Star Wars, cinema, representatividade e inclusão

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As palavras que compõem o título deste texto estão, em teoria, mais ligadas entre si do que pode aparentar à primeira vista, mas na prática elas estão desanimadoramente dissociadas.

Star Wars é uma grande franquia cinematográfica hollywoodiana que trouxe à tona uma tipo de história que estava de certa forma desacreditado: as grandes narrativas épicas e fantásticas. Esse tipo de aventura tem como característica, mais do que as maravilhosas cenas de ação e viagens fabulosas, o fato de se centrar em um herói improvável, uma figura que acaba mostrando ser muito mais do que aparenta ser. Luke Skywalker é exatamente o mesmo arquétipo de Páris de Troia, Jesus Cristo de Nazaré, Bilbo Bolseiro de Bolsão. Um “ninguém” que não acredita em si mesmo mas se torna um herói.

Durante muito tempo, a saga Star Wars foi protagonizada por personagens que representam os tipos humanos privilegiados nas sociedades ocidentais. Luke Skywalker era pobre e vivia à margem da sociedade galáctica, mas era um homem branco, cisgênero e heterossexual (embora este último aspecto só fique implícito num beijo incestuoso…), com o qual era mais fácil de se identificarem os jovens espectadores do sexo masculino, cisgêneros e heterossexuais. Dos outros dois personagens principais, Han Solo caía no mesmo estereótipo de Luke, e só Leia Organa se diferenciava por ser mulher, mais nada.

Representatividade

Felizmente, J. J. Abrams (que, ironicamente, ao assumir Star Trek, uma franquia com forte potencial para representar a diversidade, a fez regredir neste quesito) está radicalizando esse aspecto de Star Wars, colocando nos papéis de maior destaque do Episódio VII: O Despertar da Força, uma mulher e um homem negro. Essa escolha repercute positivamente nas mentes dos espectadores (mesmo que essa repercussão se dê através de um desagradável incômodo para machistas e racistas), pois se tratam de duas minorias em nossa realidade, o que enriquece o sentido da jornada do herói como a empreitada maravilhosa de um ou mais indivíduos menosprezados socialmente (seja, num caso, pelo machismo, seja pelo racismo, no outro).

Nisso o filme promete ser um belo exemplo de representatividade na indústria do entretenimento, ao ampliar o escopo do público que pode se identificar mais facilmente com heróis notáveis em histórias fantásticas. Os meios de comunicação de massa têm grande impacto sobre o grande público e a sociedade ocidentais, e a representatividade tem enorme peso sobre a auto-estima das pessoas e suas perspectivas de futuro.

Acessibilidade

Na verdade, a representatividade de O Despertar da Força está sendo amplamente discutida e o que eu estou trazendo aqui não é nenhuma novidade. Porém, o ponto a que quero chegar é outro. Representatividade está relacionada, direta ou indiretamente, a acessibilidade. Ora, houve um tempo nos EUA em que, além de estarem excluídos do protagonismo em peças de teatro e obras cinematográficas, os negros estavam segregados dos brancos em diversos espaços, públicos ou privados, e geralmente os espaços reservados às “colored people” eram de pior qualidade do que aqueles voltados às pessoas brancas. Essa segregação, embora tenha sido proibida por lei, deixou marcas até hoje. (No Brasil, o racismo se manifestou de outras formas, mas seus efeitos são muito semelhantes.)

As transformações sociais que afetam a balança da igualdade dos gêneros também encontram correspondências entre a crescente representatividade das mulheres nas mídias e as conquistas de direitos igualitários pelo Feminismo. Hoje em dia, as mulheres têm acesso ao voto democrático e a cargos de chefia, embora ainda haja muito pelo que lutar para que as elas sejam tratadas como seres humanos plenos.

Pessoas com dificuldades de locomoção, com deficiências físicas e sensoriais e outras inadequações a uma sociedade feita para indivíduos “saudáveis” (que têm um certo tipo idealizado de corpo), ao mesmo tempo em que não conseguem se adequar bem a certos espaços e tecnologias, também são sub-representadas nas mídias. Nisso elas passam por uma situação análoga à dos negros vítimas da segregação racial, pois sofrem por causa do capacitismo (estando assim – talvez não-intencionalmente – segregados) e pela pouca representatividade de pessoas com deficiência na ficção (literatura, quadrinhos, cinema, séries de TV etc.).

Não bastassem as dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência numa sociedade que a muito custo se adapta à diversidade de corpos, surge um problema maior para quem tem deficiência visual (miopia, estrabismo, cegueira parcial, visão monocular, vista cansada e outras). O crescente abuso do “3D” nos filmes hollywoodianos, com muitas estreias sendo feitas apenas com cópias que só podem ser assistidas com o uso de óculos especiais, exclui boa parte do público dos cinemas e provoca grande incômodo para outra parte.

“3D” e exclusão

Eu comecei essa reflexão a partir de mim. Tenho visão monocular, i.e. só enxergo pelo olho esquerdo (e mal). Não consigo ver a “tridimensionalidade” dos filmes “3D” (aliás, tenho até dificuldade de perceber a dimensão da profundidade no mundo físico real). Já fui a algumas sessões de filme em “3D” e consigo assistir em “2D” quando coloco os óculos (como um dos olhos não enxerga uma das imagens superpostas, fico apenas com uma delas), com o agravante de ver tudo escuro, devido à obscuridade da lente. Nas primeiras vezes em que fiz isso, eu escolhi as sessões em “3D” por conveniência social, por estar em companhia de outras pessoas que queriam ver os filmes com esse recurso.

Mas me cansei de pagar mais caro por um serviço de que não posso usufruir. Tudo bem, cada um escolheria a sessão que gostaria de ver, os filmes eram oferecidos em duas versões, e cada um pagaria o preço “justo” pela presença ou ausência desse recurso da moda, por quaisquer razões que fossem (impossibilidade de ver em três dimensões ou desagrado com tal recurso). Mas não por muito tempo.

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Quando a indústria cinematográfica descobriu que poderia lucrar muito mais se oferecesse apenas sessões em “3D” nas estreias das superproduções, pessoas como eu passaram a ser excluídas da experiência de ver um filme novo nos cinemas. Apesar disso, em muitos casos os cinemas ofereceriam uma sessão “2D” dublada, excluindo o espectador que prefere ouvir no idioma original (o que rende outra discussão).  Na melhor das hipóteses, teríamos que esperar algumas semanas para que os cinemas oferecessem sessões em “2D” e legendadas. Muitas vezes, teríamos que recorrer à pirataria virtual sem nenhum remorso ou esperar anos para ver o filme na TV ou em sistemas de streaming como o Netflix.

Com o tempo, conversando com amigos na internet e pesquisando sobre o assunto, descobri que não são apenas pessoas com visão monocular que se prejudicam com o monopólio do “3D” nas estreias. Pessoas com estrabismo e pessoas com miopia em um dos olhos e outro não também não enxergam as três dimensões ilusórias desses filmes. Além disso, muitas pessoas reclamam de sentir a vista cansada, dor de cabeça e/ou enxaqueca depois de uma sessão de filme “3D”, e prefeririam assistir a sessões em “2D” dos filmes que querem tanto ver.

Esse é um contingente significativo dos cinéfilos, excluído de seu hobby, sua paixão, sua mania ou até de seu trabalho por causa da preocupação maior da indústria do cinema com o lucro do que com o público. O que não é surpreendente, tendo em vista aquilo que move o capitalismo do qual essa indústria é uma significativa engrenagem.

Star Wars

A franquia Star Wars está melhorando significativamente quanto à representatividade da diversidade humana. Mas a preocupação com a maior visibilidade de mulheres e negros em papéis de destaque, tornando mais premente a acessibilidade dessas minorias aos espaços públicos e privados de uma sociedade mais igualitária, ainda não consegue perceber que a mania do “3D” está indo na contramão desse movimento. É irônico pensar que uma das figuras mais icônicas da saga era uma pessoa com deficiência física (Darth Vader teve as duas pernas e os dois braços amputados, e ainda sofreu queimaduras seriíssimas que o obrigaram a usar para o resto da vida uma armadura cibernética com membros mecânicos e suporte vital).

Fui comprar meu ingresso para Star Wars VII: O Despertar da Força na pré-venda, e todas as salas na semana de estreia no Cinépolis serão em “3D”. Paciência… Fui então ao Cinemark, e a situação é a mesma. Procurei no site do Moviecom, o cinema que menos prefiro aqui em Natal, e vi que haverá uma sala com cópia em “2D” – mas será dublada, e para mim a experiência de escutar as falas no idioma original é muito melhor (…como disse acima, um outro problema, para outra discussão).

A indústria cinematográfica está tornando menos acessível o entretenimento daqueles que há muito tempo são fãs da franquia e que, mesmo considerando essas críticas, certamente contribuiriam com resenhas logo na semana da estreia, se tivessem ao menos uma sessão “2D” para não perder a grande festa nerd que será essa bem-vinda renovação do universo dos jedis, de alienígenas pitorescos e de tecnologias nostálgico-futuristas de há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante. Um mundo que não precisa ser projetado com mais de duas dimensões na telona, pois sua profundidade está na maravilhosa fábula que se dispõe a contar.

Macacos

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Num jogo de futebol recente, algum torcedor idiota lançou uma banana ao campo, direcionada ao jogador negro Daniel Alves. Como já é costume, a atitude de mau gosto do torcedor foi aludir à velha piada racista que desumaniza os negros ao insinuar que eles se parecem com macacos (estes, segundo o senso comum, têm uma predileção natural por bananas). A contundente reação do jogador foi pegar a banana, descascá-la, comê-la e continuar jogando.

A atitude de Daniel tem grande força simbólica porque é uma forma de ele mostrar que não tem medo do racismo, uma maneira de dizer, “seu racismo não me afeta”. E isso serve de exemplo para a sociedade que costuma assistir aos negros baixarem a cabeça ou se entristecerem com esse tipo de ofensa. Embora seja muito difícil contornar a violência simbólica do racismo, a mensagem é clara: as coisas estão mudando e não vão ser assim para sempre.

Porém, Neymar, colega de Daniel, levou adiante o gesto deste ao lançar a campanha “Somos Todos Macacos”, convidando os internautas a postar fotos suas comendo uma banana e repetindo a hashtag correspondente (#somostodosmacacos). Em pouco tempo o Facebook e outras redes sociais se encheram com fotos e textos louvando a campanha e rapidamente pessoas começaram a ganhar dinheiro com isso.

Mas o que realmente significa dizer que “somos todos macacos” e quais as consequências de promover essa frase da forma como está sendo divulgada?

Importa salientar que Neymar é conhecido por não se autorreconhecer como negro, embora para o mundo ele seja negro e seja alvo também de racismo. Dessa forma, fica a dúvida se, ao dizer que é macaco, ele está se autorreconhecendo como negro e como pertencente a uma identidade suscetível ao tipo de ofensa sofrida por Daniel ou se está reproduzindo um tipo de campanha comum hoje em dia que é se identificar com uma minoria oprimida apenas a título de solidariedade. Ou Neymar está dizendo

  • ok, eu sou negro e, como Daniel, não me ofendo com o racismo do qual sou alvo; ou
  • embora não seja negro, me solidarizo com Daniel e com todos os negros chamados de macacos pelos racistas; ou ainda,
  • somos todos seres humanos e, como tais, somos uma espécie de macaco.

