Frozen: Pesado como o frio e Leve como um floco de neve

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Atenção: o artigo contém SPOILERS sobre o filme Frozen, da Disney, de 2013.


Então explore o coração, frio e límpido
Que pulsa por amor e por medo
Veja a beleza pura e simples
Separe o gelo!
E quebre o coração gelado

(…)

Belo!
Poderoso!
Perigoso!
Frio!

O gelo tem uma magia, não pode ser controlado
Mais forte que um, mais forte que dez!
Mais forte que cem homens!

(…)

Nascida do frio e dor ar invernal
E da chuva da montanha juntos!
A força gélida, desleal e justa
Tem um coração a ser minerado!

(…)

Cuidado com o coração congelado

(Trechos da música “Frozen Heart”, que abrem o filme.)

Frozen (Disney, 2013) é um filme belíssimo, com passagens muito engraçadas e roteiro bem amarrado que fez e ainda faz pessoas no mundo inteiro chorarem e simpatizarem com seus personagens, tornando-se hoje uma das franquias mais lucrativas da empresa. Em uma análise mais profunda, Frozen pode ser considerada uma Tragédia (no sentido clássico da palavra) nos primeiros 3/4 do filme e finalizando uma Comédia (também no sentido aristotélico), como será explicado daqui a pouco. A animação é uma história sobre a Leveza vencendo o Peso*, sendo os dois representados de diversas formas. O uso da Leveza é tão poderoso que faz com que o sofrimento daquelas duas meninas seja concebível para os espectadores, crianças, em sua imensa maioria, e é exatamente por isso que o filme merece todos os méritos de ser uma obra inteira dedicada à Leveza. Em termos de comparação e exemplificação, vemos “momentos de Leveza” em grandes obras de arte e, selecionando apenas filmes pra comparar, temos em Up a forma em que é contado o processo de derrota pelo câncer e a morte da esposa de Frederikssen no início do filme; nas conversas infantis entre o protagonista e um garoto judeu em O Menino do Pijama Listrado; na performance do pai do garoto judeu em A Vida é Bela ao contar-lhe que o campo de concentração era uma gincana; na metalinguagem que o filme Dancer in the Dark de Lars Von Trier faz com as músicas entre uma desgraça e outra durante o filme; isso só pra citar alguns exemplos. Já Frozen, como disse lá em cima, é uma Tragédia contada de forma que crianças reconheçam sua existência, porém apenas adultos poderão fazer ideia do nível desse horror.

Como nos mitos infantis clássicos, não sabemos como Elsa adquire seus poderes e qual sua magnitude, o espectador cai de “paraquedas” na história e esse fator dá um tom Fantástico ao filme.

Começamos acompanhando a brincadeira entre as irmãs, ainda crianças, e é nessa hora que o filme nos apresenta o Peso do poder quando Elsa atinge a irmã com um raio. Anna: Leve e descompromissada; Elsa: Pesada pelo medo, pela maldição e pelo dever de cuidar da irmã. Anna está ferida e é levada para os trolls da floresta, quando um deles diz:

Têm sorte de não ter sido o coração dela.

Mais direto impossível: o frio que atingiu o cabelo de Anna e sua mente, na mitologia do filme, significa a apatia, a dor, a tristeza ou até mesmo a melancolia. De Anna, toda a lembrança do Peso é extraída, todo o sofrimento; uma magia poderosa que nos faz pensar quem somos como humanos: uma reação à dor passada, almas endurecidas que aos poucos vão perdendo a magia, a Leveza. Os traumas do passado forçando nosso subconsciente a agir mais defensivamente ou até a evitar situações que nos remetem a eles, mudando o rumo de nossas vidas. Anna a partir de agora é uma pessoa sem memória, sem traumas ou frustrações: Uma pessoa Leve.

E é aí que a Tragédia começa: Elsa sabe do Peso desse poder, que é belo e ao mesmo tempo terrível. A exclusão dela do mundo e da própria irmã é um absurdo: uma vida miserável dentro de um quarto em contato apenas e por pouco tempo com seus pais, e essa dor é cantada por Anna em “Do You Want to Build a Snowman?” (“Você Quer Fazer um Boneco de Neve?”) – um artifício humano para aplacar a dor: a música, o som ritmado e melodioso que vem de tempos imemoriais desde os épicos, passando pelo teatro e chegando ao audiovisual. As canções vêm sendo usadas em musicais há muitos anos para esse fim: diminuir o Peso da história, e esse é um dos (vários) artifícios de que Frozen vai se utilizar. A canção vai encobrir o Peso dos anos de terror que as duas meninas vão passando pela separação – duas irmãs sofrendo juntas e completamente separadas por uma parede apenas: a solidão, o tédio, a perda dos pais e da amizade, não consigo pensar em maior sofrimento pra aquelas crianças!

Daqui por diante vou selecionar os personagens e seus símbolos, além de momentos-chave de dualismo Leveza x Peso que, claro, são interpretações minhas e que podem haver falhas, porém espero que fique clara a ideia que quero passar aqui, escrita no primeiro parágrafo:

Anna: a pura Leveza: uma menina estabanada, engraçada, ingênua, que quer sair, mesmo que por um dia (o da coroação da irmã) – “for the first time in forever” daquela eternidade de privações e viver como uma “princesa” pela primeira vez – Anna quer amar! Anna quer tudo que lhe foi tirado e nem sabe por quê! Ela sente um Peso que nunca mereceu ou entendeu – por anos! Anna procura um amor Romântico, como uma típica garota do século XV, XVI e XVII, inundada de Romances em que as princesas eram mulheres virgens e cheias de virtudes esperando pelo príncipe encantado que irá lhe propor em casamento e ser “feliz para sempre”, e o filme será feliz em desconstruir essa imagem, como será analisado mais à frente.

