Star Wars VII: uma renovada esperança

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28 de novembro de 2014 e.c. foi marcado pelo lançamento do primeiro teaser trailer de Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força. O curto vídeo provocou comoção geral na internet e muitas especulações sobre o papel de cada personagem que aparece em tela e os lugares/planetas onde eles se apresentam.

Pessoalmente, fiquei bastante empolgado com o trailer, graças em parte, talvez, por ter mantido as expectativas bem baixas, tendo em vista o retrocesso que foi a nova trilogia, o fato de a franquia agora pertencer à Disney e o filme ser dirigido por J. J. Abrams, que, na minha opinião, dilapidou Star Trek em seus dois últimos filmes. Mas o trailer traz uma renovada esperança, talvez aquela outra sobre a qual disse Yoda a Obi-Wan.

Comentando cena por cena, começo dizendo que a súbita aparição de um personagem negro logo no início do vídeo é muito significativa, já que Star Wars é tradicionalmente dominada por figuras brancas. Se John Boyega é o primeiro a aparecer, isso provavelmente quer dizer que ele não é um coadjuvante como Lando Calrissian (Billy Dee Williams) ou Mace Windu (Samuel L. Jackson). Não conheço Boyega de nome nem lembro dele em outro filme, mas não se pode negar a importância da representatividade que se vislumbra no destaque dado a ele no trailer. (Ademais, uma das qualidades de Abrams como diretor é seu tato o quesito elenco.)

O fato de o homem estar vestindo uma armadura de stormtrooper provoca o espectador que conhece o universo de Star Wars, pois ficamos imaginando se esse indivíduo é um soldado desertor do derrocado Império ou se ele repete a memorável cena em que Luke e Han se disfarçam com as armaduras brancas para resgatar Leia. Seja como for, temos à vista um provável cliffhanger digno de Abrams.

A inusitada entrada em cena de um robozinho de design curioso, lembrando R2-D2 e outros droides astromecânicos da franquia, anuncia com veemência a renovação visual da nova proposta (é possível que a esfera sobre a qual roda o pequeno robô se encaixe de maneira inteligente na respectiva entrada da nave da qual é copiloto). Diferente de Star Trek, que teve todo o design remodelado (pelo próprio Abrams) mesmo se passado numa época já superexplorada nas séries de TV, aqui temos uma justificativa plausível e verossímil, tendo em vista que o Episódio VII se passa décadas depois da trilogia original, o que implica evolução da tecnologia.

Porém, essa evolução, felizmente, não quer dizer que o aspecto “sujo” característico de Star Wars esteja ausente. O próprio cenário desértico em que se passa a maior parte das cenas do vídeo garante o espalhamento de poeira sobre droides, indumentárias e veículos. Não sabemos ainda se o planeta aqui é Tatooine, mas mesmo que não seja, ele é certamente uma reminiscência intencional do mundo-natal de Luke e Anakin.

Como sempre, os empoeirados rebeldes (se é que ainda existe razão para haver uma Aliança Rebelde) são contrastados pelos stormtroopers reluzentes e limpos que mostram o sempiterno caráter frio e robotizante dos vilões de Star Wars. A renovação do design dos “soldados brancos” faz sentido pela supracitada evolução e pode simbolizar a renovação dos recursos dos reminiscentes do Império.

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Alterando novamente para o lado da luz do conflito, a personagem de Daisy Ridley (que também não sei quem é) se mostra como uma provável sucessora de Leia e Padmé, seguindo a boa tradição de colocar no grupo de protagonistas uma mulher forte e proativa, como atestam seus gestos e sua atitude ao conduzir um arrojado speeder pelo deserto tatooinesco. Mas se a representatividade feminina entre os papéis de destaque do filme não passar disso, será uma pena (ainda estou aguardando esperançoso para saber quais serão os papéis de Lupita Nyong’o e Gwendoline Christie, duas mulheres que escapam do padrão das atrizes hollywoodianas).

À corredora do speeder se segue a cena de um piloto de X-Wing, interpretado por Oscar Isaac (outro desconhecido para mim). Teremos, portanto, provavelmente, mais um elemento recorrente dos filmes, que é a figura do piloto prodígio, um descendente de Anakin e Luke Skywalker (será ele um novo membro da família), e aparentemente continuaremos vendo mais batalhas espaciais entre rebeldes (ou aquilo em que eles se tornaram) e Império (idem).

