Blanka o brasileiro

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Blanka

© Capcom

[Texto publicado originalmente na Carta Potiguar N. 4 – 07/04/2013]

Street Fighter II é um clássico video game dos anos 90, produzido pela Capcom, que popularizou um formato de jogos de luta replicado até hoje. Mas para além de sua jogabilidade e da diversão proporcionada aos jogadores, SF2 apresentou um pitoresco elenco de personagens, com roupas, penteados, cores, trejeitos e nomes que se tornaram mitológicos na cultura popular. Alguns desses personagens se apresentam também como estereótipos étnicos, culturais e nacionais.

Para os jogadores brasileiros, sempre chamou especial atenção o personagem conterrâneo Blanka, um homem selvagem que vive na Amazônia, vestido apenas com uma calça rasgada na altura dos joelhos, algemas nos tornozelos, pele verde, uma abundante cabeleira ruiva, proferindo apenas grunhidos e com um estilo de luta agressivo em que usa unhas e dentes para ferir seus adversários.

Em sua infância ele caiu na selva amazônica num acidente de avião e cresceu na floresta com outros animais. Aprendeu a controlar a eletricidade do próprio corpo e desenvolveu sozinho um estilo de luta selvagem (embora muitos pensem erroneamente que ele luta capoeira). Conheceu o mundo ao “pegar carona” num caminhão de contrabandistas e acabou se tornando mundialmente famoso num torneio de luta, ao fim do qual foi reconhecido e encontrado pela mãe, que o chama de Jimmy.

Diferente de outros personagens mais estereotipados, Blanka parece representar muito pouco ou quase nada o brasileiro comum ou mesmo o estereótipo do brasileiro, nem a autoimagem nem a visão dos estrangeiros. Mas será que o excêntrico homem amazônico verde diz alguma coisa sobre quem são os brasileiros?  Podemos ver nele símbolos da identidade e da cultura brasileira? Talvez haja nesse inusitado personagem algumas referências ao que significa o Brasil e o brasileiro para si mesmo e para o mundo.

Blanka não é nem amarelo como Ryu, nem branco como Guile, nem vermelho como T. Hawk e nem negro como Balrog. Ele é verde. Como o povo brasileiro, sem uma identidade étnica ou racial definida, ele é não só uma interseção, mas algo diverso e exótico. Ele se apresenta inclusive com várias cores e tons de pele, a depender do título da série de jogos e de acordo com o botão com o qual o jogador o seleciona. Ele pode ser verde, azul ou roxo, assim como os brasileiros são um conjunto de identidades étnicas e de cores, brancos, amarelos, pardos, mulatos, loiros, morenos, negros etc., e o mesmo indivíduo pode assumir diversas identidades raciais de acordo com as situações do dia a dia.

Nosso amigo verde ostenta grilhões nos tornozelos, marca de um possível episódio de cativeiro em seu passado, Como os brasileiros, ele ainda guarda sinais de uma época anterior à independência, ainda se sente preso e estigmatizado com a pecha do colonizado. Ele é o escravo alforriado que não consegue se libertar totalmente da cicatriz dos golpes de açoite. Ele pode ter a pele verde, mas é um negro herdeiro da pseudoliberdade da Abolição. É também um índio ligado à natureza e arredio ao modo de vida Ocidental. E é um branco perdido no Novo Mundo. Se ele não consegue se definir totalmente como branco, índio ou negro é porque tenta frustrantemente criar uma identidade que mascare sua origem mestiça, pobre e sofrida.

Essa identidade mascarada, espelhada em algo externo, se revela em seu nome. Quase todos os personagens da franquia Street Fighter têm nomes que remetem ao povo a que pertencem. Ryu é “dragão” em japonês, Chun-li significa “bela primavera” em chinês, Ken é um típico nome norte-americano e Vega um sobrenome espanhol. Mas “Blanka” não só não soa português como tem um K que não costumava fazer parte do alfabeto oficial no Brasil até antes do Novo Acordo Ortográfico. “Blanka” é o menos estereotipado dos nomes em Street Fighter, mesmo considerando-o como um apelido. Jimmy, diminutivo de James, é simplesmente inglês e nada brasileiro.

