O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

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o-hobbit-jornada-inesperada-poster-13-anoesTítulo original: The Hobbit: An Unexpected Journey

Direção: Peter Jackson

Ano: 2012

País: EUA e Nova Zelândia

Uma jornada muito esperada

Houve uma enorme expectativa, com uma pitada de receio, pois o filme prometia muito e, se não fosse bom, seria altamente decepcionante. Mas não foi.

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (The Hobbit: An Unexpected Journey, 2012), nova incursão cinematográfica do diretor Peter Jackson no mundo imaginado por J. R. R. Tolkien, trouxe à vida a primeira terça parte de O Hobbit, a grande aventura de Bilbo Bolseiro para o Leste, ajudando os anões a reaver seu antigo lar. (Leia o artigo O Hobbit para saber mais sobre o livro.)

O filme começa a partir de onde se inicia a narrativa do primeiro filme da trilogia O Senhor dos Anéis, do mesmo Peter Jackson, ou seja, com Bilbo se preparando para seu onzentésimo primeiro aniversário e sua fuga do Condado. É então que ele decide escrever sua história, dando início ao que seria depois chamado O Livro Vermelho, que contém os relatos de sua aventura e da missão de seu sobrinho Frodo (ou seja, todo o texto de O Hobbit e de O Senhor dos Anéis).

Ele conta a Frodo os antecedentes da histótia do anão Thorin Escudo de Carvalho, de como seu avô foi destronado pelo dragão Smaug, que tomou a Montanha Solitária dos anões, e de como estes ficaram desamparados, sem poder contar com os humanos expropriados pelo mesmo monstro e sem receber auxílio dos elfos, que se recusaram a ajudar.

“Numa toca no chão vivia um hobbit”, começa Bilbo (ecoando a frase que apareceu na cabeça de Tolkien e que lhe rendeu uma das mais interessantes aventuras de fantasia do século XX), e conta como o mago Gandalf apareceu numa certa manhã, convidando-o para uma aventura, e a chegada dos 13 anões não convidados a sua casa, vindos para jantar, discutir planos e contratar um ladrão, ou seja,  o próprio relutante Bilbo, cuja participação na missão viria a ser muito mais interessante e significativa do que todos (exceto Gandalf) imaginaram desde o início.

Uma análise do filme através dos personagens

Bilbo, o hobbit

Eu havia dito em minha resenha do livro que provavelmente Bilbo, o hobbit do título da obra, ficaria meio apagado no meio de 13 anões. Mas isso felizmente não aconteceu. Assim como no livro, o protagonista do filme está no centro de tudo e a trama gira em torno de seu desenvolvimento. Um pacato e típico hobbit, Bilbo chega a desmaiar ao saber dos possíveis perigos que enfrentaria em sua jornada. Mas algo dentro dele ansiava por uma aventura, e caberia somente a ele a decisão de seguir os anões.

Neste sentido, há uma diferença significativa em relação ao romance, no qual Bilbo só segue os anões ao ser pressionado por Gandalf. No livro, ficam bem claros os motivos profundos para o hobbit realmente querer viajar, conhecer outras raças e lugares, mas isso não fica tão claro no filme, e seu “salto de fé” para a aventura pareceu um tanto inverossímil. Porém, a cena em que ele enrola os trolls para ganhar tempo (no livro é Gandalf quem engana os monstros) foi importante para mostrar que, desde o início, Bilbo tinha habilidades importantes para o sucesso da missão.

E seu papel se mostra crucial no decorrer dos eventos, ao demonstrar coragem (ajudando Thorin a lutar contra os orcs), compaixão (ao poupar a vida de Gollum, colocando em prática uma importante lição ensinada por Gandalf) e empatia (ao se comprometer a ajudar os anões a retomar aquilo que Bilbo mais preza: o lar). Ele se destaca como o pequeno indivíduo dotado de um grande espírito, em conformidade com a proposta original de Tolkien. Por isso tudo o considero muito mais marcante do que Frodo, pois este, especialmente nos filmes, se mostra muito melancólico, fraco e resignado, sendo um protagonista bem menos interessante do que Bilbo, este sim o hobbit.

Gandalf

O mago errante continua o mesmo de sempre, e sua imagem é agora mais do que nunca associada com o grande ator Ian McKellen. Sábio, bem-humorado, pontual, assertivo e prevenido, ele funciona na história como articulador dos eventos e intermediador dos conflitos que podem atrapalhar a execução da missão. Gandalf é a perfeita figura do guia, orientador e mestre, ajudando os indivíduos a encontrar seu rumo e seu lugar no mundo.

Está sempre um passo à frente e sempre está no lugar certo na hora certa. Não dá para imaginar a história sem ele, e seriam plenamente dispensáveis as aparições de Galadriel e Saruman, nas deliberações sobre o futuro da Terra-Média, embora tenham sido bem mais pertinentes do que Radagast.

Thorin

Thorin Escudo de Carvalho é um grande herói entre os anões. Ele é neto de Thrór, o Rei sob a Montanha destronado por Smaug. Tendo morrido seu avô e seu pai Thráin, Thorin é o herdeiro do trono de Erebor, a Montanha Solitária. Ele busca retomar o antigo lar dos anões e o grande tesouro guardado pelo dragão. Principal representante de todos os anões do filme, ele praticamente ofusca sua comitiva de 12 companheiros, que estão ali como coadjuvantes (excetuando-se Balin, que é o mais importante da comitiva depois de Thorin e serve como mediador em alguns momentos).

Depois de ser exilado de Erebor como todos os anões que lá habitavam, o nobre príncipe Thorin teve que se sujeitar a diversos trabalhos braçais até conseguir recursos suficientes para reunir um grupo com a coragem de tentar retomar a Montanha. Nesse ínterim, também esteve envolvido numa sangrenta batalha contra orcs, cujo líder, Azog, se tornou seu arqui-inimigo.

Thorin é um personagem que ecoa o mesmo papel de Aragorn em O Senhor dos Anéis, ou seja, é o legítimo herdeiro de uma linhagem de nobres governantes, buscando retomar seu lugar de direito. Tanto sua herança quanto seus feitos inspiram seus companheiros e são admirados por Bilbo. No entanto, sua arrogância provoca algum conflito com o hobbit e com Elrond, o elfo sem cuja ajuda ele jamais conseguiria executar sua missão.

