Estupro – violência hierárquica e institucionalizada

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A cultura do estupro se constitui a partir de discursos que banalizam e naturalizam a violência contra a mulher. Esta vem sendo perpetuada a partir da reprodução de determinadas práticas sociais, ilustrando, assim, o cenário de ampla misoginia em que vivemos.

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Empatia e estupro

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Para muitas pessoas, o processo de cultivar a empatia é um exercício de abstração. Para homens vivendo numa sociedade machista, por exemplo, é quase impossível entender o que sentem as mulheres quanto a assuntos como estupro. Por isso é que há diversos homens se divertindo com a notícia de uma adolescente estuprada por 30 indivíduos do sexo masculino, fato ocorrido no Rio de Janeiro no último dia 20 e divulgado pelos próprios agressores no dia 25; por isso é que os estupradores em questão não conseguem pensar na vítima como uma pessoa com sentimentos, com inteligência, com alma; por isso é que mesmo entre aqueles que se indignaram há os que relativizam a violência e amenizam o papel dos agressores, atribuindo parte da culpa à vítima; por isso é que vemos poucos homens comentando com racionalidade sobre o assunto enquanto muitas mulheres expressam sua revolta.

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Éowyn e os Homens

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J. R. R. Tolkien pode ser considerado um autor extremamente imaginativo e criador de histórias instigantes, além de ser reconhecido como uma das maiores influências do gênero “alta fantasia” (high-fantasy). Eu admiro sua obra, em suas virtudes e com seus defeitos. O que é dizer que há elementos em seus escritos que podem perfeitamente ser criticados sob uma luz contemporânea.

Um desses elementos é o racismo sub-reptício em sua caracterização dos povos humanos da Terra-Média, especialmente visível em O Silmarillion, onde há humanos de natureza mais nobre, mais parecidos com europeus, e humanos de caráter mais vil e servil, cuja aparência remete aos médio-orientais e/ou aos africanos.

Também é notório o androcentrismo da obra, elemento estrutural de suas narrativas que não está lá à toa, tendo em vista o autor pertencer a uma época e a uma cultura que tinha (e a ainda tem) no homem (do sexo masculino) o modelo arquetípico de ser humano. Não é irrelevante notar que Tolkien era um cristão devoto e que o Cristianismo é tradicionalmente machista: Adão foi criado à semelhança de Deus; Eva foi criada para servir Adão.

Não é que sua obra, sendo de natureza literária, não possua pistas e chaves para a desconstrução de valores tradicionais como os papéis de gênero e as identidades de gênero. É possível perceber na leitura de O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, entre outros escritos de Tolkien, detalhes importantes e pertinentes para ver nesses livros o caráter transgressor da Literatura, este apontado por Roland Barthes em sua Aula, mesmo que no caso do escritor britânico essa subversão seja tímida.

Melanie Rost, por exemplo, em seu ensaio Masculinity in Tolkien, mostra que diversas figuras masculinas da obra do escritor subvertem o ideal de masculinidade presente na tradição literária fantástica europeia. Aragorn, por exemplo, é diferente dos reis tradicionais de histórias como as de Arthur, pois conquista seus súditos com amor e não com glória bélica. Bilbo é diferente dos heróis convencionais, pois conquista seu heroímo através do uso da conciliação e não de seu valor em batalha, a qual evita a todo o custo.

Homens, Anões, Hobbits e Elfos

“Homens”, Anões, Hobbits e Elfos

Homens

Uma das coisas que me chamaram muita atenção desde a primeira vez em que li O Senhor dos Anéis foi a forma como Tolkien se refere à raça humana: Homens ou, em inglês, Men, sempre com inicial maiúscula (outras raças também era nomeadas com maiúsculas: Elfos, Anões, Hobbits etc.). Esse modo de designar a espécie humana com uma palavra que também denota o indivíduo de gênero masculino desta espécie não é nada muito diferente do tradicional, na realidade, pois é comum até hoje as pessoas se referirem aos seres humanos de ambos os gêneros como “homens” (“men”), e ao ser humano em geral como “o Homem” (“Man”), este às vezes com inicial maiúscula, para diferenciar da referência a um indivíduo específico. Ora, vejamos as definições tradicionais de man e de homem, retiradas, respectivamente, dos sites-dicionários Oxford Dictionaries (inglês) e Priberam (português) (os exemplos e significados derivados foram suprimidos, mas podem ser conferidos nos respectivos sites originais):

Definition of man in English:
noun (plural men /mɛn/)

1. An adult human male:
(…)
2. A human being of either sex; a person:
(…)
2.1 (also Man) [in singular] Human beings in general; the human race:
(…)

ho·mem
(latim homo,inis)
substantivo masculino

1. [Zoologia]  Mamífero primata, bípede, com capacidade de fala, e que constitui o .gênero humano.
2. Indivíduo masculino do .gênero humano (depois da adolescência).
3. [Figurado]  Humanidade, .gênero humano.
4. Cônjuge ou pessoa do sexo masculino com quem se mantém uma relação sentimental e/ou sexual.
5. Pessoa do sexo masculino que demonstra força, coragem ou vigor.

O sentido dúbio da palavra homem está instrinsecamente relacionado à representação androcêntrica do ser humano como um ser modelarmente masculino, uma representação que enxerga sub-repticiamente (às vezes explicitamente) as mulheres como uma variação do ser humano “normal”, uma criatura secundária, até mesmo incompleta comparada ao modelo ideal masculino (esta visão da mulher como um “homem defeituoso” era explicitamente defendida na Grécia Antiga, cuja cultura exerce influência milenar sobre nós). (No artigo A Evolução do Homem Branco eu explorei um pouco esse tema, inclusive a representação do ser humano idealizado como branco-europeu.)

Em Tolkien, como já afirmei acima, não se foge dessa nomenclatura tradicional e antiga. Porém, é interessante notar o uso específico pelo escritor britânico das formas Man, Men, man e men. Quando usa a palavra com inicial maiúscula (tanto no singular quanto no plural), Man/Men se referem à raça mortal à qual, por exemplo, pertencem Boromir de Gondor e Éowyn de Rohan. Quando escrito com minúscula, man/men designa indivíduos específicos do sexo masculino, em alguns casos até mesmo de raças não humanas (essa dicotomia, traduzida para o português, não traz diferença significativa em relação ao original inglês). Assim, Boromir e Éowyn são Homens (maiúsc.), pertencem à raça Homem (maiúsc.), enquanto Galadriel e Meriadoc Brandebuque, sendo respectivamente uma Elfa e um Hobbit, não podem ser chamados de Homens (maiúsc.); por outro lado, se Boromir é um homem (minúsc.), Éowyn não o é, pois pertence ao gênero feminino, é mulher; Galadriel também pode ser referida, nos termos de Tolkien, como uma mulher Elfa, enquanto Meriadoc pode ser chamado de homem (minúsc.) Hobbit.

Éowyn

Entretanto, uma das cenas mais impactantes de O Senhor dos Anéis coincide com um momento em que Tolkien flerta com uma subversão dessa regra: o embate entre a guerreira Éowyn e o Senhor dos Nazgûl, no capítulo “A Batalha dos Campos de Pelennor”. Esse momento fatídico é a culminação de um ato de rebeldia da sobrinha do rei Théoden, proibida por este de participar da batalha nos campos de Pelennor. Disfarçada com um elmo, Éowyn, usando o pseudônimo Dernhelm, não só adentra as fileiras de seus conterrâneos Rohirrim como leva seu amigo Meriadoc, mais conhecido como Merry, o Hobbit que também fora instado pelo rei a ficar com as mulheres e crianças durante o conflito.

Depois que o Rei-Bruxo derruba Théoden de seu cavalo e entrega a montaria do monarca como presa à sua própria montaria alada, Éowyn se interpõe temerariamente diante do inimigo, ao que este responde com uma zombaria (a tradução em português é da edição da Martins Fontes):

Thou fool. No living man may hinder me.

[Tu és tolo. Nenhum homem mortal pode me impedir!]

A guerreira remata:

But no living man am I! You look upon a woman. Éowyn I am, Éomund’s daughter. You stand between me and my lord and kin. Begone, if you be not deathless! For living or dark undead, I will smite you, if you touch him.

[Mas não sou um homem mortal! Você está olhando para uma mulher. Sou Éowyn, filha de Éomund. Você está se interpondo entre mim e meu senhor, que também é meu parente. Suma daqui, se não for imortal! Pois seja vivo ou morto-vivo obscuro, vou golpeá-lo se tocar nele.]

Resumindo o restante da cena, o Nazgûl hesita, Éowyn decapita o monstro alado, o inimigo ameaça atacá-la com sua maça, Merry atravessa o joelho do dele por trás com uma adaga, ela golpeia com sua lâmina a cabeça do vilão e este se deteriora em pleno ar.

O que esta sucessão de acontecimentos e, especialmente, essa troca de palavras entre a heroína e seu oponente me leva a pensar em termos de significado e ressignificação é a desconstrução que o texto de Tolkien faz de sua própria forma androcêntrica de conceber a humanidade. A narrativa neste trecho é extremamente densa, e o trocadilho que envolve a palavra “man” (“homem”) serve, explicitamente, para criar um efeito dramático que provoca um arrepio na espinha do leitor, pois a profecia do Nazgûl é posta em cheque pela quebra da expectativa de estar diante de um indivíduo do sexo masculino, contrariando ao mesmo tempo o preconceito de que num campo de batalha qualquer Homem (maiúsc.) deveria ser um homem (minúsc.).

