Patruus

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Eu sabia, de quando estudei latim autodidaticamente, que havia mais de uma tradução para “tio”. Perguntei a Houaiss novamente e ele me respondeu. Além do tardio thius e seu feminino thia, que servem para “tio paterno ou materno” e “tia paterna ou materna”, respectivamente, há avunculus (“tio materno”), amita (“tia paterna”), matertera (“tia materna”) e patruus (“tio paterno”).

Ué, Thiago, você destacou patruus com negrito. Por quê?

É mesmo, Fulano ou Fulana. Por que será? Bem, recebi recentemente, de meu irmão (frater), a notícia de que vou ser patruus. Repentinamente, uma nova realidade futura se formava em minha imaginação. Uma nova faceta de minha identidade começava e se engendrar, não só no ventre de Ramila, mas também nas minhas entranhas neuroniais. Foi então que me dei conta:

Ninguém nunca me ensinou a ser tio!

Algo novo se configurava nas perspectivas do futuro próximo. Dentro de alguns meses, haveria alguém neste mundo a quem eu chamaria de sobrinho (sobrinus) e que, quando pudesse articular o idioma de Camões, me chamaria de tio, e desta vez não seria metáfora nem sinal de respeito.

Ora, já tenho alguma experiência com filhos e netos de amigos meus, para quem eu sou uma espécie de tio. Também sou primo mais velho da maioria dos sobrinhos dos meus pais. Mas a sutil obrigação para com os filhos dos irmãos é uma instituição social um pouco mais forte. Não tão forte, talvez, como a de um irmão mais velho que, ao quatorze anos, vê sua irmã mais nova nascer.

Mas deve ser algo parecido com ter um neto. Pois deve haver alguma razão para avunculus ser uma derivação de avus (“avô”). Também o japonês tem algo parecido: 叔父さん (ojisan) significa “tio”, enquanto お祖父さん (ojiisan) quer dizer “avô”. Análoga e respectivamente, 叔母さん (obasan), “tia”, e お祖母さん (obaasan), “avó”.

Gohan e GokuOutra relação que se pode fazer é nos mitos. Os grandes heróis muitas vezes não foram criados pelos pais. É comum que sejam criados por um avô ou figura que se passa por tal (como Goku em Dragonball), ou por um tio ou tios (como Luke Skywalker em Guerra nas Estrelas). Os pais de Frodo Bolseiro, protagonista de O Senhor dos Anéis, não aparecem na saga, e sua íntima relação com o tio Bilbo Bolseiro é mais um exemplo que se encaixa nessa lógica.

Luke vs. VaderÉ interessante notar como tanto a figura dos tios como a dos avós possui um atenuante em relação à dos pais. Estes são apanágio de grandes conflitos. Sigmund Freud que o diga. E, de fato, a relação entre pai e filho, nos mitos, costuma ser de pouca harmonia. O clássico mito de Édipo é o mais notório. O enfrentamento de Luke Skywalker com seu pai Darth Vader (Dark Father) também tem essa tônica. A madrasta de Branca de Neve não é senão a face maligna da mãe. E, quando o Pequeno Polegar encontra o casal de ogros na floresta, são a contraparte insana de seus próprios pais.

Parentesco é uma invenção social. Não há thii nem sobrini na natureza. Mas ele exerce uma força muito grande sobre os seres humanos, sobre suas emoções, suas concepções de mundo e das relações que estabelece com os outros seres.

Talvez eu passe a entender melhor a relação de minha namorada com seu neto. Pois já começo a me deixar imaginar uma relação de afeição entre uma pequena criança e seu “thiozão”.