Princesa, heroína e guerreira: Valente

Padrão

A respeito da resenha de Thiago Leite sobre o filme Valente, considero que houve um equívoco crasso quando se categorizou a Valente princesa Mérida como transexual, “guerreiro em corpo de mulher / herói em corpo de princesa”, pois existe uma diferença abissal entre ser transexual, ou seja, pessoa com transtorno de identidade de gênero, que não aceita o próprio sexo biológico e sofre com isso, e ser uma pessoa simplesmente inconformada com seu papel social de gênero. E sinto que este tipo de confusão, se perpetuada, seja um desserviço tanto para as mulheres inconformadas com um papel social que as oprime e reprime, quanto para os transexuais, que sofrem muito pela não aceitação de seu sexo biológico.

Mérida se ressente de seu papel social opressivo de mulher, de não poder correr livre em seu cavalo, de não poder usar seu talento como arqueira em competições, de não poder lutar por si mesma. Não vemos a Valente princesinha Mérida exibir sofrimento intenso por seu sexo biológico de mulher, nem mesmo quando o filme a mostra sozinha e livre para fazer o que deseja. Pelo contrário, não a vemos tentando extirpar seus seios ou mesmo disfarçá-los com faixas apertadas, leva seus cabelos vermelhos revoltos ao vento sem cortá-los ou trançá-los, não usa calças, usa vestidos longos e sente-se confortável com eles, usando-os até para escalar montanhas. Vale lembrar que cabelos longos, principalmente vermelhos, são forte símbolo de feminilidade e que cabelos longos, brilhantes e saudáveis são sinais de fertilidade e saúde, logo a feminilidade de Mérida é pontuada através destes símbolos adequados à cultura ocidental, principal público-alvo da Pixar, desde as primeiras cenas do filme. Mérida é menina e moça, guerreira, heroína e princesa.

Eis algumas definições tiradas do ótimo artigo “Transexualismo Masculino”, de Amanda V. Luna de Athayde , artigo este que recomendo fortemente ler:

Gênero: é o que o ser humano se torna sexualmente, seja homem ou mulher.

Identidade de gênero: é a convicção interna de feminilidade ou masculinidade.

Papel de Gênero (gender role): é o estereótipo social do que é masculino e o que é feminino.

Desordens [transtornos] de Identidade de Gênero: é quando existe uma discordância entre o sexo biológico e sua identidade de gênero, entre as quais se encontra o transexualismo.

O transexual não se opõe apenas ao papel social que lhe é imposto como homem ou mulher, ele realmente sofre desesperadamente por ter o sexo biológico que tem e em muitos casos tenta até se mutilar para tentar fazer seu corpo se parecer mais com o sexo com o qual se identifica. Moças biológicas, mas transexuais masculinos, podem tentar arrancar os seios e meninos biológicos, mas transexuais femininos, podem tentar arrancar o pênis, por isso é tão importante diagnosticá-los cedo e encaminhar para cirurgia de mudança de sexo, para evitar que sofram desnecessariamente e até possam se mutilar…

O transexual geralmente tem extrema antipatia, aversão mesmo, ao próprio genital e aos caracteres sexuais secundários, como seios, barba, músculos ou a falta deles etc. Às vezes o transexual prefere ficar sem atividade sexual, extirpando o pênis, por exemplo, para se parecer com o sexo com que se identifica, do que ter alguma atividade sexual com seu genital. A atração sexual para eles é secundária, várias vezes muito baixa, o problema real é o desgosto com o próprio sexo.

Eis a definição do CID-10 sobre Trasexualismo:

F64.0 Transexualismo
Trata-se de um desejo de viver e ser aceito enquanto pessoa do sexo oposto. Este desejo se acompanha em geral de um sentimento de mal estar ou de inadaptação por referência a seu próprio sexo anatômico e do desejo de submeter-se a uma intervenção cirúrgica ou a um tratamento hormonal a fim de tornar seu corpo tão conforme quanto possível ao sexo desejado.

Sugiro o excelente documentário Meu Eu Secreto, sobre crianças transexuais, para melhor compreensão do transexualismo, que quase nada tem a ver com atração sexual:

Também sugiro assistir ao ótimo filme Transamerica, com a excelente Felicity Huffman, onde podemos ver, entre outros casos, um transexual masculino e um transexual feminino apaixonados depois da cirurgia para troca de sexo.