Adentramos então uma floresta escura e nevada, por onde anda uma figura misteriosa de capuz negro carregando um “sabre-de-luz” vermelho, ou seja, provavelmente se trata de um ou uma Sith, ou pelo menos alguém ligado ao lado sombrio da Força. Não dá para ter certeza sobre quem interpreta esse personagem, mas eu quero acreditar que é Gwendoline Christie, pois até achei seu porte parecido com o da atriz, e o fato de ela ser bem conhecida por fazer o papel de uma exímia espadachim em Game of Thrones reforça esse meu palpite talvez sem noção.

O “sabre”, aliás, é um elemento digno de nota. Ele parece ter sido feito para se parecer mais com uma espada longa medieval do que com um sabre propriamente dito, inclusive possuindo um guarda-mão característico feito da mesma matéria da lâmina. Isso pode estar ligado à possível identidade do personagem como um “inquisidor” Sith, corroborando uma das hipóteses levantadas por internautas. A espada medieval poderia ser uma referência simbólica aos cavaleiros da Idade das Trevas ou até mesmo aos Templários, ambos defensores do poder da Igreja e agentes da Santa Inquisição (não deixo de notar o simbolismo cristão da forma da espada, que lembra uma cruz, o que pode ou não ser intencional).

(Sobre a própria utilidade desses guarda-mão de luz, vale ressaltar que ele seria um elemento inteligente de defesa da espada-de-luz, pois sabe-se que essas lâminas repelem os ataques de outras armas do mesmo tipo, e ele serviria para impedir que o oponente deslizasse uma lâmina pela outra para ferir sua mão.)

A cena final do vídeo é uma batalha entre naves espaciais, notadamente a célebre Millenium Falcon, enfrentando TIE Fighters. Esse é o primeiro e único elemento pertencente aos filmes antigos a aparecer no trailer, e pode ser um sinal de que não veremos somente os rostos novos que se mostraram antes, mas que a antiga trupe estará de volta para ajudar a nova geração de heróis.

O trailer, assim, faz um favor para os fãs de Star Wars ao pontuar alguns dos ingredientes imprescindíveis para a receita de um filme da franquia: pessoas comuns procurando seu lugar na galáxia, droides, soldados inimigos sem rosto, tecnologia velha e empoeirada ao lado de tecnologia nova e limpa, vilões misterioros, sabres-de-luz e batalhas de naves espaciais. Tudo sem exageros visuais, para que se destaque o que realmente importa: os personagens. (A paródia deste link mostra uma “versão editada por George Lucas”, com acréscimos como os que ele inseriu nas versões remasterizadas dos filmes antigos, e evidencia justamente essa qualidade do trailer de Abrams.)

Considerando tudo isso, eu tenho a esperança de que essa nova obra cinematográfica corrija um erro crasso cometido por J. J. Abrams aos tomar as rédeas da franquia Star Trek: a sub-representação da alteridade não-branca, não-masculina, não-heterossexista. A diversidade fazia parte da alma de Star Trek, mesmo que ela só tenha se realizado gradativamente e tenha despencado depois de seu ápice em Voyager. O que Abrams não fez em Star Trek talvez seja concretizado em Star Wars (talvez não…), se levarmos em conta o elenco do filme, e essa pode, ironicamente, ser sua redenção perante os trekkies (ou não!). Isso seria, ademais, um bem-vindo e grande avanço para o fantástico universo criado por George Lucas. Que a Força esteja conosco.

Star Trek e Star Wars

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No âmbito dos nerds e geeks aficionados por ficção científica e fantasia, é famigerada a “rivalidade” entre os fãs de Guerra nas Estrelas (Star Wars) e os de Jornada nas Estrelas (Star Trek). Aqueles que se autodenominam trekkers ou trekkies ralham do caráter pouco científico dos elementos fantásticos no universo dos jedi, enquanto os fanáticos pela Força consideram as histórias da Frota Estelar muito chatas e pouco empolgantes.

Essa “rivalidade” se acentua de maneira tragicômica quando atores ícones das duas franquias se pronunciam zombando da série rival, como o fizeram há algum tempo William Shatner (Capitão James T. Kirk) e Carrie Fisher (Princesa Leia Organa). “Jornada nas Estrelas tem histórias melhores”, defende Shatner. “Guerra nas Estrelas tem efeitos especiais”, replica Fisher.