Infelizmente, como estamos vendo, as coisas são muito mais complicadas do que parecem à primeira vista. Para mim, a única forma que a frase “somos todos macacos” poderia ter algum sentido positivo seria entendê-la com um significado zoológico: “Como Homo sapiens, somos todos pertencentes a uma espécie de primatas e, portanto, somos macacos, tanto os negros quanto os brancos quanto os de qualquer outra cor de nossa raça humana”. Se a frase fosse unanimemente entendida assim, poderia ter, quem sabe, uma força libertária enorme e nos colocaria todos no mesmo lugar, ou seja, desconstruiria qualquer sentido negativo relacionado à palavra “macaco”.

Mas não é bem assim que ocorre na prática. Não podemos ignorar o peso simbólico e político impregnado nas palavras e nos gestos em nossa cultura. Para grande parte das pessoas, o ser humano não é um macaco, e esta palavra se reveste de um significado que a opõe a vocábulos como ser humano, pessoa, homem, mulher etc. Vide um pronunciamento de 2012, viralizado recentemente, em que Ariano Suassuna deixa bem claro a noção de senso comum (e de grande parte das pessoas religiosas) que vê o ser humano como uma criação diferente de qualquer outro animal. Assim, são muito poucos os que apreendem o suposto sentido zoológico presente na expressão “somos todos macacos”.

Infelizmente, o que se apreende dessa frase, em geral, é semelhante ao que estava implícito na frase “somos todos Guarani-Kaiowá”, em campanha a favor dos grupos indígenas citados, e em que pessoas que não eram indígenas se identificaram com eles de maneira fortuita, num gesto político de solidariedade. Quando uma grande parcela de pessoas brancas se identifica como “macacos”, infelizmente o sentido racista ressoa na expressão, e é como se essas pessoas estivessem dizendo que, num gesto de solidariedade, estão se identificando como negros (e não genericamente como seres humanos). Ou seja, por mais bem-intencionada que seja, a pessoa que diz “sou macaco”, nesse contexto em que se discute o racismo, está sem querer dizendo que negro e macaco se equivalem e que macaco não abrange semanticamente o branco.

"Não sou macaca!" (Fang)

“Não sou macaca!” (Fang)

Grande parte das pessoas, além de acreditarem nessa noção de senso comum que vê o ser humano como uma criatura especial, misturam-na com um saber científico difuso sobre a evolução que, contaminado pelo racismo científico do século XIX, não só vê o Homo sapiens como uma evolução do macaco (que supostamente deixou de ser macaco) como também vê nos diversos grupos humanos estágios diferentes dessa evolução. Sabemos bem aonde esse raciocínio leva: grande parte das pessoas, conscientes disso ou não, considera os negros como mais próximos evolutivamente dos macacos do que os brancos, ou seja, como menos evoluídos do que estes e, portanto, menos humanos do que estes.

E é aí que está a força racista do termo macaco, usado ostensivamente em nosso cotidiano como uma palavra “naturalmente” ofensiva. Não é à toa que parte significativa dos representantes dos movimento negros estão rechaçando sumariamente a campanha (difundindo, ao invés disso, a frase “Não Somos Macacos”), pois consideram que ela não desconstrói o racismo subjacente à palavra em questão e pode até reforçar esse racismo. A maioria das pessoas que se deparar com a campanha do “Somos Todos Macacos” não conseguirá dissociar o termo macaco de um sentido negativo profundamente difundido na cultura ocidental.

Há uma grande diferença entre abordar a “macaquice” humana do ponto de vista zoológico e do ponto de vista sócio-antropológico. Embora a Biologia nos permita afirmar a igualdade dos indivíduos da espécie, nos colocando evolutivamente como “macacos”, a cultura, através da representação, nos divide em grupos, nos faz diversos, diferentes, e até desiguais e antagônicos. E, nessa diversidade, a força da representação da identificação entre negros e macacos (diferenciando-os dos humanos brancos) não pode ser menosprezada.

Como disse um amigo, aludindo ao famigerado vídeo “Dancem, Macacos, Dancem”,

Este debate atual – afinal somos ou não somos macacos – tem relação direta com o grande dilema da nossa espécie que é fundante da antropologia: a contradição de sermos uma espécie una do ponto de vista biológico, ao mesmo tempo em que somos diversos do ponto de vista sociocultural. É por causa desse dilema que nos defrontamos com situações inusitadas como o fato de que raças humanas não existem para a biologia, mas são operantes no espectro sociocultural, sendo definidoras de hierarquia e papéis sociais. Assim sendo, estamos diante do atual dilema em que biologicamente não faz sentido negar nossa animalidade – afinal somos primatas, logo, macacos -, mas sociologicamente podemos ser o que quisermos – ou o que os outros querem que sejamos. Ou seja, ser ou não ser macacos depende, diretamente, do contexto em que se insere essa macaquice. Como disse, mundo contraditório…

A nomeação e/ou classificação de nossa espécie como pertencente ao grupo dos macacos é arbitrária e depende da abordagem e do contexto. O que posso dizer com o mínimo de incerteza é que só faz sentido dizer que “somos todos macacos” se com isso entendermos que negros são tão macacos quanto brancos são macacos (bem como quaisquer outras classificações de grupos humanos). Mas é praticamente impossível hoje em dia não associar o malfadado termo a uma noção racialmente negativa, herdada de nossa história recente de subjugação dos africanos e seus descendentes.

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Universo Desconstruído: Ficção Científica Feminista

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A Ficção Científica, como outros tantos gêneros da Literatura, do Cinema e das série de TV, está impregnada dos valores arraigados na cultura em que prolifera. E isso implica na reprodução de etnocentrismo, racismo, sexismo e heteronormatividade.

Pensando nisso, as escritoras Lady Sybylla e Aline Valek organizaram uma coletânea de contos que fogem desse padrão. Focando especialmente na desconstrução dos papéis de gênero tradicionais tão presentes na ficção científica (e também tocando em outros temas relacionados à diversidade humana), as autoras e autores que participaram da coletânea exploram os limites libertadores dessa literatura, que em essência pode extrapolar a realidade e imaginar um mundo melhor, um universo livre de discriminação e preconceito, ou que pode servir para explorar alegorias fantásticas da nossa realidade ainda androcêntrica e misógina.

O livro é distribuído gratuitamente através do site oficial (http://universodesconstruido.com/), em formatos EPUB (Kobo), MOBI (Kindle) e PDF,  e pode ser comprado em formato físico no Clube dos Autores.

A seguir, faço uma apreciação de cada um dos contos presentes na coletânea, tentando não revelar pontos importantes da trama (spoilers), ao mesmo tempo trazendo minha interpretação para quem já leu e procurando instigar a leitura para quem ainda vai ler.

“Codinome Electra”

O conto que abre a coletânea, escrito por Lady Sybylla, narra eventos de um futuro distante. Há uma guerra entre dois povos, os humanos e os magojins, e a sucessão de eventos da trama é desencadeada pela captura de um magojin por uma mulher chamada Electra. Quando surge enfim a oportunidade de os humanos, que habitam o planeta Klaten, entenderem quem são seus inimigos, o governo de Klaten decide acobertar qualquer informação que tivesse sido coletada e impedir a continuidade desse plano.

Major Electra é dispensada pela coronel Vieira, sua superiora, e decide descobrir a verdade sobre os magojins, mesmo que isso represente um risco para si mesma. As revelações que se seguem mostram que há uma relação entre humanos e magojins mais significativa do que se acreditava, e passamos a entender uma série de elementos do conto até então.

O trio de personagens que protagonizam o primeiro ato do conto é muito significativo para se entender o caráter subversivo de “Codinome Electra” e Universo Desconstruído. São três mulheres, uma guerreira (Electra), uma líder (Vieira) e uma médica (Alvarez). A princípio, a “insistência” da autora em apresentar de cara três mulheres em papel importante pode ser um incômodo para muitos leitores homens (e é bom que seja), e essa escolha tende a ser vista como típica de “histórias para mulheres”. Mas é uma escolha proposital e acertada, que nos informa do que realmente se trata o livro: uma quebra de paradigmas. Afinal, não é nada incomum encontrarmos dezenas e centenas de histórias de ficção científica cujo grupo de protagonistas é todo formado por homens.

Vide o emblemático triunvirato de Star Trek, Kirk, Spock e McCoy, três homens (que, na minha leitura, parecem ter inspirado as três mulheres do conto). Mesmo a grande capitã Kathryn Janeway, de Star Trek: Voyager, possui um imediato homem, e é muito difícil encontrar space operas que tenham apenas mulheres como protagonistas (embora seja fácil encontrar grupos exclusivamente masculinos ou nos quais as mulheres, quando presentes, ocupam papel secundário).

Ao longo do conto, vamos nos deparando com mulheres em posições de poder, negros e brancos convivendo em igualdade, bissexuais vivendo sua sexualidade em paz e transexuais plenamente aceitos como iguais em suas identidades, e nos perguntamos como essa sociedade futurista conseguiu se transformar em tudo o que as histórias de ficção científica negaram fazer. “Codinome Electra” é um ponto alto e importante da literatura brasileira de ficção científica.

“Quem sabe um dia, no futuro”

Neste instigante monólogo, da autoria de Alex Luna, somos apresentados a um futuro em que a humanidade resolveu diversos problemas sociais com o uso de robôs, que passaram a realizar todas as atividades braçais. Tornaram-se, enfim, escravos (que é, a propósito, o sentido próprio da palavra robô).

Nas reflexões que a protagonista faz, compreendemos o que sente o ser oprimido diante da impossibilidade de se rebelar. Embora na sociedade pseudoutópica que é o cenário do conto não haja mais desigualdade de gêneros, na nova ordem as angústias das mulheres se repete nas mentes do novo contingente dominado.

A forma como se desencadeia o monólogo vai revelando aos poucos do que se trata essa realidade, fictícia quanto aos fatos, realista quanto à mensagem: não importa quanto tentemos mudar as sociedades humanas, só haverá uma verdadeira revolução quando a estrutura de dominação for desconstruída, quando as mudanças deixarem de ser apenas a dos atores que ocupam os papéis pré-estabelecidos. Estes é que devem ser reconstruídos.

Apreender esta mensagem é importante para se compreender a proposta feminista da coletânea. Não se trata da caricatura propagada pelo discurso tradicionalista, a das feministas que querem inverter os papéis da dominação sexista. Trata-se, isso sim, de construir uma estrutura social em que não haja desigualdade baseada no sexo/gênero dos indivíduos (tampouco sua etnia, “raça” ou orientação sexual).

“Uma terra de reis”

Confesso que tive que ler duas vezes o conto de Dana Martins para entender a trama. É como se tivesse sido escrito num jargão futurista, com abreviações de palavras (especialmente dos nomes próprios, alguns dos quais remetem à mitologia hindu) e de frases, e exigiu de mim muita atenção para compreender o que não estava dito explicitamente. O ritmo frenético de história de ação também demandou paciência, pois não estou acostumado com esse tipo de literatura. Mas depois da segunda leitura entendi melhor a proposta e achei bastante interessante.

Num mundo controlado por grandes corporações, uma epidemia fora de controle se torna fonte de enriquecimento para uma indústria, que comercializa a cura apenas para quem pode pagar por seu caro preço. Um grupo de rebeldes está tentando roubar o remédio para distribuí-lo entre a população excluída. Ou seja, a história é de forma geral uma crítica sócio-econômica.

Sua inserção na coletânea de contos feministas se justifica, em primeiro lugar, pelo fato de Maya, a protagonista e narradora, ser feminina. Além disso, ela não é humana, mas um ser artificial, parecido com os replicantes de Blade Runner. Sua condição de coisa, num mundo que relega os UROs ao papel de escravos, é motivo de constantes queixas por parte dela. Seus sentimentos são, metaforicamente (às vezes literalmente), um reflexo da opressão sofrida pelas mulheres num mundo androcêntrico.

