Filmes para crianças – parte 3

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As histórias sobre robôs, androides, replicantes e outros seres artificiais podem servir como pano de fundo para reflexões sobre o próprio ser humano. Os robôs que agem como pinóquio, tentando se tornar seres humanos, e aqueles que extrapolam a programação inicial dada por seus criadores são metáforas do indivíduo que se desenvolve a partir de uma tabula rasa, da pessoa que procura se autoaprimorar para alcançar um ideal de valor e humanidade, tentando superar suas falhas e adquirir virtudes.

Os três filmes listados abaixo têm como protagonistas seres artificiais, robôs que aprenderam a ser mais do que máquinas. São ótimas opções para discutir com as crianças sobre humanidade, Ética e autoevolução. Recomendo que o adulto interessado veja os filmes antes de ler este artigo e antes de passar para seus filhos/sobrinhos/netos/amigos etc. As descrições dos filmes contêm spoilers. Divirtam-se.

Veja também:

Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

O Gigante de Ferro (The Iron Giant)

Direção: Brad Bird

País: EUA

Ano: 1999

No ano de 1957, no estado norte-americano de Maine, em plena Guerra Fria, Hogarth, um garoto órfão de pai, encontra uma criatura inusitada: um robô gigante vindo do espaço. Esse Gigante de Ferro, muito amigável e pacífico, tem provocado algum transtorno no local, pois se alimenta de metal, ou seja, carros, cabos de aço e trilhos de trem. Ele vem sendo perseguido pelas forças armadas, pois alguns, especialmente o agente Kent Mansley, acreditam que se trata de uma máquina de guerra e uma ameaça à humanidade.

A verdade é que o Gigante possui em sua estrutura interna um conjunto de armas letais ultra-avançadas, e ele é realmente programado para ser uma arma. Devido à amizade de Hogarth, sua programação é reprimida e ele desenvolve uma personalidade altruísta e antibelicista. Entre assumir a identidade de um robô maligno e a de um herói bondoso como o Super-homem (vistos nos quadrinhos de Hogarth), ele prefere seguir o ideal deste último. Porém, quando detecta uma arma, seus sistemas destrutivos são acionados e representam um perigo para todos ao redor. Ele aprende que cada um de nós pode seguir um ideal maior, não necessariamente se mantendo fiel a sua “natureza”.

Por causa de um incidente provocado por Mansley, que levou à interceptação de Hogarth e do Gigante, este, na ânsia de proteger seu pequeno amigo, tem sua “natureza” ativada, e começa a destruir as máquinas das forças armadas que cercaram a cidade. Quase provocando um desastre. Hogarth consegue fazê-lo parar, mas, devido à mprudência de Mansley, um míssil nuclear está voando a caminho do robô, ameaçando destruir a cidade e matar todos os seus habitantes.

Sem outra solução à vista, o Gigante de Ferro se despede de seu amigo e se sacrifica, voando em direção ao míssil e se chocando com este para destruí-lo. Instantes antes de morrer, o Gigante pensa para si mesmo: “Sou o Super-homem”.

O Gigante de Ferro representa bem o indivíduo que busca cultivar em si ideais éticos maiores, ao mesmo tempo abrindo mão de seus vícios e defeitos (as armas que representam um perigo para os outros ao seu redor) e assumindo posturas altruístas e atos visando ao bem comum, trilhando um caminho que extrapola sua programação original, ou seja, promovendo aprendizado, autossuperação e autoaprimoramento.

A obra aborda

  • amizade,
  • autossuperação,
  • Ética,
  • altruísmo,
  • belicismo,
  • pacifismo e
  • reconciliação.

Inteligência Artificial (A.I. Artificial Intelligence)

Direção: Steven Spielberg

País: EUA

Ano: 2001

David é um robô-menino programado para ser o “filho perfeito”, fabricado espceialmente para mulheres que desejam ser mães. Ele é oferecido por seu criador, Prof. Hobby, a Monica Swinton, cujo filho biológico, Martin, está em coma. Ela não suporta a ausência de uma criança para chamá-la de “mamãe”.

