A alma dos robôs – parte 3

Padrão

Um computador pode emular uma inteligência humana de modo visivelmente artificial. Não é difícil encontrar na internet programas que simulam um interlocutor com o qual você pode travar um bate-papo mais ou menos coerente. Mas basta aprofundar ou complexificar um pouco a conversa para desmascarar o robô e fazê-lo dizer coisas sem sentido.

A inteligência das máquinas tem uma especificidade particularmente artificial. A utilidade de um computador prescinde de qualquer traço de humanidade. Um computador e um braço mecânico de uma fábrica não precisam ser nenhum pouco parecidos com um ser vivo, e talvez fosse muito perturbador para nós se não fossem explicitamente artificiais. Esse é o tema de uma história de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, em que Data descobre que tem um irmão mais velho, Lore, que fora descartado por seu criador porque era parecido demais com um ser humano.

Continue lendo

A alma dos robôs – parte 2

Padrão

Desde as histórias de estátuas que ganham vida, passando por bonecos de madeira e robôs que desenvolvem consciência e sentimentos, a fantasia da passagem do inanimado para o animado está muito presente nos mitos, na literatura e no cinema. Por que os seres humanos são fascinados por personagens robóticos que buscam se tornar humanos? O que há neles com que nos identificamos tanto?

Além disso, por que essa fantasia do robô tornado humano extrapola para histórias em que as máquinas se tornam uma ameaça à humanidade, subjugando-a e invertendo os papéis do dominante e do dominado? Porque, enfim, sentimos um misto de medo e simpatia pelos robôs revoltosos, que são apenas máquinas inanimadas que deveriam servir aos seus criadores?

Continue lendo

Errare humanum est

Padrão

Hoje teve início o uso de um equipamento eletrônico para controlar a frequência dos funcionários da instituição em que trabalho. Antes de essa ferramenta ser instalada, costumávamos assinar uma folha, preenchendo o horário de chegada e saída e deixando nossa assinatura.

Com o novo instrumento, basta que o funcionário aplique o dedo sobre uma superfície lisa que reconhece a impressão digital do polegar ou do indicador esquerdos (previamente cadastrados), no momento da chegada e na saída do trabalho, contabilizando automaticamente as horas passadas no serviço.

Quando apliquei o indicador, a máquina mostrou a mensagem “Não confere”. Ao aplicar minha outra opção, o polegar, a mesma mensagem apareceu. Outros colegas tiveram o mesmo problema, embora muitos tivessem tido suas impressões reconhecidas. Ou seja, o aparelho não funcionou.

Quando recebi a notícia de que esse equipameto começaria a funcionar na segunda-feira, dia 11 de maio, já sabia que, sendo uma máquina nova e estando seu funcionamento ainda não dominado pela admnistração do INCRA e tampouco pelos funcionários, certamente haveria algum problema no primeiro dia. A confusão em si já tinha começado havia meses, desde a notícia de que o ponto eletrônico seria implantado na superintendência.

Não sou contra a utilização de um controle eficiente do tempo prestado pelo servidor que está sendo pago para fazer seu serviço e cumprir 40 horas de trabalho semanal. É muito comum os funcionários de órgãos como este se viciarem, aproveitando o fato de terem estabilidade garantida pelo Estado, e se acostumarem a faltar constantemente ou a trabalhar apenas em um turno.

Os mais prejudicados com esse desleixo é o público, que neste caso são principalmente os trabalhadores rurais sem terra, trabalhadores rurais assentados pelo INCRA e quilombolas que demandam a regularização de suas terras. Se os funcionários não cumprem seus horários estabelecidos, como é que uma pessoa que necessita da assistência do Estado garantirá ser atendida?

Porém, esse tipo de controle só tem sentido quando não serve para simplesmente punir aqueles que desrespeitam as normas do órgão em que trabalham, dificultando assim a vida dos que cumprem seu serviço. Quando, por exemplo, o sistema de ponto eletrônico permite que o funcionário acumule horas para se ausentar do serviço numa necessidade médica ou para resolver problemas pessoais que não tem como resolver no fim de semana, ou quando possibilita que o mesmo funcionário atenda suas horas diárias com flexibilidade, chegando mais cedo para sair mais cedo, por exemplo, é uma boa.

