O libertador

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Antes de ser morto meu pai, ensinou-me que ao homem é preciso sempre superar-se, romper seus limites, como um Raskónikov capaz de relevar a culpa, de não ceder às pressões que se abatem sobre o homem que fraqueja. Antes de ser morto meu pai, disse-me tantas coisas a respeito da vida e da necessidade de não ser passageiro, de eternizar-se.

Disse-me, antes de ser morto meu pai, da glória de Caim: explicava-me que a Abel restou a inanidade dos mártires, cujo feito maior é deixar-se abater. Dizia-me que o irmão a ser celebrado era aquele capaz de quebrar a apatia em que Deus mergulhara seus pais, a quem a subserviência deveria ser uma condição inquestionável. Caim fora sempre o libertador, o que estilhaçou as amarras a com que o Criador atara suas crias: Caim desfez a escravidão de seus pais e pôde fazer-se, de fato o primeiro homem, pois que seu pai era um arremedo, a pantomima de um homem incompleto.

Antes de ser morto meu pai, contou-me que era preciso ser único em seu tempo, desenhar marcas indeléveis a seu redor, ser insuperável, destroçar a apatia, o imobilismo que tende a acomodar-se, primeiro na alma, depois nos músculos do corpo do homem.

Compreendi suas lições e, por isso, nunca precisei que ele me perdoasse por tê-lo matado.

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Peixe Podre

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– para Leão Neto, que me apresentou respeitosamente este homem

A faca rasgava a barriga do peixe como se abrisse nuvens, de onde escorreria uma chuva vermelha e viscosa. A arte das facas, a sorte lida nas vísceras, infortúnios em lugar de fortuna. As mãos tingidas do vermelho sangue-chuva-viscosa das entranhas dos peixes. O cheiro impregnado no corpo, no couro, no osso, na origem da alma. O odor ancestral dos peixes arrebatados pela rede de seu pai, do pai de seu pai, e do pai deste e do outro até o início dos tempos, como se Adão carregasse no ombro sua vara de pesca.

Peixe Podre o chamavam, desde antes, de sempre. A caixa de isopor amarrada ao bagageiro da bicicleta e um cordão de cinco peixes raquíticos presos pelas bocas. “Peixe podre”, ele gritava pelas ruas, como a cidade o chamava. Vendia-os por uma pequena miséria amealhada, suficiente apenas para um tanto de feijão e outro tanto de cachaça. O cheiro fétido do isopor era também o cheiro de seu corpo e da cama de rosas mortas em que se deitava aquele homem miserável e sua mulher miserável ocupada do miserável legado que seus filhos receberiam.

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Anticristo

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De Anticristo (Antichrist, 2009), de Lars von Trier, se diz que é um filme de terror. Não gosto de classificar os filmes em gêneros, “comédia”, “ação”, “ficção científica”. Isso sempre empobrece a apreciação da originalidade de uma obra. Felizmente, Anticristo é tão sui generis que se torna um bom exemplo da impossibilidade de se reduzir uma obra original a um rótulo.

A história é no geral um drama, com elementos de tragédia e, certamente, de terror. O tema principal é a face maléfica do feminino e a misoginia. Mas, se há mérito pela originalidade artística e pela abordagem ao tema, também se pode dizer que a obra como um todo é um exagero de grotesquidão, e a impressão que fica no final é: “o que diabos esse filme diz?”

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A morte e o texto

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O texto, expressão escrita da língua — literário, ficcional, filosófico ou científico —, tem o caráter simbólico da morte. A inércia do texto o faz ter essa cara de epitáfio, que simboliza o signo do qual só se tem a lembrança, evocada em cada leitura, como o morto evocado na memória inscrita na lápide.

O texto científico é conhecimento cristalizado, como a crisálida, letárgica, numa condição de quase morte, e que ressuscita como um ser feérico, quase etéreo como a ideia. A partir do momento em que publica seu texto, o cientista tem em mãos um fruto morto, obsoleto em relação ao conhecimento que está sempre mudando e se aperfeiçoando.

Roland Barthes, na Aula, diz que todo texto literário é libertário, por subverter a ordem da instituição mais repressora — a língua. Ora, liberdade é morte; é na morte que se desfazem os grilhões da dominadora cultura, inevitável para a vida humana. E, na experiência pseudolibertadora do texto — para o autor e para o leitor — pode-se sonhar; e no sono/sonho se experimenta antecipadamente a morte. Pode-se vivenciar uma realidade que ultrapassa a prisão das instituições humanas. Assim, a morte como transformação também caracteriza o texto artístico, que transforma a língua; o texto filosófico/científico, que transforma a realidade.

