Star Trek e Star Wars

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No âmbito dos nerds e geeks aficionados por ficção científica e fantasia, é famigerada a “rivalidade” entre os fãs de Guerra nas Estrelas (Star Wars) e os de Jornada nas Estrelas (Star Trek). Aqueles que se autodenominam trekkers ou trekkies ralham do caráter pouco científico dos elementos fantásticos no universo dos jedi, enquanto os fanáticos pela Força consideram as histórias da Frota Estelar muito chatas e pouco empolgantes.

Essa “rivalidade” se acentua de maneira tragicômica quando atores ícones das duas franquias se pronunciam zombando da série rival, como o fizeram há algum tempo William Shatner (Capitão James T. Kirk) e Carrie Fisher (Princesa Leia Organa). “Jornada nas Estrelas tem histórias melhores”, defende Shatner. “Guerra nas Estrelas tem efeitos especiais”, replica Fisher.

Entretanto, no geral os nerds gostam das duas franquias, podendo haver preferências individuais, mas é importante atentar para que não há comparação entre Star Wars e Star Trek, pois são duas propostas muito diferentes entre si, cada uma desenvolvida de modo bastante díspar, e para quem as conhece soa muito estranho as pessoas confundirem as duas (o que talvez aconteça mais por causa do nome parecido). E é por serem duas propostas diferentes que não há sentido na rivalidade e na concorrência, pois cada uma é apreciável de modo diferente, como bem respondeu George Takei (que interpretou Sulu na série clássica de Star Trek) em resposta aos dois vídeos acima:

Além disso, as duas séries se aproximarão ainda mais agora, tendo em vista que J. J. Abrams, diretor do filme Star Trek, de 2009, e de sua continuação de 2013, estará à frente do próximo filme da franquia Star Wars, indo aonde ninguém jamais esteve na história das rivalidades entre as torcidas nerds.

Portanto, vou explorar um pouco as diferenças entre as duas séries, não para acirrar qualquer divergência ou rivalidade, mas para acentuar a diversidade e incentivar diferentes formas de apreciar obras de ficção científica e fantasia.

Em primeiro lugar…

Jornada nas Estrelas – Star Trek

Jornada nas Estrelas/Star Trek teve início como uma série televisiva norte-americana, idealizada por Gene Roddenberry, que estreou em 1966. A série clássica (The Original Series – TOS) Inicialmente pensada para se prolongar por 5 anos, só durou 3, sendo cancelada em 1969. Ela foi ressucitada por um breve período como uma Série Animada (The Animated Series – TAS) em 1973 e 1974. Voltou à vida definitivamente em 1979, com Jornada nas Estrelas: O Filme (Star Trek: The Motion Picture), e a partir daí foram produzidos mais 5 filmes com o elenco/tripulação da série clássica.

Em 1987, teve início a série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração (The Next Generation – TNG), que durou 7 temporadas, até 1994, com outro elenco/tripulação. Deep Space Nine (DS9) foi outra série, também com 7 temporadas, produzida de 1993 a 1999. A série Voyager (VOY) foi ao ar entre 1995 e 2001, com 7 temporadas também. E Enterprise (ENT), que estreou em 2011, foi cancelada prematuramente em 2005.

Entre 1994 e 2002, foram produzidos 4 filmes com o elenco/tripulação da TNG. Em 2009, Star Trek foi revitalizada com um filme apresentado por um novo elenco, interpretando a tripulação da TOS, que vai estrelar uma continuação em 2013, Além da Escuridão (Star Trek: Into Darkness).

Foram também produzidas muitas histórias em quadrinhos, livros e video games, que enriqueceram esse universo, mas o principal são as séries televisivas.

Guerra nas Estrelas – Star Wars

Guerra nas Estrelas/Star Wars foi um filme de 1977 que iniciou uma grande saga épica no imaginário popular do Ocidente, idealizada por George Lucas. Quando sua continuação foi produzida em 1980, o primeiro filme foi rebatizado como Guerra nas Estrelas – Episódio IV: Uma Nova Esperança (Star Wars – Episode IV: A New Hope). A segunda produção, chamada de Episódio V, foi seguida pelo Episódio VI em 1983.

Os Episódios I, II e III, que contam os acontecimentos anteriores à primeira trilogia, vieram a público em 1999, 2002 e 2005, respectivamente. Uma série animada chamada A Guerra dos Clones (The Clone Wars) foi produzida em 2008, contando eventos entre os Episódios II e III. Em 2015, será lançado o Episódio VII, cuja história ainda é um mistério para o público.

Foram também produzidas muitas histórias em quadrinhos, livros e video games, que enriqueceram esse universo, mas o principal são os filmes.

O começo de tudo

Comecemos pelo início, ou seja, pelo prólogo de cada uma. Star Trek, em seus episódios originais, tem a seguinte entrada, repetida durante toda a série clássica (TOS) e, um pouco modificada, na série A Nova Geração (TNG):

Space, the final frontier. These are the voyages of the starship Enterprise. Its 5-year mission: to explore strange new worlds, to seek out new life and new civilizations, to boldly go where no man has gone before.

[O espaço, a fronteira final. Estas são as viagegns da nave estelar Enterprise. Sua missão de 5 anos: explorar estranhos novos mundos, buscar novas formas de vida e novas civilizações, audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve.]