Radagast

O mago Radagast,  o Castanho,  merece apenas uma breve consideração. A presença dele no filme só se justifica pela relação com O Senhor dos Anéis, servindo de ponte para explicar o surgimento do vilão daquela trilogia. O ponto positivo dessa presença foi mostrar as diferenças entre os magos (ao lado de Gandalf e Saruman), bem como trazer à tona o fato de que na Terra-Média os animais costumavam se comunicar com as raças humanoides.

Nesse sentido, sua presença foi importante para evidenciar o caráter mágico desse mundo fantástico, que às vezes fica esquecido. Mas suas cenas são meio enfadonhas e fogem demais do ritmo e clima da trama principal, e ele poderia ter sido dispensado. Considero o personagem até interessante, mas pelo menos poderiam ter deixado para lá aquele trenó de coelhos, que ressoa uma fantasia muito à Disney, bem diferente do estilo de Tolkien.

Gollum

Talvez o personagem mais esperado pelos fãs de Tolkien e da trilogia anterior, Gollum fez uma ótima aparição, extremamente real na renovada tecnologia de captação de movimento e ainda mais carismático do que antes. Mais uma vez Andy Serkis faz um excelente trabalho incorporando um personagem virtual, mas muito crível em suas expressões, suas flutuações esquizofrênicas e especialmente no semblante de desamparo e desespero que provocam a compaixão de Bilbo e freiam a espada deste (numa perfeita cena sem palavras).

Mas achei seu capítulo um tanto curto, o engajamento e a resolução meio bruscas. Porém, mesmo assim todo o essencial estava ali, revelando apenas o necessário, sem se estender desnecessariamente em seu passado e sua história (que já está toda contada em O Senhor dos Anéis).

Considerações finais

Durante a divulgação do filme e enquanto o assistia, encontrei uma forma interessante de relacionar os livros ao filmes (de ambas as trilogias). Nos filmes, as adaptações, ou seja, as supressões e/ou os acréscimos, podem ser entendidas como disparidades de versões. Os filmes seriam uma suposta aproximação maior do que realmente aconteceu, enquanto os livros apresentam os mesmos eventos recontados pelos seus protagonistas (Bilbo, Frodo e Sam), ou seja, com um olhar enviesado, recriando episódios, retirando eventos considerados não muito importantes e enfeitando outros para parecerem mais coloridos do que realmente foram. Por isso, e tendo em vista as observações acima, penso que, para se apreciar esse universo fantástico ao máximo, vale muito a pena conhecer a literatura tolkieniana.

Pensando bem sobre todas as cenas do filme, não me recordo de ter havido supressões significativas em relação ao livro. É como se tudo o que acontece nos seis primeiros capítulos do livro estivesse ali na tela, e ainda com a inclusão de vários outros elementos que enriquecem (ou, em alguns raros casos, só tomam tempo desnecessário) a trama, dando um significado mais profundo à trajetória de Bilbo, de Thorin e de Gandalf. A inclusão, por exemplo, de um arqui-inimigo de Thorin, o orc Azog, torna as ameaças da viagem mais verossímeis e significativas.

Comparando a extensão deste filme (e consequentemente dos dois próximos filmes) com a da outra trilogia, percebo um aproveitamento maior da história de O Hobbit na tela, tendo em vista que há muito mais supressões na versão cinematográfica de O Senhor dos Anéis, devido à longa extensão do livro. A aventura de Bilbo tem um terço do tamanho da de Frodo e bastaria um filme para apresentá-lo da forma como o foi a outra trilogia. Dessa forma, para os fãs, a escolha pelo formato de uma trilogia mantém quase intacta a riqueza da obra literária original.

Algumas pequenas mudanças e acréscimos em cenas-chave também não foram despropositadas. Um ótimo exemplo é o encontro de Bilbo com Gollum, contado de modo diferente. No filme, ao invés de encontrar o anel antes de Gollum, este aparece primeiro, para mostrar quem ele é, seus hábitos alimentares e o que costuma fazer com orcs fracos que encontra. Logo em seguida, quando Gollum mata o orc, a espada de Bilbo, que sempre se acende à proximidade dessas criaturas, se apaga, indicando que Gollum não é um orc, embora de longe se pareça com um.

Alguns criticaram os elementos cômicos do filme, vendo-os como pontos negativos. Porém, penso que esses elementos fizeram jus a um dos aspectos mais marcantes de O Hobbit, o humor que permeia toda a narrativa. Considere-se também o fato de o livro ter sido destinado originalmente a um público infantil. Jackson conseguiu dosar um caráter mais sério com boas pitadas de comicidade, que no geral não me pareceram exageradas. Vibrei especialmente com a cena dos pratos e a canção debochada dos anões ao arrumar a louça de Bilbo. Afinal, a música e a poesia fazem parte das histórias na Terra-Média, inclusive com peças mais sombrias, como a famigerada “canção do exílio” dos anões, cena que foi divulgada na internet antes da estreia do filme e representou um bom presságio para aqueles que aguardavam essa jornada tão esperada.

O Hobbit

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Muito antes do grande sucesso mundial da trilogia cinematográfica O Senhor dos Anéis (2001, 2002 e 2003), bem antes mesmo da obra literária que inspirou os filmes (publicada entre 1954 e 1955), havia uma toca no chão e lá dentro morava um hobbit.

O Hobbit, de J. R. R. Tolkien, foi publicado originalmente em 1937, como um livro infantil de aventura. Conta a história de uma grande viagem empreendida por um pequeno ser, o hobbit Bilbo Bolseiro (ou Bilbo Baggins no original em inglês). Dizem que os primeiros leitores do livro foram os filhos pequenos de Tolkien.

Bilbo Bolseiro, o hobbit

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Os hobbits são humanoides com cerca de metade do tamanho de um ser humano (por isso, em inglês eles são chamados também de halflings), parecendo crianças humanas, exceto pelas mãos longas e ágeis e os grandes pés peludos. Vivem em “tocas”, ou seja, constroem suas casas escavadas em colinas, nos flancos das quais despontam janelas e belas portinhas redondas. Eles têm uma predileção pela vida pacata, boa comida e cachimbos. Há um quê de inglês em suas personalidades, inclusive no hábito de tomar chá no final da tarde.

