O universo colorido de Steven

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Há tanta, tanta coisa a se falar sobre Steven Universo (Steven Universe) que cá eu fico planejando vários textos para abordar tantos dos temas que aparecem ao longo dessa bela série. Mas se não vier a ser o caso, ao menos vou apresentar aqui diversas das razões porque acho esse desenho animado tão apaixonante e instigante e porque penso que vale a pena lhe dar uma chance.

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Liberdade e livre-arbítrio – parte 2

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A restrição da liberdade é condição sine qua non da própria vida humana em sociedade. Se não fosse o refreamento dos impulsos vitais, por exemplo, os conflitos interpessoais quase sempre terminariam em derramamento de sangue ou morte. Se as pessoas fossem totalmente desimpedidas para expressar o que pensam, qualquer discordância se tornaria uma troca de insultos, xingamentos e ataques verbais preconceituosos, desperdiçando-se a oportunidade do debate de ideias. Se não fosse a cultura, enfim, não seríamos humanos.

Esse refreamento deveria se tornar uma prática consciente, parte de uma autocrítica constante, norteada pela razão e por uma noção realmente libertária da liberdade. Esta só tem sentido como valor social quando se aplica a todos igualmente, e isso necessariamente significa que, paradoxalmente, nem tudo é permitido numa sociedade livre.

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Liberdade e livre-arbítrio – parte 1

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É por parte de cristãos de diversas denominações que mais se ouvem queixas reacionárias perante críticas dirigidas ao Cristianismo, manifestações pelos direitos dos LGBTs e reivindicações pela efetiva laicidade do Estado. Quando uma boa quantidade de pessoas critica o comportamento de evangélicos que transformam uma cabine do metrô numa barulhenta sessão de pregação, com direito a possessões divinas e diabólicas, alguns evangélicos sentem que se trata de uma repressão a sua crença. É difícil que algo assim não provoque calorosas discussões na internet.

Recentemente a direção do Hospital Regional do Agreste, em Caruaru, Pernambuco, proibiu as práticas de pregação e oração por parte de visitantes nas enfermarias. Nada mais é do que um ato de bom senso e compreensão da necessidade de os vários pacientes repousarem e se recuperarem de procedimentos médico-cirúrgicos. Pastores se sentiram oprimidos em sua liberdade de culto, como se a pregação fosse mais importante do que a liberdade e a saúde de outras.

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O que é homofobia?

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Recentemente o Bule Voador divulgou uma matéria da APA (American Psychological Association) sobre uma pesquisa que reforçou uma suspeita que a Psicanálise já tinha há muito tempo: a homofobia advém da repressão dos próprios desejos homossexuais do homófobo.

Basicamente, a pesquisa foi feita com um grupo de jovens homens heterossexuais (divididos em dois grupos, um homofóbico e outro não-homofóbico), que assistiram a três vídeos com cenas de sexo, uma mostrando um casal heterossexual, outra mostrando um casal gay e um terceiro apresentando um casal lésbico. A ereção dos jovens foi medida através do uso de um aparelho, e constataram-se diferenças no entumescimento do pênis, de acordo com a homofobia (ou sua ausência) e o tipo de vídeo visto pelo sujeito.

Os resultados foram interesantes (embora se possa criticar o fato de o grupo pesquisado ser pequeno, 35 homens homofóbicos e 29 não-homofóbicos, e seria necessário um grupo maior para os resultados serem mais confiáveis). Quando aos sujeitos se expunham vídeos de sexo heterossexual ou lésbico, não havia diferença significativa entre os dois grupos. Mas os homofóbicos tiveram um grau de ereção maior do que os não-homofóbicos quando assistiram ao vídeo de sexo gay.

Isso tudo faz sentido e é muito lógico. Uma vez que em nossa cultura a homossexualidade ainda é vista como um comportamento indesejável, especialmente a homossexualidade masculina, os impulsos homossexuais de homens que se assumem como heterossexuais tendem a ser reprimidos, e o ódio e aversão aos homossexuais ou aos comportamentos que remetem à identidade gay são uma forma de projetar essa repressão.

Cena do filme Beleza Americana (1999), em que um homem ultraconservador e homofóbico, num momento de angústia, dá um beijo no seu vizinho

La Lengua de las MariposasNo conto A Língua das Borboletas (La Lengua de las Mariposas), de Manuel Rivas (transformado num excelente filme por José Luis Cuerda), que se passa à época da instauração da ditadura franquista na Espanha, o pai do protagonista, simpatizante do ateísmo e do comunismo, é aquele que grita mais alto contra os presos políticos que passam em fileira à sua frente: “Ateus! Comuunistas!”

A fobia extrema se justifica quando seu agente precisa deixar bem claro, para si e para os outros, que não se enquadra no comportamento indesejável. A exaltação é uma manifestação da insegurança. Afirmar com veemência que, por exemplo, “eu não tenho nada de gay!” ou “meu lado feminino é lésbico!” ou ainda “não consigo me imaginar com outro homem” é uma forma de tentar ocultar alguma coisa que há dentro de si.