Esta sinopse geral resume bem alguns dos aspectos dessa série televisiva que estreou em 1966. Ela aponta para uma jornada exploratória ao espaço. Infere-se que as histórias ocorrem no futuro mais ou menos próximo, com o advento de novas tecnologias, e que  o espectador se deparará com novas realidades alienígenas e os decorrentes conflitos, sempre com a tentativa de se os resolver de maneira pacífica, embora às vezes isso não seja possível. Essa entrada é perfeita para uma grande obra de Ficção Científica futurista e especulativa.

Star Wars começa simplesmente assim:

A long time ago in a galaxy far, far away…

[Há muito tempo atrás numa galáxia muito, muito distante…]

Aqui não existem parâmetros com base em nossa realidade. Não sabemos em que tempo exatamente ocorre essa história nem em que local do universo, e portanto não há compromisso do autor com a realidade conhecida. O aspecto atemporal (“A long time ago”) indica possibilidades fantásticas e míticas, enquanto a “galaxy far, far away” implica alguma ligação com a Ficção Cienfítica. Tudo é possível e pode-se esperar qualquer coisa em termos de personagens, tecnologia e raças alienígenas.

Assim como as publicações literárias de Ficção Científica, Star Trek se carateriza pela massiva produção de episódios, neste caso televisivos (embora tenha sido produzida mais de uma dezena de filmes). Isso às vezes empobrece a obra, pois uma produção em massa de vez em quando dá alguns frutos mal-acabados, o que não impede de se encontrar, em grande número, peças esplêndidas, narrativas excelentes e cliffhangers e reviravoltas de trama surpreendentes.

No caso de Star Wars, o projeto original é cinematográfico, com uma produção ambiciosa, e isso levou à criação de uma espécie de romance épico, bem pensado em todos os seus elementos (embora o resultado da realização da segunda trilogia – Episódios I, II e III – não tenha sido bem recebida pela maioria dos públicos).

A narrativa

As histórias de Star Trek se caracterizam como episódios isolados dentro de uma narrativa circular. Cada capítulo gira em torno de um evento crítico, um problema a ser resolvido pelos protagonistas. No fim, as coisas voltam ao normal e a nave retoma seu rumo, preparando-se para o próximo episódio em que o mesmo esquema se repete.

O propósito dessa fórmula é estabelecer um grupo de personagens, cada um com suas habilidades especiais, e colocá-los à prova com um desafio diferente em cada capítulo. Ou seja, os roteiristas imaginam situações e pensam: “como a tripulação vai resolver esse problema?” Por isso há uma marcante identificação de cada personagem em cada uma das séries da franquia (isso vai ser desenvolvido abaixo).

Por outro lado, Star Wars é uma narrativa escatológica, com características épicas e heroicas, focadas na trajetória de um ou dois personagens, desde sua gênese até sua apoteose. Cada um dos dois arcos principais (ou seja, as duas trilogias de filmes) é uma grande história completa traçada segundo o esquema da jornada do herói (Joseph Campbell).

O nome Wars (“Guerra”) caracteriza a fábula de Luke e Anakin Sktwalker como um conflito bélico, destacando heróis de guerra como figuras pivotais. Há complôs políticos, traições, golpes de Estado, a instauração de um regime de terror totalitário e sua consequente derrubada por uma força rebelde.

Ficção Científica e Fantasia

A Ficção Científica é um gênero amplo, que se baseia nas possibilidades aventadas pelo conhecimento científico para explorar enredos fictícios. Neste sentido, ela pode trazer especulações sobre o desenvolvimento da tecnologia e da sociedade, no passado ou no futuro, questionar-se quais seriam seus impactos sobre a vida das pessoas, ou imaginar formas biológicas alienígenas inexistentes (ou não), mas verossímeis e prováveis, bem como uma possível diversidade civilizatória dessas formas de vida.

Considerando esse conceito resumido de Ficção Científica, podemos encaixar perfeitamente a maior parte das histórias da franquia Star Trek neste gênero. Normalmente o mote dos episódios gira em torno de alguma das possibilidades citadas acima, com poucas exceções.

Por outro lado, Star Wars é uma ópera espacial que não se baseia especialmente em elementos científicos. Estes estão ali para compor o cenário e não para servir como mote para a trama. Em essência, Star Wars é uma fábula de capa e espada, uma aventura fantástica com elementos épicos que remetem a O Senhor dos Anéis e outras narrativas míticas (inclusive sendo toda inspirada, em seus personagens e sua trama, nos arquétipos e estruturas narrativas mitológicos).

A ficção científica em Star Wars serve de máscara para uma história heroica, remetendo ao teatro clássico, com episódios de tragédia e drama. O mais notável dos quais é a relação edipiana entre Luke Skywalker e Darth Vader. A sedução inevitável de Anakin Skywalker para o lado sombrio da Força também é tragicamente impressionante. O desenrolar desse épico tem início, meio e fim e a história completa um círculo triunfal, na forma de uma escatologia.

É possível reimaginar, por exemplo, toda a trajetória de Anakin e Luke Skywalker num cenário medieval, no Japão feudal, na Antiguidade grega ou nos moldes da cosmologia de povos indígenas, sem perder a essência de sua proposta (veja acima algumas criações do artista plástico Sillof, colocando os personagens em diversos cenários). Entretanto, não dá para reimaginar a maioria das histórias de Star Trek sem se valer dos elementos científicos, pois é a partir destes que se desenvolvem os episódios.

