Estupro – violência hierárquica e institucionalizada

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A cultura do estupro se constitui a partir de discursos que banalizam e naturalizam a violência contra a mulher. Esta vem sendo perpetuada a partir da reprodução de determinadas práticas sociais, ilustrando, assim, o cenário de ampla misoginia em que vivemos.

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O parto, a mídia, as pessoas e o movimento

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Mídia: a parte de uma visão.

A forma como a grande mídia vem tratando o assunto “parto e nascimento” e a forma como as pessoas vêm interpretando as questões sem o menor discernimento tem me incomodado um pouco. Não só por ser mãe e sensível às lutas pelos direitos da mulher, mas também por ser jornalista e estar dentro da chamada tal mídia. É impressionante como as pessoas aceitam tudo o que é falado sem checarem os assuntos e confrontarem opiniões e evidências. Elas acabam por fazer suas conclusões precipitadas sem o menor respaldo, baseadas, é claro, na visão de outrém.

Para quem (ainda) não sabe, o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro se sentiu no direito de proibir que médicos acompanhem partos domiciliares ou deem retaguarda para aquelas mulheres que precisam de remoção de parto em casa para hospital. As resoluções publicadas dão conta ainda da proibição de acompanhantes profissionais (doulas, obstetrizes e parteiras) em ambientes hospitalares.

Então, vamos lá. Vamos desenhar para quem ainda não entendeu: NÃO EXISTE UMA PROIBIÇÃO AO PARTO EM CASA. Existe a punição para médicos que aceitarem fazer parte dessas equipes de assistência domiciliar ao nascimento.

Quem quiser ler as resoluções na íntegra, basta acessar aqui:

http://www.cremerj.org.br/legislacao/detalhes.php?id=714&item=1

http://www.cremerj.org.br/legislacao/detalhes.php?id=715&item=1

Acontece que os veículos de comunicação têm noticiado que o parto em casa está proibido e que as mulheres têm protestado contra essa decisão. Não, não é isso. A manifestação das mulheres é contra a decisão do Cremerj, que, em outras palavras, cerceia a liberdade de escolha daquela mulher que quer ter uma acompanhante como uma doula, obstetriz ou parteira EM UM HOSPITAL. E ainda retalia (sim, a palavra aqui é retaliação) aquela que decidir por ter seu parto em casa, punindo o médico que atender a alguma que precisar de remoção para hospital. Isso, para mim, se configura como “negar assistência médica”, ou não? A resolução está clara nesse sentido, embora eles agora estejam se contradizendo ao afirmar que nenhuma mulher deixará de ser atendida em hospital (mas não é bem isso que os próprios estão divulgando..)

E ainda fere o próprio Código de Ética Médica que fala do respeito à autonomia. “Capítulo I, inciso XXI – No processo de tomada de decisões profissionais, de acordo com seus ditames de consciência e as previsões legais, o médico aceitará as escolhas de seus pacientes, relativas aos procedimentos diagnósticos e terapêuticos por eles expressos, desde que adequadas ao caso e cientificamente reconhecidas”.

Ontem (23/07) e hoje (24/07) alguns jornais televisivos, antes de falarem na decisão do Cremerj, mostraram a situação caótica de um hospital de Maceió, em que mulheres esperavam ser atendidas jogadas em corredores em trabalho de parto, parindo ou já com seus bebês.

A demonstração de que hospitais não são exatamente sinônimo de segurança no Brasil.

Achei fantástico por um lado. Eles mostraram que os médicos e o sistema de saúde não têm dado conta da demanda e essas mulheres são maltratadas e violadas em seus direitos humanos, sexuais e reprodutivos das mais variadas formas. Logo depois, vinha matéria do Cremerj “suplicando” que as mulheres não queiram parir em suas casas.

Há duas questões diferentes aqui que quem não está dentro da discussão pode custar a perceber.