Mas Bilbo tem antepassados heroicos e Gandalf, o mago errante, sabe disso, convidando-o para uma grande missão: ajudar o anão Thorin Escudo de Carvalho e seus 12 companheiros a recuperar a Montanha Solitária e o tesouro tomado pelo dragão Smaug. A princípio, tanto os anões quanto o próprio Bilbo duvidam que o hobbit tenha alguma utilidade na aventura. Mas o pequenino acaba salvando seus companheiros mais de uma vez e assumindo um papel crucial para a resolução da história.

Pessoalmente, considero O Hobbit como uma narrativa de aventura exemplar, por três motivos:

  1. Empolga a criança existente no leitor, ávida por uma grandiosa fábula, e pode ser apreciada por diferentes públicos, das mais diversas idades, gêneros, tradições culturais e interesses pessoais.
  2. É pontuada por humor e elementos pitorescos, que a tornam uma leitura agradável e nos transporta para um mundo da mais pura fantasia e romantismo, mas bastante verossímil. Os elementos fantásticos não precisam de explicação e adentramos o universo tolkeniano naturalmente, com um misto de estranheza e familiaridade.
  3. Ela segue a estrutura clássica e básica de qualquer grande narrativa mítico-literária. Um indivíduo comum que vive uma vida comum recebe inesperadamente um chamado para uma grande missão. Ele nega a princípio, mas acaba sendo levado pelas circunstâncias. Encontra aliados, inimigos e passa por dificuldades. Está sempre se lembrando de sua casa confortável, contrastando-a ao mundo perigoso e imprevisível que enfrenta. Em determinado momento crucial, ele quase morre, e é realmente tido como perdido, mas ressurge da escuridão, renovado e mais forte. Descobre e desenvolve habilidades que utiliza no momento crítico da história, tornando-se o herói de um grande evento, muito maior do que ele poderia conceber no início. Retorna ao lar, mudado, já bem diferente do que costumava ser.

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Encontros com a ganância

Ao longo dos capítulos, os personagens vão encontrando diversas criaturas fantásticas, como trolls que viram pedra à luz do sol, orcs que moram dentro das montanhas, bondosas águias gigantes e elfos desconfiados. Mas os encontros mais significativos são com indivíduos únicos, especialmente Gollum e Smaug. Estes, junto com o anão Thorin, incorporam um dos temas principais da obra, que é a ganância e a avareza.

Gollum

mcbrideGollum, como explicado posteriormente em O Senhor dos Anéis, é um hobbit que há centenas de anos encontrou um anel mágico e se isolou do mundo num pequeno lago na raiz das Montanhas Sombrias. Ele chama o anel de “meu precioso” e de “presente de aniversário”, pois o artefato lhe permite ficar invisível, recurso usado por ele para se proteger dos orcs ou matá-los se estiver com muita fome. Mas Bilbo encontra o anel e, depois de um jogo de adivinhas, acaba levando-o consigo e o utilizando em diversas situações da fábula.

No conjunto narrativo que envolve O Hobbit e O Senhor dos Anéis, Gollum pode ser visto como uma imagem prospectiva de Bilbo, aquilo em que este poderia se transformar se se mantivesse tempo demais com a posse do anel, cultivando o sentimento de avareza e possessividade que ele traz consigo.

O anel não é apresentado como um item mau nem bom, mas apenas uma ferramenta, que Bilbo utiliza para o bem de sua aventura e de seus companheiros, dando a ele um fim mais nobre do que aquele dado por Gollum. O próprio “roubo” do anel por Bilbo mostra um caráter moralmente ambíguo nas atitudes do hobbit, pois a picaretagem serviu, no conjunto da história, para um bem maior.

Smaug

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O dragão que no passado expulsou os anões da Montanha Solitária, tomando para si todo o tesouro e transformando os arredores em uma grande Desolação, é o símbolo máximo da avareza. Semelhante à figura do Tio Patinhas em sua caixa-forte repleta de moedas, Smaug desenvolveu um extremo zelo e ciúme pelo enorme tesouro roubado dos anões, não admitindo que seja surrupiada sequer uma ínfima peça, e chegando ao ponto de ter encravadas em seu longo ventre inúmeras joias, transformadas numa (quase) impenetrável couraça.

É uma figura imponente, temível e poderosa, dando a impressão de representar um desafio intransponível para anões e hobbit. Porém, na instigante conversa que Bilbo trava com a besta, ele se utiliza da vaidade e arrogância de Smaug para enganá-lo. O duelo entre os dois é puramente psicológico, e o hobbit o vence indiretamente, descobrindo seu ponto fraco e enviando uma mensagem para um exímio arqueiro, que mata o dragão.

O encontro/conversa de Bilbo com Smaug ressoa seu diálogo com Gollum, pois ambos ocorrem no canto mais recôndito de uma montanha, e tanto o desgraçado hobbit quanto o maldito dragão são figuras solitárias, tornadas assim por seus próprios vícios. Gollum serve, de certa forma, como preparação para o o desafio maior que é enfrentar Smaug.

Thorin

Também é bastante dramático o conflito entre Bilbo e Thorin, o próprio indivíduo que o contratou para a aventura. O herdeiro do trono dos anões é movido pela cobiça, sendo sua raça naturalmente propícia a amar o ouro e os artefatos de grande valor. Quando finalmente recuperam a Montanha Solitária, Thorin é tomado por um surto de ganância, e se recusa a dividir o tesouro com os humanos, vítimas de Smaug e, em parte significativa, responsáveis pela destruição do dragão.

Bilbo intervém de forma genial e virtuosa, não só auxiliando na Batalha dos Cinco Exércitos (anões, elfos e humanos contra orcs e wargs), em que os protagonistas saem vitoriosos, como ajudando Thorin a retomar a lucidez e finalmente dividir de forma justa o imenso tesouro.

Bilbo, Frodo e os anões

O Bilbo de O Hobbit é muito mais forte e interessante do que seu sobrinho Frodo de O Senhor dos Anéis. O tio foi muito mais versátil e bravo em sua aventura, fazendo coisas que nunca imaginaria capaz, tomando a iniciativa quando os anões hesitavam e concebendo ideias que significaram o sucesso da empreitada. Frodo, por outro lado, é no geral apenas o encarregado de destruir o artefato mágico maligno, muitas vezes escapando dos perigos por pura sorte, mas principalmente por causa de seu companheiro Sam, seu guarda-costas e o verdadeiro guerreiro da missão.

