Sapos e princesas no Beleléu: livros da infância

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Ando muito defasado em relação à Teia, ao mesmo tempo com muita vontade de escrever e com dificuldades para me sentar diante de caderno e caneta ou na frente de um computador para atualizar o blog. Vários textos inacabados, algumas ideias concebidas e não-realizadas… então decidi aderir a uma blogagem coletiva sugerida pela Sybylla em seu blog Momentum Saga e listar, comentando, alguns livros que foram importantes para minha idade pueril e dos quais até hoje lembro com carinho.

Não vou me delongar demais, até porque faz tanto tempo que li esses livros que não tenho condições de lembrar deles suficientemente bem para tecer resenhas elaboradas. Aliás, vou abordá-los segundo o que a memória me traz deles e de acordo com o impacto que eu penso que tiveram em minha vida até hoje.

A maioria dos livros que listo abaixo têm em suas edições atuais capas diferentes das edições que li, mas procurei no Google as ilustrações originais, pois a capa faz parte da identidade afetiva das obras que lemos em qualquer idade. Além disso, pesquisei os nomes dos autores, dos quais eu não lembrava, e dei uma espiada nas sinopses só para garantir que estava lembrado dos livros certos. Os livros estão na ordem cronológica que li (eu acho).

Falando pelos Cotovelos – Lúcia Pimentel Góes

Este livro, escrito por Lúcia Pimentel Góes, foi comprado por meus pais como parte do material escolar que as escolas exigiam (não sei se ainda exigem hoje em dia). Se bem lembro, eu podia escolher qualquer livro infantil na papelaria e foi esse que peguei, talvez por ter achado o título e a capa engraçados. Depois eu descobriria que o livro faria parte da minibiblioteca da sala de aula, junto com os livros que os outros alunos tivessem escolhido e levao, mas eu não esperei as aulas começarem e li meu exemplar antes.

Nessa história, o protagonista é um garoto que interpreta literalmente todas as expressões idiomáticas que escuta. Quando a irmã mais velha fala que seu namorado é um “bundão”, por exemplo, o garoto imagina um cara com enormes nádegas. Ele fica o tempo todo intrigado com essas expressões, tentando entender como elas se aplicam na realidade.

A ideia do livro é ótima para apresentar às crianças as peculiaridades da língua portuguesa em suas figuras de linguagem e como elas enriquecem nossa experiência comunicativa. Não sei exatamente qual foi o impacto desse livro em minha vida, mas desconfio que minha tendência a interpretar literalmente (de propósito) certas expressões nas conversas com amigos (transformando-as em papos surreais) tenha alguma coisa a ver com o fato de eu ter gostado desse livro.

Sapomorfose ou O Príncipe que Coaxava – Cora Rónai

Este conto de Cora Rónai ilustrado por Millôr Fernandes foi uma leitura de sala de aula quando eu morava em Carajás (Pará) e estudava a 4ª série no Colégio Pitágoras. Mas se a memória não me falha eu cheguei a pegar o livro na biblioteca de novo, pois era uma história muito interessante.

Eis a premissa da história: um sapo é transformado num príncipe por uma bruxa e só poderá se tornar um sapo novamente se receber um beijo de amor (acho que era isso). O sapo então precisa se acostumar com sua nova forma humana, tenta caminhar com suas pernas desajeitadas e se esforça para não ceder ao impulso de saltar (quando o faz, as pernas humanas pouco flexíveis o levam a se esbofetear no chão). Ele passa a viver numa corte, e é cortejado por princesas, mas elas não o agradam e a única coisa que ele realmente anseia é voltar para o pântano onde morava, coaxar e comer insetos.

Embora tenha sido um dos meus livros preferidos na infância, não lembro de quase nada dos detalhes da história, mas lembro bem de algumas das ilustrações de Millôr Fernandes. Acho que esse livro teve um impacto positivo em mim ao me fazer pensar em formas alterativas de contar histórias, inverter papéis e questionar as tradições veiculadas pelo folclore.

