Animais, inteligência e teimosia

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Certa vez li que os burros são animais inteligentes mas muito teimosos. Daí teria surgido o sentido pejorativo da palavra “burro”, inicialmente se referindo a pessoas teimosas e posteriormente variando de significado para caracterizar pessoas de baixa capacidade intelectual. Ou seja, acabou que o sentido figurado atualmente empregado à palavra contradiz a natureza dos animais citados, mais inteligentes do que vários outros tipos de bichos domésticos.

Mas essas noções de inteligência e teimosia são complicadas de se lidar (é preciso certo nível de inteligência para isso e os conceitos apresentam certa teimosia diante de quem tenta refletir sobre eles). Afinal, o que realmente significa inteligência? O que ela mede exatamente? Não vou nem tentar me debruçar sobre essa definição, mas vou simplificar as coisas da seguinte maneira: Inteligência é a capacidade de um organismo de resolver problemas.

Pensemos em dois dos mais comuns animais domésticos criados pelo ser humano, o gato e o cachorro. Existe certo consenso a respeito da suposta inteligência superior dos cachorros. Concorda-se em geral que eles têm mais facilidade de aprender truques e de se comunicar com os donos. Os gatos, por outro lado, são mais arredios e independentes; são, de certo modo, teimosos.

Voltamos assim à dicotomia inteligência/teimosia. Daí podemos afirmar que há como que uma noção que opõe os dois termos e que se traduz na seguinte afirmação: inteligência implica a capacidade de obedecer. Dessa forma, quando se fala na capacidade de um cachorro realizar truques ensinados por humanos, chamando isso de inteligência, também chegamos a uma afirmação oposta: não obedecer é sinal de baixa inteligência.

Não há como não pensar naquele velho adágio: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. A partir disso podemos notar sinais de uma ideologia insidiosa vindo à tona. Percebemos que aquela inocente classificação dos animais em mais ou menos inteligentes está atrelada a uma mentalidade autoritária que preza pela manutenção de uma ordem e de uma hierarquia social. Animal inteligente seria aquele que, obedecendo ao dono, evita ser punido por este. Aí está o orgaismo resolvendo o problema de afastar de si a dor causada por um opressor.

Se pensarmos sob um outro ângulo, seguindo um outro conjunto de valores, poderíamos muito bem pensar que a inteligência está na capacidade de resolver problemas sem a interferência de um agente externo. Se os gatos são desobedientes, eles podem ser considerados, nessa perspectiva, como mais inteligentes que os cachorros, já que conseguem as mesmas regalias dos donos sem agir como bajuladores que colocam a língua para fora e abanam o rabo (ou então encontram fora de casa as fontes para saciar suas necessidades). Gatos seriam mais inteligentes, pois resolvem seus problemas sem se sujeitar a seus “donos” e com criatividade.

A pedagogia tradicional no Ocidente costumava se fazer, e em alguns contextos ainda se faz, pela imposição do conhecimento aos estudantes. A inteligência de um aluno é medida por sua capacidade de reproduzir os saberes repassados pelo professor. Os alunos teimosos, que não seguem as normas de conduta em sala de aula, geralmente coincidem com os alunos “burros”, que não apreendem o conteúdo, administrado pelo docente e sem possibilidade de questionamentos.

Ficando ainda indefinido o conceito de inteligência para nós, considerando inclusive que existem vários tipos de inteligência (burros, cachorros e gatos têm cada um a preponderância de um desses tipos – e cada indivíduo de cada espécie varia em sua própria individualidade), o que podemos perceber com menos incerteza, até onde nossa capacidade de entendimento alcança, é que a ideologia da inteligência preconiza o valor conservador da obediência incondicional. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo” é um dito que implica que não é preciso ser inteligente (ter juízo) para mandar.

Nas sociedades com Estado e com valores tradicionais arraigados, como a nossa, “burro” é quem não abaixa a cabeça diante da Polícia, é quem não disfarça sua sexualidade desviante ou sua identidade de gênero não-convencional, é a mulher que não se sujeita ao marido, é o negro pobre que reclama do baixo salário, é a criança autodidata que procura aprender através de meios não-instituídos. Na revolução dos bichos, são os teimosos que podem acabar com a ditadura dos porcos.

