Um pouco de endorfina

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Estava pensando sobre alguma coisa que me fez rir e me veio a ideia: vou fazer uma lista de coisas que achei engraçadas. Onde as colocarei? No Orkut? No Twitter? Hum… já sei, vou fazer um post na Teia Neuronial sobre isso. Assim, desviando-me um pouco do que costumo fazer aqui na Teia, pela primeira vez (eu acho) farei uma lista. E, como deve ser algo que fuja ao costume deste blog, não é uma lista acompanhada de (muitas) elucubrações.

Apenas alguns comentários sobre coisas que vi, ouvi, presenciei e que me fizeram mostrar os dentes e rir. É claro que, sendo uma pessoa (relativamente) normal, se eu fosse buscar tudo o que me fez simplesmente rir a lista não teria fim. Portanto, aí vão coisas que me fizeram rir à beça, gargalhar mesmo ou, em alguns casos, tocaram com precisão a minha veia cômica mais fina. 10 itens, sem ordem lógica.

1 – “O inimigo do crime!”

Estava vendo Mulan no cinema, rodeado de crianças, e eis que vejo esta cena: Mushu, o dragão que protege Mulan, sobrevoa o palácio do imperador com uma asa-delta em forma de asas de morcego e pousa perto de alguns guerreiros, dizendo:

“Cidadãos, preciso do seu poder fogo!”

Os guerreiros, assustados, perguntam:

“Qu-quem é você?!”

Abrindo a capa de morcego, aparecendo apenas como uma silhueta preta, Mushu arremata:

“O inimigo do crime!”

Ri demais com isso. Adoro essas homenagens satíricas que, sem ser explícitas, mexem com quem conhece a referência. Pena que não encontrei um vídeo em português no YouTube…

2 – Monty Python e o Sentido da Vida

Especialmente quando, no meio do filme, aparece uma história que complementa o curta-metragem apresentado antes do longa, e o narrador se desculpa pela intromissão do curta.

Monty Python, em geral, é sempre hilário e é muito difícil eu não rir com quase qualquer coisa dos filmes do grupo inglês.

3 – “Captain! Jim!”

A cena que serve de ilustração a este post é espetacular. É a melhor explosão de humanidade de Spock de todos os tempos, em que ele mostra realmente seu sentimento de amizade por Jim Kirk. Notem que raramente Spock chama Kirk de “Jim”, preferindo chamá-lo, quase sempre, usando a formalidade “capitão”.

4 – O desaparecimento do tio Thiago

Estava na casa dos meus pais, num dia em que estavam lá meu irmão, sua esposa e seu filho de nenhum ano de idade (meu sobrinho, Paulo Perigo Neto).

Eu me deitara ao pé da cama onde estava Paulinho com os pais, e chamei um pouco sua atenção. Então, passei por debaixo da cama e pus a cabeça do outro lado. Ele ficou surpreso e boquiaberto por um bom tempo, olhando para mim, e seu semblante me fez gargalhar à beça, pois misturava uma situação cômica com a graciosidade do bebê.

5 – Fluxograma de Total Eclipse of the Heart

Este “fluxograma” eu encontrei no The Huffington Post, entre vários gráficos representando músicas conhecidas.

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Acompanhe a música:

Veja também

6 – Calvin não consegue dormir

No geral, as tirinhas de Bill Watterson sobre o menino Calvin e seu tigre de pelúcia Haroldo estão entre as melhores e mais engraçadas do mundo. Esta aqui me fez muito e representa o que considero de melhor em matéria de humor em quadrinhos, a aliança genial entre texto e imagem.

Calvin não consegue dormir

7 – Piada do especialista

Um homem entrou num edifício, procurando um médico, mas acabou entrando num escritório de advocacia.

“Doutor, estou com uma dor terrível no testículo!”

“Senhor, aqui nós trabalhamos com Direito.”

“Vá ser especialista assim na China!”

8 – Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar)

Há alguns meses, minha esposa me introduziu no cinema de Woody Allen, e começamos a colecionar seus filmes.

