Star Wars VII: uma renovada esperança

Padrão

28 de novembro de 2014 e.c. foi marcado pelo lançamento do primeiro teaser trailer de Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força. O curto vídeo provocou comoção geral na internet e muitas especulações sobre o papel de cada personagem que aparece em tela e os lugares/planetas onde eles se apresentam.

Pessoalmente, fiquei bastante empolgado com o trailer, graças em parte, talvez, por ter mantido as expectativas bem baixas, tendo em vista o retrocesso que foi a nova trilogia, o fato de a franquia agora pertencer à Disney e o filme ser dirigido por J. J. Abrams, que, na minha opinião, dilapidou Star Trek em seus dois últimos filmes. Mas o trailer traz uma renovada esperança, talvez aquela outra sobre a qual disse Yoda a Obi-Wan.

Comentando cena por cena, começo dizendo que a súbita aparição de um personagem negro logo no início do vídeo é muito significativa, já que Star Wars é tradicionalmente dominada por figuras brancas. Se John Boyega é o primeiro a aparecer, isso provavelmente quer dizer que ele não é um coadjuvante como Lando Calrissian (Billy Dee Williams) ou Mace Windu (Samuel L. Jackson). Não conheço Boyega de nome nem lembro dele em outro filme, mas não se pode negar a importância da representatividade que se vislumbra no destaque dado a ele no trailer. (Ademais, uma das qualidades de Abrams como diretor é seu tato o quesito elenco.)

O fato de o homem estar vestindo uma armadura de stormtrooper provoca o espectador que conhece o universo de Star Wars, pois ficamos imaginando se esse indivíduo é um soldado desertor do derrocado Império ou se ele repete a memorável cena em que Luke e Han se disfarçam com as armaduras brancas para resgatar Leia. Seja como for, temos à vista um provável cliffhanger digno de Abrams.

A inusitada entrada em cena de um robozinho de design curioso, lembrando R2-D2 e outros droides astromecânicos da franquia, anuncia com veemência a renovação visual da nova proposta (é possível que a esfera sobre a qual roda o pequeno robô se encaixe de maneira inteligente na respectiva entrada da nave da qual é copiloto). Diferente de Star Trek, que teve todo o design remodelado (pelo próprio Abrams) mesmo se passado numa época já superexplorada nas séries de TV, aqui temos uma justificativa plausível e verossímil, tendo em vista que o Episódio VII se passa décadas depois da trilogia original, o que implica evolução da tecnologia.

Porém, essa evolução, felizmente, não quer dizer que o aspecto “sujo” característico de Star Wars esteja ausente. O próprio cenário desértico em que se passa a maior parte das cenas do vídeo garante o espalhamento de poeira sobre droides, indumentárias e veículos. Não sabemos ainda se o planeta aqui é Tatooine, mas mesmo que não seja, ele é certamente uma reminiscência intencional do mundo-natal de Luke e Anakin.

Como sempre, os empoeirados rebeldes (se é que ainda existe razão para haver uma Aliança Rebelde) são contrastados pelos stormtroopers reluzentes e limpos que mostram o sempiterno caráter frio e robotizante dos vilões de Star Wars. A renovação do design dos “soldados brancos” faz sentido pela supracitada evolução e pode simbolizar a renovação dos recursos dos reminiscentes do Império.

w51cbn4gh0qcwfcv1kag

Alterando novamente para o lado da luz do conflito, a personagem de Daisy Ridley (que também não sei quem é) se mostra como uma provável sucessora de Leia e Padmé, seguindo a boa tradição de colocar no grupo de protagonistas uma mulher forte e proativa, como atestam seus gestos e sua atitude ao conduzir um arrojado speeder pelo deserto tatooinesco. Mas se a representatividade feminina entre os papéis de destaque do filme não passar disso, será uma pena (ainda estou aguardando esperançoso para saber quais serão os papéis de Lupita Nyong’o e Gwendoline Christie, duas mulheres que escapam do padrão das atrizes hollywoodianas).