Mas essa identidade com referência externa revela muito da representação que o brasileiro faz de si mesmo. A média dos habitantes deste pedaço da América se vê como integrante de uma cultura ocidental branca, eurocêntrica e cristã. Esse povo que vê a si mesmo como um estrangeiro distante e recém-chegado em terras bravias olha para a população pobre e negra, indígena e nativa como uma parte da natureza e fauna locais, como um elemento irreverente e inconveniente da realidade da humanidade e sociedade do país.

Esse que se pensa como um gringo que foi arrebatado pelo inferno verde e obrigado e conviver com a gentalha primitiva não percebe que ele é produto desse meio e fruto dessa floresta, compartilhando os mesmos vícios e virtudes de uma cultura que se diferencia em muitos aspectos de uma Europa ou Estados Unidos da América idealizados. Ele e sua mãe se esforçam para se inserir no mundo globalizado segundo os ditames do Ocidente, e tanto o “Jimmy” quanto o “Blanka” com K são reflexos da tentativa de se “americanizar” e fazer parte de um grupo privilegiado, bem como tantos  nomes luso-brasileiros em que se enxertam Ks, Ws e Ys meio que aleatoriamente.

No entanto, apesar de todo esse conflito, Blanka sabe ser irônico e ridicularizar a si mesmo e ao outro. Quando vence uma luta, solta essa frase de efeito: “Seeing you in action is a joke!”, “Ver você em ação é uma piada!” Ora, sendo um dos mais “ridículos” personagens aos olhos dos outros, Blanka zomba de seus adversários no melhor humor brasileiro. É o patinho feio tupiniquim que na Copa do Mundo de Futebol mostrou 5 vezes ser um grandioso cisne cinzento.

Blanka é uma contradição como é o brasileiro. Nem o lutador glamouroso que sonha ser, nem o monstro que teme dentro de si, o brasileiro é um produto inusitado e único que precisa se reconhecer e ser reconhecido em sua especificidade cultural. Mistura de elementos de várias nacionalidades, não deve negar nenhuma deles como fonte de sua natureza atual, e deve trilhar um caminho só dele, mas lado a lado, de igual para igual com os outros “competidores” do Grande Torneio Mundial.

[As imagens que ilustram este texto são propriedade da Capcom]

Pela crítica contra a censura

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Da Correção Política à CensuraUma ONG da Itália pretende censurar a Divina Comédia de Dante nas escolas do país, cujo conteúdo é eivado de intolerância religiosa, sexual e racial. Há algum tempo se ouviu uma polêmica sobre um professor norte-americano que “revisou” Mark Twain, retirando de um de seus livros as palavras ofensivas aos negros. Na mesma linha e pouco tempo antes, uma discussão no Conselho Nacional de Educação trouxe a consideração sobre restrições ao uso de uma das obras de Monteiro Lobato no Ensino Fundamental, também por causa de seu conteúdo racista.

Alea jacta est. Cada um se posiciona e constrói um debate sem fim, os defensores da correção política se arriscam a ser taxados de simpatizantes da ditadura e os defensores do patrimônio cultural se arriscam a ser responsabilizados pela manutenção de preconceitos difíceis de erradicar.

Quando escutei pela primeira vez as expressões “politicamente correto” e seu antônimo “politicamente incorreto”, imaginei que este se aplicava ao humor subversivo, no estilo das charges que difamam os políticos corruptos e as brincadeiras que servem para abalar valores conservadores como sexismo e racismo. Afinal, o que seria “correto” numa visão moralista é aquilo que se enquadra nos valores tradicionais a ser defendidos de qualquer movimento revolucionário.