Baseado num livro homônimo, Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar) é uma coletânea de anedotas muito engraçadas sobre sexo, sexualidade, amor, erotismo et coetera et al. Partindo de uma premissa interessante, que são perguntas simples como “Os afrodisíacos funcionam?”, “O que é sodomia?” ou “Os travestis são todos homossexuais?”, Allen vai contando pequenas histórias com tramas bem feitas e um humor certeiro.

Sem spoilers. Só o trailer:

9 – George Carlin falando sobre as coisas que são comuns a todos

Ele fala sobre coisas tão absurdas e tão comuns que nos faz rir da surpresa: “Por que nunca pensei nisso antes?” O que mais gostei aqui foi que ele prescinde dos preconceitos para ser engraçado. Algumas das coisas que ele conta nem são engraçadas por si mesmas, mas o modo como as relata as torna ridículas (no sentido estrito da palavra).

10 – O Coiote é pego em sua própria armadilha

Numa das melhores e mais bem amarradas tramas de Papa-léguas, o Coiote deixa um copo d’água para sua vítima beber e acionar uma bomba, mas a ave ignora e passa direto. O Coiote continua tentando várias outras armadilhas e, como sempre, se dá mal. No final do episódio, está tão cansado e machucado que não resiste a beber um copo d’água que encontra e… explode! Caiu em sua própria armadilha esquecida.

Do Barba-negra ao McDonald’s

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Ahoy! Os piratas ainda existem e atuam nos sete mares. E embora conheçamos os séculos XVII e XVIII como a Era de Ouro da pirataria marítima, ela existe desde a Antigüidade e até os dias atuais.

Aye! Nesta matéria do site Live Science, o professor Peter Hayes, da Universidade de Sunderland, no Reino Unido, sugere que o capitalismo contemporâneo das multinacionais tem raízes na pirataria:

Piratas do Tietê por Laerte

The way that privateering was operating back in the golden age of buccaneering, is that a group of individuals come together, and agree to kit out a ship to sail the seven seas to see if they can pull in some gold. It was a global gamble for enormous rewards. These predatory voyages are the roots of modern venture capitalism, with these modern multi-national corporations out to get all they can get. That’s the sort privateering that led to the credit crunch […]

É curioso saber que os hodiernos métodos do Capitalismo provêm do vandalismo bucaneiro. Da mesma forma que os piratas aventureiros são muitas vezes romantizados, apesar de sua violência cometida através de roubos e assassinatos, os modenos empreendedores capitalistas, apesar das conseqüências nefastas ao meio ambiente e da contribuição para a intensificação da desigualdade social, são ovacionados pela ideologia individualista que louva a livre iniciativa.

Monty Python e o Sentido da VidaA imagem dos piratas é tão compatível com os empreendimentos capitalistas modernos que em Monty Python e o Sentido da Vida há uma cena em que duas empresas, uma antiga e uma jovem, se digladiam ao modo do duelo entre dois navios, tendo início o combate com uma abordagem piratesca da empresa antiga ao edifício da empresa jovem. No final, o edifício antigo sai se locomovendo pela cidade como se fosse uma nau.

O fascínio pelos piratas é tanto que existe uma espécie de “cultura pirata”, cuja manifestação máxima se dá no dia 19 de setembro, o Talk like a Pirate Day. Misturando várias referências da cultura popular sobre os piratas, como o modo de vestir e se portar mostrado em velhos filmes hollywoodianos e o modo de falar criado por escritores como Robert Louis Stevenson (Ilha do Tesouro) e James Mathew Barrie (Peter Pan), os piratamaníacos chegaram ao ponto de consolidar um jargão pirata, que só funciona praticamente em inglês. Mas já teve as versões alemã, sueca, chinesa e francesa criadas pelos fãs de outros países. Os festeiros do Talk like a Pirate incitam os cidadãos comuns a liberar seu “pirata interior” através desse linguajar bruto e engraçado.

No Brasil, a mais interessante criação sobre este tema são as divertidas tirinhas Piratas do Tietê, de Laerte. Nessa obra, os piratas são usados para satirizar política, economia, cultura, família, quadrinhos, video games, sexualidade, educação et coetera et al.

