A profilaxia dos shoppings e a harmonia excludente

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As praias urbanas sempre me pareceram símbolos de liberdade e convivência harmônica entre as pessoas de quaisquer classes sociais ao longo das décadas. A ausência de barreiras físicas claras, a gratuidade do acesso, a possibilidade de compartilhar espaços com uma infinidade de membros das famílias ou vizinhança, as refeições levadas de casa e outros aspectos, permitiam essa co-habitação pacífica. Obviamente, existiam – como ainda existem – áreas dessas praias em que determinados grupos se posicionavam, no entanto, nada podia privá-los de ocasionais misturas. Assim, a convivência democrática era possível e as delimitações sociais eram menos claras. Isso é o oposto dos novos espaços de convivência: os shoppings, sínteses do mundo ideal pasteurizado.

Se a praia permitia gratuidade, os shoppings são o auge das relações de compra e venda. Tudo nos shoppings é pago, mesmo quando não se paga nada aparentemente, pois as vitrines, fachadas, cartazes e até as pessoas fazem propaganda dos shoppings, de suas lojas e serviços, mas, sobretudo, do estilo de vida que lá se comercializa. Ainda que os shoppings não cobrem pelo acesso, o ambiente é, por natureza, intimidador aos menos favorecidos. Há, a partir daí, um movimento de exclusão ideológica.

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Sobre genéricos, filhos e a Europa

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Quando soube pela primeira vez sobre os medicamentos genéricos, que eles têm a mesma fórmula que os remédios “de laboratório” e que são mais baratos, eu me perguntei: por que então agora alguém vai querer comprar mais caro se tem um igual e mais barato? As fábricas não vão falir? Elas serão obrigadas a baixar os preços? Qual é a vantagem de se comprar mais caro se a fórmula é a mesma?

Com o tempo me dei conta de que as pessoas dificilmente confiam em empresas que não sejam “de marca”, com propagandas que “mostrem” a eficácia dos produtos e estejam há muito tempo no mercado, o que lhe confere, supostamente, pela tradição, um certificado de validade maior. A desconfiança nos genéricos é tal que o termo serve como pejorativo, sinônimo de piratas, para se referir, por exemplo, aos filmes pirateados vendidos por camelôs.

É uma situação geral, mas não tão hegemônica. O oferecimento de produtos mais baratos com a mesma qualidade é uma grande vantagem para a população mais pobre, que não pode se dar ao luxo de pensar que o mais caro é melhor. A população mais rica pode se manter com a crença de que a marca é um diferencial, além de poder usar isso, até inconscientemente, para se distinguir socialmente (como com qualquer outro tipo de produto).

Mas não é só isso. A propaganda reproduzida abaixo, da fábrica de remédios genéricos Germed, mostra que, para os brasileiros, há um outro elemento que prejudica a confiança nos medicamentos “sem marca”.

A primeira contestação da freguesa frente à oferta de um genérico é justamente o que eu tenho dito acima. Ela tem dúvidas se pode confiar nesse tipo de produto. A vendedora argumenta que a qualidade dos genéricos é supervisionada pela Anvisa. Mas isso não é suficiente para convencer a cliente, como se também não fosse possível confiar num serviço do governo brasileiro. A cliente, ainda não convencida, pergunta à farmacêutica se esta daria esses remédios aos seus filhos. A resposta é positiva, mas, antecipando que seu argumento pode ainda não convencer, a vendedora enfatiza que os genéricos Germed, além de baratos, são exportados para a Europa. Finalmente, a cliente se mostra completamente convencida e compra o genérico.

No mercado contemporâneo, como sustenta o sociólogo inglês Anthony Giddens, temos que nos arriscar minimamente, confiando na qualidade e na eficácia daquilo que as indústrias nos oferecem. Mas a garantia da farmacêutica, que deveria ser suficiente para a cliente comprar qualquer outro produto, é questionada. Ela deve se perguntar se um produto que não se sabe onde foi produzido é mesmo equivalente ao “de marca” (porém, ela também não sabe onde os produtos “de marca” são produzidos – a não ser que trabalhe nessa indústria -; por que sua certeza é maior com os produtos “de marca”?), ainda mais considerando que as marcas mais caras são muitas vezes internacionais, enquanto os genéricos são normalmente nacionais.

(Essa desconfiança em relação à procedência, pela qual os produtos importados são supostamente melhores do que os nacionais, pode não ser clara nem óbvia até aqui, e pode até ser considerada uma viagem hipotética de minha cabeça. Mas o que vem em seguida vai reforçar essa teoria.)