Relativizando

Porém, é preciso relativizar. Como os próprios autores da pesquisa afirmam, a ereção também pode ser resultado de ansiedade. Ao ver imagens que consideram desagradáveis e desconfortáveis, os homofóbicos têm respostas fisiológicas que incluem a ereção, não necessariamente relacionada à excitação sexual. No entanto, se a ansiedade está relacionada à homofobia, esta não se explica por si só. O homófobo se sente desconfortável diante da cena por algum motivo, e este pode ser justamente o fato de o sujeito ter que enfrentar os próprios desejos homossexuais.

Além disso, temos que considerar também, para que essa pesquisa se constitua como boa ciência, as condições em que foram feitas. O próprio fato de saber que está passando por um experimento já deve ter algum efeito na psico-fisiologia do sujeito, que talvez não estivesse prevista nem seja ainda compreendida pelos pesquisadores. Além disso, a ereção advinda da ansiedade de ver uma cena desagradável também pode vir da ansiedade de estar sendo observado. Entretanto, se este fosse o único aspecto relevante, os não-homofóbicos apresentariam os mesmos níveis de ereção que os homofóbicos.

Outro aspecto que pode ser considerado controverso é o enquadramento dos sujeitos da pesquisa no perfil “heterossexual” e “homofóbico”/”não-homofóbico”, feito através de questionários que estabelecem o lugar dos sujeitos dentro de uma escala. Esses questionários são baseados em ideias pré-concebidas a respeito do que é heterossexual (em oposição a uma pré-noção do que é homossexual) e numa ideia estabelecida do que é homofobia. Mesmo que eles possam atestar com segurança a adequação nesses perfis institucionalizados pela cultura à qual pertencem os pesquisadores e os sujeitos, é preciso cuidado para não naturalizar de maneira absoluta as identidades e comportamentos humanos.

Porém, a explicação dos impulsos homossexuais reprimidos é lógica, e a pesquisa ajuda a reconhecer a realidade bissexual de nossa psique. De fato, os não-homofóbicos também apresentaram alguma excitação frente às imagens de sexo gay, embora bem menor. Como disse minha amiga Nivea Melo, psicóloga, a respeito dessa mesma pesquisa:

a ansiedade e o medo comumente desencadeiam ereção em homens e lubrificação vaginal em mulheres, efeitos do sistema nervoso simpático. […] O medo de se excitar pode ter deixado estes jovens homofóbicos excitados… agora imagine: ter medo de homossexual e excitar-se com eles, ficando ainda com maior medo de ser homossexual… Reação de luta e fuga desencadeada, agressões homofóbicas mais prováveis…

Humanizando

Porém, a constatação de que a homofobia está ligada a desejos sexuais homoeróticos não explica por si só a violência e o bullying homofóbicos. Deve-se encarar esse fenômeno como uma resposta fisiológica a algo mais complexo e que tem origem na história e na cultura.

Para nossa sociedade, a homossexualidade representa um desvio em relação aos papéis sexuais estabelecidos como ideais. Dos homens se espera que tenham certos caracteres de personalidade e comportamento, assim como das mulheres. Uma dessas características é a preferência exclusiva, no desejo sexual, por mulheres. Um homem que deseja sexualmente outros homens é considerado um deslocado ou um ser ambíguo, não completamente homem nem exatamente mulher.

Para nossa cultura, as pessoas só se encaixam em dois gêneros possíveis, sem intermediários: masculino-homem e feminino-mulher. Temos toda uma parafernália pedagógica, comportamental e material para garantir que o sexo de uma pessoa seja iconfundível: maneirismos característicos de cada sexo, tipos específicos de roupas, cabelos e penduricalhos, além de gostos artísticos ou preferências por certas manifestações culturais de nossa sociedade.

Qualquer tipo de desvio desse ideal provoca inquietação. Uma vez que esse enquadramento nos obriga a acatar certas coisas e renunciar outras (coisas que nem sempre correspondem, respectivamente, àquilo que intimamente desejamos e ao que repudiamos), tendemos a jogar os desviantes ao leito de Procrusto e, ao mesmo tempo, reprimir uma parte de nós mesmos, aquela parte que nos faria sair de um dos polos sexuais para uma identidade ambígua e inquietante, segundo os valores da maioria de nós.

Concluindo

Se o homossexual é a pessoa que  prefere parceiros sexuais semelhantes (em geral, homens que preferem homens e mulheres que preferem mulheres), pois homo significa “igual”, a homofobia então poderia abranger também o sentido de: medo ou aversão das pessoas semelhantes a nós (já que a aversão ao desejo homossexual do outro corresponde à repressão do próprio desejo homossexual).

Mas toda cautela é pouca ao se usar essas descobertas para militar a favor (ou contra) da erradicação da homofobia. Por um lado, algumas pessoas podem começar a acusar os homofóbicos de “gays enrustidos”, caindo na mesma homofobia que percebe os homossexuais como pessoas problemáticas.

Por outro lado, os movimentos homossexuais podem ver nessa “constatação” um suporte para uma frase comum e emblemática entre alguns de seus membros: “todo mundo é gay!” Dessa forma, pode-se reforçar uma postura que não reconhece a diversidade humana, mas tenta enquadrá-la toda num só modelo hegemônico.

Links

Ilustração:

Quadrinho de Krazy Kat, por George Harriman (1880-1944). (Krazy Kat é um personagem desconcertante, pois não se sabe se é macho ou fêmea, e vive recebendo tijoladas do rato Ignatz, por quem é apaixonado.)