Xógum: A Gloriosa Saga do Japão

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Xógum: A Gloriosa Saga do Japão (Shōgun), escrito em 1975 pelo autor inglês James Clavell, é uma semificção que conta a história do daimio Toranaga em sua escalada ao xogunato, na transição entre os séculos XVI e XVII. Este personagem é na verdade uma ficcionalização de uma figura história do Japão, Tokugawa Ieyasu. Ao mesmo tempo, a história acompanha a trajetória do navegador  Blackthorne (uma referência ao explorador inglês William Adams) em sua viagem às terras nipônicas.

Sinopse

John Blackthorne, piloto de uma embarcação chamada Erasmus, desembarca (depois de quase naufragar) numa vila costeira ao sul do Japão. Junto com uma tripulação de holandeses, ele é feito cativo pelo líder da aldeia e tem o navio confiscado, com tudo o que há dentro dele. O senhor daquela província, Kasigi Yabu, pretende utilizar o navio e as armas de fogo dos navegantes numa guerra para dominar o Japão e se tornar xógum, ou seja, um regente secular subjugado apenas ao imperador (este, considerado descendente dos deuses, tem apenas poder simbólico).

Blackthorne é usado por Yabu para ajudá-lo a utilizar os instrumentos de guerra ocidentais que agora tem à disposição, mas seus planos são frustrados pela intervenção de seu suserano, o daimio (espécie de senhor feudal no Japão medieval) Yoshi Toranaga, que toma para si a embarcação e todo o armamento dos holandeses, assumindo ele mesmo os planos de guerrear contra o Conselho de Regentes, com o fim de se tornar xógum e garantir a segurança do herdeiro do trono, que ainda é uma criança.

Na trajetória dessa trama repleta de intrigas, traições e manipulações, Blackthorne acaba se tornando conselheiro de guerra de Toranaga, adquirindo o título de hatamoto (e, por definição, também samurai). O inglês aproveita essa chance para ganhar os favores do daimio e conseguir uma tripulação japonesa para atacar o Navio Negro português daquele ano (uma espécie de navio comercial de carga), frustrar os planos mercantis dos lusitanos e espanhóis e ao mesmo tempo diminuir a influência dos ibéricos sobre o comércio japonês. Este é apenas um detalhe de um tenso conflito entre, por um lado, ingleses e holandeses (protestantes) e, por outro, portugueses e espanhóis (católicos), que permeia a narrativa.

Mas nesse caminho Blackthorne se apaixona por sua intérprete, a samurai Toda Mariko, que fala idiomas ocidentais e é uma convertida ao Catolicismo. A relação entre os dois se intensifica com as lições de língua japonesa e sobre a cultura japonesa, e Blackthorne cada vez mais se acultura, acostumando-se com banhos frequentes, quimonos, chás e a comida frugal dos nativos. Ele e Mariko acabam tendo um envolvimento romântico intenso, e é a partir dessa relação íntima que várias reviravoltas ocorrerão na trama, tanto para Toranaga e seus vassalos quanto para o navegador inglês.

Aspectos literários

William Adams, fonte de inspiração para John Blackthorne

William Adams, fonte de inspiração para John Blackthorne

Este romance possui uma narrativa envolvente. Um dos motivos para isso é a complexidade com que Clavell constrói seus personagens. Ele é genial quando se trata de apresentar cada uma das figuras que compõem o palco dessa história, e é sempre possível antever como aquele personagem vai se encaixar e se comportar na história. Um exemplo é a apresentação de Toranaga. Em sua primeira aparição, ele está cuidando de um machucado na pata de um de seus falcões de caça, com extremo zelo e atenção, enquanto seu falcoeiro, em cuja mão enluvada repousa a ave, a segura. Com o tempo, descobrimos que o papel de Toranaga na trama é de um exímio falcoeiro de pessoas, manipulando cada uma das peças do seu lado do tabuleiro de xadrez.

Isso torna os personagens extremamente coerentes e verossímeis. Além disso, o narrador sempre apresenta ao mesmo tempo seus comportamentos e seus pensamentos, bem como a atitude mental de cada um deles ao escrutinar seus interlocutores. Esse escrutínio mútuo e constante caracteriza o denso clima de intriga da obra, em que muitas vezes, mesmo tendo uma relativa onisciência sobre a intimidade dos personagens, ocorrem reviravoltas, decisões inesperadas e resultados surpreendentes.

Essa facilidade de sabermos o que um personagem pensa se contradiz com a dificuldade de sabermos suas reais intenções, mas há um aspecto da cultura japonesa explorado na obra que explica porque isso ocorre. Aquilo que Mariko chama de “cerca óctupla” é uma disciplina mental, baseada nos ensinamentos budistas, pela qual a pessoa separa seus pensamentos e memórias em compartimentos mentais. As diferentes situações exigem que o indivíduo acesse compartimentos específicos, o que leva, por exemplo, Toranaga a quase acreditar na sua autorrendição forjada, que é na verdade um engodo para executar um plano de ataque e um golpe de estado.

Uma das qualidades mais reconhecidas de Xógum é o nível de detalhamento com que Clavell descreve a cultura material japonesa, bem como os costumes, hábitos e valores da hierarquizada sociedade nipônica medieval. Ele se aprofunda de tal maneira nessa espécie de etnografia literária que consegue brincar com possíveis choques culturais, mal-entendidos e ruídos de comunicação advindos das diferenças entre, por um lado, o inglês e seus tripulantes holandeses e, por outro, os japoneses. No meio de toda essa intriga, também têm papel de relativo destaque os portugueses e espanhóis católicos, cujos interesses são contrários aos dos representantes das nações protestantes.

