A biologia evolutiva de Star Trek

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Fonte: The Evolutionary Biology of Star Trek – io9

Autora: Annalee Newitz

Tradução: Thiago Leite


Um dos grandes mistérios da evolução humana diz respeito ao que aconteceu com todos os humanos que compatilharam o planeta com o Homo sapiens por centenas de milhares de anos. Enquanto o Homo sapiens evoluía na África, havia também homininos na Europa e na Ásia, conhecidos como Homo erectus, os hominídeos de Denisova e os neandertais. Para não falar no Homo florensiensis, conhecido como o povo hobbit. Será que esses grupos humanos se encontraram em algum momento? Eles cruzaram entre si ou se mataram uns aos outros? Será apropriado chamá-los todos de humanos ou eram alguns humanos e outros animais?

Jornada nas Estrelas (Star Trek) tem respostas para essas questões. E elas são tão confusas e frustrantes na ficção científica quanto na ciência evolutiva real.

O Mais Chato Episódio de Star Trek Jamais Escrito

Mesmo que você não seja um fã de Star Trek, provavelmente já ouviu falar do infame episódio de Star Trek: A Nova Geração, “A Busca” (“The Chase”), onde aprendemos que humanos, romulanos, klingons e todas os outros humanoides que encontramos têm de fato um ancestral comum, que vamos chamar aqui de Caras-de-massa (você pode entender por quê olhando a foto ao lado). Por uma série de eventos improváveis, a Enterprise encontra uma mensagem holográfica secreta de uma representante dos Caras-de-massa há muito falecida, que diz:

Sabíamos que viria o dia em que pereceríamos, e nenhum de nós sobreviveria – então deixamos vocês. Nossos cientistas semearam os oceanos primordiais de muitos mundos, onde a vida estava em sua infância. Os códigos nas sementes direcionaram sua evolução para uma forma física semelhante à nossa: este corpo que vocês vêm diante de vocês, que obviamente tem a mesma forma dos seus corpos, pois vocês são o resultado final. Os códigos na semente também contêm esta mensagem, espalhada em fragmentos em muitos mundos diferentes.

Certo, tudo bem, é absurdo e você pode entender por que as pessoas odeiam este episódio. Como Peggy Kolm já apontou brilhantemente em Biology In Science Fiction (“Biologia na Ficção Científica”), não faz nenhum sentido que todos os grupos evoluíssem do mesmo jeito numa variedade de planetas, e não se pode “direcionar” a evolução com “códigos em sementes”.

Mas se ignorarmos tudo isso, nós nos deparamos com um retrato bem interessante da evolução em Star Trek que em alguns aspectos espelham nossa própria evolução na Terra. Em primeiro lugar, nós já sabemos que alguns grupos de alienígenas podem intercruzar. Há o meio-humano meio-vulcano Spock, a meio-humana meio-klingon B’Elanna Torres, a meio-humana meio-betazoide Troi, e muitos outros personagens menores também. Isso só faz sentido se todos eles descenderem dos Caras-de-massa, embora haja episódios em que se sugere que as pessoas mestiças sejam produto de manipulação tecnológica.

Então, o que isso tem a ver com evolução humana?

O Ancestral Comum

belannaHumanos e nossos ancestrais são chamados homininos (eis uma boa explicação para isso), enquanto o grupo maior incluindo humanos e antropoides é chamado de hominídeo. Todos os grupos que mencionei anterioemente são inegavelmente homininos, e todos vieram do mesmo ancestral comum ao Homo sapiens – os Caras-de-massa da humanidade são chamados Homo ergaster ou Homo erectus. Obviamente, os neandertais não conseguiram suas testas romulanescas de algum tipo de evento de panspermia com “evolução direcionada”. Ao invés disso, diferentes grupos humanos simplesmente deixaram a África em diferentes épocas, espalhando-se pela Eurásia. Pelo fato de o Homo erectus ter deixado a África um milhão de anos antes do Homo sapiens, os dois grupos evoluíram separadamente durante um bom tempo. O mesmo aconteceu com o ancestral dos neandertais e os hominídeos de Denisova, que também partiram antes do H. sapiens.

Então a jornada de um milhão de anos da humanidade para a Europa, a Ásia e a Austrália foi de certa forma como o que aconteceu com a progênie dos Caras-de-massa em vários planetas diferentes. Eles começaram como uma espécie, mas, à medida que colonizaram diferentes regiões da Terra, começaram a se diferenciar uns dos outros. Sempre achei divertido o fato de que aquilo que provavelmente identificaria diferentes grupos humanos há 200.000 anos seriam as protuberâncias da testa e a altura – os mesmos dois traços usados no universo de Star Trek para fazer as pessoas parecerem “alienígenas”. É claro que os hominídeos de Denisova não devem ter tido um bobo nariz serrilhado de batata frita como um Bajoriano. Mas os neandertais teriam uma testa maior e um queixo mais protuberante do que os humanos modernos, enquanto os hobbits eram significativamente mais baixos do que o típico Homo sapiens.

Quando o Homo sapiens encontrou os neandertais pela primeira vez, poderia ter sido como os humanos encontrando os klingons? Muito provavelmente sim. Especialmente a parte sobre eles parecerem levemente diferentes e falarem línguas estranhas, mas no entanto são capazes de ter filhos juntos e empreender um extenso comércio mútuo (bem como entrar em guerra).

Especiação

Como mencionei antes, uma das maiores questões em Star Trek (e na biologia evolutiva humana!) é se o Homo sapiens realmente poderia ter filhos com outros grupos humanoides. Em Star Trek, ouvimos diferentes histórias sobre como uma criança meio-humana meio-vulcana poderia nascer – ela foi concebida em ambiente selvagem ou num laboratório? Mas temos absoluta certeza de que vulcanos e romulanos são tão intimamente aparentados que são capazes de produzir filhos sem problemas. Isso na verdade também espelha questões da ciência evolutiva.

Quando uma espécie se divide em duas ou mais, isso se chama especiação. Normalmente acontece quando dois grupos da mesma espécie são separados por tempo suficiente para evoluírem ao ponto em que não podem mais produzir descendência entre si. A grande questão é: grupos como o erectus e os neandertais eram espécies diferentes de nós ou seriam humanos com estruturas faciais e corporais diferentes dos humanos modernos? Há atualmente muita evidência genética de que o Homo sapiens intercruzou com neandertais e os hominídeos de Denisova. Então é provável que os três grupos fossem, de fato, a mesma espécie. Mas ainda não sabemos quase nada sobre o Homo erectus, e também estamos no escuro quando se trata dos hobbits e outros grupos homininos que ainda estão sendo descobertos. É possível que o Homo sapiens tenha intercruzado com neandertais, ao estilo de vulcanos/romulanos, mas não pudessem se reproduzir com Homo erectus.

A especiação é um processo bagunçado e caótico que raramente assume tonalidade preta e branca. Às vezes dois grupos muito diferentes são basicamente como os vulcanos e romulanos. Eles se comportam de modo completamente diferente mas são geneticamente quase idênticos. Outros grupos podem ter um ancestral comum, como humanos e chimpanzés, mas não podem se reproduzir entre si. Sugere-se em Star Trek: Enterprise que humanos e vulcanos podem estar nessa situação, se for verdade que eles requerem intervenção tecnológica para produzir uma prole viável.

Simplesmente não sabemos todas as respostas. No caso de Star Trek, isso se deve a tramas confusas e muitas continuidades retroativas. No caso da evolução humana, é porque ainda estamos tentando descobrir o suficiente sobre nossa história para entender o que aconteceu à medida em que evoluíamos.