Ameaça à Psicologia laica

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O Conselho Federal de Psicologia proíbe os psicólogos de emitir opiniões ou tratar a homossexualidade como transtorno. Mas o deputado João Campos (PSDB-GO) apresentou um projeto legislativo que visa a permitir que psicólogos tentem curar a homossexualidade dos pacientes que assim desejarem. O Conselho criticou esse projeto, lembrando que suas normas éticas procuram combater a intolerância.

Essa questão veio à tona motivada pela recente polêmica protagonizada pela “psicóloga cristã” Marisa Lobo, que usava sua profissão para aplicar conceitos religiosos contrários à perspectiva hegemônica na ciência Psicologia, tentando curar homossexuais de sua “doença” e contrariando a ética do Conselho Federal de Psicologia.

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A profilaxia dos shoppings e a harmonia excludente

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As praias urbanas sempre me pareceram símbolos de liberdade e convivência harmônica entre as pessoas de quaisquer classes sociais ao longo das décadas. A ausência de barreiras físicas claras, a gratuidade do acesso, a possibilidade de compartilhar espaços com uma infinidade de membros das famílias ou vizinhança, as refeições levadas de casa e outros aspectos, permitiam essa co-habitação pacífica. Obviamente, existiam – como ainda existem – áreas dessas praias em que determinados grupos se posicionavam, no entanto, nada podia privá-los de ocasionais misturas. Assim, a convivência democrática era possível e as delimitações sociais eram menos claras. Isso é o oposto dos novos espaços de convivência: os shoppings, sínteses do mundo ideal pasteurizado.

Se a praia permitia gratuidade, os shoppings são o auge das relações de compra e venda. Tudo nos shoppings é pago, mesmo quando não se paga nada aparentemente, pois as vitrines, fachadas, cartazes e até as pessoas fazem propaganda dos shoppings, de suas lojas e serviços, mas, sobretudo, do estilo de vida que lá se comercializa. Ainda que os shoppings não cobrem pelo acesso, o ambiente é, por natureza, intimidador aos menos favorecidos. Há, a partir daí, um movimento de exclusão ideológica.

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Liberdade e livre-arbítrio – parte 2

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A restrição da liberdade é condição sine qua non da própria vida humana em sociedade. Se não fosse o refreamento dos impulsos vitais, por exemplo, os conflitos interpessoais quase sempre terminariam em derramamento de sangue ou morte. Se as pessoas fossem totalmente desimpedidas para expressar o que pensam, qualquer discordância se tornaria uma troca de insultos, xingamentos e ataques verbais preconceituosos, desperdiçando-se a oportunidade do debate de ideias. Se não fosse a cultura, enfim, não seríamos humanos.

Esse refreamento deveria se tornar uma prática consciente, parte de uma autocrítica constante, norteada pela razão e por uma noção realmente libertária da liberdade. Esta só tem sentido como valor social quando se aplica a todos igualmente, e isso necessariamente significa que, paradoxalmente, nem tudo é permitido numa sociedade livre.

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Liberdade e livre-arbítrio – parte 1

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É por parte de cristãos de diversas denominações que mais se ouvem queixas reacionárias perante críticas dirigidas ao Cristianismo, manifestações pelos direitos dos LGBTs e reivindicações pela efetiva laicidade do Estado. Quando uma boa quantidade de pessoas critica o comportamento de evangélicos que transformam uma cabine do metrô numa barulhenta sessão de pregação, com direito a possessões divinas e diabólicas, alguns evangélicos sentem que se trata de uma repressão a sua crença. É difícil que algo assim não provoque calorosas discussões na internet.

Recentemente a direção do Hospital Regional do Agreste, em Caruaru, Pernambuco, proibiu as práticas de pregação e oração por parte de visitantes nas enfermarias. Nada mais é do que um ato de bom senso e compreensão da necessidade de os vários pacientes repousarem e se recuperarem de procedimentos médico-cirúrgicos. Pastores se sentiram oprimidos em sua liberdade de culto, como se a pregação fosse mais importante do que a liberdade e a saúde de outras.