Personagens

Uma das principais diferenças entre os personagens de Star Trek e os de Star Wars é sua profundidade e complexidade. Resumindo, Star Trek apresenta personagens redondos enquanto Star Wars é encenada por personagens majoritariamente planos.

Eis alguns exemplos da complexidade dos personagens de Star Trek em quatro das séries que formam a franquia:

  • Série Clássica (TOS): O Sr. Spock pertence ao povo do planeta Vulcano, mas é filho de um vulcano com uma humana. Como foi criado para reprimir seus sentimentos, possui uma mente prodigiosamente racional e lógica. Porém, ele muitas vezes surpreende seus colegas e aos telespectadores com atitudes que fogem a esse padrão, e isso ocorre por dois motivos: 1) em algumas situações críticas, Spock se vê tomado pelas emoções reprimidas, e nesses momentos age de maneira ilógica; 2) quando está sóbrio, por se pautar na lógica, no discernimento e numa ética complexa, algumas vezes suas ações parecem fugir daquilo que se espera dele como um oficial da Frota Estelar, e o que parece ser insubordinação se revela um meio genial de se alcançar um bem maior.
  • A Nova Geração (TNG): O intrigante Q, criatura onipotente habitante do Continuum Q, aparece inicialmente como um antagonista e um dos mais perigosos vilões da tripulação comanda pelo capitão Picard. No entanto, à medida que vai aparecendo ao longo da série, ele por vezes ajuda os protagonistas (embora sempre à revelia destes). Q já perdeu seus poderes, tornando-se humano, e os recuperou após ter aprendido a sentir compaixão, já se valeu da ajuda dos mocinhos para realizar seus planos pessoais e já se viu como esposo e pai. No entanto, seu caráter sempre permaneceu ambíguo, nem vilão nem herói.
  • Deep Sace Nine (DS9): Os klingons são um povo cuja cultura é marcada pelo louvor à guerra, à conquista e a honra. Eles costumam cantar os feitos de seus heróis e adoram banquetear bebendo “vinho de sangue” (bloodwine). No entanto, tenente Worf, embora sempre carregue em seu olhar a ferocidade dos de sua raça, possui como marca registrada um siso e uma seriedade, mas sempre se mostrando muito zeloso e conservador com relação à cultura klingon, embora, paradoxalmente, tenha sido criado desde criança por pais humanos. Isso o coloca em grande conflito, por um lado, com humanos e a Federação e, por outro lado, com seus irmãos de sangue e o saudosismo do extinto Império Klingon. Em certo momento marcante, sua noiva pergunta porque ele não possui a alegria de viver que a maioria dos klingons tem, e ele revela que quando criança, jogando rúgbi com seus colegas humanos, acidentalmente matou um deles, o que o traumatizou para o resto da vida.
  • Voyager (VOY): Kathryn Janeway é a capitã da nave estelar Voyager. De início, ela encarna o arquétipo da mãe-rainha, encaregada de cuidar e acolher cada membro de sua equipe, sempre fiel às leis que regem a Federação e a Frota Estelar. Mas no decorrer da série ela mostra várias facetas que a tornam um personagem complexo, como a de guerreira destemida, de amante apaixonada e até a de mulher fatal, quando precisa seduzir um maligno holograma. Muitas vezes se vê diante de dilemas que colocam à prova sua lealdade aos princípios da Federação, e em algumas situações é obrigada a burlar esses princípios com vistas ao bem de sua tripulação.

É claro que estes não são os únicos exemplos. Há muitos personagens redondos em toda a franquia, mas podemos dizer que cada série tem um grau diferente de complexidade em seus personagens, sendo, em minha opinião, a Série Clássica a menos redonda e Deep Space Nine a mais redonda. Também não se pode deixar de afirmar que há vários personagens planos, mas eles não se destacam como protagonistas.

Star Wars, sendo bastante inspirada nas narrativas fantásticas e heroicas e tendo sua trama conduzida pelo esquema da luta maniqueísta entre o bem e o mal, apresenta personagens bem posicionados em seus papéis, sendo possível encaixá-los em dois ou três “lados”. Ou seja, ou os personagens são bons, lutando pelo bem e o Lado Claro da Força, ou são maus e se alinham ao Lado Sombrio da Força.

Quase não ocorrem traições ou mudanças de lado, por exemplo, os personagens bons (aliados à República ou à Aliança Rebelde) serão sempre bons, e os aliados aos Separatistas e ao Império são sempre maus. Alguns indivíduos podem até estar fora desse conflito político, ficando à margem de qualquer afiliação republicana ou imperialista, mas eles sempre estão num dos extremos do espectro. Um exemplo disso é o planeta Tatooine, planeta não-representado pela República e meio esquecido pelo Império, onde vemos personagens maus (como os bandidos de Mos Eisley e a máfia de Jabba) e bons (como a família Skywalker e seus amigos).

Há três notáveis exceções à regra, que assumem um papel ambíguo e uma personalidade conflituosa durante suas respectivas trajetórias na saga: Anakin Skywalker/Darth Vader, Han Solo e Lando Calrissian. Ambos mudam de lado e cada um passa por um período transitório de conflito. Mas mesmo aí se vê uma necessidade de se alinhar o personagem em uma de duas opções, nunca mantendo a ambiguidade por muito tempo. Talvez não por acaso, Darth Vader e Han Solo são dois dos personagens favoritos dos fãs de Star Wars.

