O universo colorido de Steven

Padrão

Há tanta, tanta coisa a se falar sobre Steven Universo (Steven Universe) que cá eu fico planejando vários textos para abordar tantos dos temas que aparecem ao longo dessa bela série. Mas se não vier a ser o caso, ao menos vou apresentar aqui diversas das razões porque acho esse desenho animado tão apaixonante e instigante e porque penso que vale a pena lhe dar uma chance.

Continue lendo

O paradoxo da misoginia

Padrão

Em nossa cultura, o sexo das pessoas e suas respectivas identidades sexuais preconcebidas são objeto de controle e coerção. Os XY são coagidos a serem machos/homens/masculinos, enquanto as XX são coagidas a serem fêmeas/mulheres/femininas, com todo um conjunto de comportamentos, trajes, parafernália e ocupações pré-estabelecidos.

Embora muita coisa já tenha mudado, em muitas instâncias de nossa vida cotidiana essa estrutura sexista se mantém forte, e a paradoxal misoginia continua a existir em pequenos gestos coercitivos de desprezo ao feminino e às mulheres que fogem dos ditames da feminilidade.

Boys will be boys

Nesse universo, a satisfação da sociedade e dos indivíduos que conservam o status quo dessa sociedade se dá quando cada membro da comunidade se encaixa perfeitamente nesse esquema “ditado pela natureza” ou “concebido por Deus”. Se mulheres e homens não se adequarem, a ordem do universo estará comprometida e os “sinais do fim do mundo” se mostrarão bem claros.

Nossa tradição sexista só encontra contentamento na adequação dos indivíduos às identidades e aos papéis preparados para eles, segundo a presença de um pênis ou de uma vagina. Uma mulher se realiza de forma “natural” quando usa vestido e maquiagem, cuida da casa e dos filhos e se entrega aos caprichos do marido, “pela graça de Deus”. Do mesmo modo se espera dos homens que sejam “masculinos”, vestindo calças, provendo a família e explicitando sua heterossexualidade.

A costela de Adão

Mas, ao mesmo tempo, o feminino pende desigualmente na balança com o masculino. As qualidades que formam um ser humano moralmente ideal e superior são geralmente as características do homem/masculino ideal: coragem, assertividade, liderança, competitividade, autonomia, foco, senso de direção etc. Não é à toa que o termo virtude provém do latim vir, significando “homem” (pertencente ao sexo masculino e não o ser humano em geral). As características tradicionalmente atribuídas à mulher/feminina não são valorizadas em si mesmas. Vaidade, passividade, dependência, submissão, superfluidade, emocionalismo e atenção dividida não são virtudes em seu sentido próprio e não são consideradas qualidades nobres.

Não é por acaso que a mulher que tenciona uma carreira independente e toma decisões sem submeter o rumo de sua vida a outro é acusada de ser muito ambiciosa, “querer demais”. Porém, o homem que não tem ambição, que se satisfaz na posição de dono-de-casa, não confraterniza com outros homens torcedores de um time e/ou não se sente atraído sexualmente por mulheres é rebaixado à condição de sub-homem, como se a feminilidade o diminuísse. A mulher/masculina é um excesso, “quer ser mais do que é”; mas ao homem/feminino falta algo, é um doente que tem que ser “curado”.

Isso explica a misoginia. Quando uma mulher é feminina, ela é colocada numa posição “naturalmente” inferior. “Você não passa de uma mulher”, canta Martinho da Vila. Paradoxalmente, “o melhor é que a mulher seja feminina, assim é que se pode aceitá-la”; mas se ela for feminina ela será inevitavelmente rebaixada. Sensibilidade e vaidade não são consideradas virtudes humanas nobres, então a mulher não seria tão humana quanto o homem (masculino).

Entretanto, se a mulher foge dessa camisa-de-força, o perigo está à solta. A violência simbólica (e em tantos casos a violência física) é ativada para colocá-la “em seu lugar”. Nessas situações o medo de bruxas acomete os conservadores, pois é um perigo para a ordem social androcêntrica ter mulheres tomando decisões, afinal, supõe-se que elas são destituídas naturalmente da capacidade de julgar e discernir. Sua “natureza” é se postar de diante de um espelho com um pente na mão e um batom na outra, e ela mesma não será feliz se não se entregar à “futilidade” que faz parte de seu âmago.

Então, se é para manter as mulheres “em seu lugar”, se é mais adequado que elas sejam femininas, o paradoxo da misoginia aparece novamente. Pois é sendo femininas, como está em sua “natureza”, que elas encarnam o papel de demônios sedutores, capazes de dominar o coração e (pior) a cabeça de um homem, destituindo-o de sua autonomia, “tirando seu sossego”, “mexendo com seu juízo”. Tanto a esposa-mãe quanto a amante-prostituta (dois extremos do confuso espectro das identidades femininas) têm o poder de domesticar um homem, seja pela chantagem emocional, seja pelos decotes e minissaias, entendidos como principais culpados pelo descontrole sexual dos estupradores.

As mulheres que, por algum motivo, não conseguem se enquadrar no moldes instituídos da beleza feminina também sofrem por não poderem ser aceitas como mulheres completas, e o desprezo pela “mercadoria defeituosa”, que não tem condições de competir no mercado de corpos, é profundamente sentido pela alma vilipendiada. O que paradoxalmente poderia ser uma libertação para elas, mas as que agradam aos consumidores desse mercado é que se sentem felizes por ser objeto da possessividade dos homens.