Somos Todos Humanos

neandertalMuitos antropólogos usam a palavra “humanos” ou “pessoas” para descrever neandertais, hominídeos de Denisova e outros homininos que foram contemporâneos dos humanos modernos. Há fortes evidências de que estes grupos usavam ferramentas e fogo, podem ter tido uma linguagem e tiveram filhos com os Homo sapiens. Da mesma forma, em Star Trek, os alienígenas humanoides são sempre tratados como pessoas – mesmo que sejam klingons matando todo mundo e comendo um monte de vermes negros viscosos. Eles não são chamados de humanos, mas são claramente equivalentes aos humanos. Em inglês, ninguém usa o pronome “it” (gênero neutro usado para animais e objetos inanimados) para descrever um romulano. Eles podem ser inimigos, mas não são animais.

Quando tentamos imaginar como teria sido para o Homo sapiens migrar da África e descobrir neandertais, hominídeos de Denisova e possivelmente muitos outros homininos, não é à toa que pensemos em Star Trek. Como era viver num mundo com vários outros homininos inteligentes? Possivelmente seria como estar numa Federação com vários outros humanoides.

Sobre genéricos, filhos e a Europa

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Quando soube pela primeira vez sobre os medicamentos genéricos, que eles têm a mesma fórmula que os remédios “de laboratório” e que são mais baratos, eu me perguntei: por que então agora alguém vai querer comprar mais caro se tem um igual e mais barato? As fábricas não vão falir? Elas serão obrigadas a baixar os preços? Qual é a vantagem de se comprar mais caro se a fórmula é a mesma?

Com o tempo me dei conta de que as pessoas dificilmente confiam em empresas que não sejam “de marca”, com propagandas que “mostrem” a eficácia dos produtos e estejam há muito tempo no mercado, o que lhe confere, supostamente, pela tradição, um certificado de validade maior. A desconfiança nos genéricos é tal que o termo serve como pejorativo, sinônimo de piratas, para se referir, por exemplo, aos filmes pirateados vendidos por camelôs.

É uma situação geral, mas não tão hegemônica. O oferecimento de produtos mais baratos com a mesma qualidade é uma grande vantagem para a população mais pobre, que não pode se dar ao luxo de pensar que o mais caro é melhor. A população mais rica pode se manter com a crença de que a marca é um diferencial, além de poder usar isso, até inconscientemente, para se distinguir socialmente (como com qualquer outro tipo de produto).

Mas não é só isso. A propaganda reproduzida abaixo, da fábrica de remédios genéricos Germed, mostra que, para os brasileiros, há um outro elemento que prejudica a confiança nos medicamentos “sem marca”.

A primeira contestação da freguesa frente à oferta de um genérico é justamente o que eu tenho dito acima. Ela tem dúvidas se pode confiar nesse tipo de produto. A vendedora argumenta que a qualidade dos genéricos é supervisionada pela Anvisa. Mas isso não é suficiente para convencer a cliente, como se também não fosse possível confiar num serviço do governo brasileiro. A cliente, ainda não convencida, pergunta à farmacêutica se esta daria esses remédios aos seus filhos. A resposta é positiva, mas, antecipando que seu argumento pode ainda não convencer, a vendedora enfatiza que os genéricos Germed, além de baratos, são exportados para a Europa. Finalmente, a cliente se mostra completamente convencida e compra o genérico.

No mercado contemporâneo, como sustenta o sociólogo inglês Anthony Giddens, temos que nos arriscar minimamente, confiando na qualidade e na eficácia daquilo que as indústrias nos oferecem. Mas a garantia da farmacêutica, que deveria ser suficiente para a cliente comprar qualquer outro produto, é questionada. Ela deve se perguntar se um produto que não se sabe onde foi produzido é mesmo equivalente ao “de marca” (porém, ela também não sabe onde os produtos “de marca” são produzidos – a não ser que trabalhe nessa indústria -; por que sua certeza é maior com os produtos “de marca”?), ainda mais considerando que as marcas mais caras são muitas vezes internacionais, enquanto os genéricos são normalmente nacionais.

(Essa desconfiança em relação à procedência, pela qual os produtos importados são supostamente melhores do que os nacionais, pode não ser clara nem óbvia até aqui, e pode até ser considerada uma viagem hipotética de minha cabeça. Mas o que vem em seguida vai reforçar essa teoria.)

Quando a cliente apela para os filhos da farmacêutica, ela quer um reforço emocional por parte da argumentação da vendedora. Mas esta não se delonga nesse assunto, e vai direto ao ponto principal, que é o fato de que os produtos que ela está oferecendo são vendidos na Europa. Para a cliente, o fato de os europeus usarem esses genéricos comprova sua reconhecida qualidade. Mas por quê?

Por causa do complexo de vira-lata ainda presente nos brasileiros. Segundo Nelson Rodrigues, que cunhou a expressão,

por “complexo de vira-lata” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo.

o brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a auto-estima.

Não confiamos no que se produz no Brasil, ao ponto de boicotarmos a economia de nosso próprio país. Enquanto povos de outros países reconhecem a qualidade de nossos produtos agrícolas, recebem profissionais brasileiros que se qualificaram por estas bandas mesmo e até elogiam nossos governantes, tão vilipendiados pela mídia local, nós continuamos cuspindo na própria cara e deixando a bunda exposta na janela para outros passarem a mão.

Talvez o complexo de vira-lata se reforce, hoje em dia, pelo fato de as mercadorias mais valorizadas serem produtos de tecnologia eletrônica avançada, como os computadores e os celulares. O Brasil não tem, por exemplo, uma indústria própria muito forte de telefones celulares, e esta se concentra em países como os EUA (Apple), Finlândia (Nokia) e Japão (Sony). O que nos dá a ilusão de que o Brasil está atrasado em tudo.

Em muitas áreas, o Brasil ainda é uma vergonha: Saúde, Educação, Meio Ambiente, distribuição de riqueza… Mas temos uma democracia que funciona bem, um sistema eleitoral menos sujeito a fraudes, invenções e descobertas científicas importantes para todo o mundo, frutas, verduras e legumes que alimentam pessoas de outros continentes, um mercado de livros bem feitos e com design melhor do que os norte-americanos e europeus (infelizmente, não temos uma cultura de leitura para aproveitar bem esses livros…) e muitas outras coisas. É só prestar atenção para perceber os problemas desta terra. É só prestar atenção para perceber suas virtudes.

Mas, para reconhecer a qualidade de seus próprios produtos, os brasileiros, infelizmente, precisam do aval das antigas metrópoles colonialistas. “Se um sueco dá esse remédio aos seus filhos, por que não dar aos meus próprios filhos? Quem sabe eu não consiga deixar minhas crianças tão saudáveis quanto aqueles belos, fortes e inteligentes escandinavos?” (só enquanto escrevia este texto e pesquisava na internet, eu descobri que a Seleção Brasileira venceu a Suécia na final da Copa do Mundo de 1958; talvez seja interessante a gente sempre se lembrar desse evento…).

Porém, até na mestiçagem, que caracteriza a formação bio-sócio-cultural do Brasil e que várias áreas da Ciência já demonstraram ser positiva para a evolução humana, os brasileiros não conseguem ver uma vantagem…

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Cotas raciais – parte 3

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A raça é uma construção social. A maioria dos cientistas sociais e biólogos vão concordar com essa afirmação. Isso não quer dizer que ela não tenha efeitos nocivos sobre nós. A ideia de que existem raças baseia a discriminação racial. Mas, justamente por isso. a ideia de que uma “raça” possui aspectos intrínsecos que a diferenciam das outras deveria ser desconstruída. No entanto, há muito mais coisas a ser consideradas na discussão sobre cotas raciais…

Nesta terceira parte da Série Cotas Raciais, dou continuidade à análise dos comentários que foram deixados na primeira parte. Retomo aqui um comentário de Eduardo Prado, autor do blog Conversa de Bar, e um de AmBar Amarelo. O tema vai se complexificando ainda mais e, pessoalmente, vou ficando com grandes dúvidas sobre o posicionamento anticotas que eu costumava defender…

Comentário de Eduardo Prado

Concordo, por exemplo, que na raiz do problema está o acesso à uma educação de qualidade.