Outra diferença entre os personagens das duas franquias diz respeito a sua verossimilhança e sua identificação maior ou menor com os mitos e personagens imaginários.

No cenário da Star Wars, os poderes de uma casta especial de guerreiros é ponto fundamental da trama, pois é entre os jedi que aparece o Escolhido e seu filho. Eles são predestinados desde o nascimento a se tornar elementos centrais dos vários episódios dessa saga épica. Tornam-se figuras notáveis como os grandes guerreiros invencíveis dos mitos antigos, tais quais Hércules, rei Arthur ou Sansão. A decisão de um desses heróis ou os efeitos de eventos externos sobre eles têm consequências galácticas, ou seja, eles têm, individualmente, poder de mudar a história.

Por outro lado, os protagonistas da Star Trek não são super-humanos. Eles se destacam muito mais por suas peculiaridades individuais e idiossincrasias pitorescas que servem de mote para o desenrolar das tramas dos episódios. Embora haja encontros com espécies alienígenas que possuem poderes sobre-humanos, o mais importante nesses encontros é a resolução das diferenças, as formas de se usar a diplomacia. Dessa forma, o destino de cada episódio não depende somente da decisão de um herói, mas de um conjunto de fatores os mais diversos e que muitas vezes fogem ao controle dos personagens.

Que a Força viva longa e prosperamente

Penso que a diferença mais básica entre Star Trek e Star Wars está no nível psíquico pelo qual cada uma fisga o expectador. Star Wars apela mais para os sentidos, deixando o espectador mais passivo diante do espetáculo, das cores e luzes, das batalhas e duelos e dos confrontos dramáticos entre os personagens. Em Star Trek, são os meandros da trama que interessam, e o espectador não para de pensar nas possibilidades de como será resolvido o roteiro, pois atiça a inteligência da plateia. Essa diferença, penso, pode guiar o apreciador de Ficção Científica e Fantasia a escolher entre uma experiência poético-dramática da guerra entre o bem e o mal ou uma experiência mais intelectual e abstrata na jornada pelas descobertas do Universo.

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Palavras incestuosas

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Inês me contou que, quando fez o curso Teoria e Prática da Autopesquisa, uma professora pareceu constrangida ao abordar o tema sexo na frente do filho, que também era aluno no curso. A voz da professora, segundo a narradora da história, quase não saiu, e ela se apressou a pular para o próximo tópico. É tão forte o tabu do sexo nas relações familiares, em muito especial na relação entre pais/mães e filhas/filhos, que provoca situações de enorme constrangimento não só para os protagonistas de um determinado incidente, mas para quem o presencia.

Minha monografia de graduação, por exemplo, que defendi em 2004, disserta sobre a derivação psíquica comum de dois tipos de desejos que em nossa cultura são antagônicos: o desejo sexual de um homem por uma mulher e o amor do filho pela mãe. Minha mãe assistiu à minha defesa, e da minha parte não houve qualquer constrangimento para tratar desse assunto na frente dela, que se sentou na primeira fileira de carteiras da sala, bem diante de mim, que fiquei em pé ao apresentar meu trabalho.

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Eram os Deuses Astronautas?

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Provavelmente não. Mas é fácil pensar que sim. O olhar contemporâneo antropocêntrico, eurocêntrico, enfim, etnocêntrico, interpreta as manifestações de outras culturas e épocas segundo seus próprios parâmetros e experiências. Por isso, quando Erich von Däniken pergunta “eram os deuses astronautas?”, é preciso abordar a questão de forma crítica e despojada das pré-noções de quem se atreve a investigar esse tema.

A primeira vez que me deparei com Eram os Deuses Astronautas? foi com uma velha edição de capa verde do meu pai, e este me causou a impressão de que era uma obra impressionante, que revelava uma realidade perturbadora sobre nossos passado e origem. Não cheguei a ler o livro na época. Mas há poucos anos adquiri uma edição nova e, mais interessado do que nunca sobre qualquer tema relacionado a extraterrestres, li o livro rapidamente, sem sentir o impacto que normalmente os leitores dizem sentir.

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A alma dos robôs – parte 1

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A evolução dos robôs segue seu caminho. Para cientistas, engenheiros e entusiastas da Ciência e da Tecnologia, há, entre outros, um objetivo claro: reproduzir com cada vez mais fidelidade a inteligência humana. Não basta, portanto, criar ferramentas supereficazes em suas tarefas autômatas, mas dar a ilusão de que as máquinas têm uma alma.

Desde a Antiguidade se contam fábulas sobre criaturas artificiais que se tornam seres vivos. Histórias sobre robôs na ficção científica têm abordado o fascínio do ser humano pela possibilidade de surgirem vida e alma das criações tecnológicas. A antropomorfização de seres inanimados não é novidade na história humana, mas quando se tratam de seres que imitam comportamentos e funções humanas, como os robôs, é muito forte a fantasia de que eles podem se tornar completamente humanos.