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A alma dos robôs – parte 2

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Desde as histórias de estátuas que ganham vida, passando por bonecos de madeira e robôs que desenvolvem consciência e sentimentos, a fantasia da passagem do inanimado para o animado está muito presente nos mitos, na literatura e no cinema. Por que os seres humanos são fascinados por personagens robóticos que buscam se tornar humanos? O que há neles com que nos identificamos tanto?

Além disso, por que essa fantasia do robô tornado humano extrapola para histórias em que as máquinas se tornam uma ameaça à humanidade, subjugando-a e invertendo os papéis do dominante e do dominado? Porque, enfim, sentimos um misto de medo e simpatia pelos robôs revoltosos, que são apenas máquinas inanimadas que deveriam servir aos seus criadores?

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Cotas raciais – parte 3

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A raça é uma construção social. A maioria dos cientistas sociais e biólogos vão concordar com essa afirmação. Isso não quer dizer que ela não tenha efeitos nocivos sobre nós. A ideia de que existem raças baseia a discriminação racial. Mas, justamente por isso. a ideia de que uma “raça” possui aspectos intrínsecos que a diferenciam das outras deveria ser desconstruída. No entanto, há muito mais coisas a ser consideradas na discussão sobre cotas raciais…

Nesta terceira parte da Série Cotas Raciais, dou continuidade à análise dos comentários que foram deixados na primeira parte. Retomo aqui um comentário de Eduardo Prado, autor do blog Conversa de Bar, e um de AmBar Amarelo. O tema vai se complexificando ainda mais e, pessoalmente, vou ficando com grandes dúvidas sobre o posicionamento anticotas que eu costumava defender…

Comentário de Eduardo Prado

Concordo, por exemplo, que na raiz do problema está o acesso à uma educação de qualidade.

É interessante notar que a questão educacional parece ser a única unanimidade. A diferença é que os pró-cotas defendem ações emergenciais antes que a (certamente demorada) reforma educacional seja realizada, enquanto os anticotas geralmente alardeiam a imediata melhoria do ensino público, mas ninguém faz nada para mudá-lo. Neste sentido, eu tendo a concordar com cotas que atendam minorias, como forma de pressionar a implementação dessas mudanças.

Discordo, no entanto, dos que acreditam que as cotas vão servir para racializar as relações sociais no Brasil, talvez por que eu não entenda raça como uma determinação biológica. A palavra raça, que provavelmete tem origem comum a palavra raíz, é muito mais antiga que o conceito biológico de raça inventado no século XIX, talvez um pouco antes, no XVIII. Eu entendo raça como uma construção cultural e dinâmica, cujos sentidos e significados variam e se transformam ao longo do tempo. Sob o meu ponto de vista, o Brasil já é um país racializado, sempre foi.

Sim, raças são construções sociais. E, sim, existem relações raciais no Brasil, existem identidades raciais e existe racismo aqui. Mas justamente por ser uma construção social é que a raça deve ser desconstruídas, por um ideal antirracista. O racismo se baseia na ideia de que existem raças.

É claro que se pode conceber a existência de raças como meras identidades superficiais, sem que se pense em diferenças intrínsecas a elas. Como se fossem “tribos” (algo parecido com a ideia de “tribos urbanas”). Outra forma comum (embora em desuso) e com implicações bem menos sérias de se usar o termo “raça” é quando ela é sinônimo de família ou estirpe. “Fulano é da raça dos Araújo”.

Só através do reconhecimento de raças e de que as relações sociais sofrem interferência do racismo é que se poderiam criar políticas destinadas à mitigação dessa discriminação. Afinal, é preciso identificar de alguma forma quem é a população discriminada.

Eu também discordo que a implementação de cotas raciais criariam um racismo no Brasil. O racismo já existe. Mas eu tenho uma grande suspeita de que elas poderiam intensificar, em alguns contextos, o racismo já existente. Por outro lado, ao dar uma chance a pessoas que não têm condições de competir em igualdade no vestibular, abrir-se-ia a possibilidade de melhorar a vida dessas pessoas e, a longo prazo, melhorar sua autoestima, o que, por tabela, diminuiria até certo ponto o menosprezo e a subestimação dos negros, o que, por fim, diminuiria um pouco o racismo.