Entretanto, no geral os nerds gostam das duas franquias, podendo haver preferências individuais, mas é importante atentar para que não há comparação entre Star Wars e Star Trek, pois são duas propostas muito diferentes entre si, cada uma desenvolvida de modo bastante díspar, e para quem as conhece soa muito estranho as pessoas confundirem as duas (o que talvez aconteça mais por causa do nome parecido). E é por serem duas propostas diferentes que não há sentido na rivalidade e na concorrência, pois cada uma é apreciável de modo diferente, como bem respondeu George Takei (que interpretou Sulu na série clássica de Star Trek) em resposta aos dois vídeos acima:

Além disso, as duas séries se aproximarão ainda mais agora, tendo em vista que J. J. Abrams, diretor do filme Star Trek, de 2009, e de sua continuação de 2013, estará à frente do próximo filme da franquia Star Wars, indo aonde ninguém jamais esteve na história das rivalidades entre as torcidas nerds.

Portanto, vou explorar um pouco as diferenças entre as duas séries, não para acirrar qualquer divergência ou rivalidade, mas para acentuar a diversidade e incentivar diferentes formas de apreciar obras de ficção científica e fantasia.

Em primeiro lugar…

Jornada nas Estrelas – Star Trek

Jornada nas Estrelas/Star Trek teve início como uma série televisiva norte-americana, idealizada por Gene Roddenberry, que estreou em 1966. A série clássica (The Original Series – TOS) Inicialmente pensada para se prolongar por 5 anos, só durou 3, sendo cancelada em 1969. Ela foi ressucitada por um breve período como uma Série Animada (The Animated Series – TAS) em 1973 e 1974. Voltou à vida definitivamente em 1979, com Jornada nas Estrelas: O Filme (Star Trek: The Motion Picture), e a partir daí foram produzidos mais 5 filmes com o elenco/tripulação da série clássica.

Em 1987, teve início a série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração (The Next Generation – TNG), que durou 7 temporadas, até 1994, com outro elenco/tripulação. Deep Space Nine (DS9) foi outra série, também com 7 temporadas, produzida de 1993 a 1999. A série Voyager (VOY) foi ao ar entre 1995 e 2001, com 7 temporadas também. E Enterprise (ENT), que estreou em 2011, foi cancelada prematuramente em 2005.

Entre 1994 e 2002, foram produzidos 4 filmes com o elenco/tripulação da TNG. Em 2009, Star Trek foi revitalizada com um filme apresentado por um novo elenco, interpretando a tripulação da TOS, que vai estrelar uma continuação em 2013, Além da Escuridão (Star Trek: Into Darkness).

Foram também produzidas muitas histórias em quadrinhos, livros e video games, que enriqueceram esse universo, mas o principal são as séries televisivas.

Guerra nas Estrelas – Star Wars

Guerra nas Estrelas/Star Wars foi um filme de 1977 que iniciou uma grande saga épica no imaginário popular do Ocidente, idealizada por George Lucas. Quando sua continuação foi produzida em 1980, o primeiro filme foi rebatizado como Guerra nas Estrelas – Episódio IV: Uma Nova Esperança (Star Wars – Episode IV: A New Hope). A segunda produção, chamada de Episódio V, foi seguida pelo Episódio VI em 1983.

Os Episódios I, II e III, que contam os acontecimentos anteriores à primeira trilogia, vieram a público em 1999, 2002 e 2005, respectivamente. Uma série animada chamada A Guerra dos Clones (The Clone Wars) foi produzida em 2008, contando eventos entre os Episódios II e III. Em 2015, será lançado o Episódio VII, cuja história ainda é um mistério para o público.

Foram também produzidas muitas histórias em quadrinhos, livros e video games, que enriqueceram esse universo, mas o principal são os filmes.

O começo de tudo

Comecemos pelo início, ou seja, pelo prólogo de cada uma. Star Trek, em seus episódios originais, tem a seguinte entrada, repetida durante toda a série clássica (TOS) e, um pouco modificada, na série A Nova Geração (TNG):

Space, the final frontier. These are the voyages of the starship Enterprise. Its 5-year mission: to explore strange new worlds, to seek out new life and new civilizations, to boldly go where no man has gone before.