Embora Maya participe ativamente do planejamento e execução das operações de espionagem e guerrilha, ao lado de seu companheiro humano Dev, ela é encarada por muitos como uma ferramenta e um objeto de disputa por parte das diversas forças que se opõem na história. Sua perspectiva reflete a angústia das mulheres reais, que aprendem, da cultura em que estão inseridas, a cultivar anseios e desejos, mas são tratadas como coisas sem autonomia.

Eu me concentro em respirar enquanto eles continuam a falar de mim. As palavras vindo de longe. Os dois continuam combinando o meu futuro.

Vale também mencionar o destaque para a ambivalência do personagem masculino que acompanha Maya. Dev é apresentado como uma espécie de super-herói, muito autoconfiante, destemido, ágil e forte. Mas essa aparente imagem de modelo masculino ideal é contrastada com momentos de dúvida, insegurança e ansiedade, quebrando o estereótipo do machão inquebrável das histórias de ação, mostrando um ser humano com virtudes e fraquezas.

“Meu nome é Karina”

Nesta história de Ben Hazrael, um empreendimento científico que envolve a comunicação com uma realidade alternativa coopta a personagem-título para ser uma “sonda” na outra realidade, assumindo a identidade de sua contraparte para iniciar o processo de transferência das consciências de todo o mundo para seus alter-egos naquela realidade, onde a história seguiu um caminho um pouco diferente da nossa. Porém, a motivação de Karina para ir à outra realidade não coincide com os planos dos cientistas envolvidos no “Projeto Sonda”. Ela anseia por viver uma vida em que é aceita como é, especialmente por seu pai.

Presa desde o nascimento num corpo que não reconhece como seu, Karina não aceita a identidade imposta pela sociedade e por seu pai, com quem sempre teve um profundo conflito. Nesta fábula, a figura paterna aparece como um símbolo que condensa o patriarcado, a ordem androcêntrica controlada pelos homens, o sexismo da rígida divisão sexual do trabalho, a heteronormatividade que mata os “desvios” e a cisnormatividade que castra a autenticidade individual. O pai é ainda um cientista, representando o fato de que o pensamento científico, pensado como libertador, não implica necessariamente em melhor aceitação das diferenças.

Somos capazes, hoje em dia, de enviar astronautas para Marte para construir colônias, mas somos incapazes de apagar preconceitos.

A frase acima é muito significativa pelo fato de não ser apenas uma constatação da personagem-narradora a respeito de seu universo, nem somente uma mensagem do autor sobre o que vivemos na nossa própria realidade. A sentença condensa toda a ideia de Universo Desconstruído, de que por mais imaginativa que seja a ficção científica, em geral ela ainda se mantém presa a valores tradicionais com que só a um grande custo consegue romper.

E esse conto rompe com a tradição, explorando o drama psicológico de uma transexual, uma viagem intimista por seus pesadelos, suas fantasias, os questionamentos sobre seu nascimento num “corpo errado” e seu ingresso resoluto num arriscado projeto científico pelo qual ela tem a possibilidade de ser quem é. Karina, na verdade, coloca a perder o referido “Projeto Sonda” ao dormir – nos braços do pai – na outra realidade, contrariando as recomendações da Dra. Mariza. Assim, ressoando O Homem-Elefante e A.I.: Inteligência Artificial, a protagonista morre se sentindo plena, em paz, tendo finalmente conquistado sua identidade e a aceitação, tão negadas em nossa cultura cisnormativa.

“Eu, incubadora”

Aline Valek nos traz uma história de tribunal e suspense em que duas personagens femininas se encontram no papel de rés. Num cenário pós-apocalíptico e distópico, após sobreviver a um imenso desastre que dizimou grande parte da população,  a humanidade instituiu que os embriões e fetos humanos são pessoas com direitos iguais aos de indivíduos adultos. Isso implica na completa criminalização do aborto, considerado equivalente ao assassinato.

Esse futuro socialmente catastrófico é uma extrapolação prognóstica da atual influência do perigoso discurso “pró-vida” e antiaborto, fomentado por igrejas cristãs e bancadas políticas evangélicas hodiernas. Esse discurso, profundamente atrelado à ideologia da submissão das mulheres e da domesticação de seus corpos, se torna, na ficção de Valek, uma realidade extremamente opressora para as pessoas do sexo feminino e especialmente para todas as mulheres grávidas.

Nessa sociedade, uma rígida hierarquia entre androides (ou Coisas) e seres humanos coloca estes como deuses aos olhos daqueles. As Coisas estão no grau mais baixo da hierarquia social, e veneram a capacidade de gerar vida dos seus deuses. Porém, a vida embrionária é considerada a tal ponto sagrada nessa sociedade que chega a ser mais importante do que a vida da mulher que a carrega no ventre.

Essa realidade constitui um paradoxo existente em nossa própria sociedade patriarcal e misógina: as mulheres se sentem privilegiadas quando estão grávidas e se dedicam à maternidade como a uma carreira que, em princípio, deveria significar a máxima realização individual. As mulheres são supervalorizadas e são bem tratadas nessa condição. Porém, não podem escolher quando engravidar, não se lhes permite abdicar de ser mães e elas têm que assumir todo o trabalho de cuidar dos filhos. Em suma, as mulheres são valorizadas enquanto forem submissas ao restringidor papel imposto a elas socialmente.

Neste cenário, Diana decide abdicar de ser mãe, transferindo seu filho não nascido para o ventre de uma Coisa. A partir daí, uma série de questionamentos é suscitada num grande julgamento, trazendo uma crise para as concepções sobre vida, aborto, liberdade individual e hierarquia social e de gênero – o conto é praticamente todo ele uma reflexão filosófica, aberta e irônica sobre estes temas. Os líderes que impõem e executam as leis dessa sociedade são todos homens, evidenciando a manutenção do controle masculino e a pouca empatia da autoridade sobre a condição feminina em situação de maternidade e de aborto. O título se refere diretamente à condição da Coisa grávida, mas também é uma metáfora para a condição de Diana e todas as mulheres reais que sofrem a violência simbólica desumanizadora de se ver como instrumentos para a procriação, meras incubadoras sem domínio de seus próprios corpos.

(De quebra, a história ainda nos apresenta uma abordagem crítica a respeito das crenças religiosas. Diferente de muitos ateus que consideram que as crenças são mero capricho sem motivação aparente, Valek cria uma fábula em que percebemos que uma religião não surge à toa e tem todo motivo para existir, mesmo que as crenças que a fundamentam sejam arbitrárias, ilusórias e possam servir à dominação de certos grupos por outros.)

“Um jogo difícil”

Leandro Leite nos apresenta Maria, ou 002-b, mais conhecida como Zero Dois, uma mulher estivadora, forte, em posição de chefia em seu setor. Ela chama atenção por ser uma heroína “feia”, diferente de grande parte das supermoças das histórias de ação, mais parecidas com romantizadas supermodelos do que com as mulheres da realidade, tão diversas em suas formas físicas.

Eticamente correta com os indigentes que buscam abrigo nos contêineres de seu setor, ela sofre o preconceito de seus colegas por não seguir o procedimento padrão, que é encaminhar esses invasores à execução. Ela é desprezada por ser “coração mole”, acusação que esconde e revela a misoginia no desprezo à empatia e à compaixão, consideradas uma “fraqueza” feminina. Essa misoginia acaba por demovê-la do cargo de chefia.

Porém, Maria descobrirá que foi demovida do cargo por muito mais do que sua “fraqueza” moral. Num mundo controlado por megacorporações, onde cada cidade é praticamente um conglomerado de empresas, intrigas, conspirações e guerras levam a desaparecimentos e mortes misteriosas. Maria se encontra na condição de bode expiatório e precisa fugir para não ser punida (com a morte) por suposto terrorismo.

Neste futuro distópico, a dominação pelo capital criou uma sociedade controlada por empresas interessadas apenas em enriquecer. A educação se esfacelou em favor de uma cultura consumista. A falta de uma estrutura educacional consistente leva à ignorância sobre conhecimentos científicos e filosóficos. Nesse contexto, todo o avanço que havia sido alcançado pelo pensamento e lutas feministas (e provavelmente de outras correntes libertárias) se perde quase totalmente. A narrativa é, portanto, um pretexto para o autor argumentar a favor da educação como meio de se cultivar mudanças sociais significativas.

Nesta sociedade que regrediu a um machismo violento, uma das únicas formas de Maria se defender do assédio dos homens é pelo uso da força bruta. Mas a violência contra as mulheres é aí bem mais séria do que a violência simbólica e física cotidianas. As mulheres são sistematicamente manejadas como coisas. A mensagem presente nos pensamento e falas de Maria reflete todo o sentido da mobilização da causa feminista, a união organizada daquelas que são as maiores vítimas do machismo.

“Memória sintética”

O conto de Camila Mateus traz as figuras de Marla, Gilvana e Kaira numa São Paulo futurista em que é comum, para os moribundos que têm dinheiro para pagar o serviço, transferir a própria mente para robôs e continuar “vivendo” depois que o corpo biológico deixa de funcionar. Esse conto, à primeira vista, não é sobre temas feministas. As protagonistas são mulheres, mas além disso é uma história policial. Porém, as diversas situações trazem à tona o tema da misoginia e revelam a que veio a autora.

Neste cenário, dois tipos de pessoa sofrem discriminação: transfers (os robôs) e as milenarmente menosprezadas mulheres. Gilvana, funcionária da empresa Skymed, contratada para jogar cadáveres num incinerador, mulher gorda, sabe bem o que é ser alvo de deboches machistas de seus colegas homens.

E não há nada mais cansativo do que essa eterna insatisfação, essa necessidade de agradar aos outros e a si mesma. Escolher entre costurar o ombro de um baleado ou usar o tempo fazendo academia. Ir a pé para o trabalho com o único tênis decente do armário, pra economizar e ajudar os pais ou gastar tudo numa cirurgia a laser para retirar as varizes e secar a barriga.

Também sabe o que sofre uma mulher pobre com poucas chances de realizar seus anseios pessoais, por ser mulher e por ser pobre.

[…] Gilvana Mara já foi mais ambiciosa, queria ser astronauta. Subir lá pros planetas pra procurar algum alien pacífico que queira trocar ideias e não aniquilar a humanidade.

Marla, por outro lado, era engenheira chefe de produção robótica da Skymed. morreu em circunstâncias misteriosas e seu transfer, ainda em processo de recomposição das memórias de sua dona, fugiu adotando o nome Kaira. Sob o ponto de vista de um transfer, Kaira vai passar por situações de preconceito e exclusão que remontam às discriminações sofridas pelas minorias humanas, tendo inclusive sua natureza senciente questionada, ou seja, sendo desumanizada. Esse é um tema crucial no conto, o questionamento sobre a natureza da consciência, a pergunta sobre se um clone com as mesmíssimas memórias que o indivíduo original pode ser considerado uma cópia de sua individualidade.

O conto nos descree um cenário em processo de mudança, tendo em vista que aos poucos os transfers vão mudando seu comportamento, exigindo autonomia e independência em relação aos donos de quem são clones. Essa gradual mudança pode ser entendida como uma metáfora do empoderamento das mulheres, que se esforçam para terem sua individualidade reconhecida e desatrelada da autoridade de um homem que a possua.