Os GooniesSeja em uma miríade de filmes (dos quais Os Goonies representa e tematiza a própria piratamania), seja nos quadrinhos, seja na literatura e até nos video games (Monkey Island, Puzzle Pirates), os piratas talvez nos causem esse fascínio por vários motivos. Pelo caráter aventureiro, desregrado e fora-da-lei, que nos toca nos desejos reprimidos de fazer coisas proibidas. Pelo contato com a imensidão do mar, que povoa o imaginário humano com sentimentos de imensidão e de retorno às águas primordiais.

Os piratas chegaram até a fazer parte do evangelho de uma religião satírica, a Igreja do Monstro-Espaguete Voador, para a qual o aquecimento global é causado pela diminuição do número dos piratas no mundo. Mas, como noticiado pela matéria citada no começo deste texto, ainda existe pirataria marítica em todo o planeta.

Prefiro mantê-los apenas nas sátiras.

Notas pós-texto

Este texto fora escrito originalmente em 21 de outubro de 2008 e.c., e tinha naufragado no oceano internético. Felizmente consegui resgatá-lo, infelizmente sem os comentários.

História da pirataria

Felizmente, vim a ler mais sobre a pirataria e descobri uma coisa interessante. No livro The Many-Headed Hydra: The Hidden History of the Revolutionary Atlantic (A Hidra de Muitas Cabeças: A História Oculta do Atlântico Revolucionário), de Peter Linebaugh e Marcus Rediker, do qual encontrei algumas resenhas na internet, oferece uma visão da pirataria diferente daquela consagrada pela história clássica.

Os autores contam sobre um movimento revolucionário generalizado durante os séculos XVII e XVIII no Atlântico, quando as navegações exploratórias para o avanço do Capitalismo estavam em alta nesse oceano. Fugindo à lógica das explorações capitalistas e escravocratas, alguns grupos de marinheiros proletários instauraram ou desenvolveram modos de vida subversivos, igualitários e meio que comunistas/anarquistas.

Entre esses grupos, muitos marinheiros se insurgiram contra a rígida disciplina da Marinha, a suas opressoras hierarquias, à escravidão e ao nacionalismo. Dessa forma, os autores de The Many-headed Hydra mostram que a imagem que temos hoje dos piratas como desordeiros criminosos é deturpada. Eles eram em geral desordeiros por que infringiam a ordem vigente e eram criminosos no sentido em que agiam contra a lei dominante nos mares.

Os piratas formavam tripulações mestiças, o que pode ter ajudado a criar uma imagem, até hoje presente, de que eles eram degenerados e selvagens. Desde há muito a mestiçagem é representada como um processo que depurifica a “raça”.

Eles também partilhavam as pilhagens igualitariamente, subvertendo as hierarquias da Marinha. Assim, ganharam a pecha de caóticos e anarquistas, pois a ordem das relações de poder era valorizada pela elite interessada pela manutenção dessa mesma ordem.

Dessa forma, os piratas não eram um grupo tão negativo como o que a história oficial e os estereótipos satíricos nos legaram. Porém, é preciso lembrar, como a resenha de Robin Blackburn sobre o livro bem aponta, que os autores parecem ter sido muito românticos em sua dissertação, exaltando alguns fatos e menosprezando outros. Não nos esqueçamos de que os piratas, como qualquer grupo marginal que se destacou da ordem vigente em qualquer episódio da história humana, para sobreviver, usaram da violência e da morte em suas aventuras.

Autoanálise

De certa forma, ler essas informações históricas redimiu um pouco a imagem dos piratas para mim. Paradoxalmente, piratas são personagens que sempre me fascinaram, desde os desenhos animados de Peter Pan, passando pelos Goonies, Piratas do Caribe, por toda sátira que os envolvia, como os Piratas do Tietê e a popularização dos piratas como uma fantasia divertida. Veja, por exemplo, o Talk like a Pirate Day.

Lembro que, nas aulas de História, contava-se que os corsários franceses faziam amizade com os nativos sul-americanos, pois não vinham com intenção de oprimi-los, como o faziam os colonizadores a mando dos reinos europeus. Isso me intrigava, pois os corsários e piratas, pelo que eu sabia, só queriam saber de matar, saquear, pilhar e enriquecer. Agora eu entendo que quem fazia tudo isso eram os próprios navegantes “oficiais”.

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