No Reino Perdido do Beleléu – Maria Heloísa Penteado

Esse eu encontrei perdido na biblioteca da escola. A sabedoria popular diz que, quando uma coisa se perdeu, ela “foi pro Beleléu”. A partir desta premissa, Maria Heloísa Penteado concebeu um mundo mágico, um universo paralelo, para onde as coisas perdidas vão: o Reino do Beleléu.

A protagonista da história é uma menina muito organizada, que sempre deixa suas coisas nos devidos lugares e dessa forma nunca perde nada. Em contraste, seu irmão é muito bagunceiro e já fez sumirem tantas coisas em seu próprio quarto que ele tem algumas meias e sapatos sem par. O menino é tão desorganizado que certo dia perdeu a si mesmo e desapareceu. Sua irmã acaba descobrindo uma forma de chegar ao Beleléu através da vendedora de doces da escola, que é na verdade a rainha daquele reino perdido. Em sua jornada, ela encontra um orangotango gigante que é lacaio da rainha e descobre como funciona a logística das coisas perdidas.

Este foi um livro especial. Lembro principalmente de ele ter a ilustração de uma paisagem do Reino do Beleléu, por onde a heroína caminhava. Nessa imagem, havia diversos objetos escondidos e a autora oferecia ao leitor o desafio de encontrá-los. Isso simbolizava a própria natureza do Reino do Beleléu, um lugar onde as coisas (e pessoas) se perdem, mas não deixam de existir e podem ser reencontradas. Para mim esse elemento narrativo-lúdico representou uma mudança na forma de ver um livro de estórias, como algo para além do texto, uma mistura multimídia em que palavras escritas e elementos gráficos se juntam para formar uma obra envolvente. Talvez por isso eu goste tanto de quadrinhos hoje em dia.

O Fantástico Mistério de Feiurinha – Pedro Bandeira

o-fantastico-misterio-de-feiurinha-pedro-bandeira-86-MLB4645155375_072013-OTambém da vertente da releitura dos contos de fadas, a história de Feiurinha, escrita por Pedro Bandeira, unifica os contos das conhecidas princesas Bela Adormecida, Cinderela, Rapunzel, Branca de Neve e outras.

Todas essas princesas são amigas e costumam se encontram para conversar. É pitoresca a forma como cada uma delas é retratada, com personalidades que remontam a suas histórias: Bela Adormecida é dorminhoca, Chapeuzinho Vermelho é comilona, Rapunzel não corta os cabelos… o que todas têm em comum é que cada uma delas se casou com um Príncipe Encantado (todos eles com esse mesmo nome).

Durante um desses encontros, elas se dão conta de que falta uma princesa encantada sobre a qual ninguém nunca mais falou: Feiurinha. Para redescobrir sua história e descobrir onde ela está, as princesas recorrem a um escritor (o próprio autor do livro), para que ele se inspire e reescreva o conto de Feiurinha. Ele consegue, claro, e a parte principal do livro é a própria história de Feiurinha, uma menina bonita que foi criada por três bruxas feias que a fizeram pensar que feia era ela.

Apesar de hoje, em retrospecto, eu achar que a ideia da dicotomia absoluta beleza/feirúra (ligada ao dualismo bem/mal) seja bem retrógrada e obsoleta (a propósito, eu aprendi a palavra “obsoleta” nesse livro), toda essa recriação do universo dos contos de fadas, que ressoam Sapomorfose, ainda me fascina.  Esse tipo de brincadeira com o universo dos contos de fadas me levaria, bem mais tarde, a gostar de coisas como a série de filmes do Shrek e em especial a série de quadrinhos Fábulas.

Muitos anos depois apareceu uma adaptação cinematográfica com a Xuxa, mas eu achei que a probabilidade de terem feito besteira nessa transposição era tão grande (xega de Xuxa!) que preferi ficar só com a lembrança daquela pequena obra literária.