“Réquiem para a humanidade”

Este é meu conto preferido de toda a coletânea. Thabata Borine nos apresenta um pequeno drama épico, com referências (propositais ou não) a Star Trek (lembrei do episódio O Demônio na Escuridão), ao jogo The Dig, ao filme Independence Day e ao universo de O Guia do Mochileiro das Galáxias. Tudo se encaixa bem na complexa trama, e a miríade de referências não torna cansativa nem confusa a narrativa.

O conto é narrado em primeira pessoa por um personagem misterioso. Não sabemos detalhes sobre sua identidade e ficamos apenas imaginando qual é a cara dessa pessoa, até que uma sutil reviravolta na trama nos faz perceber a razão de vários dos acontecimentos que se passaram ao longo da história. Essa revelação na verdade fica relativamente fácil de adivinhar pelo fato de o conto ser um dos últimos do livro. Penso que a experiência mind-blowing desse conto seria mais eficaz se ele fosse o primeiro ou um dos primeiros da coletânea, pois a leitura dos contos anteriores já prepara o leitor antecipadamente.

Numa missão a outro planeta, descobrem-se evidências de uma forma de vida inteligente extraterrestre. Com muitas dificuldades, a pessoa responsável por essa pesquisa consegue recursos do governo para prolongar a investigação a outros planetas, onde provavelmente há mais evidências arqueológicas que levarão à descoberta da identidade e da história desse povo misterioso que não deixou mais do que alguns vestígios de sua existência. O motivo do desaparecimento dessa espécie, apelidada de glieseanos, leva a crer que, se a humanidade não mudar certas coisas em sua conduta ética e sua estrutura social, especialmente no que tange à discriminação das minorias sociais, ela terá o mesmo fim.

A mensagem secreta dos glieseanos há muito desaparecidos e do conto de Borine é que, se permanecer a estrutura de dominação baseada em diferenças de gênero, identidade racial, classe econômica e sexualidade, acabaremos por minar nossos esforços evolutivos enquanto espécie em busca de um futuro melhor.

“Cidadela”

Duas personagens femininas protagonizam esse conto escrito por Lyra Libero. Irina trabalha numa cozinha industrial do governo, é pobre e vive numa das cidades satélites ligadas à Cidadela. Luísa é uma rebelde que trabalha fora da lei, uma espécie de espiã e gatuna. Ambas vivem num mundo distópico controlado por uma junção de Estado e Igreja, uma teocracia que se fundou a partir da reconstrução de uma sociedade destruída por uma praga. Nessa reconstrução, o papel das mulheres foi relegado ao de receptáculos de fetos, e elas perderam totalmente o poder sobre seus corpos, sendo a gravidez uma decisão dos homens e todos os filhos são criados pelo Estado para servir à Coletividade, que mais parece uma colmeia de abelhas do que uma sociedade humana.

Neste cenário pós-apocalíptico, constituiu-se um forte patriarcalismo, em que praticamente todos os líderes são homens e no qual as mulheres desempenham papéis subalternos. É notório, por exemplo, que na cozinha onde Irina trabalha só haja funcionárias mulheres. Vem à tona uma crítica à forma como se têm feito as revoluções ao longo da história humana, sempre se desviando de seus ideais originais e mantendo alguma forma de opressão. Neste caso, a opressão às mulheres.

Outra consequência nefasta desse neopatriarcalismo é constituição de uma literal cultura do estupro, em que qualquer violência masculina contra mulheres é friamente tolerada e qualquer gravidez advinda dessa violência é protegida pelo Estado, sendo o aborto proibido. Há uma séria crítica ao modelo democrático vigente na atualidade, quado a autora enfatiza que na Cidadela qualquer tipo de privilégio é proibido por Lei, mas isso não impede que aqueles que já detêm os privilégios os mantenham sem receber quaisquer punições.

A história lembra muito o conto de Valek, “Eu, Incubadora”, dessa mesma coletânea. Mas aqui vemos fortes elementos orwellianos, especialmente em duas figuras vigilantes, dois big brothers, o Ministro e o Pastor (a descrição deste é uma referência ao infame Marco Feliciano). Há uma forte crítica à atual ameaça contra a laicidade do Estado. Neste cenário hipotético, ressurgem inclusive práticas inquisitoriais, tendo como principais vítimas as mulheres, ressoando a medieval caça às bruxas. Tendo em seu cerno o tema do estupro, da gravidez não consentida e do aborto, Libero traz ao leitor uma reflexão sobre os sentimentos de uma vítima:

Como poder amar um fruto de violência, uma lembrança brutal de violação, patrocinada por um governo que dizia que mulheres eram inferiores e incapazes de decidir sobre seus corpos? Quem poderia culpar aquela pobre moça do Satélite 5 por não querer o fruto do seu ventre?

“Projeto Áquila”

Temos aqui um relato de Isabel Andrade, uma mulher duplamente aprisionada. A autora, Gabriela Ventura, fazendo uma referência ao saudoso filme O Feitiço de Áquila (Ladyhawk), conta a história de um casal que, por circunstâncias trágicas, passa a não conseguir se encontrar, pois uma só está desperta quando o outro está dormindo.

Isabel decidiu ser cientista ainda quando era criança, e acabou por se formar em Neurociências e se tornar uma grande referência na área. Em seu trabalho, contratou o colega Ricardo Oeiras, com quem formou uma parceria profissional e posteriormente conjugal. Os dois juntos se empenharam na pesquisa de Isabel, que visava encontrar uma forma de reverter a perda de memória dos pacientes do Mal de Alzheimer, sofrido pela falecida mãe da cientista. Porém, discordâncias entre Isabel e Ricardo, além de um acidente, colocam-na numa prisão, para que ela o ajude em outra pesquisa chamada Projeto Áquila.

Isabel consegue denunciar os atos de Ricardo, mas ela não se resume apenas a delatar seu crime e assegurar sua punição. É importante para ela fazer ouvir sua voz, se visibilizar enquanto indivíduo. Neste sentido, podemos entender sua necessidade como uma metáfora da urgência de as mulheres serem reconhecidas enquanto dotadas de individualidade e independência, e não meras sombras invisibilizadas pelos homens.

Além disso, a situação de Isabel ecoa metafórica e indiretamente dois outros temas importantes dentro das questões de gênero: o reconhecimento da feminilidade (ou seja, dos traços que nossa cultura identifica como femininos mas que podem estar presentes em qualquer indivíduo de qualquer sexo e/ou gênero) nos homens por eles mesmos; e a transexualidade, com o drama daqueles que se sentem descolados, num corpo errado e numa identidade de gênero inadequada.

Fundamentalmente, Ricardo é a figura do homem manipulador que coloca seus próprios interesses acima daqueles de sua companheira, seguindo a lógica androcêntrica tradicional pela qual o casal heterossexual se foca na realização dos planos do marido enquanto a esposa é uma reles coadjuvante. Neste contexto, predomina o sentimento de possessividade do homem sobre a mulher, disfarçado de romantismo, e o cativeiro doméstico da esposa, tido como obrigação conjugal. A mulher que desobedece essas obrigações é demonizada pela misoginia. Assim, os esforços de Isabel para inviabilizar o Projeto Áquila representam os esforços para se acabar com os instrumentos que servem à dominação das mulheres pelo machismo, objetivando o empoderamento e a autonomia feminina.

Aonde nenhuma mulher jamais esteve

Apesar de toda a admiração que pude aqui manifestar, penso ser oportuno mencionar uma pequena crítica de caráter puramente técnico. A versão para Kindle, que foi a que li, poderia ter sido melhor diagramada. Há uma linha em branco entre cada parágrafo, o que me incomodou um pouco, tendo em vista que os parágrafos já estão marcados pelo recuo na primeira linha. Teria ficado mais elegante e agradável em termos de design a exclusão dessas linhas em branco. Ademais, com a exceção de três ou quatro dos dez contos, em geral faltou uma ostensiva revisão do texto. Acho que a obra se valorizaria bastante se se atentasse para esses dois detalhes, embora não sejam nenhum impedimento para a leitora e o leitor apreciarem a coletânea. Fica a sugestão para uma possível reedição e para os próximos volumes da série.

Mas, em suma, a coletânea representa um novo fôlego para os esforços de se constituir uma ficção científica socialmente mais crítica, trazendo uma perspectiva feminista e libertária ao evidenciar protagonistas mulheres, bastante diversas entre si e bem diferentes dos usuais padrões homogeneizantes que as confinam a papéis decorativos ou que apenas servem de objeto motivador para heróis masculinos heterossexuais. É também uma tentativa de apresentar histórias mais inteligente e menos blockbuster do que a média. Representa ainda o fortalecimento e a valorização da soft sci-fi brasileira, que fomenta muita reflexão sobre nosso universo presente, desconstruindo-o para reconstruir o futuro.

Cotas raciais – parte 4

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Em 17 de março de 2010, comecei uma série de artigos sobre o tema das cotas raciais nas universidades brasileiras. Uma parte 2 foi publicada no dia 31 do mesmo mês e foi seguida de uma terceira parte no dia 29 de abril de 2010. As duas últimas foram praticamente respostas aos comentários da primeira parte, e na ocasião eu me “posicionava” contra as cotas, tentando, apesar de tudo, não desprezar de antemão todos os argumentos dos “racialistas” nem acatar todas as ideias dos “negacionistas”.

Desde então muita coisa mudou, muitos debates aconteceram, muita polêmica rolou, várias políticas públicas foram propostas, um controverso Estatuto da Igualdade Racial entrou em vigor e várias pesquisas mostraram o impacto da inserção de cotas raciais nas universidades. E minha posição também mudou.

Obstáculos para entrar na Academia

No processo de seleção para o ingresso nas universidades brasileiras, não há racismo direto. Não há discriminação racial no vestibular, apenas se discrimina a capacidade de se fazer uma determinada pontuação numa prova. Dessa forma, qualquer pessoa que não tenha recebido o preparo necessário (o que a escola pública deveria oferecer) ou que não tenha se preparado para fazer a prova do vestibular terá mais dificuldades de entrar na universidade do que aqueles que tiveram dinheiro para pagar uma escola particular ou um cursinho pré-vestibular.

Mas se não há racismo direto no acesso à universidade, há racismo indireto? Há. Uma vez que a maioria dos pobres é negra e que a maioria dos pobres e negros não podem senão frequentar as escolas públicas, que não os qualifica para a seleção do vestibular, apenas uma minoria de negros entra na universidade. Se tivermos em mente, ainda, o sutil mas muito sério preconceito que temos a respeito dos negros ou das pessoas que têm alguns traços de ascendência africana, segundo o qual essas pessoas são menos capazes do que os brancos, crença compartilhada inclusive por grande parte dos negros, há uma dificuldade a mais: elas têm, em geral, menos autoconfiança em sua capacidade de passar numa prova, muito menos no vestibular, que é cercado de uma aura sagrada e causa enorme tensão nos candidatos. Certa vez perguntei a um jovem quilombola que estava terminando o Ensino Médio se ele pretendia fazer vestibular. Sua resposta foi:

Vou fazer, mas a gente aqui não tem muita chance de passar, não.

Esse é apenas um caso ameno entre as tantas dificuldades de os negros cursarem uma universidade. Não podemos ignorar que há uma grande quantidade de pessoas pobres (a maioria das quais negras) que não têm oportunidade de estudar o ensino fundamental, muitas vezes porque as vicissitudes da vida os obrigam a trabalhar em tempo integral desde cedo.

Não devemos menosprezar o impacto que essa exclusão generalizada tem sobre a maneira como nossa cultura tende a representar os negros, como se fossem incapazes de adquirir as formas socialmente prestigiadas de conhecimento ou, numa perspectiva neoliberal, individualista e que endossa uma meritocracia acrítica, fossem preguiçosos e não conseguissem entrar na universidade por falta de interesse e/ou esforço. As pouquíssimas exceções não servem para provar essa perspectiva a não ser que esta seja imbuída de um teor racista.