Mas, neste sentido, penso que seriam melhor as cotas sociais, que atuariam em cima do fator mais relevante na exclusão da Academia. O vestibular não discrimina a raça do candidato, mas a capacidade de resolver uma prova. O fato de uma pessoa ser negra não diminuiu a possibilidade de ela passar na prova, mas o fato de ela ter estudado em escola pública diminui. Mas as cotas sociais poderiam trazer um complicado dilema: será que elas 1) pressionariam o Estado a melhorar o Ensino Público ou, pelo contrário, 2) fariam o Estado relaxar nesse âmbito? Acho mais provável o primeiro caminho, e seria uma vantagem a longo prazo das cotas sociais.

Dito tudo isso, eu acho sim que poderiam haver cotas raciais em determinados contextos, mas não na Universidade. Existe racismo. Este precisa ser combatido. Mas há muitas outras formas, diretas e indiretas, de se fazer isso que não o acesso à Academia.

É comum ouvir comparações com os EUA, que teve uma história de escravidão em comum com o Brasil em muitos aspectos. Em geral compara-se a especificidade das relações “raciais” no Brasil a dos estados do Sul dos EUA, onde a discriminação contra o negro foi legal até o fim dos anso 50. São poucos os que lembram que a situação do negro nos estados do Norte, que assim como o Brasil, não conheceu leis raciais. Lá, como aqui, a discriminação se dá a partir das praticas sociais, na seleção para uma vaga de emprego, na recusa a alugar um imóvel, entre outras. Não foram as leis raciais, já que elas não existiam no Norte, que induziram a formação de bairros negros em Nova Iorque ou Boston, e sim a precária situação econômica dos negros, que os impedia de morar em bairros melhores. Nas grandes cidades brasileiras também existem bairros de negros e bairros de brancos. Só não existe a placa.

Bebedouros segregados na Carolina do Norte em 1950

Bebedouros segregados na Carolina do Norte em 1950

É preciso averiguarmos a real/atual situação brasileira, bem diferente da norte-americana. Não só pelas histórias diferentes das duas nações, mas principalmente porque não podemos generalizar o “racismo norte-americano” ou o “racismo brasileiro”. As manifestações do racismo no Brasil variam de região para região, de estado para estado, de cidade para cidade, de classe social para classe social, entre a zona urbana e a rural, e muitos outros recortes possíveis.

Provavelmente a violência simbólica e não-simbólica contra negros motivada por racismo na Bahia, onde há uma população negra muito numerosa, seja proporcionalmente menor do que no Rio Grande do Norte, onde há poucos negros, a maioria pobres da zona urbana ou agricultores da zona rural (uma minoria mesmo, no sentido político-social da palavra). E as formas como o racismo afeta as pessoas também vai variar com a região. Não posso apresentar nenhum dado específico, só estou especulando, mas penso que não estou dizendo nenhuma besteira. O fato é que, para situações diferentes de racismo, deveria haver soluções diferentes.

Quanto à comparação com os EUA, é preciso lembrar o trabalho de Bourdieu e Wacquant, “Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista”, onde os autores apontam para a importação de modelos de ação afirmativa, de países como os EUA por países como o Brasil. Não devemos esquecer isso, para construirmos políticas antirracistas que se adéquem a nossa realidade.

Muitas pessoas defendem a adoção de cotas sociais, com toda razão, mas as cotas para quem se declara negro ou indígena tem um significado diferente. Não deixa de ser social, evidentemente, mas tem por objetivo acelerar a ascenção de mais brasileiros negros à classe média e a formação de negros em áreas onde sua presença é muito pequena ou quase insignificante, como a Medicina, a Engenharia, e tantas outras. O que aqueles que defendem as cotas pretendem é que o Brasil tenha uma classe média tão “colorida” como suas ruas. Claro que só garantir o acesso à Universidade não basta, é preciso dar condições para que o aluno continue no curso até o fim. Para isso, aprovar ajuda financeira ao estudante com dificuldades para se manter é fundamental.

