (formado ao mesmo tempo pelo espaço e pelas pessoas que o habitam) precisa aceitar as diferenças idiossincráticas como singularidades e não como defeitos.

E temos surpresas quando nos deparamos com as diferentes facetas dos personagens. Nennhum deles pode ser critalizado pela primeira impressão que temos deles. No final, não se os pode classificar simploriamente como bons nem maus.

Amarrando a trança

As três tramas têm elementos em comum, relativos ao tema do preconceito, da autoestima e da autoaceitação. Mas também elas se entrelaçam, e cada uma das três passa a ter um significado diferente depois que percebemos essa ligação. Três peças bem construídas passam a formar uma obra maior e bem-feita.

Crash: no LimiteOutra proeza  de Yang é abordar as três histórias com três estilos narrativos diferentes. A primeira tem um aspecto épico e poético, com elementos de ação e emoção que remontam ao mesmo tempo a um drama e a uma história de super-herói. A segunda se apresenta como um drama, quase um melodrama com aspectos trágicos. E a terceira é uma comédia, uma paródia dos sitcoms televisivos norte-americanos, que satiriza a forma como os meios de comunicação de massa utilizam os estereótipos étnicos para fazer humor.

Tanto o entrelaçar de histórias como a quebra de expectativa em relação aos personagens lembram o excelente filme Crash (2004), de Paul Haggis, cujo principal tema é racismo e xenofobia. O mérito de O Chinês Americano, como o de Crash, é iludir o expectador e fazê-lo experimentar, na própria degustação da obra, os sentimentos dos personagens ao descobrir as consciências pensantes por trás das máscaras das etnias, das raças ou das espécies.