Minha filha e meu corpo

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Sonhei que eu era uma mulher que dera à luz recentemente. Mas a equipe do hospital, médicos e enfermeiras, não me deixavam aproximar e nem sequer ver minha filha recém-nascida. Eu tinha que ficar afastada do quarto onde ela era cuidada por uma enfermeira. Eu era membro de uma cultura em que a mãe deve ficar longe dos próprios filhos até estes terem certa idade. Eu sentia uma angústia que era misto de desespero com resignação. Sentia ciúmes da enfermeira que cuidava de minha filha. Parei em frente ao quarto em que ela estava, desobedecendo ordens, e contemplei a criança, me perguntando: como ela vai confiar em mim se eu não posso construir uma relação de intimidade desde seu nascimento?

Talvez esse sonho tenha me ajudado a entender um pouco a agonia de ser mulher numa cultura que ainda subjuga o corpo feminino, percebendo-o como receptáculo da semente de um homem e não como coparticipante da concepção de uma criança. A gravidez é uma crise na vida de uma mulher, e ela deve poder tomar decisões a respeito de seu mais valioso bem material: seu corpo. Aquela criança pode representar meu próprio corpo (uma vez que é fruto e extensão dele), aprisionado e domesticado pela cultura na qual me insiro.

Atualmente, há pelo menos duas questões importantes quanto aos direitos das mulheres sobre seus corpos:

  1. O direito de fazer aborto em casos de estupro e/ou de risco à saúde da gestante e/ou do feto e
  2. O direito a um parto humanizado (para mais sobre este tema, leia o artigo O parto, a mídia, as pessoas e o movimento, de Ellen Paes).

Há muito que se vislumbra um mundo em que as mulheres são incluídas na categoria de concidadãs dotadas dos mesmos direitos e deveres que todos. Para que isso ocorra é preciso destruir completamente a ideia de que as mulheres são instrumentos dos homens, objetos de prazer, úteros para fazer bebês e/ou servas domésticas.

Muitas vozes cristãs politicamente fortes têm dificultado o avanço dessa discussão e defendido a alienação da mulher em relação ao seu corpo, até mesmo nos casos em que a gravidez representa um grande risco para gestante e feto. Em casos de estupro, abortar significa, para esses cristãos, “um atentado à vida”, uma “afronta a Deus”. E, mesmo nos casos em que as duas coisas acontecem (o estupro e o risco), a excomunhão não está descartada.

O direito ao aborto é um tema que envolve não somente a garantia de um indivíduo resguardar seu corpo do resultado de uma violência explícita (o estupro), mas também de uma violência implícita. A estrutura das relações sociais de gênero ainda forçam muitas mulheres a ceder ao constrangimento imposto pelos parceiros, que querem seu sexo e anseiam por uma prole, obrigando-as a “emprestar” seus corpos, mesmo quando elas não o querem.

Descriminar o aborto é um meio de se reconhecer legalmente o direito inalienável de uma mulher sobre seu próprio destino, dar um passo na direção de um futuro em que cada um assumirá a responsabilidade sobre seu corpo e respeitará a liberdade dos outros de fazerem o mesmo.

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  • A Madona de Porto Lligat, por Salvador Dalí

Filmes para crianças – parte 3

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As histórias sobre robôs, androides, replicantes e outros seres artificiais podem servir como pano de fundo para reflexões sobre o próprio ser humano. Os robôs que agem como pinóquio, tentando se tornar seres humanos, e aqueles que extrapolam a programação inicial dada por seus criadores são metáforas do indivíduo que se desenvolve a partir de uma tabula rasa, da pessoa que procura se autoaprimorar para alcançar um ideal de valor e humanidade, tentando superar suas falhas e adquirir virtudes.

Os três filmes listados abaixo têm como protagonistas seres artificiais, robôs que aprenderam a ser mais do que máquinas. São ótimas opções para discutir com as crianças sobre humanidade, Ética e autoevolução. Recomendo que o adulto interessado veja os filmes antes de ler este artigo e antes de passar para seus filhos/sobrinhos/netos/amigos etc. As descrições dos filmes contêm spoilers. Divirtam-se.