Sobre Mérida ser heterossexual ou homossexual, também não é este o ponto central da história e não vemos a princesa exibir atração, seja pelo sexo oposto, seja pelo sexo similar ao seu, nem por rapazes, nem por moças, pois é muito jovem, aparenta ter entre 14 e 15 anos, não a vemos suspirar por ninguém e o foco do filme foi a relação entre Mérida e sua família, principalmente sua mãe, a rainha reprimida e submissa ao seu papel social de gênero e que, apesar de amar e ser muito carinhosa com Mérida, tentava impor a ela sua própria repressão e submissão ao papel social de princesa e mulher. Mérida diz que ainda não está pronta para casar e podemos apenas ver que despreza as bravatas do primogênito Macintosh, mostra uma pontinha de interesse pela força do primogênito de MacGuffin e junto com toda sua familia mostra surpresa e admiração com o “guerreirão” que à primeira vista parece ser o primogênito do Clã Dingwall, e que se desaponta com o verdadeiro filho de Dingwall, como pode ser visto neste trecho do filme disponibilizado no Youtube:

A rainha era uma mulher extremamente forte, poderosa, porém rigidamente reprimida e resignada ao seu papel social, usando o poder que tinha somente dentro das limitações deste papel, sendo emblemática a conversa que tem com o pai de Mérida quando este tenta lhe ajudar a falar com a filha e se espanta quando ela deixa escapar, como se falando com Mérida, que ela também, apesar de estar agora bem casada, teve seus receios ao ser obrigada a casar, mas acabou casando e ficou tudo bem.

A jornada desta mãe e desta filha para a desrepressão é o foco do filme, Mérida aproveita as lições da mãe quando necessário, usando sua presença feminina e porte ao cruzar o pátio cheio de guerreiros brigões, fazendo-os parar de brigar com sua majestosa presença, impostando sua voz ao fazer seu discurso, como sua mãe lhe ensinou e, divertidamente, usando a técnica do pai, gritando para fazê-los parar de falar quando quer. Mérida aceita e utiliza tanto as lições da mãe quanto as do pai para conseguir seus objetivos.

Interessante notar que o pai de Mérida a apoia e, naqueles tempos tão perigosos, diz que “lutar é fundamental, não importa se ela é uma lady ou não”.

Vemos este paizão apoiando Mérida ao longo de todo filme e neste clip da Pixar, disponível no Youtube, vemos como ele dá a Mérida lições de esgrima, escondido da mãe.

Os irmãos de Mérida a admiram, como pode ser visto no trecho onde ela conta que bebeu água na Cascata de Fogo e a ajudam ao longo da história.

Também é interessante ver que Mérida não se amedronta frente aos outros guerreiros e ao pai, enfrentando-os e até cruzando espadas com o pai e impedindo-o de machucar a mãe-ursa. Quantas meninas, héteros perfeitamente identificadas com seu sexo biológico, não sonham a mesma coisa ao serem ameaçadas e/ou verem seus entes queridos, inclusive suas mães submissas sendo ameaçadas/espancadas por este mundo afora?

Mulheres inconformadas com a imposição social de seu papel de gênero não são necessariamente homossexuais e muito menos transexuais, muitas de nós somos mulheres heterossexuais e gostamos muito de nosso próprio sexo biológico – e mais ainda de nossa capacidade de termos orgasmos múltiplos, só quem já sentiu sabe como é bom – e nos sentimos atraídas pelo sexo oposto. “Cheiro de homem” nos encanta e excita. Queremos ter a liberdade de, além de fazer sexo com nosso “príncipe encantado”, poder viver, trabalhar e até lutar ao lado dele. Queremos ter os mesmos direitos e deveres de nossos parceiros, não sermos nossos parceiros.

Não dá para saber se a Valente Mérida é heterosexual ou homosexual, pois isso não fica claro no filme, o foco é a relação dela com a mãe e a sociedade machista e repressora, mas dá para saber que ela é uma mulher, não um transexual, e que está inconformada com seu papel social de gênero, não quer ser reprimida e resignada a seu papel social de mulher, como a mãe, mas livre para cavalgar e usar arco e flecha ou espadas, subir em montanhas e o que mais quiser.