A partir do sucesso de O Hobbit, os leitores ansiavam por conhecer mais sobre os hobbits, e O Senhor dos Anéis trouxe isso, tanto com informações sobre a origem e os hábitos desse povo quanto colocando 4 personagens de destaque na trama. Por causa disso, talvez haja um efeito inverso para aqueles que só conhecem os filmes/adaptações de Peter Jackson. A trilogia cinematográfica que conta a aventura de Frodo Bolseiro está repleta de informações sobre os hobbits. Por outro lado, O Senhor dos Anéis pouco trata sobre os anões, trazendo apenas Gimli como representante de destaque. Assim, para quem só viu os filmes, O Hobbit de Peter Jackson trará muito ênfase em anões e pouca em hobbits (especialmente considerando que os anões do filme parecem estar muito mais complexos do que no livro), o que pode diminuir a verdadeira importância do papel de Bilbo aos olhos dos espectadores.

Legado

BILBO__O_HOBBIT_1298987128PA moderna literatura de fantasia deve muito à aventura de Bilbo Bolseiro, especialmente aquela ligada ao universo dos RPGs que seguem a linha de Dungeons & Dragons. O Hobbit praticamente estabeleceu as principais raças da maioria dos cenários de role-playing games de fantasia medieval: humanos, elfos, anões e hobbits/halflings. Também montou o cenário de eterna rivalidade entre elfos e anões e a aguerrida inimizade destes com os orcs.

Há uma conhecida adaptação de O Hobbit para os quadrinhos, feita por Charles Dixon (roteiro) e David Wenzel (desenhos), muito bonita e caprichada. A visão pessoal de Dixon e Wenzel evidencia o caráter mágico e fantástico da história, com uma arte que remete ao estilo das ilustrações de livros infanto-juvenis. A imagem de Gollum é uma das melhores que já vi entre todos os ilustradores que já desenharam as histórias de Tolkien.

No cinema/televisão, não só houve adaptações diretas da obra como influência em diversos filmes e cineastas (para mais detalhes sobre as adaptações audiovisuais, confira o artigo O Hobbit na televisão e no cinema). Grande parte dos filmes de fantasia medieval tem alguma coisa que remete a O Hobbit, mas basta lembrar de Willow – Na Terra da Magia (1988), produzido por George Lucas e dirigido por Ron Howard, que conta a grande aventura vivida por um nelwyn (raça pequenina que lembra muito os hobbits e vive em sua própria sociedade). Willow é interpretado por Warwick Davis e todos os nelwyns do filme são  vividos por anões (humanos com nanismo, para ficar bem claro).

Muitos músicos também têm nessa obra uma fonte de inspiração, sendo talvez os mais célebres a banda inglesa Led Zeppelin, que tem referências sutis em suas letras, e os alemães da Blind Guardian, autores de várias canções diretamente inspieradas pela obra de Tolkien, inclusive The Bard’s Song (The Hobbit), cuja letra resume a aventura de Bilbo.

Homo_floresiensisNa Ciência, há alguns casos de cientistas homenageando a obra de Tolkien ao batizar espécies de seres vivos.

Há um gênero de tubarões, por exemplo, que vive nas profundezas do oceano e tem grandes olhos. Pela semelhança com a imagem de Gollum (que tinha grandes olhos brilhantes e vivia na escuridão profunda de uma caverna), ele foi batizado pelo pesquisador Leonard Compagno como Gollum. Há duas espécies conhecidas, Gollum attenuatus, que vive em águas ao redor da Nova Zelândia, e Gollum suluensis, habitante do Mar de Sulu, ao sul das Filipinas.

Outra criatura, neste caso extinta, é um hominídeo que viveu na Ilha de Flores, na Indonésia, cujos vestígios foram descobertos em 2003, o Homo florensiensis (ainda se discute se se trata de uma espécie separada do gênero Homo ou se são Homo sapiens com patologias anatômicas). Pelo seu tamanho diminuto, são apelidados como “hobbits” por arqueólogos, e quase foram batizados como Homo hobbitus na época de sua descoberta.

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O próximo grande  legado de O Hobbit é a vindoura trilogia dirigida por Peter Jackson, cuja primeira parte estreia nesta sexta-feira, dia 14. Não é exagero dizer que todos os admiradores da obra de Tolkien esperam ansiosamente.

Links

Imagens

  • Jogo de Adivinhas, por Tim Kirk (Destaque)
  • Uma Visita Matutina Inesperada, por Ted Nasmith
  • Uma Festa Inesperada, por John Howe
  • Gollum, por Angus McBride
  • Smaug, por Justin Gerard
  • Capa de Bilbo – O Hobbit, de Charles Dixon e David Wenzel
  • Crânio de um Homo florensiensis
  • Foto de um tubarão da espécie Gollum attenuatus

O Hobbit na televisão e no cinema

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Hoje, 21 de setembro de 2012, O Hobbit completa 75 anos desde sua primeira edição. Foi o primeiro livro de J. R. R. Tolkien sobre a Terra-Média, cujos acontecimentos antecedem e preparam o cenário para O Senhor dos Anéis, bastante conhecido hoje em dia pelo público em geral devido à primorosa adaptação cinematográfica de Peter Jackson. O Hobbit é muito menos conhecido do que O Senhor dos Anéis, mas vai se tornar muito popular com um novo trabalho de Jackson, que estreia em dezembro deste ano (2012).

No entanto, não é a primeira vez que alguém teve a ideia de adaptar a obra de Tolkien para as telas (seja a televisão, seja o cinema). Houve alguns trabalhos na década de 1970 em cima de O Senhor dos Anéis. Mas mesmo bem antes disso já haviam começado as adaptações do primeiro livro, considerado por muitos uma obra voltada para crianças (Tolkien a escreveu tendo em vista um público infantil), mas ainda hoje aclamado como um belo exemplo de literatura fantástica.