Uma obra relativista

É justamente nesse encontro de culturas que vemos aquilo que considero o aspecto mais interessante da obra de Clavell: sua capacidade de tratar com relativismo as diferenças culturais dos personagens e povos que encenam as páginas do livro. A noção de barbarismo x civilização, por exemplo, não tem sentido absoluto em Xógum. Ocidentais consideram os japoneses fedorentos assim como estes não suportam o cheiro daqueles. De um ponto de vista ocidental contemporâneo higienista, isso parece estranho, já que os europeus da época em que se passa a história não costumam tomar banho, enquanto os japoneses são extremamente asseados, banhando-se constantemente.

Criam-se situações de constrangimento utilizando as diferenças alimentícias, como o fato de o inglês gostar de carne vermelha preparada com fogo enquanto os japonese praticamente só comem peixe cru. Chega-se ao limite quando um cozinheiro, designado para servir Blackthorne, considera inviável suportar ver uma carcaça de ave apodrecendo, que o inglês esquecera pendurada para cozinhar depois, e não consegue evitar sentir vergonha por ter jogado a carcaça fora e falhar com seu senhor, o que o leva a se suicidar.

Mas talvez não tenha havido constrangimento maior do que o sentido por Blackthorne quando Mariko pediu que ele lhe contasse sobre os hábitos de “travesseiro” dos ocidentais. Para ela e para outras duas mulheres que estavam presentes, não havia nenhum pudor em falar publicamente sobre sexo, mas o puritanismo dele o fez se sentir desconfortável. Sem entender a razão dessa timidez, Mariko disse a ele que, se ele quisesse “travesseirar”, poderia arranjar uma mulher disposta. Diante da recusa, ela o deixa ainda mais transtornado, fazendo-o se enfurecer, ao perguntar se ele preferiria um garoto. E então é ela quem se enraivece (embora sua disciplina lhe permita não demonstrar isso) diante da forma rude com que ele responde.

Mas eventualmente o inglês e sua intérprete têm um caso amoroso, no qual cada um ensina e aprende muito sobre o outro e sobre sua cultura. Mariko aprende a noção de amor romântico (o que não pode ser visto aqui como uma típica história eurocêntrica colonialista em que o ocidental “ensina” a nativa que a relação conjugal não precisa se dar através de um casamento arranjado), mas continua valorizando a importância do casamento como acordo entre famílias, como meio de se estabelecer alianças. Mas, se ela não deixa de se sentir feliz por compartilhar sua paixão com o inglês, de um modo como nunca havia sentido por outro homem, ele também aprende uma lição valiosa com ela, o desapego quanto à vida, permitindo-o aceitar a morte dela como necessária para o bem de todos.

O tema da intimidade revela também muito das diferenças entre as duas culturas sobre as relações entre homens e mulheres. Para Blackthorne, a princípio, parecia que as japonesas tinham sua liberdade extremamente  restringida. Mas Mariko entendia o contrário, que elas tinham tanta liberdade quanto os homens, embora cada gênero tivesse deveres diferentes. O fato é que tanto as situações que Blackthorne presencia ali quanto as lembranças sobre sua própria esposa na Inglaterra revelam as desigualdades sexistas em ambas as sociedades.

Gravura ukiyo-e de um guerreiro prestes a cometer seppuku

Gravura ukiyo-e de um guerreiro prestes a cometer seppuku

Particularmente incompreensível ao piloto inglês é a noção de honra que perpassa todas as castas da sociedade nipônica. Para ele é difícil entender a importância que os japoneses dão à ordem hierárquica e ao conjunto social. Qualquer ameaça a essa ordem, mesmo que seja uma pequena insubordinação, deve ser severamente punida, às vezes com a morte, para que o grupo não se  desagregue. E daí advém uma postura profundamente resignada diante da morte, que os japoneses encaram com uma tranquilidade trágica. Se em determinado momento Blackthorne fazia de tudo para evitar a morte, sua, de seus companheiros e de sua amada, em sua transformação em samurai ele passa a aceitar tudo como contingência do carma.

As crenças de todos também são relativizadas, não colocando o autor nenhum dos credos em posição privilegiada em relação aos outros. Se em um momento o Protestantismo, encarnado na figura de Blackthorne, parece se sobrepor ao Catolicismo dos inimigos do piloto inglês, em outro vemos a bela cena de uma missa católica ao ar livre, ministrada por um padre a apenas uma mulher. O xintoísmo e o budismo japoneses também aparecem como formas significativas de interpretar, ver e viver o mundo. A noção de carma, extremamente valorizada pelos japoneses, é absorvida por Blackthorne em sua transformação em nativo, e a expressão “Carma, né?”, repetida exaustivamente por ele, imitando seus anfitriões, quase substitui completamente qualquer menção à vontade do deus cristão do qual é devoto.

O sagrado, na forma como é encarado por cada um dos personagens, é respeitado por Clavell em sua importância subjetiva e transcendente em relação ao mundo profano das maquinações e politicagens. Enquanto toda a trama é permeada por interesses políticos, econômicos e carnais, que atingem todos os personagens sem exceção, a última esperança de harmonia (ua) é depositada no carma budista, na vontade dos deuses xintoístas ou na providência do Deus cristão.