Tanto é assim que a expressão “politicamente correto” é muitas vezes usada para se referir a valores tradicionais. A pornografia, por exemplo, que vai de encontro a uma certa moral cristã assexuada, pode com muito mais probabilidade ser chamada de politicamente incorreta, mesmo nas versões em que a mulher não aparece exclusiva e meramente como objeto do prazer masculino, do que a defesa dos direitos dos homossexuais, condenada pela mesma moral cristã. A pornografia é politicamente incorreta porque é convencionalmente obscena e, certamente, fere os “bons costumes”.

Não é à toa que o critério para a Igreja Católica incluir uma obra no Index Librorum Prohibitorum era justamente a incorreção política. Nesse contexto, tudo aquilo que é transgressor (ou seja, que contraria o poder da Igreja) é politicamente incorreto. Mas, por uma série de fatores, aquilo que outrora poderia ser considerado politicamente correto não o é mais hoje em dia, pois o significado assumido hodiernamente pelo termo se aplica justamente ao que seria mais condizente com os valores democráticos.

O complicado de toda essa história é que não dá para ser maniqueísta sem desconsiderar aspectos problemáticos de ambas as posições extremas do debate, ou seja, da posição dos censuradores (os politicamente corretos) e a dos defensores da tradição (em parte conservadores pouco preocupados com uma visão crítica da sociedade e da cultura).

E é a crítica (junto com a temperança) que deveria nortear esse debate. Ao defender as obras clássicas da correção política, não se pode ignorar o fato de que Caçadas de Pedrinho tem expressões racistas, e é preciso se lembrar que Monteiro Lobato não só reproduzia preconceitos de sua época como era favorável ao segregacionismo e era até simpatizante da Ku Klux Klan.

Ainda vivemos inundados de racismo, sexismo e tantas outras intolerâncias. Uma criança que lê Monteiro Lobato não vai aprender com ele a ser racista. Mas não se pode menosprezar a força e a impressão que uma boa leitura pode causar numa mente em formação. Se há algum valor na obra de Lobato, então mantenhamos seus livros nas grades curriculares. Mas se há algum problema com ela, é imperativo que a abordagem seja atualizada, que os escritos sejam contextualizados, evitando-se demonizar o autor, mas da mesmíssima forma tentando não endeusá-lo.

Seria um retrocesso obscurantista se os livros fossem censurados e reescritos, perder-se-ia a memória histórica e correríamos o risco de cometer novamente erros crassos de nosso passado. Pessoalmente, minha posição é difícil de ser localizada dentro das casas brancas e pretas desse xadrez. Sou fortemente contra a censura, e acho que qualquer medida que busque dificultar o acesso a obras importantes de nossa história cultural é desmedida. Porém, todas essas obras, sem exceção, possuem algum tipo de preconceito, reflexo do contexto em que foram produzidas.

Eu me oporia, por exemplo, à censura da Bíblia, mesmo tendo opiniões anticristãs. Considerando que o livro sagrado do Cristianismo transborda racismo, belicismo, machismo, homofobia e vários outros tipos de intolerância, ele deve ser lido com cuidado pelas gerações contemporâneas.

Meu trabalho de conclusão do curso de Ciências Sociais abordou as imagens da mãe e da prostituta na poesia de Augusto dos Anjos. Mesmo sendo admirador da obra do poeta paraibano, não deixei de considerar nesse trabalho que o imaginário do artista está carregado de pré-noções típicas de sua época. Esse tipo de crítica é importante para que os clássicos não sejam tomados como obras puramente racionais de portadores de uma genialidade atemporal.

As obras que entraram no cânone literário ocidental, os ditos “clássicos”, estão ali devido a circunstâncias históricas e escolhas intelectuais que, se fossem um pouco diferentes, as preteririam, e os clássicos seriam outros. É difícil imaginar que um defensor dos clássicos defenderia com a mesma ênfase uma “obra menor”, de um “escritor menor”. Também é difícil supor que um defensor da correção política atacaria um livro pouco conhecido e com pouca repercussão em nossa cultura. A disputa é sempre em torno de objetos de grande valor, pois o importante não é a crítica ponderada sobre as grandes obras, mas a imposição de uma visão de mundo sobre a outra, e nisso os “politicamente incorretos” são tão aguerridos quanto os “politicamente corretos”.

