Da amizade – parte 1

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Quando adolescente, inventei uma definição de amizade para valorizá-la e diferenciá-la de outros tipos de relações mais brandas, como as de colequismo e de camaradagem. Amizade, para mim, era definida por uma troca mútua de amor e respeito. Sem respeito mútuo, poder-se-ia ter amor, namoro, relação de parentesco, mas não amizade. Sem amor mútuo, teríamos uma relação formal e respeitosa entre colegas, mas não amizade.

Sem a mutualidade do respeito, haveria uma relação desigual, e sem a mutualidade do amor, só se veria a adoração unilateral. Eu nem sequer conseguia  conceber que alguém pudesse chamar de amor um sentimento que não fosse correspondido. E me deixou desapontado que Susan Ivanova dissesse, diante do cadáver de seu sempiterno admirador Marcus, cujos avanços sempre rejeitou: “Não existe amor correspondido”.

Naquela época, havia pouquíssimas pessoas que eu dignava com a denominação de amigos, e acho que minha seletividade tinha muito a ver com o fato de eu ser bastante impopular, tímido e CDF (algo que nos EUA me daria a alcunha de nerd). Dizer a mim mesmo que a amizade era uma escolha criteriosa e que os amigos eram raros era um mecanismo de defesa do ego, que me permitia me contentar com as poucas relações de afeto que eu tinha.

Mas o tempo e a experiência foram me dando mais amigos e um refinamento maior do conceito de amizade. Existem grandes amigos, bons amigos e amigos, existem amigos por afinidade de interesses, amigos por causa do convívio e amigos de projetos comuns (no entanto, quase sempre há as 3 coisas numa só relação, em diferentes dosagens).

Aqueles que considerava amigos na época descrita nos primeiros parágrafos ainda o são, e são aqueles que eu chamava de irmãos, com toda a conotação positiva, de afeto, amor, respeito e igualdade.

Han Solo e Chewbacca

Han Solo e Chewbacca representam um fraternismo leal e uma confiança tão grandes que os levam a arriscar a vida um pelo outro

Porém, de fato, meu primeiro grande amigo nesta vida foi Diego, meu irmão com quem, desde muito pequenos, projetava brincadeiras e planejava aventuras. É interessante como nossa relação se desenvolveu a partir de uma forçosa convivência, em que brinquedos e quarto de dormir eram compartilhados, passando por uma pré-adolescência (numa época em que acho que isso nem existia ainda) em que tínhamos um ao outro mais do que qualquer colega de escola (em geral, sempre estudamos na mesma escola e no mesmo horário, ele sempre uma série a menos que eu, pela diferença de 1 ano de idade).

Na adolescência, vieram livros, filmes e bandas de rock, que se tornaram objetos de conversas. Jogamos muito RPG juntos e, mesmo que tenhamos construído círculos de amizades um pouco diferentes, sempre permanecemos unidos, e meus amigos consideravam Diego um bom camarada pelo simples fato de ser meu irmão e amigo, e os amigos dele pareciam pensar o mesmo de mim.

O video game tem sido desde muito cedo uma constante em nosso fraternismo amigo, desde o Atari pré-histórico, passando pelo Master System e pelo Mega Drive, até os Playstations 2 e 3 que hoje raramente jogamos juntos. A bibliofilia também se manteve forte até hoje, sendo ainda motivo para mantermos a troca constante de leituras e ideias.

C3P0 e R2D2

Apesar das divergências e das briguinhas, esses dois droides são sempre companheiros de viagem e estão sempre preocupados com a segurança um do outro

Otávio foi meu primeiro amigo de escola, desde a 8ª série. Ele era muito diferente das outras pessoas de nossa idade e havia tais diferenças entre nós que a amizade só pode se explicar pelo conceito que apresentei no início do texto: amor e, principalmente, respeito mútuo.

Enquanto eu era tímido, retraído e calado, ele era popular e descontraído, de modo que se poderia esperar dele conviver só com pessoas “bonitas” e “descerebradas”. Mas ele não era “descerebrado”, era e é muito inteligente e criativo, e foi nisso que nos identificamos, todo o resto se tornando secundário. Até o fato de ele ser católico e eu agnóstico (foi na época em que eu estava deixando de me considerar ligado a qualquer religiosidade e esboçava um certo ateísmo) não importava.

Éramos irmãos. E nunca esqueço de uma profunda conversa que tivemos sobre Deus e o Diabo, ocasião em que nossas diferenças de pensamento reforçaram ainda mais nosso respeito mútuo, num belíssimo exemplo do binômio admiração-discordância. O que me remete, por exemplo, à relação entre Kirk, Spock e McCoy, três amigos cuja lealdade mútua não se abala por causa das profundas divergências de temperamento e caráter.

Idealizamos vários projetos, entre os quais, lembro bem, um jornalzinho chamado Pão e Circo, que tinha como símbolo uma caveira com maquiagem de palhaço e os continentes da Terra gravados na testa. Nunca saiu nem o número zero… Nossa última tentativa de criar algo interessante juntos foi o blog DM 0104, que contaria histórias sobre os povos de alguns planetas de uma constelação distante. Espero conseguir um dia construir com ele algo mais “sólido”. Ao menos, a insistência nos projetos em comum serviram para mantermos viva nossa amizade.

Continua...

Continua…

Homossexuais ainda na mira da Inquisição

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Nesta semana, foi aprovado na Câmara dos Deputados um projeto de lei que regulamenta a união estável. O ponto controverso é a exclusão das situações em que o casal é formado por dois homens ou duas mulheres. Um claro ato de homofobia que se expressa na construção das leis que devem reger este país.

A negação aos homossexuais de regularizarem sua situação conjugal foi uma intervenção do padre (e, por acaso, deputado) José Linhares (PP-CE), para cujas crenças a família é uma instituição formada basicamente por um homem e uma mulher (nesta ordem). Portanto, para ele, a Lei não deveria cobrir esses casos.

Dois marrecos machos

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