O texto acaba sendo a principal forma de transmissão de conhecimento em sociedades que conhecem a escrita. Na transmissão pela fala, os saberes se transformam mais rapidamente, porém mais caoticamente. É possível a gradual mudança do conhecimento sistematizado, racional ou artístico, através dos textos, periódicos ou livros. Mas a lentidão, que se sente na leitura de cada texto, na experiência pessoal, é comparável às sucessivas mortes e renascimentos da vida, tanto da matéria quanto da consciência. A sensação, no leitor, da desilusão, da angústia sadia, da solidão, que o conhecimento traz ao descortinar a realidade, da arte ao transformá-la, é a angústia da mudança brusca, da morte.

Não é à toa que a linguagem é feminina, passiva, instrumento do autor para sua paixão. Feminina porque idealmente inerte (e a inércia/morte é feminina; o feminino é inércia/morte), aparece aos humanos como sujeita a eles. Porém, o citado Barthes já disse que, longe de permitir dizer, a língua obriga a dizer. E os homens ficam sujeitos a essa bruxa, prostituta que se aproveita dos indefesos meninos que estão dentro deles. A meretriz(/bruxa) é um dos grandes arquétipos femininos relacionados à morte: a mulher que nega a maternidade, Medéia que mata seus filhos. Mas, além disso, não vamos negligenciar o caráter de mãe/parteira, que dá à luz imagens, idéias, conhecimento, discernimento.

Notas póstumas

Este texto foi publicado originalmente em 14 de dezembro de 2004, na primeira Teia Neuronial. É um exemplo de texto que eu não escreveria hoje em dia, pelos seguintes motivos:

  1. O encadeamento das ideias é desordenado, seguindo o rumo caótico do pensamento em devaneio. Os parágrafos seguem um rumo parecido com o dos veios de um rio, como se a escolha dos afluentes fosse feita ao acaso. As ideias foram jogadas uma depois da outra e não me preocupei em esgotar as alusões e referências.
  2. Há muitas figuras de linguagem expostas numa tentativa de compor um texto literário-filosófico. Abundam as afirmações e escassam os questionamentos. Não deixei muito espaço para a autocrítica nem heterocrítica, e o texto acabou ficando naquilo que ele mesmo descreve: na morte estática.
  3. O que me leva a outro ponto: não tive, quando escrevi esse texto, a intenção de revisá-lo depois. Qualquer coisa que viesse posteriormente seria acréscimo e nunca cortaria nada. Hoje em dia, todo texto meu é passível de revisão, de desmembramentos que fujam da linha original. Ou seja, procuro fazer meus textos vivos e subverter a ideia de que eles têm necessariamente de se manter imutáveis.
  4. Apesar do caráter quase autocrítico do texto, havia ali a manifestação de uma obsessão pela morte, uma tanatomania adolescente que há pouco tempo abandonei. O texto era uma forma de me manter cultivando ideias mórbidas que me fizeram mal por um período da vida.
  5. Enfim, já não concordo totalmente com as ideias em si do texto.
    1. Em Obra Aberta, Umberto Eco mostra que os textos escritos são passíveis de releitura e de ampliação muito além daquilo que porventura o autor pensou originalmente. Todo texto pode ser resscrito pelo seu autor e revisto pelos leitores.
    2. Dizer que alguma coisa tem caráter feminino é verdade até certo ponto. Se o caráter passivo do texto lembra a representação de que o lado feminino da dualidade (idealizada) de gênero é passivo, isso só se aplica a alguns aspectos (pois o “feminino” tem características ativas, é só ver a própria imagem da bruxa). Além disso, a divisão masculino/feminino da realidade é um ideal que serve mais para justificar certas divisões arbitrárias do que a representação da realidade.

Talvez eu devesse escrever um novo capítulo desta saga: A Vida e o Texto ou O tear como metáfora da ramificação infinita do texto escrito.

No entanto, o tema do fascínio humano pela morte e a relação dele com a escrita pode render elucubrações interessantes. Só o Livro dos Mortos egípcio já serve de mote para um texto.

Objeto Neuronial 001

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Surgiu na natureza uma estrutura suculenta cujas cores vivas e cujos aroma e sabor atraem animais famintos, que deixam cair no solo partes menores e mais duras, que chamamos sementes, e assim o vegetal que deu origem àquela fruta pode se reproduzir.

Alguns insetos utilizam frutas como bercários, pondo seus ovos ali, que eclodem para dar à luz uma larva que logo se serve do berçário como alimento. Animais maiores, que se alimentam dessa fruta, podem também decidir abocanhá-la e engolir junto a lagarta.

Objeto Neuronial 001

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