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A luta para salvar Deus

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A recente visita do Papa Bento XVI à Inglaterra trouxe à tona a atual, recorrente e insistente tentativa das igrejas cristãs de questionar o valor da Ciência e reabilitar a Religião, tão “esquecida” e “menosprezada” nos dias atuais. Numa reunião de líderes religiosos na St. Mary’s University College, Strawberry Hill, na parte sudoeste de Londres, o papa interveio no debate sobre a origem do Universo, alegando que a Ciência não pode explicar o “sentido definitivo” da existência humana.

Afirmando que as ciências nos apresentam uma “inestimável compreensão” de aspectos de nossa existência, o papa afirma que elas não conseguem responder à pergunta fundamental: “por que existimos?” Toda a argumentação do papa para “desqualificar” a Ciência no papel de “dar sentido à vida” e a suposta necessidade de a Religião assumir esse papel se baseiam em pressupostos discursivos que escondem falácias lógicas.

Papa Bento XVI

Em primeiro lugar, o discurso supostamente conciliador que busca colocar lado a lado a Ciência e a Religião se revela uma tentativa de subordinar aquela a esta. Ao dizer que as ciências nos trazem uma “compreensão inestimável de aspectos da existência”, o papa está usando um eufemismo para dizer que nenhum conhecimento sobre o mundo, por mais acurado e útil que seja, é suficiente para nos trazer felicidade, ou seja, que qualquer conhecimento científico é dispensável. O que não é dispensável, segundo ele, é o desejo humano de dar sentido à vida, o que, para ele, só pode ser feito satisfatoriamente pelas religiões (especialmente, é claro, a religião cristã em sua versão católica).

Veja mais um trecho do discurso de Bento XVI:

They cannot satisfy the deepest longings of the human heart, they cannot fully explain to us our origin and our destiny, why and for what purpose we exist, nor indeed can they provide us with an exhaustive answer to the question ‘Why is there something rather than nothing?

[Elas [as ciências] não podem satisfazer os mais profundos desejos do coração humano, elas não podem nos explicar completamente nossa origem e nosso destino, por que e para que propósito existimos, nem certamente podem nos prover uma resposta exaustiva à pergunta ‘por que existe algo ao invés de nada?’]

Este trecho condensa várias armadilhas lógicas. A primeira é que o pressuposto da necessidade de se dar sentido à existência e a ideia de que a falta desse aspecto à Ciência é uma falha. A tarefa da Ciência nunca foi dar sentido à existência, não da forma como uma perspectiva transcendente do mundo o faz. Concordo com o papa em que a Ciência por si mesma não oferece nenhum sentido fundamental à existência, nenhum elã transcendente que torne o cru Universo algo mais do que ele próprio (como o olhar brilhante de uma criança viva que se diferencia do olho de um robô – por mais perfeitamente que este seja feito para replicar uma criança).

O discurso do papa gira em torno de Religião e Ciência. Ou seja, ao negar à Ciência o papel de dar sentido à vida, a sardinha pula automaticamente para o seu lado, como se a Religião fosse a única e óbvia candidata para responder às “questões fundamentais”. No entanto, um pouco de erudição e conhecimento de mundo é suficiente para sabermos que existem muitos meios que não as diversas e díspares religiões para dar sentido à existência, como a Poesia, a Filosofia, a Mitologia, e que dentro dessas várias formas de saber, há inúmeras possibilidades, dependendo do contexto histórico e cultural que busquemos.

De fato, desde que começou a existir neste planeta, o ser humano deu início (e jamais parou) à produção de milhares de sentidos para a existência. Seja recorrendo a estórias para explicar os fenômenos naturais, seja atribuindo ao Universo uma alma única que dá coesão ao todo, seja concebendo o tempo como um ciclo que faz tudo retornar ao início eternamente, o Homo sapiens nunca deixou de criar sentido para o mundo, e é improvável que qualquer cientista, por mais ateu que seja, não tenha ele mesmo uma concepção do universo que o imbui de significado, mesmo que este seja a busca pelo conhecimento ou o bem que este pode trazer à humanidade. O que não é um sentido menos valioso para ele do que Deus é para um cristão.

Ao colocar a pergunta “por que existe algo ao invés de nada?”, o papa pretende automaticamente legitimar a explicação bíblica para a existência do Universo, ou seja, a criação deste por Deus. Mesmo considerando que essa pergunta possa, entre outras possibilidades, ser respondida: “porque é assim que o Universo é”, a solução religiosa parece ser para o discurso do papa um caminho óbvio. No entanto, a resposta bíblica se mostra em muito incompatível com a Ciência, pois fala de uma entidade cuja existência pode ser dispensada da explicação astronômica, uma entidade que a História mostra ter aparecido no imaginário humano em um determinado contexto histórico-cultural e que não é a única alternativa teológica no vasto mundo antropológico, havendo inúmeras explicações religiosas na face da Terra, algumas contraditórias entre si.

Outra falácia comum na defesa da Religião como complemento necessário à Ciência é a necessidade de valores morais, o que estaria ausente de uma visão puramente científica do mundo:

Never allow yourselves to become narrow. The world needs good scientists, but a scientific outlook becomes dangerous and narrow if it ignores the riches or ethical dimensions of life. Just as religion becomes narrow if it rejects the legitimate contribution of science to our understanding of the world.

[Nunca se permitam tornar-se estreitos. O mundo precisa de bons cientistas, mas uma visão científica se torna estreita se ela ignorar as riquezas ou a dimensão ética da vida. Assim como a religião se torna estreita se rejeitar a legítima contribuição da ciência ao nosso entendimento do mundo.]