O monopólio do poder da palavra

A correção política é importante para que meçamos os limites das manifestações das diversas intolerâncias, muitas vezes reprodutoras de preconceitos arraigados. Sendo assim, sou a favor de uma postura politicamente correta. Mas ela deve ser educadora e não impositiva. Deve, acima de tudo, atacar as causas e não os efeitos (os signos) da intolerância.

E é de se notar que a correção política tem sido feita por meio da imposição e tem criado um ambiente de paranoia e de melindres, que levam a extremos como a tentativa, por parte do MPF de Minas Gerais, de retirar de circulação o Dicionário Houaiss por causa de seu teor preconceituoso na definição do verbete “cigano”. Uma mente ponderada percebe imediatamente o absurdo que é tentar apagar de nossa memória coletiva os significados pejorativos que as palavras assumem, e qualquer dicionário sério como o Houaiss deixa claro quando um significado é pejorativo, figurado ou chulo (claro, para quem sabe consultar o dicionário).

Porém, não são só os politicamente corretos que jogam sujo. Seus antagonistas, ao defender o Houaiss, terminam por defender o uso tradicional das palavras, revelando seus próprios preconceitos e ignorância.

Por exemplo, André, do blog Ceticismo.net, argumenta contra os ciganos, dizendo que eles não têm cultura e não contribuíram com nada significativo para a humanidade. Ele ignora, em primeiro lugar, o que significa cultura no contexto em questão (talvez por lhe faltar alguma noção de Antropologia), sem saber que toda e qualquer sociedade tem cultura. Em segundo lugar, mostra desconhecimento, por exemplo, da influência dos ciganos no patrimônio cultural da Espanha, que em parte deve o flamenco a esse povo nômade.

Ademais, isso nem deveria ser levado em conta, pois uma visão universalista não trata com tolerância só os povos a quem devemos alguma coisa e que não são parasitas da cultura ocidental. O que está em pauta aqui é o preconceito, é achar que todos os ciganos são ladrões, trapaceiros e vigaristas, só porque todo mundo diz que o são, mesmo sem nunca ter visto um cigano na vida. Com base nisso, pessoas são tratadas como se não fossem seres humanos dignos dos mesmos direitos, negando, por exemplo, um atendimento médico pelo sistema gratuito do governo, como se um indivíduo não merecesse os mesmos cuidados só porque acham que é ladrão.

O que André acaba fazendo, talvez sem querer, é reafirmar esse preconceito, dizendo que cigano é sim sinônimo de ladrão, com isso deixando implícito que todos os ciganos são ladrões e parasitas sociais. Por isso tudo é importante que sejam feitas pesquisas que averiguem até onde os preconceitos se confirmam na realidade, e deixem claro ao público quem realmente são os ciganos. Isso e não a destruição de livros.

Quem são os subversivos?

A reação dos autoproclamados “politicamente incorretos” costuma se pautar pela defesa da liberdade de expressão. Acusa-se os “politicamente corretos” de agirem autoritária e repressivamente, antecipando o prelúdio de uma distopia bradburiana (Fahrenheit 451) ou orwelliana (1984).

Dentro do debate sobre a correção política, têm destaque as questões relativas à linguagem, seja na tentativa de se reformar o vocabulário e os preconceitos nele embutidos, trocar o uso de certas palavras por outras ou admitir as variedades menos privilegiadas das línguas como formas legítimas de manifestação de certo idioma.