Exemplos de misoginia

Muitos homens não entendem o que é a misoginia, pois simplesmente pensam no sentido mais próprio da palavra, como sinônimo de ginofobia, medo de ou aversão à mulher (o que às vezes é atribuído, por exemplo, à aversão dos homossexuais pelo sexo feminino, mas não a um homem heterossexual que gosta de mulheres). Com base no que foi dito acima, eis alguns exemplos de comportamento misógino por homens (e em vários casos mulheres) heterossexuais, ainda muito comuns:

  • O medo de “perder o controle” diante de uma mulher gostosona vestindo uma microssaia e a consequente atribuição da pecha de “puta” a essa mesma mulher, o que se constitui num mecanismo de defesa para o homem se eximir da culpa e da pecaminosidade, atribuindo-as ao seu objeto de desejo; “Eu odeio essas mulheres que usam decote só para a gente olhar e ficam com raiva quando a gente olha!”;
  • A aversão a mulheres que não se encaixam no modelo ideal de feminilidade, especialmente quando são “feias”, embora elas mesmas não tenham nenhuma dúvida sobre sua identificação como mulher e não tenham nenhum traço “masculino” de personalidade; “Mulher de bigode nem o Diabo pode”; o desprezo a essas mulheres se acentua com o imperativo de que a mulher “tem que se cuidar” e de que “não existe mulher feia, mas mulher que não se cuida”; pouco se admite a possibilidade de um homem heterossexual gostar de uma mulher “feia”, como se este gosto fosse errado, o que fortalece ainda mais a pressão para as mulheres serem “bonitas”, sob pena de “não encontrarem um namorado” e consequentemente não serem felizes;
  • A antipatia pela esposa exigente que reclama das aventuras sexuais do marido e se torna uma “megera” a infernizar sua vida, nela recaindo toda a culpa pelos problemas do relacionamento, como se sempre só fosse a mulher a responsável por “complicar” tudo;
  • O rancor declarado pela “ex-amiga” que não quis sair dos limites da “zona de amizade” (“friendzone”), como se o fato de ele sentir atração sexual por ela fosse motivo suficiente para ela sentir o mesmo por ele; a imagem de femme fatale (“mulher fatal”) que recai sobre ela e consequentemente sobre todas as outras mulheres, supostamente propensas a brincar com os sentimentos de “caras legais como eu” e se entregar a “babacas como ele”;
  • A raiva contida pela mulher que se destaca no emprego, superando seus colegas homens, alguns dos quais se acham desonrados e emasculados por terem sido colocados para baixo por um ser humano do sexo feminino; a vontade de se vingar dessa mulher por tê-lo colocado numa condição “inferior”;
  • A raiva que muitos homens têm das feministas e o medo de que as ideias do Feminismo sejam adotadas pela sociedade; a alcunha pejorativa de “feminazis” a todas a mulheres que desejam ter os mesmos direitos dos homens; a indignação desses homens sob a justificativa de que as reivindicações feministas são “besteira”, refletindo o próprio estereótipo de que as mulheres só pensam em coisas fúteis e ou não merecem atenção ou merecem uma punição física.

As mulheres sofrem quando assumem o papel que se espera delas, pois este implica em menos liberdade de escolhas para ela, e sofrem quando fogem desse papel, pois são constrangidas a repensar sua adequação e fidelidade a um ideal de feminilidade “natural” . É claro que muita coisa mudou, mas isso não significa que essas manifestações de misoginia tenham se extinguido. Antes, significa que há aqueles que já não vivem na mentalidade dos séculos passados e que há muita gente (mulheres e homens) que não manifesta seus preconceitos e/ou procura superá-los.

Pelo que luta o Feminismo?

Então, pelo que luta o Feminismo? Pela subjugação dos homens pelas mulheres? Por uma ditadura matriarcal? Por um mundo em que as mulheres não usem maquiagem? Por uma sociedade cor-de-rosa?

O Feminismo luta por muitas coisas, mas com certeza ele não quer que o sexismo se inverta, criando uma sociedade ginocêntrica; nem que os homens sejam impedidos de assumir cargos de poder; nem que as pessoas sejam obrigadas a abandonar os papéis de gênero tradicionais; nem que se crie uma sociedade homogênea em que cada gesto e pensamento seja patrulhado em favor de uma ordem misândrica.

O Feminismo propõe uma sociedade diferente, onde as pessoas sejam mais livres. Em que as mulheres possam ser “femininas” sem serem menosprezadas por isso, ou que sejam “masculinas” sem se sentir culpadas, e onde também os homens sejam livres para fazer as mesmas escolhas. Em suma, é pela liberdade individual de ser quem é e de escolher ser quem quer que seja que o Feminismo e qualquer movimento social libertário luta.

Imagem

Merida, seus pretendentes e o transgenerismo

Padrão

Depois de uma séria e enriquecedora contribuição de Nivea Melo, percebo que minha afirmação de que a protagonista de Valente é transexual pode ter sido mais o resultado da vontade de ver um conteúdo muito mais subversivo do que aquele que o filme realmente tem. Há uma mensagem subversiva sim, mas vai em outra direção.

De qualquer forma, essa discussão leva a pensar em várias outros elementos do filme que trazem muito mais questões à problemática do gênero e da identidade sexual, e isso envolve não só a princesa Merida, mas todos os outros personagens de destaque na trama.

Esclarecimentos conceituais

Antes de mais nada, quero deixar claro o uso de alguns conceitos neste texto.

Sexo e gênero

Fêmea-mulher-feminina e macho-homem-masculino, os dois modelos ideais de identidade sexual

“Homem” não equivale a “macho” assim como “mulher” não equivale a “fêmea”. Mulher e homem são identidades construídas e reconhecidas socialmente, representando o gênero da pessoa, enquanto fêmea e macho são dados biológicos, o sexo do indivíduo. No esquema ao lado, o sexo é representado pelo círculo central, enquanto a identidade de gênero é representada pelos símbolos de Vênus (mulher) e Marte (homem).