Seja quanto à higiene, aos hábitos alimentares, à sexualidade, à religião, aos valores ou a qualquer outro aspecto cultural, todas as culturas no romance são tratados friamente por Clavell, que deixa os julgamentos etnocêntricos apenas nos pensamentos e bocas dos personagens, o que revela mais ainda de suas respectivas culturas. Cada cultura tem significado completo para seus respectivos membros, e podemos entender os motivos de cada um se comportar segundo a moral de seu próprio povo, sem necessariamente concordar com ela.

No entanto, talvez um dos maiores méritos de Clavell dentro de sua postura relativista seja a quebra de paradigma quanto ao papel do europeu estrangeiro em terras extraeuropeias. Diferente da figura colonizadora que se intromete em assuntos “indígenas” para tutelar os nativos e ajudá-los em suas lutas (nem uma aventura interplanetária como Avatar escapou desse esquema), Blackthorne é quem é usado pelo chefe nativo Toranaga para executar seus planos, e no final a história, “a gloriosa saga do Japão”, inicialmente centrada no navegador europeu, é realizada pelos japoneses e para os japoneses.

Links

  • Xógum (livro) – Wikipédia

Nota pós-texto

Existe uma minissérie homônima de 1980, baseada no livro, Confiram o trailer.

Ignorância ou religião?

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Silas Malafaia defende o que acredita com unhas e dentes. Segundo ele, seu trabalho é apenas condenar o pecado. Pecado esse que ele acredita ter sido definido na Bíblia. Ele refere-se à homossexualidade (não homossexualismo, pois esta nomenclatura deixa subentendido que se trata de uma doença) juntamente com prostituição e adultério. Afirma repetidamente que dois homens ou duas mulheres não têm capacidade para criar um ser humano “normal”, que uma criança necessita de uma figura paterna e outra materna para o seu desenvolvimento. Ao comentar que em sua Igreja existem fiéis que foram homossexuais (não concordo com isso de dizer que a pessoa foi gay, para mim é uma característica dela, algo que ela nunca vai deixar de ser) ele fez uso do termo “reorientado”, como se a homossexualidade fosse um distúrbio, um mau hábito que o indivíduo abandonou.

Onde está a ironia nisso tudo? No fato de ele pregar que Deus ama a todos como realmente são. Então por que Deus não aceitaria o fato de um ser, criado por Ele, ser homossexual? Capaz de amar alguém do mesmo gênero, querer constituir família com essa pessoa?

Eu acredito que a base de todas as religiões é a mesma: praticar o bem. Buscar ser uma pessoa melhor, sem prejudicar ninguém. Tudo bem que Silas e tantas outras pessoas são contra práticas homossexuais porque isso é da religião delas. O problema é o modo como o tema é abordado. Isso acaba influenciando negativamente pessoas que não têm uma boa formação acadêmica, que não possuem a mente aberta. Em outras palavras, isso as enche de preconceito.

O grande mal é a mania que muitas pessoas têm de ligar homossexualidade a safadeza, baixaria. Não é bem assim que a coisa funciona.

E quanto à Bíblia? Ela sim é muito mal interpretada. Não é algo que você lê e deve seguir fielmente, sem buscar a mensagem que Jesus passava através de suas parábolas, por exemplo. Sem falar que ao longo do tempo e das inúmeras traduções pelas quais ela passou, muita coisa se perdeu ou não foi expressa de forma clara.

Basicamente, eu penso o seguinte: o gênero da pessoa com quem você se relaciona não afeta o seu caráter. Não faz você melhor nem pior do que alguém. É algo seu, íntimo, pessoal. Não é preciso que alguém chegue e diga que é errado, ninguém pode julgar. Ninguém sabe o que você passou.

Na entrevista, eles abordam o tema durante o segundo bloco, num bate-boca que demonstra obviamente o quão Silas gosta de impor a sua opinião e crença.

Prometheus

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Prometheus (2012)Título original: Prometheus

Direção: Ridley Scott

País: EUA

Ano: 2012

Sinopse

O muito esperado Prometheus (2012), de Ridley Scott, prometida “prequência” de Alien: O Oitavo Passageiro (1979) – embora Scott tenha declarado que o filme não deve ser encarado como uma “prequência” -, trouxe a história de uma busca pelas origens da humanidade, tendo como mote as ideias que tornaram célebre o escritor Erich von Däniken.

Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) são dois cientistas em busca dos “Engenheiros” que criaram a vida na Terra e que supostamente deixaram mensagens sobre sua localização, em diversos locais do planeta que à época do filme são sítios arqueológicos. Suas teorias chamam a atenção de Peter Weyland (Guy Pearce), empresário ancião e bilionário, e este financia uma expedição ao local indicado pelos antigos “mapas”, na esperança de descobrir uma tecnologia que o permita prolongar sua vida.

No processo de exploração das ruínas alienígenas, os humanos da nave Prometheus (Prometeu, o deus grego que deu o fogo – e consequentemente o poder –  aos humanos e foi punido por Zeus) se deparam com estranhas formas de vida alienígena e com contágios que quase acabam com a missão. Esta tem fim apenas quando um dos “Engenheiros” é reanimado e, aparentemente, tenta viajar à Terra para destruí-la. De uma tripulação de mais de sete pessoas, só sobrevivem Shaw e o androide David (Michael Fassbender), que partem ainda em busca da origem dos supostos criadores da vida na Terra.