Agora vamos à Elsa: o Peso a possui – o frio, que é retratado em várias culturas como a época de se resguardar e racionar a comida estocada durante o verão e outono; o Inferno é gelado na Divina Comédia – enfim, esse poder é o Mal e Elsa tem que “conceal, don’t feel” (“reprimir, não sentir”), porém agora eles (o povo) já sabem, então “let it go!” (“deixe ir!”). Elsa libera todo seu poder e nós vamos com ela, pois sabemos de toda sua história de privações e sofrimento; essa é a verdadeira Elsa, uma mulher livre do Peso da majestade, das obrigações para com os outros e do medo do seu poder (“o mal”). Elsa em “the cold never bothered me anyway” (“o frio nunca me incomodou mesmo”) deixa escapar uma falha de caráter que raramente se vê em filmes infantis onde os protagonistas são seres perfeitos aos olhos da Moral: Elsa permite-se dizer que o poder é a sua Natureza – ela é Pesada por si e faz pirraça como que dissesse: “e daí, se eu sou o Mal, que seja”. Esse momento eu chamo de A Primeira Catarse: o filme nos induz, pela primeira vez ao “erro” e esse apoio à Elsa nos faz esquecer que todos na cidade podem morrer de frio por causa desse súbito egoísmo da garota.

O castelo de gelo: Construído por Elsa, o castelo, belíssimo, traz consigo uma dúvida a respeito do julgamento dessa “maldição” – como é possível algo tão “ruim” como o inverno proporcionar algo tão belo? Seria esta a forma de o filme mostrar que a dor e a melancolia são capazes de proporcionar obras-de-arte belas, que o Peso faz parte da vida e não é tão ruim assim tê-lo de vez em quando?

Elsa x Anna no castelo de gelo: o Peso volta à vida de Elsa quando Anna revela que a cidade entrou num “eterno inverno”, ou seja: (na concepção dela) o “Mal” tomou conta do lugar e Elsa precisa resolver isso, porém Elsa diz à irmã que é impossível reverter a magia, uma metáfora para “essa tristeza é da minha natureza e não há como tirá-la de mim”. Com isso, a dona do castelo expulsa a todos com um monstro de gelo que se contrapõe ao…

Olaf: representante da Leveza dos anos da infância: ingênuo e engraçado, Olaf é um outro artifício utilizado pela arte, conhecido como “alívio cômico”, “bobo” ou “fonzie”(nos sitcoms), ele serve como “redutor de Peso”; já o Monstro de gelo é Elsa assumindo o seu lado Pesado e Mau: “o frio nunca me incomodou mesmo”.

Os Trolls: Kristoff declara em alto e bom som: “eles são como família / (…) eles podem ser inapropriados, barulhentos, autoritários e PESADOS, BEM PESADOS.” Quando Anna replica: “Kristoff, eles são MARAVILHOSOS”, temos aí uma mensagem bela sobre a família: eles podem ser Pesados, mas são sua família, como Elsa é para Anna, e nem isso os faz menos maravilhosos: o Peso pode ser contornado com o amor verdadeiro, e isso com certeza será um ponto a ser dedicado agora!

O Amor Romântico x o Amor “verdadeiro” e a verdadeira Leveza: “O amor! O amor! É isso!”, grita Elsa depois de ver Anna morrer congelada na sua frente. Elsa e Anna concluem que a única forma de se salvarem mutuamente e ao mundo que lhes rodeia é através do amor verdadeiro; o Peso do mundo real só pode ser sobrepujado pela Leveza do amor, não do amor Romântico criado com fins controladores e mercadológicos da Idade Média: o amor entre irmãos, família e amigos. Esse amor está espalhado no filme inteiro como a resolução de um crime em um livro policial, esfregando em nossa cara a amizade do Kristoff e sua rena; dos pais de Anna e Elsa para com elas; do ato de Kristoff em levar sua amada para outro homem para que ela seja salva; do amor dos Trolls para com seu “filho humano” e o amor entre as irmãs princesas. A desconstrução que o filme faz de toda uma cultura Romântica é poderosa e catártica, assim como a total vitória da Leveza sobre o Peso; da tragédia à comédia (também no sentido original da palavra).

O filme Frozen pode ser uma metáfora sobre como o Peso pode deixar as pessoas mais responsáveis, reflexivas e contemplativas, bem como isoladas e depressivas. Desse Peso pode-se extrair coisas belíssimas como o castelo de gelo de Elsa – belo e Leve – e da arte como forma de expressão. A Leveza, na figura de Anna, em contraponto, poderá reduzir esse Peso tomando para si parte dele através de um ato de amor verdadeiro – um sacrifício que os heróis cometem. E essa é a terceira Catarse, a quebra do paradigma do herói macho e único, que resolve tudo sozinho: Frozen, no final das contas, tem duas heroínas.

Elsa, nos segundos finais do filme: deslizando pelo gelo, alegre e decidida, em contraponto com a Elsa séria e sem coragem de sequer tocar as pessoas e Pesada, andando na neve. Ítalo Calvino iria pular da cadeira com essa cena.

Elsa, nos segundos finais do filme: deslizando pelo gelo, alegre e decidida, em contraponto com a Elsa séria e sem coragem de sequer tocar as pessoas e Pesada, andando na neve. Ítalo Calvino iria pular da cadeira com essa cena.


*A “Leveza”, como descrito por Ítalo Calvino (Seis Propostas Para o Próximo Milênio. Companhia das Letras, 1990) era (é), bem resumidamente, um artifício artístico que visa reduzir o “Peso”, que pode ser desde o peso do mundo real, de uma situação qualquer, e trazer um mínimo que seja de fuga, de beleza ou esperança. São imagens, metáforas, alegorias em grande parte.

Star Trek e Star Wars

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No âmbito dos nerds e geeks aficionados por ficção científica e fantasia, é famigerada a “rivalidade” entre os fãs de Guerra nas Estrelas (Star Wars) e os de Jornada nas Estrelas (Star Trek). Aqueles que se autodenominam trekkers ou trekkies ralham do caráter pouco científico dos elementos fantásticos no universo dos jedi, enquanto os fanáticos pela Força consideram as histórias da Frota Estelar muito chatas e pouco empolgantes.

Essa “rivalidade” se acentua de maneira tragicômica quando atores ícones das duas franquias se pronunciam zombando da série rival, como o fizeram há algum tempo William Shatner (Capitão James T. Kirk) e Carrie Fisher (Princesa Leia Organa). “Jornada nas Estrelas tem histórias melhores”, defende Shatner. “Guerra nas Estrelas tem efeitos especiais”, replica Fisher.

