Por uma literatura (re)criativa

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O leitor ou ouvinte não é um simples receptor de mensagens. Ao se identificar com o texto escrito ou verbalizado, o ser social mistura-se ao texto, reproduzindo sentidos, mas não a um texto qualquer. Estariam excluídas as narrativas inautênticas e de parcos recursos artísticos. Será? O presente ensaio elabora argumentos em defesa do potencial libertador dos contos de fadas, literatura considerada trivial ou de entretenimento.

Chapeuzinho Vermelho por Gustave Doré

Chapeuzinho Vermelho por Gustave Doré

Os contos de fadas, quando recontados em livros destinados ao leitor criança, são considerados literatura trivial, de entretenimento ou mitológica. Os autores Jerusa Pires Ferreira e Flávio Kothe (1), citados por Borelle (1996), definem literatura trivial como sendo aquela que valoriza sentenças de frases feitas, carregadas de clichês e constante descritividade.

José Paulo Paes (2), também citado por Borelle (ibid), entende que literatura de entretenimento faz parte da cultura de massa, onde a originalidade de representação tem existência quase nula. O autor coloca no balaio da literatura de entretenimento o romance policial e de aventuras, a ficção científica e a ficção infanto-juvenil (como os contos de fadas).

Em oposição à literatura trivial ou de entretenimento está a de proposição, termo apropriado por Antônio Fernandes de Medeiros Júnior (3) (2011) para descrever o tipo de literatura que, ao ser autorizada pelo leitor, realoca seu lugar (do leitor) no mundo.

Se aceitarmos a construção semântica de Medeiros para o termo literatura de proposição – como sendo aquela que produz sentido para além do texto –, como definir os limites desta ou daquela literatura tendo como referência apenas a estrutura da mensagem? Ora, se as palavras escritas dependem do leitor para que façam sentido, determinar que contos de fadas, ficção científica, ou romance policial (todos) fazem parte de uma literatura de entretenimento não é o mesmo que desconsiderar a reação singular do leitor?

O antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin (4) coloca que a complexidade manifesta-se no plano da ação, naquilo que chama de ecologia da ação. Para Morin, uma ação não depende somente da vontade daquele que a pratica.

Ao fabricar os primeiros aviões, o mineiro Santos Dumont não imaginava que anos mais tarde sua invenção ganharia os céus dos países imersos na Primeira Guerra Mundial. Não imaginava também que, mesmo não sendo atingido por mísseis lançados dos ares, morreria pelos destroços de dirigíveis e aeroplanos em sua cabeça.

A ação, como explica Morin, depende também dos contextos em que ela se insere, das condições sociais, biológicas, culturais, políticas que podem ajudar o sentido daquilo que é a nossa intenção. Dessa forma, as ações podem ser praticadas para se realizar um fim específico, mas podem provocar efeitos contrários aos fins que pretendíamos.

Assim como as de Santos Dumont, as ações de Carlos Drummond de Andrade, Joaquim Maria Machado de Assis, João Guimarães Rosa,  Haia Pinkhasovna Lispector, Cecília Benevides de Carvalho Meireles, Angenor de Oliveira (dentre outros) também são constantemente transformadas por leitores e ouvintes, inscritos em condições sociais, biológicas, culturais e políticas específicas.

Alguns desses receptores são capazes de ampliar o que leem, veem ou ouvem. Outros são capazes de ignorar. Mas há também os que conseguem reduzir. Pensando assim, por que as narrativas lineares, com fórmulas repetidas, representações recorrentes não poderiam receber o status de boa literatura, quando ressignificadas pelo leitor?

Não por obra do acaso, os contos recolhidos pelos Irmãos Grimm, Charles Perrault, La Fontaine e outros arqueólogos de baús de histórias tenham conseguido perpassar gerações tão díspares, preservando uma relação fulgurante, expressiva e ardente com o leitor ou ouvinte.

Quando os primeiros contos foram recolhidos, estava em vigor a tradição oral camponesa. As narrativas não traziam moral da história, muito menos revelavam um final feliz. Ao invés disso, estampavam-se de crueldade (humana e da natureza), manipulavam objetos cênicos de riquíssimo valor simbólico e enveredavam-se nas curtas tramas, cujo objetivo era ajudar os aldeões a atravessar as noites.

