Star Wars, cinema, representatividade e inclusão

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As palavras que compõem o título deste texto estão, em teoria, mais ligadas entre si do que pode aparentar à primeira vista, mas na prática elas estão desanimadoramente dissociadas.

Star Wars é uma grande franquia cinematográfica hollywoodiana que trouxe à tona uma tipo de história que estava de certa forma desacreditado: as grandes narrativas épicas e fantásticas. Esse tipo de aventura tem como característica, mais do que as maravilhosas cenas de ação e viagens fabulosas, o fato de se centrar em um herói improvável, uma figura que acaba mostrando ser muito mais do que aparenta ser. Luke Skywalker é exatamente o mesmo arquétipo de Páris de Troia, Jesus Cristo de Nazaré, Bilbo Bolseiro de Bolsão. Um “ninguém” que não acredita em si mesmo mas se torna um herói.

Durante muito tempo, a saga Star Wars foi protagonizada por personagens que representam os tipos humanos privilegiados nas sociedades ocidentais. Luke Skywalker era pobre e vivia à margem da sociedade galáctica, mas era um homem branco, cisgênero e heterossexual (embora este último aspecto só fique implícito num beijo incestuoso…), com o qual era mais fácil de se identificarem os jovens espectadores do sexo masculino, cisgêneros e heterossexuais. Dos outros dois personagens principais, Han Solo caía no mesmo estereótipo de Luke, e só Leia Organa se diferenciava por ser mulher, mais nada.

Representatividade

Felizmente, J. J. Abrams (que, ironicamente, ao assumir Star Trek, uma franquia com forte potencial para representar a diversidade, a fez regredir neste quesito) está radicalizando esse aspecto de Star Wars, colocando nos papéis de maior destaque do Episódio VII: O Despertar da Força, uma mulher e um homem negro. Essa escolha repercute positivamente nas mentes dos espectadores (mesmo que essa repercussão se dê através de um desagradável incômodo para machistas e racistas), pois se tratam de duas minorias em nossa realidade, o que enriquece o sentido da jornada do herói como a empreitada maravilhosa de um ou mais indivíduos menosprezados socialmente (seja, num caso, pelo machismo, seja pelo racismo, no outro).

Nisso o filme promete ser um belo exemplo de representatividade na indústria do entretenimento, ao ampliar o escopo do público que pode se identificar mais facilmente com heróis notáveis em histórias fantásticas. Os meios de comunicação de massa têm grande impacto sobre o grande público e a sociedade ocidentais, e a representatividade tem enorme peso sobre a auto-estima das pessoas e suas perspectivas de futuro.

Acessibilidade

Na verdade, a representatividade de O Despertar da Força está sendo amplamente discutida e o que eu estou trazendo aqui não é nenhuma novidade. Porém, o ponto a que quero chegar é outro. Representatividade está relacionada, direta ou indiretamente, a acessibilidade. Ora, houve um tempo nos EUA em que, além de estarem excluídos do protagonismo em peças de teatro e obras cinematográficas, os negros estavam segregados dos brancos em diversos espaços, públicos ou privados, e geralmente os espaços reservados às “colored people” eram de pior qualidade do que aqueles voltados às pessoas brancas. Essa segregação, embora tenha sido proibida por lei, deixou marcas até hoje. (No Brasil, o racismo se manifestou de outras formas, mas seus efeitos são muito semelhantes.)

As transformações sociais que afetam a balança da igualdade dos gêneros também encontram correspondências entre a crescente representatividade das mulheres nas mídias e as conquistas de direitos igualitários pelo Feminismo. Hoje em dia, as mulheres têm acesso ao voto democrático e a cargos de chefia, embora ainda haja muito pelo que lutar para que as elas sejam tratadas como seres humanos plenos.

Pessoas com dificuldades de locomoção, com deficiências físicas e sensoriais e outras inadequações a uma sociedade feita para indivíduos “saudáveis” (que têm um certo tipo idealizado de corpo), ao mesmo tempo em que não conseguem se adequar bem a certos espaços e tecnologias, também são sub-representadas nas mídias. Nisso elas passam por uma situação análoga à dos negros vítimas da segregação racial, pois sofrem por causa do capacitismo (estando assim – talvez não-intencionalmente – segregados) e pela pouca representatividade de pessoas com deficiência na ficção (literatura, quadrinhos, cinema, séries de TV etc.).

Não bastassem as dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência numa sociedade que a muito custo se adapta à diversidade de corpos, surge um problema maior para quem tem deficiência visual (miopia, estrabismo, cegueira parcial, visão monocular, vista cansada e outras). O crescente abuso do “3D” nos filmes hollywoodianos, com muitas estreias sendo feitas apenas com cópias que só podem ser assistidas com o uso de óculos especiais, exclui boa parte do público dos cinemas e provoca grande incômodo para outra parte.