Veja também:

Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

O Gigante de Ferro (The Iron Giant)

Direção: Brad Bird

País: EUA

Ano: 1999

No ano de 1957, no estado norte-americano de Maine, em plena Guerra Fria, Hogarth, um garoto órfão de pai, encontra uma criatura inusitada: um robô gigante vindo do espaço. Esse Gigante de Ferro, muito amigável e pacífico, tem provocado algum transtorno no local, pois se alimenta de metal, ou seja, carros, cabos de aço e trilhos de trem. Ele vem sendo perseguido pelas forças armadas, pois alguns, especialmente o agente Kent Mansley, acreditam que se trata de uma máquina de guerra e uma ameaça à humanidade.

A verdade é que o Gigante possui em sua estrutura interna um conjunto de armas letais ultra-avançadas, e ele é realmente programado para ser uma arma. Devido à amizade de Hogarth, sua programação é reprimida e ele desenvolve uma personalidade altruísta e antibelicista. Entre assumir a identidade de um robô maligno e a de um herói bondoso como o Super-homem (vistos nos quadrinhos de Hogarth), ele prefere seguir o ideal deste último. Porém, quando detecta uma arma, seus sistemas destrutivos são acionados e representam um perigo para todos ao redor. Ele aprende que cada um de nós pode seguir um ideal maior, não necessariamente se mantendo fiel a sua “natureza”.

Por causa de um incidente provocado por Mansley, que levou à interceptação de Hogarth e do Gigante, este, na ânsia de proteger seu pequeno amigo, tem sua “natureza” ativada, e começa a destruir as máquinas das forças armadas que cercaram a cidade. Quase provocando um desastre. Hogarth consegue fazê-lo parar, mas, devido à mprudência de Mansley, um míssil nuclear está voando a caminho do robô, ameaçando destruir a cidade e matar todos os seus habitantes.

Sem outra solução à vista, o Gigante de Ferro se despede de seu amigo e se sacrifica, voando em direção ao míssil e se chocando com este para destruí-lo. Instantes antes de morrer, o Gigante pensa para si mesmo: “Sou o Super-homem”.

O Gigante de Ferro representa bem o indivíduo que busca cultivar em si ideais éticos maiores, ao mesmo tempo abrindo mão de seus vícios e defeitos (as armas que representam um perigo para os outros ao seu redor) e assumindo posturas altruístas e atos visando ao bem comum, trilhando um caminho que extrapola sua programação original, ou seja, promovendo aprendizado, autossuperação e autoaprimoramento.

A obra aborda

  • amizade,
  • autossuperação,
  • Ética,
  • altruísmo,
  • belicismo,
  • pacifismo e
  • reconciliação.

Inteligência Artificial (A.I. Artificial Intelligence)

Direção: Steven Spielberg

País: EUA

Ano: 2001

David é um robô-menino programado para ser o “filho perfeito”, fabricado espceialmente para mulheres que desejam ser mães. Ele é oferecido por seu criador, Prof. Hobby, a Monica Swinton, cujo filho biológico, Martin, está em coma. Ela não suporta a ausência de uma criança para chamá-la de “mamãe”.

Quando Martin desperta do coma, instala-se a rivalidade entre os “irmãos”, mas quem sofre com isso é a própria Monica, que decide, não sem hesitar e não sem grande pesar, abandonar David na floresta. A partir daí, inicia-se uma aventura em que David procura realizar o desejo de se tonar um menino de verdade.

Ele acaba encontrando outros robôs rejeitados e descobre que existe um grupo de humanos que os persegue e os destrói. O garoto faz amizade com Gigolo Joe, um robô programado para dar prazer às mulheres. Ele ajuda David em sua busca, e ambos passam por muitos incidentes, até encontrar o Prof. Hobby, e este afirma que David é um menino de verdade, tendo em vista tudo o que ele experienciou e sentiu.

David não se convence e vai atrás da Fada Azul (que na história de Pinóquio transformou o marionete num menino de verdade). Ele acaba por encontrá-la na forma de uma estátua, num antigo parque de diversões submerso. O garoto passa então o resto de sua existência repetindo a frase: “Por favor, me transforma num menino de verdade”.

Depois de séculos, já desativado pelo tempo, David é encontrado por robôs ultra-avançados, de uma época em que não existem mais humanos. Eles descobrem em David um repositório de tudo o que é preciso para entender a já extinta humanidade.