Abrindo a obra

Esse resumo da trama não explicita os elementos interessantes nem os pontos fracos da obra. O filme está impregnadíssimo da carga genética herdada de Alien e suas sequências, por mais que Scott tenha tentado ou negado. Isso implica tanto num apelo aos admiradores da “outra” franquia quanto numa previsibilidade advinda de uma fórmula não-original. Vamos aos detalhes.

Em primeiro lugar, Prometheus é uma história sobre a curiosidade humana, a busca científica pela verdade, a perscrutação filosófica das origens. O caráter mítico e místico de ideias fantásticas como as de Däniken em seu Eram os Deuses Astronautas? seduz o espectador com a promessa de uma descoberta fundamental.

Não é à toa que a nave da expedição se chama Prometeu, um dos símbolos ocidentais do humanismo e da autonomia humana perante o poder opressor dos deuses. Porém, nisso reside ao mesmo tempo a esperança e a danação da tripulação. Ou seja: por um lado, a presunção de “brincar” com a vida traz consequências drásticas; por outro lado, a busca revela (ou insinua) certas verdades inconvenientes sobre os supostos “criadores”, que não são os deuses bondosos que se imaginava.

Há então uma mensagem filosófica ambígua. Aparecem, sub-repticiamente, ideias ateístas, quando se observa que o “Criador” não é necessariamente bom, e talvez não haja um Criador absoluto. Weyland, que trouxe à vida David, é inescrupuloso, mas o androide o obedece cegamente, como os profetas fazem, sem questionar as razões ou os métodos daquele que lhe dá ordens. É assim que cristãos, por exemplo, justificam as atitudes antiéticas de Deus pelo argumento de que há um motivo justo por trás de tudo.

Da mesma forma, o “Engenheiro”, imaginado como um ser virtuoso e moralmente evoluído, não é mais do que um humanoide com seus próprios interesses. E, apesar de tudo, vemos a doutora Shaw, movida pela fé, voar atrás de uma resposta mais reconfortante, mesmo com a probabilidade de se arrepender amargamente. Não fica claro, assim, se Scott pretendia exaltar a fé num ideal ou apontar os riscos de uma ideologia míope.

David

Os melhores momentos do filme são encenados por David, o androide a serviço de Weyland. O personagem lembra todo o drama de outros robôs da ficção, como seu xará de A.I.: Inteligência Artificial, WALL-E e Data de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração.

David aprende variados conhecimentos em sua viagem solitária (enquanto os humanos dormem em hibernação induzida), como Super-homem em sua Fortaleza da Solidão, aprendendo com os pais virtuais. Quando a tripulação acorda à chegada ao destino da missão, o androide precisa o tempo todo suportar o desprezo dos humanos que o consideram uma coisa. Este é sempre o problema, em histórias sobre robôs, de se programar um ser artificial para simular perfeitamente um ser humano, pois ele sempre será percebido como um arremedo de pessoa, mas, por outro lado, também está programado para agir como uma pessoa agiria diante de atitudes discriminatórias e vilipendiosas.

Entretanto, tendo características humanas, David se sente superior pelo que é capaz de fazer além do que um ser humano faz. Além disso, ele se orgulha de empreender a missão de que foi incumbido por seu criador, e essa talvez seja sua pequena vingança pelo desprezo e desconfiança dos tripulantes de carne e osso. Além de ser o único no qual Weyland confia (mais até do que na própria filha), ele tem o privilégio de já conhecer seu deus, enquanto os humanos estão perdidos atrás do seu.

Prometheus e Alien

  • Em toda a quadrilogia Alien, o principal vilão/antagonista é sempre a companhia Weyland. Ou seja, a ganância exploratória cujos intentos passam por cima de qualquer ética.
  • Como em Alien, há um androide representando os interesses desumanos da companhia. Como em Alien e Aliens, o androide é destroçado mas continua funcionado, servindo ainda a algum propósito na narrativa.
  • A heroína é a única sobrevivente humana e a que mais sofre com a tensão e o terror dos monstros a bordo. Ela até tem uma cena seminua que muito lembra Ripley no final de Alien.
  • A visão do salão com os cilindros dentro da nave alienígena remete inevitavelmente à câmara de ovos/casulos de Alien, e é de onde sai o contágio que dá origem ao monstro.
  • Uma equipe de “figuras”, com suas idiossincrasias e diferenças. No entanto, os personagens das trupes de Alien, Aliens, Alien 3 e até Alien: A Ressurreição são bem mais marcantes e redondos do que os de Prometheus.

É claro que nem tudo é clonagem. Há elementos novos, especialmente o tema central do filme, a busca pelos primórdios, pelas origens, pela criação da humanidade, e a presença de uma raça alienígena inteligente como um dos antagonistas (os xenomorfos da série Alien são mais instintivos e animalescos).