Para pensar: geralmente quando uma mulher heterossexual tenta se insurgir contra o seu papel de gênero socialmente imposto (redundância proposital), uma das violências que sofre é a tentativa de lhe atribuírem estigmas que não lhe são realistas, como ser homossexual ou transexual. Ela não quer se submeter a seu papel de mulherzinha, então tentam lhe roubar a própria feminilidade, caluniando-a com o estigma homossexual / transexual que não lhe pertence.

É nesse ponto que identifico o desserviço a nós mulheres e aos transexuais, pois a resenha inicial sobre Valente reduz o sofrimento destes ao simples inconformismo com o papel de gênero e nos rouba a possibilidade de sermos mulheres héteros, femininas e valentes inconformadas ao papel de gênero.

Várias mulheres ao longo da história mereceram o título de “guerreira” e não “guerreiro”, como por exemplo: Joana d’Arc, Anita Garibaldi, Joana Angélica, e mais diversas, entre as quais uma lista pode ser vista aqui, o de “heroína” e não “herói”, como Amélia Earhart, Rosa Parks, Eva Perón, Aung San Suu Kyi e tantas outras. Além disso, também existem os termos “pioneira” para designar mulheres como Marie Curie, Chiquinha Gonzaga, Ada Lovelace, Florence Nightingale etc., sem contar as mulheres identificadas ao longo da história com os termos “lutadora”, “desbravadora”, “escritora”, “autora”, “professora”, “astrônoma” etc. Interessante notar que “Valente” admite ambos os gêneros.

Repetindo-me propositalmente: Mérida não tem problemas com seu corpo, até quando escala montanhas e está sozinha ela não dá qualquer demonstração de não aceitá-lo. Ao contrário, sua feminilidade é enfatizada por usar vestidos longos sempre, até cavalgando e escalando, e ter seus longos cabelos esvoaçando ao vento. O filme é muito feliz na sutileza com que aborda o não conformismo, tanto de Mérida com seu papel social, quanto de sua mãe, com o corpo de ursa. Penso que é um filme que ajudará gerações de crianças, tanto héteros quanto homo e transexuais a serem mais assertivas em suas vidas e terem a noção de que podem sim serem diferentes, que não precisam se submeter ao que a sociedade lhes impõe.

O prêmio de Mérida ao final do filme não é o príncipe encantado, é a liberdade de ser quem ela é.

Eis mais algumas definições, a grosso modo, só para esclarecer um pouco mais as diferenças e semelhanças sobre a diversidade sexual e de comportamento que há por aí:

  • Heterossexual é a pessoa que se identifica com o próprio sexo biológico, gosta de ser homem ou mulher, gosta de ter o próprio genital, gosta de seus caracteres secundários (barba, seios etc.) e sente atração sexual e emocional pelo sexo oposto ao seu. Pode ou não se conformar com seu papel de gênero e, no caso de não se conformar, participar de movimentos feministas, por exemplo.
  • Homossexual é a pessoa que se identifica com o próprio sexo biológico, gosta de ser homem ou mulher, gosta de ter o próprio genital, gosta de seus caracteres secundários (barba, seios etc.) e sente atração sexual e emocional pelo mesmo sexo que o seu. Pode ou não se conformar com seu papel de gênero e, no caso de não se conformar, participar de movimentos feministas, por exemplo.
  • Bissexual é a pessoa que se identifica com o próprio sexo biológico, gosta de ser homem ou mulher, gosta de ter o próprio genital, gosta de seus caracteres secundários (barba, seios etc.) e sente atração sexual e emocional tanto pelo sexo oposto quanto pelo mesmo sexo que o seu. Pode ou não se conformar com seu papel de gênero e, no caso de não se conformar, participar de movimentos feministas, por exemplo.
  • Transexual é a pessoa que não se identifica com seu sexo biológico, desejando ter o genital do sexo oposto e ser do sexo oposto, não importa o tipo de atração sexual que sente, ou se sente. Seu sofrimento é muito maior do que a simples inconformação com um papel social de gênero ou do que simplesmente sentir-se atraído por pessoas do próprio sexo.
  • Travesti é a pessoa que veste roupas do sexo oposto, seja temporariamente, seja por longo tempo, o objetivo é a excitação sexual. O travesti pode gostar muito do próprio genital, de ter um pênis, sendo atraído por homens ou por homens e mulheres. Não confundir com travestismo transexual, quando o transexual veste roupas do outro sexo por identificar-se com ele. O travesti tem forte impulso sexual, o transexual geralmente não tem impulso sexual forte.
  • Crossdresser é a pessoa que se veste como o sexo oposto, seja por que motivo for, apenas por brincadeira, por profissão, por gostarem etc. O rapaz que usa saia como curiosidade e protesto social, mas é homem hétero e gosta de mulher, é/está crossdresser. Mulan, outra forte princesa Disney, foi crossdresser por necessidade, para proteger o pai disfarçou-se de homem e entrou no exército, mas nunca deixou de ser mulher e, no caso, bem mostrado no filme, heterossexual.