A busca de David por se tornar um ser menino de verdade, por si só, já o dota de um aspecto tipicamente humano, ou seja, a constante procura por um ideal existencial. A dificuldade de a sociedade humana aceitar os robôs como pessoas, inclusive com sua destruição sistemática pelos seus odiadores, é uma metáfora da discriminação sofrida por grupos minoritários, como as mulheres, os negros e os pobres, que ao longo da história humana precisaram lutar para ter seus direitos de humanidade reconhecidos pelo conjunto da sociedade.

A obra aborda

  • preconceito,
  • discriminação,
  • amor,
  • relação mãe e filho,
  • relação entre irmãos,
  • Ética,
  • amizade e
  • evolução pessoal.

WALL-E (WALL-E)

Direção: Andrew Stanton

País: EUA

Ano: 2008

No ano de 2805, a Terra está desolada, coberta de lixo e quase sem traços de vida orgânica. Apenas duas criaturas vagam pela superfície: WALL-E, um robô programado para empilhar lixo, e Hal, sua barata de estimação. Os seres humanos evacuaram a Terra há 700 anos, devido aos níveis de toxicidade do planeta, e foram todos viver numa estação espacial chamada Axiom.

WALL-E é o único robô de sua linha que permaneceu ativado e funcionando, e acabou desenvolvendo uma personalidade mais complexa do que aquilo para que foi programado, para além de sua “diretriz” básica. Ele agora possui um hobby: colecionar coisas chamativas que encontra no lixo, como cubos mágicos, caixinhas de anéis e lâmpadas incandescentes. Também tem uma predileção por música e musicais, a que assiste num iPod. Esses muscais românticos o fazem ansiar por uma companhia como ele.

Um dia ele recebe uma visita inusitada, uma robô chamada EVA, programada para encontrar vida vegetal e averiguar se a Terra já tem condições de sustentar vida. WALL-E mostra a EVA as maravilhas de seu pequeno museu particular (sua casa, que era originalmente um galpão onde as unidades WALL-E se recolhiam). Porém, ao avistar uma pequena planta que ele guardava num sapato, ela tem um sistema automático ativado, recolhe a planta em uma cápsula no próprio corpo e se desliga.

WALL-E cuida de EVA (como se fosse um marido cuidando da esposa grávida) por dias a fio, até que uma nave vem recolhê-la e ele se vê na missão de resgatar a princesa no castelo do dragão. Chegando à Axiom, WALL-E encontra muitos robôs diferentes trabalhando e muitos humanos quase iguais, vivendo uma vida sedentária. A princípio obcecado apenas em encontrar EVA, por quem está apaixonado, WALL-E aos poucos percebe a importância da planta para o retorno dos humanos e a recomposição da Terra.

Por outro lado, EVA a princípio só tem foco em sua “diretriz”, mas aos poucos vê em WALL-E um grande amigo e um amor para cuidar. Juntos eles desmascaram uma sabotagem e, deparando-se com inimigos e aliados, conseguem recuperar a planta para fazer a nave retornar à Terra, salvando a humanidade.

Os robôs do filme, através de experiências afetivas significativas, ou seja, eventos que os marcaram em seus corpos e mentes, aprendem coisas que não sabiam, que não faziam parte das memórias pré-programadas. Eles vão criando uma memória extra, e o contato com os outros vai potencializando esse aprendizado, fazendo-os exibir traços de humanidade de que nem mesmo os humanos robotizados da Axiom gozavam. A metáfora do ser que se autoaprimora para se tornar um indivíduo moralmente mais completo e, acima de tudo, altruísta, é muito bem explorada em WALL-E.

A obra aborda

  • amizade,
  • amor,
  • meio ambiente,
  • liderança,
  • Ética,
  • altruísmo e
  • missão de vida.

Onde encontrar

Valente

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Valente (Brave, 2012), produção da incorruptível Pixar, traz um conto de fadas com mais uma princesa em busca da realização do seu destino. A diferença é que, contrariamente a todas as princesas Disney (distribuidora da obra), Merida não é uma mera donzela passiva e seu destino é incerto durante toda a narrativa.

Sinopse (com spoilers)

Filha de Fergus, chefe do clã escocês DunBroch, e de Elinor, a primogênita Merida é desde criança incentivada pelo pai a usar o arco, instrumento tradicionalmente reservado aos homens, e ela desenvolve o gosto pela aventura e por tudo o que se relaciona ao mundo masculino, desprezando as lições da mãe sobre feminilidade e a boa conduta de uma princesa.