Via de regra, na maioria absoluta das sociedades humanas, existe uma identidade de gênero correspondente a cada um dos sexos, ou seja, dificilmente se encontra uma fêmea humana que não tenha sido ensinada a ser mulher ou um macho humano que não tenha sido criado para ser homem. As noções do que significa ser homem ou mulher e dos papéis socialmente atribuídos a cada gênero variam infinitamente ao redor do universo humano, e o que uma sociedade considera “coisa de homem” pode ser considerado “coisa de mulher” por outra cultura. Normalmente, as representações sociais não veem uma descontinuidade entre macho e homem nem entre fêmea e mulher, e os caracteres socialmente construídos são vistos como aspectos naturais de cada sexo-gênero.

Existem pessoas nascidas macho que assumem uma identidade de mulher, feminina; assim como existem crianças nascidas fêmeas que acabam se constituindo com uma identidade masculina, ou seja, de homen. Isso ocorre principalmente em pelo menos dois contextos:

  1. Algumas sociedades imputam a certos indivíduos nascidos em circunstâncias especiais a identidade do gênero “oposto”. Se forem do sexo masculino, recebem um nome feminino e são tratados como mulheres, e o contrário ocorre se forem do sexo feminino.
  2. Há casos em que existe uma identificação precoce do indivíduo pelo universo do outro sexo/gênero, e a criança acaba por assumir a identidade e os papéis do gênero oposto, não tendo necessariamente vontade de mudar de corpo, mas em alguns casos sim (transexualidade).

Seja em um ou outro caso, há uma força social que obriga os indivíduos a assumir impreterivelmente todos os aspectos relacionados a uma identidade/papel de gênero, raramente se admitindo uma mistura ou uma terceira alternativa.

Feminilidade e masculinidade

feminilidade é o conjunto de disposições, atitudes, posturas, trejeitos, formas de falar, modos de vestir que caracterizam a ideia abstrata da mulher ideal. A masculinidade é o conjunto de disposições, atitudes, posturas, trejeitos, formas de falar, modos de vestir que caracterizam a ideia abstrata do homem ideal. Essas duas noções, na prática, classificam não somente os traços tangíveis e intangíveis da identidade sexual de um indivíduo, mas também abarcam as atividades desempenhadas socialmente, ou seja, seu papel de gênero. No esquema acima, a feminilidade e a masculinidade são representadas pelos círculos envolventes maiores.

Assim, se numa determinada sociedade o cabelo comprido é apanágio da mulher, ele é considerado um traço feminino e os homens dessa cultura que usam cabelos compridos têm, portanto, um traço de feminilidade, embora possam perfeitamente manter intocada sua identidade de gênero de homem. Uma mulher que usa calças numa sociedade que considera seu uso como adstrito aos homens, ou seja, que as considera uma indumentária masculina, tem um traço de masculinidade, mesmo que ela mantenha inexorável sua identidade de gênero de mulher.

Isso se aplica também a ocupações ou profissões. Antigamente, uma mulher que se ocupasse da Ciência poderia ser considerada “masculinizada”, pois essa era uma atividade tipicamente exercida por homens. Um homem que trabalhasse com enfermagem era tido como “feminilizado”, por ser essa profissão tradicionalmente ocupada por mulheres.

No processo evolutivo de uma sociedade, podem ocorrer mudanças nessas noções, e aquilo que era considerado “coisa de homem” passa a ser tido como uma característica unissex ou até ir para o lado oposto da dicotomia sexual, tornando-se tipicamente “coisa de mulher”. Assim, se uma cultura passa a considerar que cabelos compridos não são mais atributo exclusivo das mulheres, os homens de cabelos compridos não têm mais nesse traço uma característica feminina. Se as calças passarem a ser uma vestimenta universal, as mulheres que usam calças não serão mais masculinas do que as que usam saias.

Hoje em dia, no Ocidente, o salto alto é um acessório visto unanimamente como feminino. Porém, sua forma moderna teve sua gênese como peça do vestuário masculino, popularizada pelo famigerado Luís XV.

Transgenerismo e transexualidade

Um indivíduo que não se encaixe em nenhum dos dois modelos “macho-homem-masculino” e “fêmea-mulher-feminina” é chamado, em algumas abordagens da questão de gênero, de transgênero. O transgenerismo seria a inadequação, maior ou menor, de uma pessoa quanto às expectativas sociais sobre seu sexo biológico.

O termo transgênero muitas vezes é usado como sinônimo de transexual, tanto por estudiosos das questões de gênero quanto por militantes LGBT e até por psicólogos numa abordagem clínica. Porém, transexual parece ser um termo mais usado quando se refere à condição de uma pessoa que não se identifica com o sexo imposto a si pela natureza nem com o gênero imposto socialmente e procura se assumir e se transformar no outro sexo-gênero. Tendo em vista que os dois termos utilizam, respectivamente, os radicais que remetem a gênero e a sexo, assumo aqui que transgênero é uma condição mais geral, que pode abarcar desde um homem que gosta de colecionar bonecas Barbie, passando por uma mulher crossdresser de identidade andrógina até um travesti nascido homem que se assume mulher, se veste de mulher, modifica o corpo para parecer com o de uma mulher mas não quer fazer vaginoplastia, mantendo o pênis com o qual nasceu.

(A rigor, é difícil acreditar que haja algum indivíduo humano que não seja minimamente transgênero.)

Por outro lado, em consonância com o conceito mais aceito na psicologia em relação ao termo transexual (e especialmente à forma como foi abordado por Nivea Melo no texto Princesa, heroína e guerreira: Valente), considero que este significa o indivíduo que se entende como pertencente ao universo do sexo-gênero “oposto”, ou seja, pessoas nascidas machos que desejam ser fêmeas-mulheres-femininas e pessoas nascidas fêmeas que querem ser machos-homens-masculinos. A transexualidade poderia ser entendida como uma possibilidade extrema de transgenerismo.