Entretanto, no geral os nerds gostam das duas franquias, podendo haver preferências individuais, mas é importante atentar para que não há comparação entre Star Wars e Star Trek, pois são duas propostas muito diferentes entre si, cada uma desenvolvida de modo bastante díspar, e para quem as conhece soa muito estranho as pessoas confundirem as duas (o que talvez aconteça mais por causa do nome parecido). E é por serem duas propostas diferentes que não há sentido na rivalidade e na concorrência, pois cada uma é apreciável de modo diferente, como bem respondeu George Takei (que interpretou Sulu na série clássica de Star Trek) em resposta aos dois vídeos acima:

Além disso, as duas séries se aproximarão ainda mais agora, tendo em vista que J. J. Abrams, diretor do filme Star Trek, de 2009, e de sua continuação de 2013, estará à frente do próximo filme da franquia Star Wars, indo aonde ninguém jamais esteve na história das rivalidades entre as torcidas nerds.

Portanto, vou explorar um pouco as diferenças entre as duas séries, não para acirrar qualquer divergência ou rivalidade, mas para acentuar a diversidade e incentivar diferentes formas de apreciar obras de ficção científica e fantasia.

Em primeiro lugar…

Jornada nas Estrelas – Star Trek

Jornada nas Estrelas/Star Trek teve início como uma série televisiva norte-americana, idealizada por Gene Roddenberry, que estreou em 1966. A série clássica (The Original Series – TOS) Inicialmente pensada para se prolongar por 5 anos, só durou 3, sendo cancelada em 1969. Ela foi ressucitada por um breve período como uma Série Animada (The Animated Series – TAS) em 1973 e 1974. Voltou à vida definitivamente em 1979, com Jornada nas Estrelas: O Filme (Star Trek: The Motion Picture), e a partir daí foram produzidos mais 5 filmes com o elenco/tripulação da série clássica.

Em 1987, teve início a série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração (The Next Generation – TNG), que durou 7 temporadas, até 1994, com outro elenco/tripulação. Deep Space Nine (DS9) foi outra série, também com 7 temporadas, produzida de 1993 a 1999. A série Voyager (VOY) foi ao ar entre 1995 e 2001, com 7 temporadas também. E Enterprise (ENT), que estreou em 2011, foi cancelada prematuramente em 2005.

Entre 1994 e 2002, foram produzidos 4 filmes com o elenco/tripulação da TNG. Em 2009, Star Trek foi revitalizada com um filme apresentado por um novo elenco, interpretando a tripulação da TOS, que vai estrelar uma continuação em 2013, Além da Escuridão (Star Trek: Into Darkness).

Foram também produzidas muitas histórias em quadrinhos, livros e video games, que enriqueceram esse universo, mas o principal são as séries televisivas.

Guerra nas Estrelas – Star Wars

Guerra nas Estrelas/Star Wars foi um filme de 1977 que iniciou uma grande saga épica no imaginário popular do Ocidente, idealizada por George Lucas. Quando sua continuação foi produzida em 1980, o primeiro filme foi rebatizado como Guerra nas Estrelas – Episódio IV: Uma Nova Esperança (Star Wars – Episode IV: A New Hope). A segunda produção, chamada de Episódio V, foi seguida pelo Episódio VI em 1983.

Os Episódios I, II e III, que contam os acontecimentos anteriores à primeira trilogia, vieram a público em 1999, 2002 e 2005, respectivamente. Uma série animada chamada A Guerra dos Clones (The Clone Wars) foi produzida em 2008, contando eventos entre os Episódios II e III. Em 2015, será lançado o Episódio VII, cuja história ainda é um mistério para o público.

Foram também produzidas muitas histórias em quadrinhos, livros e video games, que enriqueceram esse universo, mas o principal são os filmes.

O começo de tudo

Comecemos pelo início, ou seja, pelo prólogo de cada uma. Star Trek, em seus episódios originais, tem a seguinte entrada, repetida durante toda a série clássica (TOS) e, um pouco modificada, na série A Nova Geração (TNG):

Space, the final frontier. These are the voyages of the starship Enterprise. Its 5-year mission: to explore strange new worlds, to seek out new life and new civilizations, to boldly go where no man has gone before.

[O espaço, a fronteira final. Estas são as viagegns da nave estelar Enterprise. Sua missão de 5 anos: explorar estranhos novos mundos, buscar novas formas de vida e novas civilizações, audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve.]

Esta sinopse geral resume bem alguns dos aspectos dessa série televisiva que estreou em 1966. Ela aponta para uma jornada exploratória ao espaço. Infere-se que as histórias ocorrem no futuro mais ou menos próximo, com o advento de novas tecnologias, e que  o espectador se deparará com novas realidades alienígenas e os decorrentes conflitos, sempre com a tentativa de se os resolver de maneira pacífica, embora às vezes isso não seja possível. Essa entrada é perfeita para uma grande obra de Ficção Científica futurista e especulativa.

Star Wars começa simplesmente assim:

A long time ago in a galaxy far, far away…

[Há muito tempo atrás numa galáxia muito, muito distante…]

Aqui não existem parâmetros com base em nossa realidade. Não sabemos em que tempo exatamente ocorre essa história nem em que local do universo, e portanto não há compromisso do autor com a realidade conhecida. O aspecto atemporal (“A long time ago”) indica possibilidades fantásticas e míticas, enquanto a “galaxy far, far away” implica alguma ligação com a Ficção Cienfítica. Tudo é possível e pode-se esperar qualquer coisa em termos de personagens, tecnologia e raças alienígenas.

Assim como as publicações literárias de Ficção Científica, Star Trek se carateriza pela massiva produção de episódios, neste caso televisivos (embora tenha sido produzida mais de uma dezena de filmes). Isso às vezes empobrece a obra, pois uma produção em massa de vez em quando dá alguns frutos mal-acabados, o que não impede de se encontrar, em grande número, peças esplêndidas, narrativas excelentes e cliffhangers e reviravoltas de trama surpreendentes.