Sim, somos racistas. E as discussões sobre as cotas raciais devem se voltar para a reflexão sobre os possíveis meios de se atenuar o racismo no Brasil. A proposta de cotas é uma resposta ao problema do racismo. Este não surgiu do nada na cabeça dos favoráveis às cotas. Não só existe racismo no Brasil, como ele está ligado à coincidência entre a distribuição racial e social, ou seja, a maioria dos pobres é negra, “parda”, indígena, a maioria dos ricos é branca. Muitos dos que se opõem às cotas raciais desenham o retrato de um Brasil bem menos racista do que pensam os pró-cotas. Propõem a “solução” das cotas sociais, que em si mesma é válida como política de ação afirmativa, mas não substitui (e não exclui) o valor simbólico de uma política cujo foco é o combate ao racismo.

O vestibular e a vocação acadêmica

Não é possível falar de meritocracia numa sociedade que não dá condições iguais para que todos possam competir igualmente. Não faz nenhum sentido apregoar a ideologia do esforço individual como única forma legítima de competição num país cuja história recente excluiu um gigantesco contingente populacional dos recursos necessários para “ser bem-sucedido”. Embora haja exceções, a maioria esmagadora das pessoas que “se dão bem” já nasceram em famílias com um mínimo de condições financeiras e capital cultural necessários para frequentar uma escola até o fim do 2º grau, prestar vestibular, cursar uma universidade e conseguir um emprego. Uma das formas de se atenuar a desigualdade desse processo seria instaurar de uma vez por todas um sistema educacional público (no mínimo) bom. Mas os efeitos disso se fariam sentir a longo prazo e não alcançariam o fundo do problema urgente que as cotas raciais tentam combater de imediato, que é o racismo.

Um dos argumentos “negacionistas” diz que instituir cotas raciais implica constituir uma divisão racial que não existe na realidade ou que, se existe, é muito sutil e difusa. Para eles, nomear as “raças” dos candidatos ao vestibular significaria reforçar o racismo ou até mesmo criar um tipo de racismo que não existe no Brasil.Porém, os conflitos raciais (quando há) entre cotistas e não-cotistas nas universidades não são uma consequência da criação das cotas. Eles são um reflexo de um conflito pré-existente. O preconceito que sofrem os cotistas negros poderia ser explicado por um suposto oportunismo da parte deles, uma acusação de que eles querem levar vantagem em cima dos outros candidatos que não precisam de (ou que não podem se qualificar a) cotas. Mas os cotistas estão exercendo um direito oferecido pelo Estado e a maioria deles está tentando com isso conseguir condições de cursar uma universidade, para o que o mero esforço individual geralmente não se mostra suficiente.

Se os conflitos raciais se evidenciam quando pessoas negras entram nas universidades através do sistema de cotas, não é que eles estejam sendo engendrados pela “cisão racial” desse sistema. O racismo é ubíquo e, nas situações cotidianas, parece muitas vezes não existir, estando na verdade ostensivamente oculto. A aparente harmonia (“democracia”) racial no Brasil é uma paz relativa que só se mantém enquanto negros, brancos, índios etc. se mantêm “em seus lugares”, ou seja, nas posições de poder tradicionalmente instituídas pela nossa história recente de dominação europeia, extermínio de índios e escravidão de negros. Quando essa “ordem” implícita é ameaçada, o conflito racial se mostra. Quando os privilégios historicamente construídos dos brancos são ameaçados pela presença negra nas universidades, emerge o racismo que estava velado.

Os anticotas também gostam de argumentar que conceder vagas para indivíduos que não tiram boas notas no vestibular é um risco para a qualidade do corpo discente das universidades. Mas a capacidade de se resolver a prova do vestibular não garante que o candidato terá condições ou vocação para seguir a carreira acadêmica. É notório que muitos universitários que passam no vestibular desistem em algum ponto da graduação. E importa salientar que a desistência entre os cotistas é menor do que entre os não-cotistas.

Ademais, tem sido demonstrado que, em média, o desempenho acadêmico de cotistas é equivalente ao dos não-cotistas. O que nos leva a questionar se o vestibular é realmente um meio absolutamente seguro de se averiguar quem tem condições de cursar bem uma faculdade. A vocação para a carreira universitária não se atesta pelo exame do vestibular, e penso que, mesmo se tivéssemos que insistir num sistema meritocrático, o vestibular deveria ser revisto ou substituído por outro meio.

Meritocracia

Da maneira que as coisas estão atualmente, o vestibular é uma espécie de loteria. Aqueles que têm a sorte de ter frequentado uma escola que os prepare para tirar uma boa nota são agraciados com uma vaga na universidade. Lembremos que até os cotistas precisam tirar uma nota mínima para passar, o que implica, inclusive, que todos os que entram na universidade estão num nível equivalente, não havendo diferença tão significativa entre os desempenhos de cotistas e não-cotistas.

O fato é que, uma vez que o vestibular não é um meio seguro para se averiguar a adequação dos candidatos à vida de pesquisas acadêmicas, ele não faz muito sentido enquanto instrumento meritocrático. A meritocracia do vestibular não tem nada a ver com a vocação acadêmica dos candidatos, e tem mais a ver com receber um ingresso para visitar um museu por ter sido bem-sucedido numa competição de xadrez.

As cotas raciais são uma proposta emergencial com o objetivo de atenuar os efeitos do racismo entranhado em nossa cultura. De fato, oportunizar a alguns negros (é bom que se note que, apesar de tudo, os beneficiados das cotas são uma minoria da população) a chance de sair das condições precárias em que viveram seus pais ajuda a tornar visível que a cor da pele não torna uma pessoa inepta. Mas ainda é necessário que essa política seja acompanhada de uma ostensiva reforma do ensino público, da erradicação das desigualdades sociais e trabalho infantil, além da implantação de projetos culturais de valorização da herança africana em nossa cultura material e imaterial e em nossa biologia.

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A Metamorfose

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ArquivoExibirFranz Kafka nasceu em Praga, em 1883, quando a cidade fazia parte do Império Austro-Húngaro (e posteriormente faria parte da Tchecoslováquia). Ele nasceu numa família judia e sua língua materna era o alemão. Sua carreira literária começou com a publicação de contos, mas ele ficaria mais conhecido por seus romances, especialmente O Processo, e suas novelas, com destaque absoluto para A Metamorfose (Die Verwandlung), escrita em 1912 ao longo de apenas 20 dias.

Kafka pretendia publicar A Metamorfose, junto com outros dois textos, numa coletânea chamada Filhos (Söhne). Posteriormente, tentou juntá-la com outras duas obras, chamando o conjunto de Punições ou Castigos (Strafen). “Filho” e “castigo” servem como pistas para se entender o tema central dessa obra, pois, como veremos adiante, trata-se de um personagem carregado de culpa e numa relação conflituosa com a família, especialmente o pai. Este conflito era marcante na própria vida de Kafka e inspiraria quase toda sua obra.

Sinopse

Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.

Essa transformação de um jovem caixeiro viajante num inseto asqueroso implicará na metamorfose de sua família e da rotina da casa onde mora. Por não conseguir se virar para sair da cama, Gregor se atrasa para pegar o trem e ir ao trabalho, fazendo com que o gerente venha buscá-lo. No entanto, o estado de Gregor é repugnante demais para que ele volte a trabalhar. Sua irmã, muito dedicada, passa a arrumar o quarto de Gregor e a deixar comida para ele, mas o irmão fica confinado a seus aposentos e não interage mais com ninguém (nem sequer consegue falar mais).

O resultado dessa desgraça é que a mãe, o pai e até a adolescente irmã passam a trabalhar para sustentar a família, o que antes era obrigação apenas de Gregor. Nesse processo, o pai Samsa deixa de ser um inválido que mal podia andar e passa a ser um empregado exemplar. Gregor se torna um fardo moral para a família, e em determinado momento abdica de ser aceito pelos outros e aceita sua nova condição, comendo pão estragado (que é a única coisa que lhe apetece o paladar agora) e subindo pelas paredes de seu quarto.

Quando a mãe decide ajudar a irmã a retirar os móveis, agora inúteis, do quarto de Gregor, para que este fique mais à vontade, a sra. Samsa, que até então não havia visto a nova forma do filho, se depara com este na parede, escondendo uma moldura com a imagem de uma mulher, que ele havia recortado de uma revista, único objeto que ele não admitia ser retirado do recinto.

Essa situação desencadeia a chegada do pai ao quarto, que inicia um bombardeio de maçãs sobre o filho e acaba encravando uma fruta atrás da cabeça de Gregor. Este evento representa o clímax da tragédia de Gregor Samsa, fazendo-o retirar-se a um canto de seu quarto e eventualmente desistir da vida e morrer em paz consigo mesmo. Para a família, o fim de Gregor é um alívio e o começo de um próspero futuro, no qual a filha, irmã de Gregor, passará a ser o centro de tudo.

Moralidade familiar, Capitalismo e contradições modernas

A Metamorfose pode ser lida como uma alegoria de diversas angústias humanas recorrentes na vida de qualquer indivíduo. De modo geral, podemos entender a transformação de Gregor como a estigmatização da pessoa que foge das expectativas de seu entorno social. Quando alguém extrapola os limites morais aceitáveis para sua condição socialmente pré-determinada, ele se transforma num monstro e nunca mais será visto da mesma forma pelos outros ao se redor.

Entretanto, os detalhes da fábula de Kafka podem nos remeter mais fortemente a uma crítica das transformações sociais, culturais e econômicas da modernidade industrial. Nesse momento de transição, os valores familiares tradicionais ainda são muito fortes, mas esbarram com as exigências de uma economia implacável cujo objetivo é o enriquecimento dos empresários, às custas do sacrifício de corpos e mentes dos trabalhadores. Neste âmbito, a felicidade da família é atestada pelo sucesso econômico de seus membros.

A relação de Gregor com sua família se constitui numa espécie de parasitismo em que o filho provê tudo à família. Pai e mãe estão desempregados e sem perspectiva de voltar a trabalhar. A irmã adolescente, ainda em formação, se acomoda nessa situação e procrastina sua carreira pessoal. Os valores familiares tradicionais (“tudo à família”) obrigam Gregor a se manter trabalhando para sustentar seus parentes, e ele pouco reclama, reprimindo sua frustração.

Nesse capitalismo emergente, as exigências do mercado são prementes. Um trabalhador não pode se dar ao luxo de se distrair com futilidades que o desviem dos esforços para conseguir lucro, e Gregor comete esse erro ao alimentar, mesmo que apenas por uma noite, pensamentos libidinosos. Ele recorta a foto de uma mulher e a emoldura, tem sonhos intranquilos (talvez tenha dormido pouco por ter se masturbado e sofrido com pesadelos de culpa) e acorda mal, atrasando-se para o trabalho.

Como se já não bastasse a acusação de preguiçoso que viria de seus empregadores, Gregor sofre também o estigma de desnaturado, pois sua indolência representa um prejuízo para a família. As duas máculas promovem sua transformação num pária completo, um inseto monstruoso, proscrito tanto pela moralidade familiar tradicional (seus pensamentos libidinosos também são tidos como uma traição) quanto pela nova ética capitalista.