É interessante notar que a questão educacional parece ser a única unanimidade. A diferença é que os pró-cotas defendem ações emergenciais antes que a (certamente demorada) reforma educacional seja realizada, enquanto os anticotas geralmente alardeiam a imediata melhoria do ensino público, mas ninguém faz nada para mudá-lo. Neste sentido, eu tendo a concordar com cotas que atendam minorias, como forma de pressionar a implementação dessas mudanças.

Discordo, no entanto, dos que acreditam que as cotas vão servir para racializar as relações sociais no Brasil, talvez por que eu não entenda raça como uma determinação biológica. A palavra raça, que provavelmete tem origem comum a palavra raíz, é muito mais antiga que o conceito biológico de raça inventado no século XIX, talvez um pouco antes, no XVIII. Eu entendo raça como uma construção cultural e dinâmica, cujos sentidos e significados variam e se transformam ao longo do tempo. Sob o meu ponto de vista, o Brasil já é um país racializado, sempre foi.

Sim, raças são construções sociais. E, sim, existem relações raciais no Brasil, existem identidades raciais e existe racismo aqui. Mas justamente por ser uma construção social é que a raça deve ser desconstruídas, por um ideal antirracista. O racismo se baseia na ideia de que existem raças.

É claro que se pode conceber a existência de raças como meras identidades superficiais, sem que se pense em diferenças intrínsecas a elas. Como se fossem “tribos” (algo parecido com a ideia de “tribos urbanas”). Outra forma comum (embora em desuso) e com implicações bem menos sérias de se usar o termo “raça” é quando ela é sinônimo de família ou estirpe. “Fulano é da raça dos Araújo”.

Só através do reconhecimento de raças e de que as relações sociais sofrem interferência do racismo é que se poderiam criar políticas destinadas à mitigação dessa discriminação. Afinal, é preciso identificar de alguma forma quem é a população discriminada.

Eu também discordo que a implementação de cotas raciais criariam um racismo no Brasil. O racismo já existe. Mas eu tenho uma grande suspeita de que elas poderiam intensificar, em alguns contextos, o racismo já existente. Por outro lado, ao dar uma chance a pessoas que não têm condições de competir em igualdade no vestibular, abrir-se-ia a possibilidade de melhorar a vida dessas pessoas e, a longo prazo, melhorar sua autoestima, o que, por tabela, diminuiria até certo ponto o menosprezo e a subestimação dos negros, o que, por fim, diminuiria um pouco o racismo.

Mas, neste sentido, penso que seriam melhor as cotas sociais, que atuariam em cima do fator mais relevante na exclusão da Academia. O vestibular não discrimina a raça do candidato, mas a capacidade de resolver uma prova. O fato de uma pessoa ser negra não diminuiu a possibilidade de ela passar na prova, mas o fato de ela ter estudado em escola pública diminui. Mas as cotas sociais poderiam trazer um complicado dilema: será que elas 1) pressionariam o Estado a melhorar o Ensino Público ou, pelo contrário, 2) fariam o Estado relaxar nesse âmbito? Acho mais provável o primeiro caminho, e seria uma vantagem a longo prazo das cotas sociais.

Dito tudo isso, eu acho sim que poderiam haver cotas raciais em determinados contextos, mas não na Universidade. Existe racismo. Este precisa ser combatido. Mas há muitas outras formas, diretas e indiretas, de se fazer isso que não o acesso à Academia.

É comum ouvir comparações com os EUA, que teve uma história de escravidão em comum com o Brasil em muitos aspectos. Em geral compara-se a especificidade das relações “raciais” no Brasil a dos estados do Sul dos EUA, onde a discriminação contra o negro foi legal até o fim dos anso 50. São poucos os que lembram que a situação do negro nos estados do Norte, que assim como o Brasil, não conheceu leis raciais. Lá, como aqui, a discriminação se dá a partir das praticas sociais, na seleção para uma vaga de emprego, na recusa a alugar um imóvel, entre outras. Não foram as leis raciais, já que elas não existiam no Norte, que induziram a formação de bairros negros em Nova Iorque ou Boston, e sim a precária situação econômica dos negros, que os impedia de morar em bairros melhores. Nas grandes cidades brasileiras também existem bairros de negros e bairros de brancos. Só não existe a placa.

Bebedouros segregados na Carolina do Norte em 1950

Bebedouros segregados na Carolina do Norte em 1950

É preciso averiguarmos a real/atual situação brasileira, bem diferente da norte-americana. Não só pelas histórias diferentes das duas nações, mas principalmente porque não podemos generalizar o “racismo norte-americano” ou o “racismo brasileiro”. As manifestações do racismo no Brasil variam de região para região, de estado para estado, de cidade para cidade, de classe social para classe social, entre a zona urbana e a rural, e muitos outros recortes possíveis.

Provavelmente a violência simbólica e não-simbólica contra negros motivada por racismo na Bahia, onde há uma população negra muito numerosa, seja proporcionalmente menor do que no Rio Grande do Norte, onde há poucos negros, a maioria pobres da zona urbana ou agricultores da zona rural (uma minoria mesmo, no sentido político-social da palavra). E as formas como o racismo afeta as pessoas também vai variar com a região. Não posso apresentar nenhum dado específico, só estou especulando, mas penso que não estou dizendo nenhuma besteira. O fato é que, para situações diferentes de racismo, deveria haver soluções diferentes.

Quanto à comparação com os EUA, é preciso lembrar o trabalho de Bourdieu e Wacquant, “Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista”, onde os autores apontam para a importação de modelos de ação afirmativa, de países como os EUA por países como o Brasil. Não devemos esquecer isso, para construirmos políticas antirracistas que se adéquem a nossa realidade.

Muitas pessoas defendem a adoção de cotas sociais, com toda razão, mas as cotas para quem se declara negro ou indígena tem um significado diferente. Não deixa de ser social, evidentemente, mas tem por objetivo acelerar a ascenção de mais brasileiros negros à classe média e a formação de negros em áreas onde sua presença é muito pequena ou quase insignificante, como a Medicina, a Engenharia, e tantas outras. O que aqueles que defendem as cotas pretendem é que o Brasil tenha uma classe média tão “colorida” como suas ruas. Claro que só garantir o acesso à Universidade não basta, é preciso dar condições para que o aluno continue no curso até o fim. Para isso, aprovar ajuda financeira ao estudante com dificuldades para se manter é fundamental.

Um outro problema que vejo na “colorização” das classes mais favorecidas é que ela se faz numa perspectiva que não critica a própria estrutura de poder de nossa sociedade. Há uma estrutura social, econômica, cultural e política baseada na desigualdade de grupos (sociais, raciais, seja lá o que for, o fato é que há desigualdade), e as cotas não atuam na mitigação ou erradicação dessa desigualdade, mas a mantém, só mudando a composição de cada grupo. (Não adianta colocar um mendigo no trono do príncipe; a monarquia continua existindo.)

Mas as cotas, embora mantenham a ordem social vigente, poderiam ter resultados positivos a longo prazo. Como disse acima, o menosprezo a e a baixa autoestima dos negros e pobres poderiam diminuir e os preconceitos raciais e/ou sociais também diminuiriam.

No entanto, repetindo o que disse acima, a “raça” não dificulta a entrada de alguém na Universidade, o que dificulta é sua formação. Se devemos dar uma chance a um grupo, deveria ser aos pobres que frequentam a escola pública. Acho que seria negativo criar uma situação tal em que seja possível a um branco pobre que conseguiu, por esforço próprio, tirar uma ótima nota perder a vaga para um negro rico que não estudou e tirou uma nota medíocre.