No caso de Star Wars, o projeto original é cinematográfico, com uma produção ambiciosa, e isso levou à criação de uma espécie de romance épico, bem pensado em todos os seus elementos (embora o resultado da realização da segunda trilogia – Episódios I, II e III – não tenha sido bem recebida pela maioria dos públicos).

A narrativa

As histórias de Star Trek se caracterizam como episódios isolados dentro de uma narrativa circular. Cada capítulo gira em torno de um evento crítico, um problema a ser resolvido pelos protagonistas. No fim, as coisas voltam ao normal e a nave retoma seu rumo, preparando-se para o próximo episódio em que o mesmo esquema se repete.

O propósito dessa fórmula é estabelecer um grupo de personagens, cada um com suas habilidades especiais, e colocá-los à prova com um desafio diferente em cada capítulo. Ou seja, os roteiristas imaginam situações e pensam: “como a tripulação vai resolver esse problema?” Por isso há uma marcante identificação de cada personagem em cada uma das séries da franquia (isso vai ser desenvolvido abaixo).

Por outro lado, Star Wars é uma narrativa escatológica, com características épicas e heroicas, focadas na trajetória de um ou dois personagens, desde sua gênese até sua apoteose. Cada um dos dois arcos principais (ou seja, as duas trilogias de filmes) é uma grande história completa traçada segundo o esquema da jornada do herói (Joseph Campbell).

O nome Wars (“Guerra”) caracteriza a fábula de Luke e Anakin Sktwalker como um conflito bélico, destacando heróis de guerra como figuras pivotais. Há complôs políticos, traições, golpes de Estado, a instauração de um regime de terror totalitário e sua consequente derrubada por uma força rebelde.

Ficção Científica e Fantasia

A Ficção Científica é um gênero amplo, que se baseia nas possibilidades aventadas pelo conhecimento científico para explorar enredos fictícios. Neste sentido, ela pode trazer especulações sobre o desenvolvimento da tecnologia e da sociedade, no passado ou no futuro, questionar-se quais seriam seus impactos sobre a vida das pessoas, ou imaginar formas biológicas alienígenas inexistentes (ou não), mas verossímeis e prováveis, bem como uma possível diversidade civilizatória dessas formas de vida.

Considerando esse conceito resumido de Ficção Científica, podemos encaixar perfeitamente a maior parte das histórias da franquia Star Trek neste gênero. Normalmente o mote dos episódios gira em torno de alguma das possibilidades citadas acima, com poucas exceções.

Por outro lado, Star Wars é uma ópera espacial que não se baseia especialmente em elementos científicos. Estes estão ali para compor o cenário e não para servir como mote para a trama. Em essência, Star Wars é uma fábula de capa e espada, uma aventura fantástica com elementos épicos que remetem a O Senhor dos Anéis e outras narrativas míticas (inclusive sendo toda inspirada, em seus personagens e sua trama, nos arquétipos e estruturas narrativas mitológicos).

A ficção científica em Star Wars serve de máscara para uma história heroica, remetendo ao teatro clássico, com episódios de tragédia e drama. O mais notável dos quais é a relação edipiana entre Luke Skywalker e Darth Vader. A sedução inevitável de Anakin Skywalker para o lado sombrio da Força também é tragicamente impressionante. O desenrolar desse épico tem início, meio e fim e a história completa um círculo triunfal, na forma de uma escatologia.

É possível reimaginar, por exemplo, toda a trajetória de Anakin e Luke Skywalker num cenário medieval, no Japão feudal, na Antiguidade grega ou nos moldes da cosmologia de povos indígenas, sem perder a essência de sua proposta (veja acima algumas criações do artista plástico Sillof, colocando os personagens em diversos cenários). Entretanto, não dá para reimaginar a maioria das histórias de Star Trek sem se valer dos elementos científicos, pois é a partir destes que se desenvolvem os episódios.

Personagens

Uma das principais diferenças entre os personagens de Star Trek e os de Star Wars é sua profundidade e complexidade. Resumindo, Star Trek apresenta personagens redondos enquanto Star Wars é encenada por personagens majoritariamente planos.

Eis alguns exemplos da complexidade dos personagens de Star Trek em quatro das séries que formam a franquia:

  • Série Clássica (TOS): O Sr. Spock pertence ao povo do planeta Vulcano, mas é filho de um vulcano com uma humana. Como foi criado para reprimir seus sentimentos, possui uma mente prodigiosamente racional e lógica. Porém, ele muitas vezes surpreende seus colegas e aos telespectadores com atitudes que fogem a esse padrão, e isso ocorre por dois motivos: 1) em algumas situações críticas, Spock se vê tomado pelas emoções reprimidas, e nesses momentos age de maneira ilógica; 2) quando está sóbrio, por se pautar na lógica, no discernimento e numa ética complexa, algumas vezes suas ações parecem fugir daquilo que se espera dele como um oficial da Frota Estelar, e o que parece ser insubordinação se revela um meio genial de se alcançar um bem maior.
  • A Nova Geração (TNG): O intrigante Q, criatura onipotente habitante do Continuum Q, aparece inicialmente como um antagonista e um dos mais perigosos vilões da tripulação comanda pelo capitão Picard. No entanto, à medida que vai aparecendo ao longo da série, ele por vezes ajuda os protagonistas (embora sempre à revelia destes). Q já perdeu seus poderes, tornando-se humano, e os recuperou após ter aprendido a sentir compaixão, já se valeu da ajuda dos mocinhos para realizar seus planos pessoais e já se viu como esposo e pai. No entanto, seu caráter sempre permaneceu ambíguo, nem vilão nem herói.
  • Deep Sace Nine (DS9): Os klingons são um povo cuja cultura é marcada pelo louvor à guerra, à conquista e a honra. Eles costumam cantar os feitos de seus heróis e adoram banquetear bebendo “vinho de sangue” (bloodwine). No entanto, tenente Worf, embora sempre carregue em seu olhar a ferocidade dos de sua raça, possui como marca registrada um siso e uma seriedade, mas sempre se mostrando muito zeloso e conservador com relação à cultura klingon, embora, paradoxalmente, tenha sido criado desde criança por pais humanos. Isso o coloca em grande conflito, por um lado, com humanos e a Federação e, por outro lado, com seus irmãos de sangue e o saudosismo do extinto Império Klingon. Em certo momento marcante, sua noiva pergunta porque ele não possui a alegria de viver que a maioria dos klingons tem, e ele revela que quando criança, jogando rúgbi com seus colegas humanos, acidentalmente matou um deles, o que o traumatizou para o resto da vida.
  • Voyager (VOY): Kathryn Janeway é a capitã da nave estelar Voyager. De início, ela encarna o arquétipo da mãe-rainha, encaregada de cuidar e acolher cada membro de sua equipe, sempre fiel às leis que regem a Federação e a Frota Estelar. Mas no decorrer da série ela mostra várias facetas que a tornam um personagem complexo, como a de guerreira destemida, de amante apaixonada e até a de mulher fatal, quando precisa seduzir um maligno holograma. Muitas vezes se vê diante de dilemas que colocam à prova sua lealdade aos princípios da Federação, e em algumas situações é obrigada a burlar esses princípios com vistas ao bem de sua tripulação.