A primeira transposição oficial de O Hobbit para o cinema foi realizada em 1966, pelo animador Gene Deitch, num curta metragem que, para aqueles que conhecem bem a obra de Tolkien, resultou em algo bem estranho, formalmente deturpado e ligeiramente diferente em sua essência. Os gráficos foram feitos num estilo de ilustração de histórias infantis. A animação é pobre, mantendo o filme com a aparência de um livro ilustrado, e há apenas a voz do narrador, como se estivesse lendo o livro. Veja abaixo o filme na íntegra.

O diretor se deu a liberdade de modificar vários elementos importantes da obra de Tolkien. Ele reduziu o grupo de aventureiros, que no livro contava com 13 anões, 1 hobbit e 1 mago, para um general e seu ajudante, uma princesa e o nosso pequeno protagonista. Essa adaptação mostra de forma interessante como O Hobbit pode ser visto, por certos leitores, como uma história mágica e fabulosa, que pode ser recontada de maneira simples e sem a preocupação com detalhes, mas mantendo certos elementos cruciais da narrativa, como o herói, a partida de um lar confortável para uma grande aventura, a presença de aliados, os encontros com inimigos e outros perigos, a transformação do herói, a execução da tarefa e o retorno ao aconchego da toca de hobbit.

No entanto, para muitos apreciadores do livro original, uma adaptação mais fiel e detalhada sempre agrada, pois a história não se resume a uma fábula, está repleta de elementos que extrapolam para um universo mais complexo, com seus personagens pitorescos, situações interessantes e diálogos dramáticos. Onze anos depois do curta de Deitch, Jules Bass e Arthur Rankin Jr. apresentaram um longa metragem animado para a televisão. Não existe trailer oficial desse filme, portanto segue abaixo um trailer feito por um fã:

Nesse filme foi possível explorar melhor quase toda a trama do livro, com a presença de praticamente todos os personagens importantes e a encenação com poucas perdas das cenas mais dramáticas, como os encontros de Bilbo com Gollum e com o dragão Smaug, além da tragédia do rei anão Thorin, que quase deixou a ganância corrompê-lo e quase levou os heróis à derrota.

O estilo de Bass/Rankin, que também produziram o célebre desenho animado O Último Unicórnio, mantém um aspecto de contos de fadas, as caricaturas infantis e exageradas. Além disso, conserva o espírito dos anos 70, notadamente na trilha sonora, bem feita e divertida. Mas ainda pode ser considerada uma excelente adaptação da narrativa de Tolkien, inclusive aproveitando várias das letras das canções do livro nas músicas feitas para o filme.

Este ano (2012), O Hobbit retorna às telas, desta vez com as novidades técnicas do cinema contemporâneo. Peter Jackson retoma o que iniciou (ou concluiu?) com O Senhor dos Anéis , trazendo ao público que nunca leu Tolkien os acontecimentos que antecedem e culminam na aventura de Frodo Bolseiro, sobrinho de Bilbo, apresentados em três filmes (Uma Jornada Inesperada, A Desolação de Smaug e Lá e de Volta Outra Vez). Eis o trailer oficial da primeira parte, que estreia no próximo dezembro:

A expectativa é de que a história seja recontada num tom mais “realista”, mais complexo e profundo, até mesmo mais sombrio, como se a narrativa do livro representasse uma versão atenuada da história, enviesada pelo olhar de seu suposto autor e protagonista (o próprio hobbit Bilbo Bolseiro). A trilogia também explorará eventos paralelos, ausentes de O Hobbit, mas desenvolvidos pelo próprio Tolkien em outros escritos, criando uma conexão maior com O Senhor dos Anéis

Referências

Coleção de sinapses 11

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Esta semana repisamos a questão identitária nas cotas raciais e vimos um estudo sobre racismo e (in)sensibilidade à dor do outro, além de um embate insensível, terrível e criativo entre bebidas e também vimos a criatividade dos sites na apresentação do “erro 404”, além da apresentação de uma versão simpática e ursina do Capitão Kirk.

Chamaram-nos à atenção as esculturas animadas de Theo Jansen, uma evolução do conceito de arte “estática”, lemos um artigo interessante sobre a evolução das baleias, assunto que me fascina muito, e vimos ilustrações russas para O Hobbit, assunto que muito me fascina. Um vídeo ilustra a (má ou boa) influência dos pais e uma matéria mostra o conflito entre a sacralidade de um ritual e os hábitos de um indivíduo.

As cotas para negros no ensino superior e o biopoder (Vanessa Santos) – Revista Global Brasil

A questão identitária nas políticas de ação afirmativa e, especialmente, nas políticas de cotas raciais no ensino superior, é abordada de maneira lúcida pela autora. Uma sociedade que se pretende democrática precisa dar a todo e qualquer indivíduo a possibilidade de ser o que quiser. O status quo não o permite. As cotas raciais não o permitiriam de maneira radical, mas poderiam ser um passo transitório para alcançarmos esse ideal.

Racismo afecta identificação com a dor física do outro – DN Ciência

O resultado prático dessa pesquisa poderia ser inferido através da observação dos comportamentos humanos, como a violência física efetiva que algumas pessoas infligem em outras. Além disso, essa pesquisa traz o risco de nos fazer pensar que a origem do racismo é bio-neurológica. De qualquer forma, sabemos que a intolerância racial é cultural e socialmente engendrada, e essa matéria nos mostra a força que os condicionamentos culturais têm sobre os cérebros dos indivíduos.

A implacável guerra das colas – Obvious

Uma foto criativa. O mesmo site mostrou uma segunda foto com a revanche da Pepsi, mas acho que a piada ficou boa só na primeira imagem.

A criatividade do erro 404 – Obvious

O “erro 404” aparece quando um link dentro de um site está “quebrado” ou errado. Há poucos exemplos de páginas de “erro 404” neste link, e acho que faltou um dos melhores, que é o do site do Greenpeace, em que aparece um dodô (espécie de ave que habitava as Ilhas Maurício e que foi extinta pelo ser humano).

Capitão Urso “Titus” Kirk – Mini-Figura IWG Star Trek – Blog de Brinquedo

Coloquei esse link só porque gosto de Jornada nas Estrelas. 😛

Artista cria esculturas que andam sozinhas com a força do vento – Pequenas Empresas Grandes Negócios

Essa “escultura” me lembrou muito o castelo animado de Howl no filme O Castelo Animado (Howl’s Moving Castle), de Hayao Miyazaki. Um cenário habitado por criaturas desse tipo seria um espetáculo e um ponto de visitas interessantes.