Um outro problema que vejo na “colorização” das classes mais favorecidas é que ela se faz numa perspectiva que não critica a própria estrutura de poder de nossa sociedade. Há uma estrutura social, econômica, cultural e política baseada na desigualdade de grupos (sociais, raciais, seja lá o que for, o fato é que há desigualdade), e as cotas não atuam na mitigação ou erradicação dessa desigualdade, mas a mantém, só mudando a composição de cada grupo. (Não adianta colocar um mendigo no trono do príncipe; a monarquia continua existindo.)

Mas as cotas, embora mantenham a ordem social vigente, poderiam ter resultados positivos a longo prazo. Como disse acima, o menosprezo a e a baixa autoestima dos negros e pobres poderiam diminuir e os preconceitos raciais e/ou sociais também diminuiriam.

No entanto, repetindo o que disse acima, a “raça” não dificulta a entrada de alguém na Universidade, o que dificulta é sua formação. Se devemos dar uma chance a um grupo, deveria ser aos pobres que frequentam a escola pública. Acho que seria negativo criar uma situação tal em que seja possível a um branco pobre que conseguiu, por esforço próprio, tirar uma ótima nota perder a vaga para um negro rico que não estudou e tirou uma nota medíocre.

Quanto ao ensino público brasileiro, bem, é uma tragédia. Apesar das melhorias significativas apontadas pelos índices do MEC em quase todos níveis, ele vai precisar melhorar muito, mas muito mesmo, para ser considerado ruim. É lembrar que só recentemente alcançamos a universalização do acesso ao Ensino Fundamental. Hoje, segundo estatisticas do MEC, 97% das crianças dentre 6 e 12 anos estão na escola. Mas esses números não são motivo de comemoração. Metade dos estudantes brasileitos deixa a escola antes de terminar o 9º ano do Ensino Fundamental (antiga 8ª série), e só uma minoria,entre 20% e 30% conclue o Ensino Médio. Estes são os privilegiados, que apesar das dificuldades, da precariedade da escola pública (e de suas próprias condições de vida), dos professores sobrecarregados e mal pagos, podem concorrer a uma vaga no Ensino Supeior. Se a realidade fosse outra não precisaríamos estar aqui discutindo sobre cotas.

Criança sergipana trabalhando (www.jornaldacidade.net/)

Criança sergipana trabalhando (www.jornaldacidade.net/)

Pois é, ainda há muito o que melhorar. E é necessário sanar o problema da impermanência na escola, para que mais e mais crianças pobres, negras, indígenas, ciganas etc. tenham mais chances de chegar à Universidade… agora estou me dando conta de um outro problema relacionado ao acesso à Universidade: boa parte das crianças negras/pobres nem chegam a fazer o vestibular, pois nem chegam ao final do segundo grau.

Um fato que pouco se discute é que a formação fundamental formal não é um índice totalmente confiável da vocação acadêmica. Há muitos graduandos que, embora tenham tirado boas notas no vestibular, são universitários medíocres. E há aqueles que não têm condições de resolver a prova do vestibular com eficácia mas, tendo a chance, se mostram excelentes acadêmicos. Esse é um tema que devo retomar em outro post.

Esse é um tema que não se esgota. Na verdade, teria muito ainda pra escrever, mas já precisei cortar várias partes desse comentário para deixá-lo um pouco menor.

Sem problema. Sempre haverá oportunidades para pincelarmos alguma coisa sobre esse extenso tema.

Comentário de AmBar Amarelo

Thiago, sou CONTRA as cotas RACIAIS, e vou além: sou contra a identidade racial no Brasil (que não seja a brasileira).

Também sou contra a manutenção das identidades raciais. O ideal antirracista que eu defendo é a ideia de que só existe uma identidade humana. Neste sentido, vou ainda mais além de você, pois uma “identidade brasileira” não deixa de ser um tipo de identidade racial. Ainda neste caminho, sou favorável a um cosmopolitismo e um antiufanismo.

Gostaria de adicionar a discussão (por mais lenha na fogueira) que a própria idéia de “LIBERDADE-ANTE-ESCRAVISTA” é Européia (corrija-me se eu estiver errado). Tanto Europeus quanto Africanos possuíam seus próprios escravos. Porém estudos sugerem que até nos Quilombos havia escravidão entre Africanos de diferentes etnias.