Porém, mais do que perceber com os sentidos que se trata de uma pessoa do sexo feminino, podemos pensar que é o discurso de Éowyn que realmente provoca impacto sobre a postura desafiadora do Nazgûl: ele poderia continuar pensando, mesmo depois de ver a mulher, que ela continuava sendo um Homem (maiúsc.), ou seja, um ser humano, já que, embora o texto mostre a palavra com minúscula, na fala essa diferença de escrita é despercebida. Assim, quem acerta o primeiro golpe no duelo é Éowyn, com suas palavras, e estas já provocam o efeito que seu inimigo pensou que evitaria: ele hesita, ou seja, ele se detém (hinder), o que de certa forma já dá início a sua derrota.

O trecho pode ser lido, repito, como um momento de autodesconstrução do próprio texto. A fala de Éowyn desafia a designação tradicional do ser humano como “Homem”, tendo em vista o valor machista veiculado (intencionalmente ou não) por meio desta palavra. Se o Nazgûl, em princípio, deixa implícito que “living man” pode se referir a qualquer ser humano, o feroz contragolpe, neste duelo de palavras, chega mesmo a desconcertar o decoroso Lorde, ressoando talvez o desconcerto do leitor do livro ao descobrir que aquele jovem cavaleiro chamado Dernhelm é na verdade a sobrinha do rei, e as circunstâncias da luta concretizam o que estava previsto: o Nazgûl é detido e morto pelo golpe de uma mulher, não de um homem.

Ainda mais interessante é a profundidade que esta desconstrução e jogo de palavras alcançam se notarmos que Merry teve participação na derrota do vilão. Ele, Merry, não é um Homem (maiúsc.), embora seja, nos termos tolkenianos, um homem (minúsc.). Um Hobbit, não um Homem, também conseguiu deter (hinder) o Nazgûl com um golpe em seu joelho. Esse elemento adiciona mais sentido a essa desconstrução ao evidenciar a possibilidade de confusão entre os termos com maiúscula e com minúscula, confusão “proposital” que faz parte da própria ideologia da desigualdade de sexo/gênero, responsável por manter a ideia de que o homem do sexo masculino é o modelo padrão de ser humano; ao escutar em voz alta o texto dessa passagem do livro, não temos como identificar a marcação da diferença na letra minúscula: nem Éowyn nem Merry são (h/H)omens.

Podemos deixar essa equivalência fonética e semântica mais clara, vendo o trecho do filme O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, que corresponde ao capítulo “A Batalha dos Campos de Pelennor”, onde o diálogo foi reelaborado, mas o trocadilho se manteve e o efeito dramático mudou com o uso dos efeitos visuais.

Esclarecimentos

A ideia da desconstrução do androcentrismo estrutural reproduzido pela língua tem sido debatida entre feministas, desde pelo menos a primeira metade do século XX, com Simone de Beauvoir, e por linguistas de diversas vertentes, especialmente na área da Análise do Discurso, como a Linguística Sistêmica Funcional (Michael Halliday etc.) e a Análise Crítica do Discurso (Norman Fairclough etc.). Digo isso principalmente para que os desavisados não pensem que estou inventando moda, ou que só eu e alguns felinos gotejados estamos enxergando folículos capilares em óvulos não-fecundados de aves galináceas.

Também adianto, antes de mais nada, que gosto muito dos livros de Tolkien e que qualquer obra realizada por seres humanos portadores de individualidade única está sujeita a altos e baixos sob o olhar de quem a admira, como disse no início do texto, em suas virtudes e com seus defeitos que a tornam um objeto singular, para apreciação e para crítica. Ambas podem enriquecer a obra ainda mais.

Fontes bibliográficas

  • TOLKIEN, J. R. R. The lord of the rings – 50th anniversary edition. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 2004.
  • _______. O senhor dos anéis: o retorno do rei. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Links

Imagens

  • Destaque: Éowyn du Rohan, por Donato Giancola
  • JRR Tolkien, por Audrey Benjaminsen – DeviantArt
  • Elrond Recalls the Hosts of Gil-Galad, por Michael Kaluta
  • Trecho de Éowyn Before the Doors of Meduseld, por Michael Kaluta
  • Éowyn and the Nazgûl, por John Howe
  • Éowyn & Nazgûl, por Donato Giancola

Deleite condensado

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Erguia-se dos degraus transpostos. Como se do alto pudesse possuir mais que o horizonte. Desejava ser único em ponto mais elevado: valia-se da circunferência de suas búfalas narinas. Abertas as cartilagens, todo corpo – feminino – fazia-se carne. O seu: abismo de anseios. Bastava que milímetro de flâmula penetrasse nas pífias cavidades para fazer vibrar os músculos: dos menores e ingênuos aos engrandecidos de vontade.

Por vezes tão forte a vibração, de fazer estremecer todos os degraus, de ameaçar a apoteose. Em estado quase convulso – saliva crespa acumulando na quina da boca, malha viscosa de suor em segunda pele – o homem sequer pensava em percorrer o caminho do chão. Investia energicamente na conquista, lançando do alto o melhor de si sobre o corpo desejado: jatos robustos de urina alaranjada, malcheirosa e quente; gomos salgados de suor e saliva; fezes pastosas; consummé de espermatozoides em alvoroço.

Rebaixadas a alvo, as mulheres se desviavam, quando podiam, dos mísseis-excrementos. Entrincheiravam-se em buracos, arbustos. Apagavam a imagem de seus corpos já perfumados de adrenalina e quase sempre aguardavam o cessar-fogo. Acumulados instantes frustrados, o homem recolhia-se em torno de seu próprio ventre, adormecendo pensamentos e músculos. Deste ponto, quase sempre acontecia: dos corpos vitimados escaparem e de urubus e decompositores surgirem em volumosas esquadrarias.

Os bichos se alimentavam de toda feiúra malcheirosa. Consumidos os minutos, nem réstia de fezes, de urina, de esperma. Até as espessas camadas de suor e saliva eram meticulosamente removidas. Depois partiam sobreavisados de iminente retorno. Aquele era local de passagem. De outro modo as mulheres, uma vez ovacionadas pelo homem – na dicromática visão do bufalino – não mais regressavam: não as mesmas.

Por não permitir a mortal hipótese de descer os degraus custosamente vencidos, alimentava-se de seres vivos: com asas. Aquele que por tolice se aproximasse de sua cabeça imediatamente era capturado por voluptuosa língua e ensacado no estômago: borboleta, gafanhoto, esperança, cavalo-do-cão, mutuca, abelha, marimbondo, muriçoca, pardal, anu (branco ou preto), morcego, coruja, pombo, ziguezague, cigarra, percevejo, vagalume, rola-bosta, bicho-pau.

Em dia de pouco movimento, sem legitimar seus próprios pensamentos, sentia discreta alegria – mas desconhecia a razão. Por certo – dele não partira a especulação – alegrava-se pela ausência de obrigação: sem mulheres, sem investimentos, sem excrementos, sem frustração, sem dor, sem sono, sem recomeço: sem comida, sem vigília, sem flâmula.

Em dia como esse, dessentiu a presença de ser mitológico: metade menina, metade mulher. O corpo-potencial-aperitivo aproximou-se da escadaria, sentou-se no primeiro batente. Tão macio seus movimentos, que sequer um joule foi transferido dos quadris aos degraus. Em sequências de gestos antigravitacionais, recolheu miudezas no chão: partiu com as mãos abarrotadas de coisinhas.

Tantos artefatos surgiram da primeira jardinagem, que resolveu voltar. E voltar. E voltar. Dia-após-dia. Sua presença naquelas paragens inibia outras presenças: mulher nenhuma fazia-se transeunte.  Sem mulheres: sem vigília, sem flâmula, sem investimentos, sem excrementos, sem frustração, sem dor, sem sono, sem recomeço: sem comida.

Tão forte a ausência de matéria viva ensacada, que pela primeira vez – desde alcançado o ponto mais elevado da escadaria – desfez-se da discreta alegria do recesso, desgostou de olhar distante e com carga elevada de sofrimento, angulou o pescoço para baixo. As carnes enfraquecidas quase despencaram ao registrar a presença do corpo-aperitivo.

Concentrou sua energia na face, de onde surgiram dois colossais buracos enegrecidos. Sorveram toda matéria volátil. Daquele corpo não sentiu nem migalha de cheiro. Uma vez mais reuniu suas forças e aspirou o invisível com tanto vigor, que o chão foi seu único alento. Nada. O corpo aperitivo era estéril de odores. Respiração ofegante, coração à galopes, o homem, ainda assim, ergueu-se. Orgulhoso de sua tenacidade, investiu no galanteio. Mas não houve urina, suor, fezes, esperma: estava fraco.

O corpo-alvo resistia aos apelos. Distraída apenas pensava em encher outra vez mais as mãozinhas. É então que o resquício de homem lança-se ao derradeiro ato: doa seu último e mais íntimo excremento: as células mortas acumuladas nas frestas do umbigo. Com as mãos alquebradas, remove a massa, lhe dá forma de círculo e lança na escada: rola enérgica até ao encontro dos descarnados tornozelos.