Arqueologia da bibliofilia reconstruída

Ainda há outros livros de que me lembro com carinho. Um dos mais instigantes era uma espécie de apologia ao Lobo Mau, recontando Chapeuzinho Vermelho sob o ponto de vista do lobo, mostrando que ele não tinha culpa pela morte da Vovó, que na verdade tinha sido morta por um homem que, para se safar, usou o lobo como bode expiatório (ou seja, mais uma reimaginação dos contos de fadas). Infelizmente, não me lembro do nome do livro e não consegui encontrar nenhuma referência na internet.

Eu não coloquei Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, porque, pelo que me lembro, não consegui terminar de ler minha edição da Ediouro (comprada por meu pai através do boleto postal) na infância, e só o leria completo na época da faculdade. Mas o pouco que eu tinha lido era muito interessante. Outro cuja maior parte se perdeu no Beleléu da memória foi O Pequeno Fantasma, de Otfried Preussler (também comprado pelo boleto postal da Ediouro), que era interessante, contando a rotina do noite-a-noite de um fantasminha, mas por algum motivo não concluí.

De qualquer forma, dá para refletir por que alguns livros são mais fáceis de lembrar do que outros e o que isso pode dizer sobre mim mesmo e sobre a forma como eu mesmo me vejo. Às vezes eu me pego relembrando esses livros e com vontade de reencontrá-los e relê-los, para relembrar os detalhes e investigar melhor as marcas que eles deixaram em mim, com certeza muito significativas.

Mas o mais interessante deste exercício autobiográfico é constatar o caráter artificial da memória (re)construída. Essa foi a primeira vez que parei para pensar sobre os livros que li na infância e dispô-los numa categoria histórica. As memórias são dados esparsos e desconexos, e só ao juntá-las é que preenchemos as lacunas e elaboramos um (novo) sentido para elas, criando um fio de lembranças que só existe no presente e diz muito mais a respeito do nosso eu atual do que do eu infante de um passado recente.


Hashtag da blogagem coletiva: #BCLivrosdaInfância

Por uma literatura (re)criativa

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O leitor ou ouvinte não é um simples receptor de mensagens. Ao se identificar com o texto escrito ou verbalizado, o ser social mistura-se ao texto, reproduzindo sentidos, mas não a um texto qualquer. Estariam excluídas as narrativas inautênticas e de parcos recursos artísticos. Será? O presente ensaio elabora argumentos em defesa do potencial libertador dos contos de fadas, literatura considerada trivial ou de entretenimento.

Chapeuzinho Vermelho por Gustave Doré

Chapeuzinho Vermelho por Gustave Doré

Os contos de fadas, quando recontados em livros destinados ao leitor criança, são considerados literatura trivial, de entretenimento ou mitológica. Os autores Jerusa Pires Ferreira e Flávio Kothe (1), citados por Borelle (1996), definem literatura trivial como sendo aquela que valoriza sentenças de frases feitas, carregadas de clichês e constante descritividade.

José Paulo Paes (2), também citado por Borelle (ibid), entende que literatura de entretenimento faz parte da cultura de massa, onde a originalidade de representação tem existência quase nula. O autor coloca no balaio da literatura de entretenimento o romance policial e de aventuras, a ficção científica e a ficção infanto-juvenil (como os contos de fadas).

Em oposição à literatura trivial ou de entretenimento está a de proposição, termo apropriado por Antônio Fernandes de Medeiros Júnior (3) (2011) para descrever o tipo de literatura que, ao ser autorizada pelo leitor, realoca seu lugar (do leitor) no mundo.

Se aceitarmos a construção semântica de Medeiros para o termo literatura de proposição – como sendo aquela que produz sentido para além do texto –, como definir os limites desta ou daquela literatura tendo como referência apenas a estrutura da mensagem? Ora, se as palavras escritas dependem do leitor para que façam sentido, determinar que contos de fadas, ficção científica, ou romance policial (todos) fazem parte de uma literatura de entretenimento não é o mesmo que desconsiderar a reação singular do leitor?

O antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin (4) coloca que a complexidade manifesta-se no plano da ação, naquilo que chama de ecologia da ação. Para Morin, uma ação não depende somente da vontade daquele que a pratica.