Quanto ao ensino público brasileiro, bem, é uma tragédia. Apesar das melhorias significativas apontadas pelos índices do MEC em quase todos níveis, ele vai precisar melhorar muito, mas muito mesmo, para ser considerado ruim. É lembrar que só recentemente alcançamos a universalização do acesso ao Ensino Fundamental. Hoje, segundo estatisticas do MEC, 97% das crianças dentre 6 e 12 anos estão na escola. Mas esses números não são motivo de comemoração. Metade dos estudantes brasileitos deixa a escola antes de terminar o 9º ano do Ensino Fundamental (antiga 8ª série), e só uma minoria,entre 20% e 30% conclue o Ensino Médio. Estes são os privilegiados, que apesar das dificuldades, da precariedade da escola pública (e de suas próprias condições de vida), dos professores sobrecarregados e mal pagos, podem concorrer a uma vaga no Ensino Supeior. Se a realidade fosse outra não precisaríamos estar aqui discutindo sobre cotas.

Criança sergipana trabalhando (www.jornaldacidade.net/)

Criança sergipana trabalhando (www.jornaldacidade.net/)

Pois é, ainda há muito o que melhorar. E é necessário sanar o problema da impermanência na escola, para que mais e mais crianças pobres, negras, indígenas, ciganas etc. tenham mais chances de chegar à Universidade… agora estou me dando conta de um outro problema relacionado ao acesso à Universidade: boa parte das crianças negras/pobres nem chegam a fazer o vestibular, pois nem chegam ao final do segundo grau.

Um fato que pouco se discute é que a formação fundamental formal não é um índice totalmente confiável da vocação acadêmica. Há muitos graduandos que, embora tenham tirado boas notas no vestibular, são universitários medíocres. E há aqueles que não têm condições de resolver a prova do vestibular com eficácia mas, tendo a chance, se mostram excelentes acadêmicos. Esse é um tema que devo retomar em outro post.

Esse é um tema que não se esgota. Na verdade, teria muito ainda pra escrever, mas já precisei cortar várias partes desse comentário para deixá-lo um pouco menor.

Sem problema. Sempre haverá oportunidades para pincelarmos alguma coisa sobre esse extenso tema.

Comentário de AmBar Amarelo

Thiago, sou CONTRA as cotas RACIAIS, e vou além: sou contra a identidade racial no Brasil (que não seja a brasileira).

Também sou contra a manutenção das identidades raciais. O ideal antirracista que eu defendo é a ideia de que só existe uma identidade humana. Neste sentido, vou ainda mais além de você, pois uma “identidade brasileira” não deixa de ser um tipo de identidade racial. Ainda neste caminho, sou favorável a um cosmopolitismo e um antiufanismo.

Gostaria de adicionar a discussão (por mais lenha na fogueira) que a própria idéia de “LIBERDADE-ANTE-ESCRAVISTA” é Européia (corrija-me se eu estiver errado). Tanto Europeus quanto Africanos possuíam seus próprios escravos. Porém estudos sugerem que até nos Quilombos havia escravidão entre Africanos de diferentes etnias.

Não que o senso de LIBERDADE , IGUALDADE e FRATERNIDADE seja exclusivamente europeu. Qualquer um que esteja preso terá senso de liberdade. Porém quem implantou isso no mundo foram eles!

Já que me pediu para corrigi-lo, o correto é antiescravista :P. Sim, os europeus impuseram, motivados por seus próprios interesses mercantis, o fim da comercialização de pessoas e, por tabela, o fim da escravidão. Mas isso não foi necessariamente inspirado por ideais humanistas (liberdade, igualdade, fraternidade).

Os negros ainda foram durante muito tempo considerados inferiores e com menos direitos do que os brancos (ainda há pessoas que pensam assim, nos EUA, no Brasil e muitos outros países da América). Embora estes não pudessem mais transformar aqueles em mercadorias, continuavam tendo que “aturar” sua presença.

Se hoje consideramos a escravidão como algo brutal é porque os europeus impuseram isso ao mundo (não que no desenrolar a História outra civilização não pudesse fazer isso).

Amistad (1997), de Steven Spielberg

Amistad (1997), de Steven Spielberg

Dito isso, eu pergunto: e daí se foram os europeus que impuseram o antiescravismo? Por que lembrar isso com tanta ênfase? Por que insistir em que os africanos praticavam escravidão? Por que lembrar que os quilombolas tinham escravos?

Talvez se faça isso para relativizar a acusação de que os brancos são sempre algozes e de que os negros são sempre vítimas (o que fiz na primeira parte deste texto). Mas daí eu também me pergunto: isso é tão relevante assim? Dar crédito aos brancos que desenvolveram os ideais humanistas não diminui a gravidade da escravidão de negros por brancos. Lembrar que os negros tinham escravos não diminui o sofrimento sofrido por aqueles que estiveram no cativeiro.

Enfim, essas informações só são importantes para compreendermos como se deu a História humana e para evitarmos os erros cometidos no passado. Mas o importante em relação ao racismo na atualidade é entendermos como se dão hoje as relações raciais, de preconceito étnico, de desigualdade social etc. Procurarmos formas de resolver essas desigualdades entre os seres humanos contemporâneos. Afinal, há brancos pobres que descendem de famílias nobres e não sofrem menos por causa dessa ascendência. E há negros ricos que descendem de escravos e não necessitam de ações afirmativas para viver na liberdade de seus direitos.

Quanto ao fato das relações sexuais que desencadearam a miscigenação: Será que foram apenas estupros? Então todos os mestiços do Pará são frutos de índios estuprados? CLARO QUE NÃO!

Lembremos de um ditado popular: “A pobreza aproxima as pessoas”. Agora imagine um sertanejo “português” esquecido nos desertos do nordeste, junto a ele uma negra “africana” compartilha de seu sofrimento (FOME, SEDE). Ambos não podem se apaixonar?

A grande pergunta: TODA MESTIÇAGEM BRASILEIRA FOI FRUTO DA VIOLÊNCIA?

É difícil de crer.

Você tem toda razão, AmBar. A mestiçagem não foi fruto só da violência. Aliás, duvido que a maior parte dela tenha sido gerada por meios violentos. É um exagero dizer que toda a mistura se deu pela violência sexual dos colonizadores sobre as colonizadas e escravizadas, e é exagero afirmar que as relações entre senhores brancos e escravas negras era, em larga escala, consensual.

As cotas sociais teriam o mesmo impacto positivo que as raciais, com a vantagem de não promover a identidade racial, que, ao meu ver, é um negro se achar africano e um branco se achar europeu.

Eu discordo em alguns pontos. Como expus acima, penso atualmente que as cotas sociais seriam mais vantajosas do que as raciais no acesso à Universidade.

Quanto à identidade racial, ela não se dá necessariamente com a assunção de uma identidade africana ou europeia. As identidades raciais já existem sem essas referências geográficas de origem ancestral. É só olharmos ao nosso redor e percebermos com que facilidade nós identificamos os brasileiros como “negro”, “branco”, “japa”, “alemão”, simplesmente em referência ao fenótipo e sem nem pensar em quem eram seus ancestrais  de além-mar. É uma identidade racial que muitas vezes pode não ter grandes implicações. Às vezes pode.

Repetindo o que eu disse acima, tenho um ideal cosmopolita. Ser brasileiro não é mais importante do que ser alemão ou nigeriano ou coreano ou argentino. Seres humanos não têm raízes (e nem deveriam se dividir em raças, Eduardo). Se alguém quer se considerar “africano de alma” ou “europeu de coração”, por afinidade, acho que ela tem total liberdade.