Merida – yin e yang

Merida na visão do pai e na visão da mãe, respectivamente

Merida na visão do pai e na visão da mãe, respectivamente

A menina Merida, por circunstâncias especiais, acabou recebendo uma herança mista na constituição de sua identidade de gênero. O arco é um símbolo de masculinidade, a herança de seu pai Fergus, enquanto a visão mágica do mundo aparece como dom de sua mãe, que lhe ensina sobre os fogos-fátuos. A magia, como se vê num outro momento do filme, está mais ligada à feminilidade, especialmente representada pela figura de uma simpática bruxa.

Merida foge de quase todos os padrões e expectativas socialmente impostos ao seu sexo e gênero, e o principal fator para isso é seu pai, despreocupado de qualquer imposição de características femininas à personalidade da filha. Ele aceita numa boa as escolhas dela, e quase todas as suas opções fazem parte do universo masculino, das coisas que em sua cultura são consideradas “de homem” e não “de mulher”.

É importante nos determos sobre a influência do pai. Sendo este muito atencioso e próximo dos filhos, inclusive dos travessos trigêmeos mais novos, ele foi um modelo para sua primogênita, que para ele não importava ser menino ou menina nem se enquadrar totalmente naquilo que se espera de seu sexo e gênero. Essa influência não é simplesmente a filha imitar os aspectos masculinos do pai, mas é especialmente a visão menos tradicional que este possui sobre a identidade e os papéis de gênero, inclusive admitindo a mistura de aspectos masculinos com femininos (numa certa androginia).

(É possível que ele até se incomodasse se seu primogênito fosse um menino com traços de feminilidade, tendo em vista seu deboche ao filho de Macintosh, mas isso não se pode afirmar com certeza. Talvez ele tenha encontrado em Merida um “filho” com quem passar o tempo e a quem ensinar o que sabe, e ela certamente se sentiu muito mais à vontade para realizar seus desejos individuais, que em grande parte não condizem com o que sua sociedade espera de uma fêmea-mulher.)

Merida

Merida – yin e yang

A noção do que é feminino e masculino, embora seja construída socialmente, pode variar segundo o ponto de vista e os valores de cada indivíduo. No olhar da mãe Elinor, Merida está fazendo tudo errado, sendo uma fêmea-mulher-masculina, enquanto que para o pai Fergus ela está simplesmente sendo quem é, e aquilo que é considerado masculino em sua cultura não é visto por ele como tal. A seus olhos, sua filha é fêmea-mulher-feminina. No balanço dos olhares enviesados, podemos considerar que Merida é uma transgênera, pois, se pertence ao sexo feminino e tem identidade de mulher, ela possui um misto de feminilidade com masculinidade. Se, por um lado, ela usa arco e flecha, por outro, usa vestido; ela não age segundo a etiqueta do recato feminino, mas acredita em magia e nas lendas.

Embora Merida seja subversiva e, nos temos da antropóloga Margaret Mead (autora de Sexo e Temperamento), uma “inadaptada”, ela não foge à imposição cultural de uma identidade de gênero, que força cada indivíduo humano a se encaixar em apenas uma de duas opções: homem ou mulher. A identidade de gênero de Merida é mulher, e isso em nenhum momento é posto em dúvida ou problematizado. Porém, fugindo do ideal fêmea-mulher-feminina, ela pode ser considerada um exemplo explícito de transgenerismo, não chegando nem perto da condição transexual.

Os pretendentes

O jovem Macintosh na visão de seu pai e na visão de Fergus, respectivamente

A problemática do gênero é um tema recorrente em Valente, e não se resume apenas ao drama de Merida. Importa atentar para os três pretendentes da princesa, representantes de três tipos de masculinidade. O jovem MacGuffin, o jovem Macintosh e o jovem Dingwall, primogênitos dos chefes de seus respectivos clãs, apresentam diferenças explícitas quanto à aparência física, os atributos e as atitudes. No entanto, os três são apresentados como modelos de masculinidade.

No artigo intitulado “Rúgbi e Judô: Esporte e Masculinidade”, presente no livro Masculino, Feminino, Plural: Gênero na Interdisciplinaridade (organizado por Joana Maria Pedro e Miriam Pillar Grossi) a antropóloga Carmen Silvia Rial apresenta, num estudo sobre a trajetória no esporte de dois jovens brasileiros, a constituição de dois ideais diferentes de masculinidade, um representado pela disciplina física e mental de uma arte marcial japonesa (o judô) e outro pelo cultivo de um corpo preparado para os violentos choques de um esporte inglês (o rúgbi). Rial mostra que a noção de uma identidade masculina (o que, por extensão, pode se aplicar à identidade feminina) não é unânime nem mesmo dentro de uma mesma cultura.

No contexto geral dessa sociedade policlânica, os guerreiros que disputam no torneio de arco-e-flecha são considerados perfeitos machos-homens-masculinos. Porém, embora o plano de Merida seja desbancá-los simplesmente derrotando-os com sua exímia habilidade de arqueira, para os pais e mães que acompanham os jogos a questão é: quem dos pretendentes é o mais “homem”?

Entre os diversos clãs, cada um entende a masculinidade de uma forma ligeiramente diferente. Os chefes dos clãs Macintosh, MacGuffin e Dingwall consideram seus respectivos filhos como perfeitos exemplos de machos-homens-masculinos. Entretanto, se prestarmos atenção ao que Fergus sussurra a sua filha sobre o jovem Macintosh, vemos que o índice de masculinidade deste é posto em dúvida. Podemos extrapolar e considerar que cada um dos chefes considera os primogênitos dos outros clãs menos masculinos do que os seus próprios.

Dentro do grupo étnico que envolve os três clãs, há algumas unanimidades quanto ao que é masculinidade, mas cada clã tem ideais específicos que variam esse modelo sutilmente.