Ao fabricar os primeiros aviões, o mineiro Santos Dumont não imaginava que anos mais tarde sua invenção ganharia os céus dos países imersos na Primeira Guerra Mundial. Não imaginava também que, mesmo não sendo atingido por mísseis lançados dos ares, morreria pelos destroços de dirigíveis e aeroplanos em sua cabeça.

A ação, como explica Morin, depende também dos contextos em que ela se insere, das condições sociais, biológicas, culturais, políticas que podem ajudar o sentido daquilo que é a nossa intenção. Dessa forma, as ações podem ser praticadas para se realizar um fim específico, mas podem provocar efeitos contrários aos fins que pretendíamos.

Assim como as de Santos Dumont, as ações de Carlos Drummond de Andrade, Joaquim Maria Machado de Assis, João Guimarães Rosa,  Haia Pinkhasovna Lispector, Cecília Benevides de Carvalho Meireles, Angenor de Oliveira (dentre outros) também são constantemente transformadas por leitores e ouvintes, inscritos em condições sociais, biológicas, culturais e políticas específicas.

Alguns desses receptores são capazes de ampliar o que leem, veem ou ouvem. Outros são capazes de ignorar. Mas há também os que conseguem reduzir. Pensando assim, por que as narrativas lineares, com fórmulas repetidas, representações recorrentes não poderiam receber o status de boa literatura, quando ressignificadas pelo leitor?

Não por obra do acaso, os contos recolhidos pelos Irmãos Grimm, Charles Perrault, La Fontaine e outros arqueólogos de baús de histórias tenham conseguido perpassar gerações tão díspares, preservando uma relação fulgurante, expressiva e ardente com o leitor ou ouvinte.

Quando os primeiros contos foram recolhidos, estava em vigor a tradição oral camponesa. As narrativas não traziam moral da história, muito menos revelavam um final feliz. Ao invés disso, estampavam-se de crueldade (humana e da natureza), manipulavam objetos cênicos de riquíssimo valor simbólico e enveredavam-se nas curtas tramas, cujo objetivo era ajudar os aldeões a atravessar as noites.

Estas histórias cruzaram o tempo-espaço para nos séculos XIX e XX impulsionarem a organização de uma ficção propriamente infantil. Segundo os autores Diana e Mário Corso (5) (2006), as histórias para crianças desse período não parecem ser estruturalmente muito diferentes dos contos de fadas, no que tange à capacidade de fornecer elementos que as ajudem a elaborar suas questões. Para os autores, mudam os temas, mas a operação continua a mesma.

A história de Chapeuzinho Vermelho, contada a seguir, foi recolhida da tradição oral camponesa, por Charles Perrault no século XVII. A história não apresenta um final feliz e claramente não contribui para a elaboração de uma moral da história, cujo objetivo é formatar crianças obedientes. De outro modo, alerta para os perigos de um contato precoce com a sexualidade infantil.

Certo dia, a mãe de uma menina mandou que ela levasse um pouco de pão e leite para sua avó. Quando caminhava pela floresta, um lobo aproximou-se e perguntou-lhe onde ia.

– Para casa da vovó.

– Por qual caminho, o dos alfinetes ou das agulhas?

– O das agulhas.

O lobo seguiu pelo caminho dos alfinetes e chegou primeiro à casa. Matou a avó, despejou seu sangue numa garrafa, cortou a carne em fatias e colocou numa travessa. Depois, vestiu sua roupa de dormir e deitou-se na cama, à espera.

Pa, pam.

– Entre, querida.

– Olá, vovó. Trouxe um pouco de pão e leite.

– Sirva-se também, querida. Há carne e vinho na copa. A menina comeu o que foi oferecido, enquanto um gatinho dizia: “menina perdida!”

“Comer a carne e beber o sangue da avó!”

Então o lobo disse:

– Tire a roupa e deite-se comigo.

– Onde ponho o meu avental?

– Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dele.

Para cada peça de roupa (…) a menina fazia a mesma pergunta, e a cada vez o lobo respondia:

– Jogue no fogo… (etc.).

Quando a menina se deitou na cama, disse:

– Ah, vovó! Como você é peluda!

– É para me manter mais aquecida, querida.