Mas (e nisso concordo em certo sentido com AmBar) a intenção de se impor uma identidade em termos de uma origem extracontinental (o que se reflete em expressões como afro-brasileiro, ítalo-brasileiro, nipo-brasileiro etc.) é justamente uma violação da liberdade individual de cada um escolher sua própria identidade, baseada em suas próprias experiências e afinidades particulares.

Quanto a dívida histórica eu pergunto: Mostrem-me os culpados!!

Negrinho da beija-flor é 80% europeu!!!! ele é 80% CULPADO!!

Todos os mestiços brancos são culpados? então a culpa é um fator aleatório.

Como já disse na primeira parte, procurar culpados é uma tarefa improfícua e irracional. Precisamos superar a mentalidade antiquada de justiça, segundo a qual uma compensação para alguém tem que implicar necessariamente na privação de outro. Acho que é possível para o Brasil conceder compensações sem precisar prejudicar alguém. Há recursos suficientes para promover uma revolução da sociedade brasileira, mas… o dinheiro se concentra nas mãos de quem governa, de quem trabalha para manter seus exorbitantes salários e, se possível, aumentá-los.

Devemos buscar o ideal de um país onde a mistura seja algo positivo e a negação à mistura seja algo terrivelmente negativo. E para que isso ocorra devemos acabar com essa mentira de identidade racial em um país mestiço.

O ideal da identidade mestiça contém um paradoxo: a mistura pressupõe que há pelo menos duas coisas diferentes que deram origem a um híbrido, ou seja, se baseia na pré-noção de que há raças e de que o mestiço é uma interseção dessas raças. O ideal que defendo é a desconstrução de qualquer conceito de raça. Portanto, acho que ainda é limitado o ideal mestiço.

Assumir a mistura e viver segundo a ideia de que somos todos mestiços seria bem melhor do que vivermos sob a égide da segregação identitária. Mas acho que seria ainda mais evoluído considerarmos que não existe mistura por que não existe diferença. Um humano de pele escura e uma humana de pele clara dão origem a um humano.

Todos os indivíduos humanos são mestiços porque são resultado do cruzamento entre dois indivíduos, e nenhum indivíduo é igual a outro. Cada um de nós é uma raça, o que nos torna todos iguais.

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Cotas raciais – parte 2

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No primeiro artigo sobre as cotas raciais, apontei questionamentos sobre a guerra discursiva entre os pró-cotas e os anticotas, tendo como mote o pronunciamento do senador Demóstenes Torres no Supremo Tribunal Federal. Antecipei que na segunda parte eu escreveria sobre minhas razões para ser um anticotas e sobre os problemas relacionados ao vestibular e à Universidade.

Porém, os comentários à primeira parte foram muito extensos e decidi que não valeria a pena respondê-los diretamente na seção específica. Ao invés disso, achei que os comentários mereciam ser respondidos como continuações ao primeiro texto, prolongando-me aos poucos nas respostas e fazendo surgir mais questionamentos, tecendo uma teia neuronial extensa sobre o tema.

Comentário de Duzão

Primeiramente, retomo o comentário de Duzão, que afirma o seguinte:

Na minha visão, está é principalmente uma tentativa de se superar a deficiência clara do ensino fundamental e médio no país, introduzindo a força pessoas de baixa renda social e sem cultura alguma em grandes faculdades. [sic]

Há pelo menos duas coisas a se dizer sobre isso:

  1. As cotas raciais provavelmente incluem mais negros de classe médiado que os de baixa renda. Não só porque aqueles tenderão a estar mais preparados, por terrem estudado em escolas particulares (imagino que um negro que tire uma nota muito ruim provavelmente não conseguirá uma cota), mas também porque muitas pessoas de baixa renda não fazem o vestibular.
  2. Muitos pobres não têm autoconfiança para passar por uma prova tãodisputada quanto o vestibular. Certa vez perguntei a um jovem negro de uma comunidade rural muito pobre se ele iria fazer o vestibular, já que naquele ano ele estava terminando o 2º grau. Ele disse que ia fazer, mas acrescentou: “Mas a gente não tem muita chance de entrar, não”. Ou seja, há uma baixa autoestima que, provavelmente, atrapalha a própria prova.

Neste segundo ponto, penso que jaz um dos problemas reais do racismo no caso do acesso à universidade. Afinal, ainda temos uma herança racista que coloca os negros num patamar inferior quanto às capacidades mentais, e muitos dos próprios negros, especialmente os pobres, tendem a acreditar nessa suposta inferioridade.

Em alguns anos, será fácil de se observar o governo se gabando de uma grande quantidade de bacharelados vindos do ensino público.

Especialmente tendo em vista que um dos principais apelos deste governo, que dificilmente será esquecido nos próximos, é o de termos um presidente semianalfabeto que se orgulha de nunca ter lido um livro.

Dentro desse pacote, o Governo consegue incluir outras milhares de discussões, que nada têm a ver com educação. A principal delas, os problemas raciais. Isso desvia o foco do que realmente devia ser discutido, a qualidade de todo o sistema educacional brasileiro, q é pior que o de governos muito mais pobres que o nosso.

Isso não quer dizer que devemos esquecer o racismo existente em nosso país. Misturar os assuntos confunde o público, aumenta o atrito e não leva nada a lugar nenhum.

Até que há uma relação entre ensino fundamental e racismo. Quantos casos já não ouvimos de professoras do primário ofendendo alunos com depreciações à cor de sua pele ou à textura de seus cabelos? Quanto ainda se representam, inocentemente, ideias racistas nos livros escolares?

Penso que a própria escola deveria reassumir o papel de educar cidadãos com poder de reflexão, e que as crianças deveriam ser instigadas desde cedo a enxergar a humanidade como um só, entendendo desde cedo que há diferenças que são superficiais e não implicam em inferioridade nem superioridade.

Dessa forma, considero importante misturar os assuntos, sim, mas de forma crítica.

Comentário de Gilson

Gilson Rodrigues, a cujo texto sobre cotas raciais eu fiz referência na primeira parte, também comentou, deixando pontos importantes a ser discutidos.

Senti-me, como deveria ser, provocado pelos argumentos que listou sobre os defensores das cotas… Falastes de uma tendência a diluição da identidades racionais através de expressões como as que referi anteriormente – moreninho – Bem, o complicador ai nao está na relação semantica e sim no peso simbólico… Pelo menos em minha experiencia de quase 17 anos em Natal… o uso de tal expressão tem mt mais a ver com “um politicamente correto”, como se fosse mais educado usar “moreninho” do que preto ou negro… Qts vezes chegaram para mim ou meu pai (com a pele bem mais escura que a minha) e ao ouvirem-nos afirmando que somos negros, ou chamando um ao outro de NEGÃO… Dizem: “Voces nao são negros… Olha a cor da sua pele (para mim)” ou “Seus lábios e sei nariza são afilados” (para o meu velho)… O que é isso? Diluição? Creio q não…

Não me referi exatamente a uma diluição, mas a uma multiplicação de tipos raciais. Não acho que o fato de as pessoas se negarem a considerar alguém como negro seja necessariamente um eufemismo. A situação relatada por Gilson mostra um caso específico: duas pessoas que se consideram negros e cuja identidade racial autoatribuída se choca com uma identidade heteroatribuída. Talvez, se Gilson tivesse uma pele mais escura e seu pai tivesse nariz e lábios mais grossos, as mesmas pessoas que disseram que eles não são negros tivessem concordado com o termo que pai e filho usam, “negão”.

Ademais, retomando a questão da multiplicação de tipos raciais, eu procurei dizer que ela implica em diversos tipos de preconceito. Os tipos mestiços que não são considerados negros nem brancos sofrem uma discriminação (eu não disse que não a sofrem) diferente daquela sofrida por indivíduos considerados negros. Já os índios sofrem um outro tipo de discriminação, e por aí vai. Isso deveria ser levado em conta nas propostas de políticas afirmativas, para não se proporem soluções baseadas num quadro irreal.