A primeira é o fato de que o nosso sistema de saúde é sobrecarregado e que nossos profissionais, em sua maioria, não sabem (e nem podem, às vezes) lidar com essa demanda crescente. Então essa “demanda”, que nada mais é do que seres humanos precisando de assistência e querendo trazer seus filhos ao mundo de uma forma digna, acaba se submetendo a uma série de situações que vão desde piadinhas morais até sequentes e agressivos exames de toque, medicação desnecessária que prejudica a evolução natural do parto e traz ainda mais dor e, muito comumente, fazendo com que as mulheres não dilatem, não contraiam, enfim, não consigam ou “não sejam capazes” de parir seus rebentos. Isso, claro, sem falar na mutilação desnecessária das episiotomias de rotina (aquele cortezinho lá na vagina para aumentar a passagem). Tudo para facilitar o procedimento para quem está atendendo e não para quem está sendo atendido.

Não se iludam: nada ali está levando em consideração o que é melhor para a mulher ou o bebê. E em maternidades privadas não é muito diferente. A diferença em relação aos hospitais privados é que, nesses, geralmente as cesáreas já estão previamente agendadas sob as justificativas mais pífias possíveis, que já foram diversas e comprovadas vezes derrubadas pelos estudos mais recentes na área.

A segunda questão é: os médicos estão exigindo um espaço que eles mesmos não têm dado conta de abarcar. E esse tipo de decisão arbitrária faz cair por terra toda a política de humanização que o próprio sistema de saúde tem, a duras penas, tentado colocar em prática através de políticas públicas como a Rede Cegonha. O próprio Ministério da Saúde reconhece a importância de profissionais como doulas, obstetrizes, enfermeiras obstetras e parteiras nesse processo.

DoulaA participação de obstetrizes (profissionais formadas em curso superior de Obstetrícia) e doulas (acompanhantes profissionais de parto, responsáveis pelo conforto físico e emocional da parturiente durante o pré-parto, nascimento e pós-parto) integra o modelo de assistência obstétrica humanizado e centrado na mulher e tem demonstrado resultados até superiores ao esperado. De acordo com a base de dados em saúde Biblioteca Cochrane, em uma assistência promovida por obstetrizes há maiores chances de partos normais espontâneos e sem anestesia, além de maior sensação de controle durante o nascimento do bebê e mais facilidade para dar início ao aleitamento materno. Em relação às doulas, 21 ensaios clínicos com mais de 15 mil mulheres mostraram que aquelas que receberam esse tipo de suporte relataram maior satisfação com a experiência do parto, tiveram menor duração do trabalho de parto e menor risco de cesariana, entre outras vantagens.

Resumindo: essas profissionais diminuem as intercorrências em um trabalho de parto que possam levar uma mulher a precisar de uma cirurgia. Entenderam onde está o x da questão? O Brasil ocupa a primeira colocação mundial em realização de cesarianas. As taxas desse tipo de cirurgia chegam a 52%, superando os 80% em hospitais privados e em alguns chegando a ultrapassar os 90%, em grande parte, sem indicação clínica – quando o máximo recomendado pela OMS é de 15%.

Parto hospitalar humanizado – A mulher como protagonista.

Passei por quatro ou cinco obstetras quando estive grávida e, quando demonstrava que estava estudando o assunto, eles acabavam assumindo que davam preferência às cesáreas porque eram mal remunerados pelos planos de saúde por cada parto e valia mais à pena fazer 15 cesáreas por dia do que ficar esperando uma mulher parir uma noite ou um dia inteiro (e tem mulher que leva mais tempo que isso). Ou seja: parir não combina com um sistema de saúde mercantilizado e inchado como o nosso. E ainda querem proibir parteiras e enfermeiras obstétricas de atuarem, sendo que elas são, sim, uma mão na roda para o próprio sistema continuar funcionando?