A impertinência de Merida chega ao cúmulo quando ela se recusa a escolher um pretendente entre os primogênitos dos outros clãs (Dingwall, MacGuffin e Macintosh – este último nome faz parte da homenagem da obra a Steve Jobs), o que quase dá início a uma guerra. Depois de brigar com a mãe e simbolicamente rasgar uma manta costurada por Elinor, Merida segue fogos fátuos na floresta, que sua mãe dizia serem mágicos e levarem ao destino de quem os seguisse, e encontra uma bruxa, que lhe vende um feitiço para “mudar minha mãe e meu destino”.

O feitiço transforma Elinor num urso, o que obriga mãe e filha a fugirem do castelo (especialmente pelo fato de Fergus estar esperando há anos por se vingar de Mor’du, um urso que lhe arrancou uma perna). Merida descobre que o feitiço só pode ser quebrado se ela decifrar um enigma que envolve a reconstituição de algo que foi alterado. Após viver algum tempo com a mãe (em forma de urso) na floresta, elas retornam ao castelo, onde Merida (com o auxílio da mãe) consegue convencer os chefes dos quatro clãs de que a tradição deveria ser alterada e os jovens deveriam poder decidir com quem vão se casar.

Enquanto Merida costura a manta que ela rasgara, pensando que assim poderia quebrar o feitiço, Fergus encontra e enfrenta a própria esposa, achando que é Mor’du, e conclama seus guerreiros para executá-la. O verdadeiro Mor’du aparece, e Elinor consegue matá-lo numa luta. Com todos reconciliados, a rainha volta à sua forma humana e o equilíbrio é restabelecido numa nova ordem.

A jornada da heroína

A trama de Valente em si mesma é um simples conto de fadas como qualquer outro. Segue toda a estrutura narrativa campbelliana (a jornada do herói) e acrescenta pouca novidade em comparação com as histórias folclóricas consagradas, especialmente aquelas imortalizadas na telona pela Disney. Porém, a Pixar sabe, mais do que adaptar contos de fadas para o cinema, inventar novas fábulas (quase todos, senão todos, os roteiros do estúdio são originais). E mesmo pisando em terreno conhecido, Valente traz uma novidade óbvia, que é uma heroína do sexo feminino.

Logo no começo da história, vemos que Merida está destinada ao conflito entre a liberalidade do pai e as exigências tradicionais da mãe. E é bom salientar que a jovem não se torna pura e simplesmente uma guerreira obtusa como Fergus. Diferente deste, ela acredita em magia e em lendas, e deve isso à sua mãe. Sem esse elemento fantástico, a trama não se desenvolveria como o fez.

No início deste texto eu disse que Merida não é como as outras princesas Disney. E o principal elemento que lhe falta para ser uma é um interesse amoroso, um príncipe para chamar de seu (ou para que ele a chame assim). Nenhum dos pretendentes desperta o menor interesse nela, e durante toda a história não aparece a menor menção sub-reptícia de um possível amor romântico. Merida é uma amazona como as das lendas gregas, condensa em si mesma os dois papéis, o de princesa e o de guerreiro, assumindo a responsabilidade pelo próprio destino.

Todo a resolução do conflito é resolvida pelas duas mulheres protagonistas, Merida e Elinor. Não que nas lendas e contos as mulheres não resolvam conflitos (vide Psiquê na mitologia grega), mas é raro que o façam como guerreiras e não utilizando a psique. Normalmente, o feminino, nos contos de fadas, se encarrega da parte mágica e psíquica dessa resolução, enquanto os conflitos físicos são tarefa dos homens. Em Valente, vemos uma mudança nesse paradigma, pois as duas metades, o yin e o yang do drama, são empreendidos pela mulher.

A fábula poderá ter um efeito positivo em meninos, acostumados com heróis masculinos, e em meninas, que praticamente só conhecem nas histórias garotas que são princesas. A quebra do paradigma sexual dualista, embora ainda não radical, possibilita a reflexão sobre a liberdade individual perante as exigências sociais quanto à identidade de gênero.