E ainda há as diferenças de discriminação tendo em vista o status social. Por mais que um rico negro seja de vez em quando alvo de algum constrangimento, ele não tem as mesmas dificuldades de um pobre negro. As roupas, a linguagem corporal, a forma de falar, enfim, o habitus, exercem uma grande influência no tratamento que uma pessoa recebe das outras.

Se eu caísse (ou cair) numa classificação racial, provavelmente serei considerado branco. Apesar disso, em minha certidão de nascimento consta “pele morena”, e já disseram que sou mulato, já disseram que tenho cara de árabe, cara de judeu e cara de francês.

E também já fui muitas vezes chamado de “negão” em tratamentos informais e carinhosos por parte de amigos. Mas meus irmão e irmã são mais mulatos do que eu; enquanto Diego, quando menorzinho, era chamado de “nego lindo” por meu pai, Naninha é chamada de “moreninha”, mesmo que ambos tenham a mesma tonalidade de pele. Já o filho de Diego, que tem a tez branca, herdou do pai o mesmo apelido de “nego lindo”, talvez por ter as feições muito parecidas com a de seu progenitor.

Não há nada homogêneo no Brasil quanto às classificações raciais e suas correspondentes (ou não) discriminações. Em cada região temos “modelos” diferentes de identidade racial e da composição populacional dessas identidades, de discriminação racial etc. Esse seria um bom motivo, bem melhor do que a suposta brandura do racismo brasileiro, para se contrapor a uma discriminação reversa que reduza a população em apenas 2 tipos raciais com uma suposta inequívoca relação de dominante/dominado.

Acho bem complicado a postura de militantes dos movimentos negros que se circunscrevem a discussão, limitando-a, a certa religião (de matiz afro, o que faz com que pessoas que se identifiquem como negras, mas sigam uma “crença de branco” sejam ignoradas, isto é, alvo de preconceitos…), ou tenhe q se vestir com roupas que remtam a um mítico passado africano… Uso dreads (aqueles cabelos rasta)… Claro q isto vai gerar certo impacto e incomodo, mas n estou preocupado simplesmente em afirmar isto como coisa de negro… Basta ver qts “rastas” brancos (mestiços? )vc encontra… (A maioria dos que conheço, por sinal)… Apenas, nas transformações da vida e na reinvenção do meu cotidiano… dentro de determinada trajetória que é social, passei a achar este tipo de cabelo mais bonito esteticamente… Claro q com isso contrario uma antiga “verdade” de que negro por ter “cabelo ruim” nao pode deixá-lo crescer… Incomoda? Sim? Q bom!!!

Com esse tipo de discurso inflamado por parte dos militantes dos MOVIMENTOS NEGROS findam por reproduzir um preconceito… e retomando a citação feita por Thiago… acabaremos, nesse caminho, todos cegos, aprofundando-do-nos mais ainda no “estado de guerra” hobbesiano… do qual tentamos sair, mas nunca conseguimos totalmente…

Há muitos casos desse tipo, e não é uma tendência nova nem é exclusiva do Brasil. Desde que as ideias de Johann Gottfried von Herder se espalharam, em todo lugar vêm aparecendo “ressurgimentos” étnicos. Esse tipo de imposição de aspectos identitários vai de encontro a um dos valores modernos que considero dos mais importantes: a liberdade individual. É pedir para esquecer tudo o que surgiu de bom da mistura cultural, até qualquer coisa que seja considerada positiva por um dado indivíduo.

Isso me lembra o filme A Outra História Americana, em que o líder neonazista proíbe seus amigos de fumar maconha, por ser “coisa de negro”. Fazer esse tipo de comparação entre Movimento Negro e Nazismo sempre incomoda, mas não há como negar que se trata da mesma tentativa de manutenção de uma suposta pureza ou autenticidade de uma suposta raça que ecoa de um suposto passado latente e inequívoco, uma cultura que parece estar nos genes.

Continuo concordando com o fato de que a solução estaria na melhoria profunda da educação pública, muito longe de ser deficitária… Se assim o fosse estaria mt melhor… Porém, como dizia Maquiavel… estou falando da “realidade efetiva das coisas”, da urgencia imposta pela sociedade capitalista, que mesmo n gostando, temos de nos adaptar, em alguma medida… “Facilitar” a entrada na universidade teria esse caráter emergencial gritante…

Por mais que possamos levantar críticas pertinentes ao vestibular (e farei isso num texto vindouro), ele é uma forma muito democrática de acesso à Universidade. Através dele, cria-se uma eleição baseada na capacidade de resolver alguns problemas. Essa capacidade só depende de um preparo intelectual que não tem nada a ver com a cor da pele. É claro que os pobres, em grande parte negros, não têm tantas chances de passar no vestibular sem uma “facilitação”, e as cotas seriam um meio de compensar essa deficiência. Mas, se o raciocínio seguir por aí, seria melhor adotar cotas sociais, já que o problema não é o fenótipo, e sim a qualidade do ensino gratuito.

Notemos um paradoxo: por um lado, os cotistas recebem uma ajuda para compensar uma deficiência; no entanto, o consequente maior número de negros com diplomas pode ajudar a erradicar a ideia de que pessoas negras são menos capazes, e isso poderia melhorar a autoestima da população que sofre preconceito racial (essa poderia ser uma vantagem das cotas, mas ainda acho negativa a classificação racial imposta a toda a população que essa política implicaria).

Mas acho que essa possível vantagem teria muito mais sentido numa seleção de candidatos na qual a “raça” já fosse critério de exclusão. Se os negros fossem discriminados diretamente no vestibular, sendo excluídos por causa de sua “raça”, as cotas seriam uma forma de obrigar a instituição a rever seus critérios: “Se vocês não pararem de excluir os negros, vão ter que aceitá-los na marra”. Mas felizmente a “raça” não é (ou não era) critério de seleção, e as cotas criariam esse critério, tornariam o vestibular racista.

Gritante tb, como já disse em meu blog, é a força do “arbitrário cultural” sobre a auto-estima do preto pobre… Ah, e se a quantidade de dinheiro faz com que o branco pobre sofra mais preconceitos que o negro rico… a força do preconceito contra este último se reafirma, não? Enfim, n tenho respostas fechadas, e n quero mt perto de mim quem as tenha… POr isso, quero proximidade com vc, meu caro… alguem que aprofunda as perguntas… provocando… sempre… Abraços…

Como coloquei acima, não é o simplesmente o dinheiro que nos faz ter menos preconceitos com pessoas ricas. São suas roupas (consideradas mais condizentes com o ideal de civilidade), seus trejeitos (considerados mais finos), sua fala (considerada mais culta). Isso tudo vem de um habitus, que aqueles pertencentes a uma certa “classe social” aprendem por ser criados e/ou conviver em determinado meio social. Tanto é assim que até um pobre que consiga adquirir uma formação erudita pode ser mais respeitado nas interações com outras pessoas do que alguém que esteja desprovido dela. Já vi isso acontecer. E um pobre qualquer, quando “bem vestido”, tem grande chance de ser bem tratado em público.

Mas você tem razão sobre o preconceito racial contra negros ricos. Pensando bem, essa questão é tão complicada que seriam necessárias muitas pesquisas para averiguarmos como ocorrem os preconceitos no cotidiano. Esses preconceitos são uma mistura de muitos elementos, principalmente o preconceito contra pessoas de pele escura e o preconceito contra pobres. Chamam atenção os casos em que uma pessoa negra da elite é “confundida”com uma pessoa pobre e é então maltratada. Como se maltratar um pobre fosse mais legítimo do que maltratar um negro.