Naquele mesmo instante as mãozinhas seguem os quadris de uma barata requebrante. Recolhe o inseto e satisfeita ensaia a retirada. Coloca-se de pé e de costas para a escada. Seus ouvidos apreendem o vigoroso mugido em escala ascendente. Mira o corpo no alto em trêmulos e lentos movimentos, deseja recolhê-lo.

Sobe os degraus abafando o som das pegadas. O de cima não reage. Aproxima-se e deposita o conteúdo encarcerado por seus dedos na superfície das narinas.  Baratas, formigas, besouros. O corpo transmutado – agora feminino – inerte de repúdio e nojo reaviva: o homem não homem de desejo se consome, lança-se para dentro de si. Some.

A menina-mulher, indiferente, senta-se no ponto mais alto e põe a balançar as perninhas mirando o horizonte. Deixa cair – cheia de propósito – o sapatinho nas têmporas de um homem: desavisado.

Para adormecer rancores

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Des-asperada de saliva rompe os limites dos lábios, acompridando-se compassada pela vibração dos globos oculares, ali somente brancos. Deita-se a língua sobre o casaco de proibir frio, objetivando o pingo espesso abandonado pelos lábios derramados de um cochilo fundo. Alcança as carnes vermelhas, de arrimos de tijolos pequenos brancos. Faz-se proprietária das bochechas almofadadas, escuras, escorregadias. A língua outra, postada tapete, testemunha a passagem de metro e meio de corpo quente. Embalado pelo sono, nenhum membro se move, autorizando e acolhendo o ser de passagem. Sedutora transita adormecendo os sentidos vitais. Cessam-se os movimentos peristálticos, desliquida o estômago, rende o fígado, boca, rins. Adentra o intestino rompendo os negros obstáculos. Irradia sonolência, desviva bexiga, ureter, pênis. Então fatigada pelo êxtase do trajeto, dorme displicente, afoga-se no seu próprio sono. Não vê que aos poucos os sentidos se recompõem e reclamam seus espaços. As tripas se contraem roubando as possibilidades do movimento. Desperta-se em digestório ato, tem bruscamente removida a raiz. A boca de fora em transe, cospe sonoro ruído. Retorna o preto desbranqueando os olhos. Os corpos desabam lado a lado, desentendidos das primeiras intenções. Este dia fez-se adiante, pois que nenhum outro homem pode ser desarmado de seus viscerais rancores.

O tamanho de um homem

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Uma pesquisa recente realizada por cientistas australianos procurou responder a uma pergunta que atormenta a cabeça de muitos homens mundo ocidental afora: “o tamanho do pênis  influencia na atração feminina pelos homens?” Em outras palavras: “quanto maior melhor?”

A pesquisa foi realizada da seguinte forma. Foram criados modelos tridimensionais virtuais de homens nus, cinzentos e sem pêlos, que variavam entre si em três aspectos: altura, proporção entre ombros e cintura, e tamanho do pênis. Foram mostrados 3 modelos aleatórios para cada uma das 105 mulheres heterossexuais australianas escolhidas como sujeitos da pesquisa, que apontaram qual deles consideravam o mais atraente. O resultado foi que as mulheres preferiram homens (ou melhor, modelos) altos, com corpos mais “masculinos” (ombros mais largos do que a cintura) e com pênis grandes, mas com a ressalva de que os fatores preponderantes foram os dois primeiros e que mesmo os extremos supostamente mais desejáveis foram preteridos (altura e tamanho do pênis extremos). Abaixo, um vídeo-resumo feito pelos pesquisadores.

É interessante notar duas chamadas diferentes, de dois sites diversos, para a mesma notícia. O io9 disse “Últimas pesquisas mostram que o tamanho realmente importa para as mulheres”, enquanto a Nature notificou “O maior nem sempre é o melhor quanto ao tamanho do pênis”. Ou seja, o mesmo resultado suscitou ênfases díspares. Isso revela o peso psicológico da questão e o viés que perpassa a premissa da pesquisa, a metodologia, suas conclusões e as interpretações sobre estas.

Para quem importa o tamanho?

Escultura no Museu Chinês do Sexo

Escultura no Museu Chinês do Sexo

O próprio mote da pesquisa pode ter sido enviesado por uma visão falocêntrica e androcêntrica. Os pesquisadores, antes de se perguntar se o tamanho do pênis é importante para a atração de uma mulher, deveriam se questionar por que essa pergunta é importante. É notória em nossa sociedade a ideia de que homens heterossexuais colocam a aparência física da mulher em primeiro lugar entre os critérios de avaliação da atratividade. E sabe-se que a maioria das mulheres declara que a aparência de um homem é secundária na escolha de um parceiro.

Dessa forma, antes  de se fixar nos dados estatísticos de uma pesquisa baseada em simulações artificiais, é importante antes se perguntar: a ideia de que o corpo de um homem pode determinar a atração sentida por uma mulher heterossexual não seria a aplicação do olhar masculino heterossexual que pensa nos atributos físicos da mulher como o primeiro traço a ser considerado?

(É claro que o estereótipo do homem para quem basta a mulher ser “bonita” para ele ser feliz (independentemente da personalidade dela) pode ser desconstruído na observação das inter-relações reais. A valorização de mulheres consideradas fisicamente bonitas como objeto de escolha do desejo masculino pode estar mais relacionada à ânsia pelo reconhecimento dos pares do que aos próprios anseios do indivíduo quanto à sua “mulher ideal”.)

Também é notório a ideia geral de que o tamanho do pênis é mais importante para os homens do que para as mulheres. Para eles, a autoestima pode ser fortemente influenciada negativa (pênis relativamente menor) ou positivamente (pênis relativamente maior).

Traços físicos

No centro, o modelo intermediário, ao lado dos dois modelos extremos

Ao considerar o quesito proporção do corpo, traduzida especificamente como a razão entre largura dos ombros e a da cintura, ignoram-se outras possibilidades que poderiam ser significativas, como a proporção do comprimento dos braços e/ou das pernas, tamanho e/ou formato da cabeça etc.

(A propósito, a cabeça de todos os bonecos virtuais é a mesma, tem o mesmo tamanho e o mesmo formato, e não foi levada e consideração a possibilidade de um tipo de cabeça combinar mais com um certo tipo de corpo (em termos de uma certa harmonia), ocasionando ou não uma mudança no nível de atração.)

Também vale a pena refletir sobre o fato de todos os modelos apresentados terem uma compleição próxima ao que se considera, no Ocidente, um corpo saudável. Não há modelos magros nem gordos, e uma variação no “peso” poderia ajudar a compreender se há outras combinações de variáveis que seriam mais ou menos atrativas para as mulheres.

Outro aspecto não considerado foi a presença ou quantidade de pêlos no corpo. Os bonecos não possuíam cabelos nem pêlos, e seria interessante saber se a quantidade de pêlos pubianos, por exemplo, teria algum efeito na atração, bem como o corte e o tipo de cabelos, a presença ou ausência de barba etc.

Quanto ao pênis em si, desconsideram-se ainda outras características que não apenas o “tamanho” (não fica claro se se trata exatamente do comprimento), como a largura, o formato (mais cilíndrico ou mais cônico etc.), a altura em que se encontra na pélvis, o fato de estar mais ou menos retraído ou sua proporção em relação ao tamanho do escroto. O tamanho do genital masculino ereto, a propósito, pode não ser facilmente inferido se observado em estado “de repouso”.

Aspectos sociais

Spock e Uhura

O que atrai uma mulher? A inteligência? O uniforme? As orelhas?

Os pesquisadores se basearam em pressupostos de sua própria cultura para elaborar os homens virtuais. Consideraram apenas três aspectos na variação entre os modelos: altura, proporção do corpo e tamanho do pênis. A escolha dessas variáveis, especificamente, pode revelar o tipo de aspecto considerado mais relevante para a cultura dos pesquisadores e dos sujeitos da pesquisa.

As mulheres, ao responderem ao questionamento “Qual desses homens é o mais atraente?”, podem estar respondendo simplesmente aquilo que aprenderam a conscientemente considerar importante na avaliação da atratividade masculina. Declarações desse tipo, expostas a um pesquisador, podem diferir muito daquilo que se passa no íntimo de cada indivíduo.

Além disso, mesmo se considerando que as mulheres estejam sendo sinceras na escolha daquele modelo que consideram mais atraente, isso não leva necessariamente à necessária escolha de tal modelo como parceiro sexual. Não estão sendo considerados diversos fatores subjetivos, psicológicos e sociais que poderiam ser muito mais determinantes do que os traços físicos.

Colocaram-se os sujeitos (as mulheres) diante de imagens virtuais em condições não espontâneas, ou seja, em situação muito diferente de um encontro pessoal com uma pessoa real. Uma situação real deveria considerar vários outros elementos da identidade do objeto de atração, como sua personalidade, seu aparente grau de instrução, suas vestimentas, sua postura, sua linguagem corporal, sua expressão oral, sua classe social e tantas outras variáveis sociais que um modelo estático e sem vida não representa.

Como disse acima, a atração sentida por um modelo sem vida não quer dizer necessariamente que a mulher iria até as vias de fato, se no percurso da interação ela sentisse falta de alguma coisa e desistisse (se você, leitor, é um homem heterossexual, imagine a diferença entre olhar as imagens de bonecas sem vida e interagir socialmente com diferentes tipos de mulheres reais.).