Sugiro ver este link da Wikipédia para entender mais sobre travestismo, pois há muito mais diversidade do que imaginamos e esta página tem alguns exemplos e definições ótimos.

Links

Valente

Padrão

Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Valente (Brave, 2012), produção da incorruptível Pixar, traz um conto de fadas com mais uma princesa em busca da realização do seu destino. A diferença é que, contrariamente a todas as princesas Disney (distribuidora da obra), Merida não é uma mera donzela passiva e seu destino é incerto durante toda a narrativa.

Sinopse (com spoilers)

Filha de Fergus, chefe do clã escocês DunBroch, e de Elinor, a primogênita Merida é desde criança incentivada pelo pai a usar o arco, instrumento tradicionalmente reservado aos homens, e ela desenvolve o gosto pela aventura e por tudo o que se relaciona ao mundo masculino, desprezando as lições da mãe sobre feminilidade e a boa conduta de uma princesa.

A impertinência de Merida chega ao cúmulo quando ela se recusa a escolher um pretendente entre os primogênitos dos outros clãs (Dingwall, MacGuffin e Macintosh – este último nome faz parte da homenagem da obra a Steve Jobs), o que quase dá início a uma guerra. Depois de brigar com a mãe e simbolicamente rasgar uma manta costurada por Elinor, Merida segue fogos fátuos na floresta, que sua mãe dizia serem mágicos e levarem ao destino de quem os seguisse, e encontra uma bruxa, que lhe vende um feitiço para “mudar minha mãe e meu destino”.

O feitiço transforma Elinor num urso, o que obriga mãe e filha a fugirem do castelo (especialmente pelo fato de Fergus estar esperando há anos por se vingar de Mor’du, um urso que lhe arrancou uma perna). Merida descobre que o feitiço só pode ser quebrado se ela decifrar um enigma que envolve a reconstituição de algo que foi alterado. Após viver algum tempo com a mãe (em forma de urso) na floresta, elas retornam ao castelo, onde Merida (com o auxílio da mãe) consegue convencer os chefes dos quatro clãs de que a tradição deveria ser alterada e os jovens deveriam poder decidir com quem vão se casar.

Enquanto Merida costura a manta que ela rasgara, pensando que assim poderia quebrar o feitiço, Fergus encontra e enfrenta a própria esposa, achando que é Mor’du, e conclama seus guerreiros para executá-la. O verdadeiro Mor’du aparece, e Elinor consegue matá-lo numa luta. Com todos reconciliados, a rainha volta à sua forma humana e o equilíbrio é restabelecido numa nova ordem.

A jornada da heroína

A trama de Valente em si mesma é um simples conto de fadas como qualquer outro. Segue toda a estrutura narrativa campbelliana (a jornada do herói) e acrescenta pouca novidade em comparação com as histórias folclóricas consagradas, especialmente aquelas imortalizadas na telona pela Disney. Porém, a Pixar sabe, mais do que adaptar contos de fadas para o cinema, inventar novas fábulas (quase todos, senão todos, os roteiros do estúdio são originais). E mesmo pisando em terreno conhecido, Valente traz uma novidade óbvia, que é uma heroína do sexo feminino.

Logo no começo da história, vemos que Merida está destinada ao conflito entre a liberalidade do pai e as exigências tradicionais da mãe. E é bom salientar que a jovem não se torna pura e simplesmente uma guerreira obtusa como Fergus. Diferente deste, ela acredita em magia e em lendas, e deve isso à sua mãe. Sem esse elemento fantástico, a trama não se desenvolveria como o fez.