Aí voltamos à questão: as mulheres querem parir em casa? A maioria NÃO. Parir em casa é para todo mundo? Também não. Mas uma coisa todas essas mulheres têm em comum: todas querem respeito. Respeito aos seus corpos, respeito ao seu bebê, respeito ao seu tempo e, sobretudo, respeito ao seu direito de escolha. Até mesmo se essa escolha for por uma cirurgia, contanto que ela esteja sob o poder de avaliar todos os reais riscos conflitando o processo natural com o cirúrgico e, mesmo assim, acredite que essa seja a escolha mais adequada para ela. O que não dá é para ficar passivas, “pacientes”, “mãezinhas”, à mercê da escolha de um Conselho, né? Aliás, como diria minha avó, se Conselho fosse bom… rs

Cesariana – A equipe médica como protagonista.

Nós é que temos que protagonizar a nossa história. A manifestação pela humanização do parto e nascimento é um protesto de mulheres que estão em busca da sua liberdade em todas as instâncias. Liberdade de escolha. A busca por segurança é o que todas essas causas têm em comum. Nós queremos nos sentir seguras, independentemente do local. Queremos ter o PODER e estarmos emPODERadas para fazer nossas escolhas baseadas em evidências científicas e não em ludibriações e terrorismos de cordões assassinos ou corpos defeituosos que não dilatam. Queremos que os profissionais possam nos mostrar todos os caminhos e falar dos reais riscos. Que eles assumam e falem abertamente que há mortalidade e morbidade materna e perinatal em hospitais, e que as estatísticas mostram, inclusive – pasmem – que elas são ligeiramente maior em hospitais, onde estamos cercadas de títulos e aparelhos tecnológicos.

(Um grande estudo holandês publicado em 2011 analisando quase 680 mil mulheres que tiveram a chance de escolher entre parto domiciliar ou hospitalar evidenciou taxas semelhantes de mortalidade perinatal entre os dois tipos de parto – 0,15% nos partos feitos em casa e 0,18% nos partos feitos no hospital. A conclusão foi que um parto domiciliar planejado não aumenta os riscos de mortalidade e morbidade perinatal grave entre mulheres de baixo risco, desde que o sistema de saúde facilite essa opção através da disponibilidade de parteiras treinadas e um bom sistema de referência e transporte.)

Para aquelas mulheres que sempre se sentirão mais seguras em hospitais, é fundamental que o sistema de saúde garanta essa humanização, embora a maioria nem entenda o real significado de humanizar. Aliás, convenhamos, é lamentável termos que falar em “humanizar o atendimento a seres humanos”, quando isso deveria ser uma redundância. Mas, infelizmente, é assim que fica claro. É sermos tratadas como gente e não como número. Basta da mercantilização dos nossos corpos.

Queremos a garantia de que aquela senhora lá do interior tenha a opção de estar na casa dela bem assistida ou de estar em um hospital decente na cidade dela. Ou garantir àquela mulher da cidade grande que tenha seu filho em casa se ela assim quiser. Por que não?  Não sejamos simplistas ou limitados, existem opções e essas opções precisam ser perpetuadas e garantidas a todas – pobres, ricas, esclarecidas ou desavisadas. Hospital, domicílio, casa de parto, água, cama, de cócoras, de quatro, deitada. Médicos deveriam estar ali para ajudar e não para impor. Deveriam saber trabalhar em uma equipe multidisciplinar. Deveriam entender, de uma vez por todas, que o parto é nosso e nós o protagonizamos. E agir quando necessário, para o que eles realmente aprenderam a tratar: DOENÇAS. E gravidez não é doença – não para a maioria dos casos.