Whale Evolution: A Snapshot of Planet Earth From 55 Million B.C. to Present – The Daily Galaxy

Há algo que me fascina muito no estudo da evolução dos cetáceos (baleias, golfinhos…), talvez o encanto que tenho pelo mar e a metáfora possível entre minha vontade de mergulhar no oceano e o surgimento dos cetáceos a partir de mamíferos terrestres.

Russian Lord of the Rings – English Russia

As ilustrações russas de O Hobbit nos permitem ver como a interpretação visual de uma história muda de acordo com a cultura. Bilbo Bolseiro parece bem diferente daquele desenhado pelos artistas anglo-saxões (ou seja, da mesma origem do autor do livro, J. R. R. Tolkien). Bilbo aí é mais careca e mais risonho do que o que estamos acostumados a ver no Ocidente, e tem pernas peludas (segundo Tolkien, os Hobbits têm pés peludos). Os trolls também são diferentes, parecidos com gigantes.

As referências folclóricas de cada sociedade dão o tom das representações visuais das criaturas fantásticas. Isso também afeta a tradução de uma obra como a de Tolkien, e a própria tradução afeta a interpretação dos leitores.

Por exemplo, na música Lord of the Rings, do álbum Tales from the Twilight World, da banda alemã Blind Guardian, temos uma tradução traduzida (do inglês para o alemão para o inglês) que transforma Dwarves (anões) em gnomes (gnomos). Um dos versos do One Ring da obra de Tolkien diz:

Seven [Rings] for the Dwarf-lords in their halls of stone,

O Blind Guardian, provavelmente lendo uma tradução alemã, traduziu de volta ao inglês:

Seven rings to the gnomes
in their halls made of stone

A figura dos Anões da Terra-Média se confunde com os gnomos, baixinhos barbudos das mitologias nórdicas. Numa versão orquestrada dessa música no disco Forgotten Tales, a banda corrigiu o erro:

Seven rings to the dwarves
In their halls made of stone

Make your Influence Positive – YouTube

Cuidado com suas ações. As crianças aprendem a se comportar tendo como base o comportamento de suas versões adultas.

‘Papa-comida’ é banido de funerais na Nova Zelândia – G1 Planeta Bizarro

A sacralidade dos rituais fúnebres não impediu esse indivíduo de “profaná-los”. Mas se havia comida para ser consumida, o que deveria impedir uma pessoa faminta de saciar sua fome? A santidade de um ritual só tem sentido na cabeça daqueles que aprenderam a vivê-lo.

Agora… em minha mente ecoou uma frase da minha infância, proferida por Jaca Paladium na TV Colosso:

E isso aconteceu na Nova Zelândia.

Avatar [Resenha – Parte 3]

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Avatar (2009) é um filme que, se dividiu muita gente na opinião quanto à trama e aos temas tratados na narrativa, encantou a maioria em seus aspectos estéticos. Toda a criação virtual deu um aspecto muito real ao mundo imaginário de Pandora, com fauna e flora críveis e um ecossistema simbiótico envolvente.

Na primeira parte desta resenha, fiz um resumo comentado do filme e discorri sobre os nomes usados na história. Na segunda parte, analisei algumas questões antropológicas. Nesta terceira e última parte, trato dos aspectos estéticos de Avatar, do mundo áudio-visual criado por Cameron, da ficção científica misturada com fantasia mítica (e um pouco mística) e de como tudo isso se relaciona com um dos temas mais contundentes do filme: Ecologia e meio ambiente.

Sinestesia fantástica

(Não pude ver o filme na versão 3D, pois tenho visão monocular (mas, se pudesse, não hesitaria experimentar essa nova tecnologia cinematográfica). Mas alguns comentaristas constam que a obra não foi inicialmente concebida para ser vista em 3D, então penso que este recurso é só um extra interessante. No entanto, mesmo em 2D o visual é espetacular.)

Trama 4
Montagem 5
Atuação 3
Diálogo 3
Visual 5
Trilha sonora 4
Reflexão 4

O clima penumbroso do laboratório é frio e deprimente. Ao fazer a conexão com seu avatar, Jake Sully faz uma viagem neuronial, apresentada em primeira pessoa, que leva o próprio espectador a sentir que saiu de um lugar cinzento para uma sala bem iluminada. A cor do corpo na’vi se destaca, e o amarelo dos olhos compõe, sobre a pele azul, a imagem do amanhecer, dois sóis que se destacam contra o céu.

Mas a luz reconfortante desta antessala é só uma transição para o que está do lado e fora: uma atmosfera diferente, com um brilhante sol a esquentar o chão que há muito Jake Sully não sentia; agora ele corre para aproveitar ao máximo a sensação que perdera com seu paralítico corpo humano. Mas isso não é suficiente para ele, pois em seus melhores sonhos ele voa.

Passamos então para a floresta fechada, onde há plantas um tanto diferentes do que se viu na Terra (se é que esses personagens viram muitas plantas na devastada Terra) e animais exóticos mas nada muito alienígenas. Fauna e flora pandorianas são ao mesmo tempo surpreendentes e familiares, tudo sob uma luz/sombra florestal que nos faz sentir aconchego e apreensão.

A noite traz perigo e mistério. Luzes se acendem no céu, nas plantas e na pele, como velas numa caverna. Os na’vi recebem Jake Sully com receio, mas tanto o forasteiro quanto a tribo nativa dão uma chance um ao outro. Já a manhã traz um cenário aberto com planícies a cavalgar e cânions a sobrevoar. Subimos as Montanhas Aleluia, grandes pedras flutuantes, e estamos quase voando. Mas é só quando as belas aves pterossáuricas são montadas que o destino de Jake Sully começa a se concretizar.

Um destino que se alcança às custas de várias viagens de ida e volta, entre o sonho aborrecido que experimenta entre humanos e a realidade vívida que vive entre os na’vi. Nesta realidade, Jake Sully encontra um amor construído com aprendizado e afeição, e entendemos junto com ele e Neytiri que os seres que habitam o universo têm todos algo em comum.

A Árvore das Almas e a bioluminescência de tudo em volta é uma imagem brilhante e envolvente, e nos faz quase sentir nossos cabelos se arrepiando e se envolvendo na mente dos seres vivos que formam todos uma só consciência. E quando fazem amor, Jake Sully e Neytiri expressam em poucos gestos e palavras uma afeição que não precisa ser mostrada de outra forma.