A superexigência das minorias

Extrapolando a interpretação mais direta apresentada acima, podemos entender a metamorfose de Gregor Samsa como uma metáfora da estigmatização das minorias que tentam se inserir em posições tradicionalmente ocupadas pelos grupos hegemônicos. Se Gregor fosse um negro numa sociedade branca pós-escravocrata, por exemplo, poderíamos imaginar o quanto ele é cobrado pela empresa e pela sociedade, além do tamanho esforço que ele precisa fazer para não incorrer na mínima falta em seu trabalho.

Se por um lado os seus colegas brancos se demoram tomando café da manhã na estação de trem e nem por isso recebem admoestações do contínuo ou do gerente da empresa, Gregor é instado a explicar seu atraso de 15 minutos (na única vez em que ele se atrasou), sob pena de ser acusado de todos os estigmas relacionados aos negros: vagabundo, preguiçoso, inepto, estúpido, depravado etc. Para a família e para a empresa, Gregor cometer um deslize é uma prova de todos os preconceitos atribuídos aos negros, e serve para evidenciar seu status social de “inseto”.

Gregor poderia também ser um homossexual, “praticante” de uma preferência sexual “desviada”, “não-natural”. São marcantes os momentos em que as testemunhas ressaltam a imoralidade da condição do protagonista, a “depravação”, a “vergonha”. Da mesma forma que os negros, os homossexuais numa sociedade homofóbica sofrem com as exigências da heteronormatividade e todas as suas falhas profissionais são atribuídas a sua “escolha” sexual.

Qualquer que seja o grupo minoritário a que pertença Gregor, qualquer que seja a etnia marginalizada, identidade sexual ou de gênero discriminada, sexualidade fora do padrão ou deficiência física menosprezada, ele é vítima de uma cultura que sacrifica seu corpo e sua alma, mumificando-o numa carapaça de quitina e confinando-o a um cubículo-túmulo que permita a sua família esconder, até certo ponto, o motivo de sua vergonha.

Trajetória de um fracassado

O caminho de Gregor através da narrativa de A Metamorfose o leva a um trágico fracasso. Sua condição de inseto é relativamente aceita por ele logo de início, resigna-se como se já estivesse esperando acontecer. Passando por todo o processo de demissão, desprezo pelas empregadas da casa e assunção pela família de que Gregor é um fardo, ele recebe a desaprovação dos três inquilinos que vêm morar na casa, símbolos da conciliação entre sucesso e família (infere-se que são irmãos), o que a família Samsa jamais conseguiria senão depois da morte de Gregor.

A queda de Gregor abala a estrutura de parasitismo na qual ele era sugado e este se torna o parasita. A irmã, a mãe e o pai até há pouco tempo inválido passam a trabalhar, e este último se torna uma figura imponente, o arquétipo do pai poderoso que toma para si as mulheres da casa, a esposa (mãe de Gregor) e a filha (irmã de Gregor), antes sujeitas ao filho. Num simbólico conflito edipiano, Gregor é enfrentado pelo pai, que reivindica o papel de provedor e a “posse” das duas mulheres. Diferente de Édipo e da maioria das histórias que seguem este esquema freudiano, Gregor fracassa diante do pai. A mãe, ao ver o filho ferido, se abraça ao vencedor vestida em trajes sumários.

Samsa remete a Sansão, o nazireu superpoderoso que se tornou um fracassado ao se deixar levar pelo amor de uma mulher. Assim como aconteceu com Gregor, os desejos pessoais de Sansão o levaram à desgraça. O herói hebreu se tornou um escravo dos filisteus, numa condição de total derrota. Mas tanto Gregor quanto Sansão se redimem em suas mortes. Enquanto este se mata junto com seus captores (derrubando as colunas do palácio em que estava e o fazendo ruir sobre todos), aquele renuncia a tudo para que a família se reconstrua feliz, unida como uma família tradicional e bem-sucedida nas modernas relações econômicas.

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Quilombo de Acauã conquista acesso à terra

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[Publicado originalmente na Carta Potiguar N.5 – Maio/2013]

Bolo feito pelos quilombolas de Acauã para comemorar o acesso a suas terras

Bolo feito pelos quilombolas de Acauã para comemorar o acesso a suas terras

O dia 23 de abril de 2013 foi de festa para os quilombolas da Comunidade de Acauã (também conhecida como Cunhã). Na ocasião, o INCRA se imitiu na posse das terras que, a partir do processo de titulação que ocorrerá em breve, serão propriedade definitiva da Comunidade, recuperando um território tradicionalmente ocupado e necessário à sobrevivência do grupo.

Desde décadas antes dos anos 1970, a Comunidade Quilombola de Acauã vivia em relativa paz na margem sul do rio Ceará-Mirim, município de Poço Branco, Rio Grande do Norte. Com a construção da Barragem de Poço Branco, os Negros da Cunhã (como também são conhecidos), perderam todas as suas casas e toda a terra que utilizavam para plantar e sobreviver. Num acordo bastante desfavorável para eles e sem qualquer indenização pela perda, os quilombolas passaram a morar ao norte do rio, longe do lugar a que tradicionalmente pertenciam, num pequeno lote de 4 hectares. As 16 famílias que para lá foram na época se multiplicaram e hoje são mais 60.

Em 2004, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA iniciou o processo de regularização do Território Quilombola de Acauã, dentro das ações do Programa Brasil Quilombola. Um relatório antropológico, realizado pelo professor Dr. Carlos Guilherme Octaviano do Valle, da UFRN, mostrou o histórico de ocupação da comunidade no território e apontou que sua origem remonta a ex-escravos, provavelmente fugidos do cativeiro ou retirantes do pós-Abolição.

Esse estudo justificou o reconhecimento de um território que não apenas abrange as terras anteriormente ocupadas pelos Negros da Cunhã, recuperando o que era seu, mas abarca outras terras necessárias a sua sustentabilidade e existência enquanto grupo étnico. Esse Reconhecimento do Território pelo INCRA ocorreu em 2008.

Porém, a história da Comunidade, do passado até o presente, é mais complexa e conflituosa do que pode parecer para quem leu este artigo até aqui e nunca ouvira falar sobre Acauã. Como grande parte das comunidades rurais negras espalhadas pelo Brasil, Acauã sempre foi marcada pela invisibilidade social. Uma dessas marcas se constata na pesquisa cartorial feita pelo INCRA para averiguar o histórico das propriedades particulares que incidem sobre o Território.

Nas certidões retiradas pelo INCRA, não há qualquer menção a uma comunidade negra ou rural no local onde os quilombolas costumavam morar, às margens do rio Ceará-Mirim. A cadeia dominial da Fazenda Maringá descreve os limites do imóvel, numa época anterior à construção da Barragem de Poço Branco, como abrangendo uma grande extensão de terras que ao norte chega até a margem sul do rio, como se não houvesse ninguém morando ali. Mas as fundações das casas dos quilombolas até hoje ainda podem ser vistas quando o rio está baixo, e a história oral contada pelos anciãos da Cunhã mantém viva a memória desses tempos.

O descaso não diminuiu quando a Comunidade perdeu suas terras para a Barragem, pois não receberam indenização e foram forçados a se espremer em um pequeno retângulo, sem terras boas para plantar, sendo obrigados a arrendar terras de fazendeiros vizinhos, numa situação que ecoa o status quo da Escravocracia.

Além disso, Acauã sempre foi ignorada pela administração municipal local. Numa atitude de extremo racismo institucional, a Prefeitura de Poço Branco não recolhe o lixo da Comunidade com regularidade, dificulta o acesso dos quilombolas ao sistema de saúde e desvia os recursos destinados à educação no Quilombo, recebidos do Governo Federal exclusivamente para cumprir o Programa Brasil Quilombola. Não houve sequer um representante da Prefeitura de Poço Branco na cerimônia de imissão de posse do INCRA.

Não bastassem todas as dificuldades, alguns proprietários cujas terras foram incluídas no território reconhecido tomaram atitudes retaliativas contra a Comunidade, principalmente ao impedir os quilombolas de usar seus imóveis para a agricultura. Um dos proprietários conseguiu se utilizar do desconhecimento de algumas instâncias da Justiça sobre a questão quilombola para anular a desapropriação de sua fazenda, onde justamente se encontram as ruínas da Cunhã Velha. Alguns juizes e desembargadores ainda pensam em quilombo como um conjunto de negros fugidos da escravidão, desconsiderando um conceito atual, usado pelos movimentos sociais e na Academia, que abrange diversas situações de resistência à opressão histórica.

Mas a Comunidade conseguiu se manter de pé até agora, e conquistou o direito de acessar seu território tradicional, com a possibilidade de em breve construir novas casas e articular projetos de beneficiamento para se integrar à economia regional e sair da penúria. A regularização do Território Quilombola de Acauã é uma inegável reparação histórica.

Dona Nazaré assina o mandado judicial de imissão de posse do INCRA no ´Território Quilombola, primeiro passo antes da titulação definitiva

Dona Nazaré assina como testemunha o mandado judicial de imissão de posse do INCRA no Território Quilombola, primeiro passo antes da titulação definitiva

Quem esteve presente na cerimônia de imissão de posse pôde testemunhar o contentamento nas músicas e poemas declamados pelos quilombolas, nas lágrimas dos idosos que vislumbram o retorno de uma vida melhor, na alegria de adultos que encaram novas perspectivas e nos sorrisos de crianças que, talvez sem entender bem do que se trata tudo isso, sentem que algo bom se avizinha.

Acauã é uma comunidade quilombola exemplar, pois representa grande parte dos problemas sofridos pelas diversos grupos rurais marginalizados Brasil afora. Mas é exemplar especialmente porque representa a atitude ideal de uma comunidade étnica racialmente discriminada, buscando seus direitos, transformando sua autoestima e planejando um futuro livre dos grilhões do racismo.

[Na imagem em destaque, Sr. Marino Catarino, um dos anciãos de Acauã, assina como testemunha o mandado de imissão de posse do INCRA no Território Quilombola.]

Marco Feliciano não nos representa?

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(Aviso: este texto não é nenhum pouco uma defesa de Marco Feliciano.)

A eleição pelo PSC do pastor-deputado Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias tem causado grande repercussão por todos os extratos da sociedade brasileira. Raramente se viu algo assim na História recente do Brasil, uma manifestação tão grande nas redes sociais, na mídia e nas conversas, os brasileiros demonstrando seu repúdio a uma figura frontalmente contra os princípios que deveria defender no cargo que ocupa.

O meme mais difundido agora são fotos de internautas segurando um cartaz dizendo: “Marco Feliciano NÃO me representa”, frase geralmente precedida da identificação do fotografado (“Sou gay, sou negro, sou mulher…”). A sociedade está revelando abertamente que não quer um declarado homofóbico, racista, machista e simpatizante da teocracia representando seus direitos.

Mas a verdade é que Marco Feliciano não é um corpo totalmente estranho na sociedade brasileira, que se vê idealmente como inclusiva, multiétnica, antirracista, antissexista, anti-homofóbica etc. Embora estejamos testemunhando uma positiva manifestação contrária à ideologia discriminatória personificada em Feliciano, incluindo até muitos adeptos da religião do referido pastor, o fato é que a maioria de nós ainda não resolveu plenamente seus preconceitos de raça, sexo e gênero.

Nesse sentido, se por um lado Marco Feliciano é o contrário do que queremos para representar a luta pelos direitos humanos e pela igualdade das minorias, ele nos representa sim quanto aos preconceitos e valores que estão sendo tão combatidos por todos nós.