Além disso, se o tamanho e as proporções de um homem ocidental vestido no dia-a-dia podem ser facilmente perscrutados por um olhar atento, normalmente não é tão fácil inferir o tamanho do falo, o que torna esse elemento quase absolutamente irrelevante nesse tipo de situação (a não ser que se considere um possível efeito indireto do tamanho do pênis sobre a personalidade e autoestima do homem em questão).

Mas uma das faltas mais significativas é a pouca abrangência do estudo, que deveria envolver, por um lado, mulheres de diferentes estratos sociais, diferentes idades, diferentes etnias e diferentes culturas e, por outro lado, modelos de tamanhos e proporções ainda mais diversos, abrangendo um escopo maior do que a média dos homens europeus. A perspectiva biologista dos pesquisadores pode fazê-los pressupor que esse tipo de pesquisa revelaria necessariamente algum ditame biológico não afetado por fatores sócio-culturais.

Uma perspectiva mais sociológica/antropológica poderia radicalizar e permitir ir ainda mais fundo na compreensão das dinâmicas das inter-relações afetivo-sexuais de homens e mulheres, incluindo, entre outras, a homoafetividade, que poderia esclarecer ainda mais a influência do sexo-gênero na avaliação pessoal dos critérios de atratividade.

Links

Imagens

  • Destaque: Pão Antropomórfico, de Salvador Dalí
  • Escultura no Museu do Sexo da China
  • Modelos usados na pesquisa
  • Cena da Série Clássica de Star Trek

O paradoxo da misoginia

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Em nossa cultura, o sexo das pessoas e suas respectivas identidades sexuais preconcebidas são objeto de controle e coerção. Os XY são coagidos a serem machos/homens/masculinos, enquanto as XX são coagidas a serem fêmeas/mulheres/femininas, com todo um conjunto de comportamentos, trajes, parafernália e ocupações pré-estabelecidos.

Embora muita coisa já tenha mudado, em muitas instâncias de nossa vida cotidiana essa estrutura sexista se mantém forte, e a paradoxal misoginia continua a existir em pequenos gestos coercitivos de desprezo ao feminino e às mulheres que fogem dos ditames da feminilidade.

Boys will be boys

Nesse universo, a satisfação da sociedade e dos indivíduos que conservam o status quo dessa sociedade se dá quando cada membro da comunidade se encaixa perfeitamente nesse esquema “ditado pela natureza” ou “concebido por Deus”. Se mulheres e homens não se adequarem, a ordem do universo estará comprometida e os “sinais do fim do mundo” se mostrarão bem claros.

Nossa tradição sexista só encontra contentamento na adequação dos indivíduos às identidades e aos papéis preparados para eles, segundo a presença de um pênis ou de uma vagina. Uma mulher se realiza de forma “natural” quando usa vestido e maquiagem, cuida da casa e dos filhos e se entrega aos caprichos do marido, “pela graça de Deus”. Do mesmo modo se espera dos homens que sejam “masculinos”, vestindo calças, provendo a família e explicitando sua heterossexualidade.

A costela de Adão

Mas, ao mesmo tempo, o feminino pende desigualmente na balança com o masculino. As qualidades que formam um ser humano moralmente ideal e superior são geralmente as características do homem/masculino ideal: coragem, assertividade, liderança, competitividade, autonomia, foco, senso de direção etc. Não é à toa que o termo virtude provém do latim vir, significando “homem” (pertencente ao sexo masculino e não o ser humano em geral). As características tradicionalmente atribuídas à mulher/feminina não são valorizadas em si mesmas. Vaidade, passividade, dependência, submissão, superfluidade, emocionalismo e atenção dividida não são virtudes em seu sentido próprio e não são consideradas qualidades nobres.

Não é por acaso que a mulher que tenciona uma carreira independente e toma decisões sem submeter o rumo de sua vida a outro é acusada de ser muito ambiciosa, “querer demais”. Porém, o homem que não tem ambição, que se satisfaz na posição de dono-de-casa, não confraterniza com outros homens torcedores de um time e/ou não se sente atraído sexualmente por mulheres é rebaixado à condição de sub-homem, como se a feminilidade o diminuísse. A mulher/masculina é um excesso, “quer ser mais do que é”; mas ao homem/feminino falta algo, é um doente que tem que ser “curado”.

Isso explica a misoginia. Quando uma mulher é feminina, ela é colocada numa posição “naturalmente” inferior. “Você não passa de uma mulher”, canta Martinho da Vila. Paradoxalmente, “o melhor é que a mulher seja feminina, assim é que se pode aceitá-la”; mas se ela for feminina ela será inevitavelmente rebaixada. Sensibilidade e vaidade não são consideradas virtudes humanas nobres, então a mulher não seria tão humana quanto o homem (masculino).

Entretanto, se a mulher foge dessa camisa-de-força, o perigo está à solta. A violência simbólica (e em tantos casos a violência física) é ativada para colocá-la “em seu lugar”. Nessas situações o medo de bruxas acomete os conservadores, pois é um perigo para a ordem social androcêntrica ter mulheres tomando decisões, afinal, supõe-se que elas são destituídas naturalmente da capacidade de julgar e discernir. Sua “natureza” é se postar de diante de um espelho com um pente na mão e um batom na outra, e ela mesma não será feliz se não se entregar à “futilidade” que faz parte de seu âmago.

Então, se é para manter as mulheres “em seu lugar”, se é mais adequado que elas sejam femininas, o paradoxo da misoginia aparece novamente. Pois é sendo femininas, como está em sua “natureza”, que elas encarnam o papel de demônios sedutores, capazes de dominar o coração e (pior) a cabeça de um homem, destituindo-o de sua autonomia, “tirando seu sossego”, “mexendo com seu juízo”. Tanto a esposa-mãe quanto a amante-prostituta (dois extremos do confuso espectro das identidades femininas) têm o poder de domesticar um homem, seja pela chantagem emocional, seja pelos decotes e minissaias, entendidos como principais culpados pelo descontrole sexual dos estupradores.

As mulheres que, por algum motivo, não conseguem se enquadrar no moldes instituídos da beleza feminina também sofrem por não poderem ser aceitas como mulheres completas, e o desprezo pela “mercadoria defeituosa”, que não tem condições de competir no mercado de corpos, é profundamente sentido pela alma vilipendiada. O que paradoxalmente poderia ser uma libertação para elas, mas as que agradam aos consumidores desse mercado é que se sentem felizes por ser objeto da possessividade dos homens.

Exemplos de misoginia

Muitos homens não entendem o que é a misoginia, pois simplesmente pensam no sentido mais próprio da palavra, como sinônimo de ginofobia, medo de ou aversão à mulher (o que às vezes é atribuído, por exemplo, à aversão dos homossexuais pelo sexo feminino, mas não a um homem heterossexual que gosta de mulheres). Com base no que foi dito acima, eis alguns exemplos de comportamento misógino por homens (e em vários casos mulheres) heterossexuais, ainda muito comuns:

  • O medo de “perder o controle” diante de uma mulher gostosona vestindo uma microssaia e a consequente atribuição da pecha de “puta” a essa mesma mulher, o que se constitui num mecanismo de defesa para o homem se eximir da culpa e da pecaminosidade, atribuindo-as ao seu objeto de desejo; “Eu odeio essas mulheres que usam decote só para a gente olhar e ficam com raiva quando a gente olha!”;
  • A aversão a mulheres que não se encaixam no modelo ideal de feminilidade, especialmente quando são “feias”, embora elas mesmas não tenham nenhuma dúvida sobre sua identificação como mulher e não tenham nenhum traço “masculino” de personalidade; “Mulher de bigode nem o Diabo pode”; o desprezo a essas mulheres se acentua com o imperativo de que a mulher “tem que se cuidar” e de que “não existe mulher feia, mas mulher que não se cuida”; pouco se admite a possibilidade de um homem heterossexual gostar de uma mulher “feia”, como se este gosto fosse errado, o que fortalece ainda mais a pressão para as mulheres serem “bonitas”, sob pena de “não encontrarem um namorado” e consequentemente não serem felizes;
  • A antipatia pela esposa exigente que reclama das aventuras sexuais do marido e se torna uma “megera” a infernizar sua vida, nela recaindo toda a culpa pelos problemas do relacionamento, como se sempre só fosse a mulher a responsável por “complicar” tudo;
  • O rancor declarado pela “ex-amiga” que não quis sair dos limites da “zona de amizade” (“friendzone”), como se o fato de ele sentir atração sexual por ela fosse motivo suficiente para ela sentir o mesmo por ele; a imagem de femme fatale (“mulher fatal”) que recai sobre ela e consequentemente sobre todas as outras mulheres, supostamente propensas a brincar com os sentimentos de “caras legais como eu” e se entregar a “babacas como ele”;
  • A raiva contida pela mulher que se destaca no emprego, superando seus colegas homens, alguns dos quais se acham desonrados e emasculados por terem sido colocados para baixo por um ser humano do sexo feminino; a vontade de se vingar dessa mulher por tê-lo colocado numa condição “inferior”;
  • A raiva que muitos homens têm das feministas e o medo de que as ideias do Feminismo sejam adotadas pela sociedade; a alcunha pejorativa de “feminazis” a todas a mulheres que desejam ter os mesmos direitos dos homens; a indignação desses homens sob a justificativa de que as reivindicações feministas são “besteira”, refletindo o próprio estereótipo de que as mulheres só pensam em coisas fúteis e ou não merecem atenção ou merecem uma punição física.