Cabeleiras escocesas

Um detalhe interessante para se explorar essa problemática são os cabelos dos personagens e o que eles significam em termos de identidade de gênero, masculinidade e feminilidade. No universo de Valente, percebemos que os cabelos não são arranjados de forma aleatória, segundo algum gosto pessoal dos personagens. Há uma diferença entre o recato da mãe de Merida, a rainha Elinor, que sempre usa seus longos cabelos presos, e sua filha Merida, que rompe com essa regra e, embora não corte suas mechas ruivas, deixa-as soltas, contrariando o decoro que se espera de uma dama.

Não existe, no universo do filme, uma unanimidade em relação ao significado dos cabelos quanto à identidade de gênero. Cada clã (cada cultura, cada etnia) tem uma noção própria daquilo que é a indumentária e a cosmética adequadas aos homens e aquela adequada às mulheres. Em comunidades tradicionais, existe pouca opção de variação, e quase sempre todos os detalhes estéticos têm um significado relacionado ao gênero.

Não é à toa que os penteados dos homens de cada clã é o mesmo. Dingwall e seu filho têm os mesmos cabelos curtos e arrepiados. Macintosh e seu primogênito ostentam mechas longas e soltas. MacGuffin sênior e júnior usam cabelos presos. As roupas também são as mesmas, bem como o porte físico (que não é apenas uma questão de hereditariedade genética, mas da valorização de um tipo ideal, capaz de realizar as atividades “dignas de um homem”).

No decorrer da história, vemos que essas diferenças são aos poucos suplantadas em situações críticas, especialmente o “debate” e, depois, a luta contra o urso Mor’du. No primeiro momento, em que os clãs quase chegam a declarar guerra, todos os homens se encontram frente a frente como homens-masculinos, desaparecendo as diferenças próprias a cada grupo. Quando Merida intervém no debate, ocorre uma crise ainda maior, pois a moça se coloca de igual para igual com os homens, e a noção daquilo que diferencia homens e mulheres sofre uma mudança. O estilo “masculino” de Merida ao impor sua presença passa a ser visto como um aspecto neutro, nem masculino nem feminino.

Na luta contra Mor’du, da qual Merida e a própria Elinor participam, essa quebra de paradigma se acentua, pois sem a participação das mulheres como guerreiras nesse conflito não teria havido vitória contra a fera, e a própria arte da luta passa a ser admitida como uma atividade unissex.

Por outro lado e complementarmente, as diferenças entre os diversos modelos de masculinidade passam a ser entendidos mais como idiossincrasias e particularidades pessoais do que como moldes no quais se encaixar os indivíduos. O rompimento com a tradição do casamento arranjado traz consigo um rompimento com a obrigação de os homens se provarem enquanto tais, seguindo carreiras diferentes daquelas esperadas por seus pais. O jovem Dingwall, por exemplo, talvez quisesse ser músico, tendo em vista que ele prefere usar o arco para tirar notas de suas cordas e não tem o menor jeito para atirar flechas.

Pós-generismo

Valente é uma ótima alegoria para se discutir o relativismo das identidades de sexo e de gênero. Aquilo que entendemos como identidades masculina e feminina não estão dados pela natureza, e essas noções estão sempre variando no tempo, no espaço e no contexto.

Merida antes e depois

A história de Merida e seu drama familiar pode ser lida como uma alegoria das revoluções sociais. A princesa guerreira promove uma situação de crise em sua sociedade e nos valores de sua cultura. Ela não apenas apresenta uma alternativa para a tradição que obriga jovens a se casar contra seu desejo pessoal. Ela também explicita a violência da imposição de identidades/papéis de gênero. No final, ela consegue fazer sua sociedade mudar a ideia do que é feminino e masculino, e Merida, que podia ser entendida como sendo híbrida, passa a ser aceita como uma possibilidade de fêmea-mulher-feminina. Até sua mão, outrora ferrenha defensora dos papéis tradicionais de gênero, passa a realizar atividades que provavelmente sempre teve vontade de fazer, como cavalgar livremente pelos campos. A sociedade humana evolui.

Entretanto, se as mudanças que vemos ocorrer nesse processo evolutivo mostram, por um lado, a capacidade das instituições humanas de se reinventarem, elas mostram, em contrapartida, os mecanismos pelos quais as novas configurações se adequam às mesmas estruturas antigas. Ou seja, ao invés de se passar a considerar Merida como um novo tipo de identidade/papel de gênero, ela continua a ser entendida como pertencente ao lugar supostamente reservado às fêmeas humanas. Ao invés de se admitir uma androginia de sua personalidade, a cultura cria uma nova feminilidade socialmente aceita.

(É o que acontece com qualquer tipo de acessório tradicionalmente masculino que passa a ser usado por mulheres, ou acessórios femininos que passam a ser usados por homens. As roupas que passam a ser unissex, como as calças, sofrem modificações para se adequar ao corpo das mulheres e para não parecerem “masculinas”. As bolsas, tidas como objeto exclusivo das mulheres, são modificadas para não deixar os homens “feminilizados”. Perpetua-se assim a cisão entre os dois universos, e qualquer pessoa que não adote a variação socialmente aceita de um objeto para o seu sexo-gênero entra no mundo do transgenerismo e causa estranheza.)

Assim, Merida não é uma transexual, pois ela não sofre agonia por pertencer ao sexo feminino e ter a identidade de mulher. Porém, ela é num primeiro momento uma transgênera, e suas atitudes, bem como os eventos decorrentes de sua história, fazem vislumbrar uma nova sociedade, em que as imposições ligadas ao sexo e ao gênero são mais frouxas e talvez venha, num futuro mais distante, dissolver a dicotomia e possibilitar o aparecimento de identidades totalmente inesperadas e inauditas. A visibilidade do transgenerismo, cada vez maior, pode nos levar aos poucos a um pós-generismo, em que não haja mais a imposição de identidades e papéis de gênero, tolhedoras das individualidades.