Estas histórias cruzaram o tempo-espaço para nos séculos XIX e XX impulsionarem a organização de uma ficção propriamente infantil. Segundo os autores Diana e Mário Corso (5) (2006), as histórias para crianças desse período não parecem ser estruturalmente muito diferentes dos contos de fadas, no que tange à capacidade de fornecer elementos que as ajudem a elaborar suas questões. Para os autores, mudam os temas, mas a operação continua a mesma.

A história de Chapeuzinho Vermelho, contada a seguir, foi recolhida da tradição oral camponesa, por Charles Perrault no século XVII. A história não apresenta um final feliz e claramente não contribui para a elaboração de uma moral da história, cujo objetivo é formatar crianças obedientes. De outro modo, alerta para os perigos de um contato precoce com a sexualidade infantil.

Certo dia, a mãe de uma menina mandou que ela levasse um pouco de pão e leite para sua avó. Quando caminhava pela floresta, um lobo aproximou-se e perguntou-lhe onde ia.

– Para casa da vovó.

– Por qual caminho, o dos alfinetes ou das agulhas?

– O das agulhas.

O lobo seguiu pelo caminho dos alfinetes e chegou primeiro à casa. Matou a avó, despejou seu sangue numa garrafa, cortou a carne em fatias e colocou numa travessa. Depois, vestiu sua roupa de dormir e deitou-se na cama, à espera.

Pa, pam.

– Entre, querida.

– Olá, vovó. Trouxe um pouco de pão e leite.

– Sirva-se também, querida. Há carne e vinho na copa. A menina comeu o que foi oferecido, enquanto um gatinho dizia: “menina perdida!”

“Comer a carne e beber o sangue da avó!”

Então o lobo disse:

– Tire a roupa e deite-se comigo.

– Onde ponho o meu avental?

– Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dele.

Para cada peça de roupa (…) a menina fazia a mesma pergunta, e a cada vez o lobo respondia:

– Jogue no fogo… (etc.).

Quando a menina se deitou na cama, disse:

– Ah, vovó! Como você é peluda!

– É para me manter mais aquecida, querida.

– Ah, vovó! Que ombros largos você tem!

(etc., etc., nos moldes do diálogo conhecido, até o clássico desfecho):

– Ah, vovó! Que dentes grandes você tem!

– É para comer melhor você, querida.

E ele a devorou.

(CORSO, 2006) (6)

Sem os mesmos elementos e talvez com a representatividade parcialmente mutilada, a história de Chapeuzinho Vermelho (assim como tantas outras) chegou aos dias de hoje, reclamando um espaço na vida das pessoas, contextualizadas na era das imagens artificiais e animadas. Ainda não houve condições biológicas, culturais e políticas que inviabilizassem a interação (re)criativa (posto que o movimento é cíclico) entre leitor ou ouvinte e as histórias. Ainda hoje, quem percebe um conto, acrescenta em si um ponto.

As versões modernas dos contos de fadas, que escondem a carne e o sangue da vovozinha, foram reformuladas no instante mesmo da configuração de famílias nucleares. Nesta nova configuração inventa-se a infância tal qual a conhecemos hoje. “A infantilização das narrativas tradicionais, transformadas nos atuais contos de fadas, é concomitante à criação de um mundo próprio da criança e ao reconhecimento de uma psicologia infantil”. (7)

O conto O Barba Azul, recolhido por Charles Perrault, ganhou uma versão em poema nas mãos de Ruth Rocha. Reconhecida por escrever literatura para criança, Ruth não subestimou o leitor quanto a sua capacidade subversora. Entregou um texto rico esteticamente, sem que para isso fosse necessário furtar a crueldade explicita no conto original. Trata-se de um conto de fadas, com uma proposta para além do estímulo ao consumo.

E quando as jovens partiram,
A moça já não suporta.
Corre pelo corredor,
Pois já nada mais importa.
A chave na fechadura,
Abre finalmente a porta!

Lá dentro, tudo era escuro.
Os olhos, se acostumando,
Começam a ver, aos poucos,
As figuras se formando.
As mulheres, penduradas,
Em ganchos, se balançando!