Mas toda essa benevolente realidade é ameaçada pelo pesadelo de escorpiões voadores e grandes fantoches de metal. Ou será o contrário, o onírico mundo regido por Eywa ameaçado pela terrível realidade destrutiva humana? Se o sonho é ruim ou bom, se a realidade física é negativa ou não, se uma coisa é a outra ou vice versa, depende da experiência de cada um. Para Augusto dos Anjos, a ilusão era doença:

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimento rotatórios…
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Grifo meu.

No filme, seres construídos por computadores lutam contra humanos feitos pela natureza. Porém, são as criaturas virtuais que representam as forças naturais, enquanto os seres de carne e osso se apresentam como ícones da tecnologia empregada para fins inescrupulosos. Toda a imagem é digna de um épico ilustrado em paredes esculpidas por antigas civilizações.

Batalha aérea em Pandora

Jake Sully completa seu destino nas costas de um Toruk, “última sombra”, e voa com os na’vi, uma corte de guerreiros alados. Ele se reconcilia com seu rival Tsu’Tey, atual líder na’vi, assim como um predador gigante renuncia sua ferocidade para que Neytiri monte em suas costas. Toda a natureza toma partido e luta contra a ameaça tecnológica, não para vencer uma guerra, não para matar um inimigo, mas para preservar algo muito maior, às tristes custas da morte de alguns.

Neytiri sente que Jake Sully está morrendo em seu corpo humano, ela o vê à distância. Ao alcançar o frágil corpo humano, ela o acolhe em seus braços, reconhecendo a alma forte que ela enxerga no fundo dos olhos que a enxerga da mesma forma. Numa das cenas de  amor romântico mais belas que já vi, dois indivíduos, de espécies alienígenas um para o outro, se acariciam depois e abraçarem a alma um do outro.

Avatar é um universo mágico, uma aventura de Fantasia que remonta às histórias de viagens a mundos idealizados, como a Terra do Nunca a que Peter Pan leva Wendy e seus irmãos, como o País das Maravilhas a que Alice é conduzida por um coelho branco, ou Oz em que Dorothy se perde. Sempre se viaja para um mundo de maiores possibilidades que a realidade, de libertação, normalmente se vai para mais perto da natureza, em busca de algo perdido e sufocado pela civilização.

Mas não só a Fantasia oferece essas viagens reveladoras. Na Ficção Científica, Neo viaja da Matrix para o mundo real; o Planeta dos Macacos também é destino de uma viagem que ensina muito sobre a natureza humana; o arqueólogo Daniel Jackson faz uma jornada no espaço e na história para descobrir os segredos do Antigo Egito. E Avatar também se envereda a Ficção Científica.

Ficção científica

Avatar não é um filme de ficção científica, pelo menos não uma hard science fiction. É uma história romântica (não só no vulgarizado sentido do romance amoroso, que também está presente, mas especialmente no aspecto que envolve a autodescoberta e a fantasia do retorno à natureza selvagem) que tem elementos de ficção científica.

Mas não é como Guerra nas Estrelas, uma aventura épica cujos elementos de ficção científica são mais fantásticos do que científicos. Avatar tem uma ficção científica verossímil, pertinente e bem encaixada na narrativa.

Qualquer história de ficção se inicia com uma pergunta, que normalmente está implícita, um problema cuja solução se tenta resolver através da narrativa. “E se um fantoche criasse vida?” Resposta: Pinóquio, de Carlo Collodi. “Como seria a história de um homem atormentado pela dúvida se sua mulher o traiu ou não?” Resposta: Dom Casmurro, de Machado de Assis.”E se uma pequena e fleumática criatura se envolvesse numa aventura épica?” Resposta: O Hobbit, de J. R. R. Tolkien.

Na ficção científica, essa pergunta necessariamente se dá no campo da especulação científica e normalmente envolve uma preocupação social em relação ao desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia. “E se houvesse um planeta habitado por macacos inteligentes e humanos bestiais?” Resposta: O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle. “Se uma espécie alienígena avançada e pacifista olhasse para a Terra da Guera Fria, que partido ela tomaria?” Resposta: O Dia em que a Terra Parou, de Robert Wise.”Quais seriam as implicações da criação artificial de um ser humano?” Resposta: Frankenstein, de Mary Shelley. (É claro que essas perguntas estão muito resumidas. Cada uma dessas histórias tem um conjunto complexo de questões encadeadas.)

“E se a Terra ficar exaurida de recursos naturais? E se o mundo que tem os recursos que queremos explorar é habitado por criaturas inteligentes que vivem em cima do metal precioso que queremos? E se essas criaturas respiram um ar tóxico para nós? E se a lua em que vivem tem gravidade maior do que a da Terra? E se esses nativos têm 3 metros de altura e se locomovem com agilidade num ambiente que para humanos é difícil de ser explorado?” Resposta: Avatar.

Imagine então uma tecnologia que permita a um ser humano assumir a forma de um nativo, respirar o mesmo ar que ele, resistir à forte gravidade, percorrer com desenvoltura, força e agilidade o ambiente local e, da mesma forma que os alienígenas, fazer conexões neuroniais com animais e plantas desse mundo. É uma tecnologia muito complexa, avançada e, portanto, cara. E é empregada como um pesado investimento para a obtenção do valiosíssimo unobtânio.

Jake Sully e seu avatar

A humanidade chegou a um avanço tecnológico gigantesco: viagens intergalácticas, robôs humanoides bélicos que obedecem aos movimentos de seus pilotos, transmissão da mente para outro corpo. Mas não conseguiu avançar sua ética, e repetem com os na’vi os mesmos erros que os colonizadores (humanos) cometeram com povos (humanos) nativos no escopo do planeta Terra.

Dessa forma, Avatar repete e inverte a fórmula clássica de filmes sobre alienígenas que invadem a Terra com ultratecnologia e ultradestrutividade. Mas desta vez os invadidos são os alienígenas, os humanos são os invasores. “Como seria se os humanos detivessem tecnologia suficiente para visitar outro planeta com tecnologia menos avançada?” Resposta de James Cameron: seria o mesmo que se viu em Independence Day, de Roland Emmerich, só que os humanos é que estão nas naves estelares.