À corredora do speeder se segue a cena de um piloto de X-Wing, interpretado por Oscar Isaac (outro desconhecido para mim). Teremos, portanto, provavelmente, mais um elemento recorrente dos filmes, que é a figura do piloto prodígio, um descendente de Anakin e Luke Skywalker (será ele um novo membro da família), e aparentemente continuaremos vendo mais batalhas espaciais entre rebeldes (ou aquilo em que eles se tornaram) e Império (idem).

Adentramos então uma floresta escura e nevada, por onde anda uma figura misteriosa de capuz negro carregando um “sabre-de-luz” vermelho, ou seja, provavelmente se trata de um ou uma Sith, ou pelo menos alguém ligado ao lado sombrio da Força. Não dá para ter certeza sobre quem interpreta esse personagem, mas eu quero acreditar que é Gwendoline Christie, pois até achei seu porte parecido com o da atriz, e o fato de ela ser bem conhecida por fazer o papel de uma exímia espadachim em Game of Thrones reforça esse meu palpite talvez sem noção.

O “sabre”, aliás, é um elemento digno de nota. Ele parece ter sido feito para se parecer mais com uma espada longa medieval do que com um sabre propriamente dito, inclusive possuindo um guarda-mão característico feito da mesma matéria da lâmina. Isso pode estar ligado à possível identidade do personagem como um “inquisidor” Sith, corroborando uma das hipóteses levantadas por internautas. A espada medieval poderia ser uma referência simbólica aos cavaleiros da Idade das Trevas ou até mesmo aos Templários, ambos defensores do poder da Igreja e agentes da Santa Inquisição (não deixo de notar o simbolismo cristão da forma da espada, que lembra uma cruz, o que pode ou não ser intencional).

(Sobre a própria utilidade desses guarda-mão de luz, vale ressaltar que ele seria um elemento inteligente de defesa da espada-de-luz, pois sabe-se que essas lâminas repelem os ataques de outras armas do mesmo tipo, e ele serviria para impedir que o oponente deslizasse uma lâmina pela outra para ferir sua mão.)

A cena final do vídeo é uma batalha entre naves espaciais, notadamente a célebre Millenium Falcon, enfrentando TIE Fighters. Esse é o primeiro e único elemento pertencente aos filmes antigos a aparecer no trailer, e pode ser um sinal de que não veremos somente os rostos novos que se mostraram antes, mas que a antiga trupe estará de volta para ajudar a nova geração de heróis.

O trailer, assim, faz um favor para os fãs de Star Wars ao pontuar alguns dos ingredientes imprescindíveis para a receita de um filme da franquia: pessoas comuns procurando seu lugar na galáxia, droides, soldados inimigos sem rosto, tecnologia velha e empoeirada ao lado de tecnologia nova e limpa, vilões misterioros, sabres-de-luz e batalhas de naves espaciais. Tudo sem exageros visuais, para que se destaque o que realmente importa: os personagens. (A paródia deste link mostra uma “versão editada por George Lucas”, com acréscimos como os que ele inseriu nas versões remasterizadas dos filmes antigos, e evidencia justamente essa qualidade do trailer de Abrams.)

Considerando tudo isso, eu tenho a esperança de que essa nova obra cinematográfica corrija um erro crasso cometido por J. J. Abrams aos tomar as rédeas da franquia Star Trek: a sub-representação da alteridade não-branca, não-masculina, não-heterossexista. A diversidade fazia parte da alma de Star Trek, mesmo que ela só tenha se realizado gradativamente e tenha despencado depois de seu ápice em Voyager. O que Abrams não fez em Star Trek talvez seja concretizado em Star Wars (talvez não…), se levarmos em conta o elenco do filme, e essa pode, ironicamente, ser sua redenção perante os trekkies (ou não!). Isso seria, ademais, um bem-vindo e grande avanço para o fantástico universo criado por George Lucas. Que a Força esteja conosco.