É claro que estes não são os únicos exemplos. Há muitos personagens redondos em toda a franquia, mas podemos dizer que cada série tem um grau diferente de complexidade em seus personagens, sendo, em minha opinião, a Série Clássica a menos redonda e Deep Space Nine a mais redonda. Também não se pode deixar de afirmar que há vários personagens planos, mas eles não se destacam como protagonistas.

Star Wars, sendo bastante inspirada nas narrativas fantásticas e heroicas e tendo sua trama conduzida pelo esquema da luta maniqueísta entre o bem e o mal, apresenta personagens bem posicionados em seus papéis, sendo possível encaixá-los em dois ou três “lados”. Ou seja, ou os personagens são bons, lutando pelo bem e o Lado Claro da Força, ou são maus e se alinham ao Lado Sombrio da Força.

Quase não ocorrem traições ou mudanças de lado, por exemplo, os personagens bons (aliados à República ou à Aliança Rebelde) serão sempre bons, e os aliados aos Separatistas e ao Império são sempre maus. Alguns indivíduos podem até estar fora desse conflito político, ficando à margem de qualquer afiliação republicana ou imperialista, mas eles sempre estão num dos extremos do espectro. Um exemplo disso é o planeta Tatooine, planeta não-representado pela República e meio esquecido pelo Império, onde vemos personagens maus (como os bandidos de Mos Eisley e a máfia de Jabba) e bons (como a família Skywalker e seus amigos).

Há três notáveis exceções à regra, que assumem um papel ambíguo e uma personalidade conflituosa durante suas respectivas trajetórias na saga: Anakin Skywalker/Darth Vader, Han Solo e Lando Calrissian. Ambos mudam de lado e cada um passa por um período transitório de conflito. Mas mesmo aí se vê uma necessidade de se alinhar o personagem em uma de duas opções, nunca mantendo a ambiguidade por muito tempo. Talvez não por acaso, Darth Vader e Han Solo são dois dos personagens favoritos dos fãs de Star Wars.

Outra diferença entre os personagens das duas franquias diz respeito a sua verossimilhança e sua identificação maior ou menor com os mitos e personagens imaginários.

No cenário da Star Wars, os poderes de uma casta especial de guerreiros é ponto fundamental da trama, pois é entre os jedi que aparece o Escolhido e seu filho. Eles são predestinados desde o nascimento a se tornar elementos centrais dos vários episódios dessa saga épica. Tornam-se figuras notáveis como os grandes guerreiros invencíveis dos mitos antigos, tais quais Hércules, rei Arthur ou Sansão. A decisão de um desses heróis ou os efeitos de eventos externos sobre eles têm consequências galácticas, ou seja, eles têm, individualmente, poder de mudar a história.

Por outro lado, os protagonistas da Star Trek não são super-humanos. Eles se destacam muito mais por suas peculiaridades individuais e idiossincrasias pitorescas que servem de mote para o desenrolar das tramas dos episódios. Embora haja encontros com espécies alienígenas que possuem poderes sobre-humanos, o mais importante nesses encontros é a resolução das diferenças, as formas de se usar a diplomacia. Dessa forma, o destino de cada episódio não depende somente da decisão de um herói, mas de um conjunto de fatores os mais diversos e que muitas vezes fogem ao controle dos personagens.

Que a Força viva longa e prosperamente

Penso que a diferença mais básica entre Star Trek e Star Wars está no nível psíquico pelo qual cada uma fisga o expectador. Star Wars apela mais para os sentidos, deixando o espectador mais passivo diante do espetáculo, das cores e luzes, das batalhas e duelos e dos confrontos dramáticos entre os personagens. Em Star Trek, são os meandros da trama que interessam, e o espectador não para de pensar nas possibilidades de como será resolvido o roteiro, pois atiça a inteligência da plateia. Essa diferença, penso, pode guiar o apreciador de Ficção Científica e Fantasia a escolher entre uma experiência poético-dramática da guerra entre o bem e o mal ou uma experiência mais intelectual e abstrata na jornada pelas descobertas do Universo.

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O Hobbit

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Muito antes do grande sucesso mundial da trilogia cinematográfica O Senhor dos Anéis (2001, 2002 e 2003), bem antes mesmo da obra literária que inspirou os filmes (publicada entre 1954 e 1955), havia uma toca no chão e lá dentro morava um hobbit.

O Hobbit, de J. R. R. Tolkien, foi publicado originalmente em 1937, como um livro infantil de aventura. Conta a história de uma grande viagem empreendida por um pequeno ser, o hobbit Bilbo Bolseiro (ou Bilbo Baggins no original em inglês). Dizem que os primeiros leitores do livro foram os filhos pequenos de Tolkien.