O problema não é ele ser homofóbico, racista e machista. Eu sou homofóbico, racista e machista, a maioria de nós é. O problema real é Feliciano se manifestar publicamente como defensor de uma tradição homofóbica, racista e machista. Ao dizer que a condição de miséria dos negros é resultado de uma maldição milenar, Feliciano deixa implícito que uma política a favor da população negra é dispensável, pois só quem poderia mudar isso é uma força divina. Ao se declarar contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e ser frontalmente contra o PL 122, ele entra em contradição com o ideal materializado na Comissão em questão. Ao atribuir publicamente as “mazelas” contemporâneas à emancipação das mulheres, parece querer reverter conquistas sociais que não deveriam mais ser questionadas.

Entretanto, na verdade Feliciano é a figura de um monstro que ainda existe entre nós e dentro de nós, um reflexo ampliado de algo que ainda não conseguimos extirpar de nossa sociedade nem de nossos âmagos. Mas, enquanto a sociedade em geral está se esforçando para destruir a homofobia, o racismo e o machismo, pessoas como Feliciano estão defendendo ideias homofóbicas, racistas e machistas, trabalhando para difundi-las e tentando evitar que os direitos humanos alcancem sua plenitude.

E não são poucas as pessoas que o apoiam, como revelou uma recente enquete do UOL. Marco Feliciano representa os interesses de uma grande parcela da população brasileira, preocupada em garantir a manutenção de valores conservadores e colocar as crenças bíblicas (próprias de apenas uma parte dos cidadãos brasileiros) acima dos preceitos democráticos constitucionais laicos.

Por esses motivos, faço coro com a sociedade manifestamente contrária à escolha de Feliciano para o papel político que está (ou não) exercendo. Ele é a pessoa errada para presidir a Comissão. Mas ele o é não porque seja preconceituoso, e sim porque é um defensor desses preconceitos. Precisamos de alguém que esteja lutando para superar esses preconceitos (mesmo que essa pessoa os tenha, mas, como eu disse acima, poucos de nós não os têm) e para ajudar a sociedade brasileira a se reeducar, a desconstruir o pior que temos em nós.

O problema é que Marco Feliciano nos representa em nossos valores atávicos e em nossa hipocrisia diária, na negação de nossa herança não-europeia, tanto em nossa biologia (vide a acusação de que Feliciano faz chapinha, não assumindo o crespor de seus cabelos, prática amplamente difundida) quanto principalmente em nossa cultura, nos hábitos alimentares, na língua e, com grande força, na religiosidade. Temos muito de africano em nós, mas boa parte dos cristãos não aceita a presença de terreiros de Candomblé e Umbanda no país.

É justamente porque Feliciano me representa naquilo que eu tenho de pior que eu não o quero na Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Isso não quer dizer que ele me represente em outro sentido mais relevante, pois diferente dele eu estou constantemente tentando vencer meus preconceitos e não sustentá-los. O presidente da Comissão deveria nos representar em nossos anseios democráticos para o futuro, que ainda estamos tentando construir.

Não estou de maneira alguma justificando Feliciano na Comissão. Mas não adianta somente retirá-lo de lá, é preciso também que a sociedade se modifique. E não quero dizer com isso tudo que é bom ter na presidência da Comissão uma pessoa homofóbica, machista e/ou racista. O que não podemos permitir é que esse cargo seja ocupado por um hipócrita estagnado na tradição medieval.

Cabelo ruim

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Foi notícia divulgada nacionalmente o depoimento de Ester Elisa da Silva Cesário, estagiária do Colégio Internacional do Anhembi Morumbi, no bairro do Brooklin, em São Paulo. Ela conta que, no primeiro dia de trabalho, foi chamada pela diretora para receber a “sugestão” de alisar os cabelos, porque seu cabelo “ruim” não condizia com a imagem prezada pela escola. Ester denunciou a demonstração de racismo à Polícia.

A escola se pronunciou afirmando que “tudo não passou de um mal-entendido”, pois se trataria de uma instituição cuja política é inclusiva. A diretora teria apenas recomendado que a estagiária amarrasse o cabelo, prática regulamentada pelo estatuto do colégio. O caso todo causou um grande mal-estar na instituição e manifestações da sociedade, especialmente porque a notícia trouxe à tona o presente tema do racismo no Brasil.
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A evolução do homem branco

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Desde que as teorias sobre a evolução biológica do Homo sapiens começaram a ser elaboradas, tornaram-se comuns os esquemas gráficos que representam os diversos estágios que vão desde os primatas que deram origem aos hominídeos modernos até o ser humano como o conhecemos nos dias de hoje.

A Ciência se guia pelo ideal da objetividade, embora reconheça que a limitação dos sentidos humanos tenha que ser relevada e implique sempre na aproximação da realidade e não em sua pura apreensão. Os valores e pré-noções culturais também marcam a forma como construímos o conhecimento científico e os esquemas evolutivos humanos são exemplos de como as representações do mundo restringem o alcance das representações científicas.

Os esquemas evolutivos do ser humano normalmente mostram o ápice da escala como um homem branco. Daí já tiramos, pela simples pinçagem de duas palavras significativas, que a maioria dos desenhos que representam a genealogia da espécie humana está pintada por um ideal androcêntrico e eurocêntrico. Vejamos o gráfico abaixo, conhecido como A Marcha do Progresso, de autoria de Rudolph Zallinger, na famosa obra Early Man.

Um esquema mais simplificado do diargama acima. Em ordem cronológica: Proconsul sp., Australopithecus afarensis, Homo habilis, Homo erectus, Homo neanderthalensis, Homo sapiens

Esta é uma das inúmeras representações científicas que se podem encontrar e que servem para nos dar uma ideia aproximada de como um primata peludo se tornou um antropoide pelado. Mas quase todos esses esquemas culminam num homem branco, de traços europeus. Isso se justifica em parte pela tradição científica, que herdou diversos esquemas de pensamento do Iluminismo europeu. Os europeus fizeram os primeiros esboços desses esquemas e, portanto, desenharam a si mesmos ali.

Essa justificativa dá ao suposto (por mim) racismo/etnocentrismo dessas representações uma origem relativamente inofensiva, afinal, o homem ali representado poderia ser qualquer um do imenso universo da diversidade humana. Porém, a ideia evolucionista moderna de que a civilização europeia representa o auge da realização humana não deixa de aparecer implícita nessa escala, principalmente se nos lembrarmos de tantas teorias do chamado “racismo científico”, que infelizmente ainda têm muitos adeptos (que muitas vezes nem se dão conta de que o são).

E mesmo considerando o contexto (europeu e androcêntrico) em que se elaborarm esses esquemas (afinal, se um melanésio tivesse desenhado a Marcha do Progresso, seu ápice seria um homem melanésio; se tivesse sido construído numa sociedade ginocêntrica, o ápice da evolução seria uma mulher), eles ainda são, em nossos dias de ideiais mais humanistas, propagados sem modificações, o que implica em efeitos indesejáveis para a democracia moderna.

Evolução branca

Nesse racismo que permeia nossas mentes, que vê, por exemplo, os negros africanos como pertencentes a um estágio anterior ao dos brancos europeus, surgem piadas absurdas como a que se segue:

Imagem de uma publicação “científica” do século XIX (Types of Mankind, de Josiah C. Nott e George Robins Gliddon), que sugeria que os negros são o elo evolutivo entre os brancos e os macacos

Esse gráfico, encontrado alhures na internet, mostra bem a ideia que expus acima. Os africanos são vistos como menos evoluídos do que os europeus, do que os norte-americanos e do que os asiáticos. São ainda hoje apelidados, em muitos contextos, de “macacos”. A pilhéria acima, curiosamente, evoca certas ilustrações do século XIX, que representavam o racismo científico da época (como o desenho ao lado).

Num estudo publicado em 2008 por um grupo de psicólogos de duas universidades norte-americanas, foi averiguada a presente e constante representação dos negros como mais próximos dos primatas e menos próximos da humanidade do que os brancos.

Essa pré-noção, que durante alguns séculos serviu para justificar a escravidão de africanos, se alia a uma visão dos negros como parecidos fisicamente com os primatas. Tendo em vista que os chimpanzés e gorilas, os antropoides mais conhecidos e mais próximos da espécie humana, têm pêlos negros (e no caso dos gorilas também a pele negra), a associação imediata entre pessoas de pele escura e macacos nos faz pensar numa proximidade evolutiva.

Mas é bom salientar que os humanos em geral são parecidos com os macacos, e há traços nos humanos brancos que os aproximam mais dos chimpanzés do que os humanos negros (como os pêlos mais abundantes, a pele clara, as narinas bem visíveis e os lábios finos). Um esquema como o desenho ao lado mostra que é preciso forçar a barra para sustentar as teses racistas. Neste caso, o artista se vale da cor escura das duas figuras inferiores para aproximá-las; as dos dois homens são caricaturais, uma na forma do ideal grego e outra exageradamente bruta; além disso, vê-se que o crânio do negro foi propositalmente inclinado para se parecer mais com o do chimpanzé.

Provavelmente, num contexto histórico diferente, em que os negros tivessem colonizado e escravizado os brancos, estes seriam vistos como mais próximos dos primatas do que os negros, e jogadores de futebol como Kaká e Cristiano Ronaldo poderiam receber bananas de presente das torcidas racistas.

A ideia de que o branco representa o humano normal, sendo os outros tipos considerados meras variações secundárias, é tão forte que até numa história em quadrinhos de Jornada nas Estrelas (Star Trek), franquia conhecida por veicular ideais libertários, a reproduz de maneira sub-reptícia e quase despercebida. No quadrinho abaixo, retirado da revista Klingons: Herança de Sangue (IDW/Devir, 2008), vê-se um klingon (uma das espécies alienígenas do universo de Star Trek) sofrendo uma brutal cirurgia plástica para se parecer com um humano, o que inclui ter sua pele “clareada”.

“Jornada nas Estrelas – Klingons: Herança de Sangue” (Devir, 2008, p. 35)

O que deixa implícita a exclusão de diversas cores que caracterizam os grupos humanos, que variam desde um tom escuro quase negro, passando por uma pele avermelhada e morena até tons brancos e propriamente pálidos. O klingon em questão poderia muito bem passar por um ser humano sem precisar clarear sua pele.

Evolução masculina

Uma paráfrase de uma ilustração vista acima, mostrando a mulher no lugar do homem

Outra pré-noção presente na “marcha do progresso” é a de que o ser humano é basicamente macho, tendo a fêmea um papel secundário na espécie. Quase todos os desenhos mostram um homem no auge da escala e seus antepassados também são todos machos. Os desenhos que representam a mulher são em geral feitas a partir dos desenhos androcêntricos já consolidados ou, em muitos casos, são paródias.

Mas vemos na imagem ao lado que os primeiros estágios são idênticos aos do modelo masculino que lhe serviu de base, ignorando inclusive que outras espécies de mamíferos são tão dimórficas quanto os humanos.

Pensando nisso, o artista Tom Rhodes concebeu o desenho abaixo, que mostra a evolução dos dois sexos humanos, mostrando também o dimorfismo nos estágios anteriores ao Homo sapiens.

“A evolução do homem… e da mulher”

Essa é uma perspectiva interessante e mais aberta quanto à questão de gênero. Mas se voltarmos ao racismo discutido acima, vemos que os dois últimos exemplos ainda são eurocêntricos, mostrando mulheres e homens brancos no final da evolução. Vemos nesta última ilustração que o Homo sapiens usa roupas que remetem à vida na Europa, como se o ser humano tivesse surgido lá e não na África.

De qualquer modo, a mulher ainda não aparece como protagonista na história evolutiva humana. Mesmo neste último exemplo, os rostos de algumas de nossas antepassadas está oculto e elas sempre aparecem em segundo plano, exceto no último estágio. Mas mesmo neste a mulher meio que parece estar mais próxima da primitividade, com menos roupas do que o homem, imagem que reproduz a ideia sexista de que os homens são mais racionais (e portanto mais humanos).