As mulheres sofrem quando assumem o papel que se espera delas, pois este implica em menos liberdade de escolhas para ela, e sofrem quando fogem desse papel, pois são constrangidas a repensar sua adequação e fidelidade a um ideal de feminilidade “natural” . É claro que muita coisa mudou, mas isso não significa que essas manifestações de misoginia tenham se extinguido. Antes, significa que há aqueles que já não vivem na mentalidade dos séculos passados e que há muita gente (mulheres e homens) que não manifesta seus preconceitos e/ou procura superá-los.

Pelo que luta o Feminismo?

Então, pelo que luta o Feminismo? Pela subjugação dos homens pelas mulheres? Por uma ditadura matriarcal? Por um mundo em que as mulheres não usem maquiagem? Por uma sociedade cor-de-rosa?

O Feminismo luta por muitas coisas, mas com certeza ele não quer que o sexismo se inverta, criando uma sociedade ginocêntrica; nem que os homens sejam impedidos de assumir cargos de poder; nem que as pessoas sejam obrigadas a abandonar os papéis de gênero tradicionais; nem que se crie uma sociedade homogênea em que cada gesto e pensamento seja patrulhado em favor de uma ordem misândrica.

O Feminismo propõe uma sociedade diferente, onde as pessoas sejam mais livres. Em que as mulheres possam ser “femininas” sem serem menosprezadas por isso, ou que sejam “masculinas” sem se sentir culpadas, e onde também os homens sejam livres para fazer as mesmas escolhas. Em suma, é pela liberdade individual de ser quem é e de escolher ser quem quer que seja que o Feminismo e qualquer movimento social libertário luta.

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Minha filha e meu corpo

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Sonhei que eu era uma mulher que dera à luz recentemente. Mas a equipe do hospital, médicos e enfermeiras, não me deixavam aproximar e nem sequer ver minha filha recém-nascida. Eu tinha que ficar afastada do quarto onde ela era cuidada por uma enfermeira. Eu era membro de uma cultura em que a mãe deve ficar longe dos próprios filhos até estes terem certa idade. Eu sentia uma angústia que era misto de desespero com resignação. Sentia ciúmes da enfermeira que cuidava de minha filha. Parei em frente ao quarto em que ela estava, desobedecendo ordens, e contemplei a criança, me perguntando: como ela vai confiar em mim se eu não posso construir uma relação de intimidade desde seu nascimento?

Talvez esse sonho tenha me ajudado a entender um pouco a agonia de ser mulher numa cultura que ainda subjuga o corpo feminino, percebendo-o como receptáculo da semente de um homem e não como coparticipante da concepção de uma criança. A gravidez é uma crise na vida de uma mulher, e ela deve poder tomar decisões a respeito de seu mais valioso bem material: seu corpo. Aquela criança pode representar meu próprio corpo (uma vez que é fruto e extensão dele), aprisionado e domesticado pela cultura na qual me insiro.

Atualmente, há pelo menos duas questões importantes quanto aos direitos das mulheres sobre seus corpos:

  1. O direito de fazer aborto em casos de estupro e/ou de risco à saúde da gestante e/ou do feto e
  2. O direito a um parto humanizado (para mais sobre este tema, leia o artigo O parto, a mídia, as pessoas e o movimento, de Ellen Paes).

Há muito que se vislumbra um mundo em que as mulheres são incluídas na categoria de concidadãs dotadas dos mesmos direitos e deveres que todos. Para que isso ocorra é preciso destruir completamente a ideia de que as mulheres são instrumentos dos homens, objetos de prazer, úteros para fazer bebês e/ou servas domésticas.

Muitas vozes cristãs politicamente fortes têm dificultado o avanço dessa discussão e defendido a alienação da mulher em relação ao seu corpo, até mesmo nos casos em que a gravidez representa um grande risco para gestante e feto. Em casos de estupro, abortar significa, para esses cristãos, “um atentado à vida”, uma “afronta a Deus”. E, mesmo nos casos em que as duas coisas acontecem (o estupro e o risco), a excomunhão não está descartada.

O direito ao aborto é um tema que envolve não somente a garantia de um indivíduo resguardar seu corpo do resultado de uma violência explícita (o estupro), mas também de uma violência implícita. A estrutura das relações sociais de gênero ainda forçam muitas mulheres a ceder ao constrangimento imposto pelos parceiros, que querem seu sexo e anseiam por uma prole, obrigando-as a “emprestar” seus corpos, mesmo quando elas não o querem.

Descriminar o aborto é um meio de se reconhecer legalmente o direito inalienável de uma mulher sobre seu próprio destino, dar um passo na direção de um futuro em que cada um assumirá a responsabilidade sobre seu corpo e respeitará a liberdade dos outros de fazerem o mesmo.

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  • A Madona de Porto Lligat, por Salvador Dalí

Merida, seus pretendentes e o transgenerismo

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Depois de uma séria e enriquecedora contribuição de Nivea Melo, percebo que minha afirmação de que a protagonista de Valente é transexual pode ter sido mais o resultado da vontade de ver um conteúdo muito mais subversivo do que aquele que o filme realmente tem. Há uma mensagem subversiva sim, mas vai em outra direção.

De qualquer forma, essa discussão leva a pensar em várias outros elementos do filme que trazem muito mais questões à problemática do gênero e da identidade sexual, e isso envolve não só a princesa Merida, mas todos os outros personagens de destaque na trama.

Esclarecimentos conceituais

Antes de mais nada, quero deixar claro o uso de alguns conceitos neste texto.

Sexo e gênero

Fêmea-mulher-feminina e macho-homem-masculino, os dois modelos ideais de identidade sexual

“Homem” não equivale a “macho” assim como “mulher” não equivale a “fêmea”. Mulher e homem são identidades construídas e reconhecidas socialmente, representando o gênero da pessoa, enquanto fêmea e macho são dados biológicos, o sexo do indivíduo. No esquema ao lado, o sexo é representado pelo círculo central, enquanto a identidade de gênero é representada pelos símbolos de Vênus (mulher) e Marte (homem).

Via de regra, na maioria absoluta das sociedades humanas, existe uma identidade de gênero correspondente a cada um dos sexos, ou seja, dificilmente se encontra uma fêmea humana que não tenha sido ensinada a ser mulher ou um macho humano que não tenha sido criado para ser homem. As noções do que significa ser homem ou mulher e dos papéis socialmente atribuídos a cada gênero variam infinitamente ao redor do universo humano, e o que uma sociedade considera “coisa de homem” pode ser considerado “coisa de mulher” por outra cultura. Normalmente, as representações sociais não veem uma descontinuidade entre macho e homem nem entre fêmea e mulher, e os caracteres socialmente construídos são vistos como aspectos naturais de cada sexo-gênero.

Existem pessoas nascidas macho que assumem uma identidade de mulher, feminina; assim como existem crianças nascidas fêmeas que acabam se constituindo com uma identidade masculina, ou seja, de homen. Isso ocorre principalmente em pelo menos dois contextos:

  1. Algumas sociedades imputam a certos indivíduos nascidos em circunstâncias especiais a identidade do gênero “oposto”. Se forem do sexo masculino, recebem um nome feminino e são tratados como mulheres, e o contrário ocorre se forem do sexo feminino.
  2. Há casos em que existe uma identificação precoce do indivíduo pelo universo do outro sexo/gênero, e a criança acaba por assumir a identidade e os papéis do gênero oposto, não tendo necessariamente vontade de mudar de corpo, mas em alguns casos sim (transexualidade).

Seja em um ou outro caso, há uma força social que obriga os indivíduos a assumir impreterivelmente todos os aspectos relacionados a uma identidade/papel de gênero, raramente se admitindo uma mistura ou uma terceira alternativa.

Feminilidade e masculinidade

feminilidade é o conjunto de disposições, atitudes, posturas, trejeitos, formas de falar, modos de vestir que caracterizam a ideia abstrata da mulher ideal. A masculinidade é o conjunto de disposições, atitudes, posturas, trejeitos, formas de falar, modos de vestir que caracterizam a ideia abstrata do homem ideal. Essas duas noções, na prática, classificam não somente os traços tangíveis e intangíveis da identidade sexual de um indivíduo, mas também abarcam as atividades desempenhadas socialmente, ou seja, seu papel de gênero. No esquema acima, a feminilidade e a masculinidade são representadas pelos círculos envolventes maiores.

Assim, se numa determinada sociedade o cabelo comprido é apanágio da mulher, ele é considerado um traço feminino e os homens dessa cultura que usam cabelos compridos têm, portanto, um traço de feminilidade, embora possam perfeitamente manter intocada sua identidade de gênero de homem. Uma mulher que usa calças numa sociedade que considera seu uso como adstrito aos homens, ou seja, que as considera uma indumentária masculina, tem um traço de masculinidade, mesmo que ela mantenha inexorável sua identidade de gênero de mulher.

Isso se aplica também a ocupações ou profissões. Antigamente, uma mulher que se ocupasse da Ciência poderia ser considerada “masculinizada”, pois essa era uma atividade tipicamente exercida por homens. Um homem que trabalhasse com enfermagem era tido como “feminilizado”, por ser essa profissão tradicionalmente ocupada por mulheres.