[O espaço, a fronteira final. Estas são as viagegns da nave estelar Enterprise. Sua missão de 5 anos: explorar estranhos novos mundos, buscar novas formas de vida e novas civilizações, audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve.]

Esta sinopse geral resume bem alguns dos aspectos dessa série televisiva que estreou em 1966. Ela aponta para uma jornada exploratória ao espaço. Infere-se que as histórias ocorrem no futuro mais ou menos próximo, com o advento de novas tecnologias, e que  o espectador se deparará com novas realidades alienígenas e os decorrentes conflitos, sempre com a tentativa de se os resolver de maneira pacífica, embora às vezes isso não seja possível. Essa entrada é perfeita para uma grande obra de Ficção Científica futurista e especulativa.

Star Wars começa simplesmente assim:

A long time ago in a galaxy far, far away…

[Há muito tempo atrás numa galáxia muito, muito distante…]

Aqui não existem parâmetros com base em nossa realidade. Não sabemos em que tempo exatamente ocorre essa história nem em que local do universo, e portanto não há compromisso do autor com a realidade conhecida. O aspecto atemporal (“A long time ago”) indica possibilidades fantásticas e míticas, enquanto a “galaxy far, far away” implica alguma ligação com a Ficção Cienfítica. Tudo é possível e pode-se esperar qualquer coisa em termos de personagens, tecnologia e raças alienígenas.

Assim como as publicações literárias de Ficção Científica, Star Trek se carateriza pela massiva produção de episódios, neste caso televisivos (embora tenha sido produzida mais de uma dezena de filmes). Isso às vezes empobrece a obra, pois uma produção em massa de vez em quando dá alguns frutos mal-acabados, o que não impede de se encontrar, em grande número, peças esplêndidas, narrativas excelentes e cliffhangers e reviravoltas de trama surpreendentes.

No caso de Star Wars, o projeto original é cinematográfico, com uma produção ambiciosa, e isso levou à criação de uma espécie de romance épico, bem pensado em todos os seus elementos (embora o resultado da realização da segunda trilogia – Episódios I, II e III – não tenha sido bem recebida pela maioria dos públicos).

A narrativa

As histórias de Star Trek se caracterizam como episódios isolados dentro de uma narrativa circular. Cada capítulo gira em torno de um evento crítico, um problema a ser resolvido pelos protagonistas. No fim, as coisas voltam ao normal e a nave retoma seu rumo, preparando-se para o próximo episódio em que o mesmo esquema se repete.

O propósito dessa fórmula é estabelecer um grupo de personagens, cada um com suas habilidades especiais, e colocá-los à prova com um desafio diferente em cada capítulo. Ou seja, os roteiristas imaginam situações e pensam: “como a tripulação vai resolver esse problema?” Por isso há uma marcante identificação de cada personagem em cada uma das séries da franquia (isso vai ser desenvolvido abaixo).

Por outro lado, Star Wars é uma narrativa escatológica, com características épicas e heroicas, focadas na trajetória de um ou dois personagens, desde sua gênese até sua apoteose. Cada um dos dois arcos principais (ou seja, as duas trilogias de filmes) é uma grande história completa traçada segundo o esquema da jornada do herói (Joseph Campbell).

O nome Wars (“Guerra”) caracteriza a fábula de Luke e Anakin Sktwalker como um conflito bélico, destacando heróis de guerra como figuras pivotais. Há complôs políticos, traições, golpes de Estado, a instauração de um regime de terror totalitário e sua consequente derrubada por uma força rebelde.

Ficção Científica e Fantasia

A Ficção Científica é um gênero amplo, que se baseia nas possibilidades aventadas pelo conhecimento científico para explorar enredos fictícios. Neste sentido, ela pode trazer especulações sobre o desenvolvimento da tecnologia e da sociedade, no passado ou no futuro, questionar-se quais seriam seus impactos sobre a vida das pessoas, ou imaginar formas biológicas alienígenas inexistentes (ou não), mas verossímeis e prováveis, bem como uma possível diversidade civilizatória dessas formas de vida.