Quando Martin desperta do coma, instala-se a rivalidade entre os “irmãos”, mas quem sofre com isso é a própria Monica, que decide, não sem hesitar e não sem grande pesar, abandonar David na floresta. A partir daí, inicia-se uma aventura em que David procura realizar o desejo de se tonar um menino de verdade.

Ele acaba encontrando outros robôs rejeitados e descobre que existe um grupo de humanos que os persegue e os destrói. O garoto faz amizade com Gigolo Joe, um robô programado para dar prazer às mulheres. Ele ajuda David em sua busca, e ambos passam por muitos incidentes, até encontrar o Prof. Hobby, e este afirma que David é um menino de verdade, tendo em vista tudo o que ele experienciou e sentiu.

David não se convence e vai atrás da Fada Azul (que na história de Pinóquio transformou o marionete num menino de verdade). Ele acaba por encontrá-la na forma de uma estátua, num antigo parque de diversões submerso. O garoto passa então o resto de sua existência repetindo a frase: “Por favor, me transforma num menino de verdade”.

Depois de séculos, já desativado pelo tempo, David é encontrado por robôs ultra-avançados, de uma época em que não existem mais humanos. Eles descobrem em David um repositório de tudo o que é preciso para entender a já extinta humanidade.

A busca de David por se tornar um ser menino de verdade, por si só, já o dota de um aspecto tipicamente humano, ou seja, a constante procura por um ideal existencial. A dificuldade de a sociedade humana aceitar os robôs como pessoas, inclusive com sua destruição sistemática pelos seus odiadores, é uma metáfora da discriminação sofrida por grupos minoritários, como as mulheres, os negros e os pobres, que ao longo da história humana precisaram lutar para ter seus direitos de humanidade reconhecidos pelo conjunto da sociedade.

A obra aborda

  • preconceito,
  • discriminação,
  • amor,
  • relação mãe e filho,
  • relação entre irmãos,
  • Ética,
  • amizade e
  • evolução pessoal.

WALL-E (WALL-E)

Direção: Andrew Stanton

País: EUA

Ano: 2008

No ano de 2805, a Terra está desolada, coberta de lixo e quase sem traços de vida orgânica. Apenas duas criaturas vagam pela superfície: WALL-E, um robô programado para empilhar lixo, e Hal, sua barata de estimação. Os seres humanos evacuaram a Terra há 700 anos, devido aos níveis de toxicidade do planeta, e foram todos viver numa estação espacial chamada Axiom.

WALL-E é o único robô de sua linha que permaneceu ativado e funcionando, e acabou desenvolvendo uma personalidade mais complexa do que aquilo para que foi programado, para além de sua “diretriz” básica. Ele agora possui um hobby: colecionar coisas chamativas que encontra no lixo, como cubos mágicos, caixinhas de anéis e lâmpadas incandescentes. Também tem uma predileção por música e musicais, a que assiste num iPod. Esses muscais românticos o fazem ansiar por uma companhia como ele.

Um dia ele recebe uma visita inusitada, uma robô chamada EVA, programada para encontrar vida vegetal e averiguar se a Terra já tem condições de sustentar vida. WALL-E mostra a EVA as maravilhas de seu pequeno museu particular (sua casa, que era originalmente um galpão onde as unidades WALL-E se recolhiam). Porém, ao avistar uma pequena planta que ele guardava num sapato, ela tem um sistema automático ativado, recolhe a planta em uma cápsula no próprio corpo e se desliga.

WALL-E cuida de EVA (como se fosse um marido cuidando da esposa grávida) por dias a fio, até que uma nave vem recolhê-la e ele se vê na missão de resgatar a princesa no castelo do dragão. Chegando à Axiom, WALL-E encontra muitos robôs diferentes trabalhando e muitos humanos quase iguais, vivendo uma vida sedentária. A princípio obcecado apenas em encontrar EVA, por quem está apaixonado, WALL-E aos poucos percebe a importância da planta para o retorno dos humanos e a recomposição da Terra.

Por outro lado, EVA a princípio só tem foco em sua “diretriz”, mas aos poucos vê em WALL-E um grande amigo e um amor para cuidar. Juntos eles desmascaram uma sabotagem e, deparando-se com inimigos e aliados, conseguem recuperar a planta para fazer a nave retornar à Terra, salvando a humanidade.

