Transfobia, homofobia e o fim do mundo

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Entrou uma pessoa transgênera no ônibus. Entenda-se transgênera no sentido de alguém que não se encaixa nos esquemas tradicionais pré-concebidos de identidade de sexo e gênero, alguém que não assume, total ou parcialmente, a identidade de gênero socialmente esperada para seu sexo biológico. Não sei se era uma travesti ou uma mulher transexual. Depois que ela saiu do ônibus, dois homens trocaram impressões sobre aquela pessoa.

Eles querem ser iguais a mulher, mas não conseguem.

Era travesti mesmo? Eu fiquei olhando assim, fiquei em dúvida, mas…

Depois o segundo homem interpelou uma mulher que se sentava ao seu lado.

São as coisas do fim do mundo. Como é que ficam as crianças na escola quando perguntam “quem é seu pai, quem é sua mãe?”

A flagrante transfobia (impregnada quase indistintamente de homofobia) da primeira fala revela algo interessante sobre a imposição de identidades de gênero aos indivíduos em nossa cultura. As pessoas que nascem com sexo masculino não apenas são obrigadas a se constituir como homens e assumir a identidade e os papéis masculinos pré-estabelecidos, sendo severamente desencorajados a flertar com a identidade feminina, mas também têm suas “intenções” deslegitimadas quando abraçam totalmente ou quase totalmente uma identidade e papel femininos. Porém, a transexualidade geralmente se manifesta a partir de uma identificação muito precoce do indivíduo com o sexo/gênero “oposto”.

Não posso afirmar se a pessoa que entrou e saiu do ônibus “queria ser mulher”, mas é quase certo que assume uma identidade feminina (travesti ou transexual). A afirmação de que essa pessoa “não consegue ser mulher” é uma forma de violência simbólica que procura desqualificar sua individualidade. É também a manifestação de um machismo que trata as mulheres como objetos de consumo do desejo masculino heterossexual. Nessa visão, um “homem que tenta ser mulher” é considerado uma mercadoria falsa, e daí há toda uma representação de travestis e transexuais como pessoas maliciosas que “fingem ser o que não são e enganam os incautos”.

Ser homem e ser mulher são performances sociais, não são dados biológicos ou naturais. A satisfação pessoal de alguém que assume uma ou outra dessas performances diz respeito apenas a essa pessoa, e ela não deve se enquadrar na expectativa social só porque os homens heterossexuais esperam não se decepcionar ao “descobrir” que “ela é ele”. Ao dizer que “um homem não consegue ser mulher”, está-se afirmando implicitamente que “ele deveria tomar vergonha na cara”, “desistir” e “voltar a ser quem é realmente”.

O segundo homem a falar disse que ficou “em dúvida” sobre a identidade da pessoa em questão. O que está sub-reptício a toda essa conversa é que aqueles homens viram um possível objeto de desejo, alguém que eles possivelmente teriam prazer em cortejar e que em certas circunstâncias poderiam querer levar para a cama, se não “descobrissem a verdade” antes. Mas sabe-se que há homens (pode ou não ser o caso dos personagens dessa história) para quem a travesti e/ou o transexual é um fetiche sexual e que raramente declararão esse gosto em público.

Quando demonstram sua decepção ao constatar que “não é mulher”, estão dizendo implicitamente que gostariam que ela fosse mulher, para não se sentir culpados por nutrirem um sentimento proibido (homossexual). E precisam proferir essa “constatação” para convencer aos outros e principalmente a si mesmos de que “não foram enganados”, que “não aprovam esse tipo de coisa” e que “não gostam de homem”.

É claro que não se pode afirmar com toda a certeza que todo esse discurso sub-reptício estava presente no consciente e/ou no inconsciente desses homens. Porém, tudo isso faz parte de um discurso mais amplo que está disseminado em nossa cultura machista, heteronormativa e cisnormativa. E não foi à toa que o segundo homem fez uma tremenda digressão, puxando o tema do reconhecimento da legitimidade do casamento homossexual. O desprezo ao casamento igualitário é uma manifestação de homofobia e não de transfobia.

Porém, na ideologia heteronormativa, identidade de gênero (homem, mulher etc.) se confunde com sexualidade (hétero, homo, bi etc.). Por não reconhecer a identidade feminina de uma pessoa que nasceu com o sexo masculino, a transfobia só reconhece essa pessoa como um homem homossexual e imagina que, se ela “quer ser mulher”, necessariamente “gosta de homem”. Ignora assim que as duas coisas não estão necessariamente atreladas.

Esse discurso, em suma, mantém ideias conservadoras a respeito de uma suposta natureza ditada pelos genes e pelos genitais. Homofobia e transfobia andam juntas, de acordo com a expectativa de que cada indivíduo deve se enquadrar em uma camisa-de-força que estabelece um comportamento de gênero e uma sexualidade necessariamente voltada para a reprodução sexuada. Qualquer mínimo desvio desses ditames é temido como um sinal de desagregação da sociedade, do “fim do mundo”, e normalmente não se percebe que cada lugar e cada época tem sua própria noção de normalidade e que, segundo essa lógica, o mundo já se acabou milhares de vezes e sempre se reconstruiu.

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A imagem que ilustra essa postagem é da personagem Poison, do universo de jogos de luta da Capcom, que inclui as franquias Street Fighter e Final Fight. Poison é uma mulher transexual.

Mitose Neural 5 – Street Fighter II

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Saudações! Bem-vindos a nossa espaçonave Mitose Neural! Neste episódio 5 do podcast da Teia Neuronial, Thiago Tecelão, Diego Misantropo e Werner Gnomo (Joy’s Tip) conversam sobre o jogo Street Fighter II, da Capcom, discorrendo sobre sua origem, seu impacto e repercussões no mundo dos video games e na cultura pop, bem como reflexões a respeito de estereótipos étnicos e nacionais.
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