A saber, nosso movimento quer:

  • Que a Mulher tenha o direito de escolher como, com quem e onde deve parir;
  • O cumprimento da Lei 11.108, de abril de 2005, que garante que a mulher tenha preservado o direito ao acompanhante que ela desejar na sala de Parto;
  • Que a mulher possa ter o direito de acompanhamento de uma Doula em seu trabalho de parto e parto;
  • Que a mulher, sendo gestante de baixo risco, tenha o direito de optar por um parto domiciliar planejado e seguro, com equipe médica em retaguarda caso necessite ou deseje assistência hospitalar durante o Trabalho de Parto;
  • Que a mulher tenha o direito de se movimentar livremente para encontrar as posições mais apropriadas e confortáveis durante seu trabalho de parto e parto;
  • Que a mulher possa ter acesso a metodos naturais de alívio de dor durante o trabalho de parto, que consistem em: massagens, banho quente, compressa, etc;
  • Um basta em relação à Violência Obstétrica e intervenções desnecessárias que consistem em: comentários agressivos, direcionamento de puxos, exames de toque, episiotomia, litotomia, etc;
  • Que haja fiscalização das altas taxas de cesáreas nas maternidades brasileiras e que as ações cabíveis sejam tomadas no sentido de reduzir essas taxas;
  • Que haja Humanização da Assistência aos Recém-Nascidos, contra as intervenções de rotina;
  • Que a mulher possa optar pelo parto domiciliar tenha direito ao acompanhamento pediátrico caso deseje ou seja necessário.

Há décadas atrás, em Londres, as mulheres lutavam por esses direitos. Hoje, na Inglaterra, elas podem escolher por serem acompanhadas por parteiras ou médicos durante pré-natal, nascimento e pós-parto.

Portanto, mãos à obra.

Os cães ladram, mas a caravana não pode parar.

Serviço:

Marcha pela Humanização do Parto

Data: 05/08/2012

Local: Altura do Posto 9, praia de Ipanema (Rio de Janeiro)

Hora: 14 horas

Fonte da imagem em destaque

"Da Correção Política à Censura"

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Os termos “politicamente correto” e seu antônimo “politicamente incorreto” são muito usadas hoje em dia para designar posturas relacionadas a preconceitos, discriminação, movimentos sociais e políticas de inclusão, dentro dos mais variados âmbitos, como a linguagem, a literatura, a publicidade, o humor, as produções acadêmicas, a mídia e as instituições governamentais.

Para discutir as questões ligadas à “correção política”, seus dilemas e disputas, o site Carta Potiguar lançou esta semana a série “Da Correção Política à Censura”. Vários dos colunistas da Carta (entre os quais me incluo) apresentamos artigos sobre o tema, explorando os diversos âmbitos do debate e nos posicionando a respeito dos problemas dessa disputa. Os artigos estão sendo publicados ao longo desta semana. Confira clicando no link abaixo.

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Universidade sem universalismo

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Gérson é um jovem branco que gosta de usar a cabeça raspada e costuma ostentar coturnos militares, calças verdes camufladas e uma camiseta branca com a suástica estampada. Certo dia, começa a receber vaias dos colegas de sala na universidade em que estuda. O professor faz uma piadinha sobre a roupa dele. Gérson se levanta e sai da sala, acompanhado de vários colegas que iniciam um coro de protesto contra o estilo imoral do rapaz.

Rapidamente, alunos de outras turmas saem das outras salas para engrossar o linchamento e gritar “racista!”, “nazista!”. Os amigos de Gérson se aproximam dele para protegê-lo da massa enfurecida, enquanto vários alunos tentam tirar fotos dele para mostrar aos amigos a indecência a que algumas pessoas chegam. Depois disso, Gérson ficou abatido e apareceu na mídia, encenando um debate sobre moralidade na Universidade e regras de conduta no ambiente acadêmico. Alguns dias depois, é expulso da universidade.

Qual seria sua opinião neste caso? A universidade está certa? Gérson foi vítima?

Agora releia a história acima substituindo “Gérson” por Geisy, trocando as roupas militares por um vestido rosa-shock provocante e os gritos da multidão por “puta!”.