Porém, algumas novidades deturparam um pouco a temática suscitada pela espécie alienígena dos filmes anteriores. Minha perspectiva a respeito dos xenomorfos, que estrelou os 4 filmes da franquia Alien e da sequência de 2 Alien vs. Predador, sempre foi a de que se tratava de um ser vivo pertencente a um ecossistema alienígena, muito diferente do nosso. Um predador-parasita (cujo complexo ciclo reprodutivo-vital se justificaria pelo equilíbrio, afinal, os predadores são sempre menos numerosos do que as presas) que, em contato com o Homo sapiens, trouxe um sério problema de incompatibilidade ecológica.

O “alien” da franquia anterior a Prometheus não é um monstro maligno, mas um animal fora de seu habitat (ou seria o próprio humano o alienígena deslocado de seu ambiente natural), como os coelhos levados à Austrália por colonizadores, resultando numa praga e na devastação da vegetação local.

Prometheus destrói toda essa ideia, sugerindo que os xenomorfos são na verdade originários de um espermatozoide humano mutante, resultado de um experimento genético, que extraordinariamente já nasceu com toda a complexidade fisiológica, morfológica e filogenética que vemos nas histórias protagonizadas por Ellen Ripley.

Enfim, ao desconstruir a premissa interessante de Alien, Prometheus traz mais do mesmo estereótipo do alienígena que só pode assumir um de dois papéis opostos: o de deuses astronautas bondosos, inspirados nas mitologias em que seres superiores são um reflexo das virtudes que queríamos ter, ou bárbaros invasores frutos de um imaginário xenofóbico e belicista.

Ameaça à Psicologia laica

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O Conselho Federal de Psicologia proíbe os psicólogos de emitir opiniões ou tratar a homossexualidade como transtorno. Mas o deputado João Campos (PSDB-GO) apresentou um projeto legislativo que visa a permitir que psicólogos tentem curar a homossexualidade dos pacientes que assim desejarem. O Conselho criticou esse projeto, lembrando que suas normas éticas procuram combater a intolerância.

Essa questão veio à tona motivada pela recente polêmica protagonizada pela “psicóloga cristã” Marisa Lobo, que usava sua profissão para aplicar conceitos religiosos contrários à perspectiva hegemônica na ciência Psicologia, tentando curar homossexuais de sua “doença” e contrariando a ética do Conselho Federal de Psicologia.

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Catequese no Estado laico

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O governo de Ilhéus, Bahia, instaurou uma lei municipal que obriga os alunos das escolas públicas do município a rezar o Pai Nosso antes das aulas. Os 13 vereadores da cidade aprovaram a “Lei do Pai Nosso” por unanimidade e o prefeito a sancionou no dia 12 de dezembro de 2011. A ideia dessa norma no mínimo controversa saiu da cabeça do Vereador Alzimário Belmonte (PP), evangélico da Igreja Batista que, como tantos políticos incompetentes Brasil afora, não compreende o que é Estado laico.

Essa tentativa de cristianizar o Estado brasileiro não é a primeira nem a mais séria. Felizmente, vivemos numa época em que a imposição teocraticista encontra forte resistência da sociedade civil secularista. Neste sentido, a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) ingressou no Ministério Público da Bahia contra a lei, argumentando sua inconstitucionalidade, tendo em vista que viola a liberdade de crença dos estudantes.

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Liberdade e livre-arbítrio – parte 2

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A restrição da liberdade é condição sine qua non da própria vida humana em sociedade. Se não fosse o refreamento dos impulsos vitais, por exemplo, os conflitos interpessoais quase sempre terminariam em derramamento de sangue ou morte. Se as pessoas fossem totalmente desimpedidas para expressar o que pensam, qualquer discordância se tornaria uma troca de insultos, xingamentos e ataques verbais preconceituosos, desperdiçando-se a oportunidade do debate de ideias. Se não fosse a cultura, enfim, não seríamos humanos.

Esse refreamento deveria se tornar uma prática consciente, parte de uma autocrítica constante, norteada pela razão e por uma noção realmente libertária da liberdade. Esta só tem sentido como valor social quando se aplica a todos igualmente, e isso necessariamente significa que, paradoxalmente, nem tudo é permitido numa sociedade livre.

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Liberdade e livre-arbítrio – parte 1

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É por parte de cristãos de diversas denominações que mais se ouvem queixas reacionárias perante críticas dirigidas ao Cristianismo, manifestações pelos direitos dos LGBTs e reivindicações pela efetiva laicidade do Estado. Quando uma boa quantidade de pessoas critica o comportamento de evangélicos que transformam uma cabine do metrô numa barulhenta sessão de pregação, com direito a possessões divinas e diabólicas, alguns evangélicos sentem que se trata de uma repressão a sua crença. É difícil que algo assim não provoque calorosas discussões na internet.

Recentemente a direção do Hospital Regional do Agreste, em Caruaru, Pernambuco, proibiu as práticas de pregação e oração por parte de visitantes nas enfermarias. Nada mais é do que um ato de bom senso e compreensão da necessidade de os vários pacientes repousarem e se recuperarem de procedimentos médico-cirúrgicos. Pastores se sentiram oprimidos em sua liberdade de culto, como se a pregação fosse mais importante do que a liberdade e a saúde de outras.

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As micaretas de Cristo

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Uma coisa as manifestações religiosas perderam com o passar dos anos: a solenidade. Se era preciso mostrar ao mundo ou aos próximos a fé que se sentia, isso costumava ser feito com certa cerimônia e serenidade. As pessoas davam à exposição da fé o tom solene que as promessas de salvação e conduta requeriam. Hoje, o que mais se percebe é uma carnavalização da fé e da religiosidade.