Links

Princesa, heroína e guerreira: Valente

Padrão

A respeito da resenha de Thiago Leite sobre o filme Valente, considero que houve um equívoco crasso quando se categorizou a Valente princesa Mérida como transexual, “guerreiro em corpo de mulher / herói em corpo de princesa”, pois existe uma diferença abissal entre ser transexual, ou seja, pessoa com transtorno de identidade de gênero, que não aceita o próprio sexo biológico e sofre com isso, e ser uma pessoa simplesmente inconformada com seu papel social de gênero. E sinto que este tipo de confusão, se perpetuada, seja um desserviço tanto para as mulheres inconformadas com um papel social que as oprime e reprime, quanto para os transexuais, que sofrem muito pela não aceitação de seu sexo biológico.

Mérida se ressente de seu papel social opressivo de mulher, de não poder correr livre em seu cavalo, de não poder usar seu talento como arqueira em competições, de não poder lutar por si mesma. Não vemos a Valente princesinha Mérida exibir sofrimento intenso por seu sexo biológico de mulher, nem mesmo quando o filme a mostra sozinha e livre para fazer o que deseja. Pelo contrário, não a vemos tentando extirpar seus seios ou mesmo disfarçá-los com faixas apertadas, leva seus cabelos vermelhos revoltos ao vento sem cortá-los ou trançá-los, não usa calças, usa vestidos longos e sente-se confortável com eles, usando-os até para escalar montanhas. Vale lembrar que cabelos longos, principalmente vermelhos, são forte símbolo de feminilidade e que cabelos longos, brilhantes e saudáveis são sinais de fertilidade e saúde, logo a feminilidade de Mérida é pontuada através destes símbolos adequados à cultura ocidental, principal público-alvo da Pixar, desde as primeiras cenas do filme. Mérida é menina e moça, guerreira, heroína e princesa.

Eis algumas definições tiradas do ótimo artigo “Transexualismo Masculino”, de Amanda V. Luna de Athayde , artigo este que recomendo fortemente ler:

Gênero: é o que o ser humano se torna sexualmente, seja homem ou mulher.

Identidade de gênero: é a convicção interna de feminilidade ou masculinidade.

Papel de Gênero (gender role): é o estereótipo social do que é masculino e o que é feminino.

Desordens [transtornos] de Identidade de Gênero: é quando existe uma discordância entre o sexo biológico e sua identidade de gênero, entre as quais se encontra o transexualismo.

O transexual não se opõe apenas ao papel social que lhe é imposto como homem ou mulher, ele realmente sofre desesperadamente por ter o sexo biológico que tem e em muitos casos tenta até se mutilar para tentar fazer seu corpo se parecer mais com o sexo com o qual se identifica. Moças biológicas, mas transexuais masculinos, podem tentar arrancar os seios e meninos biológicos, mas transexuais femininos, podem tentar arrancar o pênis, por isso é tão importante diagnosticá-los cedo e encaminhar para cirurgia de mudança de sexo, para evitar que sofram desnecessariamente e até possam se mutilar…

O transexual geralmente tem extrema antipatia, aversão mesmo, ao próprio genital e aos caracteres sexuais secundários, como seios, barba, músculos ou a falta deles etc. Às vezes o transexual prefere ficar sem atividade sexual, extirpando o pênis, por exemplo, para se parecer com o sexo com que se identifica, do que ter alguma atividade sexual com seu genital. A atração sexual para eles é secundária, várias vezes muito baixa, o problema real é o desgosto com o próprio sexo.

Eis a definição do CID-10 sobre Trasexualismo:

F64.0 Transexualismo
Trata-se de um desejo de viver e ser aceito enquanto pessoa do sexo oposto. Este desejo se acompanha em geral de um sentimento de mal estar ou de inadaptação por referência a seu próprio sexo anatômico e do desejo de submeter-se a uma intervenção cirúrgica ou a um tratamento hormonal a fim de tornar seu corpo tão conforme quanto possível ao sexo desejado.

Sugiro o excelente documentário Meu Eu Secreto, sobre crianças transexuais, para melhor compreensão do transexualismo, que quase nada tem a ver com atração sexual:

Também sugiro assistir ao ótimo filme Transamerica, com a excelente Felicity Huffman, onde podemos ver, entre outros casos, um transexual masculino e um transexual feminino apaixonados depois da cirurgia para troca de sexo.

Sobre Mérida ser heterossexual ou homossexual, também não é este o ponto central da história e não vemos a princesa exibir atração, seja pelo sexo oposto, seja pelo sexo similar ao seu, nem por rapazes, nem por moças, pois é muito jovem, aparenta ter entre 14 e 15 anos, não a vemos suspirar por ninguém e o foco do filme foi a relação entre Mérida e sua família, principalmente sua mãe, a rainha reprimida e submissa ao seu papel social de gênero e que, apesar de amar e ser muito carinhosa com Mérida, tentava impor a ela sua própria repressão e submissão ao papel social de princesa e mulher. Mérida diz que ainda não está pronta para casar e podemos apenas ver que despreza as bravatas do primogênito Macintosh, mostra uma pontinha de interesse pela força do primogênito de MacGuffin e junto com toda sua familia mostra surpresa e admiração com o “guerreirão” que à primeira vista parece ser o primogênito do Clã Dingwall, e que se desaponta com o verdadeiro filho de Dingwall, como pode ser visto neste trecho do filme disponibilizado no Youtube:

A rainha era uma mulher extremamente forte, poderosa, porém rigidamente reprimida e resignada ao seu papel social, usando o poder que tinha somente dentro das limitações deste papel, sendo emblemática a conversa que tem com o pai de Mérida quando este tenta lhe ajudar a falar com a filha e se espanta quando ela deixa escapar, como se falando com Mérida, que ela também, apesar de estar agora bem casada, teve seus receios ao ser obrigada a casar, mas acabou casando e ficou tudo bem.