Herói em corpo de princesa

O filme tem uma mensagem oculta, que a maioria das crianças e grande parte dos adultos não vão perceber. Merida é uma transexual. Ela não assume a identidade feminina exigida pela sua cultura, tendo uma personalidade e hábitos de um homem. Participa ativamente de atividades esportivas/bélicas, caminha com uma postura masculina, não se importa quase nada com vestidos e maquiagem e não segue a etiqueta ensinada por sua mãe à mesa.

É importante fazer uma referência a Mulan, uma das principais princesas da Disney. É inevitável que se façam comparações entre as duas, mas Mulan não nasceu no corpo errado, digamos assim. Ela não é uma amazona, e só assume a identidade de homem para evitar uma desonra familiar e a destruição do Império Chinês. Quando termina sua missão, ela volta a ser a moça prendada que sempre foi e até se casa com um galante general ao qual serviu em batalha.

Merida continua a ser, de certa forma, um rapaz em corpo de moça ao final da história, e mesmo mantendo uma identidade feminina, pode-se ler nas entrelinhas uma tímida mensagem destinada às pessoas que, por alguma razão, sentem-se como se não pertencessem ao sexo com o qual nasceram.

Corrobora essa interpretação a necessidade de sua mãe assumir outro corpo para vir a compreender a filha. O feitiço ajudou Elinor a entender o drama de Merida, ou seja, a falta de identificação com o próprio gênero. Sendo assim, embora seja muito sutil, a mensagem do filme é bem subversiva para os padrões do cinema infanto-juvenil. A pequenos passos, o cinema está evoluindo.

Adendo importante (10/08/2012 e.c.) (editado em 28/11/2013 e.c.)

Vejo agora que a afirmação acima de que Merida é “transexual” é uma forçação de barra que teria sido melhor evitar.

Leiam com atenção o post Princesa, heroína e guerreira: Valente de Nívea Melo, uma crítica muito boa ao meu texto, que traz outras questões pertinentes para a compreensão da mensagem do filme. Leiam também o texto que escrevi posteriormente, Merida, seus pretendentes e o transgenerismo.

Palavras incestuosas

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Inês me contou que, quando fez o curso Teoria e Prática da Autopesquisa, uma professora pareceu constrangida ao abordar o tema sexo na frente do filho, que também era aluno no curso. A voz da professora, segundo a narradora da história, quase não saiu, e ela se apressou a pular para o próximo tópico. É tão forte o tabu do sexo nas relações familiares, em muito especial na relação entre pais/mães e filhas/filhos, que provoca situações de enorme constrangimento não só para os protagonistas de um determinado incidente, mas para quem o presencia.

Minha monografia de graduação, por exemplo, que defendi em 2004, disserta sobre a derivação psíquica comum de dois tipos de desejos que em nossa cultura são antagônicos: o desejo sexual de um homem por uma mulher e o amor do filho pela mãe. Minha mãe assistiu à minha defesa, e da minha parte não houve qualquer constrangimento para tratar desse assunto na frente dela, que se sentou na primeira fileira de carteiras da sala, bem diante de mim, que fiquei em pé ao apresentar meu trabalho.

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Peixe Podre

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– para Leão Neto, que me apresentou respeitosamente este homem

A faca rasgava a barriga do peixe como se abrisse nuvens, de onde escorreria uma chuva vermelha e viscosa. A arte das facas, a sorte lida nas vísceras, infortúnios em lugar de fortuna. As mãos tingidas do vermelho sangue-chuva-viscosa das entranhas dos peixes. O cheiro impregnado no corpo, no couro, no osso, na origem da alma. O odor ancestral dos peixes arrebatados pela rede de seu pai, do pai de seu pai, e do pai deste e do outro até o início dos tempos, como se Adão carregasse no ombro sua vara de pesca.

Peixe Podre o chamavam, desde antes, de sempre. A caixa de isopor amarrada ao bagageiro da bicicleta e um cordão de cinco peixes raquíticos presos pelas bocas. “Peixe podre”, ele gritava pelas ruas, como a cidade o chamava. Vendia-os por uma pequena miséria amealhada, suficiente apenas para um tanto de feijão e outro tanto de cachaça. O cheiro fétido do isopor era também o cheiro de seu corpo e da cama de rosas mortas em que se deitava aquele homem miserável e sua mulher miserável ocupada do miserável legado que seus filhos receberiam.

