O universo colorido de Steven

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Há tanta, tanta coisa a se falar sobre Steven Universo (Steven Universe) que cá eu fico planejando vários textos para abordar tantos dos temas que aparecem ao longo dessa bela série. Mas se não vier a ser o caso, ao menos vou apresentar aqui diversas das razões porque acho esse desenho animado tão apaixonante e instigante e porque penso que vale a pena lhe dar uma chance.

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A orgia humana – parte 2

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A natureza é muitas vezes um recurso argumentativo para defender um modelo ideal de comportamento humano. A Etologia pode ser fonte para justificar, por exemplo, um dado tipo de conduta sexual e de formação de laços entre as pessoas. Porém, vemos que os comportamentos animais são tão diversos que não é possível basear nosso ideal de comportamento humano numa suposta “natureza” imutável.

Quando não adianta recorrer à “natureza” para defender a tradição familiar cristã (que na verdade é tão diversa e muito mais ideal do que real), recorre-se a argumentos de cunho “sociológico”. Um exemplo, dado na primeira parte deste ensaio, é a defesa do suposto significado “correto” da palavra “casal”.

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De pais, filhos e um mundo melhor

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Funny about loveAssisti um dia destes, com minha namorada Inês, ao filme As coisas engraçadas do amor (Funny about love), produzido em 1990 e dirigido por Leonard Nimoy. Protagonizado pelo escalafobético Gene Wilder (cuja incorporação de Willy Wonka, em A fantástica fábrica de chocolate, é um epifenômeno cinematográfico) e por Christine Lahti, é o que se pode enquadrar no estilo comédia romântica.

No entanto, muitas das coisas que se fazem hoje em dia sob o rótulo de comédia romântica são bobagens. Constroem seu humor sobre situações ridículas e de constrangimento, o que, na maioria dos casos, não considero humor. As coisas engraçadas do amor, no entanto, tem seu humor concentrado nos diálogos dos personagens, nas observações que estes fazem dos acontecimentos da trama. É uma comédia no sentido usado pelos gregos e romanos, ou seja, uma narrativa com final feliz, ou, como eu gosto de conceituar, uma história otimista.

Warning: Spoilers!

A história trata, no geral, do conflito entre executar um projeto de vida pessoal e criar um filho. Além disso, o casal protagonista passa boa parte do tempo tentando conceber uma criança, e com muita dificuldade acaba admitindo a possibilidade de se criar um filho adotado.

É muito forte o impulso de querer ter um filho gerado da própria

força fecundante
De [sua] brônzea trama neuronial

(Acho que foi da leitura de Augusto dos Anjos que veio o “neuronial” com “i” de minha Teia. Já a chamaram de “Teia Neuronal”, o que é mais comum, e até “Teia Neural” (!).)

Se as pessoas que querem ajudar uma consciência em estado físico pueril a se desenvolver se preocupassem mais com o bem-estar desse outro ser e com a possibilidade de dar ao mundo um cidadão melhor, pouco lhes importaria quem o pariu. A essa exigência pode subjazer egoísmo (pois muitas pessoa querem um filho que seja uma miniatura de si mesmas), espírito de clã (querem dar continuidade a uma linhagem) e até, em alguns casos, racismo (querem mais uma criança de “raça pura” no mundo).

Os egoístas se esquecem que aquela criança vai um dia ser um adulto, e provavelmente vai demandar para si sua própria identidade. Os que acreditam na linhagem perdem de vista a ancestralidade comum de todos os seres humanos. Os racistas, tristemente, ainda estão achando que alguns humanos são mais iguais do que outros, como os porcos que tomaram conta da fazenda em A Revolução dos Bichos, de George Orwell (cuja adaptação para o cinema é recomendada, embora o desfecho decepcione):

All animals are equal, but some animals are more equal than others.

Homo significa igual. Há muito tempo sabemos que não existe, atualmente, uma subespécie de Homo sapiens sapiens. As diferenças relevantes são individuais ou criadas social e culturalmente. E mesmo nas relações entre espécies distintas deve-se buscar aquilo que há em comum, para que possa haver convivência no universo. Afinal, a comunicação mais elementar exige um mínimo de alguma coisa comum. Nem que seja para que o outro entenda que o estou insultando.

Aprender e assumir uma atitude universalista é o mínimo que os adultos podem fazer por todas as crianças com quem entram em contato. Para muitas sociedades, há apenas um termo para designar os pais e parentes da mesma geração que estes, assim como um só termo para irmãos e primos. Se tomarmos para nós um pouquinho de responsabilidade perante qualquer criança, estas poderão, no mínimo, ter a mente suficientemente aberta para nunca deixar de aprender e evoluir.