A jornada desta mãe e desta filha para a desrepressão é o foco do filme, Mérida aproveita as lições da mãe quando necessário, usando sua presença feminina e porte ao cruzar o pátio cheio de guerreiros brigões, fazendo-os parar de brigar com sua majestosa presença, impostando sua voz ao fazer seu discurso, como sua mãe lhe ensinou e, divertidamente, usando a técnica do pai, gritando para fazê-los parar de falar quando quer. Mérida aceita e utiliza tanto as lições da mãe quanto as do pai para conseguir seus objetivos.

Interessante notar que o pai de Mérida a apoia e, naqueles tempos tão perigosos, diz que “lutar é fundamental, não importa se ela é uma lady ou não”.

Vemos este paizão apoiando Mérida ao longo de todo filme e neste clip da Pixar, disponível no Youtube, vemos como ele dá a Mérida lições de esgrima, escondido da mãe.

Os irmãos de Mérida a admiram, como pode ser visto no trecho onde ela conta que bebeu água na Cascata de Fogo e a ajudam ao longo da história.

Também é interessante ver que Mérida não se amedronta frente aos outros guerreiros e ao pai, enfrentando-os e até cruzando espadas com o pai e impedindo-o de machucar a mãe-ursa. Quantas meninas, héteros perfeitamente identificadas com seu sexo biológico, não sonham a mesma coisa ao serem ameaçadas e/ou verem seus entes queridos, inclusive suas mães submissas sendo ameaçadas/espancadas por este mundo afora?

Mulheres inconformadas com a imposição social de seu papel de gênero não são necessariamente homossexuais e muito menos transexuais, muitas de nós somos mulheres heterossexuais e gostamos muito de nosso próprio sexo biológico – e mais ainda de nossa capacidade de termos orgasmos múltiplos, só quem já sentiu sabe como é bom – e nos sentimos atraídas pelo sexo oposto. “Cheiro de homem” nos encanta e excita. Queremos ter a liberdade de, além de fazer sexo com nosso “príncipe encantado”, poder viver, trabalhar e até lutar ao lado dele. Queremos ter os mesmos direitos e deveres de nossos parceiros, não sermos nossos parceiros.

Não dá para saber se a Valente Mérida é heterosexual ou homosexual, pois isso não fica claro no filme, o foco é a relação dela com a mãe e a sociedade machista e repressora, mas dá para saber que ela é uma mulher, não um transexual, e que está inconformada com seu papel social de gênero, não quer ser reprimida e resignada a seu papel social de mulher, como a mãe, mas livre para cavalgar e usar arco e flecha ou espadas, subir em montanhas e o que mais quiser.

Para pensar: geralmente quando uma mulher heterossexual tenta se insurgir contra o seu papel de gênero socialmente imposto (redundância proposital), uma das violências que sofre é a tentativa de lhe atribuírem estigmas que não lhe são realistas, como ser homossexual ou transexual. Ela não quer se submeter a seu papel de mulherzinha, então tentam lhe roubar a própria feminilidade, caluniando-a com o estigma homossexual / transexual que não lhe pertence.

É nesse ponto que identifico o desserviço a nós mulheres e aos transexuais, pois a resenha inicial sobre Valente reduz o sofrimento destes ao simples inconformismo com o papel de gênero e nos rouba a possibilidade de sermos mulheres héteros, femininas e valentes inconformadas ao papel de gênero.

Várias mulheres ao longo da história mereceram o título de “guerreira” e não “guerreiro”, como por exemplo: Joana d’Arc, Anita Garibaldi, Joana Angélica, e mais diversas, entre as quais uma lista pode ser vista aqui, o de “heroína” e não “herói”, como Amélia Earhart, Rosa Parks, Eva Perón, Aung San Suu Kyi e tantas outras. Além disso, também existem os termos “pioneira” para designar mulheres como Marie Curie, Chiquinha Gonzaga, Ada Lovelace, Florence Nightingale etc., sem contar as mulheres identificadas ao longo da história com os termos “lutadora”, “desbravadora”, “escritora”, “autora”, “professora”, “astrônoma” etc. Interessante notar que “Valente” admite ambos os gêneros.

Repetindo-me propositalmente: Mérida não tem problemas com seu corpo, até quando escala montanhas e está sozinha ela não dá qualquer demonstração de não aceitá-lo. Ao contrário, sua feminilidade é enfatizada por usar vestidos longos sempre, até cavalgando e escalando, e ter seus longos cabelos esvoaçando ao vento. O filme é muito feliz na sutileza com que aborda o não conformismo, tanto de Mérida com seu papel social, quanto de sua mãe, com o corpo de ursa. Penso que é um filme que ajudará gerações de crianças, tanto héteros quanto homo e transexuais a serem mais assertivas em suas vidas e terem a noção de que podem sim serem diferentes, que não precisam se submeter ao que a sociedade lhes impõe.

O prêmio de Mérida ao final do filme não é o príncipe encantado, é a liberdade de ser quem ela é.

