Pai e mãe não têm sexo

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A luta daqueles que desejam ter filhos ainda tem um árduo caminho a ser percorrido no nosso homofóbico Brasil. Vejam, por exemplo, que o deputado Zequinha Marinho (PSC-PA) quer modificar o Estatuto da Criança e do Adolescente para proibir homossexuais de adotarem crianças.

A primeira coisa que deveria ser considerada na contra-argumentação à proposta de proibir alguém de um direito com base em seu comportamento ou orientação sexual é que, fazendo isso, incorre-se em inconstitucionalidade, pois implica em discriminar as pessoas por um critério antidemocrático. Perguntar se um candidato à adoção é homossexual equivaleria a perguntar qual é sua raça, religião, partido político ou time de futebol.

Marinho faz parte de impertinente grupo de políticos cristãos (católicos e evangélicos) que confundem suas convicções pessoais com política, e desconsideram que estão num país democrático. O deputado diz:

Como uma criança adotada se sentirá na escola, na rua, na sociedade, tendo o pai igual a mãe ou a mãe igual ao pai?

Nenhuma pessoa é igual a outra. E o que se observa em qualquer relacionamento, seja heterossexual ou homossexual, é uma tendência a haver complementaridade na relação, ou seja, cada um dos parceiros tem traços pessoais que compensam os traços pessoais do outro, mesmo que haja muitas coisas em comum a ambos.

Além disso, há casais heterossexuais que vivem uma relação tão igualitária que, na prática, poderiam ser considerados homossexuais, os parceiros são parecidos demais entre si. E há casais homossexuais que vivem uma relação tão dicotômica que a diferença entre os parceiros é maior do que a da maioria dos pares formados por um homem e uma mulher.

E também não podemos esquecer a multiplicidade de tipos de famílias que existem atualmente e que fogem dos padrões “tradicionais” defendidos pelo conservadorismo do evangélico deputado Marinho: pai solteiro com filho(s), mãe solteira com filho(s), pais separados com filho(s), gays com filho(s), lésbicas com filho(s), trios de pais com filho(s), irmãos mais velhos criando os mais novos, avós criando os netos, tios criando os sobrinhos…

A afirmação do deputado deixa implícita a ideia de que toda criança deveria ser criada por um casal e que, portanto, uma pessoa deveria ser proibida de criar sozinha uma criança, já que se pode inferir que, segundo ele, o “normal” é ter um pai e uma mãe.

A criança encontrará colegas na escola com os mais diversos tipos de pais e responsáveis em sua tutela.  E mesmo quando ela entender que em nossa cultura aquilo que é considerado “normal” é a heterossexualidade e a importância de “pai e mãe”, temos que lembrar que os modelos de feminilidade e masculinidade não são exclusivamente representados por um pai e por uma mãe respectivamente (nem mesmo nos casais heterossexuais, em que, inclusive, o pai pode exercer um papel feminino e a mãe um papel masculino).

Países desenvolvidos como a Holanda estão hoje perdidos sem saber para aonde vão.

Essa afirmação extremamente ilógica se baseia tão-somente no fato de que os holandeses não têm restrição de adoção com base na sexualidade dos pais. Não há nenhuma consequência nefasta na Holanda advinda da adoção de crianças por gays e lésbicas.

É a simples reiteração de que a homossexualidade é um mal em si e, portanto, ser criada por homossexuais é um enorme perigo para uma criança. E até agora não se pôde  demonstrar qualquer efeito negativo na criação por pais homossexuais nem qualquer repercussão maléfica disso tudo para a humanidade.

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Nota sobre a ilustração

Os peixes-palhaços são transexuais.