Os defensores do uso tradicional da língua são talvez os que mais facilmente encontram apoiadores. Como afirma Marcos Bagno, citando John Milroy, o preconceito linguístico ainda se mantém fora das discussões sobre discriminação, que já aprofundaram o debate sobre racismo, sexismo, etnocentrismo, homofobia etc., mas ainda advogam a favor do “idioma correto” e das regras gramaticais, condenando os usos que fogem a essa norma. Por isso é tão difícil entender a proposta do MEC de não corrigir os “erros” (na realidade, variantes menos prestigiadas socialmente), sem deixar de ensinar a norma culta escrita. Muita gente acha que a proposta é “ensinar errado”.

Não podemos ignorar que certas palavras reproduzem preconceitos. Há vocábulos que carregam em si noções pejorativas. Mas isso não se deve a qualquer valor intrínseco a essas palavras. Se “negro” tem conotação ofensiva quando se refere a pessoas de fenótipo africanoide, não é porque ela possua em si mesma uma carga negativa que transcenda o contexto em que é usada. Isso se dá porque temos uma história que marcou os descendentes de africanos no ocidente com diversos estigmas. Passar a chamar os negros de afrodescendentes não vai mudar os preconceitos que temos a respeito deles. O que vai acontecer é que “afrodescendente” (duvido muito que essa palavra se torne de uso comum) assumirá toda a carga racista e pejorativa com que ainda representamos os não-brancos no Brasil, com qualquer nome que seja.

Um dos equívocos dessa correção política é justamente achar que qualquer referência à alteridade é negativa, e isso acaba revelando seu próprio preconceito, como se simplesmente apontar a diferença fosse um tipo de discriminação. Mas não importa que palavra seja usada, ela sempre vai se imbuir de preconceito. Nos EUA, o termo “black” foi substituído por “negro”, depois por “Afro-American” e “African American”. Todas elas acabaram se investindo do mesmo preconceito do termo anterior.

A reação dos autoproclamados politicamente incorretos acaba confundindo as pessoas. Normalmente, na História, quem reclama da falta de liberdade são aqueles cujas ideias vão de encontro ao status quo. Eram justamente os hereges que ameaçavam o poder (político) da Igreja Católica que incorriam em incorreção política e precisavam ser silenciados.

O que acontece nos dias atuais é que o movimento reacionário à correção política moderna é tão ferrenho que acaba se passando por subversivo (e de fato pode ser entendido assim se considerarmos a forma conservadora que assumiu o discurso que deveria ser libertário). As pessoas tendem a imaginar que a censura vem contra manifestações subversivas, que ferem a ordem instituída e é por isso que são atacadas. Aqueles que têm motivações libertárias (mas nem sempre se utilizam de meios coerentes com os fins) bancam os conservadores, defensores dos “bons costumes”, e é assim que a pecha de politicamente correto inverte seu significado medieval e recai neles.

O que muda em ambos os casos é que um se preocupa em eliminar qualquer ameaça ao poder instituído, enquanto o outro tenta reprimir tudo aquilo que ameaça a criação de uma nova ordem menos excludente. Porém, embora simpatize com os fins do segundo, não concordo com os meios a que acaba chegando quando pretende se valer da censura (um dos mecanismos prediletos de qualquer regime conservador).

Felizmente, vivemos numa época em que a liberdade é valorizada e a censura repudiada. Infelizmente, o repúdio à censura é mobilizado por forças conservadoras para defender sua liberdade de expressar quaisquer ideias, até as mais absurdas. O efeito disso é desculpar todo tipo de manifestação, por mais restringidora, preconceituosa e intolerante que seja.

O que poderia nos levar a um mundo com menos violência e intolerância cai na armadilha reacionária e acaba atrasando os avanços libertários. A atitude intolerante e exclusiva daqueles que advogam a tolerância e a inclusão atrapalham os projetos para uma sociedade diferente.

A defesa contra a correção política se fortalece num movimento mais organizado do que os seus antagonistas. Hoje em dia é moda ser politicamente incorreto, é cool se opor à correção política. O público consumidor vai atrás do que ostente em seu rótulo essas palavras, talvez achando que se tratam de autêntica crítica social (muita gente acha que crítica social é falar mal do Brasil, por exemplo).