As cidades estão cheias do que se poderia chamar de micaretas de Cristo: são carros de som, trios elétricos, bandas, palanques e fogos anunciando a salvação e a presença de Deus no meio da rua. O que antes era solenidade, hoje é balbúrdia e alarde, como acontece nas outras manifestações carnavalescas.

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Por que divulgar o Ateísmo

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O livro Deus, um Delírio, de Richard Dawkins, traz como ideia básica, antes de simplesmente argumentar que a crença em Deus é uma ilusão e justificar o Ateísmo, principalmente encorajar os ateus ou os propensos ao Ateísmo a não terem medo de expressar suas ideias num mundo em que a religião ainda parece possuir um status intocável. Os cristãos parecem perpetuar as palavras atribuídas a Jesus, depois de ressucitar e ser abordado por Maria Madalena: “noli me tangere!”

Conversando com amigos sobre o livro de Dawkins, falamos sobre a postura religiosa de alguns ateus, que pregam a inexistência de Deus como um dogma a ser divulgado e pretendem converter outras pessoas. Mas penso que há um grande benefício em se divulgar ideias do Ateísmo, e digo isso não só porque sou ateu (também por isso), mas pelos motivos que exponho abaixo.

Debate intelectual

A primeira razão, mais óbvia (ao menos para mim), para se divulgar o pensamento ateísta é a abertura para o debate intelectual.

Vivemos numa cultura onde a religião exerce grande influência na vida social, cultural e política, e é muito difícil para aqueles que professam o Ateísmo expressarem o que pensam sobre Deus e deuses sem correrem o risco de sofrerem discriminação e preconceito. Muitas pessoas assumem que falar sobre a possibilidade de não existir Deus é maléfico, e há pouco espaço para que o ateísmo entre de forma justa nos debates sobre religião, crença, moral e temas correlatos.

Sem a divulgação das ideias ateístas, os teístas perdem a oportunidade de pensar sobre os pontos frágeis de suas crenças, o que permitiria rever traços obsoletos e arcaicos de nossa mentalidade e de nossos costumes. Os ateus, por outro lado, perdem a oportunidade de receberem críticas relevantes dos teístas, o que lhes possibilitaria evitar equívocos e contradições na construção do pensamento ateísta.

Ciência

Normalmente o Ateísmo é adotado por cientistas, que, por causa dessa mesma Ciência, fortalecem a convicção de que a existência de Deus é improvável.

Cientistas preocupados com a divulgação do pensamento científico, como Carl Sagan e Richard Dawkins, muitas vezes se deparam com o questionamento (seja de outros, seja a si mesmos) sobre a existência de Deus (tema muito relevante para nossa cultura cristã). E normalmente expressam a visão comum na Ciência mais séria de que é mais provável que Deus não exista do que o contrário.

Assim, geralmente as discussões dos ateístas tocam as razões científicas para se justificar a improbabilidade da existência de Deus. Por isso, a divulgação do Ateísmo tem como consequência e vantagem a divulgação concomitante da Ciência, tanto dos seus conhecimentos atuais quanto, principalmente, do modo científico de abordar a realidade.

É claro que essa vantagem da divulgação do Ateísmo só é apreciada por quem valoriza minimamente a Ciência.

Status epistemológico

É uma falácia o argumento corrente segundo o qual a religião tem o mesmo valor que a Ciência enquanto crença/conhecimento. É como se fosse apenas uma questão de escolha: alguns acreditam na religião, alguns na Ciência, e ambos acham que estão certos. Portanto, não se pode dizer que religiosos estão mais certos do que cientistas e vice versa. Conclui-se, então, que se trata apenas de uma escolha entre opções com valor equivalente.

Mas não é assim. Há diferenças cruciais entre as epistemologias da religião e da Ciência. A começar pelo status do saber veiculado por cada uma das correntes. A religião tende a cristalizar esse saber, assumindo-o como dogma, verdade revelada, imutável. Enquanto a Ciência, por mais evidências que tenha sobre uma teoria que sustenta, está pronta a, no momento em que surgem mais evidências, revisá-la, modificá-la, ajustá-la, reformulá-la ou até refutá-la completamente. Isso está na essência do que é a Ciência.

O que não impede a existência de religiosos mais abertos à mudança ou de cientistas com postura dogmática, mas são exceções aos fundamentos de cada uma destas correntes do saber humano.

A Ciência não tem evidências suficientes para provar a existência/inexistência de Deus. Até onde sabemos, é muito mais provável que ele não exista, pois praticamente qualquer fenômeno que se atribua à sua existência tem explicações alternativas. Assim, pelo princípio científico, uma vez que há mais evidências contra a existência de Deus, é cientificamente plausível assumir sua inexistência.

Antiautoritarismo

Normalmente, a crença em Deus ou em deuses está ligada à ideia de que se deve obedecer à autoridade sacramentada em seu nome, seja a ele mesmo, seja aos sacerdotes de sua religião, seja a governantes. A não ser para os deístas (que, diferente dos teístas, consideram que Deus não intervém na vida humana), a crença em Deus pressupõe limitações à vida humana, mais do que a liberdade. Lembrando Bakunin, “se Deus existisse, seria preciso aboli-lo”.