No processo evolutivo de uma sociedade, podem ocorrer mudanças nessas noções, e aquilo que era considerado “coisa de homem” passa a ser tido como uma característica unissex ou até ir para o lado oposto da dicotomia sexual, tornando-se tipicamente “coisa de mulher”. Assim, se uma cultura passa a considerar que cabelos compridos não são mais atributo exclusivo das mulheres, os homens de cabelos compridos não têm mais nesse traço uma característica feminina. Se as calças passarem a ser uma vestimenta universal, as mulheres que usam calças não serão mais masculinas do que as que usam saias.

Hoje em dia, no Ocidente, o salto alto é um acessório visto unanimamente como feminino. Porém, sua forma moderna teve sua gênese como peça do vestuário masculino, popularizada pelo famigerado Luís XV.

Transgenerismo e transexualidade

Um indivíduo que não se encaixe em nenhum dos dois modelos “macho-homem-masculino” e “fêmea-mulher-feminina” é chamado, em algumas abordagens da questão de gênero, de transgênero. O transgenerismo seria a inadequação, maior ou menor, de uma pessoa quanto às expectativas sociais sobre seu sexo biológico.

O termo transgênero muitas vezes é usado como sinônimo de transexual, tanto por estudiosos das questões de gênero quanto por militantes LGBT e até por psicólogos numa abordagem clínica. Porém, transexual parece ser um termo mais usado quando se refere à condição de uma pessoa que não se identifica com o sexo imposto a si pela natureza nem com o gênero imposto socialmente e procura se assumir e se transformar no outro sexo-gênero. Tendo em vista que os dois termos utilizam, respectivamente, os radicais que remetem a gênero e a sexo, assumo aqui que transgênero é uma condição mais geral, que pode abarcar desde um homem que gosta de colecionar bonecas Barbie, passando por uma mulher crossdresser de identidade andrógina até um travesti nascido homem que se assume mulher, se veste de mulher, modifica o corpo para parecer com o de uma mulher mas não quer fazer vaginoplastia, mantendo o pênis com o qual nasceu.

(A rigor, é difícil acreditar que haja algum indivíduo humano que não seja minimamente transgênero.)

Por outro lado, em consonância com o conceito mais aceito na psicologia em relação ao termo transexual (e especialmente à forma como foi abordado por Nivea Melo no texto Princesa, heroína e guerreira: Valente), considero que este significa o indivíduo que se entende como pertencente ao universo do sexo-gênero “oposto”, ou seja, pessoas nascidas machos que desejam ser fêmeas-mulheres-femininas e pessoas nascidas fêmeas que querem ser machos-homens-masculinos. A transexualidade poderia ser entendida como uma possibilidade extrema de transgenerismo.

Merida – yin e yang

Merida na visão do pai e na visão da mãe, respectivamente

Merida na visão do pai e na visão da mãe, respectivamente

A menina Merida, por circunstâncias especiais, acabou recebendo uma herança mista na constituição de sua identidade de gênero. O arco é um símbolo de masculinidade, a herança de seu pai Fergus, enquanto a visão mágica do mundo aparece como dom de sua mãe, que lhe ensina sobre os fogos-fátuos. A magia, como se vê num outro momento do filme, está mais ligada à feminilidade, especialmente representada pela figura de uma simpática bruxa.

Merida foge de quase todos os padrões e expectativas socialmente impostos ao seu sexo e gênero, e o principal fator para isso é seu pai, despreocupado de qualquer imposição de características femininas à personalidade da filha. Ele aceita numa boa as escolhas dela, e quase todas as suas opções fazem parte do universo masculino, das coisas que em sua cultura são consideradas “de homem” e não “de mulher”.

É importante nos determos sobre a influência do pai. Sendo este muito atencioso e próximo dos filhos, inclusive dos travessos trigêmeos mais novos, ele foi um modelo para sua primogênita, que para ele não importava ser menino ou menina nem se enquadrar totalmente naquilo que se espera de seu sexo e gênero. Essa influência não é simplesmente a filha imitar os aspectos masculinos do pai, mas é especialmente a visão menos tradicional que este possui sobre a identidade e os papéis de gênero, inclusive admitindo a mistura de aspectos masculinos com femininos (numa certa androginia).

(É possível que ele até se incomodasse se seu primogênito fosse um menino com traços de feminilidade, tendo em vista seu deboche ao filho de Macintosh, mas isso não se pode afirmar com certeza. Talvez ele tenha encontrado em Merida um “filho” com quem passar o tempo e a quem ensinar o que sabe, e ela certamente se sentiu muito mais à vontade para realizar seus desejos individuais, que em grande parte não condizem com o que sua sociedade espera de uma fêmea-mulher.)

Merida

Merida – yin e yang

A noção do que é feminino e masculino, embora seja construída socialmente, pode variar segundo o ponto de vista e os valores de cada indivíduo. No olhar da mãe Elinor, Merida está fazendo tudo errado, sendo uma fêmea-mulher-masculina, enquanto que para o pai Fergus ela está simplesmente sendo quem é, e aquilo que é considerado masculino em sua cultura não é visto por ele como tal. A seus olhos, sua filha é fêmea-mulher-feminina. No balanço dos olhares enviesados, podemos considerar que Merida é uma transgênera, pois, se pertence ao sexo feminino e tem identidade de mulher, ela possui um misto de feminilidade com masculinidade. Se, por um lado, ela usa arco e flecha, por outro, usa vestido; ela não age segundo a etiqueta do recato feminino, mas acredita em magia e nas lendas.

Embora Merida seja subversiva e, nos temos da antropóloga Margaret Mead (autora de Sexo e Temperamento), uma “inadaptada”, ela não foge à imposição cultural de uma identidade de gênero, que força cada indivíduo humano a se encaixar em apenas uma de duas opções: homem ou mulher. A identidade de gênero de Merida é mulher, e isso em nenhum momento é posto em dúvida ou problematizado. Porém, fugindo do ideal fêmea-mulher-feminina, ela pode ser considerada um exemplo explícito de transgenerismo, não chegando nem perto da condição transexual.

Os pretendentes

O jovem Macintosh na visão de seu pai e na visão de Fergus, respectivamente

A problemática do gênero é um tema recorrente em Valente, e não se resume apenas ao drama de Merida. Importa atentar para os três pretendentes da princesa, representantes de três tipos de masculinidade. O jovem MacGuffin, o jovem Macintosh e o jovem Dingwall, primogênitos dos chefes de seus respectivos clãs, apresentam diferenças explícitas quanto à aparência física, os atributos e as atitudes. No entanto, os três são apresentados como modelos de masculinidade.

No artigo intitulado “Rúgbi e Judô: Esporte e Masculinidade”, presente no livro Masculino, Feminino, Plural: Gênero na Interdisciplinaridade (organizado por Joana Maria Pedro e Miriam Pillar Grossi) a antropóloga Carmen Silvia Rial apresenta, num estudo sobre a trajetória no esporte de dois jovens brasileiros, a constituição de dois ideais diferentes de masculinidade, um representado pela disciplina física e mental de uma arte marcial japonesa (o judô) e outro pelo cultivo de um corpo preparado para os violentos choques de um esporte inglês (o rúgbi). Rial mostra que a noção de uma identidade masculina (o que, por extensão, pode se aplicar à identidade feminina) não é unânime nem mesmo dentro de uma mesma cultura.

No contexto geral dessa sociedade policlânica, os guerreiros que disputam no torneio de arco-e-flecha são considerados perfeitos machos-homens-masculinos. Porém, embora o plano de Merida seja desbancá-los simplesmente derrotando-os com sua exímia habilidade de arqueira, para os pais e mães que acompanham os jogos a questão é: quem dos pretendentes é o mais “homem”?

Entre os diversos clãs, cada um entende a masculinidade de uma forma ligeiramente diferente. Os chefes dos clãs Macintosh, MacGuffin e Dingwall consideram seus respectivos filhos como perfeitos exemplos de machos-homens-masculinos. Entretanto, se prestarmos atenção ao que Fergus sussurra a sua filha sobre o jovem Macintosh, vemos que o índice de masculinidade deste é posto em dúvida. Podemos extrapolar e considerar que cada um dos chefes considera os primogênitos dos outros clãs menos masculinos do que os seus próprios.

Dentro do grupo étnico que envolve os três clãs, há algumas unanimidades quanto ao que é masculinidade, mas cada clã tem ideais específicos que variam esse modelo sutilmente.

Cabeleiras escocesas

Um detalhe interessante para se explorar essa problemática são os cabelos dos personagens e o que eles significam em termos de identidade de gênero, masculinidade e feminilidade. No universo de Valente, percebemos que os cabelos não são arranjados de forma aleatória, segundo algum gosto pessoal dos personagens. Há uma diferença entre o recato da mãe de Merida, a rainha Elinor, que sempre usa seus longos cabelos presos, e sua filha Merida, que rompe com essa regra e, embora não corte suas mechas ruivas, deixa-as soltas, contrariando o decoro que se espera de uma dama.

Não existe, no universo do filme, uma unanimidade em relação ao significado dos cabelos quanto à identidade de gênero. Cada clã (cada cultura, cada etnia) tem uma noção própria daquilo que é a indumentária e a cosmética adequadas aos homens e aquela adequada às mulheres. Em comunidades tradicionais, existe pouca opção de variação, e quase sempre todos os detalhes estéticos têm um significado relacionado ao gênero.