Não que o senso de LIBERDADE , IGUALDADE e FRATERNIDADE seja exclusivamente europeu. Qualquer um que esteja preso terá senso de liberdade. Porém quem implantou isso no mundo foram eles!

Já que me pediu para corrigi-lo, o correto é antiescravista :P. Sim, os europeus impuseram, motivados por seus próprios interesses mercantis, o fim da comercialização de pessoas e, por tabela, o fim da escravidão. Mas isso não foi necessariamente inspirado por ideais humanistas (liberdade, igualdade, fraternidade).

Os negros ainda foram durante muito tempo considerados inferiores e com menos direitos do que os brancos (ainda há pessoas que pensam assim, nos EUA, no Brasil e muitos outros países da América). Embora estes não pudessem mais transformar aqueles em mercadorias, continuavam tendo que “aturar” sua presença.

Se hoje consideramos a escravidão como algo brutal é porque os europeus impuseram isso ao mundo (não que no desenrolar a História outra civilização não pudesse fazer isso).

Amistad (1997), de Steven Spielberg

Amistad (1997), de Steven Spielberg

Dito isso, eu pergunto: e daí se foram os europeus que impuseram o antiescravismo? Por que lembrar isso com tanta ênfase? Por que insistir em que os africanos praticavam escravidão? Por que lembrar que os quilombolas tinham escravos?

Talvez se faça isso para relativizar a acusação de que os brancos são sempre algozes e de que os negros são sempre vítimas (o que fiz na primeira parte deste texto). Mas daí eu também me pergunto: isso é tão relevante assim? Dar crédito aos brancos que desenvolveram os ideais humanistas não diminui a gravidade da escravidão de negros por brancos. Lembrar que os negros tinham escravos não diminui o sofrimento sofrido por aqueles que estiveram no cativeiro.

Enfim, essas informações só são importantes para compreendermos como se deu a História humana e para evitarmos os erros cometidos no passado. Mas o importante em relação ao racismo na atualidade é entendermos como se dão hoje as relações raciais, de preconceito étnico, de desigualdade social etc. Procurarmos formas de resolver essas desigualdades entre os seres humanos contemporâneos. Afinal, há brancos pobres que descendem de famílias nobres e não sofrem menos por causa dessa ascendência. E há negros ricos que descendem de escravos e não necessitam de ações afirmativas para viver na liberdade de seus direitos.

Quanto ao fato das relações sexuais que desencadearam a miscigenação: Será que foram apenas estupros? Então todos os mestiços do Pará são frutos de índios estuprados? CLARO QUE NÃO!

Lembremos de um ditado popular: “A pobreza aproxima as pessoas”. Agora imagine um sertanejo “português” esquecido nos desertos do nordeste, junto a ele uma negra “africana” compartilha de seu sofrimento (FOME, SEDE). Ambos não podem se apaixonar?

A grande pergunta: TODA MESTIÇAGEM BRASILEIRA FOI FRUTO DA VIOLÊNCIA?

É difícil de crer.

Você tem toda razão, AmBar. A mestiçagem não foi fruto só da violência. Aliás, duvido que a maior parte dela tenha sido gerada por meios violentos. É um exagero dizer que toda a mistura se deu pela violência sexual dos colonizadores sobre as colonizadas e escravizadas, e é exagero afirmar que as relações entre senhores brancos e escravas negras era, em larga escala, consensual.

As cotas sociais teriam o mesmo impacto positivo que as raciais, com a vantagem de não promover a identidade racial, que, ao meu ver, é um negro se achar africano e um branco se achar europeu.

Eu discordo em alguns pontos. Como expus acima, penso atualmente que as cotas sociais seriam mais vantajosas do que as raciais no acesso à Universidade.

Quanto à identidade racial, ela não se dá necessariamente com a assunção de uma identidade africana ou europeia. As identidades raciais já existem sem essas referências geográficas de origem ancestral. É só olharmos ao nosso redor e percebermos com que facilidade nós identificamos os brasileiros como “negro”, “branco”, “japa”, “alemão”, simplesmente em referência ao fenótipo e sem nem pensar em quem eram seus ancestrais  de além-mar. É uma identidade racial que muitas vezes pode não ter grandes implicações. Às vezes pode.