Bilbo Bolseiro, o hobbit

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Os hobbits são humanoides com cerca de metade do tamanho de um ser humano (por isso, em inglês eles são chamados também de halflings), parecendo crianças humanas, exceto pelas mãos longas e ágeis e os grandes pés peludos. Vivem em “tocas”, ou seja, constroem suas casas escavadas em colinas, nos flancos das quais despontam janelas e belas portinhas redondas. Eles têm uma predileção pela vida pacata, boa comida e cachimbos. Há um quê de inglês em suas personalidades, inclusive no hábito de tomar chá no final da tarde.

Mas Bilbo tem antepassados heroicos e Gandalf, o mago errante, sabe disso, convidando-o para uma grande missão: ajudar o anão Thorin Escudo de Carvalho e seus 12 companheiros a recuperar a Montanha Solitária e o tesouro tomado pelo dragão Smaug. A princípio, tanto os anões quanto o próprio Bilbo duvidam que o hobbit tenha alguma utilidade na aventura. Mas o pequenino acaba salvando seus companheiros mais de uma vez e assumindo um papel crucial para a resolução da história.

Pessoalmente, considero O Hobbit como uma narrativa de aventura exemplar, por três motivos:

  1. Empolga a criança existente no leitor, ávida por uma grandiosa fábula, e pode ser apreciada por diferentes públicos, das mais diversas idades, gêneros, tradições culturais e interesses pessoais.
  2. É pontuada por humor e elementos pitorescos, que a tornam uma leitura agradável e nos transporta para um mundo da mais pura fantasia e romantismo, mas bastante verossímil. Os elementos fantásticos não precisam de explicação e adentramos o universo tolkeniano naturalmente, com um misto de estranheza e familiaridade.
  3. Ela segue a estrutura clássica e básica de qualquer grande narrativa mítico-literária. Um indivíduo comum que vive uma vida comum recebe inesperadamente um chamado para uma grande missão. Ele nega a princípio, mas acaba sendo levado pelas circunstâncias. Encontra aliados, inimigos e passa por dificuldades. Está sempre se lembrando de sua casa confortável, contrastando-a ao mundo perigoso e imprevisível que enfrenta. Em determinado momento crucial, ele quase morre, e é realmente tido como perdido, mas ressurge da escuridão, renovado e mais forte. Descobre e desenvolve habilidades que utiliza no momento crítico da história, tornando-se o herói de um grande evento, muito maior do que ele poderia conceber no início. Retorna ao lar, mudado, já bem diferente do que costumava ser.

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Encontros com a ganância

Ao longo dos capítulos, os personagens vão encontrando diversas criaturas fantásticas, como trolls que viram pedra à luz do sol, orcs que moram dentro das montanhas, bondosas águias gigantes e elfos desconfiados. Mas os encontros mais significativos são com indivíduos únicos, especialmente Gollum e Smaug. Estes, junto com o anão Thorin, incorporam um dos temas principais da obra, que é a ganância e a avareza.

Gollum

mcbrideGollum, como explicado posteriormente em O Senhor dos Anéis, é um hobbit que há centenas de anos encontrou um anel mágico e se isolou do mundo num pequeno lago na raiz das Montanhas Sombrias. Ele chama o anel de “meu precioso” e de “presente de aniversário”, pois o artefato lhe permite ficar invisível, recurso usado por ele para se proteger dos orcs ou matá-los se estiver com muita fome. Mas Bilbo encontra o anel e, depois de um jogo de adivinhas, acaba levando-o consigo e o utilizando em diversas situações da fábula.

No conjunto narrativo que envolve O Hobbit e O Senhor dos Anéis, Gollum pode ser visto como uma imagem prospectiva de Bilbo, aquilo em que este poderia se transformar se se mantivesse tempo demais com a posse do anel, cultivando o sentimento de avareza e possessividade que ele traz consigo.

O anel não é apresentado como um item mau nem bom, mas apenas uma ferramenta, que Bilbo utiliza para o bem de sua aventura e de seus companheiros, dando a ele um fim mais nobre do que aquele dado por Gollum. O próprio “roubo” do anel por Bilbo mostra um caráter moralmente ambíguo nas atitudes do hobbit, pois a picaretagem serviu, no conjunto da história, para um bem maior.

Smaug

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O dragão que no passado expulsou os anões da Montanha Solitária, tomando para si todo o tesouro e transformando os arredores em uma grande Desolação, é o símbolo máximo da avareza. Semelhante à figura do Tio Patinhas em sua caixa-forte repleta de moedas, Smaug desenvolveu um extremo zelo e ciúme pelo enorme tesouro roubado dos anões, não admitindo que seja surrupiada sequer uma ínfima peça, e chegando ao ponto de ter encravadas em seu longo ventre inúmeras joias, transformadas numa (quase) impenetrável couraça.

É uma figura imponente, temível e poderosa, dando a impressão de representar um desafio intransponível para anões e hobbit. Porém, na instigante conversa que Bilbo trava com a besta, ele se utiliza da vaidade e arrogância de Smaug para enganá-lo. O duelo entre os dois é puramente psicológico, e o hobbit o vence indiretamente, descobrindo seu ponto fraco e enviando uma mensagem para um exímio arqueiro, que mata o dragão.

O encontro/conversa de Bilbo com Smaug ressoa seu diálogo com Gollum, pois ambos ocorrem no canto mais recôndito de uma montanha, e tanto o desgraçado hobbit quanto o maldito dragão são figuras solitárias, tornadas assim por seus próprios vícios. Gollum serve, de certa forma, como preparação para o o desafio maior que é enfrentar Smaug.

Thorin

Também é bastante dramático o conflito entre Bilbo e Thorin, o próprio indivíduo que o contratou para a aventura. O herdeiro do trono dos anões é movido pela cobiça, sendo sua raça naturalmente propícia a amar o ouro e os artefatos de grande valor. Quando finalmente recuperam a Montanha Solitária, Thorin é tomado por um surto de ganância, e se recusa a dividir o tesouro com os humanos, vítimas de Smaug e, em parte significativa, responsáveis pela destruição do dragão.

Bilbo intervém de forma genial e virtuosa, não só auxiliando na Batalha dos Cinco Exércitos (anões, elfos e humanos contra orcs e wargs), em que os protagonistas saem vitoriosos, como ajudando Thorin a retomar a lucidez e finalmente dividir de forma justa o imenso tesouro.