Não é à toa que os penteados dos homens de cada clã é o mesmo. Dingwall e seu filho têm os mesmos cabelos curtos e arrepiados. Macintosh e seu primogênito ostentam mechas longas e soltas. MacGuffin sênior e júnior usam cabelos presos. As roupas também são as mesmas, bem como o porte físico (que não é apenas uma questão de hereditariedade genética, mas da valorização de um tipo ideal, capaz de realizar as atividades “dignas de um homem”).

No decorrer da história, vemos que essas diferenças são aos poucos suplantadas em situações críticas, especialmente o “debate” e, depois, a luta contra o urso Mor’du. No primeiro momento, em que os clãs quase chegam a declarar guerra, todos os homens se encontram frente a frente como homens-masculinos, desaparecendo as diferenças próprias a cada grupo. Quando Merida intervém no debate, ocorre uma crise ainda maior, pois a moça se coloca de igual para igual com os homens, e a noção daquilo que diferencia homens e mulheres sofre uma mudança. O estilo “masculino” de Merida ao impor sua presença passa a ser visto como um aspecto neutro, nem masculino nem feminino.

Na luta contra Mor’du, da qual Merida e a própria Elinor participam, essa quebra de paradigma se acentua, pois sem a participação das mulheres como guerreiras nesse conflito não teria havido vitória contra a fera, e a própria arte da luta passa a ser admitida como uma atividade unissex.

Por outro lado e complementarmente, as diferenças entre os diversos modelos de masculinidade passam a ser entendidos mais como idiossincrasias e particularidades pessoais do que como moldes no quais se encaixar os indivíduos. O rompimento com a tradição do casamento arranjado traz consigo um rompimento com a obrigação de os homens se provarem enquanto tais, seguindo carreiras diferentes daquelas esperadas por seus pais. O jovem Dingwall, por exemplo, talvez quisesse ser músico, tendo em vista que ele prefere usar o arco para tirar notas de suas cordas e não tem o menor jeito para atirar flechas.

Pós-generismo

Valente é uma ótima alegoria para se discutir o relativismo das identidades de sexo e de gênero. Aquilo que entendemos como identidades masculina e feminina não estão dados pela natureza, e essas noções estão sempre variando no tempo, no espaço e no contexto.

Merida antes e depois

A história de Merida e seu drama familiar pode ser lida como uma alegoria das revoluções sociais. A princesa guerreira promove uma situação de crise em sua sociedade e nos valores de sua cultura. Ela não apenas apresenta uma alternativa para a tradição que obriga jovens a se casar contra seu desejo pessoal. Ela também explicita a violência da imposição de identidades/papéis de gênero. No final, ela consegue fazer sua sociedade mudar a ideia do que é feminino e masculino, e Merida, que podia ser entendida como sendo híbrida, passa a ser aceita como uma possibilidade de fêmea-mulher-feminina. Até sua mão, outrora ferrenha defensora dos papéis tradicionais de gênero, passa a realizar atividades que provavelmente sempre teve vontade de fazer, como cavalgar livremente pelos campos. A sociedade humana evolui.

Entretanto, se as mudanças que vemos ocorrer nesse processo evolutivo mostram, por um lado, a capacidade das instituições humanas de se reinventarem, elas mostram, em contrapartida, os mecanismos pelos quais as novas configurações se adequam às mesmas estruturas antigas. Ou seja, ao invés de se passar a considerar Merida como um novo tipo de identidade/papel de gênero, ela continua a ser entendida como pertencente ao lugar supostamente reservado às fêmeas humanas. Ao invés de se admitir uma androginia de sua personalidade, a cultura cria uma nova feminilidade socialmente aceita.

(É o que acontece com qualquer tipo de acessório tradicionalmente masculino que passa a ser usado por mulheres, ou acessórios femininos que passam a ser usados por homens. As roupas que passam a ser unissex, como as calças, sofrem modificações para se adequar ao corpo das mulheres e para não parecerem “masculinas”. As bolsas, tidas como objeto exclusivo das mulheres, são modificadas para não deixar os homens “feminilizados”. Perpetua-se assim a cisão entre os dois universos, e qualquer pessoa que não adote a variação socialmente aceita de um objeto para o seu sexo-gênero entra no mundo do transgenerismo e causa estranheza.)

Assim, Merida não é uma transexual, pois ela não sofre agonia por pertencer ao sexo feminino e ter a identidade de mulher. Porém, ela é num primeiro momento uma transgênera, e suas atitudes, bem como os eventos decorrentes de sua história, fazem vislumbrar uma nova sociedade, em que as imposições ligadas ao sexo e ao gênero são mais frouxas e talvez venha, num futuro mais distante, dissolver a dicotomia e possibilitar o aparecimento de identidades totalmente inesperadas e inauditas. A visibilidade do transgenerismo, cada vez maior, pode nos levar aos poucos a um pós-generismo, em que não haja mais a imposição de identidades e papéis de gênero, tolhedoras das individualidades.

Links

Princesa, heroína e guerreira: Valente

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A respeito da resenha de Thiago Leite sobre o filme Valente, considero que houve um equívoco crasso quando se categorizou a Valente princesa Mérida como transexual, “guerreiro em corpo de mulher / herói em corpo de princesa”, pois existe uma diferença abissal entre ser transexual, ou seja, pessoa com transtorno de identidade de gênero, que não aceita o próprio sexo biológico e sofre com isso, e ser uma pessoa simplesmente inconformada com seu papel social de gênero. E sinto que este tipo de confusão, se perpetuada, seja um desserviço tanto para as mulheres inconformadas com um papel social que as oprime e reprime, quanto para os transexuais, que sofrem muito pela não aceitação de seu sexo biológico.

Mérida se ressente de seu papel social opressivo de mulher, de não poder correr livre em seu cavalo, de não poder usar seu talento como arqueira em competições, de não poder lutar por si mesma. Não vemos a Valente princesinha Mérida exibir sofrimento intenso por seu sexo biológico de mulher, nem mesmo quando o filme a mostra sozinha e livre para fazer o que deseja. Pelo contrário, não a vemos tentando extirpar seus seios ou mesmo disfarçá-los com faixas apertadas, leva seus cabelos vermelhos revoltos ao vento sem cortá-los ou trançá-los, não usa calças, usa vestidos longos e sente-se confortável com eles, usando-os até para escalar montanhas. Vale lembrar que cabelos longos, principalmente vermelhos, são forte símbolo de feminilidade e que cabelos longos, brilhantes e saudáveis são sinais de fertilidade e saúde, logo a feminilidade de Mérida é pontuada através destes símbolos adequados à cultura ocidental, principal público-alvo da Pixar, desde as primeiras cenas do filme. Mérida é menina e moça, guerreira, heroína e princesa.

Eis algumas definições tiradas do ótimo artigo “Transexualismo Masculino”, de Amanda V. Luna de Athayde , artigo este que recomendo fortemente ler:

Gênero: é o que o ser humano se torna sexualmente, seja homem ou mulher.

Identidade de gênero: é a convicção interna de feminilidade ou masculinidade.

Papel de Gênero (gender role): é o estereótipo social do que é masculino e o que é feminino.

Desordens [transtornos] de Identidade de Gênero: é quando existe uma discordância entre o sexo biológico e sua identidade de gênero, entre as quais se encontra o transexualismo.

O transexual não se opõe apenas ao papel social que lhe é imposto como homem ou mulher, ele realmente sofre desesperadamente por ter o sexo biológico que tem e em muitos casos tenta até se mutilar para tentar fazer seu corpo se parecer mais com o sexo com o qual se identifica. Moças biológicas, mas transexuais masculinos, podem tentar arrancar os seios e meninos biológicos, mas transexuais femininos, podem tentar arrancar o pênis, por isso é tão importante diagnosticá-los cedo e encaminhar para cirurgia de mudança de sexo, para evitar que sofram desnecessariamente e até possam se mutilar…

O transexual geralmente tem extrema antipatia, aversão mesmo, ao próprio genital e aos caracteres sexuais secundários, como seios, barba, músculos ou a falta deles etc. Às vezes o transexual prefere ficar sem atividade sexual, extirpando o pênis, por exemplo, para se parecer com o sexo com que se identifica, do que ter alguma atividade sexual com seu genital. A atração sexual para eles é secundária, várias vezes muito baixa, o problema real é o desgosto com o próprio sexo.

Eis a definição do CID-10 sobre Trasexualismo:

F64.0 Transexualismo
Trata-se de um desejo de viver e ser aceito enquanto pessoa do sexo oposto. Este desejo se acompanha em geral de um sentimento de mal estar ou de inadaptação por referência a seu próprio sexo anatômico e do desejo de submeter-se a uma intervenção cirúrgica ou a um tratamento hormonal a fim de tornar seu corpo tão conforme quanto possível ao sexo desejado.

Sugiro o excelente documentário Meu Eu Secreto, sobre crianças transexuais, para melhor compreensão do transexualismo, que quase nada tem a ver com atração sexual:

Também sugiro assistir ao ótimo filme Transamerica, com a excelente Felicity Huffman, onde podemos ver, entre outros casos, um transexual masculino e um transexual feminino apaixonados depois da cirurgia para troca de sexo.