– Ah, vovó! Que ombros largos você tem!

(etc., etc., nos moldes do diálogo conhecido, até o clássico desfecho):

– Ah, vovó! Que dentes grandes você tem!

– É para comer melhor você, querida.

E ele a devorou.

(CORSO, 2006) (6)

Sem os mesmos elementos e talvez com a representatividade parcialmente mutilada, a história de Chapeuzinho Vermelho (assim como tantas outras) chegou aos dias de hoje, reclamando um espaço na vida das pessoas, contextualizadas na era das imagens artificiais e animadas. Ainda não houve condições biológicas, culturais e políticas que inviabilizassem a interação (re)criativa (posto que o movimento é cíclico) entre leitor ou ouvinte e as histórias. Ainda hoje, quem percebe um conto, acrescenta em si um ponto.

As versões modernas dos contos de fadas, que escondem a carne e o sangue da vovozinha, foram reformuladas no instante mesmo da configuração de famílias nucleares. Nesta nova configuração inventa-se a infância tal qual a conhecemos hoje. “A infantilização das narrativas tradicionais, transformadas nos atuais contos de fadas, é concomitante à criação de um mundo próprio da criança e ao reconhecimento de uma psicologia infantil”. (7)

O conto O Barba Azul, recolhido por Charles Perrault, ganhou uma versão em poema nas mãos de Ruth Rocha. Reconhecida por escrever literatura para criança, Ruth não subestimou o leitor quanto a sua capacidade subversora. Entregou um texto rico esteticamente, sem que para isso fosse necessário furtar a crueldade explicita no conto original. Trata-se de um conto de fadas, com uma proposta para além do estímulo ao consumo.

E quando as jovens partiram,
A moça já não suporta.
Corre pelo corredor,
Pois já nada mais importa.
A chave na fechadura,
Abre finalmente a porta!

Lá dentro, tudo era escuro.
Os olhos, se acostumando,
Começam a ver, aos poucos,
As figuras se formando.
As mulheres, penduradas,
Em ganchos, se balançando!

“Então é esse o segredo?”
Completamente abalada,
A moça corre de volta,
Tropeçando pela escada,
Caindo pelo caminho,
Sobe ao quarto apavorada!

(ROCHA, 2010) (8)

É por mediar o diálogo entre a criança e o universo (o seu e o do outro), que as ficções infanto-juvenis (aqui representadas pelo contos de fadas) não devem frequentar o balaio da literatura recreativa, sem que antes seja verificado o seu potencial transformador. Cabe, neste momento, a defesa por uma literatura para a infância e não apenas acessível às crianças.

Uma história acessível às crianças é uma história capaz de ser decodificada por elas. Uma história para crianças é um pré-texto. São linhas disformes, preenchidas por palavras indecifráveis de uma literatura inconsciente. Os sentidos produzidos serão resgatados em outro momento, quando não for mais possível acreditar em bruxas, princesas imaculadas e fadas.

Histórias não garantem a felicidade nem o sucesso na vida, mas ajudam. Elas são como exemplos, metáforas que ilustram diferentes modos de pensar e ver a realidade e, quanto mais variadas e extraordinárias forem as situações que elas contam, mais se ampliará a gama de abordagem possíveis para os problemas que nos afligem. Um grande acervo de narrativas é como uma boa caixa de ferramentas, na qual sempre temos o instrumento certo para a operação necessária, pois determinados consertos ou instalações só poderão ser realizados se tivermos a broca, o alicate ou a chave de fenda adequados. Além disso, com essas ferramentas podemos também criar, construir e transformar os objetos e os lugares.

(CORSO, 2006) (9)

Pode-se também traçar um paralelo interessante com a poesia através da qual as palavras se tornam ferramentas multiuso. “Freud vai estabelecer uma relação entre criança e o poeta: a criança quando brinca, tal como o poeta quando escreve, situa as coisas do seu mundo em uma nova ordem de sentido. Inventa uma ficção.” (MAGALHÃES, 1998) (10)

Dizer que a ficção infantil, os contos antigos e os de fadas não devem ser considerados como de entretenimento não é o mesmo que colocá-los acima de qualquer suspeita. Existem textos ruins, que reforçam discursos desumanizadores, mas existem os redentores. Que esteja claro, então, que defender a importância do recurso à fantasia não implica supor que as crianças devam crescer em um ambiente de histórias pobres. Além disso, a criança não é tola. Foge de textos-cartilhas, onde a moral é imoral: apresenta-se sem roupas.

Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Precoce

Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Precoce

 

Notas

  1. FERREIRA, Jerusa Pires e KOTHE, Flávio apud BORELLE, Silvia Hlena Simões. Ação, suspense, emoção: literatura e cultura de massa no Brasil. São Paulo: EDUC, 1996.
  2. PAES, José Paulo. apud BORELLE, Silvia Hlena Simões. Op. cit.
  3. CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM LITERATURA BRASILEIRA, UFRN, 2011.
  4. MORIN, Edgar. O Método 6 – ÉTICA. Porto Alegr :Editora Sulina, 2005.
  5. CORSO, Mário e Diana Lichtenstein. Fadas no divã: psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre: Artmed, 2006.
  6. Ibid.,p. 17-18
  7. Ibid.,p. 16
  8. ROCHA, Ruth, O Barba Azul. São Paulo: Moderna, 2010.
  9. Ibid.,p.303
  10. MAGALHÃES, Sonia Campos. Dos contos, em cantos. Bahia, Salvador: Ágalma,1998.

Trabalho como parte da avaliação da disciplina Teoria do Texto Poético, oferecida pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN sob orientação do professor, Dr. Antônio Fernandes de Medeiros Júnior. Natal – RN, outubro, 2011.

O Hobbit na televisão e no cinema

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Hoje, 21 de setembro de 2012, O Hobbit completa 75 anos desde sua primeira edição. Foi o primeiro livro de J. R. R. Tolkien sobre a Terra-Média, cujos acontecimentos antecedem e preparam o cenário para O Senhor dos Anéis, bastante conhecido hoje em dia pelo público em geral devido à primorosa adaptação cinematográfica de Peter Jackson. O Hobbit é muito menos conhecido do que O Senhor dos Anéis, mas vai se tornar muito popular com um novo trabalho de Jackson, que estreia em dezembro deste ano (2012).

No entanto, não é a primeira vez que alguém teve a ideia de adaptar a obra de Tolkien para as telas (seja a televisão, seja o cinema). Houve alguns trabalhos na década de 1970 em cima de O Senhor dos Anéis. Mas mesmo bem antes disso já haviam começado as adaptações do primeiro livro, considerado por muitos uma obra voltada para crianças (Tolkien a escreveu tendo em vista um público infantil), mas ainda hoje aclamado como um belo exemplo de literatura fantástica.

A primeira transposição oficial de O Hobbit para o cinema foi realizada em 1966, pelo animador Gene Deitch, num curta metragem que, para aqueles que conhecem bem a obra de Tolkien, resultou em algo bem estranho, formalmente deturpado e ligeiramente diferente em sua essência. Os gráficos foram feitos num estilo de ilustração de histórias infantis. A animação é pobre, mantendo o filme com a aparência de um livro ilustrado, e há apenas a voz do narrador, como se estivesse lendo o livro. Veja abaixo o filme na íntegra.

O diretor se deu a liberdade de modificar vários elementos importantes da obra de Tolkien. Ele reduziu o grupo de aventureiros, que no livro contava com 13 anões, 1 hobbit e 1 mago, para um general e seu ajudante, uma princesa e o nosso pequeno protagonista. Essa adaptação mostra de forma interessante como O Hobbit pode ser visto, por certos leitores, como uma história mágica e fabulosa, que pode ser recontada de maneira simples e sem a preocupação com detalhes, mas mantendo certos elementos cruciais da narrativa, como o herói, a partida de um lar confortável para uma grande aventura, a presença de aliados, os encontros com inimigos e outros perigos, a transformação do herói, a execução da tarefa e o retorno ao aconchego da toca de hobbit.