Por isso, o Ateísmo é importante no âmbito político da vida humana, pois abraça uma crítica ao autoritarismo e a qualquer forma arbitrária de dominação. Trata-se de um posicionamento ético.

Dessa forma, mesmo que se provasse que existe um Deus onipotente que demanda obediência, uma mente Ateísta questionaria essa obediência cega. Se esse Deus é tão bom, a razão leva a crer que ele queira para suas criaturas tanta liberdade quanto a que ele mesmo tem. Da mesma forma que temos que renunciar à tendência natural humana a não falar e aos impulsos destrutivos, para poder nos comunicar de forma complexa e vivermos solidariamente, precisaríamos, na hipótese de esse Deus existir, renunciar à posição submissa em relação a ele.

Ética

Muita gente usa as palavras Ateísmo, ateu, ateia etc. com conotação negativa. Há quem afirme que a negação da existência e Deus é uma falha de caráter e que os tementes a Deus são naturalmente mais propensos a ser pessoas boas do que os que duvidam da existência da divindade.

Herdamos um conjunto de livros consagrados a que é atribuído status de verdade absoluta revelada e que tem servido, ao longo da história do ocidente desde a Idade Média, como suposta fonte de ensinamentos morais, como manancial de preceitos para toda a moral humana.

Isso leva grande parte das pessoas a crer que a aceitação (ou a negação) da Bíblia deve ser absoluta. Ou seja, aqueles que rejeitam a existência de Deus como algo relevante para a humanidade estariam automaticamente despojados de qualquer tendência a uma mente e um comportamento éticos. Porém, a ética não vem só da Religião, mas está presente no pensamento de muitos filósofos e cientistas, muitos dos quais não-teístas, desde a Antiguidade até a Idade Moderna.

Estamos caminhando para um mundo cada vez mais aberto às diferenças, e entre essas diferenças está a religiosidade, tão diversa e variada. Mas ainda há quem considere que a divulgação do Ateísmo é prejudicial, por supostamente ferir as crenças da pessoas religiosas. Esquece-se que as próprias religiões, cuja divulgação é muito incentivada e quase nunca impedida, são muitas vezes fonte do mesmo tipo de intolerância. Basta assistir a uma missa do canal de TV Canção Nova para ouvir um sermão afrontando o Candomblé ou o Espiritismo.

Também há quem tema que a divulgação do Ateísmo vai fazer mais pessoas se tornarem ateias. É como aquele medo de que os filhos de pais homossexuais tenham mais chance de se tornarem homossexuais. Ou seja, o preconceito justifica o preconceito.

Na Europa, tem havido há algum tempo uma campanha para expor mensagens ateístas em espaços que também são usados para propagandas de igrejas. Muita gente não gostou. É o caso do cartaz para ônibus que ilustra este texto: que diz:

Provavelmente não existe Deus. Agora pare de se preocupar e vá aproveitar sua vida.

Se descobríssemos provas inequívocas e irrefutáveis de que Deus não existe, será que essas pessoas que acreditam tão ferrenhamente na fonte divina da ética passariam a fazer todo tipo de mal sem se preocupar com as consequências? Acho que não. Há muitos cristãos que são bandidos, com santos tatuados no corpo. E há muitos ateus que fazem trabalhos assistenciais altamente altruístas.

A humanidade tem plena capacidade de desenvolver e ajustar seus preceitos éticos para viver em harmonia consigo mesma, como vem tacanhamente fazendo ao longo de sua história.

A luta para salvar Deus

Padrão

A recente visita do Papa Bento XVI à Inglaterra trouxe à tona a atual, recorrente e insistente tentativa das igrejas cristãs de questionar o valor da Ciência e reabilitar a Religião, tão “esquecida” e “menosprezada” nos dias atuais. Numa reunião de líderes religiosos na St. Mary’s University College, Strawberry Hill, na parte sudoeste de Londres, o papa interveio no debate sobre a origem do Universo, alegando que a Ciência não pode explicar o “sentido definitivo” da existência humana.

Afirmando que as ciências nos apresentam uma “inestimável compreensão” de aspectos de nossa existência, o papa afirma que elas não conseguem responder à pergunta fundamental: “por que existimos?” Toda a argumentação do papa para “desqualificar” a Ciência no papel de “dar sentido à vida” e a suposta necessidade de a Religião assumir esse papel se baseiam em pressupostos discursivos que escondem falácias lógicas.

Papa Bento XVI

Em primeiro lugar, o discurso supostamente conciliador que busca colocar lado a lado a Ciência e a Religião se revela uma tentativa de subordinar aquela a esta. Ao dizer que as ciências nos trazem uma “compreensão inestimável de aspectos da existência”, o papa está usando um eufemismo para dizer que nenhum conhecimento sobre o mundo, por mais acurado e útil que seja, é suficiente para nos trazer felicidade, ou seja, que qualquer conhecimento científico é dispensável. O que não é dispensável, segundo ele, é o desejo humano de dar sentido à vida, o que, para ele, só pode ser feito satisfatoriamente pelas religiões (especialmente, é claro, a religião cristã em sua versão católica).

Veja mais um trecho do discurso de Bento XVI:

They cannot satisfy the deepest longings of the human heart, they cannot fully explain to us our origin and our destiny, why and for what purpose we exist, nor indeed can they provide us with an exhaustive answer to the question ‘Why is there something rather than nothing?