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A orgia humana – parte 2

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A natureza é muitas vezes um recurso argumentativo para defender um modelo ideal de comportamento humano. A Etologia pode ser fonte para justificar, por exemplo, um dado tipo de conduta sexual e de formação de laços entre as pessoas. Porém, vemos que os comportamentos animais são tão diversos que não é possível basear nosso ideal de comportamento humano numa suposta “natureza” imutável.

Quando não adianta recorrer à “natureza” para defender a tradição familiar cristã (que na verdade é tão diversa e muito mais ideal do que real), recorre-se a argumentos de cunho “sociológico”. Um exemplo, dado na primeira parte deste ensaio, é a defesa do suposto significado “correto” da palavra “casal”.

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O julgamento de Salomão

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O rei Salomão tivera um sonho. Seu Senhor Deus estava pronto para lhe conceder qualquer dádiva, e Salomão lhe pediu que se lembrasse de Davi, seu pai e sucessor no trono, tão sábio e correto. Pediu ao Senhor que notasse como era difícil para alguém tão imaturo como ele próprio governar. Portanto, ele desejou que Deus lhe desse um coração com sabedoria para julgar com justiça o povo de Israel, para discernir entre o bem e o mal.

Ora, o que lhe poderia dar Deus senão uma sabedoria de porte divino como a sua própria? Afinal, se desde os tempos da Criação a mulher e o homem haviam comido o fruto que lhes enchera o peito com o poder de perceber (ou inventar, o que é quase a mesma coisa) a diferença entre bem e mal, a eles faltara a capacidade de tomar decisões difíceis, o que era exatamente o que Salomão pedia agora ao Senhor, ou seja, que sanasse essa falta filogenética.

Mas, como sabemos, a capacidade divina de inventar a distinção (ou percebê-la, o que não é muito diferente) entre bem e mal nunca foi suficiente para que as decisões de Deus (difíceis, sim, mas para Deus qualquer dificuldade é facilmente transponível) fossem inteligíveis aos humanos. O velho adágio, “Deus escreve certo por linhas tortas”, certa e tortamente nos mostra que é do feitio de Deus levar a cabo suas sábias decisões desajeitadamente. Longe de nós colocar em dúvida sua onisciência, que lhe permite antever as consequências de seus próprios atos, mas convenhamos que Deus sempre atira primeiro e pensa depois, sendo a divindade tão ocupada que é, tendo que dar conta de todo um planeta habitado por impertinentes criaturas que mal sabem usar suas inteligências.

Deus anteviu rapidamente que o pedido de Salomão o deixaria parecido consigo mesmo, e o que mais pode lisonjear o criador do que reconhecer a si mesmo na criatura? Além do que o rei não pedira coisas mais banais e irritantes, como riqueza e longevidade. Deus estava tão empolgado que concedeu logo as três coisas a Salomão, mesmo sabendo que se arrependeria depois, mas Deus é assim mesmo. E foi assim que o coração de Salomão ficou, parecido com Deus, e era como este que ele agia diante dos súditos.

Então o Destino, que estava observando tudo, a Deus e a Salomão, decidiu, muito ponderadamente, pois costumava pensar antes de agir, testar a sabedoria de Salomão, e fez com que duas prostitutas se pusessem diante do rei. Uma delas lhe falou:

Majestade, tive há poucos dias um filho e minha colega, alguns dias depois, também deu à luz. Mas o bebê dela morreu, pois ela se deitou em cima dele. Porém, não bastando a dor que infligira a si mesma por ter matado o próprio descendente, antes da aurora, eu ainda dormia, ela trocou o cadaverzinho pelo meu bebê, tentando me enganar e me fazendo sofrer uma surpresa amarga pela manhã. Mas eu percebi que não era meu, e exigi minha criança de volta.

A segunda mulher se apressou a contar a mesma história, insistindo, com a mesma energia da primeira, que o cadaverzinho era desta e o bebê vivo era seu.

Diante da confusão, Salomão disse:

Vocês me contam a mesma história, cada uma reclama a mesma criança para si. Mas não sou onisciente e não tenho como saber a verdade, tendo que assumir que ambas dizem a verdade, ou ambas mentem, o que dá no mesmo. Mas não posso ir contra um costume milenar segundo o qual “mãe só há uma”. Não sendo a mim possível dar todo o bebê às duas mulheres, só há uma maneira de resolver justamente o problema. Guarda, traga uma espada. Pegue o bebê e divida-o ao meio. Cada mulher levará uma metade.