Homo familiaris

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CartaCapitalNesta semana, a CartaCapital publicou uma matéria sobre a Lei da Guarda Compratilhada. Apresenta-se ali um debate entre a defesa de que as mulheres deveriam ter mais direitos sobre crianças e a posição segundo a qual os pais deveriam ter direitos iguais aos delas na criação dos filhos.
Mãe de todos os mitosA primeira posição se baseia em idéias preconcebidas da cultura ocidental sobre o papel da mãe, discutidas em obras como Mãe de todos os mitos: como a modela e reprime as mães, de Aminata Forna, e Um amor conquistado: o mito do amor materno, de Élisabeth Badinter. Tendemos a pensar numa predisposição natural que levaria a uma obrigação para com os filhos maior por parte das mães.

Não há determinação natural. Conheço casos de pais mais dedicados e responsáveis do que as mães e vice versa. Além disso, é bom lembrar que dedicação não é sinônimo de boa criação. A superproteção, seja na forma do confinamento, seja por meio de agrados ilimitados, é prejudicial. Embora eu não seja pai, acho que não é suficiente querer “aprender fazendo” o métier paterno. A experiência com filhos de outras pessoas, parentes e/ou amigos, deveria servir como preparo.

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Patruus

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Eu sabia, de quando estudei latim autodidaticamente, que havia mais de uma tradução para “tio”. Perguntei a Houaiss novamente e ele me respondeu. Além do tardio thius e seu feminino thia, que servem para “tio paterno ou materno” e “tia paterna ou materna”, respectivamente, há avunculus (“tio materno”), amita (“tia paterna”), matertera (“tia materna”) e patruus (“tio paterno”).

Ué, Thiago, você destacou patruus com negrito. Por quê?

É mesmo, Fulano ou Fulana. Por que será? Bem, recebi recentemente, de meu irmão (frater), a notícia de que vou ser patruus. Repentinamente, uma nova realidade futura se formava em minha imaginação. Uma nova faceta de minha identidade começava e se engendrar, não só no ventre de Ramila, mas também nas minhas entranhas neuroniais. Foi então que me dei conta:

Ninguém nunca me ensinou a ser tio!

Algo novo se configurava nas perspectivas do futuro próximo. Dentro de alguns meses, haveria alguém neste mundo a quem eu chamaria de sobrinho (sobrinus) e que, quando pudesse articular o idioma de Camões, me chamaria de tio, e desta vez não seria metáfora nem sinal de respeito.

Ora, já tenho alguma experiência com filhos e netos de amigos meus, para quem eu sou uma espécie de tio. Também sou primo mais velho da maioria dos sobrinhos dos meus pais. Mas a sutil obrigação para com os filhos dos irmãos é uma instituição social um pouco mais forte. Não tão forte, talvez, como a de um irmão mais velho que, ao quatorze anos, vê sua irmã mais nova nascer.

Mas deve ser algo parecido com ter um neto. Pois deve haver alguma razão para avunculus ser uma derivação de avus (“avô”). Também o japonês tem algo parecido: 叔父さん (ojisan) significa “tio”, enquanto お祖父さん (ojiisan) quer dizer “avô”. Análoga e respectivamente, 叔母さん (obasan), “tia”, e お祖母さん (obaasan), “avó”.

Gohan e GokuOutra relação que se pode fazer é nos mitos. Os grandes heróis muitas vezes não foram criados pelos pais. É comum que sejam criados por um avô ou figura que se passa por tal (como Goku em Dragonball), ou por um tio ou tios (como Luke Skywalker em Guerra nas Estrelas). Os pais de Frodo Bolseiro, protagonista de O Senhor dos Anéis, não aparecem na saga, e sua íntima relação com o tio Bilbo Bolseiro é mais um exemplo que se encaixa nessa lógica.

Luke vs. VaderÉ interessante notar como tanto a figura dos tios como a dos avós possui um atenuante em relação à dos pais. Estes são apanágio de grandes conflitos. Sigmund Freud que o diga. E, de fato, a relação entre pai e filho, nos mitos, costuma ser de pouca harmonia. O clássico mito de Édipo é o mais notório. O enfrentamento de Luke Skywalker com seu pai Darth Vader (Dark Father) também tem essa tônica. A madrasta de Branca de Neve não é senão a face maligna da mãe. E, quando o Pequeno Polegar encontra o casal de ogros na floresta, são a contraparte insana de seus próprios pais.

Parentesco é uma invenção social. Não há thii nem sobrini na natureza. Mas ele exerce uma força muito grande sobre os seres humanos, sobre suas emoções, suas concepções de mundo e das relações que estabelece com os outros seres.

Talvez eu passe a entender melhor a relação de minha namorada com seu neto. Pois já começo a me deixar imaginar uma relação de afeição entre uma pequena criança e seu “thiozão”.