Considerando esse conceito resumido de Ficção Científica, podemos encaixar perfeitamente a maior parte das histórias da franquia Star Trek neste gênero. Normalmente o mote dos episódios gira em torno de alguma das possibilidades citadas acima, com poucas exceções.

Por outro lado, Star Wars é uma ópera espacial que não se baseia especialmente em elementos científicos. Estes estão ali para compor o cenário e não para servir como mote para a trama. Em essência, Star Wars é uma fábula de capa e espada, uma aventura fantástica com elementos épicos que remetem a O Senhor dos Anéis e outras narrativas míticas (inclusive sendo toda inspirada, em seus personagens e sua trama, nos arquétipos e estruturas narrativas mitológicos).

A ficção científica em Star Wars serve de máscara para uma história heroica, remetendo ao teatro clássico, com episódios de tragédia e drama. O mais notável dos quais é a relação edipiana entre Luke Skywalker e Darth Vader. A sedução inevitável de Anakin Skywalker para o lado sombrio da Força também é tragicamente impressionante. O desenrolar desse épico tem início, meio e fim e a história completa um círculo triunfal, na forma de uma escatologia.

É possível reimaginar, por exemplo, toda a trajetória de Anakin e Luke Skywalker num cenário medieval, no Japão feudal, na Antiguidade grega ou nos moldes da cosmologia de povos indígenas, sem perder a essência de sua proposta (veja acima algumas criações do artista plástico Sillof, colocando os personagens em diversos cenários). Entretanto, não dá para reimaginar a maioria das histórias de Star Trek sem se valer dos elementos científicos, pois é a partir destes que se desenvolvem os episódios.

Personagens

Uma das principais diferenças entre os personagens de Star Trek e os de Star Wars é sua profundidade e complexidade. Resumindo, Star Trek apresenta personagens redondos enquanto Star Wars é encenada por personagens majoritariamente planos.

Eis alguns exemplos da complexidade dos personagens de Star Trek em quatro das séries que formam a franquia:

  • Série Clássica (TOS): O Sr. Spock pertence ao povo do planeta Vulcano, mas é filho de um vulcano com uma humana. Como foi criado para reprimir seus sentimentos, possui uma mente prodigiosamente racional e lógica. Porém, ele muitas vezes surpreende seus colegas e aos telespectadores com atitudes que fogem a esse padrão, e isso ocorre por dois motivos: 1) em algumas situações críticas, Spock se vê tomado pelas emoções reprimidas, e nesses momentos age de maneira ilógica; 2) quando está sóbrio, por se pautar na lógica, no discernimento e numa ética complexa, algumas vezes suas ações parecem fugir daquilo que se espera dele como um oficial da Frota Estelar, e o que parece ser insubordinação se revela um meio genial de se alcançar um bem maior.
  • A Nova Geração (TNG): O intrigante Q, criatura onipotente habitante do Continuum Q, aparece inicialmente como um antagonista e um dos mais perigosos vilões da tripulação comanda pelo capitão Picard. No entanto, à medida que vai aparecendo ao longo da série, ele por vezes ajuda os protagonistas (embora sempre à revelia destes). Q já perdeu seus poderes, tornando-se humano, e os recuperou após ter aprendido a sentir compaixão, já se valeu da ajuda dos mocinhos para realizar seus planos pessoais e já se viu como esposo e pai. No entanto, seu caráter sempre permaneceu ambíguo, nem vilão nem herói.
  • Deep Sace Nine (DS9): Os klingons são um povo cuja cultura é marcada pelo louvor à guerra, à conquista e a honra. Eles costumam cantar os feitos de seus heróis e adoram banquetear bebendo “vinho de sangue” (bloodwine). No entanto, tenente Worf, embora sempre carregue em seu olhar a ferocidade dos de sua raça, possui como marca registrada um siso e uma seriedade, mas sempre se mostrando muito zeloso e conservador com relação à cultura klingon, embora, paradoxalmente, tenha sido criado desde criança por pais humanos. Isso o coloca em grande conflito, por um lado, com humanos e a Federação e, por outro lado, com seus irmãos de sangue e o saudosismo do extinto Império Klingon. Em certo momento marcante, sua noiva pergunta porque ele não possui a alegria de viver que a maioria dos klingons tem, e ele revela que quando criança, jogando rúgbi com seus colegas humanos, acidentalmente matou um deles, o que o traumatizou para o resto da vida.
  • Voyager (VOY): Kathryn Janeway é a capitã da nave estelar Voyager. De início, ela encarna o arquétipo da mãe-rainha, encaregada de cuidar e acolher cada membro de sua equipe, sempre fiel às leis que regem a Federação e a Frota Estelar. Mas no decorrer da série ela mostra várias facetas que a tornam um personagem complexo, como a de guerreira destemida, de amante apaixonada e até a de mulher fatal, quando precisa seduzir um maligno holograma. Muitas vezes se vê diante de dilemas que colocam à prova sua lealdade aos princípios da Federação, e em algumas situações é obrigada a burlar esses princípios com vistas ao bem de sua tripulação.