Os robôs do filme, através de experiências afetivas significativas, ou seja, eventos que os marcaram em seus corpos e mentes, aprendem coisas que não sabiam, que não faziam parte das memórias pré-programadas. Eles vão criando uma memória extra, e o contato com os outros vai potencializando esse aprendizado, fazendo-os exibir traços de humanidade de que nem mesmo os humanos robotizados da Axiom gozavam. A metáfora do ser que se autoaprimora para se tornar um indivíduo moralmente mais completo e, acima de tudo, altruísta, é muito bem explorada em WALL-E.

A obra aborda

  • amizade,
  • amor,
  • meio ambiente,
  • liderança,
  • Ética,
  • altruísmo e
  • missão de vida.

Onde encontrar

Belo monte de esclarecimentos obscuros

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Em torno do belo monte de polêmicas (e de um trocadilho há muito desgastado) a respeito do projeto da Hidrelétrica Belo Monte, no Rio Xingu, movimentos sociais em defesa dos povos que habitam as margens do afluente amazônico apresentam suas reivindicações para impedir que a vida de milhares de pessoas seja arruinada pela água doce.

Do lado do governo, que há tempos vem se contorcendo para contornar a polêmica, o IBAMA (que, desde que teve início o rebuliço hidelétrico, trocou duas vezes de presidente, um passando o pepino para outro) emitiu, nesta quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011 e.c., uma nota de “esclarecimento” sobre os “supostos” impactos ambientais da gigantesca obra.

Mas a leitura dos breves “esclarecimentos” mostram que eles foram lançados como panos quentes e realmente não esclarecem nada sobre os fundamentos do licenciamento ambiental de Belo Monte. Confiramo-la por partes:

1) Sobre o Estudo de Impacto Ambiental (EIA/Rima)

As falhas apontadas aos estudos de impactos ambientais não se aplicam aos recentes projetos hidrelétricos na Amazônia, especialmente os do rio Madeira e de Belo Monte. As usinas do rio Madeira são obras de grande porte e a evolução das obras tem mostrado que os programas ambientais formulados a partir dos estudos ambientais apresentam grande eficiência no controle dos impactos ambientais.

Em relação à Belo Monte, o Estudo de Impacto Ambiental entregue ao Ibama é de alta qualidade, consolidando informações relativas ao aproveitamento do potencial hidrelétrico do rio Xingu, de acordo com estudos realizados por décadas.

Nesse sentido, é importante destacar que o projeto final de Belo Monte, aprovado pelo Ibama e leiloado pela ANEEL, é resultado de amplo trabalho de revisão voltada à minimização dos impactos ambientais.

A nota se inicia afirmando de maneira vaga que não haverá impactos ambientais em Belo Monte. Uma tautologia retórica é usada para confundir o leitor, mas deixa explícita a situação enrolada em que se encontra o Estado: “os programas ambientais formulados a partir dos estudos ambientais apresentam grande eficiência no controle dos impactos ambientais” (grifo meu).

Em seguida, esperando que o público seja ingênuo, quer que se engula a afirmação de que o Estudo de Impacto Ambiental em questão tem “alta qualidade”, tendo sido iniciado há décadas, o que configura o velho e falacioso argumento segundo o qual a antiguidade de um saber é garantia de sua legitimidade. Mas qualquer tipo de estudo, por mais elaborado que seja, pode se imbuir de vícios motivados por interesses.

2) Sobre as Audiências Públicas de Belo Monte

O Ibama convocou a realização de audiências públicas tanto na fase de elaboração do Termo de Referência, que orienta a elaboração do EIA/RIMA, quanto na fase de avaliação da viabilidade ambiental com base no EIA/RIMA apresentado pelo empreendedor. Na fase de viabilidade foram realizadas quatro audiências públicas, sendo três na área de influência do empreendimento e uma em Belém. O Ibama avaliou os estudos ambientais e concluiu que eles se encontravam adequados para a realização das audiências, conforme a legislação em vigor.

As audiências foram registradas e integradas ao processo de licenciamento ambiental, e as discussões foram consideradas para a avaliação técnica do projeto. Além disso, após as referidas audiências, o Ibama colheu diversas manifestações por escrito protocoladas pelos interessados no processo. Todo o material subsidiou a elaboração da Licença Prévia pelo Ibama, a definição de condicionantes e programas ambientais.