Eis mais algumas definições, a grosso modo, só para esclarecer um pouco mais as diferenças e semelhanças sobre a diversidade sexual e de comportamento que há por aí:

  • Heterossexual é a pessoa que se identifica com o próprio sexo biológico, gosta de ser homem ou mulher, gosta de ter o próprio genital, gosta de seus caracteres secundários (barba, seios etc.) e sente atração sexual e emocional pelo sexo oposto ao seu. Pode ou não se conformar com seu papel de gênero e, no caso de não se conformar, participar de movimentos feministas, por exemplo.
  • Homossexual é a pessoa que se identifica com o próprio sexo biológico, gosta de ser homem ou mulher, gosta de ter o próprio genital, gosta de seus caracteres secundários (barba, seios etc.) e sente atração sexual e emocional pelo mesmo sexo que o seu. Pode ou não se conformar com seu papel de gênero e, no caso de não se conformar, participar de movimentos feministas, por exemplo.
  • Bissexual é a pessoa que se identifica com o próprio sexo biológico, gosta de ser homem ou mulher, gosta de ter o próprio genital, gosta de seus caracteres secundários (barba, seios etc.) e sente atração sexual e emocional tanto pelo sexo oposto quanto pelo mesmo sexo que o seu. Pode ou não se conformar com seu papel de gênero e, no caso de não se conformar, participar de movimentos feministas, por exemplo.
  • Transexual é a pessoa que não se identifica com seu sexo biológico, desejando ter o genital do sexo oposto e ser do sexo oposto, não importa o tipo de atração sexual que sente, ou se sente. Seu sofrimento é muito maior do que a simples inconformação com um papel social de gênero ou do que simplesmente sentir-se atraído por pessoas do próprio sexo.
  • Travesti é a pessoa que veste roupas do sexo oposto, seja temporariamente, seja por longo tempo, o objetivo é a excitação sexual. O travesti pode gostar muito do próprio genital, de ter um pênis, sendo atraído por homens ou por homens e mulheres. Não confundir com travestismo transexual, quando o transexual veste roupas do outro sexo por identificar-se com ele. O travesti tem forte impulso sexual, o transexual geralmente não tem impulso sexual forte.
  • Crossdresser é a pessoa que se veste como o sexo oposto, seja por que motivo for, apenas por brincadeira, por profissão, por gostarem etc. O rapaz que usa saia como curiosidade e protesto social, mas é homem hétero e gosta de mulher, é/está crossdresser. Mulan, outra forte princesa Disney, foi crossdresser por necessidade, para proteger o pai disfarçou-se de homem e entrou no exército, mas nunca deixou de ser mulher e, no caso, bem mostrado no filme, heterossexual.

Sugiro ver este link da Wikipédia para entender mais sobre travestismo, pois há muito mais diversidade do que imaginamos e esta página tem alguns exemplos e definições ótimos.

Links

Pai e mãe não têm sexo

Padrão

A luta daqueles que desejam ter filhos ainda tem um árduo caminho a ser percorrido no nosso homofóbico Brasil. Vejam, por exemplo, que o deputado Zequinha Marinho (PSC-PA) quer modificar o Estatuto da Criança e do Adolescente para proibir homossexuais de adotarem crianças.

A primeira coisa que deveria ser considerada na contra-argumentação à proposta de proibir alguém de um direito com base em seu comportamento ou orientação sexual é que, fazendo isso, incorre-se em inconstitucionalidade, pois implica em discriminar as pessoas por um critério antidemocrático. Perguntar se um candidato à adoção é homossexual equivaleria a perguntar qual é sua raça, religião, partido político ou time de futebol.

Marinho faz parte de impertinente grupo de políticos cristãos (católicos e evangélicos) que confundem suas convicções pessoais com política, e desconsideram que estão num país democrático. O deputado diz:

Como uma criança adotada se sentirá na escola, na rua, na sociedade, tendo o pai igual a mãe ou a mãe igual ao pai?

Nenhuma pessoa é igual a outra. E o que se observa em qualquer relacionamento, seja heterossexual ou homossexual, é uma tendência a haver complementaridade na relação, ou seja, cada um dos parceiros tem traços pessoais que compensam os traços pessoais do outro, mesmo que haja muitas coisas em comum a ambos.

Além disso, há casais heterossexuais que vivem uma relação tão igualitária que, na prática, poderiam ser considerados homossexuais, os parceiros são parecidos demais entre si. E há casais homossexuais que vivem uma relação tão dicotômica que a diferença entre os parceiros é maior do que a da maioria dos pares formados por um homem e uma mulher.

E também não podemos esquecer a multiplicidade de tipos de famílias que existem atualmente e que fogem dos padrões “tradicionais” defendidos pelo conservadorismo do evangélico deputado Marinho: pai solteiro com filho(s), mãe solteira com filho(s), pais separados com filho(s), gays com filho(s), lésbicas com filho(s), trios de pais com filho(s), irmãos mais velhos criando os mais novos, avós criando os netos, tios criando os sobrinhos…

A afirmação do deputado deixa implícita a ideia de que toda criança deveria ser criada por um casal e que, portanto, uma pessoa deveria ser proibida de criar sozinha uma criança, já que se pode inferir que, segundo ele, o “normal” é ter um pai e uma mãe.

A criança encontrará colegas na escola com os mais diversos tipos de pais e responsáveis em sua tutela.  E mesmo quando ela entender que em nossa cultura aquilo que é considerado “normal” é a heterossexualidade e a importância de “pai e mãe”, temos que lembrar que os modelos de feminilidade e masculinidade não são exclusivamente representados por um pai e por uma mãe respectivamente (nem mesmo nos casais heterossexuais, em que, inclusive, o pai pode exercer um papel feminino e a mãe um papel masculino).

Países desenvolvidos como a Holanda estão hoje perdidos sem saber para aonde vão.

Essa afirmação extremamente ilógica se baseia tão-somente no fato de que os holandeses não têm restrição de adoção com base na sexualidade dos pais. Não há nenhuma consequência nefasta na Holanda advinda da adoção de crianças por gays e lésbicas.

É a simples reiteração de que a homossexualidade é um mal em si e, portanto, ser criada por homossexuais é um enorme perigo para uma criança. E até agora não se pôde  demonstrar qualquer efeito negativo na criação por pais homossexuais nem qualquer repercussão maléfica disso tudo para a humanidade.

Link

Nota sobre a ilustração

Os peixes-palhaços são transexuais.