É claro que estes não são os únicos exemplos. Há muitos personagens redondos em toda a franquia, mas podemos dizer que cada série tem um grau diferente de complexidade em seus personagens, sendo, em minha opinião, a Série Clássica a menos redonda e Deep Space Nine a mais redonda. Também não se pode deixar de afirmar que há vários personagens planos, mas eles não se destacam como protagonistas.

Star Wars, sendo bastante inspirada nas narrativas fantásticas e heroicas e tendo sua trama conduzida pelo esquema da luta maniqueísta entre o bem e o mal, apresenta personagens bem posicionados em seus papéis, sendo possível encaixá-los em dois ou três “lados”. Ou seja, ou os personagens são bons, lutando pelo bem e o Lado Claro da Força, ou são maus e se alinham ao Lado Sombrio da Força.

Quase não ocorrem traições ou mudanças de lado, por exemplo, os personagens bons (aliados à República ou à Aliança Rebelde) serão sempre bons, e os aliados aos Separatistas e ao Império são sempre maus. Alguns indivíduos podem até estar fora desse conflito político, ficando à margem de qualquer afiliação republicana ou imperialista, mas eles sempre estão num dos extremos do espectro. Um exemplo disso é o planeta Tatooine, planeta não-representado pela República e meio esquecido pelo Império, onde vemos personagens maus (como os bandidos de Mos Eisley e a máfia de Jabba) e bons (como a família Skywalker e seus amigos).

Há três notáveis exceções à regra, que assumem um papel ambíguo e uma personalidade conflituosa durante suas respectivas trajetórias na saga: Anakin Skywalker/Darth Vader, Han Solo e Lando Calrissian. Ambos mudam de lado e cada um passa por um período transitório de conflito. Mas mesmo aí se vê uma necessidade de se alinhar o personagem em uma de duas opções, nunca mantendo a ambiguidade por muito tempo. Talvez não por acaso, Darth Vader e Han Solo são dois dos personagens favoritos dos fãs de Star Wars.

Outra diferença entre os personagens das duas franquias diz respeito a sua verossimilhança e sua identificação maior ou menor com os mitos e personagens imaginários.

No cenário da Star Wars, os poderes de uma casta especial de guerreiros é ponto fundamental da trama, pois é entre os jedi que aparece o Escolhido e seu filho. Eles são predestinados desde o nascimento a se tornar elementos centrais dos vários episódios dessa saga épica. Tornam-se figuras notáveis como os grandes guerreiros invencíveis dos mitos antigos, tais quais Hércules, rei Arthur ou Sansão. A decisão de um desses heróis ou os efeitos de eventos externos sobre eles têm consequências galácticas, ou seja, eles têm, individualmente, poder de mudar a história.

Por outro lado, os protagonistas da Star Trek não são super-humanos. Eles se destacam muito mais por suas peculiaridades individuais e idiossincrasias pitorescas que servem de mote para o desenrolar das tramas dos episódios. Embora haja encontros com espécies alienígenas que possuem poderes sobre-humanos, o mais importante nesses encontros é a resolução das diferenças, as formas de se usar a diplomacia. Dessa forma, o destino de cada episódio não depende somente da decisão de um herói, mas de um conjunto de fatores os mais diversos e que muitas vezes fogem ao controle dos personagens.