Após a emissão da Licença Prévia, o Ibama ainda recebeu por mais de uma vez entidades da organização civil para discussões sobre os impactos em avaliação. Na cidade de Altamira, foi realizada reunião ampliada com a participação de mais de 100 representantes da sociedade civil, incluindo a participação do Ministério Público Federal. O Ibama também participou de audiência pública promovida no âmbito do Senado Federal, a qual também contou com a presença do Ministério Público Federal, além dos senadores da República integrantes da subcomissão de acompanhamento do projeto de Belo Monte.

Audiências públicas, audiências públicas, audiências públicas… nem sempre são tão públicas assim, mas alegar que houve audiências públicas é uma forma de dizer que houve a efetiva participação da sociedade civil, diretamente interessada. Além disso, não fica claro o que foi discutido nessas audiências nem que tipo de manipulação pode ter sido feita em suas atas e pautas.

3) Sobre politização do licenciamento ambiental

As decisões do licenciamento ambiental são, por força da lei, fundamentadas em estudos ambientais apresentados pelo empreendedor e pareceres técnicos emitidos pelo órgão ambiental. É preciso compreender que não existe decisão terminativa no processo de licenciamento. Isto é, a qualquer momento é dado ao empreendedor o direito de reapresentar o projeto ao órgão ambiental e, uma vez promovidos ajustes e adequações no sentido de se reduzir ou controlar os impactos, é natural que a licença ambiental seja aprovada. Foi o que ocorreu com o licenciamento de Belo Monte. O empreendedor foi comunicado da necessidade de ajustes no projeto e, quando as demandas resultantes das análises técnicas foram atendidas e os impeditivos superados, o Ibama concedeu a Licença de Instalação para canteiros e atividades associadas.

Descrever um procedimento é uma forma de fazer crer que ele foi executado. Mas, novamente, a nota é tão vaga que não dá detalhes substanciais sobre a natureza da suposta reavaliação, e, como em todo o texto, temos que confiar na autoridade e na fé pública de uma instituição estatal, cujos pronunciamentos, sendo oficiais, têm uma sacralidade equivalente à suposta infalibilidade do Papa católico.

4) Sobre o monitoramento dos impactos socioambientais dos empreendimentos licenciados

O Ibama tem acompanhado de perto a evolução de empreendimentos, que é a fase em que geralmente ocorrem os principais impactos ambientais. Esse acompanhamento tem sido fundamental para a construção controlada das usinas do rio Madeira, por exemplo, no acompanhamento dos programas sociais e no resgate de fauna. Esse acompanhamento é feito tanto na forma de análise de relatórios periódicos, como com a presença do Ibama em campo, durante as vistorias. Para Belo Monte o Ibama já destacou 18 técnicos para trabalhar no acompanhamento dos estudos e das obras. Outros servidores serão envolvidos em vistorias e ações de fiscalização.

O IBAMA apenas afirma que está acompanhando as obras, deixando-nos com a impressão de que nada vai dar errado. Entretanto, tudo pode acontecer. Ao afirmar que o papel do órgão é controlar os impactos ambientais, ele na verdade admite que estes acontecerão, e não poderá ser acusado de negligência caso o equilíbrio ecológico da região venha a sofrer um abalo. Afinal, sempre se pode recorrer à sabedoria popular segundo a qual as forças da natureza são indômitas.

Mas o pior de tudo é que o “esclarecimento” não cita nenhuma letra da questão humana que os impactos ambientais de Belo Monte podem representar. É como se qualquer problema ecológico resultante do empreendimento fosse um mal menor, visto que não vai afetar a vida dos empreendedores, dos servidores do IBAMA e de grande parte da população do Brasil.

Mas, e os ribeirinhos? E os indígenas que serão forçados a viver uma diáspora? Onde está a mínima menção a uma possível indenização ou um realocamento que compense as perdas? O racismo ambiental subjacente a essa obra e à nota do IBAMA fica evidente, paradoxalmente, na falta de qualquer resposta significativa às principais reivindicações dos movimentos sociais, que dizem respeito ao cuidado com nossos concidadãos marginalizados, literalmente vivendo à margem – do rio.