O ecossistema de Pandora também parece verossímil ao espectador médio, principalmente pelo realismo das imagens, e menos por causa de alguma verossimilhança sistêmica na relação entre animais e plantas. Mas o detalhismo deste âmbito não é tão importante neste filme. A parte da natureza sai da ficção científica e entra mais no fantástico, sobre que discorri acima.

Assim, James Cameron concebeu Eywa como um sinônimo de mãe-natureza, como uma referência à divindade grega Gaia, que representa a Terra, a biosfera, o ecossistema terráqueo. Eywa é essa mesma divindade, mas representada pelos na’vi no planeta Pandora. Ela tem uma grande importância para a questão ambiental tratada no filme.

Questão ambiental

Este pequeno planeta precisa de cuidados.

Este pequeno planeta precisa de cuidados.

De acordo com a hipótese (ou teoria) de Gaia, a biosfera da Terra constitui um sistema autorregulador, quase como um ser vivo composto pelos  animais, plantas e outras criaturas e pelo meio ambiente ocupado e formado por esses seres. Fugindo da polêmica em torno do real significado metafórico ou não de Gaia (não sou versado em Geologia, Ecologia nem qualquer área pertinente), uma coisa parece ser unânime entre os cientistas: um ser vivo mantém uma relação direta ou indireta com todo o ecossistema terrestre, e qualquer grande mudança de uma de suas partes  acarreta uma reação do todo.

Os seres vivos de Pandora vivem uma conexão extrema. Os na’vi, inteligentes, conectam suas mentes (através de fios de cabelos que transmitem impulsos bioquímicos/sinápticos) às de montarias nativas, cavalos hexápodes, para fazê-los obedecer ordens de movimento, ou a grandes aves para que estas os carreguem voando. Os na’vi também se conectam assim à Árvore das Vozes, para escutar seus ancestrais. A interconexão entre os seres de Pandora é tão interdependente que qualquer interferência séria como a derrubada de uma grande árvore põe em risco todo o biossistema.

O ecossistema fictício de Pandora é assim uma metáfora hiperbólica de uma realidade existente em nosso próprio mundo, o planeta Terra. A extinção de uma espécie terráquea, a derrubada ou queimada de florestas, a poluição de um rio ou de um mar e a infestação do ar com fumaça são exemplos de interferências humanas que têm consequências sérias sobre todo o conjunto.

Avatar é, portanto, bem atual ao tocar num tema que está na pauta contemporânea e que tem preocupado diversos setores das sociedades ocidentais. Na base de todas as controvérsias sobre as causas mais contundentes e do real escopo das mudanças climáticas (especialmente as controvérsias sobre se há ou não um aquecimento global catastrófico provocado pelos seres humanos), é unânime a exortação de que devemos cuidar do meio ambiente.

A mensagem ecológica do filme é sintetizada na frase dita a Jake Sully por Neytiri: “Tudo o que Eywa dá é emprestado e será preciso devolver”. É uma exortação à nossa responsabilidade enquanto parte integrante de um mesmo meio ambiente. E enquanto seres humanos, capazes de transformar esse meio de formas muito impactantes, é preciso lembrar do que Carl Sagan disse no livro Bilhões e Bilhões: Reflexões sobre Vida e Morte na Virada do Milênio:

Não há nenhuma causa mais urgente, nenhuma tarefa mais apropriada do que proteger o futuro de nossa espécie. Quase todos os nossos problemas são provocados pelos humanos e podem ser resolvidos pelos humanos. Nenhuma convenção social, nenhum sistema político, nenhuma hipótese econômica, nenhum dogma religioso é mais importante [p. 85].

Que completa, reiterando:

Se os humanos criam problemas, os humanos podem encontrar soluções [p. 86].

Numa resenha muito pertinente publicada na Folha de S. Paulo, o físico Marcelo Gleiser nota que Avatar pode ser visto como um aviso dos atuais perigos ambientais na Terra. Esta, no filme, está esgotada de recursos naturais, o que obriga os humanos a buscarem energia fora do Sistema Solar. Precisamos cuidar da Terra para que não se repita a farsa histórica na qual os nativos de um paraíso natural são dizimados pela ganância e pelo desespero. Gleiser conclui assim seu artigo:

somos nossos piores inimigos e nossa única esperança. A natureza não vai nos ajudar.

Comentários sobre as notas

Trama 4: a história é bem conhecida, e a falta de originalidade faz com que a trama seja previsível. Mas ela é bem construída e agradável, suas partes se encaixam bem, com início, meio e fim, com harmonia e sem excessos.

Montagem 5: As cenas se encaixam com perfeição. Cada corte diz muita coisa sobre os sentimentos dos personagens e sobre o clima geral da trama. A exemplo o momento em que Jake Sully acorda em seu corpo humano logo após fazer amor com Neytiri. A música silencia, os olhos desolados de Jake se abrem dentro da tubo de conexão e ele se pergunta: “O que diabos você está fazendo, Jake?”, sem saber mais qual é sua missão ali.

Atuação 3: os atores fazem bem o seu trabalho, sem nada excepcional. Alguns personagens são marcantes, como o coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) e a doutora Grace Augustine (Sigourney Weaver), mas no geral as dramatis personae são secundárias diante do espetáculo visual e da sucessão de eventos.

Diálogo 3: as falas são bem simples e não contribuem muito para o show. Mas não se percebe nenhuma pretensão de se criar algo impactante e original nos diálogos, e eles não atrapalham em nada.

Visual 5: o visual é simplesmente perfeito. Toda a beleza selvagem que se pretendeu criar está presente nas imagens e os seres artificiais que aparecem na tela são muito realistas.

Trilha sonora 4: a música é linda e apropriada, fazendo com que os cenários se enriqueçam e sejam facilmente acessíveis ao espectador. No entanto, há momentos em que o som fica discrepante com a cena, mas isso ocorre pouco.

Reflexão 4: os temas são muito instigantes para quem nunca viu Dança com Lobos, O Último Samurai ou Distrito 9. Mas a maioria deles é batida. No entanto, soma-se aí o detalhe de o estrangeiro ser de outra espécie, o que faz com que o protagonista mude de corpo, se tornando realmente um outro, e a questão ambiental tão em voga e ainda pouco (e mal) explorada no cinema.

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