Ironicamente, à tentativa de se criticar o teor preconceituoso do humor se atribui um caráter moralista, como se a reprodução dos preconceitos, que tem história milenar, não fosse ela mesma profundamente moralista e mantenedora de hierarquias de poder.

Mas o humor pode ser usado no sentido inverso, para colocar em questão essa hierarquia, quando parte daqueles que são oprimidos para aqueles que oprimem, por exemplo. É o caso das charges políticas. Eu tendo a pensar nessas charges de teor mais crítico como verdadeiramente politicamente incorretas, pois mexem com o status quo. Mas elas não são a mesma coisa de uma piada que compara um negro a um macaco.

Por tudo isso é que vejo esse debate como uma briga de poder. Não se trata de revolucionários vs. reacionários ou progressistas vs. conservadores. É uma luta em que cada indivíduo escolhe seu time contingencialmente, da mesma forma que uma pessoa escolhe o time de futebol.

O efeito mais pernicioso dessa luta é fortalecer posturas moralistas por todos os lados, e fica extremamente difícil incluir no debate uma visão crítica sobre a correção política. Essa crítica deve considerar não só os perigos de uma censura bem-intencionada (toda censura o é), mas também os riscos de se manter o status quo em nome da liberdade de expressão e posar histrionicamente como “politicamente incorreto”.

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(Este texto foi publicado originalmente na Carta Potiguar, como parte da Série “Da Correção Política à Censura“)

A evolução do homem branco

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Desde que as teorias sobre a evolução biológica do Homo sapiens começaram a ser elaboradas, tornaram-se comuns os esquemas gráficos que representam os diversos estágios que vão desde os primatas que deram origem aos hominídeos modernos até o ser humano como o conhecemos nos dias de hoje.

A Ciência se guia pelo ideal da objetividade, embora reconheça que a limitação dos sentidos humanos tenha que ser relevada e implique sempre na aproximação da realidade e não em sua pura apreensão. Os valores e pré-noções culturais também marcam a forma como construímos o conhecimento científico e os esquemas evolutivos humanos são exemplos de como as representações do mundo restringem o alcance das representações científicas.

Os esquemas evolutivos do ser humano normalmente mostram o ápice da escala como um homem branco. Daí já tiramos, pela simples pinçagem de duas palavras significativas, que a maioria dos desenhos que representam a genealogia da espécie humana está pintada por um ideal androcêntrico e eurocêntrico. Vejamos o gráfico abaixo, conhecido como A Marcha do Progresso, de autoria de Rudolph Zallinger, na famosa obra Early Man.

Um esquema mais simplificado do diargama acima. Em ordem cronológica: Proconsul sp., Australopithecus afarensis, Homo habilis, Homo erectus, Homo neanderthalensis, Homo sapiens

Esta é uma das inúmeras representações científicas que se podem encontrar e que servem para nos dar uma ideia aproximada de como um primata peludo se tornou um antropoide pelado. Mas quase todos esses esquemas culminam num homem branco, de traços europeus. Isso se justifica em parte pela tradição científica, que herdou diversos esquemas de pensamento do Iluminismo europeu. Os europeus fizeram os primeiros esboços desses esquemas e, portanto, desenharam a si mesmos ali.

Essa justificativa dá ao suposto (por mim) racismo/etnocentrismo dessas representações uma origem relativamente inofensiva, afinal, o homem ali representado poderia ser qualquer um do imenso universo da diversidade humana. Porém, a ideia evolucionista moderna de que a civilização europeia representa o auge da realização humana não deixa de aparecer implícita nessa escala, principalmente se nos lembrarmos de tantas teorias do chamado “racismo científico”, que infelizmente ainda têm muitos adeptos (que muitas vezes nem se dão conta de que o são).

E mesmo considerando o contexto (europeu e androcêntrico) em que se elaborarm esses esquemas (afinal, se um melanésio tivesse desenhado a Marcha do Progresso, seu ápice seria um homem melanésio; se tivesse sido construído numa sociedade ginocêntrica, o ápice da evolução seria uma mulher), eles ainda são, em nossos dias de ideiais mais humanistas, propagados sem modificações, o que implica em efeitos indesejáveis para a democracia moderna.