[Elas [as ciências] não podem satisfazer os mais profundos desejos do coração humano, elas não podem nos explicar completamente nossa origem e nosso destino, por que e para que propósito existimos, nem certamente podem nos prover uma resposta exaustiva à pergunta ‘por que existe algo ao invés de nada?’]

Este trecho condensa várias armadilhas lógicas. A primeira é que o pressuposto da necessidade de se dar sentido à existência e a ideia de que a falta desse aspecto à Ciência é uma falha. A tarefa da Ciência nunca foi dar sentido à existência, não da forma como uma perspectiva transcendente do mundo o faz. Concordo com o papa em que a Ciência por si mesma não oferece nenhum sentido fundamental à existência, nenhum elã transcendente que torne o cru Universo algo mais do que ele próprio (como o olhar brilhante de uma criança viva que se diferencia do olho de um robô – por mais perfeitamente que este seja feito para replicar uma criança).

O discurso do papa gira em torno de Religião e Ciência. Ou seja, ao negar à Ciência o papel de dar sentido à vida, a sardinha pula automaticamente para o seu lado, como se a Religião fosse a única e óbvia candidata para responder às “questões fundamentais”. No entanto, um pouco de erudição e conhecimento de mundo é suficiente para sabermos que existem muitos meios que não as diversas e díspares religiões para dar sentido à existência, como a Poesia, a Filosofia, a Mitologia, e que dentro dessas várias formas de saber, há inúmeras possibilidades, dependendo do contexto histórico e cultural que busquemos.

De fato, desde que começou a existir neste planeta, o ser humano deu início (e jamais parou) à produção de milhares de sentidos para a existência. Seja recorrendo a estórias para explicar os fenômenos naturais, seja atribuindo ao Universo uma alma única que dá coesão ao todo, seja concebendo o tempo como um ciclo que faz tudo retornar ao início eternamente, o Homo sapiens nunca deixou de criar sentido para o mundo, e é improvável que qualquer cientista, por mais ateu que seja, não tenha ele mesmo uma concepção do universo que o imbui de significado, mesmo que este seja a busca pelo conhecimento ou o bem que este pode trazer à humanidade. O que não é um sentido menos valioso para ele do que Deus é para um cristão.

Ao colocar a pergunta “por que existe algo ao invés de nada?”, o papa pretende automaticamente legitimar a explicação bíblica para a existência do Universo, ou seja, a criação deste por Deus. Mesmo considerando que essa pergunta possa, entre outras possibilidades, ser respondida: “porque é assim que o Universo é”, a solução religiosa parece ser para o discurso do papa um caminho óbvio. No entanto, a resposta bíblica se mostra em muito incompatível com a Ciência, pois fala de uma entidade cuja existência pode ser dispensada da explicação astronômica, uma entidade que a História mostra ter aparecido no imaginário humano em um determinado contexto histórico-cultural e que não é a única alternativa teológica no vasto mundo antropológico, havendo inúmeras explicações religiosas na face da Terra, algumas contraditórias entre si.

Outra falácia comum na defesa da Religião como complemento necessário à Ciência é a necessidade de valores morais, o que estaria ausente de uma visão puramente científica do mundo:

Never allow yourselves to become narrow. The world needs good scientists, but a scientific outlook becomes dangerous and narrow if it ignores the riches or ethical dimensions of life. Just as religion becomes narrow if it rejects the legitimate contribution of science to our understanding of the world.

[Nunca se permitam tornar-se estreitos. O mundo precisa de bons cientistas, mas uma visão científica se torna estreita se ela ignorar as riquezas ou a dimensão ética da vida. Assim como a religião se torna estreita se rejeitar a legítima contribuição da ciência ao nosso entendimento do mundo.]

É comum os autodeclarados ateus serem repreendidos pelos crentes com a afirmação de que é preciso crer em Deus para ser uma boa pessoa. O papa defende que sem a Religião os cientistas não têm como se garantir quanto aos seus valores morais. Assim como quanto ao “sentido da vida”, o discurso católico apresenta apenas uma alternativa de fonte de valores éticos: a Religião.

Da mesma forma que a Ciência pura não dá por si mesma um “sentido para a existência”, ela não oferece um sentido de ética, apenas provê conhecimento sobre o Universo. Porém, temos valores morais em nossa cultura que estão presentes em nossas condutas cotidianas e que não estão vinculadas direta nem necessariamente à Religião.

Além disso, temos na história do pensamento universal o desenvolvimento profundo de estudos sobre a Ética fora da esfera religiosa. Se ficarmos só na Filosofia, temos um universo de autores e obras, Aristóteless, Espinoza, Nietzsche, Confúcio, entre muitos outros, que mostram a capacidade de se elaborar um intenso senso ético baseado nas necessidades humanas e não em necessidades divinas.

Apesar de tudo, é papel do sumo pontífice vender seu peixe e seu pão (e tentar multiplicá-los desesperadamente). O mundo católico já não é mais o mesmo, ainda bem, e o cabeça da Igreja Católica recorre às crenças cristãs mais básicas para fisgar “de volta”, com argumentos escusos, o maior número possível de cordeiros para seu rebanho. De outro lado, cientistas e entusiastas da Ciência devem permanecer atentos para não ceder tão facilmente aos pressupostos, tidos por muitos como sabedoria, de que o ser humano precisa da Religião e de que é necessária a integração entre esta e a Ciência.

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