Esta foi a única forma que pensei para dizer alguma coisa nova sobre o caso Uniban vs. Geisy. Após sofrer o linchamento de um rebanho de universitários, Geisy assistiu ao linchamento de um rebanho bem maior contra a Uniban. A mídia e os blogs veicularam a opinião pública que defendeu a jovem e seus direitos a se vestir como quiser, e vilipendiou a postura moralista da universidade. Concordo em grande parte com essa opinião pública, mas suspeito que entre minha postura e a da opinião pública subjazem motivos ligeiramente diferentes.

A universidade errou. Ao apoiar uma horda de estudantes movidos por um moralismo hipócrita, a Uniban errou feio. Agiu contra o que a Universidade representa em seu sentido mais puro: um lugar para o desenvolvimento das ideias, da Ciência; um espaço para o exercício da liberdade de pensamento e, por extensão, da liberdade de expressão, da liberdade de ser e do convívio com a liberdade alheia.

Só que as universidades contemporâneas se tornaram um mercado de diplomas. A perspectiva de quem entra na academia é aprender técnicas que lhe permitam ser mais eficazes no mercado de trabalho. A técnica, o fazer, a Tecnologia, tem se tornado mais importante do que a Ciência, a Filosofia, as especulações com implicações e aplicações éticas.

Numa Universidade ideal, penso eu daqui de fora da universidade (já tendo passado por uma), Geisy poderia ser até um motivo para discussões sobre feminismo, sobre o corpo da mulher visto como objeto de desejo, sobre as tendências da moda… e ela mesma poderia participar dessas discussões.

Não seria essa Universidade ideal um lugar para as hipocrisias moralistas de nossa sociedade. Não seria um lugar para se demonstrar os preconceitos conservadores que não têm mais razão de existir no mundo moderno. Não seria um lugar para um jovem como Gérson manifestar sua ideologia neonazista (se é que ele era realmente neonazista; talvez estivesse só querendo provocar e testar a reação dos colegas), tampouco para a manifestação incivilizada dos preconceitos contra os neonazistas.

Não seria o lugar para uma jovem como Geisy se aproveitar das reações esperadas da maioria dos homens (e mulheres) quando veem um certo tipo de corpo vestido com um certo tipo de roupa (se é que ela estava fazendo isso; há muitas mulheres que gostam de se vestir assim e de se sentir bonitas, o que não quer dizer necessariamente que gostam de ter sua beleza apreciada; porém, é bem provável que estivesse fazendo isso mesmo, mas automaticamente, quase como uma obrigação autoimposta, imposta pela cultura interiorizada em seu inconsciente, uma conduta esperada, assim como os olhares desejosos dos homens eram esperados).

A história da mulher adúltera levada a Jesus para ser apedrejada (João, capítulo 8, versículos 3 a 7) deve ser lembrada para pensarmos o caso de Geisy na Uniban. Do que trata essa parábola? Uma mulher cometeu adultério e uma multidão enfurecida de homens a leva a praça pública para puni-la por seu pecado, condenado pela antiga Lei de Moisés, dada a este por Deus. Jesus, sabiamente, diz as palavras que até hoje são significativas: “Aquele entre vocês que nunca cometeu um pecado atire a primeira pedra”. Ou seja, quem entre vocês está isento de ter cometido um pecado, do mesmo modo que ela cometeu? Só ela merece ser punida?

Mas a história não diz só isso. Algumas pessoas enxergam um outro nível de profundidade na fala de Jesus. A mulher traiu o marido. Isso a torna próxima à ideia que o moralismo puritano faz de uma prostituta (tanto é que muita gente se lembra dessa história achando que a mulher era Maria Madalena e que os homens a queriam punir por vender seu corpo). Ou seja, os homens estão ali descontando sua raiva numa mulher de cujo corpo muitos deles poderiam ter desfrutado. “Aquele entre vocês que nunca desejou essa mulher ou que nunca se deitou com ela atire a primeira pedra”.