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Publicado também no blog Carta Potiguar.

 

Dersu Uzala – Resenha

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Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Dersu Uzala (1975) é um filme dirigido por Akira Kurosawa, que se inspirou num livro homônimo, escrito por Vladimir Arseniev. Este narrou em sua obra o encontro real com a figura do caçador Dersu Uzala, habitante solitário da floresta, pertencente à etnia nanai (referida no filme como goldi, que é como os russos os chamavam), que serviu a Arseniev e a seus soldados como guia numa expedição topográfica por uma região da Sibéria.

Dersu surpreende seus companheiros russos com um profundo senso de ética, um fascinante conhecimento da floresta e a habilidade de rastrear qualquer coisa através de sinais. O caçador desenvolve uma significativa amizade com Arseniev, que ele se acostumou a chamar de “Capitão”, o que leva a um cuidado especial por parte de cada um deles para com o outro.

Dersu e o “Capitão”

O verdadeiro Dersu Uzala

O verdadeiro Dersu Uzala

Dersu é um sujeito exótico para os soldados que guia pela floresta. A primeira impressão que temos dele, logo quando aparece pela primeira vez, é a de um homem excêntrico perdido na selva. Mas logo vamos descobrindo que ele é um exímio rastreador, interpretando pegadas e rastros, o que lhe permite saber que em determinada direção e a certa distância se encontra a cabana de um velho chinês, por exemplo.

Essa habilidade impressiona seus companheiros russos, que aos poucos vão deixando de vê-lo como alvo de risos e começam a confiar em suas instruções de como sobreviver melhor em sua missão pela floresta.

A forma de representar o mundo de Dersu também impressiona a expedição. Suas crenças animistas envolvem a representação dos elementos naturais como pessoas que devem ser respeitadas. Essas crenças são uma forma de ele justificar seus hábitos, que lhe permitem viver integrado ao ambiente selvagem, sem desperdiçar nada e compartilhando com quem precisa.

Surpreende, por exemplo, seu gesto de deixar comida na cabana desabitada em que pernoitam, para que outros viajantes não passem fome. Quando os soldados se propõem ao desafio de ver quem consegue atirar numa garrafa pendurada numa corda que se move como um pêndulo, o que nenhum deles consegue, Dersu atira na corda para não desperdiçar a garrafa, em mais um exemplo de seu senso ecológico.

Esse senso natural de ética cativa o líder da expedição, Vladimir Arseniev, que desenvolve uma profunda amizade com Dersu. Ambos têm, à sua maneira, um perfil de líder que os aproxima como iguais. Arseniev é líder do grupo que capitaneia, enquanto Dersu é o guardião da floresta, que cuida do equilíbrio do ambiente em que vive.

Essa amizade e confiança mútua chega ao ponto de, numa ocasião em que os dois se perdem, Arseniev obedecer cegamente às instruções de Dersu para cortar o máximo de capim que puder e amontoá-lo o mais rápido possível. Arseniev adormece no meio da intensa labuta, vêm a noite e o ar gélido e ele acorda numa cabana improvisada feita do capim que ele e Dersu cortaram e que salvou suas vidas. Arseniev se deixa cativar de tal forma por Dersu que o chama para ir morar com ele. Mas o lugar de Dersu é na floresta, e ele recusa.

Numa segunda expedição, em que Arseniev não está na posição de comando dos soldados, o grupo encontra Dersu novamente, que se dispõe outra vez a ajudar Arseniev em sua missão.  De certa forma, a importância de Arseniev nessa segunda demanda acaba se tornando maior, pois é a confiança mútua entre ele e Dersu que assegura seu sucesso.

No terceiro encontro dos dois amigos, Dersu mostra sinais de que está envelhecendo, os sentidos antes muito aguçados começam a embotar. Assombrado por suas crenças nas forças da natureza, ele se desespera depois que atira num tigre, pois tem certeza que a morte do animal significa que a floresta mandará outro tigre para matá-lo. Enfim, ele cede ao pedido de Arseniev para ir morar com ele na cidade.