No início deste texto eu disse que Merida não é como as outras princesas Disney. E o principal elemento que lhe falta para ser uma é um interesse amoroso, um príncipe para chamar de seu (ou para que ele a chame assim). Nenhum dos pretendentes desperta o menor interesse nela, e durante toda a história não aparece a menor menção sub-reptícia de um possível amor romântico. Merida é uma amazona como as das lendas gregas, condensa em si mesma os dois papéis, o de princesa e o de guerreiro, assumindo a responsabilidade pelo próprio destino.

Todo a resolução do conflito é resolvida pelas duas mulheres protagonistas, Merida e Elinor. Não que nas lendas e contos as mulheres não resolvam conflitos (vide Psiquê na mitologia grega), mas é raro que o façam como guerreiras e não utilizando a psique. Normalmente, o feminino, nos contos de fadas, se encarrega da parte mágica e psíquica dessa resolução, enquanto os conflitos físicos são tarefa dos homens. Em Valente, vemos uma mudança nesse paradigma, pois as duas metades, o yin e o yang do drama, são empreendidos pela mulher.

A fábula poderá ter um efeito positivo em meninos, acostumados com heróis masculinos, e em meninas, que praticamente só conhecem nas histórias garotas que são princesas. A quebra do paradigma sexual dualista, embora ainda não radical, possibilita a reflexão sobre a liberdade individual perante as exigências sociais quanto à identidade de gênero.

Herói em corpo de princesa

O filme tem uma mensagem oculta, que a maioria das crianças e grande parte dos adultos não vão perceber. Merida é uma transexual. Ela não assume a identidade feminina exigida pela sua cultura, tendo uma personalidade e hábitos de um homem. Participa ativamente de atividades esportivas/bélicas, caminha com uma postura masculina, não se importa quase nada com vestidos e maquiagem e não segue a etiqueta ensinada por sua mãe à mesa.

É importante fazer uma referência a Mulan, uma das principais princesas da Disney. É inevitável que se façam comparações entre as duas, mas Mulan não nasceu no corpo errado, digamos assim. Ela não é uma amazona, e só assume a identidade de homem para evitar uma desonra familiar e a destruição do Império Chinês. Quando termina sua missão, ela volta a ser a moça prendada que sempre foi e até se casa com um galante general ao qual serviu em batalha.

Merida continua a ser, de certa forma, um rapaz em corpo de moça ao final da história, e mesmo mantendo uma identidade feminina, pode-se ler nas entrelinhas uma tímida mensagem destinada às pessoas que, por alguma razão, sentem-se como se não pertencessem ao sexo com o qual nasceram.

Corrobora essa interpretação a necessidade de sua mãe assumir outro corpo para vir a compreender a filha. O feitiço ajudou Elinor a entender o drama de Merida, ou seja, a falta de identificação com o próprio gênero. Sendo assim, embora seja muito sutil, a mensagem do filme é bem subversiva para os padrões do cinema infanto-juvenil. A pequenos passos, o cinema está evoluindo.

Adendo importante (10/08/2012 e.c.) (editado em 28/11/2013 e.c.)

Vejo agora que a afirmação acima de que Merida é “transexual” é uma forçação de barra que teria sido melhor evitar.

Leiam com atenção o post Princesa, heroína e guerreira: Valente de Nívea Melo, uma crítica muito boa ao meu texto, que traz outras questões pertinentes para a compreensão da mensagem do filme. Leiam também o texto que escrevi posteriormente, Merida, seus pretendentes e o transgenerismo.

Um pouco de endorfina

Padrão

Estava pensando sobre alguma coisa que me fez rir e me veio a ideia: vou fazer uma lista de coisas que achei engraçadas. Onde as colocarei? No Orkut? No Twitter? Hum… já sei, vou fazer um post na Teia Neuronial sobre isso. Assim, desviando-me um pouco do que costumo fazer aqui na Teia, pela primeira vez (eu acho) farei uma lista. E, como deve ser algo que fuja ao costume deste blog, não é uma lista acompanhada de (muitas) elucubrações.

Apenas alguns comentários sobre coisas que vi, ouvi, presenciei e que me fizeram mostrar os dentes e rir. É claro que, sendo uma pessoa (relativamente) normal, se eu fosse buscar tudo o que me fez simplesmente rir a lista não teria fim. Portanto, aí vão coisas que me fizeram rir à beça, gargalhar mesmo ou, em alguns casos, tocaram com precisão a minha veia cômica mais fina. 10 itens, sem ordem lógica.

1 – “O inimigo do crime!”