“3D” e exclusão

Eu comecei essa reflexão a partir de mim. Tenho visão monocular, i.e. só enxergo pelo olho esquerdo (e mal). Não consigo ver a “tridimensionalidade” dos filmes “3D” (aliás, tenho até dificuldade de perceber a dimensão da profundidade no mundo físico real). Já fui a algumas sessões de filme em “3D” e consigo assistir em “2D” quando coloco os óculos (como um dos olhos não enxerga uma das imagens superpostas, fico apenas com uma delas), com o agravante de ver tudo escuro, devido à obscuridade da lente. Nas primeiras vezes em que fiz isso, eu escolhi as sessões em “3D” por conveniência social, por estar em companhia de outras pessoas que queriam ver os filmes com esse recurso.

Mas me cansei de pagar mais caro por um serviço de que não posso usufruir. Tudo bem, cada um escolheria a sessão que gostaria de ver, os filmes eram oferecidos em duas versões, e cada um pagaria o preço “justo” pela presença ou ausência desse recurso da moda, por quaisquer razões que fossem (impossibilidade de ver em três dimensões ou desagrado com tal recurso). Mas não por muito tempo.

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Quando a indústria cinematográfica descobriu que poderia lucrar muito mais se oferecesse apenas sessões em “3D” nas estreias das superproduções, pessoas como eu passaram a ser excluídas da experiência de ver um filme novo nos cinemas. Apesar disso, em muitos casos os cinemas ofereceriam uma sessão “2D” dublada, excluindo o espectador que prefere ouvir no idioma original (o que rende outra discussão).  Na melhor das hipóteses, teríamos que esperar algumas semanas para que os cinemas oferecessem sessões em “2D” e legendadas. Muitas vezes, teríamos que recorrer à pirataria virtual sem nenhum remorso ou esperar anos para ver o filme na TV ou em sistemas de streaming como o Netflix.

Com o tempo, conversando com amigos na internet e pesquisando sobre o assunto, descobri que não são apenas pessoas com visão monocular que se prejudicam com o monopólio do “3D” nas estreias. Pessoas com estrabismo e pessoas com miopia em um dos olhos e outro não também não enxergam as três dimensões ilusórias desses filmes. Além disso, muitas pessoas reclamam de sentir a vista cansada, dor de cabeça e/ou enxaqueca depois de uma sessão de filme “3D”, e prefeririam assistir a sessões em “2D” dos filmes que querem tanto ver.

Esse é um contingente significativo dos cinéfilos, excluído de seu hobby, sua paixão, sua mania ou até de seu trabalho por causa da preocupação maior da indústria do cinema com o lucro do que com o público. O que não é surpreendente, tendo em vista aquilo que move o capitalismo do qual essa indústria é uma significativa engrenagem.

Star Wars

A franquia Star Wars está melhorando significativamente quanto à representatividade da diversidade humana. Mas a preocupação com a maior visibilidade de mulheres e negros em papéis de destaque, tornando mais premente a acessibilidade dessas minorias aos espaços públicos e privados de uma sociedade mais igualitária, ainda não consegue perceber que a mania do “3D” está indo na contramão desse movimento. É irônico pensar que uma das figuras mais icônicas da saga era uma pessoa com deficiência física (Darth Vader teve as duas pernas e os dois braços amputados, e ainda sofreu queimaduras seriíssimas que o obrigaram a usar para o resto da vida uma armadura cibernética com membros mecânicos e suporte vital).

Fui comprar meu ingresso para Star Wars VII: O Despertar da Força na pré-venda, e todas as salas na semana de estreia no Cinépolis serão em “3D”. Paciência… Fui então ao Cinemark, e a situação é a mesma. Procurei no site do Moviecom, o cinema que menos prefiro aqui em Natal, e vi que haverá uma sala com cópia em “2D” – mas será dublada, e para mim a experiência de escutar as falas no idioma original é muito melhor (…como disse acima, um outro problema, para outra discussão).

A indústria cinematográfica está tornando menos acessível o entretenimento daqueles que há muito tempo são fãs da franquia e que, mesmo considerando essas críticas, certamente contribuiriam com resenhas logo na semana da estreia, se tivessem ao menos uma sessão “2D” para não perder a grande festa nerd que será essa bem-vinda renovação do universo dos jedis, de alienígenas pitorescos e de tecnologias nostálgico-futuristas de há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante. Um mundo que não precisa ser projetado com mais de duas dimensões na telona, pois sua profundidade está na maravilhosa fábula que se dispõe a contar.

Marco Feliciano não nos representa?

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(Aviso: este texto não é nenhum pouco uma defesa de Marco Feliciano.)