É comum os autodeclarados ateus serem repreendidos pelos crentes com a afirmação de que é preciso crer em Deus para ser uma boa pessoa. O papa defende que sem a Religião os cientistas não têm como se garantir quanto aos seus valores morais. Assim como quanto ao “sentido da vida”, o discurso católico apresenta apenas uma alternativa de fonte de valores éticos: a Religião.

Da mesma forma que a Ciência pura não dá por si mesma um “sentido para a existência”, ela não oferece um sentido de ética, apenas provê conhecimento sobre o Universo. Porém, temos valores morais em nossa cultura que estão presentes em nossas condutas cotidianas e que não estão vinculadas direta nem necessariamente à Religião.

Além disso, temos na história do pensamento universal o desenvolvimento profundo de estudos sobre a Ética fora da esfera religiosa. Se ficarmos só na Filosofia, temos um universo de autores e obras, Aristóteless, Espinoza, Nietzsche, Confúcio, entre muitos outros, que mostram a capacidade de se elaborar um intenso senso ético baseado nas necessidades humanas e não em necessidades divinas.

Apesar de tudo, é papel do sumo pontífice vender seu peixe e seu pão (e tentar multiplicá-los desesperadamente). O mundo católico já não é mais o mesmo, ainda bem, e o cabeça da Igreja Católica recorre às crenças cristãs mais básicas para fisgar “de volta”, com argumentos escusos, o maior número possível de cordeiros para seu rebanho. De outro lado, cientistas e entusiastas da Ciência devem permanecer atentos para não ceder tão facilmente aos pressupostos, tidos por muitos como sabedoria, de que o ser humano precisa da Religião e de que é necessária a integração entre esta e a Ciência.

Fonte

Oroboro

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No filme A História sem Fim (The NeverEnding Story, 1984), de Wolfgang Petersen, o garoto Bastian encontra um livro cuja trama é afetada pela leitura de quem o tem em mãos. A terra de Fantasia, cenário da história lida por Bastian, está em declínio, e cabe a Bastian salvar a Imperatriz Menina, dando-lhe um nome e assegurando a continuidade das história de Fantasia.

Mas a obra de Michael Ende, Die Unendliche Geschichte (A História sem Fim), que inspirou o filme, tem um apelo maior (infelizmente ainda não o pude ler), pois na própria trama de A História sem Fim acompanhamos Bastian encontrar um livro com esse mesmo nome, e temos a impressão de que nossa própria leitura afeta a história na qual há um livro cuja leitura afeta uma outra história, que no final é a mesma.

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Coleção de sinapses 3

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Esta semana vimos uma análise bem-humorada e profunda de Guerra nas Estrelas – Episódio I: A Ameaça Fantasma e também do Episódio II: Ataque dos Clones. Profunda também foi a abordagem de Cafetron ao elucidar porque o Ateísmo não é uma religião, ao mesmo tempo em que passeamos pelos mitos da religião da Grécia Antiga e pela mais antiga ainda existência de um hominídeo descoberto com a ajuda do Google Earth.

O Rio Grande do Norte e seu Maior Cajueiro do Mundo foram desafiados pelo Piauí e seu Cajueiro Rei, enquanto o Exterminador do Futuro desafia o Google. E por falar em viagens no tempo,  Luke Skywalker, Darth Vader e cia. saem de uma antiga galáxia distante para reencarnar no Japão feudal …e nos perguntamos o que significa a recorrência de Google e Star Wars nestes links…

Star Wars: The Phantom Menace Review – YouTube

Descobri as resenhas do Red Letter Media em algum link que encontrei no Twitter. O autor dessas resenhas em forma de vídeos faz um personagem neurótico obcecado por cinema. Neste caso, como fã da trilogia clássica de Guerra nas Estrelas, ele se mostra muitíssimo decepcionado com a trilogia prequel dirigida por George Lucas. Com muitos comentários bem-humorados e sarcásticos, a resenha tem várias passagens profundas sobre o que torna um filme cinematograficamente bem-feito. Um dos exemplos, neste caso, é o fato de o Episódio I: A Ameaça Fantasma não ter um protagonista com o qual nos identificarmos e pelo qual torcermos, como era o caso do Episódio IV: Uma Nova Esperança.

O link acima (e o vídeo abaixo) é da primeira parte desta resenha dividida em 7 partes. Vale a pena conferir tudo.

Avatar Review – YouTube

O mesmo resenhista acima fez uma contundente dissecação de Avatar de James Cameron. Embora eu ache que ele exagera em alguns pontos, em outros ele se mostra um bom entendedor da arte cinematográfica, apontando os defeitos narrativos dessa bela obra, sem negar que se trata de uma ótima  experiência áudio-visual.

Dividida em 2 partes.

Star Wars Episode 2: Attack of the Clones Review – YouTube

Seguindo a nova trilogia de Star Wars, o resenhista louco se aprofunda (bem mais) no Episódio II: Ataque dos Clones. Um destaque para sua crítica à forma com que foi apresentado Yoda, que no Episódio V: O Império Contra-ataca, aprendêramos a ver como um mestre sábio que ensina sobre a Força e não a empunhar um sabre-de-luz a torto e a direito. Enquanto Yoda parecia um mestre zen na trilogia clássica, ele parece um personagem de video game na nova.