Dersu não se adapta à vida urbana e, embora venha a cativar o filho de Arseniev com histórias sobre suas andanças, pede a seu anfitrião que o deixe partir, pois não consegue se desfazer de seus antigos hábitos. Arseniev o presenteia com um novo rifle e munição. Porém, mal tenta voltar à sua antiga vida, é assassinado na fronteira entre a cidade e a selva.

O favor que Arseniev tenta conceder a Dersu em troca de tudo o que este fez se mostra insensato, pois o caçador não sabe viver segundo os hábitos da cidade. O russo não compreendeu que, para Dersu, a ajuda às expedições não era um favor, mas fazia parte de seu trabalho de guardião da floresta, ao mesmo tempo auxiliando os soldados e impedindo que estes cometessem algum erro ecológico. Quando Dersu previu sua própria morte, ele estava certo, e sua crença sobre o tigre era uma racionalização de algo que ele já previra. Sua tentativa de retornar à floresta era na verdade um meio de assegurar sua morte, importante para o ciclo natural do ambiente do qual ele era uma parte vital. Mas sua morte também simboliza o trágico confronto entre a urbanização humana e a natureza selvagem.

O filme e o personagem

A primeira cena do filme se passa anos após a morte de Dersu e mostra Arseniev procurando o túmulo de seu amigo, cujo corpo havia sido enterrado sob as árvores da floresta. Mas ele encontra o local devastado para a ampliação da cidade, e não consegue mais achar a árvore que marcava a cova.

O filme então recua para a expedição em que Arseniev encontra Dersu pela primeira vez, e ao longo da história e ao final dela entendemos que a urbanização destruiu até a memória material daquele sujeito que incorporava o espírito da natureza.

Dersu Uzala

Embora o filme se estenda por quase 2 horas e meia, a trama é simples, com cenas longas e monótonas. Porém, não se trata de amadorismo cinematográfico. Muito pelo contrário, Kurosawa cria uma tensão em cenas que representam o estresse dos personagens, além de nos fazer imergir nas belas paisagens siberianas e no sentimento de quem se imiscui na natureza selvagem, como o faz Dersu.

Maxim Munzuk, que interpreta Dersu, consegue criar um personagem profundamente cativante, com sua simplicidade e sua ética, e cada um de seus gestos, palavras e ações chamam atenção do espectador. Dersu quase se torna ao longo da história aquele tipo de personagem que é o nativo servindo ao colonizador para que este explore melhor seu ambiente. Mas Arseniev impede que isso ocorra, deixando Dersu livre para mostrar a importância de manter o equilíbrio com seus costumes que se integram com a selva.

O caçador e o ranger

O ranger Faramir, retratado por Anke Eißmann

O ranger Faramir, retratado por Anke Eißmann

Ao final do filme, Arseniev declara, para fins de obituário, que a profissão de Dersu era “caçador”. Não sei qual é o sentido do nome usado no original em russo, mas talvez a denominação melhor para o ofício de Dersu seja a palavra inglesa ranger. Esta palavra pode ser traduzida para o português como “guarda florestal”, mas ela diz respeito a uma figura quase mítica encontrada em histórias de fantasia.

Em O Senhor dos Anéis, por exemplo, o personagem Faramir é o líder de um grupo de rangers que têm completa percepção do que acontece ao redor de seu refúgio no meio da floresta. Ele e seus companheiros conseguem, por exemplo, espreitar sem ser percebidos. Além disso, os elfos que moram nas florestas da Terra-Média também têm habilidades que lhes permitem se integrar com o ambiente selvagem.

O ranger se tornou, no RPG Dungeons & Dragons, uma subclasse de personagem derivada da classe guerreiro. É um tipo de soldado da natureza que trabalha, em conjunto com a figura do druida, para assegurar o equilíbrio natural. Ele pode interpretar rastros com precisão, andar pela floresta sem deixar rastros e consegue lidar facilmente com animais selvagens e domésticos.

Entretanto, por mais fantástica que seja a figura do ranger, ele é baseado em pessoas reais, que conseguem extrapolar os sentidos humanos. Alguns povos silvícolas da América e da África são exemplos de um sentido ecológico e ético baseado na experiência direta e que deveriam servir de modelo para as atuais tendências ecologistas da modernidade.

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