Sobre Mérida ser heterossexual ou homossexual, também não é este o ponto central da história e não vemos a princesa exibir atração, seja pelo sexo oposto, seja pelo sexo similar ao seu, nem por rapazes, nem por moças, pois é muito jovem, aparenta ter entre 14 e 15 anos, não a vemos suspirar por ninguém e o foco do filme foi a relação entre Mérida e sua família, principalmente sua mãe, a rainha reprimida e submissa ao seu papel social de gênero e que, apesar de amar e ser muito carinhosa com Mérida, tentava impor a ela sua própria repressão e submissão ao papel social de princesa e mulher. Mérida diz que ainda não está pronta para casar e podemos apenas ver que despreza as bravatas do primogênito Macintosh, mostra uma pontinha de interesse pela força do primogênito de MacGuffin e junto com toda sua familia mostra surpresa e admiração com o “guerreirão” que à primeira vista parece ser o primogênito do Clã Dingwall, e que se desaponta com o verdadeiro filho de Dingwall, como pode ser visto neste trecho do filme disponibilizado no Youtube:

A rainha era uma mulher extremamente forte, poderosa, porém rigidamente reprimida e resignada ao seu papel social, usando o poder que tinha somente dentro das limitações deste papel, sendo emblemática a conversa que tem com o pai de Mérida quando este tenta lhe ajudar a falar com a filha e se espanta quando ela deixa escapar, como se falando com Mérida, que ela também, apesar de estar agora bem casada, teve seus receios ao ser obrigada a casar, mas acabou casando e ficou tudo bem.

A jornada desta mãe e desta filha para a desrepressão é o foco do filme, Mérida aproveita as lições da mãe quando necessário, usando sua presença feminina e porte ao cruzar o pátio cheio de guerreiros brigões, fazendo-os parar de brigar com sua majestosa presença, impostando sua voz ao fazer seu discurso, como sua mãe lhe ensinou e, divertidamente, usando a técnica do pai, gritando para fazê-los parar de falar quando quer. Mérida aceita e utiliza tanto as lições da mãe quanto as do pai para conseguir seus objetivos.

Interessante notar que o pai de Mérida a apoia e, naqueles tempos tão perigosos, diz que “lutar é fundamental, não importa se ela é uma lady ou não”.

Vemos este paizão apoiando Mérida ao longo de todo filme e neste clip da Pixar, disponível no Youtube, vemos como ele dá a Mérida lições de esgrima, escondido da mãe.

Os irmãos de Mérida a admiram, como pode ser visto no trecho onde ela conta que bebeu água na Cascata de Fogo e a ajudam ao longo da história.

Também é interessante ver que Mérida não se amedronta frente aos outros guerreiros e ao pai, enfrentando-os e até cruzando espadas com o pai e impedindo-o de machucar a mãe-ursa. Quantas meninas, héteros perfeitamente identificadas com seu sexo biológico, não sonham a mesma coisa ao serem ameaçadas e/ou verem seus entes queridos, inclusive suas mães submissas sendo ameaçadas/espancadas por este mundo afora?

Mulheres inconformadas com a imposição social de seu papel de gênero não são necessariamente homossexuais e muito menos transexuais, muitas de nós somos mulheres heterossexuais e gostamos muito de nosso próprio sexo biológico – e mais ainda de nossa capacidade de termos orgasmos múltiplos, só quem já sentiu sabe como é bom – e nos sentimos atraídas pelo sexo oposto. “Cheiro de homem” nos encanta e excita. Queremos ter a liberdade de, além de fazer sexo com nosso “príncipe encantado”, poder viver, trabalhar e até lutar ao lado dele. Queremos ter os mesmos direitos e deveres de nossos parceiros, não sermos nossos parceiros.

Não dá para saber se a Valente Mérida é heterosexual ou homosexual, pois isso não fica claro no filme, o foco é a relação dela com a mãe e a sociedade machista e repressora, mas dá para saber que ela é uma mulher, não um transexual, e que está inconformada com seu papel social de gênero, não quer ser reprimida e resignada a seu papel social de mulher, como a mãe, mas livre para cavalgar e usar arco e flecha ou espadas, subir em montanhas e o que mais quiser.

Para pensar: geralmente quando uma mulher heterossexual tenta se insurgir contra o seu papel de gênero socialmente imposto (redundância proposital), uma das violências que sofre é a tentativa de lhe atribuírem estigmas que não lhe são realistas, como ser homossexual ou transexual. Ela não quer se submeter a seu papel de mulherzinha, então tentam lhe roubar a própria feminilidade, caluniando-a com o estigma homossexual / transexual que não lhe pertence.

É nesse ponto que identifico o desserviço a nós mulheres e aos transexuais, pois a resenha inicial sobre Valente reduz o sofrimento destes ao simples inconformismo com o papel de gênero e nos rouba a possibilidade de sermos mulheres héteros, femininas e valentes inconformadas ao papel de gênero.

Várias mulheres ao longo da história mereceram o título de “guerreira” e não “guerreiro”, como por exemplo: Joana d’Arc, Anita Garibaldi, Joana Angélica, e mais diversas, entre as quais uma lista pode ser vista aqui, o de “heroína” e não “herói”, como Amélia Earhart, Rosa Parks, Eva Perón, Aung San Suu Kyi e tantas outras. Além disso, também existem os termos “pioneira” para designar mulheres como Marie Curie, Chiquinha Gonzaga, Ada Lovelace, Florence Nightingale etc., sem contar as mulheres identificadas ao longo da história com os termos “lutadora”, “desbravadora”, “escritora”, “autora”, “professora”, “astrônoma” etc. Interessante notar que “Valente” admite ambos os gêneros.

Repetindo-me propositalmente: Mérida não tem problemas com seu corpo, até quando escala montanhas e está sozinha ela não dá qualquer demonstração de não aceitá-lo. Ao contrário, sua feminilidade é enfatizada por usar vestidos longos sempre, até cavalgando e escalando, e ter seus longos cabelos esvoaçando ao vento. O filme é muito feliz na sutileza com que aborda o não conformismo, tanto de Mérida com seu papel social, quanto de sua mãe, com o corpo de ursa. Penso que é um filme que ajudará gerações de crianças, tanto héteros quanto homo e transexuais a serem mais assertivas em suas vidas e terem a noção de que podem sim serem diferentes, que não precisam se submeter ao que a sociedade lhes impõe.

O prêmio de Mérida ao final do filme não é o príncipe encantado, é a liberdade de ser quem ela é.

Eis mais algumas definições, a grosso modo, só para esclarecer um pouco mais as diferenças e semelhanças sobre a diversidade sexual e de comportamento que há por aí:

  • Heterossexual é a pessoa que se identifica com o próprio sexo biológico, gosta de ser homem ou mulher, gosta de ter o próprio genital, gosta de seus caracteres secundários (barba, seios etc.) e sente atração sexual e emocional pelo sexo oposto ao seu. Pode ou não se conformar com seu papel de gênero e, no caso de não se conformar, participar de movimentos feministas, por exemplo.
  • Homossexual é a pessoa que se identifica com o próprio sexo biológico, gosta de ser homem ou mulher, gosta de ter o próprio genital, gosta de seus caracteres secundários (barba, seios etc.) e sente atração sexual e emocional pelo mesmo sexo que o seu. Pode ou não se conformar com seu papel de gênero e, no caso de não se conformar, participar de movimentos feministas, por exemplo.
  • Bissexual é a pessoa que se identifica com o próprio sexo biológico, gosta de ser homem ou mulher, gosta de ter o próprio genital, gosta de seus caracteres secundários (barba, seios etc.) e sente atração sexual e emocional tanto pelo sexo oposto quanto pelo mesmo sexo que o seu. Pode ou não se conformar com seu papel de gênero e, no caso de não se conformar, participar de movimentos feministas, por exemplo.
  • Transexual é a pessoa que não se identifica com seu sexo biológico, desejando ter o genital do sexo oposto e ser do sexo oposto, não importa o tipo de atração sexual que sente, ou se sente. Seu sofrimento é muito maior do que a simples inconformação com um papel social de gênero ou do que simplesmente sentir-se atraído por pessoas do próprio sexo.
  • Travesti é a pessoa que veste roupas do sexo oposto, seja temporariamente, seja por longo tempo, o objetivo é a excitação sexual. O travesti pode gostar muito do próprio genital, de ter um pênis, sendo atraído por homens ou por homens e mulheres. Não confundir com travestismo transexual, quando o transexual veste roupas do outro sexo por identificar-se com ele. O travesti tem forte impulso sexual, o transexual geralmente não tem impulso sexual forte.
  • Crossdresser é a pessoa que se veste como o sexo oposto, seja por que motivo for, apenas por brincadeira, por profissão, por gostarem etc. O rapaz que usa saia como curiosidade e protesto social, mas é homem hétero e gosta de mulher, é/está crossdresser. Mulan, outra forte princesa Disney, foi crossdresser por necessidade, para proteger o pai disfarçou-se de homem e entrou no exército, mas nunca deixou de ser mulher e, no caso, bem mostrado no filme, heterossexual.

Sugiro ver este link da Wikipédia para entender mais sobre travestismo, pois há muito mais diversidade do que imaginamos e esta página tem alguns exemplos e definições ótimos.

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