Para adormecer rancores

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Des-asperada de saliva rompe os limites dos lábios, acompridando-se compassada pela vibração dos globos oculares, ali somente brancos. Deita-se a língua sobre o casaco de proibir frio, objetivando o pingo espesso abandonado pelos lábios derramados de um cochilo fundo. Alcança as carnes vermelhas, de arrimos de tijolos pequenos brancos. Faz-se proprietária das bochechas almofadadas, escuras, escorregadias. A língua outra, postada tapete, testemunha a passagem de metro e meio de corpo quente. Embalado pelo sono, nenhum membro se move, autorizando e acolhendo o ser de passagem. Sedutora transita adormecendo os sentidos vitais. Cessam-se os movimentos peristálticos, desliquida o estômago, rende o fígado, boca, rins. Adentra o intestino rompendo os negros obstáculos. Irradia sonolência, desviva bexiga, ureter, pênis. Então fatigada pelo êxtase do trajeto, dorme displicente, afoga-se no seu próprio sono. Não vê que aos poucos os sentidos se recompõem e reclamam seus espaços. As tripas se contraem roubando as possibilidades do movimento. Desperta-se em digestório ato, tem bruscamente removida a raiz. A boca de fora em transe, cospe sonoro ruído. Retorna o preto desbranqueando os olhos. Os corpos desabam lado a lado, desentendidos das primeiras intenções. Este dia fez-se adiante, pois que nenhum outro homem pode ser desarmado de seus viscerais rancores.