Mas quando as regras do ponto eletrônico obrigam os servidores a chegar num determinado horário (neste caso, o intervalo possível de entrada no prédio é entre 7:30 e 8:30 pela manhã e 13:30 e 14:30 pela tarde; a saída pode ser efetuada entre 11:30 e 12:30 no primeiro turno e entre 17:30 e 18:30 no segundo) e dá poucas opções de abono e compensação de horas dispensadas no trabalho, estamos diante de uma situação de subjugação e autoritarismo.

Também é negativo confiar tão cegamente num mecanismo que, embora não seja humano, pode vir a ter falhas. Se esses erros persistirem, como ficará o controle de frequência dos funcionários? Teremos que continuar assinando uma folha de ponto até que a máquina seja reparada?

É comum na ficção científica pensar nas máquinas com inteligência artificial altamente desenvolvida como seres que atingem a perfeição mental e conseguem promover qualquer atividade sem falhas. Isso chega ao ponto de se conceber histórias nas quais as máquinas se dão conta de que os humanos são ineficientes e devem ser expurgados como se fossem uma doença.

A sonda Nomad e capitão KirkNo episódio The Changeling, da série clássica de Jornada nas Estrelas, uma sonda espacial chamada Nomad carrega como objetivo destruir toda imperfeição. Como ela considera somente as máquinas como seres de funcionamento perfeito, vaga pelo universo aniquilando toda forma de vida orgânica. É o mesmíssimo tema de Jornada nas Estrelas: O Filme, no qual a sonda Voyager 6, autorrebatizada de V’Ger, foi transformada pelos habitantes de um planeta habitado por robôs e viaja pelo universo destruindo os seres vivos. Ela considera que a nave estelar Enterprise está infestada por “unidades de carbono” (ou seja, seres vivos).

No filme Eu, Robô, o computador V.I.K.I. mata humanos que ela considera prejudiciais à humanidade, ao mesmo tempo, paradoxalmente, violando e obedecendo às Três Leis da Robótica.

Essas máquinas inteligentes se imaginam mais perfeitas do que os humanos e, num tipo de representação ideal do universo como um mecanismo perfeitamente ordenado, rejeitam qualquer tipo de ser que seja instável (que tenha emoções)  e sujeito ao erro. Mas os autores dessas histórias talvez esqueçam que as máquinas cometem erros. Quem usa Windows sabe disso.

"Um erro ocorreu a criar um aviso de erro"

Não é impossível, por exemplo, que, por um erro interno ao funcionamento de um website, este incorra numa violação do tipo 404. Até uma calculadora pode errar. Por que um robô altamente avançado não erraria? Podemos imaginar, é claro, que um conjunto de processadores ultrarrefinados no cérebro de uma máquina faça milhões de operações e inclua entre estas reparos instantâneos dos erros mais comuns. Da mesma forma que a mente humana é capaz de se corrigir quando pronunciamos uma palavra errado ou quando confundimos uma coisa com outra.

Mas, como sabemos, o paraquedas reserva não tem um sobressalente. Qualquer máquina, por mais avançada que seja, é passível de defeitos. E dificilmente aprenderá com os próprios erros, coisa que o ser humano (às vezes) faz bem.

Outra controvérsia nesse comportamento robótico é que as máquinas são feitas originalmente para servir aos seres humanos, seus criadores. Seu objetivo inicial contradiz completamente essa tendência a “destruir a imperfeição”. Para quem será o mundo livre de seres vivos? A resposta óbvia é: “para as máquinas”.

Portanto, instalar uma máquina eletrônica de controle de ponto que obrigue os funcionários a cumprir uma função mecanicamente tem como consequência fazer o servidor viver para o trabalho. Aqueles que moram longe do trabalho e/ou que tenham que pegar ônibus para se deslocar (como é meu caso) terão pouco tempo livre para viver e até para usar o dinheiro que ganham como retorno ao trabalho prestado.

Não é à toa que muitos pensam que estamos rodeados de prenúncios da Matrix?