Evolução branca

Nesse racismo que permeia nossas mentes, que vê, por exemplo, os negros africanos como pertencentes a um estágio anterior ao dos brancos europeus, surgem piadas absurdas como a que se segue:

Imagem de uma publicação “científica” do século XIX (Types of Mankind, de Josiah C. Nott e George Robins Gliddon), que sugeria que os negros são o elo evolutivo entre os brancos e os macacos

Esse gráfico, encontrado alhures na internet, mostra bem a ideia que expus acima. Os africanos são vistos como menos evoluídos do que os europeus, do que os norte-americanos e do que os asiáticos. São ainda hoje apelidados, em muitos contextos, de “macacos”. A pilhéria acima, curiosamente, evoca certas ilustrações do século XIX, que representavam o racismo científico da época (como o desenho ao lado).

Num estudo publicado em 2008 por um grupo de psicólogos de duas universidades norte-americanas, foi averiguada a presente e constante representação dos negros como mais próximos dos primatas e menos próximos da humanidade do que os brancos.

Essa pré-noção, que durante alguns séculos serviu para justificar a escravidão de africanos, se alia a uma visão dos negros como parecidos fisicamente com os primatas. Tendo em vista que os chimpanzés e gorilas, os antropoides mais conhecidos e mais próximos da espécie humana, têm pêlos negros (e no caso dos gorilas também a pele negra), a associação imediata entre pessoas de pele escura e macacos nos faz pensar numa proximidade evolutiva.

Mas é bom salientar que os humanos em geral são parecidos com os macacos, e há traços nos humanos brancos que os aproximam mais dos chimpanzés do que os humanos negros (como os pêlos mais abundantes, a pele clara, as narinas bem visíveis e os lábios finos). Um esquema como o desenho ao lado mostra que é preciso forçar a barra para sustentar as teses racistas. Neste caso, o artista se vale da cor escura das duas figuras inferiores para aproximá-las; as dos dois homens são caricaturais, uma na forma do ideal grego e outra exageradamente bruta; além disso, vê-se que o crânio do negro foi propositalmente inclinado para se parecer mais com o do chimpanzé.

Provavelmente, num contexto histórico diferente, em que os negros tivessem colonizado e escravizado os brancos, estes seriam vistos como mais próximos dos primatas do que os negros, e jogadores de futebol como Kaká e Cristiano Ronaldo poderiam receber bananas de presente das torcidas racistas.

A ideia de que o branco representa o humano normal, sendo os outros tipos considerados meras variações secundárias, é tão forte que até numa história em quadrinhos de Jornada nas Estrelas (Star Trek), franquia conhecida por veicular ideais libertários, a reproduz de maneira sub-reptícia e quase despercebida. No quadrinho abaixo, retirado da revista Klingons: Herança de Sangue (IDW/Devir, 2008), vê-se um klingon (uma das espécies alienígenas do universo de Star Trek) sofrendo uma brutal cirurgia plástica para se parecer com um humano, o que inclui ter sua pele “clareada”.

“Jornada nas Estrelas – Klingons: Herança de Sangue” (Devir, 2008, p. 35)

O que deixa implícita a exclusão de diversas cores que caracterizam os grupos humanos, que variam desde um tom escuro quase negro, passando por uma pele avermelhada e morena até tons brancos e propriamente pálidos. O klingon em questão poderia muito bem passar por um ser humano sem precisar clarear sua pele.

Evolução masculina

Uma paráfrase de uma ilustração vista acima, mostrando a mulher no lugar do homem

Outra pré-noção presente na “marcha do progresso” é a de que o ser humano é basicamente macho, tendo a fêmea um papel secundário na espécie. Quase todos os desenhos mostram um homem no auge da escala e seus antepassados também são todos machos. Os desenhos que representam a mulher são em geral feitas a partir dos desenhos androcêntricos já consolidados ou, em muitos casos, são paródias.