A eleição pelo PSC do pastor-deputado Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias tem causado grande repercussão por todos os extratos da sociedade brasileira. Raramente se viu algo assim na História recente do Brasil, uma manifestação tão grande nas redes sociais, na mídia e nas conversas, os brasileiros demonstrando seu repúdio a uma figura frontalmente contra os princípios que deveria defender no cargo que ocupa.

O meme mais difundido agora são fotos de internautas segurando um cartaz dizendo: “Marco Feliciano NÃO me representa”, frase geralmente precedida da identificação do fotografado (“Sou gay, sou negro, sou mulher…”). A sociedade está revelando abertamente que não quer um declarado homofóbico, racista, machista e simpatizante da teocracia representando seus direitos.

Mas a verdade é que Marco Feliciano não é um corpo totalmente estranho na sociedade brasileira, que se vê idealmente como inclusiva, multiétnica, antirracista, antissexista, anti-homofóbica etc. Embora estejamos testemunhando uma positiva manifestação contrária à ideologia discriminatória personificada em Feliciano, incluindo até muitos adeptos da religião do referido pastor, o fato é que a maioria de nós ainda não resolveu plenamente seus preconceitos de raça, sexo e gênero.

Nesse sentido, se por um lado Marco Feliciano é o contrário do que queremos para representar a luta pelos direitos humanos e pela igualdade das minorias, ele nos representa sim quanto aos preconceitos e valores que estão sendo tão combatidos por todos nós.

O problema não é ele ser homofóbico, racista e machista. Eu sou homofóbico, racista e machista, a maioria de nós é. O problema real é Feliciano se manifestar publicamente como defensor de uma tradição homofóbica, racista e machista. Ao dizer que a condição de miséria dos negros é resultado de uma maldição milenar, Feliciano deixa implícito que uma política a favor da população negra é dispensável, pois só quem poderia mudar isso é uma força divina. Ao se declarar contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e ser frontalmente contra o PL 122, ele entra em contradição com o ideal materializado na Comissão em questão. Ao atribuir publicamente as “mazelas” contemporâneas à emancipação das mulheres, parece querer reverter conquistas sociais que não deveriam mais ser questionadas.

Entretanto, na verdade Feliciano é a figura de um monstro que ainda existe entre nós e dentro de nós, um reflexo ampliado de algo que ainda não conseguimos extirpar de nossa sociedade nem de nossos âmagos. Mas, enquanto a sociedade em geral está se esforçando para destruir a homofobia, o racismo e o machismo, pessoas como Feliciano estão defendendo ideias homofóbicas, racistas e machistas, trabalhando para difundi-las e tentando evitar que os direitos humanos alcancem sua plenitude.

E não são poucas as pessoas que o apoiam, como revelou uma recente enquete do UOL. Marco Feliciano representa os interesses de uma grande parcela da população brasileira, preocupada em garantir a manutenção de valores conservadores e colocar as crenças bíblicas (próprias de apenas uma parte dos cidadãos brasileiros) acima dos preceitos democráticos constitucionais laicos.

Por esses motivos, faço coro com a sociedade manifestamente contrária à escolha de Feliciano para o papel político que está (ou não) exercendo. Ele é a pessoa errada para presidir a Comissão. Mas ele o é não porque seja preconceituoso, e sim porque é um defensor desses preconceitos. Precisamos de alguém que esteja lutando para superar esses preconceitos (mesmo que essa pessoa os tenha, mas, como eu disse acima, poucos de nós não os têm) e para ajudar a sociedade brasileira a se reeducar, a desconstruir o pior que temos em nós.

O problema é que Marco Feliciano nos representa em nossos valores atávicos e em nossa hipocrisia diária, na negação de nossa herança não-europeia, tanto em nossa biologia (vide a acusação de que Feliciano faz chapinha, não assumindo o crespor de seus cabelos, prática amplamente difundida) quanto principalmente em nossa cultura, nos hábitos alimentares, na língua e, com grande força, na religiosidade. Temos muito de africano em nós, mas boa parte dos cristãos não aceita a presença de terreiros de Candomblé e Umbanda no país.

É justamente porque Feliciano me representa naquilo que eu tenho de pior que eu não o quero na Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Isso não quer dizer que ele me represente em outro sentido mais relevante, pois diferente dele eu estou constantemente tentando vencer meus preconceitos e não sustentá-los. O presidente da Comissão deveria nos representar em nossos anseios democráticos para o futuro, que ainda estamos tentando construir.

Não estou de maneira alguma justificando Feliciano na Comissão. Mas não adianta somente retirá-lo de lá, é preciso também que a sociedade se modifique. E não quero dizer com isso tudo que é bom ter na presidência da Comissão uma pessoa homofóbica, machista e/ou racista. O que não podemos permitir é que esse cargo seja ocupado por um hipócrita estagnado na tradição medieval.