Os olhos de uma das mulheres se encheram de lágrimas e ela se pôs à frente:

Senhor, não tenho como provar que sou a mãe verdadeira, mas não posso suportar a morte de meu filho diante de mim. Dê o bebê à minha colega, pois prefiro vê-lo inteiro e vivo a saber que nunca mais ouvirei sua doce voz.

A outra mulher cruzou os braços:

Ah, não! Já que não temos como provar quem é a mãe verdadeira, dividam logo esse bebê e me deem uma metade.

Salomão, antes de todos os presentes, logo percebeu que a primeira era a mãe verdadeira, e em seu julgamento achou por bem que ela tinha o direito à criança. Assim, mandou entregar o bebê inteiro a ela, decisão que lhe valeu o assombro dos súditos, por ter sido o rei tão perspicaz e sábio.

Porém, depois que as prostitutas já haviam deixado o palácio e recebido as bênçãos do rei, um dos escribas, que registrava a história, talvez para que o evento viesse a fazer parte de alguma futura coletânea aleatória de livros sagrados, não pôde se conter:

Majestade, é muito claro que o senhor, para o espanto e admiração de todos nós, conseguiu realizar um prodígio. Com toda a aparência de um louco (perdoe-me esta palavra), que insensatamente decide por matar uma criança cortando-a ao meio (a que serviria a metade morta de um cadaverzinho?), mostrou o senhor que a reação natural da mãe seria defender a vida de seu legítimo filho, o que não sucederia tão facilmente com a mentirosa. Mas (não estou duvidando de sua capacidade de julgar, sou apenas um escriba), mas, dizia eu, não deveria ter o senhor pensado melhor no futuro dessa criança? Não me leve a mal, senhor, mas me pareceu que seu procedimento (não o estou reprovando) visou mais a recompensar uma das mulheres, a que desse a “resposta certa”, a que respondesse da forma esperada pelo senhor, do que a encaminhar o bebê à sua melhor fortuna. Não me pareceu tão sensata a mulher que suplicou pela vida do filho, pois ela pretendeu dá-lo à outra, àquela que é tão descuidada que matou o próprio e provavelmente levaria o filho da primeira ao mesmo funesto destino. Não teria ela agido com melhor senso se tivesse pedido para que o filho fosse para as mãos de alguém mais cuidadosa? Agindo assim, ela põe em dúvida a própria sanidade mental… Ora, as duas mulheres moram juntas e têm o mesmo ofício, são prostitutas. Longe de mim julgá-las por seu ofício (melhor juízo poderia fazer o senhor, que é muito mais sábio que eu), mas considerando que ambas vivem juntas e levam vidas parecidas, não existe a probabilidade de a mãe verdadeira vir a incorrer no mesmo erro da mãe falsa? O que garante, dentro de tudo o que se pôde ver na cena que ambas fizeram, que a mãe verdadeira não teria feito o mesmo que a outra se encontrasse seu filho morto? Até onde podemos vislumbrar (por mais sábio que seja, perdoe-me por lembrá-lo disso, o senhor não é onisciente), é provável que a mãe que perdeu o filho tenha sofrido como qualquer mãe, e por isso tenha querido, em seu desespero, substituir a criança. A outra defendeu a vida do bebê porque era seu filho, mas será que ela defenderia a vida do filho da outra? Enfim, o que estou questionando (não estou questionando o senhor) é o caráter da mãe, que, por mais maternal que seja e por mais que ame seu filho, pode ser uma pessoa de mau caráter. Não quero de maneira nenhuma colocar em dúvida sua decisão, Majestade, mas talvez (só talvez) o senhor devesse ter pensado melhor nas consequências de sua decisão em relação à criança. Não quero pensar e nem quero que ninguém pense que o senhor procedeu de forma a impressionar seus súditos e parecer sábio aos seus olhos, no entanto alguns podem pensar (não estou dizendo que eu penso assim) que sua decisão no julgamento foi muito rápida e que na verdade o senhor é um louco tomado por sábio (não queiramos que ninguém pense assim). Porventura uma investigação mais acurada tivesse elucidado melhor o caso e destruído qualquer dúvida, nem que fosse só para confirmar sua percepção de que o melhor era mesmo entregar o bebê à mulher suplicante, o que teria rendido ainda mais crédito à sua capacidade de julgar, mas… quem sou eu para dizer essas coisas? Sou só um escriba…

Salomão estava fitando impacientemente o escriba:

É isso?