Estava vendo Mulan no cinema, rodeado de crianças, e eis que vejo esta cena: Mushu, o dragão que protege Mulan, sobrevoa o palácio do imperador com uma asa-delta em forma de asas de morcego e pousa perto de alguns guerreiros, dizendo:

“Cidadãos, preciso do seu poder fogo!”

Os guerreiros, assustados, perguntam:

“Qu-quem é você?!”

Abrindo a capa de morcego, aparecendo apenas como uma silhueta preta, Mushu arremata:

“O inimigo do crime!”

Ri demais com isso. Adoro essas homenagens satíricas que, sem ser explícitas, mexem com quem conhece a referência. Pena que não encontrei um vídeo em português no YouTube…

2 – Monty Python e o Sentido da Vida

Especialmente quando, no meio do filme, aparece uma história que complementa o curta-metragem apresentado antes do longa, e o narrador se desculpa pela intromissão do curta.

Monty Python, em geral, é sempre hilário e é muito difícil eu não rir com quase qualquer coisa dos filmes do grupo inglês.

3 – “Captain! Jim!”

A cena que serve de ilustração a este post é espetacular. É a melhor explosão de humanidade de Spock de todos os tempos, em que ele mostra realmente seu sentimento de amizade por Jim Kirk. Notem que raramente Spock chama Kirk de “Jim”, preferindo chamá-lo, quase sempre, usando a formalidade “capitão”.

4 – O desaparecimento do tio Thiago

Estava na casa dos meus pais, num dia em que estavam lá meu irmão, sua esposa e seu filho de nenhum ano de idade (meu sobrinho, Paulo Perigo Neto).

Eu me deitara ao pé da cama onde estava Paulinho com os pais, e chamei um pouco sua atenção. Então, passei por debaixo da cama e pus a cabeça do outro lado. Ele ficou surpreso e boquiaberto por um bom tempo, olhando para mim, e seu semblante me fez gargalhar à beça, pois misturava uma situação cômica com a graciosidade do bebê.

5 – Fluxograma de Total Eclipse of the Heart

Este “fluxograma” eu encontrei no The Huffington Post, entre vários gráficos representando músicas conhecidas.

tumblr_kojs29L9OU1qzd1jno1_r2_1280
Acompanhe a música:

Veja também

6 – Calvin não consegue dormir

No geral, as tirinhas de Bill Watterson sobre o menino Calvin e seu tigre de pelúcia Haroldo estão entre as melhores e mais engraçadas do mundo. Esta aqui me fez muito e representa o que considero de melhor em matéria de humor em quadrinhos, a aliança genial entre texto e imagem.

Calvin não consegue dormir

7 – Piada do especialista

Um homem entrou num edifício, procurando um médico, mas acabou entrando num escritório de advocacia.

“Doutor, estou com uma dor terrível no testículo!”

“Senhor, aqui nós trabalhamos com Direito.”

“Vá ser especialista assim na China!”

8 – Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar)

Há alguns meses, minha esposa me introduziu no cinema de Woody Allen, e começamos a colecionar seus filmes.

Baseado num livro homônimo, Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar) é uma coletânea de anedotas muito engraçadas sobre sexo, sexualidade, amor, erotismo et coetera et al. Partindo de uma premissa interessante, que são perguntas simples como “Os afrodisíacos funcionam?”, “O que é sodomia?” ou “Os travestis são todos homossexuais?”, Allen vai contando pequenas histórias com tramas bem feitas e um humor certeiro.

Sem spoilers. Só o trailer:

9 – George Carlin falando sobre as coisas que são comuns a todos

Ele fala sobre coisas tão absurdas e tão comuns que nos faz rir da surpresa: “Por que nunca pensei nisso antes?” O que mais gostei aqui foi que ele prescinde dos preconceitos para ser engraçado. Algumas das coisas que ele conta nem são engraçadas por si mesmas, mas o modo como as relata as torna ridículas (no sentido estrito da palavra).

10 – O Coiote é pego em sua própria armadilha

Numa das melhores e mais bem amarradas tramas de Papa-léguas, o Coiote deixa um copo d’água para sua vítima beber e acionar uma bomba, mas a ave ignora e passa direto. O Coiote continua tentando várias outras armadilhas e, como sempre, se dá mal. No final do episódio, está tão cansado e machucado que não resiste a beber um copo d’água que encontra e… explode! Caiu em sua própria armadilha esquecida.