Mas vemos na imagem ao lado que os primeiros estágios são idênticos aos do modelo masculino que lhe serviu de base, ignorando inclusive que outras espécies de mamíferos são tão dimórficas quanto os humanos.

Pensando nisso, o artista Tom Rhodes concebeu o desenho abaixo, que mostra a evolução dos dois sexos humanos, mostrando também o dimorfismo nos estágios anteriores ao Homo sapiens.

“A evolução do homem… e da mulher”

Essa é uma perspectiva interessante e mais aberta quanto à questão de gênero. Mas se voltarmos ao racismo discutido acima, vemos que os dois últimos exemplos ainda são eurocêntricos, mostrando mulheres e homens brancos no final da evolução. Vemos nesta última ilustração que o Homo sapiens usa roupas que remetem à vida na Europa, como se o ser humano tivesse surgido lá e não na África.

De qualquer modo, a mulher ainda não aparece como protagonista na história evolutiva humana. Mesmo neste último exemplo, os rostos de algumas de nossas antepassadas está oculto e elas sempre aparecem em segundo plano, exceto no último estágio. Mas mesmo neste a mulher meio que parece estar mais próxima da primitividade, com menos roupas do que o homem, imagem que reproduz a ideia sexista de que os homens são mais racionais (e portanto mais humanos).

A placa da Pioneer

O papel coadjuvante da mulher na representação da espécie humana é tão marcado que até mesmo a mensagem das sondas espaciais Pioneer 10 e 11, lançadas ao espaço pela NASA, que deveria ser a mais objetiva possível, mostra o ser humano macho na posição de representante, enquanto a mulher ao seu lado assume a postura de um papel secundário. Além disso, essa imagem não mostra o ser humano em sua diversidade, pois os traços são europeus (embora, em termos práticos, seja bem provável que uma espécie elienígena não vá perceber isso, os humanos podem ser todos iguais para ela).

No senso comum, em nossa cultura e em muitas outras mundo afora, homens e mulheres costumam ser encarados como duas espécies diferentes. É muito mais comum percebermos e salientarmos as diferenças (pensadas como irreconciliáveis) do que as semelhanças que nos tornam uma espécie única. Isso pode ser notado em algumas charges anedóticas que utilizam como base a Marcha do Progresso. Fica subjacente a ideia de que a evolução do gênero feminino segue uma rota alternativa em relação ao masculino.

Considerações finais

Se, por um lado, as representações da evolução humana segundo os gêneros valorizam as diferenças entre estes, esquecendo as semelhanças, as representações com cunho racista deixam de reconhecer a diversidade fenotípica humana. Mas as duas coisas estão misturadas, e elas ficam mais explícitas nesta elaborada ilustração de Milo Manara:

Clique na imagem para ampliá-la

Neste esquema, o homem da Europa, com origens na Mesopotâmia, é o protagonista. A mulher aparece desde o início até o fim como coadjuvante da história, normalmente tratada como mercadoria e/ou objeto sexual. Além disso, os povos ameríndios e asiáticos só aparecem em episódios da história humana em que houve contato significativo e impactante deles com o Ocidente.

É certo que se podem encontrar marchas do progresso que fogem meis ou menos das pré-noções racistas e sexistas. Algumas das paródias até contêm elementos de crítica. Porém, as mais bem-humoradas e interessantes permanecem reproduzindo sub-repticiamente o racismo androcêntrico.

Retomamos a postura dos primatas

Como disse Winston Churchill, “os porcos são os únicos animais que nos olham de igual para igual”

Toda a tecnologia visa ao conforto humano

Evolução incompleta

Humanos são macacos

Poluímos e causamos danos a nós mesmos

Ainda há quem não dê valor às evidências…

Este texto é dedicado a Dyego Saraiva, que me deu a ideia de escrevê-lo.

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Sobre as ilustrações

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