O desrespeito contra pobres é tão grande que alguns jovens acham que podem justificar o ato de incendiar um indivíduo que dormia numa praça em Brasília por pensarem que se tratava de um mendigo.

Enfim, à medida que escrevo, surgem mais e mais questionamentos. Tudo vai ficando mais confuso, mas prevejo que o debate ajudar a organizar as ideias rumo a uma conclusão (temporária, espero, e que vai demorar algumas postagens para aparecer).

Aos poucos estou encontrando bons argumentos para me posicionar a favor de uma solução emergencial, contato que sejam em condições bem específicas e sejam bem pensadas. Acho que implantar cotas raciais nos moldes que estão sendo propostos é uma medida precipitada e mais fácil do que a solução profilática, que é o sempre caro e relegado ensino público.

Na próxima parte, continuarei a comentar os comentários postados na primeira. Continuem contribuindo com o debate, a Teia Neuronial não pode parar de ser tecida.

[Continua…]

Distrito 9 [Resenha]

Padrão

Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Imagine uma gigantesca nave espacial parada no ar sobre sua cidade. Nada sai lá de dentro durante algum tempo e não sabemos o que a nave trouxe. As Forças Armadas, após algum período de ansiedade geral, decidem penetrar a nave e descobre uma população alienígena, com uma aparência mais ou menos de artrópodes bípedes, desnutrida e desamparada.

O que seria mais adequado fazermos com esses extraterrestres que pedem asilo na Terra? Onde devemos alocá-los? O que podemos lhes oferecer? O que eles podem nos dar em troca? Devemos integrá-los à nossa sociedade? Devemos tratá-los como humanos, como não-humanos com alma ou como animais sem alma (animais sem alma, agora eu me toco, é uma contradição; alma vem do latim: anima)?

O filme Distrito 9, de Neill Blomkamp, produzido por Peter Jackson, assume que uma nave extraterrestre pairou sobre Joanesburgo, capital da África do Sul, e apresenta essa história na forma de um semidocumentário. Nele vemos que as Forças Armadas decidiram abrir a nave e encontraram alienígenas desnutridos e desamparados em busca de asilo.

Não sabemos o que ocorreu com eles nem porque vieram até a Terra; especula-se que seus líderes morreram ou que os recursos naturais de seu planeta-natal se exauriram. O fato é que: ei-los, não têm para onde ir.

Começam os conflitos. Os não-humanos, apelidados de “camarões” pelos humanos, são alocados numa região inabitada do município, próxima ao centro urbano, chamada de Distrito 9. Assim como os ex-escravos negros construíram o que hoje são as favelas, os “camarões” passam a viver uma vida degenerada, habitações apertadas envoltas por lixo, convívio com humanos da Nigéria que traficam armas e drogas. O resultado é que o Distrito 9 se tornou um depósito de “camarões” e de lixo.

Aliás, mais do que um depósito, um criadouro. A população não-humana vai crescendo e os “camarões”, segregados da população humana, começam a ser vistos como um perigo. As autoridades decidem realocar os “camarões” e autorizam a MNU (Multinational United), uma empresa militar privada, a empreender uma ação de despejo liderada pelo funcionário Wikus van der Merwe. Os residentes do Distrito 9 deverão ser realojados no Distrito 10, fora das imediações de Joanesburgo.

Por acidente, Wikus é infectado por uma substância que o faz passar por uma gradativa metamorfose, tornando-o genética e fenotipicamente um híbrido de humano e alienígena. Ele se torna cobaia de testes da MNU e depois foragido, nem humano nem “camarão”. Estabelece uma relação ambígua com Christopher, um alienígena que está tentando fugir da Terra. No final, Wikus ajuda Christopher a escapar na nave, em troca da promessa de trazer, em alguns anos, a cura para sua metamorfose.

O navio negreiro e o banzo interplanetário

Navio Negreiro, de Johann Moritz Rugendas

Navio Negreiro, de Johann Moritz Rugendas

A nave espacial repleta de extraterrestres desamparados pode ser entendida como uma metáfora de um navio negreiro ou uma embarcação repleta de imigrantes. A nave simboliza o degredo e nos faz perguntar qual é a origem desse povo degenerado que se encontra sem rumo no espaço, sem líderes e sem saber para onde ir.

Podemos inferir, pelo conjunto de analogias com a relação colonialista e escravocrata da qual a África foi vítima, que os alienígenas que pairam no céu de Joanesburgo são uma carga de escravos, e que a tripulação da nave morreu de alguma forma, talvez assassinada pelos “camarões”.

Entretanto, os equipamentos que eles trazem só podem ser usados por eles, ou seja, foram construídos para sua espécie e provavelmente pela sua espécie. Se eles era escravos, os escravizadores eram muito provavelmente outros “camarões”. Os especialistas entrevistados no “documentário” dizem que os “camarões” encontrados na nave eram operários incapazes de tomar decisões.

Nessa condição, semelhante à dos negros trazidos em navios para a América, seria muito difícil encontrar para eles um abrigo melhor do que uma favela. Não só porque os extraterrestres provocam medo e ninguém sabe que perigo eles podem representar, mas porque a humanidade não se preparou para ampliar os Direitos Humanos ao nível interplanetário.

Esse é o ponto em que a história pode se tornar polêmica. O fato de serem criaturas conscientes (sentient beings) não deveria lhes conceder os mesmos direitos que aqueles concedidos aos humanos?

Humanos não-humanos

Quando as nações  europeias expandiram seu domínio ao Leste, construíram um conjunto de representações racistas (o Orientalismo, segundo Edward W. Said; leia aqui minha resenha do seu livro sobre este tema) que rebaixaram os humanos orientais a uma condição menos evoluída. Para muitos, sua “situação” era irreparável: árabes, indianos e judeus sempre seriam dependentes do domínio do europeu civilizado.

Quando navegantes europeus chegaram à África ocidental e à América, algo semelhante se constituiu. As biologias e as culturas de ameríndios e africanos foram consideradas sub-humanas pela ideologia imperialista, e mais tarde se desenvolveria o racismo científico que naturalizaria a inferioridade e a não-humanidade de povos não-europeus.

O próximo capítulo dessa história, e que se aproxima mais da trama de Distrito 9, é o processo de imigração, especialmente de imigrantes considerados de “raças” diferentes, e que ainda são vistos com o mesmo racismo imperialista e colonialista. É nesse contexto que se desenvolve a xenofobia na forma como a vulgarizamos hoje, ou seja, o medo dos estrangeiros.

Não-humanos humanos

Atualmente, o processo de mundialização da história da humanidade já vislumbra uma nova ética planetária, ainda não colocada plenamente em prática, mas em princípio já esboçada, segundo a qual todos os seres humanos têm os mesmos direitos básicos. Há também uma tendência a ampliar esses direitos aos animais não-humanos (um exemplo pode ser visto no documentário Terráqueos (Earthlings), sobre o qual você pode saber mais neste link).

Como já escrevi em algum lugar desta Teia, esses direitos deverão se expandir quando os humanos tiverem contato e começarem relações com espécies alienígenas. Assim como a crença nas diferenças fundamentais entre “raças” humanas (que justificavam conflitos violentos) foi revista, qualquer crença que justifique desigualdades baseadas nas diferenças interespécies deverá ser superada tanto por parte dos humanos quanto de qualquer outro povo extraterrestre.

Brasão da Federação Unida de Planetas

Brasão da Federação Unida de Planetas, do universo de Jornada nas Estrelas

Essa utopia é prevista em obras como a franquia Jornada nas Estrelas, onde se concebe a Federação Unida de Planetas, que rege vários planetas e vários povos que entre si são alienígenas, tanto biológica como culturalmente. Na série Babylon 5, também há a ideia de que os vários povos interplanetários devem tratar uns aos outros como detentores dos mesmos direitos básicos.