Bilbo, Frodo e os anões

O Bilbo de O Hobbit é muito mais forte e interessante do que seu sobrinho Frodo de O Senhor dos Anéis. O tio foi muito mais versátil e bravo em sua aventura, fazendo coisas que nunca imaginaria capaz, tomando a iniciativa quando os anões hesitavam e concebendo ideias que significaram o sucesso da empreitada. Frodo, por outro lado, é no geral apenas o encarregado de destruir o artefato mágico maligno, muitas vezes escapando dos perigos por pura sorte, mas principalmente por causa de seu companheiro Sam, seu guarda-costas e o verdadeiro guerreiro da missão.

A partir do sucesso de O Hobbit, os leitores ansiavam por conhecer mais sobre os hobbits, e O Senhor dos Anéis trouxe isso, tanto com informações sobre a origem e os hábitos desse povo quanto colocando 4 personagens de destaque na trama. Por causa disso, talvez haja um efeito inverso para aqueles que só conhecem os filmes/adaptações de Peter Jackson. A trilogia cinematográfica que conta a aventura de Frodo Bolseiro está repleta de informações sobre os hobbits. Por outro lado, O Senhor dos Anéis pouco trata sobre os anões, trazendo apenas Gimli como representante de destaque. Assim, para quem só viu os filmes, O Hobbit de Peter Jackson trará muito ênfase em anões e pouca em hobbits (especialmente considerando que os anões do filme parecem estar muito mais complexos do que no livro), o que pode diminuir a verdadeira importância do papel de Bilbo aos olhos dos espectadores.

Legado

BILBO__O_HOBBIT_1298987128PA moderna literatura de fantasia deve muito à aventura de Bilbo Bolseiro, especialmente aquela ligada ao universo dos RPGs que seguem a linha de Dungeons & Dragons. O Hobbit praticamente estabeleceu as principais raças da maioria dos cenários de role-playing games de fantasia medieval: humanos, elfos, anões e hobbits/halflings. Também montou o cenário de eterna rivalidade entre elfos e anões e a aguerrida inimizade destes com os orcs.

Há uma conhecida adaptação de O Hobbit para os quadrinhos, feita por Charles Dixon (roteiro) e David Wenzel (desenhos), muito bonita e caprichada. A visão pessoal de Dixon e Wenzel evidencia o caráter mágico e fantástico da história, com uma arte que remete ao estilo das ilustrações de livros infanto-juvenis. A imagem de Gollum é uma das melhores que já vi entre todos os ilustradores que já desenharam as histórias de Tolkien.

No cinema/televisão, não só houve adaptações diretas da obra como influência em diversos filmes e cineastas (para mais detalhes sobre as adaptações audiovisuais, confira o artigo O Hobbit na televisão e no cinema). Grande parte dos filmes de fantasia medieval tem alguma coisa que remete a O Hobbit, mas basta lembrar de Willow – Na Terra da Magia (1988), produzido por George Lucas e dirigido por Ron Howard, que conta a grande aventura vivida por um nelwyn (raça pequenina que lembra muito os hobbits e vive em sua própria sociedade). Willow é interpretado por Warwick Davis e todos os nelwyns do filme são  vividos por anões (humanos com nanismo, para ficar bem claro).

Muitos músicos também têm nessa obra uma fonte de inspiração, sendo talvez os mais célebres a banda inglesa Led Zeppelin, que tem referências sutis em suas letras, e os alemães da Blind Guardian, autores de várias canções diretamente inspieradas pela obra de Tolkien, inclusive The Bard’s Song (The Hobbit), cuja letra resume a aventura de Bilbo.

Homo_floresiensisNa Ciência, há alguns casos de cientistas homenageando a obra de Tolkien ao batizar espécies de seres vivos.

Há um gênero de tubarões, por exemplo, que vive nas profundezas do oceano e tem grandes olhos. Pela semelhança com a imagem de Gollum (que tinha grandes olhos brilhantes e vivia na escuridão profunda de uma caverna), ele foi batizado pelo pesquisador Leonard Compagno como Gollum. Há duas espécies conhecidas, Gollum attenuatus, que vive em águas ao redor da Nova Zelândia, e Gollum suluensis, habitante do Mar de Sulu, ao sul das Filipinas.

Outra criatura, neste caso extinta, é um hominídeo que viveu na Ilha de Flores, na Indonésia, cujos vestígios foram descobertos em 2003, o Homo florensiensis (ainda se discute se se trata de uma espécie separada do gênero Homo ou se são Homo sapiens com patologias anatômicas). Pelo seu tamanho diminuto, são apelidados como “hobbits” por arqueólogos, e quase foram batizados como Homo hobbitus na época de sua descoberta.

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O próximo grande  legado de O Hobbit é a vindoura trilogia dirigida por Peter Jackson, cuja primeira parte estreia nesta sexta-feira, dia 14. Não é exagero dizer que todos os admiradores da obra de Tolkien esperam ansiosamente.

Links

Imagens

  • Jogo de Adivinhas, por Tim Kirk (Destaque)
  • Uma Visita Matutina Inesperada, por Ted Nasmith
  • Uma Festa Inesperada, por John Howe
  • Gollum, por Angus McBride
  • Smaug, por Justin Gerard
  • Capa de Bilbo – O Hobbit, de Charles Dixon e David Wenzel
  • Crânio de um Homo florensiensis
  • Foto de um tubarão da espécie Gollum attenuatus

Valente

Padrão

Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Valente (Brave, 2012), produção da incorruptível Pixar, traz um conto de fadas com mais uma princesa em busca da realização do seu destino. A diferença é que, contrariamente a todas as princesas Disney (distribuidora da obra), Merida não é uma mera donzela passiva e seu destino é incerto durante toda a narrativa.

Sinopse (com spoilers)

Filha de Fergus, chefe do clã escocês DunBroch, e de Elinor, a primogênita Merida é desde criança incentivada pelo pai a usar o arco, instrumento tradicionalmente reservado aos homens, e ela desenvolve o gosto pela aventura e por tudo o que se relaciona ao mundo masculino, desprezando as lições da mãe sobre feminilidade e a boa conduta de uma princesa.