Quando a cliente apela para os filhos da farmacêutica, ela quer um reforço emocional por parte da argumentação da vendedora. Mas esta não se delonga nesse assunto, e vai direto ao ponto principal, que é o fato de que os produtos que ela está oferecendo são vendidos na Europa. Para a cliente, o fato de os europeus usarem esses genéricos comprova sua reconhecida qualidade. Mas por quê?

Por causa do complexo de vira-lata ainda presente nos brasileiros. Segundo Nelson Rodrigues, que cunhou a expressão,

por “complexo de vira-lata” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo.

o brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a auto-estima.

Não confiamos no que se produz no Brasil, ao ponto de boicotarmos a economia de nosso próprio país. Enquanto povos de outros países reconhecem a qualidade de nossos produtos agrícolas, recebem profissionais brasileiros que se qualificaram por estas bandas mesmo e até elogiam nossos governantes, tão vilipendiados pela mídia local, nós continuamos cuspindo na própria cara e deixando a bunda exposta na janela para outros passarem a mão.

Talvez o complexo de vira-lata se reforce, hoje em dia, pelo fato de as mercadorias mais valorizadas serem produtos de tecnologia eletrônica avançada, como os computadores e os celulares. O Brasil não tem, por exemplo, uma indústria própria muito forte de telefones celulares, e esta se concentra em países como os EUA (Apple), Finlândia (Nokia) e Japão (Sony). O que nos dá a ilusão de que o Brasil está atrasado em tudo.

Em muitas áreas, o Brasil ainda é uma vergonha: Saúde, Educação, Meio Ambiente, distribuição de riqueza… Mas temos uma democracia que funciona bem, um sistema eleitoral menos sujeito a fraudes, invenções e descobertas científicas importantes para todo o mundo, frutas, verduras e legumes que alimentam pessoas de outros continentes, um mercado de livros bem feitos e com design melhor do que os norte-americanos e europeus (infelizmente, não temos uma cultura de leitura para aproveitar bem esses livros…) e muitas outras coisas. É só prestar atenção para perceber os problemas desta terra. É só prestar atenção para perceber suas virtudes.

Mas, para reconhecer a qualidade de seus próprios produtos, os brasileiros, infelizmente, precisam do aval das antigas metrópoles colonialistas. “Se um sueco dá esse remédio aos seus filhos, por que não dar aos meus próprios filhos? Quem sabe eu não consiga deixar minhas crianças tão saudáveis quanto aqueles belos, fortes e inteligentes escandinavos?” (só enquanto escrevia este texto e pesquisava na internet, eu descobri que a Seleção Brasileira venceu a Suécia na final da Copa do Mundo de 1958; talvez seja interessante a gente sempre se lembrar desse evento…).

Porém, até na mestiçagem, que caracteriza a formação bio-sócio-cultural do Brasil e que várias áreas da Ciência já demonstraram ser positiva para a evolução humana, os brasileiros não conseguem ver uma vantagem…

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Coleção de sinapses 12

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Estas semana revisitamos o tema das cotas raciais numa pesquisa controversa sobre seus danos, visitamos um berçário de estrelas numa viagem cósmica, fomos ao planeta Marte e ao satélite Titã procurar sinais de vida, encontramos vida em Mos Eisley num anúncio da Adidas e constatamos que tanta informação em tão pouco tempo dispersa alguns atributos cognitivos como a atenção.

Encontramos criatividade numa mesa de colo para notebooks e em alguns logos que escondem símbolos de forma criativa. Carl Sagan nos mostra como descobrir ou estimar a quantidade de civilizações na galáxia e voltamos à questão racial com uma pergunta: a “raça” é incompatível com o individualismo? Se os golfinhos têm uma resposta, ainda nos é desconhecida…

Pesquisa mostra danos das cotas raciais – O Globo (via Ministério do Planejamento)

O fato de grande parte dos cotistas não alcançar a nota mínima para entrar na Universidade não é de surpreender. Grande parte dos não-cotistas também não alcança essa nota. Por isso outras coisas é que acho que há um problema na concepção da ideia de cotas raciais no Ensino Superior. Mas sobre isso me delongarei em outro post…

cartazes modernos com um toque retro – obvious

O estilo do ilustrador Tom Whalen é muito criativo, como se vê nos dois exemplos abaixo. Veja outros trabalhos dele no link, com cartazes recriados num estilo “retrô” que mistura influências dos quadrinhos e do cinema hollywoodiano.