Que a Força viva longa e prosperamente

Penso que a diferença mais básica entre Star Trek e Star Wars está no nível psíquico pelo qual cada uma fisga o expectador. Star Wars apela mais para os sentidos, deixando o espectador mais passivo diante do espetáculo, das cores e luzes, das batalhas e duelos e dos confrontos dramáticos entre os personagens. Em Star Trek, são os meandros da trama que interessam, e o espectador não para de pensar nas possibilidades de como será resolvido o roteiro, pois atiça a inteligência da plateia. Essa diferença, penso, pode guiar o apreciador de Ficção Científica e Fantasia a escolher entre uma experiência poético-dramática da guerra entre o bem e o mal ou uma experiência mais intelectual e abstrata na jornada pelas descobertas do Universo.

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A outra primeira jornada

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Star Trek, dirigido por J. J. Abrams, estreou dia 8 de maio de 2009. Vi o filme com amigos no dia 9. Éramos um grupo heterogêneo em termos de sua relação com Jornada nas Estrelas. Alguns não sabiam quase nada sobre a série. Um casal só conhecia os 10 filmes anteriores. Alguns já tinham assistido muitos episódios de uma ou outras séries da franquia. Eu, por exemplo, só conheço (toda) a série clássica e o primeiro filme, Jornada nas Estrelas: o Filme.

Mas todos curtiram muito a obra. De fato, como disse Alottoni, no site Jovem Nerd, não é preciso ter assistido nada de Jornada para apreciar o filme. Este serve, inclusive, como introdução a quem quer começar a se inteirar desse intrigante universo de ficção científica. E, para quem já conhece, há muitas referências à série antiga, abordadas de forma bem humorada e coerente.

Aviso: Spoilers!

A história é uma revisita às origens dos protagonistas da Enterprise, especialmente o humano James T. Kirk e o mestiço vulcano/humano Spock. Alguns aspectos de suas personalidades aparecem em estágio de formação, na infância e no início da fase adulta. Entendemos, por exemplo, que a impusividade de Kirk e sua tendência a quebrar os protocolos existem desde que ele era menino e seu caráter mulherengo na série original aparece em cenas da Academia da Frota Estelar. De Spock, por sua vez, são enfatizados seus conflitos advindos de sua ascendência mestiça, pai vulcano e mãe humana. Mas sobre Spock me deterei mais adiante.

Entretanto, a história se passa numa realidade alternativa àquela da série original. Os eventos começam a mudar no momento em que uma nave romulana volta ao passado e ataca uma nave da Frota Estelar, cujo segundo em comando é o pai de James T. Kirk. Este está prestes a nascer, enquanto George Kirk, que assumiu o comando da U.S.S. Kelvin, enfrenta a morte e a destruição da nave.

A espaçonave romulana fará um novo salto no tempo, para o futuro, para destruir o planeta Vulcano, na época em que a equipe que fará parte da famigerada tripulação da Enterprise está se formando na Academia. Então encontramos Uhura, a futura oficial de comunicações da Enterprise, sendo flertada por Kirk, que não consegue descobrir seu primeiro nome (na série, nunca sabemos o primeiro nome de Uhura). Eventualmente, devido às circunstâncias alternatias da trama, as tentativas frustradas de Uhura de flertar com Spock na série original se tornam um romance entre os dois, e finalmente descobrimos o nome dela!

Também vemos o sarcasmo de Leonard McCoy e sua criatividade para resolver situações utilizando sua autoridade e conhecimentos médicos. Sulu aparece mostrando suas habilidades em artes marciais e no uso de armas brancas. Chekov, com 17 anos de idade (que na série só passaria a fazer parte da Enterprise aos 22 anos), se atrapalha com seu sotaque russo, trocando o v pelo u, e se mostrando um menino prodígio (o que, na série, faria Kirk lhe dizer que Spock estava formando um bom discípulo).

Scott tem a mesma personalidade e repete, como sempre, as hilárias cenas em que faz o possível e o quase impossível na sala de máquinas da nave para que a Enterprise viaje em velocidade de dobra da forma mais eficiente. Como a equipe iniciou suas atividades de forma precipitada em relação à realidade “normal” do universo de Jornada, eles ainda vão sob o comando do capitão Christopher Pike, que na série original precedeu Kirk.

Sobre Spock

Certamente o personagem que teve o destino mais radicalmente transformado foi Spock. Enquanto Kirk, Uhura, McCoy, Scott, Sulu e companhia entraram mais ou menos nos eixos da realidade original de Star Trek, Spock foi atingido em cheio por acontecimentos que podem vir a originar um personagem bem diverso daquele da televisão da década de 60.