Por que as mulheres sedutoras como Geisy são tão temidas a ponto de despertar a raiva vândala de um grupo de homens que visível e paradoxalmente a desejam? Talvez porque esses homens sejam tão inseguros sobre seu autocontrole que precisam despender uma quantia enorme de energia na destruição de seu objeto de desejo, pois têm medo de não conseguirem frear seus “instintos sexuais”.

Esses homens ainda a chamaram de “puta”. Ou seja, insinuaram que ela poderia ir para a cama com qualquer um deles. Então, para não admitirem que eles se rebaixariam moralmente procurando os favores de uma prostituta, optaram por expressar o ódio por ela.

<i>A Raposa e as Uvas</i><br />Esta Raposa tem desejo por uvas:<br />Ela pula, mas o galho está fora de alcance.<br />Então ela vai embora, amargurada<br />E, dizem, nesse momento<br />Declara que não gosta de uvas.<br />Moral: As uvas do desapontamento são sempre azedas.

A RAPOSA E AS UVAS // Esta Raposa tem desejo por uvas: / Ela pula, mas o galho está fora de alcance. / Então ela vai embora amargurada / E, dizem, nesse momento / Declara que não gosta de uvas. // AS UVAS DO DESAPONTAMENTO SÃO SEMPRE AZEDAS.

Certa vez notei que o ser humano, quando em grupo, tende a se comportar como um bando de macacos. Eles acionam o que algumas pessoas chamam de “modo chimpanzé”. (lembremos que o Homo sapiens compartilha mais de 98% do DNA com os chimpanzés). Já ouviram um bando de humanos fazendo uma algazarra e soltando uns gritinhos agudos (“íu!”) que lembram o guincho dos chimpanzés? Pois é, como disse K, em Homens de Preto,

O indivíduo é inteligente, a multidão é burra.

E foi burra a multidão de estudantes da Uniban, por tudo o que eu disse acima e por tudo o que muita gente já disse por aí. Mas também foi burra por outra coisa. É que não creio que todos os “manifestantes” do linchamento soubessem o que estava acontecendo naquele momento. A maioria das pessoas, quando vê um grupo se formando, tem o impulso curioso de saber o que está acontecendo e, se possível, de participar (se muita gente está reunida para algo, deve ser coisa boa!). Então, aqueles que iniciaram os “protestos” foram idiotas. Aqueles que se juntaram por afinidade à causa foram imbecis. E aqueles que se juntaram à multidão por impulso de bando foram estúpidos.

A Uniban foi burra ao expulsar Geisy, mas foi extremamente coerente. Afinal, se esses estudantes são o fruto podre da Uniban, esta é uma árvore doente. O moralismo dos alunos reflete a instituição moralista que os está preparando para o mundo.

Agora a universidade voltou atrás na decisão de expulsar a aluna. E talvez a mais burra nesta história seja Geisy, se ela aceitar voltar.

Créditos

  1. A imagem no início do texto é um trecho da pintura Jesus e a Mulher Adúltera, de Vasily Polenov.
  2. A segunda  imagem é uma página do livro Baby’s Own Aesop, de W. J. Linton, escrito em 1887 e ilustrado por Walter Crane.

Sobre Michael Jackson

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Um homem estranho. Cabelos negros e lisos contornando a face cor-de-giz. Nariz empinado, raro, no mínimo. Compleição franzina, magra. Braços, cintura e pernas finos. Corpo de adolescente. Um jeito acanhado e um falar inglês com “sotaque negro”. Um semblante vazio, como se o rosto fosse uma máscara para esconder a essência dessa criatura.

Tudo se dissipa quando o vemos subir ao palco, quando escutamos sua voz ao tocar um CD de sua autoria, ao assistir a um DVD gravado com um show dele. Quando canta, quando dança e quando atua, ele se torna completo no que faz, como se se tornasse música e dança em forma de homem. Um homem estranho.

Dançando Billie Jean

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