Image of the Day: The Ghostly Beauty of a Dark Globule & Star Birth – The Daily Galaxy

Um berçário de estrelas, é o que diz a fonte. Será que dá para ver coisas assim numa viagem interplanetária, da maneira que os tripulantes da Enterprise veem?

Berço de estrelas

“ExoMars” -Europe’s Robotic 2018 Mission to Search for Life on Mars – The Daily Galaxy

New NASA Mars Discovery: Evidence of an Ancient Environment Favorable for Life – The Daily Galaxy

Is there Life on Saturn’s Moon,Titan? NASA Asks… – The Daily Galaxy

A busca por sinais de vida no Sistema Solar continua. Nada de homenzinhos verdes em Marte, é claro, mas se sabe agora que o planeta vermelho já teve um ambiente que parece ter sido favorável à vida. Já em Titã, um dos satélites de Saturno, a química flerta com a bioquímica e talvez encontremos uma forma de vida orgânica não-carbônica… ainda, ainda, ainda esperar para ver…

Vote na Teia Neuronial – Prêmio Top Blog

A Teia Neuronial está participando do Prêmio Top Blog na categoria Cultura. Se você gosta, curte, admira, acha legal e quer contribuir, vote na Teia pelo link acima ou por um dos dois links que estão na barra lateral do site. Obrigado e volte sempre.

adidas Originals – Star Wars™ Cantina 2010 – YouTube

Para quem se lembra bem da cena em Mos Eisley do primeiro filme de Guerra nas Estrelas, essa propaganda é muito bem-feita e criativa, com umas celebridades interagindo no mesmo ambiente filmado em 1977.

Excesso de informações provocado pelo avanço da tecnologia altera capacidade de concentração – O Globo

Se você está lendo isso e ao mesmo tempo está ouvindo um podcast, conversando com sua mãe no MSN, regando sua fazenda na Colheita Feliz, twittando sobre o gol da Coreia do Norte contra o Brasil e baixando filmes piratas no µTorrent… já notou alguma dificuldade de ler um livro durante alguns minutos? Eu já. E essa matéria me deixou preocupado…

P.S.: Minha mãe não usa MSN e não jogo Colheita Feliz. Vai, Coreia!

Mesa de colo – Pino

Uma invenção pertinente, baseada numa necessidade contemporânea. Só não vou usar isso para não destruir ainda mais minha coluna vertebral (quem é alto e tem a visão ruim sabe do que estou falando).

25 logos bem legais com símbolos escondidos – Design on the Rocks

A aplicação dos conceitos das artes plásticas na publicidade dão origem a belas obras de arte, como essas logomarcas que abusam das lacunas dos grafemas ocidentais, que os tornam parecidos com certas imagens ou que deixam espaços em branco que podem ser interpretados como símbolos. Um bom exercício de criatividade. Um dia eu ainda faço uma logo nesse estilo para a Teia Neuronial.

Will the Mysteries of the Universe Fuel a New Religion? A Galaxy Insight: Sagan, Hawking, Dawkins – The Daily Galaxy

Talvez venha a surgir alguma religião “baseada na Ciência”… Surpreende-me a afirmação de Dawkins de que ele é um “não-crente religioso”… Deste link eu destaco o vídeo abaixo, em que o astrônomo Carl Sagan demonstra a famigerada Equação de Drake, que calcula a quantidade provável de planetas com vida inteligente na galáxia.

‘Raça e Destino’ – O Globo

Um argumento lúcido sobre a questão identitária racial brasileira. A instauração de “raças” nos moldes que estão sendo pensados por uma parcela do Movimento Negro cria a ilusão de que há um conjunto de desejos, aspirações e potecialidades inerentes a cada uma das “raças” (“negros”, “brancos”…). Isso é um meio de minar a diversidade inerente a cada conjunto de pessoas arbitrariamente englobados numa “raça”. Se se quer mesmo ir adiante com as políticas voltadas a “raças”, é preciso ter muito cuidado com como se usa esse conceito.

Dolphin Speak -A Language of Infinite Complexity & Sophistication – The Daily Galaxy

Bem, como já disse em post anterior, fascinam-me muito os cetáceos, especialmente os golfinhos. Eles talvez saibam mais sobre a vida, o universo e tudo mais do que imaginamos. Espero que consigamos um dia nos comunicar com eles, seria um imenso aprendizado para nossa espécie.