Sim, Majestade, é só isso.

Guarda, traga uma espada.

Baseado em:

  • Bíblia.Primeiro Livro dos Reis; capítulo 3: versículos 16 a 28. Link.

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  • Trecho de O Julgamento de Salomão, de Giovani Battista Tiepolo

Pai e mãe não têm sexo

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A luta daqueles que desejam ter filhos ainda tem um árduo caminho a ser percorrido no nosso homofóbico Brasil. Vejam, por exemplo, que o deputado Zequinha Marinho (PSC-PA) quer modificar o Estatuto da Criança e do Adolescente para proibir homossexuais de adotarem crianças.

A primeira coisa que deveria ser considerada na contra-argumentação à proposta de proibir alguém de um direito com base em seu comportamento ou orientação sexual é que, fazendo isso, incorre-se em inconstitucionalidade, pois implica em discriminar as pessoas por um critério antidemocrático. Perguntar se um candidato à adoção é homossexual equivaleria a perguntar qual é sua raça, religião, partido político ou time de futebol.

Marinho faz parte de impertinente grupo de políticos cristãos (católicos e evangélicos) que confundem suas convicções pessoais com política, e desconsideram que estão num país democrático. O deputado diz:

Como uma criança adotada se sentirá na escola, na rua, na sociedade, tendo o pai igual a mãe ou a mãe igual ao pai?

Nenhuma pessoa é igual a outra. E o que se observa em qualquer relacionamento, seja heterossexual ou homossexual, é uma tendência a haver complementaridade na relação, ou seja, cada um dos parceiros tem traços pessoais que compensam os traços pessoais do outro, mesmo que haja muitas coisas em comum a ambos.

Além disso, há casais heterossexuais que vivem uma relação tão igualitária que, na prática, poderiam ser considerados homossexuais, os parceiros são parecidos demais entre si. E há casais homossexuais que vivem uma relação tão dicotômica que a diferença entre os parceiros é maior do que a da maioria dos pares formados por um homem e uma mulher.

E também não podemos esquecer a multiplicidade de tipos de famílias que existem atualmente e que fogem dos padrões “tradicionais” defendidos pelo conservadorismo do evangélico deputado Marinho: pai solteiro com filho(s), mãe solteira com filho(s), pais separados com filho(s), gays com filho(s), lésbicas com filho(s), trios de pais com filho(s), irmãos mais velhos criando os mais novos, avós criando os netos, tios criando os sobrinhos…

A afirmação do deputado deixa implícita a ideia de que toda criança deveria ser criada por um casal e que, portanto, uma pessoa deveria ser proibida de criar sozinha uma criança, já que se pode inferir que, segundo ele, o “normal” é ter um pai e uma mãe.

A criança encontrará colegas na escola com os mais diversos tipos de pais e responsáveis em sua tutela.  E mesmo quando ela entender que em nossa cultura aquilo que é considerado “normal” é a heterossexualidade e a importância de “pai e mãe”, temos que lembrar que os modelos de feminilidade e masculinidade não são exclusivamente representados por um pai e por uma mãe respectivamente (nem mesmo nos casais heterossexuais, em que, inclusive, o pai pode exercer um papel feminino e a mãe um papel masculino).

Países desenvolvidos como a Holanda estão hoje perdidos sem saber para aonde vão.

Essa afirmação extremamente ilógica se baseia tão-somente no fato de que os holandeses não têm restrição de adoção com base na sexualidade dos pais. Não há nenhuma consequência nefasta na Holanda advinda da adoção de crianças por gays e lésbicas.

É a simples reiteração de que a homossexualidade é um mal em si e, portanto, ser criada por homossexuais é um enorme perigo para uma criança. E até agora não se pôde  demonstrar qualquer efeito negativo na criação por pais homossexuais nem qualquer repercussão maléfica disso tudo para a humanidade.

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Nota sobre a ilustração

Os peixes-palhaços são transexuais.