A impertinência de Merida chega ao cúmulo quando ela se recusa a escolher um pretendente entre os primogênitos dos outros clãs (Dingwall, MacGuffin e Macintosh – este último nome faz parte da homenagem da obra a Steve Jobs), o que quase dá início a uma guerra. Depois de brigar com a mãe e simbolicamente rasgar uma manta costurada por Elinor, Merida segue fogos fátuos na floresta, que sua mãe dizia serem mágicos e levarem ao destino de quem os seguisse, e encontra uma bruxa, que lhe vende um feitiço para “mudar minha mãe e meu destino”.

O feitiço transforma Elinor num urso, o que obriga mãe e filha a fugirem do castelo (especialmente pelo fato de Fergus estar esperando há anos por se vingar de Mor’du, um urso que lhe arrancou uma perna). Merida descobre que o feitiço só pode ser quebrado se ela decifrar um enigma que envolve a reconstituição de algo que foi alterado. Após viver algum tempo com a mãe (em forma de urso) na floresta, elas retornam ao castelo, onde Merida (com o auxílio da mãe) consegue convencer os chefes dos quatro clãs de que a tradição deveria ser alterada e os jovens deveriam poder decidir com quem vão se casar.

Enquanto Merida costura a manta que ela rasgara, pensando que assim poderia quebrar o feitiço, Fergus encontra e enfrenta a própria esposa, achando que é Mor’du, e conclama seus guerreiros para executá-la. O verdadeiro Mor’du aparece, e Elinor consegue matá-lo numa luta. Com todos reconciliados, a rainha volta à sua forma humana e o equilíbrio é restabelecido numa nova ordem.

A jornada da heroína

A trama de Valente em si mesma é um simples conto de fadas como qualquer outro. Segue toda a estrutura narrativa campbelliana (a jornada do herói) e acrescenta pouca novidade em comparação com as histórias folclóricas consagradas, especialmente aquelas imortalizadas na telona pela Disney. Porém, a Pixar sabe, mais do que adaptar contos de fadas para o cinema, inventar novas fábulas (quase todos, senão todos, os roteiros do estúdio são originais). E mesmo pisando em terreno conhecido, Valente traz uma novidade óbvia, que é uma heroína do sexo feminino.

Logo no começo da história, vemos que Merida está destinada ao conflito entre a liberalidade do pai e as exigências tradicionais da mãe. E é bom salientar que a jovem não se torna pura e simplesmente uma guerreira obtusa como Fergus. Diferente deste, ela acredita em magia e em lendas, e deve isso à sua mãe. Sem esse elemento fantástico, a trama não se desenvolveria como o fez.

No início deste texto eu disse que Merida não é como as outras princesas Disney. E o principal elemento que lhe falta para ser uma é um interesse amoroso, um príncipe para chamar de seu (ou para que ele a chame assim). Nenhum dos pretendentes desperta o menor interesse nela, e durante toda a história não aparece a menor menção sub-reptícia de um possível amor romântico. Merida é uma amazona como as das lendas gregas, condensa em si mesma os dois papéis, o de princesa e o de guerreiro, assumindo a responsabilidade pelo próprio destino.

Todo a resolução do conflito é resolvida pelas duas mulheres protagonistas, Merida e Elinor. Não que nas lendas e contos as mulheres não resolvam conflitos (vide Psiquê na mitologia grega), mas é raro que o façam como guerreiras e não utilizando a psique. Normalmente, o feminino, nos contos de fadas, se encarrega da parte mágica e psíquica dessa resolução, enquanto os conflitos físicos são tarefa dos homens. Em Valente, vemos uma mudança nesse paradigma, pois as duas metades, o yin e o yang do drama, são empreendidos pela mulher.

A fábula poderá ter um efeito positivo em meninos, acostumados com heróis masculinos, e em meninas, que praticamente só conhecem nas histórias garotas que são princesas. A quebra do paradigma sexual dualista, embora ainda não radical, possibilita a reflexão sobre a liberdade individual perante as exigências sociais quanto à identidade de gênero.

Herói em corpo de princesa

O filme tem uma mensagem oculta, que a maioria das crianças e grande parte dos adultos não vão perceber. Merida é uma transexual. Ela não assume a identidade feminina exigida pela sua cultura, tendo uma personalidade e hábitos de um homem. Participa ativamente de atividades esportivas/bélicas, caminha com uma postura masculina, não se importa quase nada com vestidos e maquiagem e não segue a etiqueta ensinada por sua mãe à mesa.

É importante fazer uma referência a Mulan, uma das principais princesas da Disney. É inevitável que se façam comparações entre as duas, mas Mulan não nasceu no corpo errado, digamos assim. Ela não é uma amazona, e só assume a identidade de homem para evitar uma desonra familiar e a destruição do Império Chinês. Quando termina sua missão, ela volta a ser a moça prendada que sempre foi e até se casa com um galante general ao qual serviu em batalha.

Merida continua a ser, de certa forma, um rapaz em corpo de moça ao final da história, e mesmo mantendo uma identidade feminina, pode-se ler nas entrelinhas uma tímida mensagem destinada às pessoas que, por alguma razão, sentem-se como se não pertencessem ao sexo com o qual nasceram.

Corrobora essa interpretação a necessidade de sua mãe assumir outro corpo para vir a compreender a filha. O feitiço ajudou Elinor a entender o drama de Merida, ou seja, a falta de identificação com o próprio gênero. Sendo assim, embora seja muito sutil, a mensagem do filme é bem subversiva para os padrões do cinema infanto-juvenil. A pequenos passos, o cinema está evoluindo.

Adendo importante (10/08/2012 e.c.) (editado em 28/11/2013 e.c.)

Vejo agora que a afirmação acima de que Merida é “transexual” é uma forçação de barra que teria sido melhor evitar.

Leiam com atenção o post Princesa, heroína e guerreira: Valente de Nívea Melo, uma crítica muito boa ao meu texto, que traz outras questões pertinentes para a compreensão da mensagem do filme. Leiam também o texto que escrevi posteriormente, Merida, seus pretendentes e o transgenerismo.