O evento-chave das mudanças de destino que ocasionaram o Spock alternativo foi a destruição do seu planeta-natal, Vulcano. A perda do próprio mundo de origem e de uma enorme parte dos da raça de seu pai o fizeram afirmar que só lhe restou a Terra, planeta-natal de sua mãe. Por isso (além, é claro, de seu dever para com um planeta da Federação) ele vai dar tudo de si, inclusive de seu lado humano, para evitar que a Terra seja destruída pelos romulanos.

Spock em três fases da vida

Porém, um outro acontecimento fará com que sua personalidade seja vincada para sempre: a morte de sua mãe quando tentou salvar sua família do holocausto de Vulcano. No último instante em que o grupo de vulcanos era teletransportado para a Enterprise, Spock ainda tentou segurar a mão de sua mãe, que caiu numa avalanche. Seria inevitável, aí, que ele tivesse que lidar com um sentimento de culpa que talvez nunca tenha encarado antes nem depois em sua vida.

Originalmente, Spock assumia uma identidade vulcana e reprimia suas emoções com toda a força de sua lógica. Seu lado humano aparecia de vez em quando e era importante para resolver certos problemas e para dar um tom cômico às histórias. Mas não marcava significativamente sua personalidade.

Após os eventos da história deste novo filme, Spock será muito mais humanos do que antes, e talvez consiga um equilíbrio maior entre as duas partes que compõem sua ascendência. Ao se encontrar com sua própria versão mais velha do futuro alternativo, ele ouve do Spock velho que as emoções serão muito importantes em sua vida, e que ele deverá evitar desde cedo reprimir seu lado humano, pois este lhe poderá ser muito útil (muito mais do que o que, em outra realidade, ele poderia admitir).

Até seu pai, que na primeira realidade disse certa vez que a o casamento com a mãe de Spock se fizera por uma razão lógica, admitiu, sob as circunstâncias fatídicas, que se casara com Amanda (que significa “digna de ser amada”) por que a amava. Isso atinge Spock de maneira muito contundente, pois seu pai deveria ser para ele o modelo vulcano de lógica e racionalidade. De certa forma, a ausência da mãe humana talvez tenha obrigado  Sarek a assumir as emoções que Amanda demonstraria a Spock.

“Steady as she goes”

A meu ver, pode-se dizer que o tema central do filme é o destino. Cada membro da equipe da nave estelar Enterprise tinha um papel a cumprir numa tarefa maior, e cada um deles sentia dentro de si a urgência de se enveredar por um determinado caminho.

Independentemente dos acontecimentos que levaram a uma realidade alternativa, todos os principais componentes do grupo acabaram assumindo os mesmos papéis. Uhura se tornou oficial de comunicações, Sulu permaneceu sendo o timoneiro, McCoy assumiu a chefia da ala médica e Scott o setor de engenharia da nave.

Scott, McCoy, Chekov, Chapel, Kirk, Uhura, Spock, Sulu

Mesmo aqueles cujas vidas foram mais diretamente afetadas se ajustaram aos eixos de suas programações existenciais. Kirk, por exemplo, apesar da morte do pai e de ter se metido numa grande confusão que quase o impediu de se tornar capitão da Enterprise, terminou no comando da nave. Até Spock, com todas as circunstâncias expostas acima, manteve-se como segundo em comando e como chefe de ciências.Tudo voltando ao normal, como no final de qualquer episódio de Jornada nas Estrelas, após cujos eventos críticos a Enterprise retorna à sua rota original e a normalidade se mantém até o episódio seguinte. Steady as she goes.

O final do filme remete de forma interessante à fórmula original da série clássica. A última cena de Star Trek, assim, mostra a tripulação da Enterprise seguindo seu rumo na missão de “explorar estranhos novos mundos, procurar novas formas de vida e novas civilizações, audaciosamente indo aonde ninguém jamais foi”, o mesmo texto da abertura original, narrado aí por Leonard Nimoy, a voz do Spock ancião. E então os créditos são acompanhados pela saudosa música tema de Jornada nas Estrelas, anunciando a possibilidade da vinda de um novo filme, que talvez responda às questões deixadas em aberto neste texto.