Repetindo o que eu disse acima, tenho um ideal cosmopolita. Ser brasileiro não é mais importante do que ser alemão ou nigeriano ou coreano ou argentino. Seres humanos não têm raízes (e nem deveriam se dividir em raças, Eduardo). Se alguém quer se considerar “africano de alma” ou “europeu de coração”, por afinidade, acho que ela tem total liberdade.

Mas (e nisso concordo em certo sentido com AmBar) a intenção de se impor uma identidade em termos de uma origem extracontinental (o que se reflete em expressões como afro-brasileiro, ítalo-brasileiro, nipo-brasileiro etc.) é justamente uma violação da liberdade individual de cada um escolher sua própria identidade, baseada em suas próprias experiências e afinidades particulares.

Quanto a dívida histórica eu pergunto: Mostrem-me os culpados!!

Negrinho da beija-flor é 80% europeu!!!! ele é 80% CULPADO!!

Todos os mestiços brancos são culpados? então a culpa é um fator aleatório.

Como já disse na primeira parte, procurar culpados é uma tarefa improfícua e irracional. Precisamos superar a mentalidade antiquada de justiça, segundo a qual uma compensação para alguém tem que implicar necessariamente na privação de outro. Acho que é possível para o Brasil conceder compensações sem precisar prejudicar alguém. Há recursos suficientes para promover uma revolução da sociedade brasileira, mas… o dinheiro se concentra nas mãos de quem governa, de quem trabalha para manter seus exorbitantes salários e, se possível, aumentá-los.

Devemos buscar o ideal de um país onde a mistura seja algo positivo e a negação à mistura seja algo terrivelmente negativo. E para que isso ocorra devemos acabar com essa mentira de identidade racial em um país mestiço.

O ideal da identidade mestiça contém um paradoxo: a mistura pressupõe que há pelo menos duas coisas diferentes que deram origem a um híbrido, ou seja, se baseia na pré-noção de que há raças e de que o mestiço é uma interseção dessas raças. O ideal que defendo é a desconstrução de qualquer conceito de raça. Portanto, acho que ainda é limitado o ideal mestiço.

Assumir a mistura e viver segundo a ideia de que somos todos mestiços seria bem melhor do que vivermos sob a égide da segregação identitária. Mas acho que seria ainda mais evoluído considerarmos que não existe mistura por que não existe diferença. Um humano de pele escura e uma humana de pele clara dão origem a um humano.

Todos os indivíduos humanos são mestiços porque são resultado do cruzamento entre dois indivíduos, e nenhum indivíduo é igual a outro. Cada um de nós é uma raça, o que nos torna todos iguais.

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Da onipotência

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As conversas sobre religião cristã ou sobre crenças religiosas do Cristianismo podem revelar muitas das contradições e preconceitos inerentes aos discursos teístas, notadamente quando os envolvidos na conversa são evangélicos. Não porque sejam pessoas mais preconceituosas ou contraditórias, mas, talvez, porque as religiões evangélicas, herdeiras de Lutero, encorajam os crentes a elaborar suas convicções (os católicos se contentam mais com um discurso instituído).

Tomem como exemplo o diálogo abaixo, que parafraseio por não ter podido gravá-lo, mas que reproduz a maior parte das ideias expressas pelos interlocutores. As duas personagens são colegas de trabalho que se encontravam na mesma sala que eu no momento da conversa. Eu apenas ouvi e não participei.

Sabe aquele menino que trabalhou no Setor X, que usava touca, umas roupas coloridas? Você soube que ele morreu?

Soube.

Quando você soube?

Fulana me contou semana passada.

Eu soube hoje, pois Beltrano me falou. Era tão novo, só tinha 16 anos! Mas é assim mesmo. Coisa de Deus.

Pois é, o mistério de Deus.

É uma pena, mas Deus sabe o que faz. Essas coisas acontecem, às vezes é até uma forma de evitar um sofrimento…

É, esse menino era meio alegrinho…

…então, isso poderia trazer um sofrimento para os pais… mas não sei, só Deus sabe.

É por isso, irmã, que a gente tem que orar pelos nossos filhos. Você ora pelos seus filhos, irmã?

Oro!

