Acessibilidade em Natal e uma cultura excludente

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Há algum tempo, numa manhã em que saí para caminhar, vi um senhor, cadeirante, dando uma volta na rua. Literalmente na rua. Ele não tinha condições de passear na calçada, caminho dedicado a quem não se locomove de carro, simplesmente porque essa calçada parecia mais uma escada (o trecho era uma ladeira, e parece que os natalenses só concebem as calçadas de suas casas como pedaços separados e individualizados do resto, sem a menor noção de comunidade).

Os pedestres de Natal percebem facilmente os problemas de acessibilidade da cidade. Pessoas com dificuldade de locomoção, sejam deficientes físicos e visuais ou idosos, e em muitos casos até pessoas sem essa dificuldade, não podem andar livremente pelas calçadas, repletas de obstáculos, degraus de meio metro de altura, desníveis de 45º, pisos táteis irregularmente colocados, trechos em terra nua, outros tão estreitos que por onde só anda uma pessoa de cada vez, equilibrando-se para não cair na rua, além de diversos postes que barram o caminho de qualquer cadeirante.

As pesquisas de especialistas apontam para a veracidade do problema, mostrando a precariedade da infraestrutura natalense, objeto de descaso da administração municipal. Complementando a situação calamitosa para os pedestres, motoristas despreocupados e incivilizados ignoram completamente  as consequências de estacionar da maneira que lhes é mais conveniente, como se não houvesse possibilidade de uma pessoa com dificuldades de locomoção querer atravessar o trecho barrado por seu caríssimo veículo, ou como se essa dificuldade não fosse problema seu. Além disso, esses mesmos motoristas há muito adotaram o hábito de estacionar em vagas dedicadas a pessoas com dificuldades, mesmo quando não trazem deficientes físicos nem idosos a bordo.

O mesmo descaso é perpetuado por empresários que constroem as calçadas (quando as têm) de seus estabelecimentos comerciais da forma mais cômoda para eles próprios. Felizmente, muitas iniciativas privadas mais recentes têm se preocupado com a acessibilidade.

Por outro lado, as instâncias governamentais locais, que deveriam empreender a acessibilidade de toda a cidade, não o fazem sequer nos próprios prédios públicos. O acesso ao poder público (em qualquer sentido que tenha esta expressão) é dificultado às pessoas com mobilidade reduzida, configurando-se uma antidemocracia, com acesso garantido apenas a uma parcela dos cidadãos. Aliás, os principais projetos de melhoria da acessibilidade se voltam quase exclusivamente aos pontos turísticos, como sempre, e não atendem às demandas de quem se locomove diariamente pelas ruas de sua cidade.

Entre os diversos problemas que o cidadão de Natal enfrenta, um dos que menos atenção recebe é o da acessibilidade. Essa desatenção não ocorre somente da parte da administração pública como um todo, mas da pacata população resignada. Quando a calamidade atinge grande parte dos contribuintes, usuários de ônibus e motoristas de ruas esburacadas, os protestos aparecem. Mas pouquíssimos estão preocupados com as calçadas. Por quê?

Reporto-me à ideia, defendida por Gustavo Barbosa, de que Natal é uma “terra das aparências”. Faz parte de nossa cultura mostrar para o mundo e principalmente para nós mesmos uma população “bela”, “branca” e “cristã”. Dificilmente se vêm pessoas obesas, anãs ou deficientes mentais e físicos em público. Só recentemente  temos visto com mais frequência pessoas negras e pobres nos espaços da moda, como os shopping centers, talvez pelo aumento do poder aquisitivo (embora a lógica da exclusão mantenha espaços que só a elite “descendente de holandeses” frequenta). E todos aqueles que são “inadequados”, com raras exceções (a exceções são em geral pessoas da elite), ficam confinados em suas casas, inclusive os deficientes físicos.

Assim, são poucos os cadeirantes que se beneficiam dos modernos ônibus do PRAE (Programa de Acessibilidade Especial), pois não só são poucos os veículos dotados desse serviço como são poucos os cadeirantes que se atrevem a enfrentar as pistas de obstáculos que margeiam as ruas e avenidas (desafiadoras até para quem não tem problemas de locomoção).

Se existem polêmicas, confusões e processos judiciais, nunca vão a público. A exclusão na prática se conjuga com a cultura das aparências, com o preconceito geralmente velado, mas algumas vezes visível e audível, que constrange a diversidade. Na opinião de muitos, “o que um velho vai fazer na rua saindo às 6 da manhã?”, “quem mandou esse deficiente sair de casa?”, “tem gente que nem devia sair na rua, para não enfeiar a cidade”.

A cultura natalense alicerça uma cidade especialmente construída para quem tem carro e, secundariamente, para pedestres sem deficiência. A longo prazo, qualquer tipo de crítica e protesto por uma cidade com mais acessibilidade só alcançará maior repercussão aos poucos, e mesmo as mudanças práticas que puderem ocorrer na infraestrutura urbana não serão plenamente usufruídas de imediato, mas somente quando, tornando-se uma sociedade mais preocupada com a saúde e bem-estar de todos e menos com o glamour, abraçar igualmente todos os cidadãos em sua ampla diversidade, aceitando na vida pública os deficientes mentais, os cadeirantes, os idosos, os cegos, os negros, os anões, os obesos.

Referências

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No campo da vida real – parte 2

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Há 3 dias, republiquei na Teia um texto que havia perdido. Meu amigo Cadu, que já o tinha lido, resolveu comentar na forma de um post em seu próprio blog. Sua réplica foi bastante extensa e me ajudou significativamente a rever alguns aspectos da minha reflexão. Portanto, para aprimorar o pensamento e também para rebater algumas observações de Cadu, resolvi apresentar esta tréplica.

Primeiramente, tentei deixar claro no subtítulo do texto que não se tratava de uma análise crítica. De fato, após reler meu próprio texto, vi-o mais como um desabafo repleto de impressões motivadas pelas minhas emoções, pelo meu próprio habitus, do que como um texto crítico-analítico (embora haja alguns elementos deste aspecto).

Escola de Atenas, de Rafael, e um... menino

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No campo da vida real

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Ontem*, ao tomar o ônibus para casa, presenciei duas situações que me deram a ideia de escrever um texto na Teia. A primeira foi uma mulher oferecendo o assento a um homem idoso. Este disse polidamente que não precisava. Aquela reiterou dizendo que se ele quisesse poderia sentar no lugar dela. Ao dizer isso, ela nem sequer fez um movimento para se levantar 1.

A outra situação foi um homem sentado à janela da última linha de cadeiras, meio deitado, ocupando dois espaços, absorto na paisagem, sem esboçar a menor disposição para ceder um espaço, sem aparentemente perceber que o ônibus ficava cada vez mais cheio de gente em pé e que agradeceria imensamente a bondade de um estranho que lhe oferecesse um pouco de conforto coletivo.

O sociopata e a sociedade

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