“Então é esse o segredo?”
Completamente abalada,
A moça corre de volta,
Tropeçando pela escada,
Caindo pelo caminho,
Sobe ao quarto apavorada!

(ROCHA, 2010) (8)

É por mediar o diálogo entre a criança e o universo (o seu e o do outro), que as ficções infanto-juvenis (aqui representadas pelo contos de fadas) não devem frequentar o balaio da literatura recreativa, sem que antes seja verificado o seu potencial transformador. Cabe, neste momento, a defesa por uma literatura para a infância e não apenas acessível às crianças.

Uma história acessível às crianças é uma história capaz de ser decodificada por elas. Uma história para crianças é um pré-texto. São linhas disformes, preenchidas por palavras indecifráveis de uma literatura inconsciente. Os sentidos produzidos serão resgatados em outro momento, quando não for mais possível acreditar em bruxas, princesas imaculadas e fadas.

Histórias não garantem a felicidade nem o sucesso na vida, mas ajudam. Elas são como exemplos, metáforas que ilustram diferentes modos de pensar e ver a realidade e, quanto mais variadas e extraordinárias forem as situações que elas contam, mais se ampliará a gama de abordagem possíveis para os problemas que nos afligem. Um grande acervo de narrativas é como uma boa caixa de ferramentas, na qual sempre temos o instrumento certo para a operação necessária, pois determinados consertos ou instalações só poderão ser realizados se tivermos a broca, o alicate ou a chave de fenda adequados. Além disso, com essas ferramentas podemos também criar, construir e transformar os objetos e os lugares.

(CORSO, 2006) (9)

Pode-se também traçar um paralelo interessante com a poesia através da qual as palavras se tornam ferramentas multiuso. “Freud vai estabelecer uma relação entre criança e o poeta: a criança quando brinca, tal como o poeta quando escreve, situa as coisas do seu mundo em uma nova ordem de sentido. Inventa uma ficção.” (MAGALHÃES, 1998) (10)

Dizer que a ficção infantil, os contos antigos e os de fadas não devem ser considerados como de entretenimento não é o mesmo que colocá-los acima de qualquer suspeita. Existem textos ruins, que reforçam discursos desumanizadores, mas existem os redentores. Que esteja claro, então, que defender a importância do recurso à fantasia não implica supor que as crianças devam crescer em um ambiente de histórias pobres. Além disso, a criança não é tola. Foge de textos-cartilhas, onde a moral é imoral: apresenta-se sem roupas.

Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Precoce

Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Precoce

 

Notas

  1. FERREIRA, Jerusa Pires e KOTHE, Flávio apud BORELLE, Silvia Hlena Simões. Ação, suspense, emoção: literatura e cultura de massa no Brasil. São Paulo: EDUC, 1996.
  2. PAES, José Paulo. apud BORELLE, Silvia Hlena Simões. Op. cit.
  3. CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM LITERATURA BRASILEIRA, UFRN, 2011.
  4. MORIN, Edgar. O Método 6 – ÉTICA. Porto Alegr :Editora Sulina, 2005.
  5. CORSO, Mário e Diana Lichtenstein. Fadas no divã: psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre: Artmed, 2006.
  6. Ibid.,p. 17-18
  7. Ibid.,p. 16
  8. ROCHA, Ruth, O Barba Azul. São Paulo: Moderna, 2010.
  9. Ibid.,p.303
  10. MAGALHÃES, Sonia Campos. Dos contos, em cantos. Bahia, Salvador: Ágalma,1998.

Trabalho como parte da avaliação da disciplina Teoria do Texto Poético, oferecida pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN sob orientação do professor, Dr. Antônio Fernandes de Medeiros Júnior. Natal – RN, outubro, 2011.

Mais sequelas e consequências

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Meu último texto não esgotou o tema do Acordo Ortográfico. O quiproquó, por exemplo, será sentido no ensino fundamental, especialmente na alfabetização, onde as crianças e, em alguns casos, adultos não saberão mais quando uma nova palavra aprendida na leitura tem o u pronunciado ou não, o que nós sabíamos perfeitamente com a regra do trema.