A situação criada em Joanesburgo e no Distrito 9 dificultou grandemente a aplicação de qualquer ideal universalista pós-humanista. Os alienígenas estavam em situação tão precária e doente que passaram a viver no lixo, viciados em ração de gato, traficando armas hi-tech e sem controle populacional.

Ou seja, sem condições de reconstruir uma vida organizada, os “camarões” passam a ser monstros ou, no mínimo, animais, uma praga com que ninguém sabe como lidar. Os Direitos Humanos, portanto, não têm condições de evoluir nessas circunstâncias. Talvez, se nós um dia tivermos condições de acolher um povo desamparado com as melhores condições para sua recuperação, poderemos começar a revisar os Direitos Humanos e constituir os Direitos Universalistas.

O híbrido no limbo

Wikus van der Merwe é um personagem que à primeira vista dá a impressão de poder ser resumido numa palavra: pateta. É arrogante, simplório, preconceituoso e bobo. Porém, enquanto figura central da narrativa, ele se revela e revela a complexidade humana, em seus sentimentos e ações, diante do inusitado, diante do outro e do diferente.

A operação de despejo ocorre através de duas forças antagônicas e complementares: a abordagem pseudoconciliatória de Wikus e a abordagem destrutiva dos soldados que o acompanham. Wikus arrefece os ânimos dos militares (ansiosos para descarregar suas tensões e balas nos “camarões” cuja existência é uma afronta a sua xenofobia) enquanto estes asseguram a eficiência da ação e a segurança de Wikus.

A complexidade subjetiva de sua ação de despejo se revela primeiramente quando ele não consegue convencer um dos alienígenas, Christopher, a deixar sua casa, pois este, inadvertidamente, sabe ler o mandado de despejo e encontra uma contradição. Para se safar, Wikus apela para os sentimentos de Christopher, ameaçando levar embora seu filho.

Em segundo lugar, Wikus se vê sofrendo uma mutação que transforma seu corpo, primeiro um dos braços, no de um “camarão”. Ele é forçado a testar uma arma alienígena, que só funciona quando em contato com um “camarão”, e a matar um não-humano, o que ele recusa insistentemente.

Ao fugir do cativeiro, Wikus passa a protagonizar um dos principais temas do filme: o dilema do híbrido. Ele se torna pária entre os humanos, e aquele que deveria ter salvo Joanesburgo da praga dos “camarões” se encontra no caminho não só de se tornar um destes como de minar a operação de despejo. Isso por que ele passa a trabalhar com um dos alienígenas, em busca de uma troca de favores: Christopher quer voltar para casa e Wikus quer uma cura para a transformação.

Mas é graças à transformação que Wikus consegue salvar a própria pele e a de seu amigo. Para todos os efeitos, Wikus passa a ser um “camarão”, mesmo que neste ponto do filme ele ainda seja bem reconhecível como humano. Sua esposa não o quer mais (primeiro por insistência do pai, mas depois pelo escândalo que os acontecimentos causaram) e ele perde toda os laços com Joanesburgo.

Quando o “branco” se misturou com um “negro” (ou um “camarão”), a ideologia segregacionista da colonização anglo-saxã não cogitou a identidade mestiça. O resultado da mistura é que a parte “branca” foi sujada pela parte “negra”. Como nos EUA, em que uma gota de sangue negro é suficiente para tornar um indivíduo “negro”, Wikus se tornou um “camarão” ao entrar em contato com uma gota do elixir preto de Christopher.

(O dilema do híbrido

Spock, Worf e Arwen

Esse problema trazido pelo ineditismo da identidade híbrida aparece em outras histórias em que a mistura é tematizada. Spock é exemplar, pois, por mais claro que seja, para ele e para os que o rodeiam, o fato de que sua mãe é humana e seu pai é vulcano, ele insistentemente declara sua identidade vulcana, e é muitas vezes questionado sobre essa identidade. Ele é exortado pelo pai, em Star Trek (2009), a escolher entre sua natureza vulcana e humana, e não a assumir uma terceira opção, ou seja, a de que ele é um mestiço.

Ainda no universo de Jornada nas Estrelas, Worf nasceu klingon mas foi criado por humanos. Embora tivesse pouquíssimo contato com outros klingons, ele insistiu que os pais só lhe fizessem comida de sua cultura-natal, e foi muito exigente consigo mesmo quanto à manutenção da tradição de seus ancestrais biológicos e não a dos seus pais adotivos. “I’m a Klingon” é uma expressão que ele repete em muitos momentos da série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. O encontro de culturas poderia ter feito nascer uma mentalidade amálgama em Worf, mas ele parece não ter herdado nada dos pais humanos.

Na Terra-Média criada por J. R. R. Tolkien, várias raças se encontram e se misturam. Arwen, por exemplo, é uma meio-elfa, resultado de uma genealogia em que se encontram elfos e humanos. Mas ela é considerada elfa, e portanto imortal, durante quase toda a história de sua vida, até que decide se tornar mortal (humana) por amor ao seu marido, Aragorn, que é humano. Ela não poderia ser um híbrido (como aliás existe no universo do RPG Dungeons & Dragons), com características de ambas as ascendências?

(Pretendo escrever em breve um post mais elaborado sobre este tema.))

O herói

Despretensiosamente, Wikus se tornou um herói para os “camarões”, e talvez sua metamorfose seja considerada uma benção pelos não-humanos. O fato é que, com o tempo, ele completou essa metamorfose e se tornou fisicamente um “camarão”, vivendo no lixo do Distrito 10, à espera do retorno de Christopher.

Porém, fica implícito que a promessa de Christopher de trazer uma cura pode ser uma mentira. De certa forma, Wikus só foi importante para que se abrisse a oportunidade de os “camarões” fugirem e voltarem para casa. Ele é o Judas sem cuja traição Cristo(pher) não poderia ter cumprido sua promessa (talvez a analogia religiosa tenha um certo apelo nos espectadores).

No entanto, é bem provável que Wikus não tenha mais perspectiva de retornar à humanidade. Ele se tornou um anátema em Joanesburgo, por muitos é tido como morto (para sua ex-epossa, ele é um fantasma que deixa flores de metal na porta de sua casa).

Se Christopher retornar com mais não-humanos, possivelmente tentará resgatar os “camarões” que ficaram (e que se multiplicam velozmente) e é bem provável que ocorra um conflito violento com os humanos. Neste conflito, só haverá duas opções razoáveis para Wikus: abster-se ou ficar do lado dos alienígenas. Se a oportunidade de ajudar os humanos surgir (baseada na larga experiência de como vivem e pensam os “camarões”), ele não terá nada a ganhar.

Um cinema híbrido

Distrito 9 me causou sentimentos ambíguos. Se por um lado suscitou uma reflexão interessante (exposta acima) e se inicia de forma criativa, como um documentário realístico, passa depois a conter elementos de ação heroicista e belicista. Se em alguns momentos aborda os temas de modo crítico, em outros cai no apelo emotivo.

No entanto, essa mistura de cinema sul-africano com Hollywood gerou uma obra multifacetada, que pode ser admirada de várias formas e gerar diversas interpretações e apreciações. A introdução do filme cria uma tensão muito grande e uma expectativa de tragédia iminente que, se não fosse contornada pela ação da segunda parte da história, a faria terminar como Dançando no Escuro de Lars von Trier. Pensando  bem, o final de Wikus, transformado em alienígena, é trágico.

Essa mesma ação, que se opõe à primeira parte, contribui para manter a tensão e o espectador na cadeira. Neste aspecto, o cineasta foi bem-sucedido, criando uma obra que prende a atenção até o fim e proporciona a oportunidade de não nos perdermos enquanto acompanhamos uma trajetória repleta de elementos que nos levam à reflexão sobre humanidade, Direitos Humanos e Universalismo.