Dividida em 9 partes.

Ateísmo é Religião? – Nebulosa Nerd’s Bar

Há temas que são tão polêmicos e difíceis de se abordar que necessitam uma perspectiva extremamente crítica, racional e despessoalizada para serem tratados de maneira produtiva. Quando se trata de religião, os egos da pessoas que estão discutindo ficam tão feridos e expostos que muita besteira é dita. Cafetron soube abdicar do orgulho pessoal e rever uma afirmação sua sobre Religião e Ateísmo, baseado numa réplica de outra pessoa, com a qual, no entanto, não concordou totalmente. Um belíssimo exemplo de como fazer um debate de ideias e não entrar para o embate egoico.

Nerdcast 205a – Teogonia da Mitologia Grega – Jovem Nerd

Mitologia grega é um assunto que me interessa desde a adolescência. O papo dos nerdcasters foi muito interessante e, acima de tudo, engraçadíssimo. Alguns erros aqui e ali, principalmente nos nomes de alguns personagens e lugares, mas valeu.

Star Wars no Tempo dos Samurais! – Blog de Brinquedo

Eu já havia imaginado como seria Guerra nas Estrelas na Idade Média ou num mundo de fantasia como a Terra-Média. Mas essa criação de Sillof é bem criativa e remete aos antigos filmes de Kurosawa. Gostei especialmente das versões de R2D2 (Ryuuto) e de C3P0 (Chipao), sem recorrer a semimáquinas que provavelmente seriam bem toscas.

How Google Earth Led to the Discovery of a New Species of Early Man – The Daily Galaxy

A tecnologia atual nos permite fazer boa parte das pesquisas científicas em casa, através da internet, com fontes confiáveis (eu acho). Não estou dizendo que a pesquisa será feita totalmente no escritório, mas a coleta inicial de dados passa a ser bem mais rápida com ferramentas como o Google Earth, que permite, como no caso desta notícia, encontrar sítios arqueológicos propícios à descoberta de fósseis.

Piauí tem a maior árvore frutífera da terra. O Cajueiero Rei – Canal Vooz

Eu acho que deveriam podar o cajueiro de Pirangi e parar com essa besteira de disputar um título estúpido como esse. Para quem não sabe, o cajueiro está tão grande, e continua crescendo, que já ocupou metade de uma das ruas que o cercam, inutilizando parte das vias de acesso a algumas das praias do litoral potiguar. É claro que não podemos esquecer que há pessoas cuja economia familiar se beneficia muito com o turismo local e as visitas ao (até então?) “Maior Cajueiro do Mundo”. Mas não é preciso ser tão zeloso quanto à diferença de alguns metros quadrados em relação ao Cajueiro Rei piauiense. Os dois poderiam ser considerados juntos “os maiores cajueiros do mundo”, que tal?

Self aware – Nerdson não Vai à Escola

Depois de visitar Jesus Cristo, o Exterminador do Futuro vem procurar ninguém menos do que a maior ferramenta de indexação e buscas da internet…

O Chinês Americano [Resenha]

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O Chinês AmericanoHá uma lenda chinesa que conta a história de Sun Wukong, o Rei Macaco. Nascido de uma pedra, ele empreende uma busca de autoaprimoramento, pela qual tenta se tornar cada vez mais poderoso e provar que pode se igualar aos deuses, mas acaba se obrigando a negar sua natureza, o que o leva à necessidade de uma busca espiritual.

Jin Wang é um menino de ascendência chinesa nascido nos EUA. Neste contexto, ele é estigmatizado e luta entre a necessidade de ser feliz e a urgência de se adaptar a um meio no qual ele é pária. O contrário acontece com Danny, que é americano e se vê às voltas do embaraço causado pela visita do primo chinês Chin-Kee. As três histórias estão mais interligadas entre si do que parece à primeira vista.

O Chinês Americano é uma história em quadrinhos escrita e desenhada pelo norte-americano de origem chinesa Gene Luen Yang. Trata, numa linguagem simples, singela e profunda, de racismo, xenofobia, bullying, autoaceitação, crises de identidade e outros temas. Tendo, aparentemente, aspectos autobiográficos, possui um viés infanto-juvenil que, no entanto, não tira o interesse do público adulto.

Recontando uma lenda antiga

Pintura do Palácio do Verão em Beijing, mostrando cena da Jornada ao Oeste

Gene Yang reconta a Jornada ao Oeste, clássico épico chinês cujo protagonista é Sun Wukong, o Rei Macaco. Este personagem é tão importante no imaginário do Extremo Oriente que serviu de inspiração para Akira Toriyama e seu Son Goku, protagonista de Dragon Ball.

O Rei Macaco buscando aprimoramentoA história do Rei Macaco é uma alegoria da busca pela própria natureza. Ele inicia sua jornada tornando-se um mestre em várias técnicas espirituais, como voar em cima de uma nuvem e lutar com grande força e habilidade. Para a desgraça dos deuses, ele dá uma surra em todo o panteão depois de ser recusado a entrar numa festa.

Sua busca por aprimoramento continua, mas agora com outra motivação. Ele quer ser indestrutível como o deuses e ser aceito como um. Passa a calçar sapatos e, dominando a técnica da metamorfose, assume aspecto humano. Apesar disso, nunca consegue esconder que é um macaco, pois seu rosto ainda é de símio.