Todo dia eu oro a Deus pelos meus filhos.

A ideia corrente de Deus em nossa cultura se reveste de centenas de aspectos. É um prisma multifacetado que se vê de maneiras diversas e díspares de acordo com o ângulo, tal como o Diabo no Inferno de Dante, que tem três cabeças.

Não é novidade que o discurso cristão, católico, protestante ou evangélico, é homofóbico. A exortação “crescei e multiplicai-vos” não é somente uma ordem para que as pessoas tenham filhos, mas subjaz também a heterossexualidade como orientação sexual padrão. Há ainda outras passagens da Bíblia que condenam o comportamento e a orientação homossexual como crimes que devem ser punidos.

Mas é interessante averiguar as formas que essa homofobia encontra de justificar o preconceito. Na conversa reproduzida acima, entende-se como melhor a precaução de um possível sofrimento por parte dos pais do que a suposta assunção de uma preconcebida homossexualidade.

“Deus é tão bom que poupou o sofrimento dos pais desse menino… ah, e o dele próprio também, não nos esqueçamos do pobre coitado.” Mas ele não poupou o “sofrimento” de cerca de 10% da população humana e seus pais. Também não poupou o” sofrimento” daqueles que morreram sem ter esse “problema”.

Essa é a crueldade do “mistério de Deus”. Tudo o que ocorre, para esses teístas, é vontade de Deus e parte de um plano elaborado para o bem dos mortais. Não adianta argumentar (se você o fizer, é possível que o Diabo esteja lhe cochichando no ouvido), “Deus sabe”, “Deus não faz nada em vão”, é preciso aceitar, por mais que sua liberdade, felicidade e saúde intelectual estejam em risco.

Quando um crente vê frustradas suas preces, ele pode se justificar achando que não foi digno da graça ou considerando que Deus decidiu não concedê-la. Neste caso, ele entende que houve um motivo justo.

Segundo Maquiavel, para o governante, é melhor ser temido do que amado

Segundo Maquiavel, para o governante, é melhor ser temido do que amado

Porém, em toda essa situação o crente se vê sujeito às vontades onipotentes de Deus, sem se preocupar em entendê-las, sem se dignar a perguntar, a questionar o motivo de as coisas acontecerem. E, principalmente, sem colocar dúvidas sobre a índole do Deus em que acredita. Não importaria, por exemplo, descobrir que Deus é um safado que brinca com as vidas dos mortais; o importante é ser fiel a uma crença consagrada e ao ser que supostamente lhe deu a vida.

Que grande diferença há entre esse Deus e o príncipe maquiavélico que domina pelo medo em detrimento do amor? É muito mais fácil obedecer e ser fiel a uma divindade que ameaça com punição e recompensa com favores do que se sentir livre para procurar discernir entre o que é melhor e o que é pior para todos, fazendo escolhas segundo o bom senso e não de acordo com leis que serviam para apaziguar povos conflituosos e belicosos na Antiguidade.

Que grande diferença há, enfim, entre esse Deus e um chefe da Máfia? Este recompensa aqueles que beijam sua mão e obedecem suas prerrogativas, enquanto pune aqueles que o decepcionam. Não há aí senão a luta para sobreviver, pouco importando, para a maioria dos envolvidos, o caráter ilícito ou antiético das maquinações do Poderoso Chefão.

Pedir todos os dias a Deus que proteja seus filhos é como implorar para que estes fiquem imunes ao mal que aquele, onipotente, permite que exista. É como participar de uma loteria na qual os que têm mais chance são os que pedem ao dono da Casa Lotérica que dê um jeitinho em troca de um voto nas eleições.

Objeto Neuronial 001

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Surgiu na natureza uma estrutura suculenta cujas cores vivas e cujos aroma e sabor atraem animais famintos, que deixam cair no solo partes menores e mais duras, que chamamos sementes, e assim o vegetal que deu origem àquela fruta pode se reproduzir.

Alguns insetos utilizam frutas como bercários, pondo seus ovos ali, que eclodem para dar à luz uma larva que logo se serve do berçário como alimento. Animais maiores, que se alimentam dessa fruta, podem também decidir abocanhá-la e engolir junto a lagarta.

Objeto Neuronial 001

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