Aí subjaz outro problema. É que o aprendizado, digamos, natural do idioma começa pela escuta/fala e depois, no caso das sociedades que têm esccrita, a leitura/escrita. A pronúncia das palavras é (ou deveria ser) aprendida primeiro e então conheceríamos a convenção gráfica que representa aquele vocábulo. Se já ouvimos que linguiça tem o u pronunciado e banguela não tem, não teremos grandes problemas ao ver pela primeira vez as duas palavras escritas, e entenderemos que, em alguns casos, qugu são dígrafos e em outros não.

Mas a dinâmica não é bem essa. Em nossa sociedade e em muitas outras, a leitura/escrita é uma parte importante do aprendizado do vocabulário de um idioma. Dessa forma, uma regra de pronúncia como a do trema serviria de guia para que soubéssemos como proferir corretamente uma palavra, ao menos em sua forma culta. Por isso a escrita se adapta à evolução da língua falada, e a grafia serve como um guia importantíssimo para estrangeiros que estão aprendendo um novo idioma.

Quem estudou línguas como o italiano sabe que no idioma de Dante há pouquíssimas variações fonéticas, e com um manual escrito se pode aprender a pronunciar qualquer palavra italiana apenas sabendo como é escrita. Mas quem se aventurou a desvendar os mistérios da língua de Shakespeare tem que aturar o fato de que os ingleses têm um idioma escrito que não obedece a nenhuma regra fonética, e cada palavra tem que ter sua pronúncia e escrita aprendidas separadamente.

O português é relativamente fácil neste aspecto, mas tem algumas variações que são uma dificuldade para os estrangeiros. A nova reforma ortográfica bem que poderia servir para facilitar ainda mais o aprendizado da língua de Camões. Mas, infelizmente, parece que só vai beneficiar dois tipos de pessoas: diplomatas, que só precisarão redigir uma versão de cada documento oficial; e linguistas e gramáticos, que serão chamados a programas de televisão para comentar sobre o assunto.

Porém, se pensarmos bem, perceberemos que há um problema relativo às palavras que mantiveram grafia dupla, uma portuguesa e uma brasileira. O que se vai fazer quando um documento contiver a palavra cômico/cómico? Será privilegiado o brasileiro circunflexo ou o português agudo?

Mas, a propósito, ainda há outro aspecto não muito explorado nas discussões sobre essa reforma. A unificação almejada, que supostamente facilitaria a comunicação entre os países lusófonos, não vai resolver as dicotomias celular/telemóvel, arquivo/ficheiro, fila/bicha, camisinha/durex et coetera et al.

Hoje de manhã escutei na rua uma mulher falando ao telemóvel: “Você vai pu restaurante?” Se ela escrevesse a frase de maneira gramaticalmente correta, seria: “Você vai para o restaurante?” Mas poucos se apercebem que somos um país, no mínimo, bilíngue. Escrevemos “Estou comendo o lanche” mas falamos “Tô cumeno lanche”. Se observarmos bem com nossos ouvidos atentos, percebermos como muitas pessoas articulam formas diferentes de pronunciar o idioma, segundo a situação em que se encontram, se na casa de um amigo conversando sobre um filme de ficção científica do qual gostou muito, ou numa sala de aula da universidade falando sobre o mesmo filme em seus aspectos semióticos, imagéticos e antropológicos (esta segunda é mais parecida com a forma escrita da língua).

Fechem os olhos e imaginem as duas cenas (ou cenas que evoquem a mesma ideia de disparidade linguística) com bastantes detalhes. Não é pitoresco?

Bem, um amigo meu me disse hoje que só vai adotar a nova ortografia quando for fazer algum concurso público. Muita gente não está gostando da reforma, e parece que muitos portugueses se negam a adotá-la. Eis o advento de uma nação trilíngue. Temos agora uma língua falada rica em movimento, uma língua falada/escrita mais formal e uma só escrita, que serve para os documentos sagrados da burocracia. Se antes já tínhamos uma norma de difícil acesso, cujos segredos esotéricos só os mais bem-preparados poderiam desvendar, agora temos um idioma místico e hermético apenas para iniciados.

Nota pós-texto

Texto publicado originalmente em 20 de janeiro de 2010 e.c.