Quando finalmente se depara com a entidade mais poderosa do universo, o criador de tudo, este o ensina algumas coisas sobre autoaceitação e arrogância. Só depois de muitos séculos é que o Rei Macaco vai perceber que poderia ter saído debaixo da montanha de pedras simplesmente assumindo sua forma original e pequena de macaco. Ao ser chamado como discípulo de um monge, este lhe diz que não precisará dos sapatos em sua nova jornada.

Os outros entre nós

Jin Wang é um menino norte-americano cujos pais são chineses. Suzy Nakamura é sua colega de classe, cuja origem é japonesa. Wei-Chen é seu melhor amigo, e veio de Taiwan. Todos eles são “orientais” para os colegas de escola e, portanto, são todos iguais. Pior, são culturalmente atrasados e têm sorte de estar vivendo na América.

Danny recebe Chin-KeeMas têm o enorme azar de ainda serem “orientais” e, portanto, diferentes, e não podem participar da vida comum aos alunos “brancos”. Por mais que dominem o inglês, por mais que incorporem o american way of life, por mais adaptados que estejam, não conseguem realizar os desejos comuns a todo jovem norte-americano de sua idade sem que renunciem à própria liberdade de serem quem são.

Para Danny, norte-americano, o maior embaraço é ter que acolher todos os anos seu primo chinês Chin-Kee, que mal sabe pronunciar a língua inglesa, que é extremamente estudioso e sempre responde certo às perguntas dos professores, que é bastante desengonçado quando tenta dançar músicas ocidentais, que tem modos bizarros ao se alimentar e, talvez o pior de tudo, tem costumes bárbaros quando se trata de cortejar as meninas.

Abrindo a obra

O interessante na história do Rei Macaco não é “aprender a aceitar quem nós somos e nos manter fiéis a isso pela eternidade”. Afinal, todos nós mudamos com o passar do tempo e das experiências. Porém, precisamos aprender os limites dos autossacrifícios, que podem muitas vezes nos fazer sofrer mais do que a situação em que somos párias. Por que querer ser humano, se o que me faz realente feliz não pode ser apreciado por um ser humano?

Da mesma forma, o drama de Jin Wang é enfrentar o racismo. Ele chega ao ponto de achar que só se tornando um norte-americano (ou seja, um branco, já que, na ideologia norte-americana, nem índios nem negros nem imigrantes se enquadram nessa categoria) poderá ser feliz.

A lição de que temos que aceitar nossas origens é previsível e um tanto simplória. Como disse acima, podemos mudar se isso for melhor para nós. Mas a profundidade filosófica do conto é a de que o mundo (formado ao mesmo tempo pelo espaço e pelas pessoas que o habitam) precisa aceitar as diferenças idiossincráticas como singularidades e não como defeitos.

E temos surpresas quando nos deparamos com as diferentes facetas dos personagens. Nennhum deles pode ser critalizado pela primeira impressão que temos deles. No final, não se os pode classificar simploriamente como bons nem maus.

Amarrando a trança

As três tramas têm elementos em comum, relativos ao tema do preconceito, da autoestima e da autoaceitação. Mas também elas se entrelaçam, e cada uma das três passa a ter um significado diferente depois que percebemos essa ligação. Três peças bem construídas passam a formar uma obra maior e bem-feita.

Crash: no LimiteOutra proeza  de Yang é abordar as três histórias com três estilos narrativos diferentes. A primeira tem um aspecto épico e poético, com elementos de ação e emoção que remontam ao mesmo tempo a um drama e a uma história de super-herói. A segunda se apresenta como um drama, quase um melodrama com aspectos trágicos. E a terceira é uma comédia, uma paródia dos sitcoms televisivos norte-americanos, que satiriza a forma como os meios de comunicação de massa utilizam os estereótipos étnicos para fazer humor.

Tanto o entrelaçar de histórias como a quebra de expectativa em relação aos personagens lembram o excelente filme Crash (2004), de Paul Haggis, cujo principal tema é racismo e xenofobia. O mérito de O Chinês Americano, como o de Crash, é iludir o expectador e fazê-lo experimentar, na própria degustação da obra, os sentimentos dos personagens ao descobrir as consciências pensantes por trás das máscaras das etnias, das raças ou das espécies.

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Resolvemos experimentar uma periodicidade semanal para as tirinhas Objeto Neuronial, colocando-as no ar aos domingos (certo, certo, estou publicando na segunda-feira, mas vou tentar ser mais pontual).

Apresentamos a personagem Leda, nome que significa alegre e tem o mesmo radical de ledice, derivado do latim Laetitia, que em português se lê Letícia e era o nome de uma deusa romana que personificava a alegria. A história é baseada em fatos reais e você pode vê-la também no blog Objeto Obscuro.

Leda

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Surgiu na natureza uma estrutura suculenta cujas cores vivas e cujos aroma e sabor atraem animais famintos, que deixam cair no solo partes menores e mais duras, que chamamos sementes, e assim o vegetal que deu origem àquela fruta pode se reproduzir.

Alguns insetos utilizam frutas como bercários, pondo seus ovos ali, que eclodem para dar à luz uma larva que logo se serve do berçário como alimento. Animais maiores, que se alimentam dessa fruta, podem também decidir abocanhá-la e engolir junto a lagarta.

Objeto Neuronial 001

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