A placa da Pioneer

O papel coadjuvante da mulher na representação da espécie humana é tão marcado que até mesmo a mensagem das sondas espaciais Pioneer 10 e 11, lançadas ao espaço pela NASA, que deveria ser a mais objetiva possível, mostra o ser humano macho na posição de representante, enquanto a mulher ao seu lado assume a postura de um papel secundário. Além disso, essa imagem não mostra o ser humano em sua diversidade, pois os traços são europeus (embora, em termos práticos, seja bem provável que uma espécie elienígena não vá perceber isso, os humanos podem ser todos iguais para ela).

No senso comum, em nossa cultura e em muitas outras mundo afora, homens e mulheres costumam ser encarados como duas espécies diferentes. É muito mais comum percebermos e salientarmos as diferenças (pensadas como irreconciliáveis) do que as semelhanças que nos tornam uma espécie única. Isso pode ser notado em algumas charges anedóticas que utilizam como base a Marcha do Progresso. Fica subjacente a ideia de que a evolução do gênero feminino segue uma rota alternativa em relação ao masculino.

Considerações finais

Se, por um lado, as representações da evolução humana segundo os gêneros valorizam as diferenças entre estes, esquecendo as semelhanças, as representações com cunho racista deixam de reconhecer a diversidade fenotípica humana. Mas as duas coisas estão misturadas, e elas ficam mais explícitas nesta elaborada ilustração de Milo Manara:

Clique na imagem para ampliá-la

Neste esquema, o homem da Europa, com origens na Mesopotâmia, é o protagonista. A mulher aparece desde o início até o fim como coadjuvante da história, normalmente tratada como mercadoria e/ou objeto sexual. Além disso, os povos ameríndios e asiáticos só aparecem em episódios da história humana em que houve contato significativo e impactante deles com o Ocidente.

É certo que se podem encontrar marchas do progresso que fogem meis ou menos das pré-noções racistas e sexistas. Algumas das paródias até contêm elementos de crítica. Porém, as mais bem-humoradas e interessantes permanecem reproduzindo sub-repticiamente o racismo androcêntrico.

Retomamos a postura dos primatas

Como disse Winston Churchill, “os porcos são os únicos animais que nos olham de igual para igual”

Toda a tecnologia visa ao conforto humano

Evolução incompleta

Humanos são macacos

Poluímos e causamos danos a nós mesmos

Ainda há quem não dê valor às evidências…

Este texto é dedicado a Dyego Saraiva, que me deu a ideia de escrevê-lo.

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Sobre as ilustrações

Todas as imagens usadas neste texto foram copiadas da internet. Quando possível, atribuí os créditos devidos, mas não arrogo propriedade de nenhuma dessas ilustrações. Façam-me o favor, portanto, de não dizer que essas imagens são minhas, caso queiram copiá-las para usar em outros sítios da rede.

Quanto ao texto, se quiserem copiar e compartilhar, fiquem à vontade. Agradeço se citarem a autoria, e podem até não citar, mas jamais digam que o texto é de outra pessoa.

Obrigado.

Desumanização

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De vez em quando surge uma notícia sobre jogadores de futebol negros que sofrem ofensas raciais mundo afora. Via de regra, essas ofensas comparam os jogadores com macacos, reproduzindo o velho preconceito de que certos grupos humanos são menos evoluídos do que outros, até mesmo menos humanos.

Um estudo feito em 2008 por pesquisadores de Psicologia da Universidade de Stanford mostrou que ainda é muito presente a associação que aproxima negros de macacos. De 2008 para cá, nada parece ter mudado. A seguir, reproduzo uma matéria do site ScienceDaily, traduzida do inglês, que descreve as condições em que foi feita essa pesquisa e seus resultados.

Discriminação Contra Negros Está Ligada A Desumanização, Conclui Estudo

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Grotescas representações históricas de afro-americanos como simiescos podem ter desaparecido da cultura mainstream norte-americana, mas nova pesquisa revela que muitos norte-americanos inconscientemente associam negros com macacos. (Crédito da Imagem: cortesia da Universidade de Stanford.)

ScienceDaily (8 Fev. 2008) — Desenhos históricos grotescos de afro-americanos parecidos com macacos podem ter desaparecido da cultura mainstream norte-americana, mas uma pesquisa apresentada num novo artigo por psicólogos em Stanford, Universidade do Estado da Pensilvânia e Universidade de Califórnia-Berkeley, revela que muitos americanos associam inconscientemente os negros com macacos.

Além disso, os achados mostram que a sociedade está mais propensa a autorizar a violência contra suspeitos criminais negros, o que resulta de sua ampla dificuldade de aceitar afro-americanos como plenamente humanos, de acordo com os pesquisadores.

A co-autora Jennifer Eberhardt, professora adjunta de psicologia em Stanford, que é negra, disse que ficou chocada com os resultados, particularmente porque envolveram sujeitos nascidos depois de Jim Crow e o movimento dos direitos civis. “Este foi realmente um dos trabalhos mais deprimentes que fiz”, ela disse. “Isso me abalou. Você tem suspeitas quando faz o trabalho – intuições – você antevê os resultados. Mas foi difícil me preparar para aceitar quão forte [a associação negro-macaco] era – como nós pudemos encontrá-la em todas as situações.”

A pesquisa levou oito anos na estadual de Stanford e Penn, sob a supervisão de Eberhardt. Envolveu especialmente graduandos homens brancos. Numa série de estudos que subliminarmente mostrava faces de negros e brancos numa tela por uma fração de segundo, para “preparar” os estudantes, pesquisadores descobriram que os sujeitos podiam identificar desenhos borrados de macacos mais rapidamente depois de ser “preparados” com rostos negros do que com rostos brancos.

Os pesquisadores descobriram consistentemente uma associação negro-macaco até quando os jovens adultos diziam que não sabiam nada sobre suas conotações históricas. A conexão era feita somente com rostos afro-americanos; o terceiro estudo do artigo não conseguiu encontrar uma associação com macacos em outros grupos não-brancos, tais como os asiáticos. A despeito destas descobertas especificamente raciais, os pesquisadores afirmaram que a desumanização e o imaginário animal têm sido usados através dos séculos para justificar a violência contra muitos grupos oprimidos.

“A despeito da oposição hegemônica ao racismo, a discriminação permanece entre nós”, Eberhardt disse. “Afro-ameticanos ainda são desumanizados; ainda somos associados com macacos neste país. Essa associação pode levar pessoas a endossar o espancamento de supeitos negros por policiais, e penso que há muitas outras consequências a ser reveladas”.

Antecedentes históricos

O racismo científico nos Estados Unidos foi promovido graficamente num livro da metade do século XIX, escrito por Josiah C. Nott e George Robins Gliddon, intitulado Types of Mankind (Tipos da Humanidade), que usava ilustrações deturpadas para sugerir que os “negros” eram o elo entre os “gregos” e os chimpanzés. “Quando temos uma história assim neste país, não dá para saber quanto disso já foi erradicado completamente, especialmente considerando que ainda lidamos com sérias desigualdades raciais, que alimentam e mantêm essas associações de uma forma da qual as pessoas não se dão conta”, disse Eberhardt.

Embora tais caracterizações históricas dos afro-americanos tenham amplamente desaparecido da sociedade mainstream norte-americana, Eberhardt notou que a educação científica poderia ser parcialmente responsável por reforçar a visão de que os negros são menos evoluídos do que os brancos. Uma ilustração icônica de 1970, “A Marcha do Progresso”, publicada no livro da Time-Life Early Man (O Homem Primitivo), representa a evolução começando com um chimpanzé e terminando com um homem branco. “Trata-se de um legado de nosso passado que o ponto final da evolução seja o homem branco”, disse Eberhardt. “Não penso que seja intencional, mas quando as pessoas aprendem sobre evolução humana, elas saem com uma noção de que as pessoas de descendência africana estão mais próximas dos macacos do que pessoas de descendência europeia. Quando se pensa numa pessoa civilizada, um homem branco vem à mente”.

Consequências da violência socialmente aceita

No quinto estudo do artigo, os pesquisadores subliminarmente prepararam 115 graduandos, todos homens brancos, com palavras associadas tanto com macacos (tais como “mico”, “chimpanzé”, “gorila”) ou grandes felinos (tais como “leão”, “tigre”, “pantera”). As últimas foram usadas como elemento de controle, pois ambas as imagens são associadas a violência e à África, disse Eberhardt. Os sujeitos então assistiram a um vídeo de dois minutos, similar a um programa de TV policial, mostrando vários policiais espancando violentamente um homem de raça indeterminada. Um retrato falado de um homem negro ou um homem branco era mostrado no começo do vídeo para indicar quem estava sendo espancado, com uma descrição afirmando que, apesar de descrito por sua família como “um marido e pai amável”, o suspeito tinha uma séria ficha criminal e poderia estar drogado no momento da prisão.

Pedia-se aos estudantes que avaliassem quão justo era o espancamento. Os participantes que acreditavam que o suspeito era branco eram mais propensos a apoiar o espancamento quando eram preparados com imagens de macacos ou de felinos, disse Eberhardt. Mas aqueles que pensavam que o suspeito era negro eram mais propensos a justificar o espancamento se tivessem sido preparados com palavras relacionadas a macacos do que com palavras relacionadas a felinos. “Juntando tudo, isso sugere que o conhecimento implícito de uma associação negro-macaco levou a diferenças marcantes nos julgamentos dos participantes sobre suspeitos criminais negros”, escreveram os pesquisadores.

De acordo com os autores do artigo, esta ligação tem consequências devastadoras para afro-americanos porque ela “altera a percepção e atenção visual, e aumenta o encorajamento à violência contra suspeitos negros”. Por exemplo, o sexto estudo do artigo mostrou que, em centenas de notícias de 1979 a 1999 do Philadelphia Inquirer, afro-americanos acusados de crimes capitais tinham seis vezes mais chances do que brancos acusados dos mesmos crimes de ser descritos com termos relacionados a macacos, como “bárbaros”, “feras”, “brutos”, “selvagens” e “animalescos”. “Aqueles que são implicitamente retratados como mais parecidos com macacos nestes artigos têm mais chances de ser executados pelo Estado do que aqueles que não são”, escreveram os pesquisadores.

O caminho daqui para a frente

A despeito das descobertas do artigo, Eberhardt disse ser otimista quanto ao futuro. “Este trabalho não afirma que não houve progresso ou que estamos vivendo na mesma sociedade que existia no século XIX”, disse ela, “progredimos muito nas questões raciais, mas deveríamos reconhecer que a discriminação racial não está morta. Ainda precisamos ficar atentos a isso e a todos os diferentes meios pelos quais [o racismo] pode nos afetar, a despeito de nossas intenções e motivações para ser igualitários. Ainda temos trabalho a fazer”.

Para Eberhardt, duas histórias de raça existem nos Estados Unidos, “uma é sobre o desaparecimento da discriminação – de como ela não está mais entre nós”, disse ela. “Mas a outra é sobre a transformação da discriminação. Não é mais aquela discriminação horrível, mas uma discriminação moderna, uma discriminação sutil”. Com ambas as histórias, ela disse, há um entendimento de que a sociedade caminhou para além das batalhas históricas centradas na raça. “Nós queremos dizer, com esse trabalho, que há uma velha batalha racial que ainda estamos lutando”, disse ela. “É a batalha para que os negros sejam reconhecidos como plenamente humanos”.

Jennifer Eberhardt ganhou o Stanford University Dean’s Award por essa pesquisa.

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