No entanto, para muitos apreciadores do livro original, uma adaptação mais fiel e detalhada sempre agrada, pois a história não se resume a uma fábula, está repleta de elementos que extrapolam para um universo mais complexo, com seus personagens pitorescos, situações interessantes e diálogos dramáticos. Onze anos depois do curta de Deitch, Jules Bass e Arthur Rankin Jr. apresentaram um longa metragem animado para a televisão. Não existe trailer oficial desse filme, portanto segue abaixo um trailer feito por um fã:

Nesse filme foi possível explorar melhor quase toda a trama do livro, com a presença de praticamente todos os personagens importantes e a encenação com poucas perdas das cenas mais dramáticas, como os encontros de Bilbo com Gollum e com o dragão Smaug, além da tragédia do rei anão Thorin, que quase deixou a ganância corrompê-lo e quase levou os heróis à derrota.

O estilo de Bass/Rankin, que também produziram o célebre desenho animado O Último Unicórnio, mantém um aspecto de contos de fadas, as caricaturas infantis e exageradas. Além disso, conserva o espírito dos anos 70, notadamente na trilha sonora, bem feita e divertida. Mas ainda pode ser considerada uma excelente adaptação da narrativa de Tolkien, inclusive aproveitando várias das letras das canções do livro nas músicas feitas para o filme.

Este ano (2012), O Hobbit retorna às telas, desta vez com as novidades técnicas do cinema contemporâneo. Peter Jackson retoma o que iniciou (ou concluiu?) com O Senhor dos Anéis , trazendo ao público que nunca leu Tolkien os acontecimentos que antecedem e culminam na aventura de Frodo Bolseiro, sobrinho de Bilbo, apresentados em três filmes (Uma Jornada Inesperada, A Desolação de Smaug e Lá e de Volta Outra Vez). Eis o trailer oficial da primeira parte, que estreia no próximo dezembro:

A expectativa é de que a história seja recontada num tom mais “realista”, mais complexo e profundo, até mesmo mais sombrio, como se a narrativa do livro representasse uma versão atenuada da história, enviesada pelo olhar de seu suposto autor e protagonista (o próprio hobbit Bilbo Bolseiro). A trilogia também explorará eventos paralelos, ausentes de O Hobbit, mas desenvolvidos pelo próprio Tolkien em outros escritos, criando uma conexão maior com O Senhor dos Anéis

Referências

Space Oddity – música e livro

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Há alguns dias um amigo me passou este link do site IdeaFixa, que falava de uma adaptação para livro ilustrado da música Space Oddity, de David Bowie. Embora sempre achasse intrigante a figura desse músico, não conheço quase nada de sua produção artística. Ao ouvir a canção no vídeo, fiquei extasiado com a música e a letra. Uma história de ficção científica que traz o tema do abandono e da solidão, “espetacular”, nas palavras de outro amigo meu, tão simples e bem-feita que nos permite completar as lacunas da narrativa com a imaginação.

O livro é muito caprichado, está disponível em PDF para download (pelo próprio autor, Andrew Kolb), e é excelente como acompanhamento na audição da música (ou vice-versa). Para crianças e adultos anglófonos deve ser ótimo, mas imagino que possa servir como recurso didático para estudantes da língua inglesa.

Confira abaixo o texto do site IdeaFixa e o vídeo-clipe de Space Oddity, com David Bowie.

Andrew Kolb é um ilustrador que não gosta de falar sobre si, logo não sei de onde ele é. Mas posso dizer  que Andrew é um cara talentoso e muito bacana. Teve a ótima ideia de transformar a linda Space Oddity do David Bowie em um livro de história para crianças, e deixou livre para download em alta definição, na íntegra. Coloquei o vídeo aqui também, porque recomendo a leitura acompanhada dom som, frase por frase. Eu espero sinceramente que alguém invista no projeto (que por enquanto é apenas um conceito) para uma coleção inteira. Por crianças com mais bom gosto num futuro próximo (e quem vier dizer que gostar de Bowie não é ter bom gosto, te desejo filhos que adorem Jota Quest).

Vale a pena.